Inteligência Ecológica
"VERDE" É UMA MIRAGEM ii
Com o com pradores individuais, estam os presos na arm adilha de fazer escolhas entre um a gam a arbitrária de opções de produtos determ inada pelas decisões de engenheiros industriais, quím icos e inventores de todas as espécies, em algum recanto distante no tem po e no espaço. Tem os a ilusão da escolha, m as som ente nos term os ditados por essas m ãos invisíveis.
Por outro lado, um a vez que podem os fazer escolhas baseadas em inform ações com pletas, ocorre um a transferência de poder do vendedor para o com prador, sej a um a m ãe no m ercado do bairro, um agente de com pras de um a em presa ou instituição, ou um gerente de conta. Tornam o-nos responsáveis por m oldar nosso destino, não m ais suas vítim as passivas. Com o sim ples ato de entrar em um a loj a, estarem os votando com nosso dinheiro.
Dessa m aneira, criarem os um a vantagem com petitiva inteiram ente nova para as em presas que oferecerem os tipos de produtos de que nosso futuro coletivo necessita. Essas escolhas bem fundam entadas m oldarão novas exigências para os engenheiros, quím icos e inventores atuais. Eu diria que essa força de m ercado im pulsionará a dem anda de um a onda de inovações, sendo cada um a delas um a oportunidade para os em preendedores. Assim , o aperfeiçoam ento de nossa inteligência cultural estim ulará um boom que m udará, para m elhor, os processos industriais usados para produzir tudo aquilo que com pram os. O choque global da elevação dos preços do petróleo cria sinergia com a busca de aperfeiçoam entos ecológicos, alterando radicalm ente as equações de custo e aum entando a urgência de se encontrarem alternativas vantaj osas.
À m edida que o controle dos dados é transferido das m ãos dos vendedores para as m ãos dos com pradores, as em presas deveriam se preparar com antecedência para essa m udança no m ar de inform ações.
A regra geral dom inante nas em presas no últim o século - quanto m ais barato, m elhor - vem sendo substituída pelo novo m antra para o sucesso: quanto m ais sustentável, m elhor; quanto m ais saudável, m elhor; e, quanto m ais hum ano, m elhor.
Agora, poderem os saber com m ais precisão com o im plem entar esse m antra.
O Vissudhim agga, texto indiano do século V, propõe o seguinte enigm a: "Onde, exatam ente, fica aquilo que cham am os de 'carruagem '? Nos eixos, nas rodas, na estrutura? Ou seria nas hastes que a conectam ao cavalo?"'
Resposta: Em parte algum a. O que cham am os de "carruagem " referese ao arranj o tem porário de suas partes com ponentes. É um a ilusão.
O antigo texto indiano lança m ão desse insight para ilustrar a natureza elusiva do self, que não reside em nossa m em ória nem em nossos pensam entos, percepções, sensações ou ações, um a análise que previu, 500 anos antes, a desconstrução do self na filosofia m oderna. Entretanto, esse insight se aplica tam bém tanto a um Gam e Boy quanto a um liquidificador, ou a qualquer produto m anufaturado. Esses produtos são com postos por inúm eras partes e pelos processos por m eio dos quais são produzidos.
A versão da desconstrução das coisas pelo engenheiro industrial é conhecida com o Análise do Ciclo de Vida, ou ACV, m étodo que nos perm i te desm em brar sistem aticam ente qualquer bem m anufaturado em suas partes com ponentes e processos industriais subsidiários, e m edir com precisão quase cirúrgica seus im pactos sobre a natureza desde o início da produção até sua elim inação.
A Análise do Ciclo de Vida teve um início prosaico; um dos prim eiros estudos foi encom endado pela Coca-Cola, nos idos da década de 1960, com o obj etivo de determ inar os m éritos relativos das garrafas PET e de vidro e quantificar os benefícios da reciclagem . Aos poucos, o m étodo foi sendo aplicado a outras questões industriais; hoj e, um núm ero cada vez m aior de em presas de atuação nacional e internacional utiliza o m étodo em algum m om ento para fazer escolhas no design ou na m anufatura do produto; m uitos governos tam bém o utilizam para regular esses setores.
A Análise do Ciclo de Vida foi criada por um a confederação indefinida de físicos e engenheiros quím icos e industriais que docum entavam os detalhes dos processos de m anufatura -quais são os m ateriais usados, quanta energia se gasta, que tipo de poluição e de toxinas é gerado e em que quantidade - em cada unidade básica de um a longa cadeia. O antigo texto indiano que propõe o enigm a da carruagem lista alguns com ponentes; hoj e, a ACV de um autom óvel Mini Cooper é desm em brada em m ilhares de com ponentes - por exem plo, os m ódulos eletrônicos que regulam o sistem a elétrico do carro. Esses m ódulos eletrônicos são desconstruídos - com o a carruagem , em suas principais partes - e desm em brados em partes com o circuito elétrico, vários cabos, plásticos e m etais; a cadeia que leva a cada um a delas, por sua vez, conduz a um a trilha de extração, m anufatura, transporte e assim por diante. Esses m ódulos controlam sistem as eletrônicos, regulam a ventoinha do radiador, os faróis, a ignição e o m otor - e, em cada um a dessas partes, por sua vez, a análise pode incluir m ilhares de processos industriais distintos. Ao todo, a ACV do pequeno autom óvel envolve centenas de m ilhares de unidades diferentes.
Quem m e guiou nessa área foi Gregory Norris, ecologista industrial da Harvard School of Public Health. Form ado em engenharia m ecânica pelo MIT e em engenharia aeroespacial pela Purdue University , e tendo trabalhado com o engenheiro na Força Aérea dos Estados Unidos durante vários anos, aj udando a construir m elhores estruturas espaciais, Norris tem um currículo im pecável. Mas é o prim eiro a adm itir: "Você não precisa ser cientista de foguetes - eu sei, fui um deles - para realizar a ACV. A Análise do Ciclo de Vida é basicam ente m onitoram ento de dados."
Essa análise m eticulosa gera m étricas referentes aos im pactos prej udiciais do Ciclo de Vida do autom óvel - da m anufatura ao carro sucateado - em relação a fatores com o m atéria-prim a consum ida; energia e água gastas; ozônio fotoquím ico gerado; contribuição para o aquecim ento global; toxicidade do ar e da água; e produção de dej etos perigosos - para citar apenas alguns.2 A Análise do Ciclo de Vida revela que, em term os de aquecim ento global, por exem plo, nada no autom óvel, da m anufatura ao sucateam ento, se com para às em issões geradas durante sua utilização.
Outra m etáfora adequada da natureza dos processos industriais vem de um tratado chinês do século VIII que descreve um a rede sobrenatural pertencente ao deus Indra.3 O texto nos diz que, no céu habitado pelo deus Indra, existe um a rede m ilagrosa que se estende em todas as direções. Nessa rede, há j oias m agníficas, m aravilhosam ente polidas e infinitam ente facetadas que refletem , em cada um a de suas facetas, todas as facetas de todas as outras j oias da rede, form ando um a rede infinita de interconexão.
A rede de Indra nos oferece um a im agem útil das infindáveis interconexões existentes dentro e entre os sistem as da natureza, bem com o nos sistem as gerados pelo hom em , com o a cadeia de suprim entos. Quando Morris m e apresentou a Análise do Ciclo de Vida dos potes de vidro - com o os vidros de geleias e de m olho de tom ate -, vi-m e em um labirinto de elos interdependentes em um a cadeia aparentem ente interm inável de dem andas de m aterial, transporte e energia. A produção dos vidros de geleia (ou qualquer coisa acondicionada em recipientes de vidro) exige a utilização de dezenas de fornecedores - inclusive areia de sílica, soda cáus-tica, calcário e várias substâncias quím icas inorgânicas, por exem plo -, bem com o os serviços de fornecedores de com bustíveis com o gás natural e eletricidade. Cada um desses fornecedores com pra de outros ou utiliza dezenas de fornecedores próprios.
Os aspectos básicos da produção do vidro m udaram m uito pouco desde a época da Rom a Antiga. Hoj e, fornalhas abastecidas a gás natural queim am a m ais de 1.000°C durante 24 horas por dia para transform ar a areia em vidro a ser utilizado na construção de vidraças, recipientes e até do m onitor de seu telefone celular. Mas a coisa não para por aí. Um gráfico m ostrando os 13 processos m ais im portantes em pregados na produção de potes de vidro revelou um sistem a que agrupa 1.959 processos distintos. Cada um desses processos ao longo da cadeia, em si, representa um agregado de inúm eros processos subsidiários, que resultam de centenas de outros, no que parece ser um a regressão infinita.
Pedi a Norris que m e explicasse m ais detalhadam ente o processo. "Por exem plo, vam os m onitorar a produção da soda cáustica. Para tanto, é preciso usar cloreto de sódio, calcário, am ônia líquida, diversos com bustíveis e eletricidade, bem com o transportar a m atéria-prim a até o local de produção. A produção de cloreto de sódio, por sua vez, envolve a utilização de água, além da utilização de m atéria-prim a, equipam ento, energia e transporte."
Com o "tudo está conectado a tudo", afirm a Norris, "precisam os raciocinar de m aneira diferente". Outro insight: a cadeia de suprim entos de um recipiente de vidro pode ser com posta de elos aparentem ente infinitos, m as todos eles se ligam aos elos anteriores. Norris explicou: "Se você for além do total de 1.959 elos na cadeia de suprim entos do recipiente de vidro, vai com eçar a entrar em um loop - a cadeia continua eternam ente, em bora assim ptoticam ente."
Norris deu um exem plo sim ples desses loops. "A produção de aço requer o uso de eletricidade, e o aço é necessário para produzir e m anter um a usina de energia elétrica em funcionam ento", explicou. "Poderíam os dizer que a cadeia continua eternam ente - m as é verdade tam bém que os im pactos adicionais dos processos a m ontante tornam -se cada vez m enores à m edida que aum entam os cada vez m ais o alcance de seu m onitoram ento."
A versão industrial da rede de Indra encontra seu lim ite em algo com o a serpente m ítica Oroboro, que devora a própria cauda. Esse m onstro devorador da própria cauda sim boliza ciclos repetitivos ou a renovação, algo que se repete e se reinventa constantem ente.4
No processo industrial, a serpente tam bém pode sim bolizar um ideal detalhado no conceito de "do berço ao berço", a noção de que tudo o que é usado em determ inado produto deveria ser concebido de m aneira tal que, quando fosse descartado, se biodegradasse, gerando com ponentes que a natureza poderia reutilizar, ou transform ando-se em um nutriente que poderia ser reciclado e transform ado em outros produtos. Isso contrasta com o atual conceito de "do berço ao túm ulo", em que os ingredientes de um item descartado sim plesm ente são transportados para os aterros sanitários, liberando toxinas ou criando pesadelos m oleculares e outros m ais.
Essas im agens - a carruagem , a rede do deus Indra e a serpente Oroboro - m e vieram à m ente durante m inha reunião virtual com Gregory Norris, na qual conversávam os pelo telefone enquanto a tela de m eu com putador em Massachusetts exibia o conteúdo da tela de seu com putador no Maine. Pela ótica da Análise do Ciclo de Vida, todos os quase dois m il elos da cadeia de suprim entos do recipiente de vidro transm item inform ações im portantíssim as sobre seu im pacto na saúde hum ana, nos ecossistem as, na m udança clim ática e na depleção de recursos.
A produção de um recipiente de vidro exige o uso de centenas de substâncias em algum ponto a m ontante na cadeia de suprim entos - e cada um a delas tem um perfil de im pacto próprio. Ao longo desse processo, cerca de 100 substâncias são lançadas na água e 50 e poucas no solo. Entre os 200 tipos diferentes de em issões atm osféricas, por exem plo, a soda cáustica em um a fábrica de vidro é responsável por 3% dos possíveis danos à saúde do recipiente e por 6% de seus riscos aos ecossistem as.
Outra am eaça ao ecossistem a, responsável por 16% do im pacto negativo da produção do vidro, resulta da energia necessária para alim entar a fornalha. Vinte por cento dos im pactos negativos para a m udança clim ática, especificam ente, são atribuídos à geração da eletricidade para alim entar a fábrica que produz o vidro. De m odo geral, m etade das em issões geradas na produção de um recipiente de vidro que contribuem para o aquecim ento global ocorre na fábrica de vidro; a outra m etade ocorre em outras partes da cadeia de suprim entos. A lista de substâncias quím icas lançadas na atm osfera pela fábrica de vidro vai do dióxido de carbono e dióxidos de nitrogênio, em níveis relativam ente altos, a quantidades m ínim as de m etais pesados com o cádm io e chum bo.
Quando analisam os a lista de m ateriais necessários para produzir 1kg de um recipiente de vidro, tem os um a lista de 659 ingredientes diferentes usados em várias etapas da produção. Eles variam de crom o, prata e ouro a substâncias quím icas exóticas, com o criptônio e ácido isociânico, passando por oito diferentes estruturas m oleculares de etano. Os detalhes são im pressionantes. "Por isso, usam os a avaliação dos im pactos, que nos perm ite resum ir tudo isso e gerar indicadores bastante inform ativos", afirm a Norris. Por exem plo, se você quiser saber quais são os carcinógenos envolvidos na fabricação do vidro, a Análise do Ciclo de Vida lhe dirá que os m aiores vilões são os hidrocarbonos arom áticos, sendo que, dentre eles, os m ais conhecidos são os COVs, os com postos orgânicos voláteis que tornam o cheiro da tinta fresca ou da cortina de vinil para chuveiro m otivo de preocupação. No caso da produção de vidro, esses com postos são responsáveis por cerca de 70% do im pacto do processo sobre o câncer.
Entretanto, esses com postos não são gerados diretam ente na fábrica em que o vidro é produzido; todos eles estão em algum a outra parte da cadeia de suprim entos. Cada um a das unidades da Análise do Ciclo de Vida do recipiente de vidro oferece um ponto no qual é possível realizar a análise dos im pactos. Um exam e detalhado da Análise do Ciclo de Vida revela que 8% dos im pactos sobre o câncer provêm da liberação dos com postos orgânicos voláteis associados à construção e à m anutenção da fábrica, 16% da produção do gás natural que a fábrica utiliza com o com bustível para suas fornalhas e 31% da produção de HDPE, polietileno de alta densidade, usado no plástico onde são acondicionadas as em balagens de vidro para posterior expedição.
Será que isso significa que devem os parar de usar recipientes de vidro para arm azenar os alim entos? Claro que não. O vidro, ao contrário de alguns tipos de plástico, não contam ina os fluídos com substâncias quím icas questionáveis, além de ser indefinidam ente reciclável.
No entanto, à m edida que Norris m e foi apresentando alguns aspectos im portantes da Análise do Ciclo de Vida do recipiente de vidro, um a pergunta m e passou pela cabeça: tudo isso para um recipiente de vidro que é 60% reciclado?
Perguntei a Norris exatam ente o que se ganhava com esses 60% reciclados. Em prim eiro lugar, respondeu, a quantidade de vidro novo substituída pelo produto reciclado poupa m ais ou m enos essa proporção de peso em term os de m atéria-prim a extraída, processada e transportada. "Obviam ente, continua sendo necessário processar e transportar o vidro após a utilização pelo consum idor, m as o im pacto líquido da reciclagem do vidro continua sendo benéfico", garantiu-m e ele, acrescentando um exem plo: "Cada 28% de conteúdo reciclado econom iza quase 2.000 litros de água por tonelada de vidro produzido e evita a em issão de 9kg de CO2 na atm osfera."
Entretanto, apesar da reciclagem , todos os outros im pactos continuam existindo. Isso transform a nossa noção de "verde" de um j ulgam ento aparente binário - verde ou não verde -em um a arena m ais sofisticada de distinções sutis, em que cada um a delas m ostra im pactos m elhores ou piores ao longo de inúm eras dim ensões. Nunca antes dispusem os da m etodologia necessária para m onitorar, organizar e exibir as com plexas inter-relações entre todas as etapas, da extração e m anufatura de bens à sua elim inação, passando por seu uso - e resum ir a im portância de cada um a dessas etapas para os ecossistem as, sej a o m eio em que vivem os ou nosso organism o.
Sob essa ótica, considere as bolsas que a designer de m oda britânica Any a Hindm arch produziu em tiragem lim itada (20 m il unidades). Any a Hindm arch inspirou-se a criar um a bolsa ecologicam ente correta com os seguintes dizeres: "I'm not a plastic bag" ao ser procurada por um a instituição de caridade cham ada We Are What We Do. Ela, então, decidiu usar sua plataform a de m oda para conscientizar o público a se negar a usar as sacolas plásticas oferecidas pelas loj as? Foi exatam ente o que aconteceu.
As bolsas foram vendidas por US$15 em superm ercados, e não nas caras butiques em que as bolsas da designer norm alm ente podem ser .6 Com pradores ansiosos form aram filas nas portas das loj as espalhadas pela Inglaterra desde as duas da m anhã - às nove da m anhã, não restava m ais um único exem plar. Quando, m ais tarde, foram vendidas nos m ercados Whole Foods, no Colum bus Circle, em Manhattan, esgotaram em 30 m inutos. Quando foram colocadas à venda em Hong Kong e Taiwan, os com pradores saíram m achucados e pisoteados, obrigando o cancelam ento de seu lançam ento em Pequim e em várias outras cidades. Na Inglaterra, as bolsas foram repetidam ente m encionadas em discussões de âm bito nacional sobre padrões de reciclagem .
A bolsa ecochique de Any a sugere o papel dos hábitos e produtos inteligentes com o estím ulo à m udança de estilo. E realm ente precisam os m udar. Essas sacolas plásticas com as quais saím os carregados das loj as são um desastre ecológico. Som ente nos Estados Unidos são utilizados 88 bilhões de sacos plásticos por ano; seus parentes voam no vento em São Paulo e em Nova Delhi, ficam presos nos arbustos, obstruem bueiros e m atam anim ais que os com em ou são asfixiados por eles. E o pior: levam cerca de 500 a 1.000 anos para se decom por na natureza.
Não que as sacolas de papel sej am necessariam ente m elhores. A Agência de Proteção Am biental dos Estados Unidos calcula que a produção de sacos de papel utilize m ais energia e polua m ais a água do que a dos sacos plásticos. Existem prós e contras em am bos os lados no debate sobre o uso de sacolas de papel versus sacos plásticos. Esses últim os, por exem plo, são 100% recicláveis - em bora, na verdade, nos Estados Unidos som ente um em cada 100 sej a reciclado.
Um dos estudos pioneiros da Análise do Ciclo de Vida, publicado pela revista Science em 1991, foi um a análise dos m éritos do papel versus plástico com o ingrediente dos copos para líquidos quentes que destacava as com plexidades dessas com parações.7 A produção de um copo de papel consom e 33g de m adeira, enquanto a de um copo de poliestireno utiliza cerca de 4g de óleo com bustível ou gás natural; am bos utilizam um a am pla gam a de substâncias quím icas (a análise não incluiu o im pacto sobre a saúde). A produção de um a xícara de papel consom e 36 vezes m ais eletricidade do que a do copo de plástico e 580 vezes o volum e de água residual, que contém algum tipo de substância contam inante, com o cloro; por outro lado, a produção de copos de plástico produz pentano, gás que eleva os níveis de ozônio e de outros gases de efeito estufa. Porém , existem tam bém as em issões de m etano geradas pelas xícaras de papel deixadas em aterros sanitários para serem biodegradadas. Quando a análise deixa de focar os im pactos sobre o m eio am biente e se concentra no im pacto sobre a saúde hum ana, a m atem ática torna-se ainda m ais com plexa.
Entretanto, a resposta inteligente para o dilem a entre o uso de sacolas de papel ou sacos plásticos é: "Nenhum a das opções acim a, eu trouxe m inha própria sacola." Essa j á é um a prática padrão em m uitas partes do m undo, onde os clientes têm de pagar pelas sacolas às loj as ou levar as suas próprias: a prática vem se dissem inando nas loj as dos Estados Unidos. Mas a Análise do Ciclo de Vida levanta um a questão: quais são os im pactos dessa sacola virtuosa?
A em presa de Hindm arch esforçou-se ao m áxim o na produção das sacolas ecologicam ente corretas: sua produção era realizada em fábricas que com provadam ente ofereciam salários j ustos e não utilizavam m ão de obra infantil, a em presa com prava créditos de carbono para com pensar os im pactos da m anufatura e do transporte e as sacolas eram vendidas a preço de custo. Hindm arch chegou até a tentar usar algodão adquirido diretam ente de pequenos produtores, m as, com o não conseguia m atéria-prim a em quantidade suficiente, contentou-se em usar algodão orgânico.
No entanto, é preciso perguntar o que a Análise do Ciclo de Vida dessa sacola exem plar poderia revelar sobre todos os danos que ela causa ao m eio am biente - e, assim , todas as m aneiras com o poderia se tornar ainda m ais virtuosa.
"VERDE" NÃO É O QUE PARECE
A bolsa de tecido criada por Hindm arch exibe o slogan "I'm NOT a Plastic Bag" ("Não sou um saco plástico"), um a brincadeira sobre a pintura de 1929 do surrealista belga René Magritte m ostrando um cano abaixo do qual havia as palavras Ceci n'est pas une pipe ("Isso não é um cano"). O título da pintura, The Trash of Im age [o lixo da im agem ] enfatiza a opinião de Magritte de que a im agem não é a coisa e que as coisas não são o que parecem .
Outro dia, com prei um a cam iseta que estava em destaque na vitrine de um a loj a. Dizia a etiqueta: "100% algodão orgânico: faz um m undo de diferença."
A alegação está, ao m esm o tem po, certa e errada.
Prim eiro, vej am os o que está certo: o benefício da não utilização de pesticidas no cultivo do algodão.,' As plantações de algodão, em si, são responsáveis por cerca de 10% da utilização de pesticidas do m undo. Para preparar o solo de m odo que os frágeis pés de algodão possam crescer, os agricultores pulverizam no solo organosfosfatos (cuj o uso foi associado a danos no sistem a nervoso central hum ano), que m atam qualquer planta que possa com petir com o algodão ou qualquer inseto que se atreva a com ê-lo.
Quando o solo é tratado com pesticidas, as m inhocas só voltam a aparecer depois de cinco
anos, que é um a etapa vital para a recuperação da saúde do solo. Em seguida, há o paraquat* pulverizado sobre o algodão pouco antes da colheita. Cerca de m etade desse agente desfoliante m uitas vezes não cai sobre o algodão, e acaba nos riachos e cam pos próxim os. Devido aos danos causados pelos pesticidas, há poucas dúvidas quanto aos benefícios am bientais intrínsecos do algodão orgânico - até o m om ento.
Em seguida, há as desvantagens. Por exem plo, o algodão tem um a sede extraordinária. Utilizam -se 10 m il litros de água para cultivar o algodão necessário à confecção de um a única cam iseta; o Mar de Aral evaporou, transform ando-se em deserto, em grande parte devido às dem andas de irrigação das plantações de algodão da região. O m ero cultivo do solo tem im pactos no ecossistem a, liberando dióxido de carbono.
A cam iseta orgânica que com prei era tingida de azul-escuro. O fio de algodão é alvej ado e depois tingido, e o toque final fica por conta de substâncias quím icas industriais, entre elas crom o, cloro e form aldeído, todas elas tóxicas. E o que é pior: o algodão resiste à absorção da tinta, sendo que grande parte acaba sendo levada pela água residual do processo industrial, que pode acabar nos rios e lençóis freáticos locais. Algum as tintas têxteis usadas com um ente abrigam carcinógenos - há m uito os epidem iologistas sabem que a incidência de leucem ia entre os operários de fábricas de tingim ento é incom um ente alta.
A etiqueta de m inha cam iseta é um exem plo de "greenwashing", a exibição seletiva de um ou dois atributos virtuosos de um produtos cuj o obj etivo é conferir benefícios à coisa com o um todo. Um a análise m ais detalhada dos im pactos ocultos revela inúm eras form as nas quais talvez não haj a nada de verde, afinal, na cam iseta. Em bora a tentativa de produzir um a cam iseta verde sej a louvável, quando os im pactos adversos de um produto perm anecem ocultos, a parte "orgânica", na m elhor das hipóteses, é o prim eiro passo rum o a um a em presa que pretende se tornar m ais socialm ente responsável ou sustentável; na pior das hipóteses, representa um a m anobra de m ercado.
Quando a Dunkin' Donuts, cadeia de fast-food, anunciou que seus donuts, croissants, m uffins e cookies passariam a ser produzidos totalm ente "sem gordura trans", a em presa se j untou a outros grandes j ogadores do setor na tentativa de tornar seus produtos m ais saudáveis. No entanto, o detalhe aqui está na expressão um pouco: todos esses produtos livres de gordura trans continuam sendo um a m istura pouco saudável de gordura, açúcar e farinha branca. Quando os nutricionistas analisaram os ingredientes presentes em dezenas de m ilhares de produtos de superm ercado, encontraram - o que não é surpresa algum a - um grande núm ero de alim entos que estavam sendo com ercializados com o opções "saudáveis", m as que, na realidade, não o eram .9
Do ponto de vista do m arketing, cham ar atenção para o algodão orgânico em um a cam iseta ou para a ausência de gorduras trans em um donut atribui ao produto um a aura de virtude. Os anunciantes, obvia m ente, elogiam um a ou duas qualidades positivas de um produto para aum entar seu apelo no m ercado. Essa sem pre foi a prática padrão.
No entanto, a prática desvia o foco dos com pradores de quaisquer aspectos negativos que um produto ainda possa ter. O tingim ento das cam isetas continua sendo tão perigoso quanto sem pre foi, assim com o os donuts "sem gordura trans" continuam contendo gorduras e açúcares que elevam alucinadam ente os níveis de insulina no sangue. Entretanto, enquanto m antiverm os o foco naquela fina fatia de virtude na cam iseta ou no donut, poderem os com prá-los e ficar satisfeitos com a escolha feita.
Desse m odo, o greenwashing cria sim plesm ente a ilusão de que estam os com prando algo virtuoso. Tais produtos têm o aspecto de verde, m as, na verdade, seus m éritos ecológicos são apenas aparentes.
Cada pequeno passo rum o aos produtos verdes aj uda - quanto a isso, não há dúvida. Mas a m oda dos produtos "verdes" representa um a etapa de transição, o início da consciência do im pacto ecológico, ainda que sem precisão, profundidade de com preensão e clareza. Na realidade, grande parte do que é rotulado de "verde" representa fantasia ou sim plesm ente m odism o. Já se foi o tem po em que um a ou duas qualidades de um produto o qualificavam com o verde. Considerar um produto verde com base em um só atributo - e ignorar diversos im pactos negativos - é m era ilusão.
A cam iseta "quase verde" não é a única; considere o estudo de 1.753 alegações am bientais realizadas para m ais de m il produtos diferentes oferecidos por grandes cadeias de varej o.10 Algum as m arcas de papel, por exem plo, concentram -se em um conj unto lim itado de características - com o ter parte do conteúdo de fibras recicladas ou utilizar processos de claream ento que não utilizam cloro -, m as ignoram outras questões am bientais im portantes das fábricas de papel, com o a procedência da polpa (se vem de florestas sustentáveis) ou se a enorm e quantidade de água usada é devidam ente purificada antes de ser despej ada em um rio. Há tam bém a im pressora cuj o m anual prom ete ser eficiente em term os de energia, m as que ignora seu im pacto na qualidade do ar em am bientes fechados, ou sua incom patibilidade com cartuchos de tinta reciclados ou m esm o com papel reciclado. Em outras palavras, trata-se de produtos que não foram desenvolvidos para ser verdes do berço ao túm ulo e que abordam apenas um aspecto do problem a.
Não há dúvida de que existem produtos, m ateriais de construção e fontes de energia relativam ente virtuosos. Podem os com prar detergente sem fosfato, instalar carpetes que liberem m enos toxinas ou revestim entos de bam bu sustentável ou usar energia cólica, solar ou de outras fontes renováveis. E tudo isso pode nos levar a acreditar ter tom ado um a decisão virtuosa.
Entretanto, essas escolhas verdes, por m ais úteis que sej am , m uitas vezes nos levam a ignorar que aquilo que hoj e vem os com o "verde" é apenas um com eço, um a fatia pequena de benefícios entre os inúm eros im pactos negativos de todos os obj etos m anufaturados. Os padrões que hoj e definem um produto "verde" am anhã serão considerados ecom iopia.
"Pouquíssim os produtos verdes passaram por um a avaliação sistem ática que nos perm itisse identificar quais são os verdadeiros benefícios proporcionados por eles", afirm a Gregory Norris. "Prim eiro, é preciso realizar um a Análise do Ciclo de Vida, e isso é raro." Talvez m ilhares de produtos j á tenham sido subm etidos a essas rigorosas avaliações de im pacto, acrescenta, "m as isso representa apenas um a pequena fração - m ilhões de produtos são com ercializados. Além disso, os consum idores não percebem as interconexões existentes entre os processos industriais", m uito m enos suas inúm eras consequências.
"Os padrões estabelecidos para os produtos verdes são m uito baixos", conclui Norris. Nossa atual fixação em um a única dim ensão de "verde" ignora os inúm eros im pactos adversos que obscurecem até os itens aparentem ente m ais virtuosos. Com o m ostra a Análise do Ciclo de Vida de qualquer coisa, praticam ente todos os bens m anufaturados estão associados pelo m enos a quantidades m ínim as de toxinas am bientais, de um tipo ou outro, em algum a parte dos vários recessos da cadeia de suprim entos industrial. Tudo que é produzido tem inúm eras consequências; concentrar-se em um problem a isoladam ente negligencia todas as outras consequências.
Um editor (não o m eu) queria produzir livros m ais "verdes". Encontrou um papel que havia sido branqueado por um m étodo de oxigenação ecoam igável, que não utilizava toneladas de cloro, e com prou créditos de carbono - investim entos em usinas de energia cólica localizadas em reservas indígenas nos Estados Unidos - para com pensar a energia usada na produção do livro. Porém , havia outros obstáculos. "A tinta foi um dos m aiores problem as", contou-m e. "A tinta usada para im prim ir livros havia sido produzida com substâncias sintéticas, que são tóxicas. Quando term ina um a fase de produção ou da im pressão de um livro, os im pressores precisam lavar os cilindros; eles sim plesm ente costum avam lavar a tinta que ficava nos cilindros no escoam ento de água da gráfica. Hoj e, eles tentam detectar o excesso de tinta. Se a tinta for à base de água, é fácil - m as, se for à base de óleo, eles precisam lavar os cilindros com solvente, m uitos dos quais tam bém são tóxicos. A tinta de soj a tornou-se m oda com o alternativa verde, m as, na verdade, a tinta de 'soj a' contém apenas 8% a 10% de soj a; o restante é tão poluente quanto qualquer outro tipo de tinta. Tentei usar tinta de soj a, m as preciso im prim ir im agens em quatro cores e apenas três das tintas atendiam ao padrão - a quarta ficava aquém da exigência de padrão de 8% de soj a. Assim , não pude alegar que o processo de produção do livro era verde."
De fato, nada do que é produzido por indústrias pode ser totalm ente verde; apenas relativam ente.
A rede do deus Indra nos faz lem brar que todo processo de m anufatura tem im pactos adversos sobre os sistem as naturais ao longo do cam inho. Com o adm itiu um ecologista industrial: "O term o "ecoam igável" nunca deveria ser usado. Todos os produtos industrializados são apenas relativam ente ecoam igáveis."
Esse lado obscuro da indústria vem sendo negligenciado na cadeia de valor, que avalia de que m aneira cada etapa da vida do produto - da extração de m ateriais e m anufatura à distribuição -agrega valor a ele. Entretanto, a noção de cadeia de valor não considera um a parte crucial da equação: em bora m onitore o valor agregado em cada etapa, ignora o valor subtraído pelos im pactos negativos. Visto pela ótica da Análise do Ciclo de Vida, essa m esm a cadeia m onitora os im pactos ecológicos de um produto m odificando seu im pacto negativo sobre o m eio am biente e sobre a saúde pública em cada elo. Essa j anela sobre o rastro ecológico negativo de um produto ou de um a em presa poderia ser cham ada de "cadeia de desvalor."