Jacinta Passos, coração militante
Biografia de Jacinta Passos: canção da liberdade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
pressão policial tomou um caráter nacional contra o congresso.
Vou mandar um boletim na capa do qual saiu uma fotografia
sua, com o João, que achei muito expressiva; vou colocar no
correio dentro do meu livro; devem ter seguido dois outros
exemplares do livro pelo correio comum, posto pela Editora da
Casa do Estudante, que foi quem editou (um exemplar para
vocês e outro para Neruda). Tenho um exemplar do livro de
Jorge, mas não posso mandar, porque comprei por 100 para
vender por 500, negócio de finanças.101
James está escrevendo um romance que é a história da luta
dos posseiros do Porto Paraguassu, acontecida em 36, no sul
da Bahia. Hoje à tarde foi absolvida E. Branco, no S. Tribunal,
dois votos contra dois, e o juiz desempatou a favor.102 Vitória do
movimento de massas para libertá-la.
Você já está com saudades do seu filho, sem poder revê-lo.103
Ele lhe escreve? Vi sua irmã uma vez em casa de d. Eulália.
Bem, disponha de mim quanto é possível a esta distância,
beijos de Jana para João e Paloma, abraços para você e Jorge.
Jacinta
O IV Congresso Brasileiro de Escritores, em Porto Alegre, ao qual Jacinta compareceu, foi muito tenso. Rompera-se a frente ampla de intelectuais brasileiros selada em 1945, durante o I Congresso, em torno da liberdade de expressão e do incentivo governamental a políticas culturais. Desde o II Congresso, em 1947, principalmente desde as eleições de 1949 para a direção da Associação Brasileira de Escritores (ABE), intelectuais comunistas e não comunistas divergiram profundamente entre si, inclusive com agressões físicas, os últimos acusando os primeiros de partidarizarem a agremiação. Os comunistas haviam conseguido o controle da ABE, mas viram afastar-se dela intelectuais muito expressivos, como Antonio Cândido, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Manuel Bandeira e Sérgio Buarque de Holanda.
No Congresso de Porto Alegre, as divergências aconteceram não apenas entre intelectuais comunistas e não comunistas, mas entre os próprios comunistas. Um grupo de escritores, entre os quais James, redigiu um documento final para o Congresso, que não foi aceito pela direção do PCB. Esta impôs um texto mais afinado com as normas do realismo socialista, a corrente estética implantada pela URSS, que defendia a realização de uma arte sempre a serviço dos ideais do partido e da ditadura do proletariado.
* * *
Pouco mais de um mês após retornar de Porto Alegre, Jacinta sofreu uma séria crise nervosa no Rio de Janeiro, em seu apartamento. Junto com ela estavam o marido, a filha e Tomásia Ribeiro de Queirós, a Mazi, empregada dos Passos em Salvador, enviada ao Rio para tomar conta de Janaína, enquanto o casal viajava para o sul.
James lembra-se: havia alguns dias, Jacinta mostrava-se particularmente ansiosa e irritada. De repente, numa atitude que não lhe era habitual, sem razão aparente, expulsou de casa, aos berros, o amigo e escritor Dalcídio Jurandir, que visitava o casal. Em seguida, muito nervosa, agitada e assustada, trancou todas as portas e janelas do apartamento, afirmando que a polícia estava do lado de fora, pronta para invadir a residência e prendê-la. Nenhum argumento a demoveu dessa ideia. Ao contrário, com o passar das horas mostrou-se cada vez mais convencida da presença dos policiais. Aterrorizada, gritava, debatia-se e agredia fisicamente o marido e Tomásia. Mostrando força física incomum, impedia os dois de atenderem ao telefone e de saírem. Gritava coisas incompreensíveis, como se em delírio. Não dormiu. Manteve esse comportamento até o dia seguinte, quando um amigo do casal, que fora visitá-los, conseguiu entrar no apartamento e ajudar James a
levá-la ao médico.104
Atendida pelo psiquiatra Isaías Paim, Jacinta foi internada na pequena clínica de propriedade do médico, em Botafogo, onde foi diagnosticada como portadora de esquizofrenia paranoide, então considerada uma doença progressiva e irrecuperável, para a qual
não existiam medicamentos nem terapias específicas. 105 Durante essa internação e as seguintes, Jacinta foi tratada à base de eletrochoques, injeções de insulina e barbitúricos, procedimentos muito empregados à época, com o objetivo de manter os pacientes calmos. A violência do tratamento na verdade deixava os pacientes completamente atordoados, catatônicos, sem possibilidade de
reação. 106
James relembra:
Jacinta ficou internada nessa clinica durante quatro meses e
meio. Por ordem médica, permaneci o tempo todo ao lado dela,
no mesmo quarto. Nessa época praticamente não trabalhei. Foi
uma tortura, para ela e para mim. Assisti Jacinta tomar trinta e
sete choques elétricos. Quando entrava em crise, ela se
agitava, debatia muito os braços, e gritava, apavorada: 'Estão
entrando, eles estão entrando! Vão prender Prestes, vão
prender, estão prendendo Prestes, vão matar Prestes!'107
Jacinta acabara de fazer 37 anos de idade. James tinha 29.
Como lembrou o historiador e amigo do casal, Luís Henrique Dias Tavares, a história de Jacinta Passos não pode ser dissociada da
história da repressão no Brasil. 108 As crises de Jacinta, nesta e em outras ocasiões, tiveram como centro perseguições políticas. Suas alucinações expressaram cercos, agressões, torturas e assassinatos praticados pela repressão, contra ela e contra Luiz Carlos Prestes.
* * *
Como a mulher não melhorasse, James procurou outras opiniões médicas. A dra. Eline Mochel transferiu Jacinta para uma clínica, uma "casa de repouso", como se dizia à época, situada na Ilha do Governador, pertencente ao psiquiatra Francisco Sá Pires, que atendia militantes do PCB. Esse médico desaconselhou a presença de James ao lado de Jacinta, argumentando que a figura dele fazia parte dos delírios dela. A partir de então, Jacinta ficou internada
sozinha, recebendo visitas da família. 109
A filha de Jacinta recorda-se de, em 21 de abril de 1952, dia do seu quinto aniversário, ter visitado a mãe. Lembranças suas:
Acho que foi a primeira vez em que visitei minha mãe no
sanatório. Eu estava orgulhosa dos meus 5 anos, e ansiosa
para vê-la, pois sentia muita falta dela. Mas, no corredor do
sanatório, me assustei. Vi uma fileira de portas pintadas de
branco, cada uma com uma janela no meio, com grades; pelas
frestas das grades, enxerguei mãos se contorcendo, e ouvi
gritos muito altos, que vinham do lado de dentro das portas.
Isso tudo me apavorou, e eu agarrei com força a mão de meu
pai. Até hoje posso nos ver de mãos dadas, caminhando por
aquele corredor.
Mamãe estava deitada numa cama alta, dentro de um quarto
que me pareceu grande. Ao me ver, ficou muito alegre, sorriu,
me abraçou. No quarto havia um sofá baixo, onde me lembro
de que recebi presentes, foi colocado um bolo, cantamos
parabéns. Minha mãe continuou deitada, falava comigo da
cama. Eu estava contente pelo aniversário, mas tudo me
parecia estranho.
Jacinta fugiu da clínica duas vezes. Na primeira, alcançou uma agência de publicidade no centro do Rio, onde trabalhava seu amigo Raymundo Araújo, também militante do PCB. Percebendo que Jacinta não estava bem – ela não concatenava o raciocínio, mostrando-se aterrorizada com a perseguição de policiais que
estariam à porta –, Raymundo levou-a até James,110 que a
reconduziu ao sanatório. 111 Em outra ocasião, Jacinta apareceu na casa dos sogros, em Copacabana, onde sua filha estava abrigada. Muito agitada, falava alto. Parecia empolgada com a fuga: Fugi no
poleiro de um ônibus! 112 Janaína lembra-se de ouvi-la dizer. Foi levada de volta à clínica.
Dias depois desse episódio, o irmão de Jacinta, o médico Manoel Caetano Filho, que morava em São Paulo, decidiu transferi-la para lá, para ser internada na Clínica Psiquiátrica Charcot, estabelecimento de referência no tratamento de doenças
psiquiátricas no Brasil. 113 Os Passos estavam extremamente preocupados com o estado de saúde de Jacinta. Caetano pensava que, em uma instituição de boa qualidade, ele próprio acompanhando de perto o caso, sua irmã pudesse melhorar.
James concordou com a transferência. A ida de Jacinta para São Paulo representou a separação definitiva do casal, que nunca mais voltou a viver junto.
Os médicos do Charcot confirmaram o diagnóstico de esquizofrenia paranoide, e Jacinta permaneceu vários meses internada na instituição. Sua sobrinha Maria Helena Passos, filha de Caetano, então uma criança, lembra-se:
Eu ia ao Charcot todo domingo, com minha irmã Lúcia e meu
pai. Ele fazia questão de ir, e de nos levar. Tinha gente que
discordava dele, achava que visitas a um sanatório não eram
adequadas para meninas. Mas meu pai nos levava assim
mesmo, porque achava que tia Jaci precisava sentir a ligação
com a família. Quanto às filhas, afirmava, ele saberia preservá-
las de visões ou sentimentos ruins que as visitas por acaso lhes
causassem: 'Vamos ver sua tia', dizia. Lembro-me de que,
durante as visitas, nós quatro ficávamos numa sala grande ou
num jardim. Papai conversava também com os médicos.114
Em outubro, os médicos deram alta a Jacinta. Ela deveria tomar regularmente os medicamentos prescritos e permanecer na cidade, para consultas periódicas. Transferiu-se para a casa da irmã, Dulce – com quem tinha muitas diferenças de temperamento e valores –, e do cunhado, Nestor Santos, um médico, à rua Sílvia, próximo à avenida Paulista. O casal não tinha filhos. Jacinta conseguiu trabalho na Editora Martins, graças à intermediação de James. Voltou a compor poemas, entre eles "Canção para Maria", publicado
em 1953.115 Sua vida parecia estar voltando à normalidade.
Nos últimos meses de 1952, ela escreveu à cunhada Zélia três bilhetes. Com Jorge e os filhos, Zélia estava morando no Rio, no apartamento dos sogros, Eulália e João Amado, onde também
residia Janaína, desde a internação da mãe. 116 Os bilhetes mostram Jacinta lúcida, consciente de sua doença, agradecida a Zélia por tomar conta de sua filha – por quem demonstra muito carinho –, e esperançosa de em breve, assim que tivesse condições, voltar a cuidar dela:
São Paulo, 5-10-52
Zélia
Desejo que você, os meninos e todos passem bem.
Escrevo para lhe agradecer os cuidados que você teve com
Jana. Fui forçada a ficar mais algum tempo aqui sob assistência
médica e também aqui é mais fácil conseguir um emprego do
que aí no Rio. Começarei a trabalhar segunda-feira, na Editora
Martins. Peço-lhe que tenha paciência e cuide mais algum
tempo de Jana, até eu me instalar mais definitivamente e poder
cuidar dela.
Beijos para João e Paloma, um abração em D. Eulália. Sua
cunhada amiga,
Jacinta117
São Paulo, 16-11-52
Zélia
Como passam todos? João Jorge e Jana e Paloma estão bons?
Jana tem lhe dado muito trabalho? Agradeço-lhe o que tem feito
por ela, espero breve poder ir buscá-la.
Peço-lhe para mandar pelo velho uma calcinha de Jana para
medida de outras que minha mãe vai costurar para ela.
Espero uma cartinha sua dando notícias da saúde de Jana, se
está indo à escola; mande dizer também o que ela precisa de
roupas; se precisa de vestido, de com binação, frente para praia
ou maiô.
Um abraço para você e todos.
Jacinta
12-12-52
Zélia
Desejo que todos estejam bons. Recebi duas cartas suas e
fiquei muito contente com as notícias de minha filha. Agradeço-
lhe o que tem feito por ela.
Escrevo-lhe para lhe falar especialmente sobre o seguinte: se
você vem dentro de alguns dias até aqui, seria possível você
trazer Jana? Eu pagaria a passagem.118
Peço-lhe para me responder urgente, pois tenho aqui um
presente para o Natal dela e preciso saber se mando, caso
você não possa trazê-la. Se puder, telefone para 346993, à
noite, mandando cobrar o telefonema aqui. Muitos beijos em
Jana, André,119 Paloma e João. Um grande abraço,
Jacinta
Após um período tranquilo, Jacinta apresentou alterações de comportamento, como irritabilidade, agressividade e alternâncias bruscas de humor. Recusava-se a tomar os remédios prescritos pelos médicos, e começou a ter crises de ausência e de afastamento da realidade. Sua irmã e cunhado pensavam que deveria voltar a ser internada, mas ela não aceitou de modo algum a ideia: não via razões para a internação, além de demonstrar pavor
da vida no sanatório, sinônimo de intenso sofrimento.120
O irmão de Jacinta resistiu à ideia de interná-la. Com o passar do tempo e o agravamento do seu estado de saúde, porém, Caetano acabou cedendo. Coube a ele internar Jacinta, conforme relatou sua filha, Lena Passos:
Era preciso alguém da confiança dela para conseguir interná-la,
pois ela se recusava. Tia Jaci não confiava em tia Dulce nem
em tio Nestor. Ela confiava só no irmão. Meu pai, então, foi
quem lhe deu a injeção para sedá-la e a internou. Ele ficou
muito traumatizado com isso, chorou um dia inteiro.121
Caetano relacionava a piora do estado de saúde de Jacinta a uma notícia que ela recebera: em junho de 1953, um ano e sete meses após sua primeira internação, James decidira reorganizar a vida com outra mulher. Jacinta era apaixonada por James, louca por ele. Meu pai repetiu várias vezes que, naquele momento, ela não aguentou a notícia de que James não poderia mais continuar ao
lado dela 122 , resumiu Lena Passos, filha de Caetano.
Jacinta permaneceu internada no Charcot durante mais de um ano, provavelmente um ano e meio. Nesse período, recebeu visitas de alguns parentes. Sua prima Maria Bernadete, a Detinha, que morava na Bahia, muito próxima durante a infância e a juventude, assim narrou a visita que lhe fez:
Quando visitei Jacinta no sanatório de São Paulo, fui com
Caetano e Jacy.123 Ela estava com todas as outras internas, na
sala. Eu achei a fisionomia dela esquisita, não era a sua
fisionomia normal. Ela me olhou de uma forma totalmente
indiferente, como se eu fosse uma estranha. Me perguntou,
sem me dar atenção: '- Como vai?' Saiu dali, deu uma volta no
salão, depois voltou para perto de mim, mas não me
reconheceu. Olhava para mim e não me reconhecia! Eu fiquei
emocionadíssima de revê-la assim, até passei mal com aquilo.
Jacy então disse: 'Vamos embora.' E nós fomos.124
Estas são as lembranças da filha Janaína, então com 6 anos de idade, sobre a única visita que fez à mãe, no sanatório Charcot:
Eu morava no Rio, com meu pai. Estava passando férias na
casa de tio Joelson.125Não me lembro se foi tio Joelson ou tio
Caetano quem me levou ao sanatório. Lembro-me apenas de
um pequeno quarto num segundo andar, com duas camas, uma
ao lado da outra, separadas por uma mesinha de cabeceira, Abrindo caminho no chão: de volta à Bahia
tudo branco. Mamãe ficou sentada numa das camas, e eu, na
outra, em frente a ela. Eu a achei bonita. Ela puxou conversa
comigo, me perguntou algumas coisas, às vezes sorria.
Mostrei-lhe, orgulhosa, a calça amarela de lã que estava
vestindo. '- É nova?', me perguntou. '- É', respondi. Mostrei
interesse por uns livros coloridos sobre a mesinha de cabeceira.
Ela pareceu gostar do meu interesse, me deu explicações sobre
eles. Foi um encontro cordial, mas estranho. Visto da
perspectiva de hoje, creio que faltou entre nós intimidade.
Passados tantos anos das crises de Jacinta, sem acesso aos seus prontuários médicos (os sanatórios não guardam documentos dessa época) e, principalmente, sem escutar o seu delírio, a maioria dos psicanalistas e psiquiatras afirma que é muito difícil, praticamente impossível, fazer hoje um diagnóstico sobre a natureza das suas dificuldades psíquicas. Contudo, alguns dizem que as informações disponíveis apontam para a existência de esquizofrenia paranoide. A carência de medicamentos adequados, bem como a resistência de Jacinta em tomar os remédios que existiam, aliadas à aplicação de terapias manicomiais baseadas unicamente em eletrochoques e em injeções de insulina, devem ter contribuído para tornar suas crises mais frequentes, profundas e dolorosas. Atualmente, garantem os especialistas, pessoas com sintomas semelhantes aos manifestados por Jacinta levam existências normais, graças ao apoio de medicamentos e terapias mais adequadas.
Em condições totalmente desfavoráveis, quando esteve internada pela segunda vez no Charcot, Jacinta Passos escreveu o épico "A
Coluna".126 É um longo poema em 15 cantos, que recria a história da Coluna Prestes, a grande marcha de 25 mil quilômetros Brasil afora, nos anos 20, liderada, entre outros, por Luiz Carlos Prestes, com o objetivo de derrubar os governos da República Velha, considerados retrógrados. "A Coluna" originalmente integrava um
livro mais longo:127 é possível, portanto, que, além do épico, Jacinta tenha escrito outras poesias, durante a internação. Em situação muito adversa, ainda assim ela conseguiu organizar sua escrita e fazer ouvir sua voz.
Em 1955, Jacinta retornou a Salvador, ao mesmo sobrado onde residira na adolescência e juventude, a casa dos pais. Tudo indica que sua ida foi uma solução negociada entre ela, a irmã Dulce – para quem a presença de Jacinta em casa se tornara pesada –, os pais e a irmã Zete, estes últimos habitantes da casa de Nazaré.
Os anos vividos em Salvador, na década de 50, foram muito duros para Jacinta. Ela retornou sozinha, separada do marido, distante da filha, sem emprego nem dinheiro, desprestigiada, defendendo ideias comunistas numa época de descenso do PCB, marcada sobretudo pelo estigma da doença mental, que, se hoje é forte, à época era avassalador. No Brasil, era comum as pessoas considerarem, como ocorrera na Europa medieval, distúrbios mentais como punições aplicadas por Deus aos danados, aos pecadores extremos. Quando se tratava de mulheres, não raro se associava o estado psicológico alterado da mulher a uma sexualidade exacerbada, hedonista. Muitas famílias escondiam os doentes mentais nos fundos das casas, em locais a que as visitas não tinham acesso.
Provavelmente, se tivesse condições materiais, Jacinta, com seu temperamento independente, teria preferido morar sozinha, arcando com as próprias despesas. Mas precisou retornar para a casa dos pais. Foi bem recebida no velho sobrado de Nazaré, onde ocupou um quarto espaçoso, bem iluminado, no segundo andar, de frente para a rua. Ali passava quase todo o tempo, porta fechada, ouvindo notícias no rádio, datilografando na máquina, sempre cercada de muitos livros e recortes de jornal, que espalhava pela grande mesa de trabalho e pela estante, às vezes pelo armário também.
Jacinta vivia à parte da família. Lavava a própria roupa, e preparava suas refeições: variava frutas, salada de tomate e cebola, ovo, arroz, feijão, farinha e carne-seca, de que era grande apreciadora, tudo regado a pimentas malaguetas, que gostava de comer cruas, inteiras. Fazia as refeições na cozinha, separada dos familiares, ou se sentava à mesa quando todos já estavam terminando a refeição. Aceitava receber dos pais o mínimo de dinheiro, suficiente apenas para despesas obrigatórias, como as de transporte. Certa vez, próximo a seu aniversário, declarou logo a todos da casa que não aceitaria presente de ninguém. Percebendo que ela necessitava de muitas coisas, a mãe e outros parentes insistiram em presenteá-la. Só a muito custo concordou em deixar, junto à escada, uma
pequena lista de itens de primeira necessidade.128
Quando os Passos recebiam convidados aos domingos, geralmente parentes, Jacinta pouco aparecia: Me lembro dela como um vulto, que descia as escadas, passava pela gente, ia direto para a cozinha, subia de novo para o quarto. Era calada, reservada, fechada. Às vezes, carregava muitos livros, relembra Eliana
Almeida, sua prima em segundo grau. 129 Jacinta saía diariamente de casa, tinha seus próprios horários. Não dava nenhuma satisfação sobre sua vida aos familiares, que desconheciam o que fazia na rua.
* * *
Acertos entre Jacinta e James determinaram que Janaína, a filha de ambos, então com oito anos de idade, que morava com o pai no Rio, fosse para Salvador, passar com a mãe as férias escolares de final de ano, em 1955 e 1956. Cada uma dessas férias durou três meses.
Jacinta, que não convivia com a filha há quatro anos, estava exultante com a perspectiva de sua chegada. Em dezembro de 1955, o sobrado de Nazaré encontrava-se bastante povoado, pois, além de Jacinta, de Bebé e Ioiô, seus pais, de Zete, sua irmã mais velha, também Lourdes, sua irmã mais nova, estava hospedada lá temporariamente, com toda a família, constituída do marido e quatro
filhas.130 Jacinta chegou a ensaiar com as sobrinhas a apresentação de uma pequena peça de teatro de sua autoria, para receber a filha. Os Passos também estavam animados com a
chegada da neta, sobrinha e prima.131
Estas são as lembranças de Janaína, sobre as duas férias vividas ao lado da mãe, aos oito e nove anos de idade:
Tenho recordações bastante distintas dessas duas férias,
completamente diferentes uma da outra. As primeiras, as de
1955, senti como uma grande festa. Fui muito bem recebida
naquela casa alegre, paparicada pelas tias, empregadas
antigas, avó – de quem gostei muito, pois era carinhosa,
costurava roupas para mim, me dava doces, acarinhava meus
cabelos... Eu, que só tinha irmãos muito pequenos, adorei
conviver com as quatro primas de idades próximas à minha, às
quais às vezes se juntavam mais duas, chegadas de São
Paulo. Foram tantas brincadeiras, fazíamos uma farra! Com
elas aprendi brincadeiras quase desaparecidas no Rio, como as
antigas danças e canções de roda. Isso me aproximou de
minha mãe, que gostava muito dessas canções.
Vindo de uma casa meio bagunçada, de intelectuais do Rio,
gostei de conhecer os costumes da família senhorial baiana, a
começar pela disposição da casa espaçosa, muito bem
arrumada, com quintal onde havia árvores frutíferas e galinhas,
e com um setor grande, embaixo, nos fundos, destinado aos
serviçais, que eram numerosos e me davam a impressão de
guardarem segredos extraordinários. Não havia luxo, a
decoração tendia ao sóbrio, porém tudo me parecia mais
cerimonioso e cuidado do que nos ambientes a que eu estava
habituada. Lembro-me – eu, que usava shorts e frente única –
dos grandes laços de fita e dos vestidos cheios de babados e
frufrus e das anáguas das minhas primas, que, de tanta goma,
ficavam em pé sozinhas no chão. Quando me perguntaram se
eu também queria usá-las, rapidamente as adotei, com toda a
alegria.
Cumpriam-se diversos rituais diários na casa, entre eles as
rezas às seis da tarde, junto ao oratório (que mamãe me proibia
de assistir, mas às vezes eu conseguia espreitar, de longe),
além do meticuloso cerimonial das refeições: junto à grande
mesa muito bem posta, devíamos, as meninas, limpas e
arrumadas, ficar todas de pé, cada uma atrás de sua cadeira,
até o avô sentar-se à cabeceira. Devíamos então esperar em
silêncio a avó, na outra cabeceira, com a ajuda das
empregadas, servir nossos pratos. Nós, meninas, devíamos
falar o mínimo possível à mesa, regra a que com frequência
desobedecíamos. Durante minha estadia, mamãe se alimentou
junto conosco, não na cozinha, como fazia habitualmente.
Minha chegada a colocou em contato mais frequente com o
restante da família, ensejando colaboração entre eles.
Havia também o escalda-pés diário do avô, que eu observava
fascinada. Ele era um homem muito alto, elegante, impecável,
que usava chapéu, terno de linho em geral claro, com gravata,
guarda-chuva e botas ou sapatos envernizados. Quando
chegava em casa, instalava-se na poltrona da sala e ali
esperava Mazi, a empregada de décadas, ajoelhar-se à sua
frente, tirar-lhe os sapatos e meias e colocar -lhe os pés
cansados dentro da bacia com água quente e infusão de ervas,
que ela invariavelmente lhe preparava, na temperatura certa, à
espera do chamado dele. Sério, reservado, ocupado com sua
vida, o avô foi para mim figura distante, mas não desagradável.
Nessas primeiras férias, a convivência com minha mãe foi boa.
Ela gostava de conversar comigo, contava-me histórias, dava-
me livros para ler, ensinava-me muitas coisas – geografia,
política, matemática, português, história... –, ria das minhas
perguntas e respostas, orgulhava-se dos meus acertos. Mamãe
cuidava de mim, me dava banho e remédio, penteava meus
cabelos. Falava-me de literatura, das poesias que estava
escrevendo, dos seus livros – no Natal, me dedicou um
exemplar de "Poemas políticos", que guardo com carinho –, da
importância das transformações sociais e das vantagens do
comunismo. Eu a admirava, a achava inteligente e bonita.
Estava muito feliz por reencontrá-la, e por descobrir que tinha
toda aquela família.
Colado na parede em frente à mesa de trabalho de mamãe,
havia um grande recorte, um desenho impresso de um senhor
careca, sério, visto de perfil. Lembro-me de olhar muitas vezes
esse desenho, intrigada com a presença daquele estranho
personagem no quarto. Minha mãe me explicou que era Lênin,
um homem muito importante, líder soviético, benfeitor da
humanidade. Como meu pai e tios tam bém eram comunistas,
eu estava habituada a essas referências, aceitando-as com
naturalidade. Décadas depois, reencontrei esse mesmo
desenho de Lênin, um bico de pena da década de 50, impresso
nas páginas do jornal O Momento (de onde mamãe decerto o
recortara), e me emocionei.
Minha mãe era atenta, solícita às vezes, mas não me fazia
carinho físico. E era muito exigente, gostava que eu agisse
exatamente do modo como me ordenava. Quando tomava uma
decisão a meu respeito, não admitia desobediências nem
interferências. Duas primas lembram-se dela cortando meus
cabelos, contra a minha vontade, utilizando para isso uma cuia
vermelha, originalmente usada como invólucro de queijo do
reino, que colocara na minha cabeça, como molde. Meus
protestos e choros, assim como a solidariedade recebida das
primas, que assistiam a tudo muito impressionadas, de nada
adiantaram: meu cabelo foi cortado, em formato redondo,
"como o de uma índia", lembra uma das primas.132 Não me
lembro da cena, o que indica que não me marcou
negativamente.
Dormíamos no mesmo quarto. Parte das manhãs, enquanto
mamãe lia e escrevia, eu passava brincando com as primas, em
geral do lado de fora, no grande pátio da casa. Logo após o
almoço, em alguns dias da semana nós duas saíamos.
Tomávamos um bonde ou ônibus até a Praça Castro Alves,
descíamos o Elevador Lacerda rumo à Cidade Baixa (esta era a
parte do passeio de que eu mais gostava, a da descida no
Elevador), onde tomávamos outro transporte, até um bairro
longe e muito pobre, que não sei identificar. Descíamos a
encosta de um morro – perigo so, quando chovia – até um
grupo de casas paupérrimas, onde moravam famílias negras.
Ali, ao ar livre, na terra, sobre dois ou três caixotes de madeira,
Jacinta, profundamente coerente com sua forma de pensar,
dava aula às crianças. No intervalo, divertia-nos com
brinquedos simples, pequeninos piões que levava consigo,
numa bolsa de lona. Às vezes nos oferecia sanduíches de
queijo, também levados por ela. Conversava com as mães
antes e depois das aulas, dava-lhes conselhos sobre higiene,
talvez tentasse organizá-las politicamente, não sei. Eu gostava
bastante dessas saídas com mamãe. Só reclamava de que, na
rua, ela agarrava minha mão com tanta força que me deixava
marcas vermelhas, não me soltando jamais. Talvez tivesse
medo de que eu fosse atropelada ou me perdesse dela.
Os atritos com minha mãe nesse período, percebo hoje, foram
todos sobre questões relativas ao meu relacionamento com a
família Passos. Muitas vezes eu preferia estar com as primas
ou outras pessoas da casa a ficar no quarto com ela, assim
como preferia sair a passeio com os outros a permanecer em
casa, em sua com panhia. Mamãe não me proibia os contatos
(as saídas, sim), mas os restringia, talvez para poder ficar mais
tempo comigo, por ciúmes, ou por temer a influência excessiva
sobre mim da família, com quem tinha grandes diferenças sobre
maneiras de compreender o mundo. 'Você é minha filha, tem de
fazer o que eu acho certo, não o que os outros acham', me
dizia, zangada. Eu não entendia as restrições. Essa situação
gerou algumas brigas entre nós, mas nada sério. Tanto que, no
ano seguinte, eu mesma quis retornar à Bahia para as férias.
Em 1956, entretanto, encontrei uma situação muito diferente.
As primas e tios não moravam mais em Nazaré (apenas a
prima mais velha, cuja idade era a mais distante da minha). Não
me senti recebida pelos familiares com o mesmo carinho e
paciência do ano anterior, inclusive pela avó. Todo mundo
parecia preocupado, ansioso, envolvido com problemas. Minha
mãe estava nervosa, agitada, impaciente, brigando a toda hora
com a família e comigo, que, por meu turno, revidava com más-
criações a ela. Lembro-me de tia Zete uma vez me chamando à
parte, para me dizer que eu não podia continuar a responder à Em Salvador, Jacinta voltou a militar ativamente no PCB. Assistia às reuniões, escrevia e datilografava textos, discursava nos comícios-relâmpago organizados em feiras, no porto, em portas de fábrica, dava conferências onde o partido indicava, ministrava aulas para crianças pobres. Era uma militante anônima, disciplinada e absolutamente convicta, numa organização debilitada e com graves dissensões internas. Leôncio Basbaum afirma: O Partido cresceu rapidamente e em fins de 1945 já possuía cerca de 50 mil filiados, um jornal diário, uma grandiosa sede no centro da capital do país, o Rio de Janeiro. Mas, no final da década de 1950, em todo o território
minha mãe daquela forma. Ela tinha razão, mas eu não mudei
minha forma de me comportar.
Nessas férias, o nível de exigência de mamãe em relação a
mim tornou-se absurdo. Ordenava, por exemplo, que eu
decorasse listas inteiras da população mundial, país a país, e
se aborrecia quando eu errava ou ameaçava desistir. No Natal,
dei-lhe de presente, com dedicatória, um caderno manuscrito,
contendo pequenas peças de teatro e poesias escritas por mim.
Ela ficou contente, riu, me agradeceu. Dias depois, devolveu-
me o caderno, que guardo até hoje, com observações críticas e
correções (todas pertinentes), acompanhadas de uma nota –
"regular", "ótima", "boa" – para cada escrito meu. Era muito
difícil, quase impossível agradá-la, e isso me frustrava demais.
Continuávamos a ir, agora quase todos os dias, ao bairro pobre
de Salvador, mas eu já não achava muita graça naquilo,
porque, naquele ano, durante nosso trajeto mamãe esbarrava
com frequência nas pessoas que vinham em sentido contrário,
quase como se não as visse. Quando as pessoas reclamavam,
brigava com elas, gesticulando, gritando. Falava também
sozinha, enquanto caminhávamos pelas ruas. Comecei a sentir
vergonha de minha mãe.
O clima na casa tornou-se tão difícil para mim que escrevi uma
carta a meu pai, pedindo que fosse me buscar o mais rápido
possível. A carta não seguiu, porque tia Zete, a quem pedi que
a enviasse, preferiu não o fazer. Naquele ano, mamãe debatia-
se na cama à noite, falando alto, às vezes gritando, o que me
acordava. Nessas ocasiões, na escuridão do quarto eu sentia
muito medo dela, temia que saltasse sobre mim, me fizesse
mal. Ao final das férias nós duas viajamos num pequeno navio,
uma viagem que recordo muito tensa, para o Rio de Janeiro,
onde ela me entregou a papai.
* * *
nacional 133 não teria mais de dois a três mil membros .
Jacinta, que tanto prestígio conquistara entre os intelectuais do Partido, nesse período não recebeu atenção. Não foi indicada, por exemplo, como acontecera várias vezes no passado, para integrar, muito menos chefiar, delegações a congressos, inclusive os
locais.134 Resultado de mudanças no comportamento dela? Estigma da doença mental? Efeito da separação de James, e do consequente afastamento também de Jorge Amado, até 1957 figuras de projeção no PCB?
Em 1955, Jacinta procurou O Momento, o jornal do PCB em Salvador, onde trabalhara na década de 40, para oferecer colaboração voluntária. Nesse ano, deve ter publicado ali alguns
artigos.135 No início de 1956, já se tornara responsável por uma página inteira do jornal, "Literatura e Artes", onde foram publicados poemas, contos, traduções, estudos de crítica literária, notícias culturais etc., de diversos autores. Alguns textos seus, sobre
literatura, também apareceram na seção. 136 A página não tinha periodicidade regular. Saía quando havia espaço, pois o jornal, em grande dificuldade financeira, circulava com apenas quatro, às vezes seis páginas. Esse trabalho provavelmente trouxe alegria e segurança a Jacinta, por unir literatura e jornalismo, duas atividades que apreciava, valorizava e sabia exercer bem, além de significar espaço conquistado por ela, espaço seu, cada vez mais difícil.
A partir de 6 de maio de 1956, O Momento não publicou mais nenhuma colaboração assinada por Jacinta, embora a seção "Literatura e Artes" tenha continuado a existir até o final desse ano, muito provavelmente sob direção de outra pessoa. Durara poucos meses o novo espaço conquistado por ela.
Jafé Teixeira Borges assim relatou a convivência com Jacinta no jornal:
Eu era colega de Jacinta em "O Momento", na década de 50. O
diretor do jornal era José Gorender, embora, no expediente,
constasse Almir Mattos. Aristeu Noguei ra era o tesoureiro, e
eu, o secretário, embora não figurasse assim no expediente. A
sede do jornal era na avenida Sete, 2º andar, em cima da Foto
Jonas. Éramos pouquíssimos trabalhando, todos muito jovens,
não havia dinheiro pra nada, uma penúria de fazer dó.
Jacinta apresentou-se lá um dia, como voluntária, dizendo que
queria colaborar com o jornal. Passou a ir todas as tardes. Sua
função era "cozinhar" as matérias de jornais do sul.137 Dava pra
perceber que ela não estava mais bem da cabeça. Não falava
nada, não conversava com ninguém. Chegava, só me
cumprimentava, e ia sentar-se no seu canto, para trabalhar.
Ficava ali o tempo todo em silêncio, muito composta. As
matérias dela geralmente não saíam no jornal, não havia
espaço, às vezes ela também podia não fazer o trabalho muito
bem-feito, mas, principalmente, não havia espaço – era preciso
publicar primeiro os informes e matérias de interesse do partido,
e o jornal era fininho. Jacinta ficava aborrecida com aquilo.
Também chegou a escrever um conto, não sei se foi publicado.
Aquela situação foi ficando difícil. Havia uma certa má vontade
contra ela – os jornalistas eram jovens, e ela, bem mais velha,
séria, concentrada, não conversava nem brincava com
ninguém, era considerada um corpo estranho lá. Os rapazes se
incomodavam com a presença daquela senhora sisuda ao lado,
não podiam ficar à vontade, comentar, dizer besteira, palavrão...
E as matérias dela não saíam, não tinham importância. Ela era
uma flor que não fazia mal a ninguém, mas não era possível
continuar, era preciso resolver a situação. Imagine que
encarregaram a mim de dizer isso a ela!
Falei à Jacinta:
- O jornal tem cada vez menos espaço, as matérias não saem,
e ficamos constrangidos de você vir aqui, trabalhar, e o
resultado de seu trabalho não sair. Assim, nós decidimos parar
de cozinhar matéria, vamos passar a usar uma agência de
notícias para isso.
Ela se chateou, visivelmente se chateou muito com aquilo, mas
não brigou. Aceitou a decisão, e não apareceu mais. Eu é que
fiquei constrangido por molestar uma flor.
Provavelmente, isso tudo ocorreu no ano de 1956.138
Se esse fato, humilhante para Jacinta, ocorreu efetivamente em 1956, explicaria também o término de sua colaboração na página "Literatura e Artes", à qual, contudo, Jafé não se refere, fazendo apenas breve menção à possível publicação de "um conto". Outra possibilidade é a colaboração literária de Jacinta ter ocorrido em 1956, e o incidente narrado por Jafé, no ano seguinte. Neste caso, restaria explicar por que Jacinta não conseguiu publicar mais nada assinado em O Momento, desde maio de 56.
O ano de 1956 foi traumático para o PCB. Em fevereiro, em Moscou, durante o XX Congresso dos Partidos Comunistas de todo o mundo, Kruschev e outros líderes soviéticos fizeram pesadas críticas a Stalin, o todo poderoso dirigente da URSS durante décadas, falecido havia três anos. O documento apresentado no Congresso, conhecido como "relatório Kruschev", tornava públicos numerosos e terríveis crimes cometidos por Stalin, como perseguições e execuções sumárias de adversários. A repercussão do relatório Kruschev entre os militantes brasileiros foi retardada pelo PCB, mas, quando ocorreu, se mostrou devastadora. Causou desconfiança, perplexidade, indignação e revolta, gerando acalorados debates e a saída de numerosos militantes do partido, a maioria intelectuais, em 1957: As certezas que haviam informado a vida e a ação de militantes forjados no mais fino aço do monolitismo
stalinista se desfaziam uma a uma, 139 resumiu Moisés Vinhas.
Não sabemos qual a reação de Jacinta a essa grave crise política. Sabemos que se manteve no PCB até morrer, fiel à organização que escolheu. Mas podemos especular que ela deve ter se sentido profundamente abalada pelos acontecimentos daquele ano. Todos os militantes o foram, inclusive os que decidiram permanecer no partido, como o baiano Carlos Marighella, que, embora continuando no PCB, expressou reações emocionais: Ele tomou o Relatório Kruschev como se fosse uma punhalada de Stalin, chorando de
raiva e indignação 140 , declarou um testemunho. Outros militantes adoeceram, deprimiram-se profundamente, tornaram-se agressivos, confusos ou catatônicos. A decisão de permanecer no PCB era tão difícil quanto a de afastar-se, e Jacinta deve tê-la tomado sob grande tensão.
Em 1958, Jacinta publicou seu quarto livro, A Coluna, por uma pequena editora do Rio de Janeiro, a A. Coelho Branco F.º, que funcionava basicamente como gráfica. Com 47 páginas, o pequeno livro continha o poema épico homônimo em 15 cantos, sobre a Coluna Prestes, apresentado como "uma parte do livro História do Brasil e outros poemas". A edição, muito simples, foi possivelmente financiada pelo PCB. Seu conteúdo interessava ao partido, e a autora não tinha dinheiro para custeá-la. A epígrafe do livro:
Coluna, tu és a herança
que os pais transmitem aos filhos
como abc de criança.
Essa publicação deve ter sido particularmente importante para Jacinta, pois havia seis anos ela não conseguia editar nenhum livro,
embora tivesse vários originais guardados.141 A Coluna foi muito bem recebido nos círculos de esquerda, merecendo críticas de
nomes respeitados, como Paulo Dantas. 142 Até 1968, diversos de seus trechos foram reproduzidos em publicações de esquerda do Rio e de São Paulo. Provavelmente Jacinta não tomou conhecimento disso, pois à época residia em Sergipe, isolada. O poema voltou a ter vários trechos reproduzidos após o retorno do
país à democracia. 143
* * *
Em dezembro de 1957, Jacinta viajou para o Rio de Janeiro, à procura da filha. Não são muito claras as circunstâncias que cercaram essa viagem, mas provavelmente, sabedora de que a filha não passaria as férias daquele ano em Salvador, decidiu viajar ao encontro dela.
Estas são as lembranças que Janaína guardou da última vez em que conviveu com a mãe, aos dez anos de idade:
Ela chegou ao Rio de repente, sem avisar ninguém. A
campainha do apartamento tocou, alguém veio me dizer: 'Sua
mãe está aí.' Sensação de susto, coração batendo acelerado.
Fui até a sala vê-la, nos abraçamos. Eu estava muito tensa. Ao
longo daquele ano trocara cartas com mamãe, porém, devido à
má experiência das férias anteriores, eu tinha me recusado a
retornar à Bahia. Agora, sentia medo de ela querer me levar de
vez para Salvador. Além disso, eu havia decidido pular a quinta
série, prestando direto o exame de admissão ao ginásio, em
fevereiro do ano seguinte, e estava concentrada nisso144
Mamãe não insistiu para me levar para a Bahia. Ao contrário,
permaneceu no Rio, o que me relaxou. Pelas manhãs eu
frequentava aulas num cursinho e, todo início de tarde,
esperava por ela lá em casa. Eu estava morando em um novo
apartamento, em Copacabana, melhor do que o anterior. Meu
pai mais uma vez reconstituíra família, havia pouco mais de um
mês.
Nessas férias passamos todas as tardes juntas, mamãe e eu.
Ela me dava aulas na sala, nós duas em volta da mesa,
próximas à janela. Era excelente professora: exigente, clara,
metódica, paciente, com uma perfeita noção das deficiências da
aluna e de como, progressivamente, superá-las. Eu era ruim em
matemática, justamente a especialidade dela, de modo que me
deu um ótimo reforço nessa área. E me doutrinou, também! Na
prova oral do exame de admissão, quando o professor me
pediu para dizer os nomes de três países europeus com as
respectivas capitais, a resposta veio na ponta da língua: 'União
Soviética – Moscou, Polônia – Varsóvia, Tchecoslováquia –
Praga'. Lembro-me com muito prazer de nossas aulas. Mamãe
gostava de ensinar, eu gostava de aprender, em torno daquele
mundo do conhecimento fomos nos conhecendo melhor, nos
reencontrando.
Minha mãe alugou um quarto de empregada no Largo do
Machado, bairro então decadente do Rio. Ela tinha direito a
usar o tanque e o banheiro da área de serviço do apartamento,
eventualmente a guardar alguma coisa na geladeira, mas não
podia cozinhar. Passei alguns fins de semana lá com ela. O
colchão da cama era tão estreito que nós duas não cabíamos
nele. À noite, ela dormia no chão, para eu dormir no colchão.
Não havia janela. Nunca a vi queixar-se dessa situação, nem de
qualquer outra que lhe causasse desconforto ou exigisse
sacrifício pessoal.
Conversamos bastante nessas férias, no quarto dela, na sala
do apartamento onde eu morava, nas praças do Rio, no bar do
Largo do Machado onde fazíamos as refeições durante os fins
de semana. Mamãe continuava muito vigilante comigo, só me
deixando atravessar as ruas de mãos dadas com ela. Eu, que já
me achava grande, e era habituada a andar sozinha, reagia a
isso. Ela me proibia de conversar com outras pessoas, incluindo
o porteiro do prédio onde eu morava: 'Nunca converse com
estranhos, é perigoso', me alertava com frequência. Também
continuava esbarrando nas pessoas que vinham em sentido
contrário na rua, interpelando-as, caso reagissem.
Mamãe se mostrava muito insatisfeita com o a minha criação:
'Você está sendo criada como burguesa. Seu pai pode ter
virado um burguês, mas sua mãe é e sempre será uma
comunista. Não quero você criada como burguesa', me disse
diversas vezes, zangada. Eu retrucava que tinha poucas peças
de roupa, que meu pai ganhava mal... Ela respondia: 'Basta
viver naquele apartamento. Nenhum comunista deve morar
assim.145
Minha mãe gostava de me fazer perguntas e, a partir das
minhas respostas, ir expondo seus pontos de vista. 'O que você
acha do sistema de herança?' É bom ou ruim?', me perguntou,
certa vez. Sem ter a mínima ideia do que responder – nunca
havia pensado nesse assunto! –, balbuciei um 'Acho... bom'.
'Não, não é bom. A herança é uma prática burguesa, que só
tem sentido numa sociedade de classes, para garantir a
propriedade de poucos. Numa sociedade comunista, não existe
herança, porque...', e apresentou as razões. Nessa maiêutica,
ela ia me transmitindo seus pontos de vista e visão de mundo.
Era absolutamente segura de suas ideias.
Continuava muito exigente, consigo, comigo, com as pessoas
em geral. Não admitia falhas, enganos, erros, assim como não
aceitava injustiças. Quando via ou ouvia qualquer coisa com
que não concordava, mesmo não lhe dizendo respeito
diretamente, retrucava na hora, em público, com quem quer que
fosse. Certa vez, na praça Siqueira Campos, em Copacabana,
ao ver um policial arrastar um adolescente e bater nele,
colocou-se na frente dos dois. Dedo na cara do polícia,
interpelou-o: 'Você não tem o direito de tratar o garoto assim!
Você é um policial, tem de proteger a população, não pode
maltratar ninguém!'. O policial afastou-a com um safanão, mas
ela o seguiu, gritando: 'Se o rapaz fez alguma coisa errada,
faça o que a lei manda, interrogue-o. Mas não bata nele, não o
torture! Você é pobre como ele, você é muito mais parecido
com ele do que com seu coronel!' Achei que nós é que
seríamos presas... mas não fomos.
Bastava um cobrador de ônibus não devolver o troco integral a
alguém, "esquecer -se" das moedas menores, para mamãe
imediatamente reclamar, alto, para todos ouvirem: 'Não vai
devolver o troco todo para a pessoa? Devolva, é importante, é
um direito dela, essas moedas podem fazer falta a ela, como
fariam a você! E vai ficar com o troco para quê? Para
enriquecer seu patrão?". Ela era a única a falar. As pessoas em
volta baixavam os olhos, indiferentes ou amedrontadas. E eu,
sem pensar em quem tinha ou não razão, sentia vergonha
dessas situações, queria sumir dali.
Nessa época mamãe vestia saias escuras, pretas ou azul-
marinho, retas, abaixo do joelho, com blusas claras de tecido
mole, a maioria branca ou creme, de mangas curtas, às vezes
com um broche fechando a gola. Calçava sapatos baixos –
gostava de alpargatas – ou sapatos altos de saltos grossos,
que, dizia, não eram incômodos como os de saltos muito altos e
finos então na moda. Possuía pouquíssimas roupas, que
trocava, lavava e passava com frequência. Não dava nenhuma
importância à moda – ao contrário, dizia: 'Moda é coisa de
capitalista, para enriquecer burguês' –, mas fazia questão de
apresentar-se sempre muito limpa e composta.146 Seus cabelos
pretos, bastos e lisos, muito bonitos, eram presos atrás, num
penteado antigo. Não usava maquiagem, apenas batom.
Continuava magra, o corpo enxuto e as pernas bonitas,
fisicamente bem para os 43 anos. A despeito da severidade das
roupas e gestos, sua figura tinha elegância, advinda, creio, da
altivez do porte e do andar.
Apesar do profundo sentimento de identificação e solidariedade
para com os semelhantes, que levara mamãe à militância
religiosa e política e aos maiores sacrifícios pessoais em busca
de melhorias coletivas, ela não tinha facilidade de comunicação
com as pessoas, individualmente.147 Talvez seu jeito sério,
reservado, que transmitia autoridade, amedrontasse os outros.
Mamãe conversava bastante comigo, mas, com as pessoas que
encontrávamos, mostrava-se circunspecta, falando apenas o
indispensável, sem permitir aproximações e jamais puxar
conversa. Não sei se agia assim por temperamento, educação,
dificuldade psicológica, por medo de ser agredida ou por razões
de segurança (dada sua condição de militante de um partido
clandestino); talvez pelo conjunto desses motivos.
Sempre a senti profundamente solitária. Creio que nunca
convivi com uma pessoa tão solitária quanto ela. Com exceção
das questões partidárias, todos os outros assuntos de sua vida
eram decididos por ela própria, sem consultar ninguém. Acho
que identificava esse modo de agir com a capacidade de ser
independente. Valorizava extraordinariamente a independência,
a possibilidade de ser dona do próprio destino. Lutara muito por
isso. 'Nunca se esqueça de duas coisas, minha filha: que você
é mulher e é independente', me disse. Com a visão de hoje,
imagino que suas internações em sanatórios – decididas por
outros, contra a vontade dela – doeram-lhe duplamente, pelas
condições dos internamentos e por saber que feriam seu poder
de decidir sobre a própria vida.
A mais terna lembrança que guardo de minha mãe está ligada
ao dia do anúncio do resultado das provas escritas ao exame
de admissão. Num ritual que hoje me parece cruel, todos os
candidatos, crianças entre 10 e 13 anos de idade, fomos
colocados em fila, no pátio do colégio. À frente, alguém ia lendo
os nomes dos aprovados, que, um a um, deviam subir para o
segundo andar, onde se realizariam os exames orais (as
crianças reprovadas continuariam todas lá no pátio...).148
Quando chamaram meu nome, caminhei até a escada, onde,
para minha grande surpresa, dei com os olhos cheios de
lágrimas de mamãe. Foi a única vez em que a vi chorar.
Em 3 de janeiro de 1958, dia do aniversário de Luiz Carlos Prestes, Jacinta foi detida na Central do Brasil, a movimentada estação de trens no centro do Rio. Vendia seu último livro, A Coluna – considerado subversivo – e, ao que parece, também discursava para a multidão. Entre os comunistas brasileiros, existia a tradição de celebrar, de várias formas, o aniversário de seu maior líder,
fazendo isso parte do processo de glorificação de Prestes. 149
Avisado da detenção por telefone, James compareceu à delegacia. Teve de alegar a insanidade mental de Jacinta e responsabilizar-se por ela, para que o delegado concordasse em liberá-la, o que foi feito no mesmo dia. Ao sair da delegacia, ela se mostrava muito
nervosa e indignada.150
* * *
Jacinta retornou a Salvador por volta do final de fevereiro de 1958. Decidida a obter o desquite de James e a guarda de Janaína, comunicou essa decisão ao ex-marido, em cartas. Desejava que ele fosse a Salvador, para juntos assinarem e apresentarem petição de desquite à Justiça, na qual ficaria decidida a guarda da filha para ela. James não queria Janaína definitivamente em Salvador: sentia-se ligado à filha, considerava Jacinta sem condições de criá-la e, além disso, Janaína não queria morar com a mãe. Por outro lado, James queria evitar que Jacinta entrasse na Justiça com um processo unilateral de desquite, pois, neste caso, para continuar mantendo a guarda da filha, teria de alegar a insanidade mental da
mãe, e não desejava expor Jacinta a essa situação.151 Em suas
cartas, tentou demovê-la da ideia do desquite e do processo. 152
Jacinta, contudo, continuou firme em sua decisão. Em 10 de agosto, escreveu carta a James, afirmando que só desistiria do processo litigioso de desquite caso ele concordasse com a mudança da filha, para morar com ela. Esta carta é o único documento remanescente da intensa correspondência mantida entre o casal em 1958, sendo também a única carta longa preservada de Jacinta, razões pelas quais é transcrita na íntegra. Precisa ser compreendida no clima de grande tensão e disputa que marcava as relações do casal à época:
Salvador, Bahia, 10-8-1958
James
Recebi sua carta de 6 de agosto. Estranhei o carimbo do
Ministério da Educação e Cultura. Sabia que você tinha de há
muito tempo aderido a uma política de conciliação com as
forças da burguesia e o governo burguês, mas não sabia que já
tinha subido tanto na cotação dos referidos senhores. Isto
demonstra mais uma vez que não foi sem razão que eu me
separei de você.
Quanto ao desquite: você está colaborando com a burguesia, e
vem me pregar contra as leis burguesas. Que é que você
chama de 'pruridos legais'?153 Você sabe que eu sou
comunista, mas nunca tive vida ilegal e nunca tive ligações
ilegais. Trata-se apenas de usar as leis burguesas contra
aqueles que as fizeram. Trata-se de garantir, perante os
próprios senhores burgueses (ou então eles que rompam a sua
Constituição), de que estamos desquitados por lei e portanto
você não tem direito ao único bem que possuo, e que é a minha
produção de escritora, e justamente por ser meu é que posso
dispor dele e dar a quem eu quiser.
Mas vamos aos fatos imediatos: se você não pode vir agora
para apresentar a petição de desquite, junto comigo, ao juiz, e
pede que adie o processo, lhe digo o seguinte: não farei o
processo se você concordar com as duas propostas seguintes:
1) no fim do ano, depois das férias que a Janaina passará
comigo, ela ficará morando comigo e passará algum tempo do
ano com você (as férias); 2) você reconhecer que não tem
qualquer direito sobre minha produção literária (no caso de
você quebrar a palavra, o processo será iniciado
imediatamente).154
Sobre a Janaina, ela não poderá ficar morando aqui em casa de
meu pai, onde estou desde que me curei,155 porque só poderei
tomar conta dela num lugar onde de fato seja eu quem mande
nela. Ou aqui na Bahia, ou em qualquer outro lugar, viverá
comigo, não nas condições em que está vivendo aí (refiro-me
ao apartamento etc.); será em condições bem mais pobres, nas
condições em que a mãe dela puder viver. Sobre a instrução, é
outra questão difícil nas condições de nosso país, mas
procurarei resolver.
Necessito que responda sobre as duas propostas, mas preciso
de urgência porque estamos em agosto. Se você não
concordar, o jeito é o processo, ou aqui, ou eu indo aí para
fazê-lo.
Recomendações a seus filhos Inaê e Maurício e à sua segunda
mulher.156
Jacinta Passos157
Diante do impasse e da delicadeza da situação, James teve uma ideia ousada. Procurou, no Rio, Carlos Marighella, dirigente histórico
do PCB e velho amigo do casal. 158 Relatou-lhe a situação familiar, afirmando a Marighella que, em sua opinião, apenas uma coisa poderia fazer Jacinta desistir da guarda da filha: acreditar que Janaína fora enviada pelo partido para estudar na União Soviética. E pediu ao amigo e dirigente que dissesse isso a ela. Alguns filhos de comunistas brasileiros, de diversas idades, eram efetivamente enviados a países socialistas, em especial à URSS, para obter uma boa educação formal e, principalmente, se tornar "cidadãos comunistas" na "pátria do socialismo", verdadeiros revolucionários, que os militantes admiravam. Ter um filho escolhido para estudar
num país socialista era sinal de prestígio dentro do PCB.159
Assim foi feito. Em Salvador, Marighella informou Jacinta da "decisão do partido" sobre Janaína: ela iria estudar na URSS, tornar-se-ia uma verdadeira comunista, livre de todas as influências burguesas. Avisado, James já teria se conformado com a ordem do partido.
Segundo relato de Marighella a James, Jacinta reagiu aparentemente bem à notícia do afastamento da filha para a URSS. Toda a situação da "ida de Janaína para a URSS" foi então explicada à família Passos. Acreditando tratar-se da melhor solução para o impasse, os Passos concordaram. Nenhum Passos revelou à
Jacinta que sua filha continuava a viver no Rio, com o pai. 160 A partir dessa época, Janaína manteve contato com os Passos, porém nunca mais conviveu com a mãe. Voltou a vê-la apenas uma vez, no sanatório, como se lerá adiante.
Ante Carlos Marighella, Jacinta reagiu bem à notícia da ida da filha para a URSS. Mas qual teria sido o real impacto dessa notícia sobre sua vida? Para uma comunista convicta, a ida da filha para a URSS deve ter representado motivo de orgulho, já que poucos militantes recebiam a distinção. Pode ter significado também um alívio, já que encerrou a angustiante negociação com o ex-marido, evitando a entrada na Justiça de um processo para o qual nem sequer possuía recursos financeiros. E, embora a filha não pudesse mais morar com ela, estaria para sempre livre da educação burguesa do pai e da maioria da sociedade brasileira.
Apesar de ser pessoa habituada ao sacrifício, a renúncia à companhia da filha única pode ter também pesado muito sobre Jacinta. Afinal, Janaína era a pessoa a quem se sentia mais ligada, a única por quem era responsável, e em torno de quem organizava parte importante da vida. O afastamento da filha – que seria longo, talvez definitivo, sabia –, pode ter significado, para Jacinta, perda grande demais para suportar. E, numa época difícil para ela, contribuído para provocar o agravamento de seu estado psicológico, no ano de 1958.