Jacinta Passos, coração militante
Biografia de Jacinta Passos: canção da liberdade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
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1 Machado, Dalila. A história esquecida de Jacinta Passos. As referências bibliográficas completas estão ao final deste texto.
2 Para uma discussão sobre procedimentos de história oral, cf., entre outros: Ferreira, Marieta de Moraes e Janaína Amado. Usos e Abusos da História Oral.
3 A grafia do prenome de Jacinta adotada neste texto – Jacinta, sem "h"– é a mesma adotada por ela em sua vida civil (inclusive em seu registro de casamento), e também como autora. Estranhamente, todas as pesquisas feitas na região do Recôncavo, com o intuito de localizar o registro de nascimento de Jacinta Passos, foram infrutíferas; outros documentos dela grafam seu nome como no início deste texto (o prenome com "th", e o sobrenome "Velloso", com dois "l"), exatamente a mesma grafia do nome de sua avó paterna, que foi sua madrinha, e em cuja homenagem foi nomeada. Jacinta recebeu os sobrenomes dessa avó, não possuindo, ao contrário de suas irmãs, o sobrenome "Elói" também grafado "Eloy", da parte de sua mãe.
4 Há duas versões para o nome "Cruz das Almas": a mais provável apontando a existência de um cruzeiro, localizado na antiga estrada de tropas para São Félix, em torno do qual o povo local costumava reunir-se, para procissões e novenas. Esse costume de reunir-se em torno de um cruzeiro era antigo no Brasil, daí a profusão, no país, de povoações, vilas, cidades, bairros e praias que até hoje mantêm o nome "Cruz das Almas". Na segunda versão, o nome seria homenagem a uma cidade portuguesa; entre os primeiros povoadores brancos da região, havia realmente vários portugueses.
5 A casa ainda existe, em bom estado. A data da construção aparece no umbral da porta de entrada.
6 Sobre a história da família Passos, cf. bibliografia sobre Cruz das Almas, documentos oficiais, depoimentos de familiares e as minhas próprias recordações e anotações. Manoel Caetano da Rocha Passos, pai de Jacinta, nasceu em 23/10/1884 e morreu em 1º/11/1958; Berila Eloy (às vezes, este sobrenome é grafado "Elóy" ou "Elói") Passos, mãe de Jacinta, nasceu em 23/3/1888 e morreu a 6/3/1966; Berila e a irmã Júlia eram filhas do primeiro casamento do pai. Depois de viúvo, este se casou novamente e teve outros filhos, que se davam bem com as irmãs mais velhas.
7 A fazenda Campo Limpo ainda existe, pertencendo a membros da família Passos. Seu tamanho e configuração, porém, são diferentes dos da fazenda original.
8 Cf., neste volume "A Infância como ponto de partida", de Fernando Paixão.
9 Era comum no Nordeste o convívio próximo entre as famílias de proprietários e empregados rurais (a começar pela presença das amas de leite junto aos filhos dos senhores), principalmente entre as crianças. O romance a melhor expressar esse tipo de convivência talvez seja Menino de Engenho, do paraibano José Lins do Rego. A região do Recôncavo baiano, originalmente habitada por índios, desde o século XVI também por brancos e negros, apresenta até hoje uma cultura popular riquíssima, com forte expressão afro-brasileira.
10 Tomásia de Queiróz, a Mazi, começou a trabalhar na residência de Berila e Manoel Caetano Passos aos onze anos de idade, lá permanecendo até morrer, com mais de oitenta anos de idade. Regina Menezes Figueiredo, que prestou depoimento para esta biografia, trabalhou durante décadas para os Passos, inclusive diretamente com Jacinta, depois que ela se casou. As outras pessoas citadas também conviveram com Jacinta.
11 A rua Frei Henrique era também conhecida como "Ladeira do Hospital", por abrigar – em frente ao sobrado dos Passos – um grande hospital. Um verso de Jacinta, citado à frente, faz referência à rua como "Ladeira do Hospital".
12 A família Passos teve também outros políticos, entre eles vereadores e prefeitos de Cruz das Almas, deputados estaduais e federais. Como outras famílias políticas brasileiras, os Passos tiveram representantes em diversos partidos, sobretudo quando se tratava de representações fora do município.
13 Maria José, a Zete, filha mais velha do casal, que permaneceu solteira, aposentou-se como bibliotecária da Biblioteca Pública da Bahia; Dulce, casada ainda jovem com um médico, mudou-se para São Paulo, não exercendo a profissão; Maria de Lourdes, a mais jovem, também casada com um médico, mãe de sete filhas, aposentou-se como professora estadual na Bahia; Jacinta também trabalhou como professora.
14 As "quatro Passos" estudavam no turno matutino; como uniforme, saia cáqui e blusa branca, com gravata vermelha. A Escola Normal da Bahia, fundada em 1836, teve funcionamento intermitente no século XIX, para firmar-se no início do século XX. Situava-se na Av. Joana Angélica junto ao "Corredor do Caquende", entre o bairro de Nazaré e o centro da cidade. Após a transferência de Escola Normal para o bairro do Barbalho, o antigo prédio foi sucessivamente ocupado pela Faculdade de Filosofia e Letras e pelo Ministério Público. Hoje, com funções muito ampliadas, a antiga Escola Normal (que continua situada no bairro do Barbalho) denomina-se "Instituto Central de Educação Isaías Alves". Cf. entrevista com Maria Bernadete (Detinha) Passos de Almeida, Salvador, março 2004; documentos do acervo do Instituto Central de Educação Isaías Alves; e informações do arquivo pessoal de Maria Guimarães Sampaio.
15 "A Normalista", de Benedito Lacerda e David Nasser, foi grande sucesso na voz de Nelson Gonçalves. Também na literatura a figura dessa estudante se fez presente, desde pelo menos 1863, data de publicação do romance A Normalista, de Adolfo Caminha. São conhecidos também os textos de Nelson Rodrigues e Dalton Trevisan sobre as estudantes que acendiam a fantasia masculina.
16 Depoimento de Ana Maria Rios Baptista, Salvador, agosto de 2004. A evocação de Zete, a irmã mais velha de Jacinta, me foi transmitida pessoalmente mais de uma vez.
17 Não se conservaram poemas dessa fase. Registros de Manuel Caetano Filho e de Maria José Passos.
18 Depoimento telefônico de Ana Maria Rios Baptista, outubro 2004. Registro de Dulce Passos. Registro de Tomásia de Queiroz.
19 Registro de Zete Passos; carta de Zete Passos a Janaína Amado, 13 de junho de 1986.
20 Registro de Dulce Passos Santos.
21 O poema integra Momentos de Poesia, e está reproduzido nesta edição.
22 Entrevista com Maria Bernadete (Detinha) Passos de Almeida, Salvador, março de 2004. Outros depoimentos e registros corroboram tanto a aptidão de Jacinta para o magistério quanto sua preocupação com os pobres.
23 Apesar de o atual Instituto Central de Educação Isaías Alves – que incorporou a antiga Escola Normal da Bahia – possuir um arquivo, não foi possível localizar ali qualquer dado sobre a ex-aluna e ex-professora Jacinta Passos, nem sobre suas irmãs e prima. Os dados aqui reunidos provêm de entrevistas e registros.
24 Entrevista telefônica com Valdette Maria dos Santos, outubro de 2005. Valdette foi aluna de Jacinta na Escola Normal durante dois anos, provavelmente em 1937 e 1938, quando ingressou na Escola, ainda menina.
25 Entrevista telefônica com Ediria Carneiro Amazonas, janeiro de 2004. Ediria, que mais tarde ingressaria no PCB, onde permaneceu por décadas, é viúva do destacado líder comunista João Amazonas. Foi aluna de Jacinta "antes dos anos 40". Édison Carneiro (1912-1972), citado no depoimento, contemporâneo de Jacinta, foi escritor e autor de livros importantes, sobretudo a respeito de temas afro-brasileiros; militou no PCB.
26 Registros de Lourdes Passos Siqueira e de Dulce Passos Santos. Cf. também registros no mesmo sentido de Zete Passos e Manoel Caetano Filho; entrevista com Maria Bernadete Passos Almeida, maio de 2004. Cf. ainda entrevista com James Amado, Maceió, fevereiro 2004, que baseou essa parte de seu depoimento em relatos da própria Jacinta.
27 Ensaios inseridos neste volume, como "Eu serei poesia", de Gerana Damulakis, tratam do sentimento religioso em Momentos de poesia.
28 A doutrina social da Igreja Católica contemporânea começou a ser oficialmente formulada em 1891, com a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, continuando a ser aprimorada ao longo do século XX, especialmente durante o papado de João XXIII. Representa uma atualização do pensamento social católico, com vistas a fazer com que respondesse às imensas mudanças no mundo. Provocou e provoca dissensões e polêmicas, internas e externas à Igreja. Uma de suas ramificações levou à Teologia da Libertação, influente na América Latina no final do século XX, porém minoritária na instituição.
29 Cf. registros de Zete, Lourdes e Dulce Passos. O livro de Dalila Machado, A história esquecida... , p. 16, refere-se à existência de um "auto sobre a cerimônia da missa" redigido por Jacinta e encenado uma só vez no Mosteiro de São Bento, porque o "cardeal D. Álvaro Augusto, ao tomar conhecimento do sucedido, proibiu sua encenação, com ameaças". Não encontrei fontes que comprovassem o último incidente, mas o registro aqui. O Missal Cotidiano de D. Beda Keckeisen teve diversas edições; o monge escreveu e traduziu outros livros.
30 Os poemas "Missão do Poeta" e "Sacerdócio" foram publicados, respectivamente, em A Ordem, Ano XX, Vol. XXIV, jan/jul 1940, p. 83-84, e Vol. XXIV, jul/dez 1940. O primeiro integrou o livro Momentos de poesia, e o segundo não foi republicado pela autora, aparecendo nesta edição em "Poemas esparsos".
31 Manoel Caetano da Rocha Passos Filho (1917-1972) cursou Medicina (1933-1939) em Salvador, ligando-se ao Partido Comunista Brasileiro nesse período. Colaborou no jornal O Imparcial e, poeta também, compatrilhou com Jacinta o livro Nossos Poemas (1942), escrevendo a parte intilulada "Mundo em Agonia". Casado com Jacy Machado Passos, Caetano Filho, médico pneumologista, contraiu tuberculose em 1945, tratando-se em Campos de Jordão, São Paulo, estado onde passou a residir e onde foi diretor do Instituto Clemente Ferreira.
32 Se Jacinta teve atrações e/ou paixões adolescentes, guardou-as para si, nada dizendo aos irmãos e pais.
33 Natural de Caitité, interior da Bahia, Giovanni Guimarães estudara no Colégio Vieira, em Salvador, e ingressara na Faculdade de Medicina. Era mais velho do que seu colega Caetano Filho. Faleceu em 1966. Giovanni Guimarães (conhecido como GG) tornou-se escritor e jornalista muito popular na Bahia; foi também membro da Academia de Letras do Estado. Jorge Amado, seu amigo desde a adolescência, fez referências a ele e pintou-lhe um comovido retrato póstumo em Navegação de cabotagem. Cf. registros de Zete e Detinha Passos; entrevista com João Falcão, Salvador, maio 2004.
34 Em dezembro de 1943, Jacinta Passos e Giovanni Guimarães foram juntos visitar o amigo comum Jorge Amado, que morava em Periperi, fora da área urbana de Salvador. Cf. depoimento de James Amado; registro de Jorge Amado.
35 "Homens e Obras" foi publicada em A Tarde durante 18 anos, de 1928 a 1946. O médico Carlos Chiacchio manteve também uma página no jornal O Imparcial, realizou diversas iniciativas culturais importantes e publicou livros.
36 "Maria" e "Incerteza" foram publicados, respectivamente, em O Malho, Ano XXXV, nº 180, 12 nov. 1936; e nº 185, 17 nov. 1936. Os dois poemas integraram Momentos de poesia, o primeiro livro de Jacinta Passos, reproduzido integralmente nesta edição.
37 Cf. registros de Zete, Dulce e Lourdes Passos; depoimentos de João Falcão e de Wilson Falcão.
38 A maioria das informações desta parte foi retirada de: Sampaio, Consuelo Novais. "A Bahia e a Segunda Guerra Mundial".
39 O PCB foi criado em 1922, com o nome de Partido Comunista do Brasil. Em 1961, mudou seu nome para Partido Comunista Brasileiro, mantendo a sigla. Em 1962, um grupo dissidente criou o Partido Comunista do Brasil (com a sigla PCdoB). Neste texto, para evitar confusão com o PCdoB, o Partido fundado em 1922 será chamado de Partido Comunista Brasileiro, ou simplesmente Partido, e a sigla usada será PCB.
40 Sobre o ingresso de Manoel Caetano Filho no PCB e a influência de suas ideias sobre Jacinta, cf. entrevista com João Falcão, Salvador, 2004, especialmente este trecho: "Caetano exercia muita influência política sobre Jacinta. Ele, que ingressou primeiro no Partido, foi o responsável pela aproximação e pela entrada dela no PCB".
41 Cf. registros de Manoel Caetano Filho e Zete Passos; entrevista telefônica com Detinha Passos de Almeida, junho de 2005.
42 Cf. os três primeiros textos da Fortuna Crítica desta edição, relativos ao livro Nossos Poemas. Outras informações sobre a influência da Segunda Guerra Mundial na vida intelectual de Jacinta estão em "Jacinta Passos jornalista", nesta edição.
43 Trata-se dos poemas "Mensagem ás crianças do mundo", Ano IV, Nº 15, dez/1942, p. 12 e 13, e "Sangue negro", Ano V, Nº 18, julho de 1943, p. 10 a 13. Cf. Arquivo pessoal de João Falcão, coleção da revista Seiva.
44 Entrevista telefônica com Wilson Falcão, dezembro de 2003. A revista Seiva, nessa primeira fase, perdurou até 1943. Ressurgiu em 1950, quando foram publicados mais cinco números; nessa segunda fase, Jacinta Passos fez parte do conselho de redatores da revista.
45 Entrevista telefônica com Jacob Gorender, dezembro de 2003.
46 Consultar também, nesta edição, o texto "Jacinta Passos jornalista".
47 Seus textos foram reunidos em: Jorge Amado. Hora da Guerra – a Segunda Guerra Mundial vista da Bahia.
48 Para uma avaliação da produção jornalística de Jacinta Passos, consultar, nesta edição, "Uma voz, um grito", de Guido Guerra, além de Fuad, Danielle Spinola. Passagem de Jacinta Passos pelo Jornal "O Imparcial" (1943).
49 "Nós, os cristãos" integra Momentos de poesia, publicado no mesmo ano e reproduzido na presente edição.
50 Os Cadernos do Sanatório fazem parte dos Textos inéditos de Jacinta Passos, nesta edição.
51 Machado, Dalila, op.cit., p.16. Cf. também registro de Zete Passos, de onde foi retirado o ano exato da cena.
52 Entrevista telefônica com Regina Menezes de Figueiredo, setembro de 2005. No mesmo sentido, há registros de Manoel Caetano Filho, Zete e Lourdes Passos.
53 Renato Passos, fragmento de depoimento escrito inédito, 2005. Embora primo de Jacinta, Renato a chamava de tia, devido à grande diferença de idade entre eles. Renato Passos registrou lembranças muito afetuosas de sua família e de suas vivências em Cruz das Almas no livro Cruz das Almas dos meus tempos.
54 Jacinta e o pai no início combatiam o Estado Novo, porém por razões diferentes. Com o passar do tempo, suas ideias e opiniões políticas foram se distanciando cada vez mais.
55 Esta parte baseia-se nos poemas de amor de Jacinta publicados em Momentos de poesia, e em entrevista com o então namorado de Jacinta, mantida anônima, a pedido do entrevistado (já falecido). Embora Jacinta fosse muito reservada a respeito de sua vida afetiva, há registros, no mesmo sentido, de suas irmãs Zete e Lourdes: à época, as duas suspeitaram fortemente de que Jacinta "tinha alguém", porém, por mais que insistissem, não conseguiram saber o nome do jovem. Os trechos citados nesta parte, entre aspas, que se intercalam aos poemas de Jacinta, foram todos retirados da entrevista.
56 Todos os trechos desta parte, entre aspas, são fragmentos da entrevista citada na nota anterior. Os versos de Jacinta, sem aspas, escritos todos em 1941, foram publicados em Momentos de poesia.
57 "Canção do amor livre", em Poemas políticos, livro dedicado a James.
58 Versos de "Três canções de amor", dedicadas a James, do livro Canção da partida.
59 O cartório situava-se à rua José Bonifácio nº 292, São Paulo. Na certidão de casamento, o nome de solteira da noiva está grafado "Jacintha Velloso Passos", e sua data de nascimento, "1º de dezembro de 1914", em vez de 30 de novembro de 1914, quando ela nasceu, segundo seus outros documentos pessoais e as informações de suas irmãs; conforme já assinalado, não foi possível localizar a certidão de nascimento de Jacinta. A data de nascimento de James, 31 de março de 1921, também está incorreta: ele nasceu em 31 de março de 1922.
60 Entrevista com Detinha Passos de Almeida, Salvador, maio de 2005.
61 13 poemas de Canção da partida, os primeiros do livro, foram escritos durante o ano de 1944. Muito exigente com a própria produção, Jacinta publicava apenas parcela pequena do que escrevia.
62 Quatro desses desenhos integram o acervo do Museu Lasar Segall, em São Paulo. O quinto, o que ilustrou a capa, foi dedicado pelo artista a James Amado, pertencendo hoje a Janaína Amado.
63 Ver "Fortuna crítica", neste volume.
64 Cf. Cândido, Antonio. "O poeta e a poetisa", em "Fortuna crítica", neste volume.
65 Paes, José Paulo. "Entre lirismo e ideologia". Texto integral reproduzido em "Fortuna crítica", neste volume.
66 A mesa diretora do Congresso foi formada, entre outros, por Aníbal Machado (presidente), Murilo Rubião, Jorge Amado (que chefiava a delegação baiana) e Dionélio Machado, com a presença de convidados estrangeiros. James Amado também integrou a delegação da Bahia.
67 Gattai, Zélia. Um chapéu para viagem, p. 33. O poema de Jacinta Passos citado no texto não foi localizado.
68 Regina Menezes Figueiredo, citada no poema "Canção da partida", do livro homônimo, e a quem Jacinta já dedicara o poema "Chiquinha", do mesmo livro. Regina, que foi entrevistada para este estudo, acompanhou Jacinta também em outras ocasiões.
69 Entrevista telefônica com Ediria Carneiro Amazonas. Ediria Carneiro, baiana, viúva do dirigente comunista João Amazonas, é artista plástica. Prima do folclorista Édison Carneiro, de quem recebia livros e ensinamentos, acabou se mudando da Bahia, quando seu modo de pensar e agir distanciou-se muito dos valores de sua família nuclear.
70 Entrevista telefônica com C.H., mantida anônima, a seu pedido.
71 Entrevista com Zélia Gattai, Salvador, maio de 2004.
72 Registro de Dulce Passos Santos.
73 José Paulo Paes e James Amado foram amigos até a morte do poeta. Mais de quatro décadas após o encontro em Curitiba, José Paulo Paes, a pedido de Janaína Amado, organizou a segunda edição de Canção da partida, onde inseriu seu belo, denso ensaio sobre a obra de Jacinta, "Entre lirismo e ideologia", reproduzido neste volume.
74 Entrevista com Zélia Gattai, Salvador, maio de 2004.
75 Essa posição aproximava comunistas e trabalhistas. Na prática, ela significava sustentar Getúlio no poder ainda durante um bom tempo. O PCB aproximou-se do velho inimigo, que tanto os perseguira durante o Estado Novo. Essa posição foi muito popular à época, gerando o movimento queremista, cujas palavras de ordem eram "Queremos Getúlio" e "Constituinte com Getúlio". O crescimento do queremismo, contudo, aglutinou as forças contrárias entre si, apressando a queda do Estado Novo.
76 Mosteiros, casernas e manicômios são outros exemplos de instituições totais. Sobre o assunto, cf., entre outros, Michel Foucault. Microfísica do poder e Vigiar e punir; E. Goffman, Manicômios, prisões e conventos. Esta descrição da postura de um outro comunista ilustra bem o comportamento dos militantes: [Pedro] Pomar não era apenas um comunista revolucionário profissional, no sentido de que sua sobrevivência dependia do trabalho partidário e dos recursos pecuniários daí advindos, mas um ser humano que se dedicava completa e totalmente à perspectiva e à ação de transformar a sociedade e mudar as condições de trabalho e de vida das classes que considerava exploradas e oprimidas pela burguesia e por outras classes dominantes. Wladimir Pomar. Pedro Pomar – uma vida em vermelho, p.10.
77 A entrevista, "Só unidas as mulheres resolverão seus problemas", foi publicada em O Momento em 10/12/1945. Integra "Textos jornalísticos", nesta edição.
78 Além de Jacinta, foram candidatos do PCB a deputados nacionais constituintes pela Bahia: Alfredo Moreira Freitas, Aristeu Nogueira, Ariston Andrade, Armênio Guedes, Aurélio Rocha, Aydano Pedreira do Couto Ferraz. Carlos Marighela, Demócrito Gomes de Carvalho, Diógenes Arruda Câmara, Edgar Paulo da Mata, Estanislau Santana, Eusínio Gastão Lavigne, Giocondo Gerbase Alves Dias, João da Costa Falcão, João do Carmo, Joaquim Seixas do Valle Cabral, Juvenal Luiz Souto Junior, Mecenas da Silva Mascarenhas, Manuel Batista de Souza, Nelson Silva Schaun, Vicente Paula de Jesus e Waldir de Oliveira e Souza.
79 No total, o PCB elegeu 14 deputados constituintes – de um total de 286 – e um senador (Prestes), de um total de 42 senadores.
80 Luís Henrique Dias Tavares, entrevista telefônica, julho de 2005.
81 Essas eleições ocorreram a 19 de janeiro de 1947. Jacinta obteve 28 votos. Os candidatos do PCB à Assembleia Legislativa da Bahia, a denominada "Chapa Popular", foi composta de muitos nomes, entre os quais os de Giocondo Dias, Cosme Ferreira, Mário Alves, João Falcão, Aristeu Nogueira e Walter da Silveira. O PCB elegeu dois deputados estaduais: Giocondo Dias, com 1.904 votos, e Jaime da Silva Maciel, com 1174 votos. Além de Jacinta, havia mais três candidatas mulheres: Carmosina Nogueira, Dagmar Guedes e Maria Lopes de Melo. Na chapa, Jacinta Passos Amado (uma das raras vezes em que apareceu com o nome de casada) era apresentada como "escritora e militante comunista". Cf. O Momento, 17 de novembro de 1946, p. 1 e 3. Nessas eleições, Manoel Caetano Passos, pai de Jacinta, foi eleito pela UDN, tornando-se o mais idoso parlamentar daquela legislatura.
82 Registros de Lourdes, Zete e Berila Passos, de Tomásia de Queiroz e de Eduardo Amado de Freitas.
Depoimento escrito de Luís Henrique Dias Tavares, 2005. Entrevista com James Amado, Maceió, fevereiro de 2004, e Salvador, março de 2004.
83 Cf. Certidão de batismo de Janaína Maria Passos Amado, maio de 1947. A iniciativa do batismo foi dos avós maternos, contrariando decisão de Jacinta e James, que não queriam a filha batizada. O nome "Janaína" tornou-se popular no Brasil depois que a atriz Leila Diniz assim chamou sua primeira filha, Janaína Diniz Guerra, nascida em 1971. Grávida, Leila posara para fotos na praia vestindo biquíni, o que não era costume no Brasil; isso atraiu ainda mais atenção para o nascimento da sua Janaína.
84 Cf. entrevista com Nívea Maria de Almeida Dantas, Salvador, março de 2005; entrevista com James Amado, Salvador, março de 2005.
85 Depoimento escrito de Luís Henrique Dias Tavares, setembro de 2005.
86 Acervo da Fundação Casa de Jorge Amado.
87 Seiva ressurgiu sob o comando de Wladimir Guimarães, diretor; Luís Henrique Dias Tavares, redator-chefe; e Clóvis Moura, secretário. Durou 5 números, até junho de 1952. Cf. Arquivo pessoal de João Falcão, coleção xerocopiada da revista Seiva, e também Falcão, João. A história da revista Seiva.
88 O poema (que integra o livro de Jacinta Poemas políticos, reproduzido nesta edição) foi publicado em Seiva, nº 1, Ano VI, novembro de 1950; o manifesto, no nº 2, Ano VI, dezembro 1950/janeiro 1951.
89 "Canção Atual", que integra Poemas políticos, livro dedicado a James e escrito durante a permanência de ambos na fazenda.
90 Depoimento de Regina Menezes Figueiredo. Regina foi a única empregada que Jacinta levou para a fazenda.
91 Este apartamento foi comprado por João Amado para o filho, como retribuição pelos seus anos de trabalho na fazenda. Com cerca de 140 metros quadrados, o imóvel situa-se à rua Princesa Isabel, nº 173, apto. 803.
92 Entrevista com Regina Menezes de Figueiredo, Salvador, março de 2004; registros de Tomásia Ribeiro de Queirós. Entrevista com Zélia Gattai, Salvador, maio de 2004.
93 A editora, Casa do Estudante do Brasil, situada no Rio, era ligada ao PCB. A intenção, anunciada por James no cartão-postal de 1948, transcrito algumas páginas atrás, de que esse livro de Jacinta fosse publicado pela Editora Martins, não se concretizou.
94 Não foram localizadas resenhas críticas sobre Poemas políticos.
95 Entrevista com Thereza Araújo, Lisboa, abril de 2009. O marido de Thereza era o militante e intelectual Raymundo Araújo, que Jacinta também procurou em outra ocasião, como se verá.
96 Carta de Jacinta à cunhada Zélia Gattai, 20 de setembro de 1951. Trata-se do último documento preservado de Jacinta, antes de sua crise e internação. Zélia reencontrou a carta em sua casa de Salvador, em 2004, cinquenta e três anos após havê-la recebido no Rio.
97 Paloma. Paloma Jorge Amado, filha de Zélia e Jorge, nascida em Praga, em 19 de agosto de 1951.
98 João. João Jorge Amado, filho de Zélia e Jorge, nascido no Rio, em 25 de novembro de 1947.
99 Os velhos. Refere-se a Eulália e João Amado, seus sogros, que moravam no Rio de Janeiro. O casal possuía uma fazenda de cacau no município de Pirangi, sul da Bahia, referido a seguir na carta, para onde se dirigia todos os anos.
100 Dr. Fabião. Mário Fabião, médico-cirurgião que atuava no Rio de Janeiro, onde costumava atender, em geral de graça, os membros do Partido Comunista. É possível que a cirurgia a que Jacinta se refere, por três vezes adiada, fosse uma ligação de trompas. A família Passos teve notícias de que ela ligara ou ligaria as trompas, por achar que cuidar de muitos filhos era incompatível com a militância política; a referência de Jacinta a Zélia, no início da carta ("um casal já chega, dona"), parece reforçar essa ideia. James, contudo, não se lembra de uma cirurgia de ligação de trompas, o que poderia indicar que Jacinta a planejou, mas não a concretizou.
101 Negócio de finanças. Referência ao trabalho de finanças que os militantes do PCB deviam realizar, a fim de angariar dinheiro para as despesas do partido. No caso, Jacinta deveria revender, por um valor mais alto do que comprara, exemplares de um livro de autoria de Jorge Amado.
102 E. Branco. Referência à costureira Elisa Branco, nascida em 1912, que, a 7 de setembro de 1950, durante a comemoração da Independência, empunhou uma faixa em frente ao palanque das autoridades, protestando contra o apoio do Brasil aos Estados Unidos na Guerra da Coreia, e contra o possível envio de tropas brasileiras para esta guerra. Condenada pelo Tribunal Militar a 4 anos e 3 meses de prisão, Elisa viu formar-se, em torno do seu caso, um grande movimento popular. Foi absolvida em 1951, em novo julgamento, conforme Jacinta informa. No ano seguinte, em 1952, Elisa Branco viajaria à Europa em companhia de Zélia e Jorge Amado, para receber o Prêmio Stalin. Mais de cinquenta anos depois, continuava comunista, conforme se lê em "Elisa Branco, 87 anos, a costureira que ganhou o Prêmio Stalin", revista Isto é Gente, 27 de junho de 2005.
103 Referência a Luiz Carlos Veiga, filho do primeiro casamento de Zélia, que permanecera no Brasil, com o pai.
104 Entrevistas com James Amado, Maceió, fevereiro de 2004; Salvador, março de 2004 e fevereiro de 2005. Registros de Tomásia Ribeiro de Queirós.
105 Isaías Paim, casado com a escritora e também militante Alina Paim, costumava atender membros do PCB. Tornou-se um nome respeitado na psiquiatria brasileira, com vários livros publicados.
106 Embora o tratamento dos doentes mentais tenha evoluído desde a década de 50, ainda hoje há instituições, no Brasil como em outros países, que tratam seus pacientes sistematicamente à base de eletrochoques.
107 Entrevista com James Amado, Salvador, março de 2004.
108 Luís Henrique Dias Tavares, depoimento escrito, setembro de 2005, e entrevista telefônica, dezembro de 2003.
109 Entrevistas com James Amado, Maceió, fevereiro de 2004; Salvador, março de 2004.
110 Entrevista com Marise de Araújo Ramos, irmã de Raymundo Araújo, Maceió, fevereiro de 2004.
111 Entrevista com James Amado, Salvador, março de 2004.
112 Recordação de Janaína Amado e registro de Eulália Leal Amado.
113 Embora reunisse um grupo conceituado de médicos, a clínica também aplicava choques elétricos nos pacientes, procedimento comum à época. A Clínica Charcot continua funcionando.
114 Entrevista telefônica com Maria Helena (Lena) Passos, filha de Manoel Caetano Filho, dezembro de 2003. A Clínica Charcot informou que não possui mais os registros médicos dos pacientes internados na década de 1950 nem sabe se estes foram encaminhados para outra instituição.
115 O poema foi publicado na revista Fundamentos. São Paulo: Ano V, n. 31, 1953, p. 10, e está reproduzido nesta edição. O ano em que foi escrito, 1952, consta da publicação original.
116 Cf. Zelia Gattai. Chão de meninos. A residência de Eulália e João Amado situava-se à rua Rodolfo Dantas, nº 16, apto. 804, em Copacabana. Algum tempo depois, Zélia e família passaram a morar no mesmo prédio, no apto. 704.
117 Este bilhete, como os outros dois, foram reencontrados por Zélia Gattai em seu apartamento do Rio, no segundo semestre de 2004.
118 Jacinta propõe-se a pagar a passagem da filha a São Paulo; linhas à frente, pede a Zélia que lhe telefone, mas a cobrar. Essas atitudes eram típicas de Jacinta Passos: mesmo quando dispunha de poucos recursos, fazia questão de jamais dever nada a ninguém.
119 André. André Amado, filho de Fanny e Joelson Amado (irmão de James), então criança.
120 Registros de Dulce Passos e de Jaci Machado Passos, respectivamente irmã e cunhada de Jacinta; entrevista telefônica com Maria Helena Passos, sobrinha de Jacinta, dezembro de 2003.
121 Entrevista telefônica com Maria Helena Passos, a Lena (filha de Manoel Caetano Filho), dezembro 2003.
122 Idem, ibidem.
123 Caetano e Jacy. Manoel Caetano Passos Filho e sua mulher, Jacy Machado Passos.
124 Entrevista com Detinha Passos Almeida, maio de 2004.
125 Tio Joelson. Joelson Amado, irmão de James, à época residente em São Paulo.
126 A Coluna, reproduzido nesta edição, foi publicado em livro em 1957. A informação sobre a data da escrita do poema está incluída no livro: "escrito em São Paulo: 1953-1954".
127 O volume se chamaria Histórias do Brasil e outros poemas, conforme informação constante do livro A Coluna.
128 Entrevista com Terezinha Siqueira de Andrade, Maceió, novembro de 2003; entrevistas telefônicas com Detinha Passos de Almeida, junho de 2004, e com Marta Valença, março 2004. Registro de Zete Passos.
129 Entrevista com Eliana Passos de Almeida, Salvador, março de 2004. Era uma criança quando sua mãe, Detinha Passos de Almeida, a levava para visitar os parentes em Nazaré.
130 Maria, filha mais velha de Lourdes, desde pequena morava com os avós. Lourdes Passos posteriormente deu à luz a mais três filhas. Berila e Manoel Caetano Passos tiveram apenas netas: sete de Lourdes, duas de Caetano e uma de Jacinta.
131 Entrevista com Terezinha Siqueira de Andrade, sobrinha de Jacinta, Maceió, novembro de 2003; entrevistas telefônicas com Terezinha Siqueira de Andrade, março de 2004, e com Maria Siqueira Vianna, também sobrinha de Jacinta, fevereiro de 2004.
132 Entrevistas telefônicas com Maria Helena (Lena) Machado Passos, dezembro de 2003, e com Maria Siqueira Vianna, fevereiro de 2004; entrevista com Terezinha Siqueira de Andrade, Maceió, novembro de 2003.
133 Basbaum, Leôncio. História sincera da república. Vol. 3, p. 137.
134 Para estimular a militância, principalmente de intelectuais, o PCB organizou à época vários congressos, de caráter local, regional e nacional, além de participar dos internacionais, o mais importante sendo a Assembleia Mundial da Paz, em Helsinque, em junho de 1955. A relação completa da delegação brasileira a este último consta de João Falcão, O partido comunista que eu conheci, p. 354.
135 Não foi possível localizar exemplares de O Momento do ano de 1955. Em 8 de abril de 1956, data do primeiro exemplar disponível do jornal nesse ano, um artigo de Jacinta, intitulado "Sobre a poesia brasileira", é continuação de um ou mais textos anteriores. Daí a suposição de que ela começou a colaborar com o jornal em 1955, ano em que retornou a Salvador.
136 Estes textos de Jacinta, com notas explicativas, foram incluídos na presente edição.
137 Cozinhar, pentear matéria. Gíria jornalística. Na década de 1950, indicava pequenas alterações em material publicado em outro jornal ou revista, com vistas a uma nova publicação, com um texto diferente do original. Atualmente, indica também alterações em textos produzidos por agências de notícias, distribuídos simultaneamente a vários jornais.
138 Entrevista com o advogado Jafé Teixeira Borges, Salvador, abril de 2004. Jafé havia escrito um romance policial, Sequestro no Museu de Arte Sacra, então manuscrito. Nessa mesma entrevista, contou: Jacinta levou os originais, dizendo que os leria. Passou 15 dias indo lá, e nada dizia. Um belo dia, colocou o livro sobre a mesa: '- Gostei. A trama está bem costurada. Você parece que vai dar para escritor.' Alguém interrompeu nossa conversa, com um assunto de trabalho. Não voltamos mais ao livro, por vergonha minha. O livro só foi publicado bem mais tarde, em 1968, pela Global.
139 Moisés Vinhas. O Partidão, p. 296.
140 O episódio, narrado por Paulo Mercadante, está registrado em MORAES, Denis. "Carlos Marighella, 90 anos", in: "Gramsci e o
Brasil", http://www.artnet.com.br.
141 Sobre os outros livros já escritos por Jacinta na ocasião, ver, nesta edição, o texto que precede os poemas de A Coluna.
142 A crítica de Paulo Dantas integra o presente livro. Ler também o ensaio "Coluna de Fogo", de Ildásio Tavares, escrito especialmente para esta edição.
143 Como em: Anita Leocádia Prestes. Uma epopeia brasileira: a coluna Prestes.
144 À época, após terminar a quarta série, os alunos cursavam um ano "de admissão", isto é, um ano escolar em que reviam as matérias dos anos anteriores, com vistas à aprovação no exame de admissão ao ginásio, às quatro séries seguintes. Algumas crianças tentavam o exame de admissão assim que terminavam a quarta série.
145 Apartamento à rua República do Peru, esquina com av. Nossa Senhora de Copacabana, de três quartos, com cerca de 150 metros quadrados, em prédio de muito boa qualidade. Dado a James pelo pai dele, em 1957.
146 O desprezo de Jacinta pela moda ocorreu nessa época, a partir de meados da década de 1950. Conforme relatado, em épocas anteriores ela foi uma mulher vaidosa, que gostava de se vestir com apuro e de acordo com as tendências do momento.
147 As exceções a esse comportamento, todas em Salvador, foram em relação a algumas pessoas da sua família e às crianças pobres a quem dava aulas.
148 Esse fato ocorreu no Colégio Mallet Soares, em Copacabana. Imagino que o "procedimento pedagógico" utilizado fosse comum à época.
149 "Desde sua libertação, com o fim do Estado Novo, Prestes passou a ser exaltado por suas virtudes, aclamado por seu saber e cultuado por seu heroísmo. [...] Os seus aniversários, por exemplo, eram comemorados com grande alarde. Tratava-se dos momentos mais fecundos para dignificar sua vida e sua personalidade.", in: Jorge Ferreira, Prisioneiros do mito, p. 251.
150 Registros de James Amado; recordações de Janaína Amado.
151 À época, a guarda dos filhos de casais separados costumava ser dada à mãe, a não ser quando algum motivo grave fosse provado contra ela. O divórcio não existia no Brasil.
152 Entrevista com James Amado, Salvador, março de 2004; recordações de Janaína Amado. À época, Janaína descobriu onde James guardava as cartas de Jacinta, passando a lê-las, escondido. A menina ficou angustiada, pois, embora gostasse da mãe e a respeitasse, não queria morar com ela. Certo dia, chorando, confessou ao pai que lia as cartas e morria de medo de ter de morar em Salvador. James lhe garantiu que isso não aconteceria.
153 Em carta anterior a Jacinta, com o objetivo de demovê-la da ação judicial, James usara, entre outros argumentos, o de o Poder Judiciário fazer parte de um regime burguês e, portanto, dever ser desconsiderado por ela que, como comunista, não devia ter pruridos legais como o do desquite.
154 James não reivindicava direitos sobre a produção literária de Jacinta, nem teria qualquer base legal para fazê-lo, se o desejasse. A frase chama a atenção para a importância que Jacinta atribuía à sua produção literária, o "único bem que possuo", conforme escreveu. Demonstra também seu temor de vir a perder o poder de decidir sobre aquilo que criava. Embora infundado, esse medo exisita, o que deve tê-la angustiado.
155 A frase demonstra que Jacinta se considerava curada. Portanto, a internação que sofreria poucos meses depois lhe deve ter sido particularmente dolorosa.
156 Inaê e Maurício. Inaê e Maurício Amado, irmãos de Janaína, filhos do segundo casamento de James.
157 Carta de Jacinta Passos a James Amado, 10 de agosto de 1958, dada por James a sua filha Janaína em Salvador, em março de 2004, afirmando-lhe que desse ao documento o destino que desejasse. Na carta, acima do nome "Jacinta Passos", datilografado à máquina como o restante do texto, apõe-se a assinatura, manuscrita em lápis azul.
158 Carlos Marighella, nascido em Salvador em 1911, faleceu em 1969, metralhado pela ditadura militar que combatia. Foi um dos mais importantes comunistas brasileiros.
159 O comunista Heitor Ferreira Lima relatou, em suas memórias Caminhos percorridos, as emoções do dia em que foi escolhido para estudar na URSS; outro militante, Leôncio Basbaum, em História sincera da república, apresentou as razões do PCB para escolher o jovem militante Heitor. O caso de Heitor é um exemplo, entre muitos.
160 A narração do conjunto dos fatos aqui tratados baseou-se em: entrevistas com James Amado, Maceió, fevereiro de 2004, Salvador, março de 2004 e fevereiro de 2005; recordações de Janaína Amado; registros de Lourdes, Zete e Berila Passos; registros de Tomásia Ribeiro de Queirós.
161 Registros de Zete e Lourdes Passos. Apesar do intenso trabalho partidário, Jacinta não deve ver recebido nenhum recurso do PCB, à época em péssimas condições financeiras.
162 Entrevista com Nívea Maria de Almeida Dantas, Salvador, março de 2005. Nívea é prima em segundo grau de Jacinta. Na ocasião, em companhia da mãe, Detinha Passos de Almeida, visitava os parentes em Nazaré; era muito jovem.
163 Registro de Luciano Passos, primo de Jacinta, presente ao almoço.
164 Entrevista com Renato Passos, Salvador, 2005. Renato era primo de Jacinta; sua mãe era irmã de Manoel Caetano Passos.
165 Entrevista telefônica com Maria Siqueira Vianna, fevereiro de 2004; Maria residia na casa de Nazaré, com os avós e as tias.
166 Entrevista telefônica com Maria Siqueira Vianna, fevereiro de 2004, registro de Zete Passos.
167 Entrevista com Regina Menezes de Figueiredo, Salvador, março de 2004; entrevista telefônica com Terezinha Siqueira de Andrade, julho de 2004; registro de Zete Passos.
168 Entrevista com Regina Menezes de Figueiredo, Salvador, março de 2004; registro de Jacy Machado Passos.
169 Id., ibidem.
170 Registro de Zete Passos; entrevista com Regina Menezes de Figueiredo, Salvador, março de 2004.
171 No depoimento de Regina Menezes de Figueiredo (Salvador, março de 2004), há a informação de que Jacinta teria efetivamente expulsado a mãe e a irmã de casa nessa ocasião, mas isso não parece ter chegado a acontecer, segundo relato de outros familiares. Possivelmente, houve apenas a ameaça de expulsão, feita por Jacinta.
172 O Sanatório São Paulo, que não guarda mais os prontuários dos pacientes da década de 1950, situa-se à Ladeira do Aquidabã, 91, no bairro do Barbalho, Salvador, próximo ao sobrado onde moravam os Passos.
173 Entrevista telefônica com Terezinha Siqueira de Andrade, junho de 2004.
174 Ruy Santos. "Meu amigo quase irmão". Tribuna da Imprensa. Salvador, 6 nov. 1958. Ruy Santos foi expressivo político e intelectual baiano, ligado à UDN. Durante 27 anos, foi amigo de Manoel Caetano, que pertencia a uma geração mais velha do que a dele. Juraci Magalhães foi eleito governador da Bahia nessas eleições de 1958, as últimas de que participou Manoel Caetano da Rocha Passos.
175 Informações para essa parte foram colhidas em: entrevista com Terezinha Siqueira de Andrade, Maceió, novembro de 2003; entrevista telefônica com Marta Passos Valença, janeiro de 2004; registro de Lourdes Passos.
176 Barra dos Coqueiros, ou Ilha dos Coqueiros, como então era chamada, foi movimentada no período colonial, devido à entrada de navios em sua barra. Contudo, desde a elevação de Aracaju a capital da Província, em 1855, Barra dos Coqueiros passou a gravitar em torno da nova capital. Tornou-se município autônomo em 1953, porém continuou pequena, economicamente dependente de Aracaju. Hoje, vê o turismo desenvolver-se, graças sobretudo à inauguração, em 2006, de uma grande ponte que agora a une à capital.
177 Aracaju possuía 115.713 habitantes em 1960; atualmente, sua população é de cerca de 550.000 habitantes. Capital desde 17 de março de 1855, e principal centro urbano do Estado desde a década de 1920, a jovem Aracaju demorou, contudo, a conhecer o progresso urbano que atualmente a caracteriza.
178 Entrevista com Antônio Ramos Maia, Barra dos Coqueiros, junho de 2004.
179 Entrevista com Antônio Ramos Maia, Barra dos Coqueiros, junho de 2004. Este senhor, antigo morador na região, nos mostrou o local exato onde se situava o antigo barraco de Jacinta, hoje demolido. Ficava próximo de onde hoje chegam e partem as balsas.
180 Idem, ibidem; registro de Lourdes Passos, com base em notícias transmitidas a ela por Ely Passos, prima de Jacinta que morava em Aracaju. Junto com o marido, dr. Walter, Ely manteve contato regular com Jacinta durante todo o período em que esta viveu em Sergipe.
181 Trata-se de Ely Passos, referida na nota anterior.
182 Barraca mesmo, de lona. Morador de Barra dos Coqueiros à época em que Jacinta lá viveu, Antônio Ramos Maia nos informou, com muita segurança, que o barraco onde Jacinta morava era de madeira, apontando inclusive seu local original, o que coincide com a informação obtida por Dalila Machado em sua pesquisa. Provavelmente, a barraca de lona citada por Regina, cuja viagem deve ter ocorrido em 1959, foi a primeira residência de Jacinta no local. Dalila Machado refere-se a uma mudança de Jacinta dentro de Barra dos Coqueiros, o que reforça essa hipótese. Cf. entrevista com Antônio Ramos Maia Barra dos Coqueiros, junho de 2004; Dalila Machado. A história esquecida... , p. 27.
183 Entrevista com Regina Menezes de Figueiredo, Salvador, março de 2004.
184 Entrevista com Agonalto Pacheco, Aracaju, junho de 2004; entrevista com Antônio Matos, Aracaju, junho de 2004; entrevista com Wellington Dantas Mangueira Marques, Aracaju, junho de 2004. Registro de Lourdes Passos, baseado em informações de Ely Passos. Não foram localizados exemplares do jornal Folha Popular.
185 Entrevista com Wellington Dantas Mangueira Marques, Aracaju, junho de 2004. Dalila Machado, A história esque cida... , pg. 27, registra que o filme citado era "A balada do soldado". Com base no mesmo informante, apresenta a versão de que só teriam prestado atenção à fala de Jacinta os estudantes secundaristas, convidados por ela para uma reunião em Barra dos Coqueiros, no dia seguinte, à qual não teriam comparecido.
186 Os principais dirigentes do PCB em Sergipe, à época, eram Agonalto Pacheco (mais tarde um dos fundadores, junto com Carlos Marighella, da Aliança Libertadora Nacional, ALN, e um dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador americano sequestrado no Rio, Charles Elbrick), Robélio Garcia – que parece ter sido o principal contato de Jacinta no Estado, e com quem ela se reencontraria mais tarde no sanatório, conforme se verá –, Gilberto "Burguesia" e sua mulher, Edite Marques. No movimento estudantil, destacavam-se os secundaristas Wellington Mangueira e Marcélio Bonfim.
187 Entrevista com Wellington Dantas Mangueira Marques, Aracaju, junho de 2004. Wellington Mangueira filiou-se ao PCB em 1966, mas, dada a sua condição de líder secundarista, em 1963 já mantinha relações com vários militantes. O professor Franco Freire, citado no texto, de família proeminente na área cultural sergipana, não pertencia organicamente ao PCB, mas apoiava as iniciativas da organização, o que lhe valeu várias prisões.
188 Entrevista com Zelita Correia, Aracaju, junho de 2004. Zelita pertencia à AP (Ação Popular). Os processos políticos abertos em Aracaju eram julgados pela Auditoria Militar de Salvador.
189 Cf. registros de Lourdes e Zete Passos, com base em informações de Ely Passos e do dr. Hercílio Cruz; entrevista com Yolanda Valois Cruz, Aracaju, junho de 2004; entrevista com Maria Helena Ates, Aracaju, junho de 2004.
190 Entrevista com Antônio Ramos Maia, Barra dos Coqueiros, junho de 2003.
191 Dalila Machado, A história esquecida... , p. 28. Registro de Lourdes Passos traz versão semelhante.
192 "Duas Américas", poema até agora inédito, integra a presente edição. Cf. registros de Lourdes e Zete Passos, apoiados em informações de Ely Passos, que residia em Aracaju, prima de Jacinta que foi a primeira pessoa da família a estar com ela após a prisão.
193 Dalila Machado. A história esquecida de Jacinta Passos, p. 28.
194 Dalila Machado. A história esquecida de Jacinta Passos, p. 28-29. A entrevista telefônica da autora com o então já Major Rabelo, hoje falecido, aconteceu em julho de 1991. O pavilhão de mulheres referido na última frase do texto ficava dentro do 28 BC. Fora construído no ano anterior, para manter separadas dos homens as diversas mulheres presas em Sergipe. Depoimentos dessas mulheres, presas mais ou menos na mesma época e no mesmo local de Jacinta, revelam interrogatórios e tratamentos bem menos pacientes, alguns francamente violentos, por parte de certos militares. Cf. entrevista com Zelita Correia, Aracaju, junho de 2004.
195 Entrevista com Yolanda Valois Cruz, Aracaju, junho de 2004. Yolanda trabalhava na clínica com o marido.
196 A Casa de Saúde Santa Maria, situada no bairro Siqueira Campos, ainda existe, atendendo a cerca de 100 pacientes. Em meados da década de 60, quando Jacinta ali foi internada, atendia a 250, sua lotação completa: cf. entrevistas com Yolanda Valois Cruz, viúva do dr. Hercílio Cruz e atual proprietária da clínica, Aracaju, junho de 2004, e com Maria Helena Ates, enfermeira da Clínica Santa Maria durante muitos anos, quando Jacinta lá esteve internada, Aracaju, junho de 2004. Registros de Lourdes, Zete e Dulce Passos.
197 Dalila Machado. A história esquecida... , p. 30-31.
198 As duas exceções à afirmação são pormenores, e mesmo assim podem ser justificados: a) Jacinta considerou como data de seu ingresso no PCB o ano de 1944, e não o ano de 1945, quando oficialmente aderiu à organização; a escolha pode ser justificada pelo fato de, em 44, ela ter efetivamente iniciado um trabalho mais intenso e regular junto ao Partido, conforme narrado neste texto. Desde essa época, em todas as situações Jacinta sempre afirmou sua condição de comunista; b) Janaína tinha à época não 17 anos, como Jacinta afirmou, mas 18; seu aniversário, porém, ocorrera no mês de abril, quando Jacinta estava presa, e, recém-internada pela segunda vez, ela podia perfeitamente não ter se apercebido ainda da sua passagem.
199 Dalila Machado. A história esquecida... , nos anexos do livro. Dalila teve acesso à ficha clínica do médico, repassada pelo próprio dr. Hercílio Cruz. Em 2004, por ocasião da presente pesquisa, os dados da ficha clínica não estavam mais disponíveis na Clínica Santa Maria (Perderam-se, foi a justificativa apresentada.)
200 Cf. entrevista com Zelita Correia, Aracaju, junho de 2004. Zelita esteve internada na Clínica Santa Maria na década de 1970, afirmando haver ali recebido, contra a sua vontade, eletrochoques. O dr. Hercílio Cruz, bem como sua esposa, Yolanda Valois Cruz, e a enfermeira Maria Helena Ates negaram que Jacinta tivesse recebido qualquer eletrochoque na instituição.
201 Cf. o poema completo em "Textos inéditos", nesta edição.
202 Entrevista com a enfermeira Maria Helena Ates, Aracaju, junho 2005.
203 Entrevista com a enfermeira Maria Helena Ates, Aracaju, junho 2005.
204 Entrevista telefônica com Maria Helena Ates, março 2005.
205 Cf. "Os manuscritos de Jacinta Passos", nesta edição.
206 Cf. registros de Zete Passos e Tomásia de Queiroz. Entrevista com Terezinha Siqueira de Andrade, Maceió, novembro de 2003, e entrevista telefônica com Marta Valença, março de 2004. Os "livros a publicar" relacionados em A Coluna foram os seguintes: "História do Brasil e outros poemas (poesia), "3 dramas" (teatro), "Contos para Janaína" (literatura infantil), "Estudos, críticas e divulgação" (crítica literária), "3 contos" (contos), "O Céu" (literatura infantil) e "2 Professores" (literatura infantil). Nessa lista foi relacionado também o próprio livro A Coluna, indicando que a lista provavelmente foi preparada antes da publicação desse livro e, por lapso, não corrigida. Conforme se lê em "Os manuscritos de Jacinta Passos", nesta edição, nos Cadernos do Sanatório Jacinta citou de memória trechos de alguns desses originais, mostrando que efetivamente existiam. Além disso, os testemunhos são unânimes em afirmar que, em Salvador – como durante toda a sua vida –, Jacinta dedicou-se com afinco e disciplina à escrita.
207 Entrevista com a enfermeira Maria Helena Ates, Aracaju, junho de 2004, e entrevista telefônica, setembro de 2004. Em relato anterior a Dalila Machado, publicado em A história esquecida de Jacinta Passos , a enfermeira Ates declarou que Jacinta teria passado a noite da fuga "num bueiro". Ela não se referiu a esse fato, nas entrevistas dadas para o presente trabalho.
208 Entrevista telefônica com a enfermeira Maria Helena Ates, setembro de 2004.
209 Registros de Lourdes Passos. Entrevista com Terezinha Siqueira, Maceió, novembro 2003. Segundo a enfermeira Ates, Jacinta também não reconhecia Ely e Walter, seus primos.
210 Jorge. Jorge Miguel Mayer, então marido de Janaína.
211 Em 1968 ou 1969, contudo, Jacinta anotou, num de seus cadernos: "Janaína é minha filha, não é minha propriedade" (Cadernos do Sanatório 18, nesta edição em "Comprimidos poéticos").
212 AI-5. Ato Institucional nº 5, promulgado em 13 de dezembro de 1968 pelo governo militar, suprimiu as liberdades democráticas ainda vigentes no país, completando o regime político de exceção. O AI-5 dava ao Executivo poderes para, entre outros, fechar o Congresso Nacional, decretar intervenção em Estados e municípios, privar cidadãos de direitos políticos, reprimir manifestações públicas e suspender o direito de habeas corpus.
213 Quando caí. Na gíria política dos partidos de esquerda, "cair" é sinônimo de "ser preso", "ser pego pelas forças inimigas".