Jacinta Passos, coração militante
Biografia de Jacinta Passos: canção da liberdade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Somos apenas uma caricatura,
nós, os cristãos
que aceitamos a injustiça na face da terra.49
Essas ideias foram inspiradas não apenas pelo catolicismo social, de que Jacinta continuava se alimentando, via convivência com os beneditinos e com os livros dos autores dessa tendência. Foram também inspiradas pelas suas opiniões contra as injustiças sociais, pelas ideias de esquerda com que cada vez mais se envolvia, pela sua consciência social, que se agudizava, pelos pensamentos dos novos amigos que fazia, estudantes, intelectuais, artistas, jornalistas, gente de O Imparcial e Seiva, muitos pertencentes ao PCB, como Jorge Amado, Giovanni Guimarães, João Falcão, Jacob Gorender.
A partir de 1943, não há mais evidências, nos escritos de Jacinta nem em qualquer registro ou depoimento sobre ela, de que tenha se mantido católica. Provavelmente este foi o ano em que se afastou da religião. Daí em diante, à medida que o tempo corria e ela mais e mais mergulhava nos movimentos de esquerda, até tornar-se comunista, passou, como estes, a considerar a religião fonte de alienação da humanidade e de exploração dos povos, e que como tal devia ser denunciada e combatida. Observe-se que sua forte postura antirreligiosa, sobre a qual há testemunhos abundantes, não migrou para sua poesia: manteve-se à parte dos poemas, mesmo dos políticos, só vindo a integrar os escritos dos últimos anos de vida, os Cadernos do Sanatório, e, assim mesmo, os escritos em
prosa, não os versos. 50
Nessa fase, Jacinta já sedimentara características que a acompanhariam por toda a vida, como o temperamento forte, a altivez, o horror à injustiça, a entrega total às causas em que acreditava, a combatividade e a coragem para expressar suas convicções, em qualquer ambiente e ante qualquer pessoa.
Em 1939, aos 24 anos de idade, durante solenidade na Escola Normal, onde lecionava, um dos professores, Cassilandro Barbuda (hoje nome de rua em Salvador), fez um discurso que desagradou ao diretor da escola, Isaías Alves. Importante educador, hoje um dos ícones da história da Educação na Bahia, Isaías era, no entanto, integralista, além de irmão do interventor federal no Estado, Landulfo Alves: Jacinta, que assistira ao incidente, encontrando-se com o citado educador, recusou-se a apertar-lhe a mão, num gesto
de solidariedade com o colega. 51
Ela continuava a morar com seus pais e irmãos, no sobrado de Nazaré. A família orgulhava-se de sua beleza e brilho intelectual, de suas atividades como poetisa e de seu reconhecimento como jornalista. Como recordou Regina, empregada da família:
Dona Lourdes [irmã mais jovem de Jacinta] me mostrou o
jornal, e me perguntou:
- Você sabe quem foi que escreveu isso aqui?
Eu disse que não sabia. Ela então falou:
- Pois foi Jaci. Ela é uma grande escritora!52
Nas férias e feriados, Jacinta continuava a frequentar a sua querida fazenda Campo Limpo, em Cruz das Almas, ali convivendo com vários familiares. Mas sempre expressava suas ideias, conforme recordou seu primo Renato Passos, que na cena narrada era uma criança:
- Olha, tia, na curva da ladeira vai subindo carregado, rangendo
e lento, um carro de boi; aqueles animais devem sofrer e comer
o pão que o lobisomem amassou.
- Infelizmente, Renatinho, tem de ser assim. [...] Pior são os
lavradores, meeiros e operários das fábricas. Trabalhador
braçal trabalha no sol a pino ou na chuva, sem proteção contra
acidentes, para ganhar uma miséria, e ainda tem de dividir o
produto da colheita com o patrão, pelo uso das terras da
fazenda.
- Por que é assim, tia?
- Porque estamos vivendo num país cuja diferença social é
grande; quem manda e desmanda neste país é uma minoria
rica, donos de terras e empresários, que fazem fortunas
explorando o trabalhador, que é maioria e é pobre e, no fim do
mês, recebe uma miséria. Você já entrou na casa de um
trabalhador braçal do campo ou da cidade? É fome, é panela
vazia, doença e falta de higiene, num espaço iluminado pelo filó
de querosene num mundo de sonhos e esperanças
despedaçados. Você vai me prometer que, quando ficar adulto
e se tornar um fazendeiro ou proprietário, vai dar condições
dignas de trabalho aos seus trabalhadores e famílias, e dividir
os lucros dos negócios com eles, que te ajudaram na produção.
[...]
- Tia, me carregue porque eu já estou muito cansado, e as
pernas não querem mais se mexer.
Ela me olhou desconfiada pelo rabo do olho, sorriu e me
carregou até em casa. Aqui pra nós, eu estava mesmo era com
preguiça e queria colo.53
À medida que Jacinta se envolvia com os movimentos de esquerda e com os comunistas, mudando de comportamento e ideias, as reações da sua família foram se transformando. Sua mãe, irmãs e primas jamais aceitaram seu afastamento do catolicismo, muito menos seu ateísmo – declarado, como tudo em Jacinta. Os pais se preocupavam com suas constantes saídas sozinha, inclusive à noite, com suas novas amizades, com suas atividades políticas, com seu comportamento, que lhes parecia pouco aceitável, e a censuravam ("Eles não conseguiam mais controlar ela", lembrou a doméstica Regina Figueiredo). Jacinta passou a ser alvo de comentários negativos em diversos núcleos da família.
A partir de 1937, exatamente quando Jacinta Passos florescia humana e literariamente, seu pai conhecia um período de ostracismo político. Ele, que fora eleito deputado estadual constituinte em 1934, perdera o mandato (pela terceira vez!) em 1937. Tivemos então nessa época um pai, político tradicional, afastado do governo e da ação política institucional, e uma filha em plena ascensão, intelectual e política, atuando em área oposta à do
pai, defendendo ideias e atitudes que o pai condenava.54 Como num jogo de espelhos invertido, essa situação voltaria a se repetir em 1946, mas então com ele no ápice, e ela havendo perdido uma eleição. Fisicamente e por temperamento, Jacinta e o pai eram bastante parecidos, ambos de índole forte, reservados, severos, convictos das ideias que defendiam, fiéis às pessoas e agremiações que compartilhavam das suas causas, dotados de agudo senso de justiça, ambos caudatários da tradição política familiar. Em campos opostos eles permaneceram, durante décadas.
* * *
Em 1941, Jacinta Passos viveu a primeira grande paixão de sua vida. O escolhido foi um jovem bonito, inteligente, defensor de ideias de esquerda, que ela teria visto pela primeira discursando, durante
uma passeata de estudantes, em Salvador.55 Os dois encontraram-se algumas vezes, a sós ou em atividades políticas ou sociais juntos com outros jovens:
"A gente passou a se ver, a se encontrar [...] às vezes éramos
só nós dois, para namorar, às vezes tinha mais gente...
- Quem, por exemplo?
- O pessoal da esquerda, do Partido"...56
Jacinta descobriu para quê, afinal, serviam suas mãos:
As minhas mãos docemente pousaram em tua fronte. [...]
Nesse instante, as minhas mãos compreenderam
por que foram feitas tão leves e macias
"Ela [Jacinta] mais é que insistia no namoro. Eu estava mais
interessado em política. Muitas vezes eu tinha de viajar, então
ela não gostava disso, reclamava."
E tu que não vens. A noite é música apenas.
" – Jacinta era ciumenta?
- Ih, muito! Ela me queria o tempo todo junto dela, não admitia
que mulher nenhuma olhasse pra mim... Era braba!"
Quisera não te querer com este ciúme primitivo e bárbaro
que irrompe do meu ser obscuro
como uma planta selvagem rasgando as entranhas da terra.
"O namoro começou a esquentar. Eu não sabia aonde ia dar
aquilo, não queria me comprometer muito, mas a verdade é que Jacinta conheceu James em Salvador, na casa de Matilde e Jorge Amado, que ela frequentava com assiduidade. De férias da faculdade, James viajara à Bahia para estar com Jorge e em seguida passar o Natal com os pais, em Ilhéus. Jacinta apareceu na casa de Jorge, em Periperi, logo após a chegada de James, acompanhada do jornalista e médico Giovani Guimarães, para passar o final de semana. Em conversa com James, Jorge explicou ao irmão que Jacinta era sua amiga, poetisa e escritora de valor, e que era simpatizante do Partido Comunista.
estava esquentando..."
Nossos corpos se procuram
como dois polos magnéticos de atração profunda.
"Bem, a coisa começou a pegar fogo. Até que um dia, eu tive
uma grande surpresa. Ela chegou toda bonita, elegante, e me
disse:
- Hoje nós vamos ter um encontro diferente.
– Como assim?- eu perguntei.
- Hoje nós vamos nos encontrar sozinhos, na casa de uma
amiga minha. Ela não vai estar lá. Hoje eu vou me entregar a
você.
E nós fomos. Era uma casinha na Cidade Baixa.
- E foi bom?
- Foi ótimo! [risos] Ela é que me seduziu, eu era mais novo.
Hoje [risos], isso daria crime por assédio sexual."
Existimos fundidos num ser único
que ignora a sucessão no tempo, [...]
como um astro sem memória perdido no espaço sem princípio e
sem fim.
"- Por que acabou o namoro?
- Porque eu não estava apaixonado. Ela estava, mas eu, não. E
eu tinha outras prioridades. [...] A coisa foi indo, foi indo...
acabou. Ela ficou triste, mas eu não podia fazer outra coisa.
Depois, fiquei sabendo que ela tinha se casado com James
Amado."
Eu te esperei longo tempo de terrível solidão. [...]
eu te esperei.
Inteira, pura e livre como a luz, a livre luz das alvoradas.
- Oh! Por que me trazes um coração diminuído?
Já não vou sozinha agora: amor, política e poesia
Jacinta conheceu James Amado, que se tornaria seu marido, em dezembro de 1943. James era um jovem de 21 anos, esguio, bonito, que causava boa impressão entre as mulheres, um jovem intelectual de esquerda cheio de energia, interessado em artes, curioso do mundo. Atrevido, irreverente, exibia humor e senso crítico. Baiano de Ilhéus, residira em Salvador e no Rio de Janeiro, tendo se mudado para São Paulo em meados de 1941, para fazer o curso universitário na Escola de Sociologia e Política. Seu irmão mais velho, Jorge Amado, que publicara o primeiro livro aos 19 anos de idade, já era escritor famoso, autor de nove livros – entre eles o recém-lançado Terras do Sem-Fim, sucesso estrondoso de público e crítica –, além de intelectual prestigiado entre os círculos de esquerda, onde exercia intensa atuação política. Apesar da diferença de idade entre os dois – dez anos –, os irmãos eram muito ligados entre si, Jorge influenciando o mais novo. James frequentava os círculos de Jorge, composto principalmente de artistas, intelectuais e políticos, brasileiros e estrangeiros, e formava também seus próprios amigos: em São Paulo, o jovem pintor gaúcho Carlos Scliar, com quem dividia a mesma pensão, o escritor e crítico de prestígio José Geraldo Vieira, bem mais velho (e a quem James dedicaria seu romance), o pintor Manuel Martins, o artista plástico Clóvis Graciano, entre outros. Embora não fosse filiado ao Partido Comunista Brasileiro, James circulava com desenvoltura entre artistas, intelectuais e políticos comunistas. Namorador, apesar da pouca idade já havia morado em São Paulo com uma jovem artista, frequentadora dos mesmos círculos. Sustentava-se com recursos enviados pelo pai, complementados pelas traduções que fazia.
Na casa de Periperi, no cenário baiano de redes, mar e água de coco, Jacinta e James começaram a namorar. Ela era à época uma morena muito bonita, de 29 anos – idade então de mulheres maduras, quase balzaquianas, afinal –, alta, esbelta, elegante, com um belo corpo, traços finos e cabelos negros muito bonitos, que normalmente usava presos. Era poeta com livro publicado, jornalista ativa na cidade, responsável por uma página semanal em O Imparcial, intelectual respeitada, capaz de discutir tanto arte quanto os temas candentes do momento, como a guerra e os destinos políticos do país. À custa do próprio esforço, tornara-se uma mulher independente, dona de seu corpo e mente, uma das poucas mulheres da Bahia capaz então de escolher, em vez de apenas obedecer.
Tudo isso deve ter atraído o jovem James, assim como a inteligência, o humor, o ardor e a beleza dele devem ter atraído Jacinta. Neste mesmo final de semana os dois iniciaram um flirt, como se dizia à época. Reencontraram-se no fim de semana seguinte na mesma Periperi, quando se descobriram apaixonados. Entregaram-se um ao outro de todas as formas que sabiam, a cada minuto das quarenta e oito horas que passaram juntos. Separaram-se durante alguns dias, enquanto ele passava o Natal com os pais, em Ilhéus. Voltaram a encontrar-se para mais um final de semana, quando já não queriam mais separar-se.
Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.57
Jacinta contou então a James que havia solicitado uma bolsa de estudos para aprimorar-se profissionalmente em São Paulo. Assim que obtivesse essa bolsa, iria encontrar-se com ele lá. A solicitação da bolsa de estudos fora anterior ao encontro com James. Jacinta já desejava deixar a Bahia, antes de conhecer o futuro marido. Vontade de ampliar horizontes? Ou, conforme o depoimento daquele que fora seu último namorado, necessidade de afastar-se totalmente dele? Talvez os dois motivos, pois não se excluem. O fato é que Jacinta obtivera a concordância da família Passos para seu projeto de residir temporariamente em São Paulo, na casa da irmã e do cunhado (Dulce e Nestor Santos), a fim de aperfeiçoar-se como professora. As boas relações do pai de Jacinta com a Secretaria Estadual de Educação da Bahia devem ter garantido a rápida aprovação do pedido de bolsa.
* * *
Jacinta desembarcou em São Paulo em fevereiro de 1944. Contudo, em vez de dirigir-se à casa da irmã e do cunhado, conforme acertado com sua família, instalou-se com James na modesta pensão onde ele vivia, na avenida São João, entre o largo Paissandu e a avenida Ipiranga, centro de São Paulo. Os Passos afligiram-se, pois Jacinta não lhes informou onde estava. Só dias depois telefonou à irmã, Dulce, assegurando que passava bem, que não se preocupassem com ela. Mas não deu pormenores sobre onde estava.
Em São Paulo, Jacinta e James viveram dias de entrega, paixão, alegria e conhecimento mútuo, o início de uma etapa nova nas vidas de ambos:
Abra a porta,
queremos entrar.
Somos amantes,
queremos amar.58
Tratava-se também da primeira viagem dela para fora da Bahia. James mostrava-lhe a capital paulista, dona de uma história e de uma cultura muito diversas da baiana.
Os dois decidiram casar-se, no civil. Convidaram para padrinhos dois artistas plásticos amigos, os paulistas Clóvis Graciano e Manoel Martins, ambos muito amigos de James, e que começavam a tornar-se também amigos de Jacinta. Corridos os proclamas, o casamento foi marcado para 18 de março de 1944, no Cartório do
Registro Civil da Bela Vista. 59 À hora certa, lá estavam Jacinta, James e Clóvis Graciano. Manoel Martins, contudo, não aparecia. Diante de um juiz impaciente, Manoel Martins foi substituído por um motorista de táxi, um desconhecido que passava por ali na hora. Motivo da ausência do padrinho: não se recuperara da tremenda bebedeira da noite anterior. A recém-casada passou a chamar-se Jacinta Passos Amado.
Ao sair do cartório, os recém-casados dirigiram-se a uma agência da Western Tele graph Company, no centro de São Paulo, de onde enviaram a Berila e Manoel Caetano Passos o seguinte telegrama: Abraçamos queridos pais pt Jacinta James. Foi dessa forma que os pais de Jacinta tomaram conhecimento do casamento da filha!
Ao casar-se com James, e nessas circunstâncias, Jacinta completou o processo de rompimento com os valores de sua família. A filha de Bebé e Ioiô, nascida num lar conservador do interior da Bahia, educada para a religião, o casamento tradicional e uma vida doméstica que comportava no máximo o trabalho de professora, desafiava tradições. Sem avisar ninguém, casara-se com um homem quase oito anos mais novo – ela estava com 29 anos de idade, ele completaria 22 em poucos dias –, fato raro à época, encarado com desconfiança e escárnio pela maioria da sociedade. Seu marido, embora filho de proprietários rurais abastados, não tinha profissão nem renda fixa, vivendo modestamente, como estudante. Jacinta casara-se apenas no civil, e ainda por cima com um ateu, pecado grave aos olhos dos católicos praticantes, como os Passos. Para completar, casara-se com um comunista. Devido à desinformação e à propaganda maciça dos integralistas e da Igreja Católica, a maioria dos brasileiros então imaginava comunistas como seres depravados e perversos, capazes inclusive de devorar criancinhas. O fato de James ainda não pertencer ao Partido Comunista era irrelevante para os Passos, que, talvez, nem soubessem disso. Afinal, o que lhes importava era James andar com comunistas, ser identificado como um deles e, ainda por cima, ser irmão de um comunista notório, o escritor Jorge Amado. Uma prima de Jacinta, bastante próxima à família, assim comentou em entrevista a inadequação do genro James Amado às expectativas
dos Passos: 60 Xiii... E o pior é que ele era comunista!
Jacinta e James alugaram um pequeno apartamento em prédio antigo do bairro da Aclimação, num quarto andar, sem elevador. O dinheiro era curto. Jacinta mantinha o salário de professora, acrescido do montante da bolsa de estudos. James fazia trabalhos de tradução, vendia anúncios para uma revista literária e recebia alguma ajuda financeira do pai.
Em 1944, São Paulo era uma cidade muito menor do que a atual, com ritmo de vida provinciano. Mas, desde pelo menos a década de 20, desde o Modernismo, contava com grupos expressivos de artistas e intelectuais, alguns deles reunidos em torno da Universidade de São Paulo, a USP, que completava sua primeira década de existência. Por intermédio do marido James e do cunhado Jorge, prestigiados no meio, Jacinta ligou-se em São Paulo a intelectuais como Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet, Oswald de Andrade, Antonio Cândido, José Mindlin, Caio Prado Junior, entre muitos outros. Tornou-se amiga de artistas como Carlos Scliar, Clóvis Graciano, Ben Ami, José Geraldo Vieira, Manuel Martins e Lasar Segall, a alguns deles dedicando poemas de seu livro Canção da partida. Frequentava ateliês, assistia a palestras, participava ativamente da vida literária da cidade, ampliando contatos e horizontes. Além disso, frequentava regularmente o curso de aperfeiçoamento para professoras, para o qual ganhara a bolsa de estudos.
Jacinta manteve também intensa atividade política em São Paulo. Boa parte dos intelectuais da cidade, como do Brasil, engajara-se fortemente nos movimentos pelo final da guerra e pela redemocratização. À medida que o ano de 1944 avançava, a derrota dos nazistas na Europa ia se delineando, enquanto, no Brasil, aumentavam as dissensões internas no governo, tornando difícil a sustentação política da ditadura do Estado Novo. Sob forte repressão policial, as oposições, incluídos muitos intelectuais, reforçaram atos de protesto, alianças, comícios contra a ditadura e pela volta à democracia. Jacinta participava dessas atividades, cada vez mais envolvida com os comunistas, que ganhavam terreno político.
* * *
Jacinta encontrava-se em período especialmente fértil da sua produção literária, compondo vários de seus melhores poemas,
reunidos no segundo livro, 61 Canção da partida . O volume foi publicado em São Paulo no primeiro semestre de 1945, em bela edição de luxo, pelas Edições Gaveta, que pertencia a Clóvis Graciano. Foram editados apenas 200 exemplares, em formato grande (17,5 x 22,5 cm), papel bouffant de primeira qualidade, numerados e assinados pela autora, ilustrados com cinco desenhos de Lasar Segall, um dos quais na capa, além de mais dez exemplares, marcados de A a J, cada um contendo uma ponta-seca
original de Segall.62
O livro foi muito bem recebido pela crítica, conseguindo chamar a atenção de escritores e estudiosos de muito prestígio, que
publicaram críticas e resenhas sobre ele na imprensa. 63 Os críticos apontaram alguns limites em Canção da partida, mas foram unânimes em reconhecer-lhe o alto valor literário: A sra. Jacinta Passos se firmou com este livro numa posição de primeira plana na
moderna poesia brasileira 64 , resumiu Antonio Cândido.
Canção da partida lançou o nome de Jacinta Passos no cenário nacional, tornando sua poesia conhecida e respeitada entre intelectuais. O livro expressava uma voz singular, a de uma poeta que, sem se filiar a nenhuma corrente literária específica, dialogava com os contemporâneos, propondo-lhes, em versos livres aparentemente muito simples, mas de grande força rítmica, a fusão entre lirismo e preocupação social. Era um mergulho no mundo popular rural brasileiro, pela ótica das mulheres e das crianças, com seus cantos de ternura, dor e esperança, capazes de unir o mais recôndito passado a um futuro que a poeta queria diferente. Canção da partida oferecia uma resposta possível, a resposta de Jacinta Passos, ao desafio de fazer-se poeta em um mundo em guerra, um mundo em profunda transformação, que precisava ser reconstruído. A proposta literária de Jacinta teve repercussão, conforme se lê neste depoimento do poeta, crítico e tradutor José Paulo Paes:
Eu começava a ensaiar os primeiros passos como poeta e, à
semelhança de alguns dos meus companheiros de geração,
preocupava-me a questão da arte dita partici pante. Foi na
desafetação do engajamento lírico-folclórico de Jacinta Passos
e de Sosígenes Costa, onde não havia lugar para a demagogia
nem para o sectarismo, que encontrei a primeira resposta às
minhas interrogações.65
Jacinta dedicou Canção da partida aos pais: A meu pai / e minha mãe / em sinal de muito amor e reconhecimento. A dedicatória demonstra que, apesar do distanciamento em relação aos valores da sua família, ela continuava afetivamente muito ligada aos pais. O livro está impregnado de infância, das antigas canções escravas ouvidas no Campo Limpo, dos cânticos infantis de roda, de referências familiares, de menções às plantações de fumo e fabricação de charutos, de personagens e acontecimentos de Cruz das Almas e do período de sua juventude em Salvador, do mundo, enfim, que Jacinta compartilhara com os familiares. Mas o livro contém igualmente poemas de amor e poemas políticos de participação social, relacionados à existência e aos interesses da poeta naquele momento, muito diversos dos de seus pais. Aparentemente, em Canção da partida, pela via da poesia, no plano simbólico Jacinta Passos reuniu as pontas dos dois mundos díspares, opostos mesmo, que habitavam seu interior.
* * *
1945 foi um ano particularmente rico na política mundial e brasileira. O final da Segunda Guerra e a derrota do nazifascismo deixaram para trás anos de sofrimento, acelerando mudanças pelas quais grande parte do mundo ansiava. Em quase todos os países havia um entusiasmado esforço das populações pela reconstrução, tanto no bloco capitalista quanto no socialista, que saíra da guerra ampliado e fortalecido. No Brasil, no clima de euforia que marcou o término da guerra e a volta dos pracinhas brasileiros ao país, vários setores sociais – políticos, estudantes, militares, mulheres, trabalhadores, intelectuais – procuraram se organizar. A população ganhou as ruas, exigindo democracia. A sede democrática alastrava-se da Europa para todos os continentes.
O governo ditatorial de Getúlio tentava resistir. Porém, cada vez mais isolado, ia fazendo concessões. Com impressionante rapidez, em meio a comícios, passeatas, congressos, manifestos, muitos violentamente reprimidos pela polícia, os fatos se sucediam. Eleições gerais foram marcadas e sucessivamente proteladas, até ficar estabelecido que ocorreriam em dezembro daquele ano de 45. Surgiam novos partidos, como UDN, PSD e PTB, que viriam marcar a cena brasileira nas décadas seguintes. Uma ampla anistia foi conquistada em abril, sendo consequentemente soltos os presos políticos, inclusive Luiz Carlos Prestes, que, detido desde 1936, começava a conhecer grande popularidade no país. Vinte e três anos após a sua fundação, o Partido Comunista Brasileiro foi pela primeira vez considerado legal, podendo pregar suas ideias e desenvolver sua militância à luz do dia.
Jacinta viveu intensamente esses e outros acontecimentos, ao lado do marido e também do cunhado e amigo Jorge, muito ativo e influente no meio intelectual brasileiro. Já em janeiro ela participou, como membro da delegação baiana, do I Congresso Brasileiro de Escritores, que reuniu, em São Paulo, intelectuais brasileiros de diferentes tendências ideológicas, em frente ampla contra a ditadura, pela liberdade de expressão e pela redemocratização do país. Fartamente noticiado na imprensa, o congresso transformou-se numa manifestação muito expressiva contra o governo Getúlio,
contribuindo para aprofundar a crise do Estado Novo. 66
Jacinta participou igualmente de comícios, passeatas e outros atos políticos em São Paulo, alguns perseguidos pelo governo, inserindo-se na luta pela democracia que ganhava o Brasil. À medida que o ano transcorria, aumentava sua aproximação com o Partido Comunista, que começava a viver seu período de maior ascensão e popularidade, identificado com os anseios da maioria da população brasileira. Assim como muitos intelectuais e boa parte da juventude brasileira à época, Jacinta acreditou que o socialismo estava construindo, na China, na URSS, e nos países do leste europeu, sociedades igualitárias, humanas e justas, e desejou que o Brasil também fizesse parte disso.
O clima político no país era embriagador. O PCB e a figura de Prestes inflamavam sobretudo a juventude, sedenta de um novo projeto para o Brasil. O PCB participou ativamente da campanha para a Presidência da República e para a Assembleia Nacional Constituinte, e Jacinta foi ativa militante, organizando núcleos, especialmente de mulheres, comparecendo a reuniões e passeatas, escrevendo textos sobre a situação feminina, sua constante preocupação, e sobre o papel importante que as mulheres teriam na nova etapa que o mundo e o país começavam a viver.
A poesia de Jacinta Passos colou-se mais uma vez à política, como ilustra esta passagem de Zélia Gattai:
Encontrei o Comitê em festa, todo o mundo eufórico. Fora
quebrada a incomu nicabilidade de Prestes, o decreto da anistia
estava para ser assinado de um momento para outro.
Nessa noite faríamos um comício na Lapa. Jorge [Amado] veio
ao meu encontro:
- Tenho hoje uma tarefa especial para você.
Entregou-me um papel datilografado, um poema dedicado a
Anita Leocádia Prestes, da poetisa Jacinta Passos. Começava
assim: "Pequenina, doce menina /teu pai é nosso, nosso irmão
e guia / nós te queremos, voltarás um dia!..." Li o poema sem
adivinhar o que Jorge pretendia que eu fizesse com ele, mas fui
logo esclarecida:
- Você vai ler esse poema, hoje, no comício.67
Jacinta vivenciou grávida, em São Paulo, boa parte dos acontecimentos daquele ano febril. Para grande alegria do casal, ela engravidara em dezembro de 1944. Para ajudá-la nas tarefas domésticas, chegara da Bahia no primeiro semestre de 1945, enviada por D. Bebé, Regina, uma antiga serviçal da família, de
quem Jacinta gostava muito. 68 As duas prepararam o enxoval, enriquecido com as roupinhas que a mãe de Jacinta enviara de Salvador, muitas confeccionadas por ela mesma. As atitudes de d. Bebé mostram que, apesar das diferenças entre elas, mãe e filha continuavam unidas.
Jacinta sentiu-se bem nos primeiros meses de gravidez. No final, porém, sua barriga parecia não crescer mais, e ela começou a sentir-se mal. Consultado, um médico constatou a morte da criança. Internou Jacinta em um hospital, onde, em agosto, aos oito meses de gravidez, ela teve extraído o feto de seu útero. Era um menino. Muito abatida física e psicologicamente, Jacinta foi com James para a cidade paulista de Águas de Lindoia, uma estação termal, para descansar e recuperar-se. Lá, o casal tomou uma importante decisão: recomeçar a vida em outra cidade. Sentiam-se abatidos com a perda da criança, esgotados com o acúmulo de atividades, assoberbados por dificuldades econômicas, inseguros quanto aos rumos do país. Desejavam paz e privacidade.
Para Jacinta, o que teriam representado os quase dois anos vividos em São Paulo? Provavelmente, um período de abertura, de afirmação pessoal e intelectual, de alegrias, de amor – casou-se com o homem por quem estava apaixonada, conheceu uma nova cidade, fez amizades, ampliou muito seus horizontes culturais, escreveu poesia, lançou um belo livro elogiado pela crítica, participou dos principais acontecimentos da história do país. Ediria Carneiro Amazonas, que fora aluna de Jacinta na Bahia, no final da década de 1930 – quando considerou a professora reservada, distante, excessivamente religiosa –, reencontrou a antiga mestra em 1945, em São Paulo, e assim descreveu o encontro:
Em São Paulo, conheci Manoel Martins, um pintor que na
época estava fazendo ilustrações para um livro de Jorge
Amado. Manoel disse: 'Vou levar vocês lá na casa do Jorge'.
Jorge não estava, mas estava Jacinta. Ela não andava bem de
saúde, estava doente, deitada. Aí ela foi muito gentil,
conversadeira, alegre, mais aberta, mais comunicativa, muito
mais accessível do que antes, na Bahia. Recebeu a gente no
quarto mesmo, e antes não faria isso, antes era muito formal.
Como Jorge não estava, fomos embora logo. Depois, não a vi
mais.69
Nem tudo era fácil, contudo. Se, aos olhos dos que haviam convivido com Jacinta na Bahia, ela se tornara uma pessoa muito mais alegre e comunicativa, vários dos que a conheceram em São Paulo a consideraram distante, séria demais, autoritária, de temperamento difícil, uma pessoa cujo comportamento destoava do grupo. Essa opinião era majoritária entre as mulheres, algumas talvez interessadas em James. Uma delas resumiu: Jacinta era muito cerimoniosa, não conversava, não dava bola para as pessoas, era arredia, fria, meio metida a besta. Eu me sentia intimidada na
frente dela 70 . Os homens impressionavam-se com sua beleza, inteligência, cultura e elegância, e tendiam a valorizar a sua "distinção".
Muitos, homens como mulheres, estranhavam o casamento de James e Jacinta, dada a diferença de idade e de temperamento entre os dois. Jacinta enfrentou ironias e agressões:
Houve um fato de que eu não gostei. Jantávamos na casa do
Nonê, filho de Oswald de Andrade [em São Paulo, em 1945].
Chegaram James e Jacinta. Ela, austera, de 'tailleur', coque,
temperamento sisudo, parecia mais velha do que era. Já ele,
parecia mais novo. Isso fazia a diferença de idade entre eles
aumentar. Quando Jacinta passou, uma convidada falou: 'La
madre heroica!'. Jacinta fez que não ouviu, mas deve ter
ouvido, porque a convidada falou alto, e eu, que estava mais
longe, ouvi.71
Jacinta tentava responder, da melhor forma possível, aos numerosos novos desafios de sua vida, o que deve ter lhe custado bastante esforço pessoal:
Minha irmã era perfeccionista. Tudo dela tinha de ser o melhor
possível, ela não admitia falhar, tudo tinha que ser perfeito.
Quando a gente morava aqui em São Paulo, ela grávida, eu ia
de vez em quando visitá-la. Muitas vezes encontrei-a
debruçada sobre uma papelada imensa, muito nervosa – ela
tinha sempre que fazer tantas coisas! Se aborrecia muito com
isso, porque achava que o que escrevia não tinha ficado bom,
achava que não sabia fazer as coisas direito. [...] Ela escrevia
discursos, dava aulas, assistia a aulas, escrevia poesias, dava
palestras e não sei mais o quê, uma trabalheira danada, mais
aquelas reuniões, as atividades polí ticas... Uma pessoa leve,
como eu, não daria bola pra tudo aquilo. Mas ela, não, ela se
angustiava, tinha medo de não corresponder. Para ela,
pesava.72
Passear no mapa-múndi: mudanças, maternidade, militância
Jacinta e James decidiram mudar-se para Porto Alegre, aceitando convite do pintor amigo Carlos Scliar. Scliar decidira voltar para o Rio Grande do Sul natal, e, sabedor da decisão dos amigos de se mudarem de São Paulo, convidara-os para ir com ele. James já estivera em Porto Alegre, na companhia do próprio Scliar, fizera amizades na cidade e achava que poderia encontrar emprego por lá.
Os três partiram em setembro de 1945. Durante a viagem, de ônibus, pararam em Curitiba, onde se encontraram com intelectuais
paranaenses, entre eles o jovem poeta José Paulo Paes. 73 Em Porto Alegre, Jacinta e James ficaram hospedados na casa do pai de Carlos, Henrique Scliar.
Recuperada do aborto, Jacinta procurava ambientar-se na cidade. Aproximava-se de artistas que o marido já conhecia, e também de outros, que Scliar apresentava a ambos, como os romancistas Érico Veríssimo e Dionélio Machado, o escultor Vasco Prado, a artista plástica Zorávia Bettiol, entre outros. Alguns exemplares do Canção da partida circularam entre os gaúchos, sendo muito bem recebidos. A convite, Jacinta proferiu palestras em instituições culturais, e seu nome começou a ser apontado, no meio intelectual gaúcho, como o de uma poeta e intelectual capaz: Quando Jorge e eu chegamos em 45 a Porto Alegre, relatou Zélia Gattai, os gaúchos nos contaram que Jacinta havia dado conferências no Rio Grande do Sul. Ela gozava já de um prestígio alto entre os gaúchos, eles a achavam
muito culta 74 . James, por sua vez, começou a trabalhar como tradutor na Editora Globo que, dirigida pelo escritor Érico Veríssimo, estava publicando importantes autores da literatura mundial, a maioria pela primeira vez lançada no Brasil.
Mas os meses finais de 1945 foram extremamente agitados e confusos na política brasileira. Embora os candidatos a Presidente da República já estivessem em plena campanha – como o brigadeiro Eduardo Gomes, pela UDN, o general Eurico Gaspar Dutra, pelo PSD –, ainda não havia uma definição sobre como deveriam se processar as eleições: apenas para os cargos federais? Para estes e os estaduais? O novo Congresso Nacional teria poder para elaborar uma Constituição? Esta deveria ser preparada antes das eleições gerais?
O PCB recuperara seu registro eleitoral. Desde a anistia de abril, entrara na legalidade. No tenso debate entre forças políticas divergentes, o PCB defendia a instalação de uma Assembleia Nacional Constituinte sob o governo de Getúlio, para somente
depois, já com a nova Carta promulgada, convocarem-se eleições.75 O PCB promovia também uma grande campanha nacional de filiação de membros: desejava tornar-se um grande partido de massas. Foi nessa onda de entusiasmo e empolgação política nacional que Jacinta, junto com James e com Scliar, se filiou oficialmente ao PCB, na cidade de Porto Alegre.
Jacinta e James já faziam planos para uma permanência longa – quem sabe para sempre? – em Porto Alegre. Estavam gostando da cidade, ali se sentiam independentes, longe das famílias, responsáveis por si mesmos, ligados a amigos, com ritmo de vida mais calmo.
Seus planos, porém, foram bruscamente interrompidos. Confirmadas as eleições gerais para 2 de dezembro de 1945, para a escolha dos membros da Assembleia Nacional Constituinte, a direção do PCB ordenou que James e Jacinta se dirigissem imediatamente para Salvador, onde deveriam candidatar-se a cargos eletivos. O casal partiu imediatamente para a Bahia.
Ordens da direção do partido não eram discutidas, eram cumpridas. O PCB funcionava como uma "instituição total", isto é, um tipo de instituição centralizada, autoritária, hierárquica, com visão de mundo própria e normas rígidas, que exigia de seus membros obediência e sacrifícios. O comportamento de Jacinta e do marido não era exceção. Grande parte dos militantes à época doava-se integralmente ao PCB, transformado em prioridade absoluta de suas
vidas.76
* * *
Jacinta e o marido instalaram-se provisoriamente na casa dos pais dela. Jacinta foi confirmada como candidata a deputada federal pelo PCB, iniciando imediatamente a campanha. O registro de James, contudo, foi recusado pelo Tribunal Eleitoral, e ele passou a trabalhar no jornal comunista O Momento.
Não há informações sobre como foi a convivência do casal no sobrado dos Passos, mas se pode imaginar a situação inusitada de, numa mesma casa, morarem uma filha candidata a deputada federal pelo Partido Comunista, e um pai que militava com todas as energias na UDN, partido contrário ao PCB. Jacinta e seu pai conversavam? Mantinham relações amigáveis, apesar das profundas diferenças políticas? Como se sentiria d. Bebé, mãe de Jacinta e mulher de Manoel Caetano? E James, um estranho naquele ninho? Na época, Jacinta concedeu entrevista ao jornal O Momento na sala da casa de seu pai, o que parece indicar
tolerância em relação a ela. 77
Os meses de campanha foram muito intensos para Jacinta. Atuante na maioria dos estados, o PCB apresentara candidato próprio à Presidência da República (Yeddo Fiúza) e lançara Luiz Carlos Prestes ao Senado. Pretendia fazer uma grande bancada na Câmara Federal e reforçar sua representação nos vários estados. Na Bahia, a chapa comunista reunia 23 candidatos, sendo Jacinta
Passos a única mulher.78 Na nova função de candidata, ela atuou ativamente em comícios – discursando inclusive no grande comício de recepção a Prestes e a Yeddo Fiúza em Salvador –, assumindo uma vida pública junto aos colegas candidatos de partido. Seu programa era o do PCB, com ênfase na questão das mulheres, o principal assunto sobre o qual se debruçava, escrevia e discursava. O clima político era tenso. A 29 de outubro, em meio a profunda crise, o Exército depôs o presidente Getúlio Vargas, que se retirou para sua terra natal, São Borja, no Rio Grande do Sul. José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal, assumiu a Presidência, garantindo as eleições para o final do ano.
Jacinta esforçou-se muito, mas não foi eleita em 2 de dezembro de 1945. O PCB da Bahia conseguiu eleger para a Constituinte apenas um deputado, Carlos Marighella, em quem os próprios militantes
foram instruídos a votar. 79
Ela e o marido mudaram-se, no início de 1946, para uma casa modesta na Cidade Baixa, em Monte Serrat, bem próximo à igrejinha de Monte Serrat, que se projeta sobre o mar da Baía de Todos os Santos. Jacinta continuou a dedicar-se à intensa militância em Salvador, a escrever regularmente para O Momento e, com menor intensidade, a compor seus poemas, muitos deles a serviço do evento político do momento. Dava aulas em comunidades pobres da cidade, onde desenvolvia também trabalho de proselitismo político. James trabalhava em O Momento, realizava tarefas para o PCB e escrevia seu romance, Chamado do mar, que, publicado em 1949, seria dedicado à mulher: Para Jacinta / amante e amiga.
Como o número de membros ("quadros") do Partido era insuficiente para as tarefas necessárias, cada militante devia desdobrar-se ao máximo, realizando múltiplos trabalhos, de todos os tipos: eram "paus para toda obra". Viviam com pouquíssimos recursos financeiros. O subsídio transferido pelo partido aos militantes mal dava para sobreviver.
O PCB consumia a maior parte do tempo de Jacinta e James. O restante era dedicado à convivência entre eles, à família e aos amigos: Conheci Jacinta dona de casa, almocei várias vezes na casa dela e de James, em Monte Serrat, recorda-se Luiz Henrique
Dias Tavares. 80 Os dois gostavam muito de ler. A paixão pela literatura desde o início foi um forte ponto de união do casal.
O Partido escolheu Jacinta de novo candidata, desta vez a deputada estadual constituinte, nas eleições previstas para janeiro de 1947, e que seriam muito acirradas. Ela começou a campanha, mas logo foi forçada a abandoná-la, devido a um fato novo em sua vida. Assim
mesmo, seu nome foi mantido na chapa até as eleições.81
* * *
Em junho de 1946, Jacinta engravidou. Mostrou-se muito contente, pois há muito desejava ter um filho, e ficara frustrada com o aborto que sofrera. Contudo, desde os primeiros dias teve uma gravidez muito difícil, hoje se diria de alto risco. Seu médico, dr. Eduardo Amado de Freitas, decidiu interná-la em hospital, o Instituto de Radiologia, localizado em Nazaré, em frente ao Colégio da Bahia.
Jacinta permaneceu sete meses internada neste hospital, para poder ter a criança. Durante a longa internação, comportou-se de forma calma, resignada, obedecendo a todas as ordens médicas, sem reclamar. Procurava preencher o tempo lendo e escrevendo. Seus familiares deram-lhe bastante assistência, visitando-a com frequência e providenciando alimentos, roupas e tudo o mais de que ela necessitava; amigos também iam vê-la.
James passara a morar em um quarto de pensão muito modesto, na rua Chile, centro da cidade. Visitava a mulher diariamente, em geral entre 17 e 19 horas, quando o movimento no jornal diminuía. James lembra-se desse período como um dos mais difíceis de sua vida: sem casa, com a mulher internada, sofria constantes pressões no trabalho e na militância, pois a oposição aos comunistas crescia em
todo o país, ampliando-se os setores que queriam cassar o PCB. 82 Decerto Jacinta também sofria essas pressões.
Em 21 de abril de 1947, Jacinta deu à luz uma menina saudável, nascida de cesariana. Ela e o marido decidiram chamá-la de Janaína, um dos cinco nomes de Yemanjá. Era um nome tão inusitado à época, que o padre da igreja de Nazaré, mesmo sendo muito conhecido dos Passos, recusou-se a batizar a criança, por causa de seu "nome de candomblé". Após muita insistência por parte dos avós maternos, o padre finalmente admitiu fazer o batismo, mas só se a criança, na certidão batismal, passasse a se
chamar Janaína Maria, o que foi feito.83
* * *
Fechava-se o cerco aos comunistas. Em 7 de maio de 1947, o TSE cassou o registro do PCB, colocando-o novamente na ilegalidade, o que gerou uma grande onda de perseguição aos seus militantes, em todo o país.
No modesto quarto de pensão da rua Chile, para onde Jacinta levou a filha ao sair do hospital, ela e o marido – agora redator-chefe de O Momento –, passaram dias angustiantes. A 4 de julho de 1947, o jornal que James dirigia e onde trabalhava diariamente, e para o qual Jacinta escrevia, foi empastelado, isto é, suas máquinas foram destruídas pela polícia. Com grande sacrifício o jornal continuou saindo, mas com apenas quatro páginas, e em formato tabloide.
Sem dinheiro – os minguados recursos financeiros do partido haviam praticamente sumido, devido à perseguição aos militantes –, com um bebê recém-nascido e sob imensa tensão, Jacinta viveu dias muito difíceis ao lado do marido.
Meses depois, a 10 de janeiro de 1948, foram cassados os mandatos dos deputados constituintes pelo PCB. Jorge Amado, irmão de James, que havia sido eleito deputado federal pelo partido, por São Paulo, foi obrigado a exilar-se na Europa.
Nesse meio tempo o pai de James, o "coronel" João Amado de Faria, escreveu ao filho sobre a situação de uma fazenda de gado que possuía no interior, e que se encontrava praticamente abandonada, com os animais à míngua. João Amado precisava de alguém de sua confiança para reerguer a fazenda, e propunha ao filho ir morar lá por algum tempo.
James e Jacinta aceitaram a proposta. As dificuldades financeiras por que passavam, a perseguição política que sofriam, o excesso de tarefas a que eram submetidos, a responsabilidade de criar a filha, a vontade de dedicar mais tempo à literatura e o desejo de isolar-se durante certo tempo foram os fatores responsáveis pela decisão.
A fazenda, à qual só se chegava a cavalo, situava-se no sul do Estado da Bahia, em Pontal do Sul. A vila mais próxima, Coaraci, ficava a cerca de quatro léguas de distância, que só podiam ser percorridas a cavalo ou em carro de boi. Coaraci, por sua vez, nas condições de então, situava-se a 24 horas a cavalo de Itajuípe, o pequeno centro urbano dessa região do cacau. Entre a fazenda de gado e Coaraci havia uma serra, apropriadamente denominada "Serra do Cafundó". Quando chovia muito, a estrada para a fazenda ficava intransitável. Pouca gente morava na região.
Jacinta, James, Janaína, acompanhados por Regina Figueiredo, a empregada dos Passos que já vivera com Jacinta em São Paulo, mudaram-se para a fazenda no início de 1948. Sem rádio nem qualquer outro meio de comunicação, sem eletricidade ou água encanada, Jacinta e James às vezes se sentiam fora do mundo. As cerca de 500 cabeças de gado eram criadas soltas no pasto, circundado por área de mata; havia ovelhas e animais domésticos. E uma sede, casa simples com uma varanda na frente, que João Amado começara a construir, e James terminou. Na fazenda, com cerca de 1.000 hectares, moravam ainda um carpinteiro, um casal de empregados (seu Louro e dona Sinhazinha) e mais quatro empregados homens. James dava também alguma assistência à fazenda de cacau de propriedade de seu pai, em Itajuípe.
Na fazenda, Jacinta deve ter se lembrado da sua querida Campo Limpo, muito mais desenvolvida, e se valido da experiência lá, para adaptar-se de novo à vida rural. James pela primeira vez atuava como fazendeiro. A filha deles crescia com saúde, apesar da falta de recursos; certa vez, a criança queimou-se acidentalmente com leite fervendo, e só foi possível obter remédios para ela três dias depois. Jacinta lia, escrevia, principalmente poesia – seu terceiro livro, Poemas políticos, foi todo criado lá –, e estudava.
Jacinta viveu com a filha e o marido nessa fazenda durante cerca de 3 anos, até maio de 1951, quando se mudou para o Rio de Janeiro. De tempos em tempos, deixava o local para visitar as famílias, a dela em Salvador (e em Cruz das Almas, onde esteve uma vez), a
do marido no Rio de Janeiro.84 E também para realizar tarefas partidárias, como se recorda um amigo militante:
Lembro-me nessa ocasião de uma reunião do partido, que nos
tomou uma tarde, uma noite e um dia, para escutarmos Floriano
Gonçalves nos doutrinar sobre o realismo socialista. Jacinta e
James estavam de passagem por Salvador, vindos da fazenda
e destinados ao Rio. Encontramo-nos em um pequeno sobrado
da Ladeira do Pepino, Pitangueiras – Brotas, casa de Fevereiro,
um velho e dedicado militante. Ali passamos uma noite
dormindo no chão. Lembro-me de que Jacinta e James
estavam decididos a ser bolcheviques. Conversamos, no
entanto, pouco, James falando, Jacinta calada.85
Jacinta aproveitava as saídas da fazenda para abastecer-se de livros, informar-se da situação política, manter contato com intelectuais amigos e militantes do partido. Trecho de um cartão-postal de 1949, de James para seu irmão Jorge, assinado também por Jacinta, dá uma ideia de algumas atividades do casal à época, na fazenda:
Estivemos no Rio, por 15 dias, no São João. Hoje vamos para o
Pontal do Sul, temporada de 4 meses. Pretendemos escrever,
num ambiente mais respirável: eu, um novo romance. Jacinta,
um livro de poemas já contratado com o [editor] Martins. 86
Em 1950, Jacinta e James participaram do 3º Congresso Brasileiro de Escritores, em Salvador. Ambos também fizeram parte do conselho de redatores da revista literária Seiva, que estava sendo relançada, num esforço do PCB baiano para reaglutinar intelectuais
e artistas.87 Jacinta aí publicou o poema A elegia das quatro mortas. Seu nome aparece também no manifesto dos intelectuais baianos
em apoio a Prestes, que tinha a segurança e a vida ameaçadas.88 O ambiente político era muito tenso. Crescia a repressão aos militantes do PCB que, por seu turno, radicalizava posições, isolando-se das massas.
Apesar da carência de recursos da fazenda, ao que tudo indica Jacinta lá viveu um dos períodos mais tranquilos de sua vida. James lembra-se dessa época como particularmente feliz. Para Jacinta, pode ter sido o mesmo: amava o marido, dava-se bem com ele, tinham muitos interesses em comum. Gostava dali, era sua escolha também:
Não quero a sina de Deus
Nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.89
Convivia bastante com a filha, vendo-a crescer, conforme evocou em "Canção para Jana", do mesmo livro:
Riso de abril rompe a neblina,
rosa menina
Crescei, ó cabelos de chama,
carne de rosa e pudim.
Apesar da carência total de recursos materiais, na fazenda Jacinta estava protegida das pressões políticas que tanto a haviam afligido, principalmente nos últimos dois anos em Salvador, e que lhe haviam pesado, como voltariam a lhe pesar. O tempo da fazenda, para Jacinta, deve ter representado paz e criatividade:
Engraçado é que d. Jaci, lá na roça, naquele fim de mundo
daquela roça sem nada, ela que cresceu com todo o luxo, d.
Jaci, [...] que na fazenda ficava lá lendo, lendo e escrevendo,
mexendo na sobrancelha assim [põe a mão direita na
sobrancelha e coça os fios] [...], ela me falou um dia assim, bem
na varanda da casa, debruçada na cerca da varanda:
– Gosto daqui. Por mim, eu não saía daqui, morava aqui pra
sempre.90
Leito de pedras e pranto
Tantos rios como eu abriram
leito de pedras e pranto.
(O rio)
Ruptura
No primeiro semestre de 1951, Jacinta mudou-se, desta vez para o Rio de Janeiro, acompanhada do marido e da filha. Jorge, irmão de James, à época no exílio, argumentava, em cartas ao pai, que não havia sentido em manter o casal mais tempo na fazenda: os dois eram intelectuais e profissionais urbanos, deveriam morar no Rio. Por outro lado, o PCB insistia para os dois voltarem a atuar em tempo integral nas atividades políticas. Os argumentos do PCB e da família Amado, aliados ao desejo de Jacinta e James de voltarem a participar ativamente da vida política e intelectual do país e, talvez, a um cansaço dos dois em relação à vida na fazenda, ao esgotamento dessa experiência, determinaram a mudança.
A partir de maio, passaram a residir com a filha em Copacabana, próximo ao Túnel Novo, num apartamento com três quartos
espaçosos, construído havia pouco.91 Jacinta conhecia o Rio, mas era a primeira vez em que residia na fervilhante capital da República. O casal logo se ligou a artistas e intelectuais de esquerda, levando vida agitada. Há notícias de que ela sentia
muitos ciúmes do marido. 92
Provavelmente ainda durante o primeiro semestre, Jacinta publicou seu segundo livro, Poemas políticos. Volume de formato pequeno, com 87 páginas, contém poemas inéditos, políticos e líricos – compostos entre 1948 e 1950, quando residia na fazenda.-, além de uma seleção de poesias do livro anterior. É edição modesta, principalmente quando comparada à de Canção da partida e, tudo
indica, publicada com a ajuda do PCB. 93 Poemas políticos é dedicado a James: para James / esta lembrança do Pontal do Sul.
O livro agradou bastante aos militantes e simpatizantes de esquerda, por causa das poesias de cunho político, embora contenha também excelentes canções líricas. O volume não recebeu a mesma atenção da crítica especializada que Canção da partida, provavelmente devido às profundas divisões políticas e ideológicas entre os intelectuais, em 1951 fracionados em grupos rivais que se ignoravam ou combatiam ferozmente, a questão
política no centro do debate.94 Situação muito diferente da de 1945 (ano em que Canção da partida fora lançado), quando os escritores haviam fundado uma associação nacional e quase todos os artistas comungavam dos mesmos ideais políticos e estéticos. De qualquer forma, a publicação do livro ampliou o prestígio intelectual da autora, tornando-a conhecida também entre círculos da capital. No mesmo ano, saiu em Salvador a Coletâ nea de poetas baianos (Editora Minerva, 1951), organizada por Aloísio Carvalho Filho, que incluiu poemas de Jacinta: ela já era considerada entre as melhores do seu Estado.
No Rio, Jacinta mergulhou integralmente no trabalho político, atuando sobretudo em comitês de mulheres e intelectuais, enquanto James trabalhava no mais importante jornal do partido, Imprensa Popular. Como todo militante do PCB, ela cumpria as tarefas que lhe eram destinadas, desde distribuição de panfletos até redação de textos políticos, organização e ministração de cursos e conferências, passando por serviços de apoio a dirigentes clandestinos, participação em reuniões, campanhas para angariar dinheiro etc. No pouco tempo livre, procurava estar com a filha, levando-a para passear e, às vezes, também visitando amigos do Partido com filhos pequenos, o que lhe permitia unir lazer e trabalho político:
Jacinta chegou lá em casa na [rua] Viveiros de Castro trazendo
você. Você tinha quatro anos, era bonitinha e sabida, logo foi
brincando com Marise [filha do casal]. Jacinta riu, conversou um
pouco comigo, perguntou como eu estava passando e tal,
perguntou algumas coisas da vida no Rio – sobre compras,
essas coisas. Logo quis falar com Raymundo, dizendo que
tinha assuntos políticos a tratar com ele.95
O PCB vivia um dos períodos mais radicais de sua história. Em 1950, lançara o "Manifesto de Agosto", que pregava o final de quaisquer alianças com "a burguesia imperialista", bem como a instituição de um governo revolucionário, por via da luta, inclusive armada. O partido, que em 1945 ganhara as massas, tornando-se muito popular no país, afastara-se paulatinamente da sociedade, assumindo posições de agressivo isolamento desde que fora jogado na clandestinidade. Em 51, seus militantes eram severamente perseguidos pelo governo. Foi em clima adverso, de forte condenação social e repressão policial, portanto, que Jacinta desenvolveu seu trabalho político no Rio. Ao referir-se a um congresso de mulheres ocorrido em São Paulo, ao qual comparecera chefiando a delegação carioca, ela própria anotou: "a
pressão policial tomou um caráter nacional contra o congresso".96
Em final de setembro de 1951, Jacinta compareceu, com James, ao IV Congresso Brasileiro de Escritores, em Porto Alegre. Uma foto da época a mostra na plateia, elegante, bonita e sorridente, ao lado do marido.
Poucos dias antes de viajar, escreveu uma carta à cunhada Zélia Gattai, que estava morando na então Tchecoslováquia, com o marido Jorge, exilado. Com lucidez e senso de humor, Jacinta deu notícias pessoais, familiares, políticas e literárias, contando sobre seus muitos planos, nas várias áreas da vida. Parecia contente:
Rio, 20-9-51
Zélia, minha ilustre cunhada
Desde que nasceu Paloma97 que estou querendo fazer umas
linhas de parabéns para vocês. Desejo felicidades para ela. Vi o
retrato do João98 que chegou ontem, está um rapaz. E o retrato
do pai, de cabeleira e camisa bordada feito moça, que é isso?
Você está passando bem? Ainda vai continuar parindo ou vai
parar? Um casal já chega, dona. Janaína está mais moça e
vaidosa, só quer saber por que eu não deixo (só me chama "a
velha") que ela pinte as unhas e use argolas. Está no Jardim de
Infância, durante as tardes. Os velhos99 seguem segunda para
Pirangi, onde o sr. João vai ver negócios. James vai amanhã e
eu devo ir segunda para Porto Alegre, ao Congresso de
Escritores. Diga a Jorge que as mensagens chegaram todas, e
as cartas dele. O congresso promete. No dia 8, deverei fazer
uma operação com o Dr. Fabião,100 que já adiei três vezes e
quatro vezes. Vamos ver se agora vai. Estive num Congresso
de Mulheres em São Paulo, no mês de julho, chefiando a
delegação carioca (viu a importância?). Foi uma bela vitória, e a