Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 1 de 19

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Kate Somente

1. O Skara Rok

um

O SKARA ROK

 

Muito tempo atrás, numa cidadezinha de feira à margem de um rio sinuoso, vivia uma órfã chamada Kate Somente.

Era assim chamada porque seu pai a apresentara ao novo açougueiro dizendo: “Esta é minha amada Katerina Svetlana, em homenagem à sua mãe, que morreu ao dar à luz, que sua alma descanse em paz, mas para mim ela é Kate, somente.” E o açougueiro, brandindo um cutelo, respondeu: “É, ela é mesmo Kate Somente. Lisa como uma tábua.” Homem que apreciava o humor, principalmente o seu próprio, o açougueiro repetiu isso para todo mundo. Daí em diante, ela passou a ser chamada de Kate Somente. Mas seu pai a chamava de Kate, Minha Estrela.

O pai de Kate Somente, Piotr, era entalhador. Ele deu a Kate um formão antes que a maioria das crianças recebesse uma colher. Antes de aprender a andar, ela já sabia desbastar madeira. Ainda criança, ela conseguia esculpir uma rosa que desconhecidos parariam para cheirar; uma libélula que trutas viriam à tona para apanhar.

Em Samilae, a cidadezinha de Kate, as pessoas achavam que havia magia numa lâmina. Uma pessoa que fosse hábil com uma lâmina, aos olhos delas, já estava a meio caminho para ser uma bruxa. Por isso, Kate Somente era muito pequena na primeira vez em que alguém cuspiu de desprezo e torceu os dedos para ela.

Seu pai fez com que se sentasse e falou com ela com enorme seriedade:

— Você não é uma bruxa, Katerina. Existe magia no mundo, e parte dela é salutar, e outra parte não é, mas é uma coisa que está no sangue, e não está no seu. Os tolos vão sempre tratá-la mal por achar que você não é bonita — disse ele, e ela soube que era verdade.

Kate Somente: ela era como uma tábua, magra como uma tábua e sem formas como uma tábua. Tinha um olho da cor da lama do rio e o outro, da cor do rio. Seu nariz era comprido demais, e suas sobrancelhas, volumosas demais. Seu pai deu-lhe dois beijos, um acima de cada sobrancelha.

— Não temos como mudar o que os tolos pensam. Mas saiba que é sua perícia com uma lâmina que provoca o falatório. Se quiser desistir de entalhar, você tem a minha bênção.

— Não vou desistir nunca — respondeu ela.

E ele riu e a chamou de sua Estrela Corajosa. E a ensinou a entalhar ainda melhor.

Eles viviam ocupados. Todos naquele país, por mais pobres que fossem, usavam um talismã chamado de objarka. Os que podiam, penduravam objarka maiores em cocheiras, umbrais de portas e acima do leito matrimonial. Não havia padieira sem entalhes naquele lugar; as paredes exibiam santos em nichos, e as estradas eram demarcadas com pequenos santuários sobre mourões, que às vezes abrigavam santos e às vezes coisas mais antigas, mais estranhas. O pai de Kate Somente teve a honra de substituir o weizi de Samilae, a enorme coluna no centro da praça da feira que exibia os anjos e o brasão da cidade e que no alto servia de base para o telhado de madeira entalhada que abrigava os deuses entalhados em madeira. O novo weizi era um trabalho tão primoroso que os mestres da guilda mandaram um homem vir de Lov para vê-lo. O homem, na mesma hora, deu ao pai de Kate o grau de mestre pleno.

— Minha filha fez alguns dos anjos — disse ele ao homem, pegando Kate e a puxando para a frente.

O homem olhou para os rostos tão belos que pareciam tristes, as asas que aparentavam ser macias e fortes, como as asas de cisnes, que pudessem matar um homem com um golpe.

— Faça dela sua aprendiz — disse ele.

— Se ela quiser — respondeu Piotr. — E quando chegar à idade certa.

Quando o homem da guilda foi embora, Kate Somente repreendeu o pai:

— Você sabe que serei sua aprendiz!

— Você é a estrela do meu coração — respondeu ele. — Mas ainda faltam dois anos para você poder ser aprendiz. Muita coisa poderia acontecer.

Ela riu dele:

— O que vai acontecer é que eu serei mestre plena antes dos vinte anos.

Mas o que aconteceu foi que seu pai morreu.

 

Foi assim que aconteceu: a primavera transformou-se em verão, cheio de calor e moscas. Os trigais murcharam. As primeiras geadas chegaram e já encontraram escassez de alimentos. E então uma doença chamada febre de bruxa devastou a pequena cidade.

De início, Kate Somente e o pai estavam ocupados demais para se preocupar. As pessoas queriam objarka novos — algumas usavam tantos desses talismãs entalhados que eles faziam um delicado chocalhar quando elas se mexiam. Pai e filha entalhavam o dia inteiro e noite adentro, à luz fraca de lâmpadas de sebo. Eles entalhavam mais rápido do que conseguiam curar a madeira. E assim ficaram ainda mais ocupados, por causa das placas de identificação de sepulturas a fazer.

A febre de bruxa era feia de se ver. Os doentes debatiam-se na cama, se consumindo, soluçando sobre os demônios que estavam rasgando suas juntas. Eles deliravam acerca de horrores e apontavam para as sombras, aos gritos de “Bruxa, bruxa!”. E em seguida morriam. Eram poucos os que sobreviviam. Parecia a Kate Somente que mesmo aqueles que não estavam doentes tinham os olhos perdidos nas sombras. As grelhas na praça da feira — as fogueiras em ninhos de ferro em volta das quais as pessoas se reuniam para trocar notícias e assar peixe — tornaram-se um lugar de sussurros e silêncios. Mais dedos vinham na sua direção do que nunca.

Mas no final não foi para ela que a cidadezinha apontou. Um dia, quando Kate Somente e seu pai estavam na praça da feira vendendo novos objarka na sua banca, uma mulher veio arrastada, aos berros. Kate levantou os olhos do trabalho e viu de repente que havia lenha para uma fogueira empilhada em torno do weizi.

A mulher aos gritos chamava-se Vera, e Kate Somente a conhecia: uma carvoeira, uma pobre mulher sem família, com um ceceio por uma deformação no lábio. A multidão arrastou Vera para a pilha de lenha, e Piotr pegou Kate Somente no colo e a carregou dali, apesar de ela já estar grande demais para isso. Da oficina, eles ainda podiam ouvir os gritos. No dia seguinte, a praça estava em silêncio, com cinzas espalhadas por toda parte.

E mesmo assim a doença continuou a devastar os becos tortos e os arcos de madeira. Kate Somente e o pai pararam de vender na praça. Começaram a ficar sem dinheiro. A peste continuava a arder, e a cidadezinha fechou seus portões. As carroças pararam de trazer alimento do campo; as barcaças pararam de descer pelo Narwe sinuoso. Kate sentiu pela primeira vez o que era ter fome.

Mas aos poucos a geada úmida deu lugar a manhãs brilhantes, de céu azul implacável, e a febre, como é costume das febres, começou a se abrandar para o inverno. Kate Somente foi até a feira para ver que alimentos estavam à venda, e encontrou pequenos grupos de pessoas em torno de bancas lotadas com a última produção da colheita recente: alhos-porós graúdos com o inverno e repolhos esfarrapados pelo frio. Parecia que as lojas carrancudas que ficavam de frente para a praça suspiravam e relaxavam os ombros.

Kate Somente voltou para casa com a cesta cheia de maçãs e encontrou o pai jogado sobre a bancada. Ele tinha deixado o torno girando: um chiado longo, que ia sumindo no silêncio grumoso da oficina. Ela podia ouvir o tremor na sua respiração.

De algum modo, ela o levantou pelos ombros. Isso fez com que se sentisse pequena, menor do que se sentia havia anos. Ele era tão pesado que ela mal conseguia aguentá-lo. E o levou para a cama.

Nem todo mundo que pegava a febre de bruxa morria. Ela não parava de dizer isso para si mesma. Tentou lhe dar água. Tentou fazer com que ele comesse. Não sabia ao certo se deveria mantê-lo aquecido ou frio. Ajeitou o acolchoado vermelho sobre ele e pôs um pano gelado na sua testa. Como os outros, ele soluçava e via coisas. Ela falava com ele o tempo todo, até ficar tão rouca que sua boca tinha gosto de sangue:

— Você está aqui, está aqui. Eu estou com você. Continue aqui, onde é seu lugar. — Ela ficava acordada noite e dia, repetindo essas palavras.

Depois de dois dias e três noites, em algum momento na hora cinzenta antes do amanhecer, ela adormeceu. Acordou ainda sentada na cadeira junto da cama, com a testa pousada na mão do pai.

— Katerina — disse ele, com a voz rouca.

— Você está aqui — gaguejou ela, levantando a cabeça. — Eu estou aqui, pai, aqui mesmo.

— Não você — disse ele, partindo seu coração. — Sua mãe. — Havia um biombo com a forma de uma trepadeira de rosas entre o quarto deles e a parte da frente da oficina. A luz passava através dele, a longa luz amarela e oblíqua do amanhecer. Seu pai olhava fixamente para ela, com os olhos lacrimejantes, cegos. — Olhe!

Kate Somente virou-se por um instante para olhar e depois virou o rosto, com medo do que poderia ver caso se permitisse.

— Pai — disse ela. — Papai.

— Katerina — disse ele, novamente. — Ela está na luz. Ela está aqui. Katerina, você está aqui!

— Não vá embora — disse Kate Somente, e agarrou a mão dele junto do seu rosto. — Papai!

Ele olhou para ela.

— Katerina, Estrela do Meu Coração. — Ele inspirou. Exalou. E parou de respirar.

— Estou bem aqui — disse ela. — Papai, estou bem aqui. — Ela não parou de dizer isso por muito tempo.

 

O ano do verão quente, da doença e da fome veio a ser chamado de skara rok, o tempo ruim. Ele tinha esvaziado sua carteira. Kate Somente pegou o dinheiro que restava e pagou um enterro razoável para Piotr, o Entalhador. Depois ela voltou para a oficina e passou um mês entalhando uma placa para sua cova. Ela fazia uma e a jogava no fogo; fazia outra e ainda assim não encontrava a paz.

“As pessoas acham que somos bruxos porque nós lhes mostramos a verdade.” Ela podia ver o rosto do pai, sentir as mãos dele nas suas. Uma peça sendo entalhada acabava de se partir quando seu cinzel encontrou alguma falha oculta na madeira. “Você vai aprender a identificar onde os nós estão, e como os veios correm, mesmo bem fundo na madeira, onde ninguém consegue enxergar. Você vai mostrar às pessoas essa verdade: a verdade na madeira. Mas às vezes, na sua peça entalhada, as pessoas verão outra verdade. Uma verdade sobre você. Sobre elas mesmas.” Suas mãos estavam quentes sobre as dela, vigorosas como seu sorriso. “E isso é magia”, disse ele. “Você saberá reconhecer quando a sentir.”

Ela queria que a placa do túmulo mostrasse a verdade: que Piotr, o Entalhador, tinha sido um entalhador maravilhoso e que ela o amava. Mas a única coisa que a placa dizia era que seu pai estava morto.

Por fim, ela não pôde mais deixar a cova sem placa. Por isso, terminou-a e a pôs no lugar.

E quando isso estava pronto, ela não tinha mais nada a fazer. Ficou parada junto do torno como uma menina sob o efeito de um encantamento, com as mãos caídas, vazias, ao longo do corpo.

Depois a guilda dos artífices da madeira mandou outro entalhador assumir a loja.

Seu nome era Chuny, e como entalhador ele não chegava aos pés dela, mas tinha uma autorização oficial da guilda. Kate Somente não tinha para onde ir. Tinha nascido naquela oficina. Quando bebê, tinha visto a luz mudar através do biombo de rosas. Aprendendo a andar, com seus punhos gorduchos, tinha posto maravalhas no caldeirão de ensopado. Mas agora a autorização da guilda dava a Chuny o direito de se apropriar da oficina e de seus equipamentos, das ferramentas, até mesmo da madeira que Kate e seu pai tinham curado, mas ainda não estava entalhada.

Mestre Chuny ficou parado, assistindo enquanto ela juntava suas coisas. Era muito pouco o que lhe foi permitido levar. Algum alimento: maçãs, aveia e um jarro de azeite. Seus três vestidos. As calças e os camisões do pai. Seu avental de carpinteiro, de couro. Havia duas cumbucas com mingau seco como terra crestada no fundo da que tinha pertencido ao pai. Duas colheres. O acolchoado vermelho do casamento, da grande cama entalhada, que tinha o cheiro do seu pai e da doença. Suas próprias ferramentas pequenas de mão: formões, cinzéis, furadores e goivas.

— Tudo que for de entalhar fica com a oficina — disse Chuny, ainda vigiando.

Kate Somente estava enfiando as ferramentas nos bolsos do seu avental de couro.

— Foi ele quem me deu — sussurrou ela, sem olhar para cima. O cabelo em volta do rosto escondia do homem que a vigiava seus olhos estranhos e as lágrimas. Ela levantou a voz: — Elas são minhas. Foi meu pai quem me deu.

— As ferramentas de um aprendiz... — começou Chuny. O regulamento era que as ferramentas de um aprendiz pertenciam a seu mestre e, através do mestre, à guilda.

— Eu não era aprendiz dele. — Ela levantou os olhos e já não estava chorando. — Estou indo. Quer olhar minhas bolsas?

— Eu... — começou Chuny, e então abanou a cabeça. Seus dedos estavam enroscados no biombo de rosas. Era uma dor para ela ver as mãos dele ali. Kate e o pai tinham uma brincadeira antiga, na qual costumavam cheirar as rosas entalhadas; mas, mesmo fora da brincadeira, Piotr jamais teria fechado as mãos em torno de uma flor, como Chuny estava fazendo agora.

Ela se forçou a olhar para outro lado.

— Vou para a feira — disse ela. — Vou morar na banca.

— Morar na banca? — repetiu ele, escandalizado.

— O gavetão de baixo deve ter tamanho suficiente.

Também a banca pertencia à guilda. Kate Somente olhou para Chuny com seus olhos de bruxa, desafiando-o a reclamar. Ele olhou para ela, olhou para os próprios sapatos e não protestou. Kate pegou suas bolsas.

— Dizem, hã, que você sabe entalhar um pouco — disse ele. — Eu poderia... quando você completar a idade, quer dizer, se eu ainda precisar de um aprendiz...

Ela se sentiu insultada pela gentileza constrangida e parcial.

— Você não tem nada para me ensinar — disse ela. – E eu não tenho o dinheiro para a taxa.

— Vá embora, então — disse ele, com raiva.

Foi o que ela fez, de cabeça erguida.

 

Na feira, ela pôs as bolsas no chão e olhou para a praça com outros olhos. As lojas altas e estreitas pareciam olhar com maldade para ela; as ruas, tortas. Sob os pés, o dorso das pedras redondas se erguiam como ilhas a partir da neve suja e compactada. Lá no alto, o weizi imperava, lançando uma longa sombra de pôr do sol sobre os telhados cinzentos de Samilae, na direção da muralha negra dos montes mais além.

A banca do seu pai estava ali nessa sombra: um grande armário, com muitas gavetas — grandes e fundas na parte inferior e pequenas no alto. A frente era entalhada com uma cena de caça ao cervo: um macho estava saltando para entrar num trecho de mata, com cães e cavaleiros no seu encalço. Até então, Kate Somente sempre tinha achado que o veado ia conseguir escapar. Mas nesta noite a impressão foi diferente; um dos cavaleiros tinha posto uma flecha no arco, sua mira era perfeita. O pobre animal estava morto e não sabia.

O frio foi ficando cruel à medida que o sol se punha. Sua respiração formava espirais em torno dela. Ela abriu a grande gaveta de baixo, pôs o acolchoado dentro e a empurrou para fechá-la ao máximo, mas de uma forma que ainda lhe permitisse entrar. Então deixou-se rolar pela abertura para se deitar.

A madeira era dura, apesar do acolchoado. O ar era viciado. Ela não conseguia enxergar, mas as paredes da gaveta apertavam seus ombros, e a sensação da madeira mais acima fazia pressão sobre ela, mesmo a alguns centímetros de distância. Um caixão, pensou ela, e afastou o pensamento. Ele voltou. Este é o meu caixão.

Sem nenhuma autoridade na guilda dos artífices da madeira, ela podia entalhar, mas não podia vender, não sem dizer a todos que perguntassem que havia uma oficina da guilda a menos de cem passos dali. A taxa para um aprendiz era o preço de uma parelha de cavalos semelhantes, uma fortuna que ela não conseguia imaginar ganhar. Um dote era descabido para uma menina magricela com olhos de bruxa. Ela ia morrer de fome. Era simplesmente uma questão de tempo.

Mas ela ainda não estava com fome. Permaneceu ali deitada imóvel e escutou. A gaveta ficou mais clara à medida que seus olhos se acostumavam à escuridão, e depois mais escura com o escurecimento do mundo. Por fim, ela não conseguia enxergar nada. Com o silêncio da noite, cada som tornou-se mais definido, e cada um parecia que vinha atrás dela. Botas. O latido de um cachorro. Como uma faca cortando a escuridão, o sino de um vigia, marcando a hora.

A noite foi ficando cada vez mais silenciosa. Os olhos de Kate doíam de não ver nada. Seus ouvidos se esforçavam para ouvir os menores sons. Ela ouvia o rio cantando para si mesmo. Ouvia o vento resfolegando no espaço por onde ela tinha entrado na gaveta. E finalmente, mais baixo do que todos esses sons, ela ouviu alguma coisa chorando.

O choro baixinho vinha de algum lugar por perto. O primeiro pensamento de Kate Somente foi que era um espírito, que seu próximo sussurro seria “Katerina, Estrela do Meu Coração”. Mas ela não era do tipo que dava atenção a espíritos. Por isso, ficou escutando, com medo, mas enfrentando. Ela mexeu a cabeça de um lado para outro para localizar o som e concluiu que o choro vinha de uma das gavetas acima dela.

Por isso, saiu da gaveta para olhar.

Na menor gaveta da banca do pai, entre os entalhes finos como renda, embalados em palha, ela os encontrou: gatinhos. Eram pequenos como camundongos, com os olhos ainda bem fechados e as orelhas achatadas na cabeça. Não havia gata. Já estava quase amanhecendo, e a geada encobria tudo. A praça da feira estava tão muda quanto o interior de um sino depois que ele parou de badalar. O ninho de palha estava ficando frio.

Kate Somente ficou em pé ali por um tempo, vendo os gatinhos cambalearem para lá e para cá. Em seguida, pegou-os e se espremeu para entrar de novo na gaveta.

E esse foi o começo da sua nova vida.

Eram três gatinhos: um branco, um preto e um cinza, macho e magricela. A mãe nunca voltou. Na manhã seguinte, Kate Somente negociou com a garota do leite o conserto de um banquinho de ordenha por um jato de leite e a promessa de mais a cada manhã. Ela diluiu o leite com água e deixou que os gatinhos mamassem da ponta torcida de um trapo. Durante o dia, ela os mantinha nos bolsos forrados de feltro do seu avental de couro, por baixo do casaco, e à noite, ao seu lado, no calor da escuridão fechada da gaveta. Aos poucos, seus olhos escuros se abriram, suas orelhas se desdobraram e sua voz foi ficando mais alta.

Ela era paciente com eles e cuidava deles o tempo todo. E, apesar de tudo estar contra eles, todos os três sobreviveram. O gato preto tornou-se selvagem e destemido e foi morar numa das chalanas que percorriam o rio Narwe, raso e sinuoso. O gato branco tornou-se manhoso e gordo e foi viver de camundongos e leite com a garota do leite. O macho cinza ficou comprido e magro e permaneceu com Kate Somente.

Ele era um frajola, tinha uma orelha torta, um brilho nas garras e um cintilar nos olhos. Desfilava pela praça da feira, elegante e esfarrapado, admirado e amaldiçoado: um salteador, um ladrão distinto. Seu nome era Braque, pois os três gatinhos eram Brique, Braque e Craque.

Kate Somente crescia também. Ia ficando mais magra e mais forte, mas não muito mais alta. Os tempos eram difíceis. Mas, contra todas as expectativas, e com o gato ao seu lado, também ela sobreviveu.

O homem da guilda manteve a oficina, mas Kate entalhava melhor que ele. Ele pegava a maior parte do trabalho, porque ninguém tinha condições de desafiar as guildas por ninharias. Kate fazia a maioria dos objarka, os talismãs entalhados que davam sorte. A sorte naquele lugar era uma questão de vida ou morte, e isso fazia valer a pena desafiar as guildas.

O próprio objarka de Kate Somente era um gato dormindo enrodilhado. Ela mesma o fizera, a partir de um nó de nogueira que seu pai lhe dera. Madeira de nó, com suas espirais apertadas, era o tipo de madeira mais difícil para entalhar, mas ela entalhara o objarka. Devagar e com paciência, ela acompanhou suas linhas ondulantes, em busca da verdade da madeira. Quando terminou, os veios circulares da madeira sugeriam uma força em repouso.

— Kate, Minha Estrela — dissera seu pai —, esta poderia ser sua obra-prima. — Ele estava se referindo à peça que um principiante faz quando termina o aprendizado, para conseguir ser aceito na guilda. O pequeno objarka não tinha tamanho suficiente para ser uma obra-prima, mas seu pai disse que era bom o bastante. — Olhe bem — disse ele. — Ele lhe fala de você mesma.

Mas ele não quis lhe contar o que a peça dizia.

Kate Somente deu o objarka de gato a seu pai, que o usava sempre, numa correia de couro em volta do pescoço. Agora estava quase preto, brilhante com a oleosidade da sua pele. Ela o usava por dentro da camisa, em cima do coração. Mas, se ele estava lhe dizendo alguma coisa, ela não conseguia escutar.

Depois de algum tempo, ela parou de escutar e simplesmente tentou viver. Fez uma frente articulada com dobradiças na sua gaveta, para poder se trancar por dentro. Quando seus vestidos acabaram, ela emendou bainhas esfarrapadas nos camisões listrados do pai. Ela entalhava quando havia luz. Quando não havia luz, ela pescava e pegava trutas com suas libélulas de madeira. Braque trazia para ela camundongos e ratos, aves e morcegos. Ela aprendeu a chupar a carne até o menor osso. E ia vivendo.

As pessoas mais bondosas da praça da feira davam-lhe o que não conseguiam vender: maçãs amassadas, cenouras com formato estranho. Os mais cruéis a amaldiçoavam, cuspiam e murmuravam. Ela era muito só, embora não o soubesse. O povo dizia que ela tinha uma sombra comprida.

Mas todas as noites Braque vinha se enroscar nela enquanto ela dormia na gaveta mais baixa.

E assim seguia a vida por dias frios e quentes, dias úmidos e empoeirados, e por longos invernos famintos.

Então, num dia de verão, a mudança e a magia chegaram valsando a passos largos à sua vida, vestidas de branco, e nesse momento nada pareceu escuro.