Kate Somente
18. Uma Troca de Dádivas
dezoito
UMA TROCA DE DÁDIVAS
O rosto de Linay tinha um ar neutro, uma expressão delicada na boca, como um homem num sonho. Uma das mãos estava atada ao poste de pedra. A outra segurava um fragmento pontiagudo da lâmina da espada. Sangue gotejava da ponta da lâmina e pingava na madeira aos seus pés, e, à medida que cada gota caía, ela se incendiava. As pequenas chamas deixavam pontos fumegantes na madeira empapada com breu.
— Katerina? — disse Linay novamente. — E, agora, o que vai acontecer?
Kate Somente tremia.
— Você não quer morrer queimado, Linay.
— Mas quero — insistiu ele. — Foi o que planejei. Venho trabalhando por isso. Há anos. — Sua voz ainda era cortês, um pouco distante, mas ele estava começando a tremer. As saias brancas do seu zupan estavam sujas de breu, a fumaça formando remoinhos em torno dos seus joelhos. Ele fechou os olhos por um instante. — Eu posso fazer isso — disse ele. — Eu quero fazer isso.
Kate foi se aproximando lentamente dele. Drina estava agachada na escada do palanque, com Braque no colo.
— Mira — implorou ela... e depois o nome que nunca deveria ter voltado a pronunciar: — Linay...
— Só queria que você não estivesse aqui — disse Linay. — Todos os que estão aqui...
Kate conseguia sentir, por trás das nuvens, a sombra e a rusalka se reunindo, baixando como uma tempestade vagarosa. O sangue, o fogo: o encantamento estava começando.
— Todos aqui vão morrer — disse Kate.
Linay emitiu um som bem no fundo da garganta e deu um passo para o lado, para longe do fogo. A amarração no seu pulso não o deixou se afastar. Kate estendeu a mão para ajudá-lo e sentiu o entalhe com asas se fincar no seu quadril. De repente, ela soube exatamente o que fazer.
— Por quê? — disse ela.
Linay deu a risada ferida, assustada, que Kate já tinha conseguido extrair dele uma ou duas vezes.
— Mas você sabe! — Seus olhos se desviaram para Drina, e ele protestou: — Para salvá-la! Para salvar minha irmã!
Kate mostrou-lhe o entalhe.
— Esta aqui é ela. É o rosto da sua irmã.
Linay ficou estarrecido, olhando para o entalhe.
— Lenore... — disse ele.
E a criatura por trás das nuvens pareceu responder: sim.
Kate pôs o entalhe na madeira fumegante junto do joelho de Linay.
— O que você está fazendo? — disse Linay. — Não a queime! — A fumaça quente fazia turbilhonar as saias do seu zupan. O fogo estalava e esvoaçava.
— Ela ia querer ser salva, desse modo?
— Ela era bruxa. Ela entendia... a troca de dádivas. O sacrifício. — Seus olhos se desviaram velozes para o rosto entalhado da irmã. — Pegue essa peça.
— Se você me responder. Será que Lenore iria querer isso?
O fogo vinha subindo em torno do rosto entalhado, abrindo caminho para o alto e fechando arcos acima do entalhe com asas que batiam velozes.
O pulso preso de Linay não parava de repuxar como um vison numa armadilha. Parecia que ele não se dava conta disso, nem percebia que tinha se afastado do fogo crescente tanto quanto a amarração permitia.
— Kate — disse ele, com a respiração trêmula.
E ela se jogou para a frente para soltá-lo.
Linay atirou a mão entre eles e se encolheu como que se protegendo de um golpe. Kate descobriu-se presa mais uma vez, no encantamento do ar tornado vidro.
— Eu posso fazer isso. Posso fazer isso. — Sangue gotejava da sua mão cortada, do seu pulso preso que se contorcia, e caía queimando, queimando, queimando.
— Lenore! — gritou ele, soluçando enquanto gritava.
— Ela não ia querer isso! — Kate precisou gritar mais alto que o ronco do fogo: — Linay! Me solta!
Chamas enroscavam-se nas vestes de Linay, ventos quentes e amarelos levantando seu cabelo. Kate conhecia a sensação, a dor e o pânico. E ainda assim a força da vontade dele se mantinha, e ela estava presa, indefesa diante do fogo, como uma castanha nos carvões. Sua obra-prima estava ficando negra, com as chamas devorando os pontos mais finos nas asas.
— Olhe para ela! — gritou Kate. — Olhe para o rosto dela e me diga se ela ia querer isso!
Lá no alto as nuvens ribombaram, e uma morte terrível despertava.
E de lá de baixo, aguda e histérica, veio a voz de Drina:
— Minta para ela! — gritou Drina. — Minta para ela, e você morrerá. Tudo vai poder se acabar. É só mentir para ela!
O rosto de Linay — ele também ficando enegrecido — de repente se acalmou, de repente se enrijeceu, e seus olhos se fixaram nos de Kate.
— Sim — disse ele. — Lenore ia querer isso. — E ele se dobrou ao meio como se tivesse engolido uma espada.
O vidro em torno de Kate se estilhaçou. Ela mergulhou nas chamas, escalando de qualquer modo a lenha fumegante, com o formão na mão. Com um corte, soltou o pulso dele e deu um grito:
— Drina!
Linay rolou para fora do fogo, e Drina dava puxões no seu braço. Sangue jorrava de sua boca, onde a mentira o tinha cortado. Kate saltou da pilha de madeira e caiu, rolando ao lado deles. Ela viu Linay olhar para ela, com os olhos sonhadores, e depois eles se voltaram para o céu.
— Irmã... — sussurrou ele.
Kate arrancou sua talha da fogueira, chamuscando as mãos. Ela a agitou diante do rosto de Linay.
— Não!
— Irmã — sussurrou Linay. — Por favor, me ajude!
E assim, invocada a sair do céu negro-esverdeado, a criatura alada veio. Descendo entre os pisoteados mortos e quase mortos, as pessoas amontoadas junto aos portões, ela se precipitou como uma águia em ataque. Kate viu as asas duplas: branca como o nevoeiro e de uma sombra grumosa. Viu os corpos afundarem num fogo negro, doentio.
— Retire o que disse! — berrou ela para Linay. Ela enfiou o nariz entalhado de Lenore diante do nariz dele, apesar de seus olhos claros como gelo já estarem se desfazendo numa água turva. — Retire o que disse. Faça com que ela pare!
A asa que Kate estava segurando partiu-se, e a talha caiu na pedra, quebrando-se ao longo de linhas quentes. Kate agachou-se sobre ela, sobre Linay.
— Por favor — disse ela. Linay estava morrendo diante dela, queimado por toda parte, a boca vermelha aberta. — Por favor, faça com que ela pare!
— Existe apenas um jeito de fazê-la parar — veio uma voz do seu cotovelo. Ela se virou. Era Braque, sentado no rebordo do palanque em chamas. — E você sabe qual é.
Kate olhou para o formão na sua mão.
— Sinto muito — disse o gato. A rusalka vinha atravessando a praça devagar, atacando as pilhas de mortos. Ela crescia à medida que se alimentava, enchendo o ar acima deles como um barco à vela. — Tem de ser você quem vai me matar — disse Braque. — Eu fui a dádiva dele para você. Tem de ser você quem a devolve.
Ela sentiu sua boca se abrir, sua cabeça sacudir de um lado para outro.
— Você pode sobreviver — disse Braque. — E é só isso o que eu quero. Você não precisa de mim. Você pode encontrar seu próprio lugar, só com sua força. — Atrás dele, as asas se avultaram. — Katerina, Estrela do Meu Coração. Tenha coragem. Levante seu formão.
Kate olhou nos seus olhos dourados.
E levantou o formão.
E Braque, que era belo, que jamais tinha errado um salto na vida, pulou na direção dela com as patas dianteiras abertas. Ele caiu direto sobre a lâmina. Houve um som como o de alguém mordendo uma maçã. Em seguida, ele estava nos seus braços, com o formão saindo pelas costas.
Kate curvou-se. Braque estava enroscado nos seus braços, com o cabo do formão projetado para fora do peito, como um pino de madeira. Ela pôs a mão em torno do cabo; ele saía entre os seus dedos. O sangue também escorria entre eles, sangue escuro do coração, borbulhando como uma fonte. Drina tentou arrastá-la para longe do fogo, mas Kate afastou suas mãos.
— Braque — soluçou ela.
O gato mexeu-se, encolheu-se e sorriu. Não um tremor de bigodes, mas uma coisa humana, levantando os cantos da boca.
— Katerina...
A rusalka estava vindo na sua direção, com as asas batendo regulares como um coração.
— Braque — sussurrou Kate.
Sua pulsação tornou-se mais lenta por baixo da mão dela.
— Mais... — Sua voz era só um sopro.
— Mais que um gato.
— E eu não me arrependo. — Os olhos dele turvaram-se. — Você podia... aqui onde está coçando...
Ela coçou seu lugar preferido, onde o pelo formava um remoinho acima da protuberância dura do maxilar. O calor do fogo arrancou lágrimas de um lado do seu rosto.
Braque respirou mais uma vez.
As asas de sombra da rusalka fecharam-se, dobradas. O coração de Braque estremeceu. A rusalka deu um passo à frente, encolhendo-se, e as asas caíram. Mais uma batida do coração. Mais um passo. A escuridão descia dos ombros da mulher branca como a cauda de um vestido. Mais uma batida do coração, e o sombreamento se arrastava roçando nas pedras do calçamento.
E depois ela era só uma sombra. E o coração de Braque parou.
Kate arrancou o formão. O gato não se mexeu. Não saiu nenhum sangue novo.
Ela pôs o formão — seu formão — onde o fogo pudesse alcançá-lo e pensou em se deitar junto dele.
Ao lado deles, Linay respirava, de olhos abertos, calmo como um homem dormindo. Abaixo, na praça, havia uma mulher em pé. Seu rosto branco-de-bruxa estava rígido de horror. Sua sombra tremia atrás dela com as chamas da pira. A mulher levantou a mão para se proteger da luz terrível, contraindo os olhos. Ela abriu os dedos e gritou alguma coisa.
O fogo apagou-se.
Drina atirou-se escada abaixo, nos braços da mulher.
— Dajena! — gritou ela, e depois chorou. — Dajena... — Ela escondeu o rosto no ombro brilhante da mulher.
— Mira cheya — resmungou a mulher. — Drina. O que você está fazendo aqui? Não quero que veja isso, preciso cuidar dessa pobre criatura...
Mas Drina não quis sair do seu lado. Por isso, a mulher segurou com um braço a menina soluçante e levantou o queixo para a pilastra de pedra. Depois, ela deu um passo à frente, delicada como um cervo, mas com a expressão implacável, e subiu a escada, com Drina a acompanhando aos tropeções.
Kate levantou-se.
Era surpreendente como o corpo de Braque era leve. Toda a substância dele parecia ter sido absorvida por Kate, pela bata sangrenta que se grudava à sua frente, pela sua mão do formão, pelo seu próprio corpo. Braque era como lanugem. Dele não restava nada.
Em seguida, Lenore e Kate estavam paradas de frente uma para a outra, com Linay aos seus pés. Ele estava estatelado, com os braços e as pernas dobrados como uma marionete jogada. Ele olhou primeiro para Kate, depois para Lenore, e então, sem expressão, para o céu que estava se desanuviando.
— Sinto-me estranho — disse ele. — Acho que estou morrendo.
— Ótimo. Nós não gostamos de você — respondeu Kate, com o pequeno corpo no colo. Mas ajoelhou-se ao lado dele e segurou sua mão áspera.
— Permita-me — sussurrou Lenore, agachando-se ao lado deles. Kate sentiu calor humano no roçar do seu braço. — Quem é você, irmão? Diga-me seu nome e eu poderei ajudá-lo com a dor. — Kate ouviu sua voz adquirir um tom melodioso no meio da fala: — Quem lhe fez isso?
— Ah, não — respondeu Linay, cantarolando. — Fui eu mesmo. Não está vendo? Uma vida por uma vida... como a magia deve ser.
— Linay? — A voz de Lenore ficou embargada com o choque. — Pela Madona Negra, o que você fez?
Vingou sua morte, pensou Kate. Desfez seu destino. Trocou a vida dele pela sua. Mas não conseguiu dizer nada disso.
— Lenore — disse Linay, respirando —, eu amo... — Mas sua respiração tremeu, e ele só pôde piscar os olhos para ela. Lenore afastou o que tinha sido o cabelo dele de cima da testa, cantando. A tensão vital estava se esvaindo dele, como uma corda congelada se descongelando numa poça d’água. Kate ficou olhando, com o corpo de Braque se enrijecendo em contato com o dela.
— Ele morreu — disse Lenore, segurando nos braços o corpo inerte. — Meu irmão morreu! O que está acontecendo?
— A guarda vai chegar a qualquer momento — disse Kate. — Escute. — Tinha a impressão de estar ouvindo a cidade inteira, os milhares de sons misturados no latejamento nos seus ouvidos.
— Quem é você? — Lenore levantou-se e segurou o braço de Kate. Kate tentou se livrar, contorcendo o corpo para se manter encurvada sobre Braque, mas Lenore não a soltou, e o braço de Kate foi puxado, esticado, enquanto sua manga se encolhia, revelando os cortes das sangrias. A mulher que tinha sido a rusalka estremeceu. — Eu conheço você.
— Dajena... — Drina puxou a mão da mãe. — Ela é minha amiga. Pode soltá-la.
Mas Lenore não deu atenção à filha, olhando ao redor.
— Eu me lembro. Eu estava morta. Tentaram me queimar. — Ela olhou para a pira e para os fragmentos carbonizados do seu próprio rosto, ali no chão. — Vejam. — Ela se abaixou, apanhando do chão um pedaço com as bordas pretas: um olho e uma mecha de cabelo, o vislumbre de uma asa.
— Dajena.
Com cuidado, Drina foi tirando a peça enegrecida da mão da mãe.
Lenore soltou o entalhe e, como uma sonâmbula, foi até a borda do palanque, onde ficou parada olhando para a superfície escura do canal.
— Eu morri ali. Eu me lembro. — Sua expressão tornou-se estranha. — E — disse ela numa voz que poderia ter feito murchar o capim — me lembro de depois.
— Você não precisa pensar nisso — disse Drina. — Você está salva. Nós a salvamos.
Lenore se sacudiu e se virou.
— Minha filha. Ah, Drina. — Ela passou o dedo pelo cabelo preto tosado de Drina. O sol mal estava surgindo, longos dedos de luz a feri-las, fazendo a mulher brilhar como uma janela de encerado. — Você cresceu. — Ela segurou Drina pelos dois ombros, com os olhos enormes. — Você é maravilhosa — disse ela. — É esplêndida como o sol.
E Kate apertou mais o corpo de Braque. Estrela do Meu Coração. Seu pai tinha morrido dizendo isso, e durante anos Kate pensara que ele estava vendo sua mãe, em pé junto do portal da morte. Mas ele estava olhando para ela, exatamente como Lenore olhava agora. Ele a via. Seu pai a via.
— Vamos — disse Lenore, e desceu majestosa a escada, como um raio de luz. Kate e Drina a acompanharam.