Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 17 de 19

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Kate Somente

17. A Cidade de Pedra

dezessete

A CIDADE DE PEDRA

 

— Ele quer ser queimado — disse Kate. — Ai, meu Deus, ele quer ser queimado. Ele disse que seria necessário um encantamento extraordinário para unir a sombra e a rusalka. Um encantamento extraordinário: um sacrifício extraordinário. Ele vai sacrificar a si mesmo. — O aguaceiro gelado caía sobre ela. Ela se lembrou do rosto de Linay, apavorado e exultante. Ele uniria a rusalka à sombra com sua própria morte. A criatura alada mataria tudo que tocasse. Todas as pessoas. A cidade inteira. Kate estremeceu. — Ele me mandou fugir.

— Hummm — disse Braque, pisando com cuidado nas telhas soltas. — Fugir não é um plano ruim.

Kate não fez caso dele.

— Para onde o levarão? — perguntou ela a Drina. — Para onde levaram Lenore?

— Katerina — começou Braque.

— Drina, para onde?

Drina parecia arrasada.

— Para as cortes — sussurrou ela. — No centro da cidade. Mas, Kate... não podemos fazer nada. Tentamos. Quando levaram minha mãe, nós tentamos. Eles só riram. Nosso Baro disse que tivemos sorte por eles só rirem.

Abaixo deles os guardas tinham começado a voltar sem pressa para a praça do portão. Estavam empilhando os mortos: os lanceiros esmagados e as pessoas que tinham sido empurradas de encontro às lanças. Kate não olhou, mas foi impossível não ouvir os corpos sendo arrastados e os baques pesados.

— Braque — disse ela —, descubra um caminho rápido até o centro da cidade.

O gato encarou-a, pensativo, com os olhos firmes como dois lampiões de mica. Virou-se em seguida e as conduziu para longe dali, pelo alto dos telhados, ágil e destemido.

O aguaceiro amainou, tornando-se uma chuva fria, de encharcar. Os telhados íngremes estavam escorregadios, mas eles não se atreveram a ir para as ruas. Homens no traje escuro da guarda da cidade perambulavam em grupos e expulsavam os refugiados dos portais e becos. E assim Drina e Kate permaneceram nos telhados, avançando muito devagar, escorregando, tentando se agarrar, mantendo-se fora do alcance da visão. Era vagaroso e extenuante. A luz já estava quase desaparecendo quando eles chegaram ao alto de um telhado que dava para a praça principal.

Do outro lado da praça, assomavam a prefeitura, com seu telhado inclinado e janelas fechadas, e uma igreja, com seu campanário repleto de monstros. Um prédio atarracado ocupava o espaço entre a igreja e a prefeitura, com suas janelas fechadas com grades e portas protegidas por guardas.

— As cortes — sussurrou Drina. — E ali... — Ela parou de falar e apontou para baixo.

Num pequeno palanque no centro da praça erguia-se o weizi, a coluna entalhada que deveria ser o coração da cidade. Mas aquele ali não era entalhado. E era de pedra. Isso era tão estranho para a alma de entalhadora de Kate que ela mal conseguia absorver a ideia. Uma coluna limpa — não, Kate percebeu, não era uma coluna, era um poste, um poste para queimar gente num pequeno palanque, que já tinha visto sabe-se lá quantas mortes. Kate engoliu em seco e por um instante sentiu vontade de simplesmente deixar a cidade cair sob o efeito das asas da rusalka. Essa morte rápida era melhor do que a que esta cidade merecia.

A cidade de pedra, dissera-lhe Linay um dia, tinha um coração de pedra. E lá estava ele. Ali perto, o canal onde Lenore se afogara batia por baixo da beira das docas.

O dia que ia terminando estava tranquilo, e a tampa do céu deturpava os sons. Kate não teve certeza se estava ou não ouvindo gritos.

— Linay... — sussurrou ela, e se agarrou à calha para se firmar. — Drina. Quanto tempo nós temos? Eles... eles vão queimá-lo hoje à noite?

Drina fez que não.

— Vai haver um julgamento... uma tortura. — Ela ficou calada tanto tempo que Kate quase lhe fez a pergunta, quase precisou descobrir um jeito de perguntar: Por quanto tempo eles torturaram sua mãe?

— Amanhã — disse Drina, antes que Kate tivesse de encontrar aquelas palavras. — Eles vão torturá-lo esta noite, para fazer com que confesse. Vão queimá-lo amanhã. Quando o povo puder assistir.

Kate afastou dos olhos o cabelo gotejante e olhou com atenção para o volume atarracado das cortes, suas pequenas janelas com grades, espremidas.

— Temos de tirá-lo de lá.

— Nem o exército do grão-duque conseguiria tirá-lo — disse Braque.

— Não quero vê-lo ser queimado — sussurrou Drina.

Kate procurou continuar a ser prática e respondeu a Braque:

— Pode ser que consigamos entrar.

— Ah! — disse Braque, animado. — E lá dentro vamos matá-lo enquanto dorme! — Apesar do seu tom alegre, o olhar que ele lançou para a construção escura foi cético. — Tem de haver um porão ou dois, eu acho. Vou olhar. — E pulou sem medo da beira da calha, para uma saliência que Kate nem mesmo tinha visto, desceu de novo para atravessar sorrateiro um peitoril de janela e voltou a descer para sumir, cinzento, na claridade cinzenta.

A sombra do berro voltou outra vez no crepúsculo gelado.

— Vou passar mal — disse Drina, engasgada. Ela recuou para se afastar da beira. Kate deu as costas para a praça e a acompanhou. Mais para trás no telhado, elas encontraram abrigo, junto a uma parede mais alta. Não era grande coisa: um pombal em ruínas entre duas chaminés enormes, com um resto de telhado e uma colmeia de celas para pombas, com uma espessa camada de excrementos brancos por cima de tudo. Tinha um cheiro forte e ácido, como o da jaula de urso na qual os nômades guardavam as galinhas e na qual Kate fora queimada. O cheiro deu-lhe um calafrio e um gosto metálico na boca.

Agora que a noite caía, Kate tinha certeza: em algum lugar ali perto Linay estava berrando.

 

Na escuridão, Kate esperava pela volta de Braque. Ela segurava nas mãos a peça de rádica entalhada com o rosto de Lenore, usando o gume do formão para alisar um trecho áspero aqui e ali. Drina cochilava, tremendo de frio, ao seu lado, com as nuvens pesadas muito próximas fazendo pressão sobre ela. E a cidade dormia inquieta lá embaixo. Braque demorou muito para voltar, tempo suficiente para Kate entrar e sair de sonhos, com esforço: ela estava debruçada sobre seu estojo de trabalho em Samilae, entalhando, só que tinha asas, em vez de uma sombra. Estava perdida num labirinto de ruas de pedra, e alguém estava aos berros; e depois as pedras se derreteram. Estava segurando nos braços o corpo de Braque.

Ela acordou com o focinho gelado de Braque cutucando seu nariz. O pelo dele estava úmido e grudado com uma lama imunda. Ela o afagou e pelos soltos ficaram presos nas suas mãos.

— Um lugar escuro, cheio do cheiro de sangue e de medo, cheio de grades e grelhas — informou ele. — Seria preciso um rato para entrar de mansinho. Um rato magrinho. Não haverá resgate.

— Eu sonhei... — Kate inclinou a cabeça para trás. Os tijolos esfarelentos da chaminé prenderam e repuxaram seu cabelo. — ... Sem resgate.

Braque olhou para ela, desconfiado.

— Você está planejando alguma coisa.

— Se eu descer lá — disse ela, devagar —, a guarda vai ver que não tenho sombra. E vão me prender. E, então, pode ser que eu consiga chegar perto dele.

— Não — disse Braque. — Nenhuma amiga minha vai assumir um destino desses.

Kate dirigiu o olhar para o rosto entalhado de Lenore. Lembrou-se de ter prometido ao pai que seria mestra formada antes dos vinte anos, e tinha razão: aquela era sua obra-prima. Mas, em vez disso, o que ia acontecer era que ela ia morrer.

— Logo, alguém vai perceber minha sombra, Braque. Vai acabar acontecendo.

— Não aqui — disse ele. — Não desse jeito. Você não viu. Não tem como imaginar. — O gato suspirou e ficou andando de um lado para outro diante do pombal. Por fim, ele se virou para ela. — Katerina, esta cidade é um lugar de ratos. Vamos deixar os ratos aos ratos e seguir com nossas aventuras. O que me diz?

Ela queria dizer sim. Não havia nada para amar dentro das muralhas de Lov. Mas também em Toila tinha havido pouco amor e mesmo assim uma desconhecida as salvara. E em Samilae, onde um machado tinha surgido da escuridão, Niki permanecera forte e generoso.

— Tem de haver uma cesteira — disse Kate —, ou um padeiro.

— Pois bem — disse o gato. — Ele pretende se matar dessa forma estúpida. Nós precisamos matá-lo antes que ele consiga, ou salvá-lo disso. — Ele abanou a cabeça, humano, cheio de preocupação. — Suponho que talvez se apresente uma das duas oportunidades, ou a outra. Por mim, acho que deveríamos nos concentrar em matá-lo.

Drina mexeu-se no sono leve e estremeceu. Kate ficou olhando-a algum tempo, enquanto ela dormia, desejando ter um pedaço de cobertor. A chuva estava muito fria.

— Será que nós... nós todos vamos sobreviver? — perguntou ela, por fim.

— Eu duvido — disse o gato com a voz arrastada. — Nós pusemos nossas vidas em grave risco para fazer isso, Katerina. Diga-me que você tem certeza.

— Eu preciso impedi-lo, Braque. Meu sangue. Minha sombra. Ele me usou para fazer isso. É minha culpa, e eu tenho de consertar.

Braque sentou-se, esguio e forte como uma coluna, inabalável. Ele não fez sugestões. Kate coçou entre as orelhas dele. Ela ainda podia sentir a protuberância no lugar onde o machado de Stivo o atingira. Ele subiu no seu colo, ronronando, e ela se aninhou no calor fraco da chaminé quebrada.

— Precisamos chegar perto dele — disse Braque. — Perto o suficiente para o bote. Se surgir uma oportunidade, precisaremos estar prontos.

— O poste — disse ela. — Ele... é para lá que eles o levarão.

 

Por isso, à primeira claridade do dia, eles desceram para a praça, para o lugar da fogueira.

A construção era caprichada e horrível no seu capricho. O palanque era de pedra e quase tão alto quanto elas. Um lance de escada tinha sido cortado na sua lateral. Um rebordo de pedra manteria o fogo contido. E haveria fogo: já se via uma pilha de toras partidas e galhos, como um gigantesco ninho de cegonha, em torno do poste. Eles exalavam um mau cheiro de breu e sebo. Mais barris de breu estavam enfileirados, como condenados, junto à base do palanque. Kate e Drina conseguiram se enfiar entre eles e se agacharam para esperar.

Era uma manhã estranha, escura e arroxeada. Brisas geladas sopravam direto de nuvens baixas — nuvens como uma muralha de rochas pairando acima da cabeça delas. Acima daquelas nuvens, Kate tinha certeza de que alguma coisa dava voltas. Alguma coisa sentia fome. Alguma coisa aguardava.

Olhando por entre as paredes curvas dos barris pretos, Kate e Drina viram a praça se encher. Mascates vendiam pretzels e nozes torradas, latoeiros ofereciam talismãs, músicos tocavam, acrobatas davam saltos mortais. Mas não se podia comprar pele nem tecido, carne crua nem farinha, nada que levasse mais de uma hora para ser feito. Não era uma feira: era um carnaval.

— Estão dizendo que já o pegaram — informou Braque, voltando sorrateiro do meio da multidão. — Que logo a chuva vai parar e a vida vai melhorar. Pretendem queimá-lo ao meio-dia. Além disso, estão vendendo tortas de carne.

Eles esperaram. A multidão cresceu, e logo eles podiam ver pouca coisa além de pernas, boas botas e tamancos mantendo chinelos delicados acima das poças. Braque não parava de falar nas tortas de carne. Os sinos na igreja davam as horas: nove. Dez. Onze. Eles saíram de onde estavam entre os barris. Meio-dia.

Podiam ouvir a chegada de Linay. A zombaria na multidão o precedia como a maré subindo pelo rio. As pessoas em torno deles pareceram inchar; o que antes era uma multidão cerrada, de repente se tornou esmagadora. Kate levou empurrões. Braque saltou para o alto de um barril. Drina encostou-se mais. Eles não conseguiam enxergar nada.

E então, de repente, quase ao alcance da mão: Linay.

Ele estava com as mãos amarradas à sua frente. O homem de barba grisalha com a faixa vermelha, o chefe da guarda, estava arrastando-o escada acima como um urso numa trela. Outro guarda vinha às suas costas, andando de ré, segurando a espada, mantendo afastada a turba.

A multidão deu um rugido quando Linay tropeçou na escada, oscilou em cima do palanque. Um olho estava roxo — uma mancha surpreendente no rosto claro demais — e um lado do seu cabelo branco estava arrancado em tufos, grudado com sangue. O chefe da guarda deu-lhe um safanão de lado. Ele cambaleou, colidiu com o poste e depois gemeu quando o porrete do chefe da guarda o atingiu na orelha. Ficou ali em pé atordoado, enquanto o homem soltava suas mãos.

Não, pensou Kate. Não me faça ver isso.

No poste, a alguns palmos de altura, uma argola de ferro saía da pedra. Com agilidade, como alguém que já tinha feito isso muitas vezes, o chefe da guarda prendeu um pulso de Linay à argola.

Um silêncio expectante abateu-se sobre a multidão.

O chefe da guarda ergueu o porrete outra vez, e Kate pôde ver a cena se desenrolando na sua mente: ele daria um golpe no pescoço ou na nuca, o suficiente para atordoá-lo. Viraria Linay com violência, pondo-o com as costas no poste e os dois pulsos para trás. Para que a multidão visse seu rosto, é claro. Enquanto ele era queimado. Ele veio matar essas pessoas, pensou ela, e não nos cabe impedi-lo. Como podemos impedi-lo? O chefe da guarda ergueu mais o porrete, exatamente como Kate achava que ele faria, e desfechou o golpe...

... e o braço de Linay subiu como uma vela que se camba de repente. O porrete resvalou no seu antebraço quando ele girou. Ele procurou atingir o rosto do homem, veloz como uma cobra. Sua mão fechou-se sobre a boca: branca e furiosa por cima da barba grisalha, bem-cuidada. Ele se aproximou mais.

— Todo esse tempo caçando bruxos — disse ele, entre- dentes —, e você nunca imaginou encontrar um que fosse perigoso? — Ele deu um longo sopro direto no rosto do homem.

O chefe da guarda recuou, tentando agarrar o próprio rosto e pescoço. Seu chapéu imponente saiu voando. Kate Somente pôde dizer o que tinha acontecido quando um raio de sol isolado gerou um brilho no rosto do guarda. Era gelo. Linay tinha posto uma máscara de gelo sobre o nariz e a garganta, que impedia a entrada de ar. Tornando-se de um roxo feio, o homem caiu do palanque. A multidão começou a recuar aos poucos.

Linay abriu para eles um largo sorriso. Agora não havia nele nada de hesitante ou fraco. Ele se agigantava e ria.

— Ora, ora! — gritou ele. — Não vão embora! Alguém vai ser queimado! — E ele atirou alguma coisa na direção da multidão, que se pôs a gritar. Alguma coisa pequena e picante atingiu Kate, enquanto ela tentava se proteger junto do barril: gelo.

O gelo mal a espetou. Feria menos que granizo, mas a multidão entrou em pânico. Ela fugiu descontrolada, e sua força, impessoal como um machado, alcançou Kate. Ela cambaleou, viu Braque sair voando, viu Drina cair no chão. Ela se jogou de lado e empurrou Drina por trás dos barris. As duas ficaram agarradas uma à outra, ofegantes e machucadas, enquanto a multidão corcoveava, guinchava e fugia.

Kate levantou a cabeça. Tudo tinha acontecido muito depressa. A praça estava quase vazia. Algumas pessoas — as que tinham caído e sido pisoteadas demais — jaziam amontoadas nas pedras do calçamento, empilhadas junto aos portões. No ar havia gemidos como guinchos de porcos e um cheiro de sangue.

O guarda que restava, o que brandia a espada, tinha se mantido no lugar. Ele se voltou para Linay e investiu. Linay segurou a lâmina da espada com sua única mão livre, desprotegida. Kate viu o sangue começar a recobri-la e em seguida uma camada de gelo. Linay encarou nos olhos o guarda, que ficou paralisado. A espada tornou-se negra com o frio, fumegou e se estilhaçou.

— Obrigado — disse Linay, curvando-se para apanhar um pedaço quebrado. — Eu precisava mesmo de uma lâmina.

O homem de olhos arregalados recuou.

Linay permaneceu parado, olhando para o fragmento na sua mão. E quando o guarda se afastou, trôpego, passando pelos corpos amontoados, Kate, Braque e Drina se viram sozinhos aos pés do palanque.

Kate respirou fundo e subiu pela escada de pedra.

E então ela estava em pé, de mãos vazias, junto do poste, sem a menor ideia do que fazer.

— Katerina — disse Linay.