Kate Somente
16. A Paz de Lov
dezesseis
A PAZ DE LOV
— Não — disse Kate. — Não.
— É esse, porém, seu desejo — disse Braque, implacável. — Salvar a cidade. Todos aqueles milhares e milhares de pessoas.
— Não é isso... — Kate descobriu que lágrimas faziam arder seus olhos. Ela bateu as pálpebras com raiva para expulsá-las. Os três ficaram ali sentados, olhando uns para os outros.
— Drina, se eu morrer, Linay perderá a sombra de Katerina. Estou certo, não estou?
Mas até mesmo Kate sabia que sim. Era a primeira lei da magia: a troca de dádivas. Creme debruçou-se para tentar comer o cabelo de Drina. A garota nômade fez que sim para Braque, voltou-se e abraçou o pescoço da égua.
— Existe um outro modo de fazê-lo parar — disse Kate. Sua voz estava dura como raiz de carvalho. — Ele não poderá fazer o encantamento se estiver morto.
Drina voltou-se, rapidamente.
— Kate!
— É — disse ela, pondo-se de pé. — Precisamos matá-lo.
— Ele é meu... — Drina começou a fazer objeção e parou. Agora todos estavam em pé, uns encarando os outros, e somente a égua estava calma.
— Gosto desse plano — disse Braque, abrindo os dedos. — É muito melhor que o outro plano. É o seguinte o que eu acho que devemos fazer: deveríamos encontrá-lo e matá-lo enquanto estiver dormindo.
Linay, que se movimentava num piscar de olhos, que tinha derrubado Braque levantando apenas um dedo. Kate não disse nada, mas Braque leu seu pensamento.
— É verdade que ele é uma presa grande — disse o gato —, mas você não está percebendo a genialidade do meu plano: a parte do sono. Encontrá-lo deve ser fácil porque sabemos para onde ele está se dirigindo.
— Não posso — sussurrou Drina. — Foi ele que me ensinou a nadar.
— Braque... — hesitou Kate... e se decidiu. — Como?
— Você sabe entalhar — disse ele. — Faça isso. A carne é mais macia do que a madeira.
Kate pensou nas mulheres enforcadas com os feitiços gravados nas mãos.
— Não tenho certeza se consigo.
— Trate de ter certeza — disse o gato, com os olhos chispando, verdes, à luz da fogueira. — Uma vez que se tenha saltado no dorso de um javali, não se pode recolher as garras.
— Mesmo que... — disse Drina. — Ele é forte, ou era.
— Ainda é. — O pulso de Kate ainda doía quando ela pensava nas mãos de Linay.
— Escutem — disse Braque. — Tem alguma coisa na estrada.
Através dos troncos oscilantes das bétulas a luz dançava e chamejava. Daí a um instante eles puderam ver homens que se aproximavam, subindo pela trilha da floresta, um grupo com archotes. Todos estavam vestidos da mesma forma: trajes escuros com uma aplicação amarela no peito, e nela estava bordado um barco vermelho sob remos cruzados. Um até portava uma bandeira. Kate nunca tinha visto uniformes, mas sabia o que eles eram.
À luz dos archotes, seus rostos pareciam pálidos. Kate viu os buracos escuros dos olhos que se voltaram para onde elas estavam. As meninas se aproximaram mais uma da outra. Creme bateu a pata e bufou. Mas os homens não pararam.
Drina estava tão perto dela que Kate pôde sentir seu calor.
— Soldados — sussurrou ela. — A guarda da cidade.
O gato tinha sumido na escuridão. Daí a um instante ele estava de volta.
— Atravessaram a ponte. Para entrar na cidade.
— São eles... — disse Drina. — Eles vieram buscar minha mãe.
Elas ficaram paradas olhando para o outro lado do rio. A cidade se remexia inquieta no sono, enviando na sua direção fragmentos de som e relances de luz.
— Isso é grande demais — disse Drina. — Não temos como fazer isso.
— Temos, sim — disse Kate, que de repente via uma saída. — Vamos contar à guarda... — Sua voz foi se calando à medida que as implicações lhe ocorriam, mas tomou coragem e prosseguiu: — Vamos procurar a guarda e dizer que ele é um bruxo. Vamos denunciá-lo.
Drina permanecia em pé, e Kate viu que ela começava a tremer à medida que se dava conta.
— Vão queimá-lo.
— Vão — disse Kate. — Eu sei.
Depois disso, elas não conseguiram falar, mas de algum modo dormiram, bem juntas, no vardo, com a mão inerte de Behjet caída, pousada nas costas de Kate. Era desconfortável, mas era também reconfortante: Linay tinha matado. Ao atrair a rusalka, ele havia assassinado metade dos moradores do campo. Ele matara Behjet, ou quase. A pele do homem estava esticada sobre o crânio como um couro de tambor, e ele cheirava a morte. Linay tinha feito aquilo. Ele matara as mulheres enforcadas nas árvores, o jovem lavrador nas papoulas, tinha matado Stivo, Wen e o pequeno Ciri, bem como centenas de outros. Ele merecia não importava o que fosse que a guarda da cidade fizesse com ele.
Mas não merecia, diziam os breves pensamentos de Kate, porque ninguém merecia.
E eu o ajudei. O que eu mereço?
Ela teve um sono irregular, cheio de pesadelos, e acordou pouco depois de amanhecer. Durante a noite, o tempo tinha mudado. O nevoeiro e o chuvisco intermináveis haviam parado, e nuvens se acachapavam acima delas, baixas, de um verde quase preto, arredondadas como o dorso de rochas no rio: nuvens de granizo que emitiam turbilhões de ar gelado. Um crepúsculo fraco passava oblíquo por baixo delas.
À luz do dia, Lov parecia maior. Suas muralhas enormes eram de um cinza lamacento. Telhados e torres atarracadas erguiam-se acima delas, com telhas de ardósia da mesma cor das nuvens. Na manhã fria, a cidade inteira fumegava e exalava vapores como de esterco fresco. Kate olhava para ela enquanto passava gordura nos pés e calçava as meias. A estrada estava enlameada, e ter meias em quantidade suficiente para um par sempre estar seco era a única forma de impedir o apodrecimento dos pés. Ficou feliz por ter roubado as de Linay.
Linay.
Drina saiu do vardo. O cabelo tosado se eriçava em todas as direções, fazia com que ela parecesse agredida, mais velha. Kate podia ver o corte na sua orelha; tinha se fechado, ficando quase preto com a cicatriz. Drina encolheu-se diante do seu olhar e virou para outro lado, prendendo o cabelo com um turbante escuro. Sua sombra magra e comprida estendia-se azul em meio às sombras das bétulas.
Em seguida, Braque voltou da sua higiene matinal, arrastando um vison meio morto, ainda bufando.
— Hoje — disse-lhe Kate. — Hoje eu vou matar alguém.
— Isso não me incomodaria — disse o gato, com a voz arrastada.
Tiveram de deixar o vardo. Havia uma taxa, disse Drina, para entrar em Lov com uma carroça, e elas não tinham como pagá-la. Kate encontrou seu velho cesto e o encheu com a comida que tinham, com mais meias e o pano azul com estrelas para cobrir seu cabelo retalhado. Drina lavou Behjet e tentou lhe dar um caldo. Não conseguiu: ele havia parado de engolir. Lágrimas brotaram nos seus olhos, mas ela não disse nada, apenas pôs o caldo ao lado da mão de Behjet e saiu para cuidar de Creme. Braque matou o vison e limpou os bigodes como um cavalheiro. E depois eles partiram.
A cidade de Lov erguia-se numa elevação na região pantanosa. O Narwe, como um fosso gigante, protegia três lados. Vista por trás, a cidade parecia tranquila: caniços como pinceladas sobre as pedras quadradas, uma comunidade de cegonhas aninhada entre eles. As grandes aves brancas andavam majestosas e lentas pela água escura.
Um canal saía do rio e entrava na cidade através de uma grade metálica. Um remanso junto à base da muralha estava coalhado com pequenas embarcações de todos os tipos. Entre elas havia uma pequena balsa verde, pintada e entalhada ao estilo dos nômades. Braque apontou com uma pata, dando a impressão de um ser humano preso na pele de um gato.
— Ele está aqui.
Eles ficaram olhando em silêncio. Depois, atravessaram a ponte, onde a estrada do rio se unia à estrada principal, e dava a volta pelo flanco de Lov.
O portão enorme estava fechado. E a partir dele, como as entranhas de um coelho estripado, vinha se derramando outra cidade, um campo de tendas e choças. A estrada desaparecia num caldo de lama e coisas piores. Enxames de moscas voavam vagarosos no frio da manhã.
Kate tinha se acostumado a estar somente na companhia de pessoas que sabiam da história da sua sombra. Agora, ela sentia os penetrantes olhares de esguelha dos refugiados, examinando suas queimaduras, procurando definir exatamente o que era tão estranho nela. Drina deu puxões no seu turbante, escondendo nele as pontas desiguais do seu cabelo. Braque, porém, ia sentado empertigado, equilibrando-se no cesto de Kate, altivo e elegante como um rei.
Eles abriram caminho pela multidão para entrar na sombra da muralha enorme. Levaram uma hora para cobrir a distância da qual poderiam ter atirado uma pedra; três horas para chegar a algum ponto próximo do portão.
De repente, o gato se retesou no ombro de Kate e deu um salto. Ele passou pela sua orelha, só garras e urros, para pousar nas costas de um mascate de cabelos brancos alguns passos mais à frente. O homem encurvado empertigou-se e girou, com seu zupan branco e suas tranças brancas voando ao seu redor, enquanto a multidão resmungava e zombava; e Kate gritou, sem querer:
— Linay!
Os olhos do mago encontraram os dela, mas só por um instante. Ele estava ocupado, tentando impedir que o gato, chiando e rosnando, retalhasse seu pescoço. Kate não pôde ver direito o que aconteceu depois, mas Braque voltou voando para ela como uma bola arremessada por alguém. Ela se atrapalhou para agarrá-lo, enquanto ele descia escorregando pela sua frente e aterrissava com um choque molhado na lamaceira aos seus pés. Escorria sangue do pescoço de Linay, e suas mãos estavam cobertas de arranhões.
— Ora, ora. — Linay fez uma reverência para elas. — Bela donzela do bosque. Longe de casa. E Drina... como você cresceu.
— Mira — disse Drina. — Não faça isso.
— Isso o quê? — Linay olhou ao redor, com os olhos arregalados, como se fosse inocente. — Estou tentando entrar na cidade.
— Você quer destruí-la — retrucou Kate.
Isso atraiu alguns olhares, mas apenas alguns. O povo do campo abandonado não sentia amor algum naquele momento pela cidade de pedra, com seus portões fechados, nem tinha tempo para escutar os desvarios de uma desconhecida.
Linay deu um passo na direção delas. Kate pôde sentir o cheiro das ervas silvestres nele. Ele falou com um pequeno sorriso:
— E o que você vai fazer a respeito disso, Gravetinho?
— Nós vamos impedi-lo.
— Vão mesmo? — Ele estava quase ao alcance de um braço estendido. A claridade de tempestade tornava esverdeado seu rosto branco. — Minhas queridas, quem dera vocês pudessem. Eu quase desejo que vocês possam. — Ele levantou o queixo... Kate viu que era o queixo de Drina, o mesmo gesto arrogante. — Vamos, então. Deixem-me vê-las tentar.
Kate começou a investir contra ele.
Linay levantou um único dedo. O ar transformou-se em vidro. Kate ficou presa na magia invisível, sem fôlego, indefesa — e mesmo assim ninguém se deu o trabalho de olhar. Linay estendeu a mão e tocou na sua bochecha.
— Adeus, Katerina — disse ele. Em seguida deu as costas para elas, para ir se embrenhando cada vez mais na multidão que se acotovelava.
— Foi uma tolice — disse Kate, chiando para Braque, quando ele foi subir no seu ombro. — Ele poderia ter matado você!
— E eu poderia tê-lo matado — resmungou o gato. — O que teria nos poupado algum trabalho. Acho que não temos muito tempo. Há alguma coisa no ar.
E havia. Kate já tinha se acostumado à muralha de nevoeiro que a acompanhara por todo o percurso da estrada até Lov, mas agora a muralha era de tempestade. Para lá da multidão, uma nuvem parecia brotar da terra, escura como um hematoma e sólida como uma cordilheira. Vinha vagarosa na sua direção, e aos poucos a multidão estava se voltando para observá-la. Ela soprava um frio de granizo nos rostos que se viravam.
A nuvem estava empurrando as pessoas na direção do portão como carneiros para os cercados de abate. A multidão tornou-se cotovelos e costas, pés pisoteando pés e o desagradável cheiro humano do medo. Um ruído vinha dali, um ronco e rugido de muitas gargantas.
No meio de tudo isso, seguia Linay, avançando como um cinzel pelo veio da madeira. Sem a abertura criada por ele, pensou Kate, elas não teriam conseguido se mexer de modo algum. Mas nele havia alguma coisa — um poder trovejante, atormentado — que fazia as pessoas se afastarem alguns centímetros, mesmo quando não restava um centímetro de espaço. E assim elas conseguiram acompanhá-lo, sem tirar os olhos das suas costas estreitas, que sangravam. E logo o portão avultou diante delas.
Um agrupamento de torres projetava-se da muralha da cidade, maior do que o celeiro do dízimo em Toila, maior do que qualquer coisa que Kate já tinha visto. No centro das torres a boca de um túnel se escancarava, com um portão enorme no lugar de dentes. Atrás do portão havia guardas da cidade em trajes escuros, com os barcos vermelhos no peito como segundas bocas. Eles portavam lanças. Pronto: era agora. Kate parou.
Quando ela parou, um turbilhão de vento gelado levantou seu cabelo. Gotas grossas respingavam aqui e ali, e rajadas repuxavam bainhas e chapéus. A multidão gemeu de medo e avançou, espremendo-se. As garras de Braque resvalavam no seu ombro, e ela perdeu Drina de vista. Kate foi atirada contra as costas largas do homem diante dela, e por um instante pôde ver apenas o casaco de pele de carneiro. E depois ela ouviu Linay gritar numa voz semelhante a uma corda de rabeca prestes a arrebentar:
— Olhem! — gritou ele. — Contemplem o destino de Lov!
As pessoas ficaram paralisadas; a pressão diminuiu. Kate pôde se mexer novamente, e foi se esgueirando de lado até poder ver o que estava acontecendo. Havia uma carroça destruída encostada numa das torres do portão. Linay estava de pé em cima dos destroços, como uma cegonha num toco, segurando uma faca e gritando:
— Fui eu quem fez isso! — Sua voz era aguda e meio melodiosa. — Fui eu quem trouxe a chuva e o sono para toda essa região. Sou bruxo e amaldiçoo esta cidade. — Ele abriu bem os braços. Sangue escorria dos seus pulsos. — Lov: eu lhe mostro horrores! Irmã: venha a mim!
E a partir da nuvem verde alguma coisa surgiu.
Era o monstro que ele lhe mostrara, a rusalka com uma sombra, uma criatura feita de asas e uivos. Ela se abateu sobre a multidão.
Kate arrancou Braque do seu ombro, dobrou-se toda em volta dele e cobriu a cabeça enquanto a multidão explodia em pânico e gritos. Rumo ao portão, afastando-se dele, em todas as direções, as pessoas empurravam, tropeçavam e corriam. Os golpes dos pés apressados caíam como chuva nas suas costas e dos lados. Mais uma vez, ela sentiu as batidas das asas do monstro estrondeando lá no alto.
Em seguida, de repente como tinham chegado, as asas se recolheram e desapareceram; Kate sentiu-as ir. Caiu um silêncio misterioso, choroso. Tudo ficou tão quieto que por um instante Kate pôde ouvir as gotas frias, esparsas, da chuva batendo na lama em torno dela. Ela levantou a cabeça com cautela. O gato saiu se contorcendo dali debaixo. Drina, sem turbante e com um olho inchando, voltou devagar para o seu lado.
As duas meninas estavam à beira de uma roda de...
Eles tinham sido corpos. Mas estavam se esfarelando, se desmanchando como madeira atacada pela podridão. Era difícil até mesmo dizer quantos: uma dúzia? Eles formavam um círculo de uma massa informe enegrecida, um espaço aberto entre elas e o portão. Do outro lado, Linay ainda estava em pé na carroça destruída, ofegante e encurvado com o esforço, um sorriso feio no rosto pálido.
Kate mal estava conseguindo ficar em pé quando o enorme portão de Lov se abriu com rangidos. A grade levadiça subiu alguns palmos e os lanceiros passaram por baixo, golpeando o ar para rechaçar a multidão. Com eles veio outro homem, com as cores da cidade, de barba grisalha, uma larga faixa vermelha e um chapéu enorme: um homem imponente, que naquele instante parecia estar tomado de medo.
— Bruxo! — gritou ele para Linay. — Por que veio perturbar a paz de Lov?
Linay deu uma risada incrédula.
— A paz de Lov?!
Metade da multidão respondeu com um grito, e Linay girou sobre si mesmo e os silenciou com um olhar, os olhos reluzindo como pérolas. Ele se voltou de novo para o homem de rosto cinza e barba grisalha.
— O que o traz aqui?
— A morte me traz aqui — disse Linay. — Afinal de contas, sou bruxo. Levem-me para ser queimado, por favor. — Os lanceiros encolheram-se quando ele desceu com um salto perfeito e estendeu as mãos para serem amarradas. A multidão rugiu e mais uma vez forçou para avançar. Kate e Drina foram empurradas, como que por uma onda gigantesca, para o espaço aberto onde a rusalka tinha atacado. Kate cambaleou e caiu. Braque saiu voando do seu ombro. Ela passou por um momento de horror, diante da massa no meio da qual estava caindo... e se descobriu em braços familiares.
— Linay! — disse ela, espantada. A turba os cercava por todos os lados.
O mago agarrou seus braços e a içou, e por um instante eles ficaram cara a cara, com os antebraços enganchados, como guerreiros.
— Fuja desta cidade — sussurrou ele, enquanto um dos lanceiros o puxava na direção do portão e os outros tentavam impedir que a multidão o matasse. Pedras e lama caíam sobre eles. Linay conseguiu dar um sorriso rápido para Kate. Era como o de um menino, apavorado e surpreso. Os lanceiros o arrastaram dali com violência.
— Linay! — gritou Kate, atrás dele.
E mais uma vez ela viu seus olhos assustados tentarem contato com ela, como os de alguém que está se afogando. Ela estendeu depressa a mão...
Mas era tarde demais. Seu sorriso endureceu, e ele foi levado embora.
— Katerina! — Braque e Drina estavam abrindo caminho de lado na direção dela, à medida que a multidão recomeçava a empurrar para entrar na segurança imaginada da cidade. O portão ainda estava meio levantado. Linay não quis se abaixar para passar por baixo; os guardas não conseguiram curvá-lo. A porta levadiça — uma peça enorme de carvalho reforçado com ferro — subiu guinchando, enquanto atrás dela mais guardas baixavam e preparavam suas lanças.
E depois, em algum lugar no campo de tendas e pessoas em desespero, caiu um raio. Seu barulho fez tremer o chão, sua passagem rasgou o ar, e a chuva fria se despejou. A multidão deu um berro, como um único animal, e investiu contra os portões. As meninas foram empurradas como se estivessem bem à frente de uma onda. Kate bateu com a cabeça no portão e em seguida passou por baixo dele. Braque saltou dos braços de Drina e mergulhou entre os lanceiros.
— Por aqui! — gritou ele.
Elas correram a uma velocidade espantosa, seguindo o gato que saiu em disparada da outra extremidade do túnel e se desviou de repente para entrar por um beco diminuto.
A multidão continuou a rugir; o povo das terras abandonadas derramou-se pelos portões, irrefreável como um rio. Kate e Drina seguiram Braque. Elas subiram de qualquer modo num barril de água e dali para o telhado de um galpão, e a partir dali para um telhado mais alto. Com isso, deslocaram telhas soltas, que desceram pela vertente íngreme e caíram no meio da multidão apressada. Rostos voltaram-se para cima na direção delas. As duas deitaram-se, onde não as pudessem ver, enquanto Braque espiava por cima da borda da calha, como uma gárgula.
Elas ficaram ali juntas por muito tempo, até a multidão se dispersar e restarem apenas os mortos na praça do portão lá embaixo.
— Bem — disse Braque, arrastando a voz. — E, agora, como vamos pará-lo?