Kate Somente
13. A Sombra
treze
A SOMBRA
À deriva numa balsa verde no Narwe de águas lentas e da cor de chá, Kate Somente entalhava e sangrava.
Ela estava sentada no banco do zingador, com o formão na mão, sonolenta, ao sol. As asas da rádica estavam quase terminadas, cheias das reviravoltas longas e estranhas dos veios da madeira, agora menos semelhantes a penas do que a cabelos compridos espalhados na água. Elas tinham uma beleza inquietante. Mas a massa entre as asas se recusava a lhe mostrar seu rosto. Ela havia eliminado a parte da madeira podre e a áspera, e encontrado um nó liso, como uma bolota de carvalho. Seria um queixo pontudo e uma testa alta? Um bico de coruja e orelhas de abano? Sua curva vazia não lhe dizia nada. Ela estava sentada, com o formão acima da peça, e não sabia o que fazer. Se a peça era um espelho, seu coração estava em branco.
Ela tentou invocar a voz do pai: Coragem. Confie na madeira. Levante seu formão.
Kate levou o formão à curva lisa, deu um golpe suave. A lâmina atingiu um nó e voou da sua mão, deslizando pelo convés. Kate levantou-se e foi buscá-lo. Pensou em jogar a peça no rio e talvez se jogar atrás dela.
Braque estava se debruçando na proa como uma carranca, os bigodes vibrando perto da água. Kate espiou: bagres se movimentavam nas raízes dos salgueiros, abrindo e fechando lentamente as bocas brancas. Braque olhava fixamente para eles, envesgando os olhos com avidez.
— Vou me deitar — disse-lhe ela.
— Peixe, peixxxxxxe — respondeu ele.
Ela baixou a escada para o porão escuro e quente — e viu Linay.
Ele estava ajoelhado ao lado do catre. Por cima das colchas, estava a caixa feita dos restos da banca do seu pai. Linay estava com a mão estendida acima da caixa, e o sangue gotejava da ponta de um dedo para dentro da caixa.
— Não se aproxime — disse ele.
Ela se aproximou.
A alguns passos de distância, ela podia ver o interior da caixa. Estava vazia, mas continha escuridão, como uma tigela poderia conter água. A sombra que se coagulava ali dentro parecia borbulhar em torno do sangue, como peixes em torno de migalhas de pão.
Ela parou de se aproximar.
E Linay fechou a tampa.
— Minha sombra — sussurrou Kate.
— Todas as coisas precisam comer. — Linay deu de ombros e levou o dedo perfurado até a boca, acabando de chupar o sangue. — As lágrimas são melhores que o sangue, mas há alguns dias em que simplesmente não se consegue chorar. E a sombra precisa ser alimentada para não murchar e se transformar em costelas e órbitas vazias... inútil.
— Inútil — disse ela, baixinho —, para quê? Por que você precisa dela?
— Para levantar os mortos e espalhar o fogo. — Ele lhe respondeu como se estivesse imerso nos próprios sonhos. Depois ele se ergueu e lhe lançou um olhar fulminante. — Você é afiada, Kate Somente. Tenha cuidado, ou vai se cortar sozinha. Se preza sua vida, não abra aquela caixa.
Ele saiu com passos decididos.
Kate Somente ficou olhando para a caixa fechada. Ela pôs a mão no cervo entalhado e deixou que sua galhada picasse a pele nova na palma da mão. Era um entalhe do seu pai; era tão conhecido seu quanto sua própria respiração. Alguma coisa se mexeu? Por trás da madeira fina, como que por trás da superfície de um espelho, alguma coisa estava pressionando a mão contra a dela?
Seu coração teve um pequeno sobressalto, como que diante do ferimento de um herói numa história.
— Sim — respondeu alguma coisa. — A minha.
Lágrimas, dissera Linay. Se ela chorasse, a coisa viria a ela? Ela quase poderia ter chorado, atingida por essa nova esperança.
No dia seguinte, quando Linay saiu em busca do que pilhar na região abandonada, Kate subiu de volta à balsa. Ela desceu e se sentou na beira do catre, olhando para a caixa. Braque pulou no seu colo.
— Olá — disse ele, rolando e olhando para ela com ar de súplica. — Eu gosto de você e lhe ofereço meu pescoço para coçar.
— Braque — disse Kate. Ela enredou os dedos no seu pelo. — Eu...
— Tem esse ponto que está coçando, sabe? — disse ele. — Logo acima do maxilar esquerdo. Uuuuuu, isso, aaaaaaí... — Sua voz foi se apagando num ronronar.
Se você ama sua vida, dissera Linay. Mas ela precisava ver. Se houvesse a menor chance de recuperar sua sombra...
— Preciso tentar.
— Uuuui, você está conseguindo. — Braque exibia e escondia as garras, enquanto movia as patas no ar. — Você tem um dom, eu sempre disse isso. Uuuuuui...
— A conversa não é sobre você.
As pálpebras do gato estavam quase se fechando. Ele ergueu uma, como um lagarto.
— Não é sobre mim? Por que não?
— É a minha sombra, Braque. A coisa naquela caixa é a minha sombra.
Os olhos de Braque se abriram. Eles estavam atipicamente sábios para um gato.
— E há quanto tempo você sabe disso?
— Desde ontem — disse ela. — Você achou...
— Achei que você podia ter sabido há mais tempo, sim. Achei que você podia ter sabido e mesmo assim não ter feito nada. Você está diferente. Você se entregou demais a esse homem. — Ele inclinou a cabeça para ela. — Uma cachorra, sabe, seu dono pode espancá-la, e ela ainda assim se sentirá feliz ao vê-lo. Abra a porta do canil e é possível que ela ainda o espere com lealdade.
— Não sou uma cachorra — disse ela, irritada.
Ele arqueou os bigodes, abrindo um sorriso de gato e esfregou o osso da testa na bochecha dela.
— Eu diria que não é mesmo — rosnou ele com uma alegria feroz. — É perigosa essa caixa?
Se você ama sua vida...
— É perigosa, sim — respondeu ela.
— Então, vou ficar ao seu lado — disse ele.
E assim Kate se levantou.
A caixa estava no seu canto escuro. Ela a cutucou com um pé. A caixa arranhou o convés. Kate imaginava que ela ou se inclinaria para ela como um animal, ou permaneceria pesada no lugar como um cofre de chumbo. Mas era só uma caixa. Ela a apanhou e a colocou no catre. Nas cobertas emboladas, a caixa parecia maior do que deveria. As juntas eram modestas, as mais simples, mas mesmo assim não estavam alinhadas. Só uma caixinha malfeita.
Braque farejou-a, franziu os olhos e recuou.
— Amarga. — Ele bufou para limpar o nariz sensível.
Kate levantou a tampa.
A caixa estava vazia, mas ao redor deles o ar ia se adensando. O vazio começou a se erguer na caixa, agachado nas ancas cegas, farejando o ar.
O coração de Kate tentou alcançá-lo, e sua mão a acompanhou.
— Calma — disse Braque.
A sombra veio se aproximando e lambeu os dedos de Kate, tocou-lhe as palmas marcadas de cicatrizes com sua não respiração. Kate recuou, afastando-se, e a sombra ganiu atrás dela.
E então ela saiu: sua própria sombra.
A sombra derramou-se sobre ela, uniu-se aos seus pés e suas mãos, percorreu veloz sua pele, mergulhou pelo seu nariz e pelas orelhas. Onde quer que a sombra a tocasse, ela ficava dormente. O tipo de dormência que surge depois de um golpe. Ela estava entre os seus dedos, dentro da sua bata, dentro da sua boca. Kate girou para se afastar, mas a sombra a acompanhou, rodando em torno dela como uma bailarina.
— Katerina! — Braque girou com ela, rodando veloz, tentando atingir a quase coisa grudenta.
— Bra... — engasgou Kate.
A sombra estava nela. Ela se sentia mais pesada e mais leve, vibrando, meio tonta. Mas quando entrou cambaleando na luz da escotilha ela a viu: a coisa com formato de Kate, percorrendo o chão voando, percorrendo a parede, uma sombra, sua sombra!
É, disse a presença, enquanto fazia força contra Kate. Minha. Nós.
Kate parou e ficou ali, ofegante. Ela levantou uma das mãos e ficou olhando a parte da mão da sombra se levantar. Ela deslizou pela parede acima. Dela cresceram garras compridas. Kate estava ali em pé, paralisada, com a mão erguida.
— Ela está...?
— Se partindo! — gritou Braque.
Um dos longos dedos da sombra escapuliu veloz. Depois mais um. E de repente a mão da sombra se dissolveu em grumos que não paravam de girar. Kate arquejou, agarrou a própria mão e caiu de joelhos com estrondo.
— Katerina! — gritou Braque.
Kate apertou o pulso com a força de um torniquete. Sua sombra estava em uma dúzia de pedaços, sua mão lhe parecia estranha como um bando de aves. De um lado a outro das tábuas do piso sua sombra caiu pesada, junto com ela. Kate podia ver suas bordas se esfiapando e se destacando para o alto.
— A luz — disse ela, com a voz abafada. — A luz a está quebrando!
Eles não usam sombra na terra dos mortos, veio-lhe à mente a voz de Linay. Os mortos não tinham sombra. Se uma pessoa não tinha sombra, era porque estava morta? Parecia uma morte — uma separação que ia muito além de qualquer dor.
Alguma coisa passou pela sua orelha como um raio e com um baque caiu no convés: Braque. Ele tinha subido, e ela nem havia percebido.
— Eu tentei... fechar a escotilha. Não deixar a luz entrar — disse ele, ofegante. — Não consigo. Está com um trinco. Não consigo... Kate! Kate! — Ela havia caído de lado e estava ali jogada, em pedaços. Braque pegou-a pela nuca e tentou arrastá-la como um gatinho, para fora da luz.
— A caixa — conseguiu ela dizer. — Feche a caixa.
Ele se foi por um tempo muito longo, depois voltou.
— A coisa-sombra não quer entrar — disse ele. Ela mal o ouvia. As palavras dele e o mundo inteiro estavam se partindo num turbilhão de pássaros. — O que eu faço? — Um ponto de dor repentina a trouxe de volta. Braque estava mordendo sua mão. — Kate! O que eu faço?
— ... lágrimas... — Não passava da sombra de uma ideia.
— Não posso! — miou ele, lastimosamente. — Sou um gato! Não sei chorar! Katerina!
Em seguida ele se foi, ou ela se foi. Ela estava só e partida, como a lua em galhos altos.
E então aos poucos, como se acorda de um sonho sobre acordar de um sonho, ela voltou. Estava estatelada no convés, sem sombra alguma ao seu lado. No catre, a caixa estava fechada de mau jeito. Braque lhe dava empurrões com o focinho, com o pelo eriçado em todas as direções. Seus olhos brilhavam com lágrimas. Ele tinha devolvido sua sombra para dentro da caixa.
— Mais — sussurrou ela, levantando a mão sem sombra para tocar nele. — Você é mais que um gato.
— Ora — disse ele, apesar de ainda estar chorando. — Quem ia querer ser?
Ela voltou a fechar os olhos. A luz da escotilha era ofuscante, e o balanço da balsa, enorme e enjoativo. Kate sentiu que Braque se debruçava sobre ela.
— Sinto muito — sussurrou ele, mas, antes que pudesse responder, ela mergulhou num sono pesado.
Sol. Fazia tanto tempo que estava molhada, e o sol, tão gostoso. Enquanto acordava, Kate Somente continuou deitada imóvel e deixou que ele se derramasse sobre ela.
Em seguida, ela se lembrou e se levantou atabalhoadamente. A mão branca no seu peito a empurrou de volta. Linay estava debruçado sobre ela, com um sorriso.
— Mais uma aventura, não é mesmo?
— Me deixa levantar — disse ela, com raiva, afastando a mão dele. Ela conseguiu sentar-se. Não estava mais no porão do barco, mas num tapete de musgo e ramos de salgueiro junto de uma fogueira. Estremeceu ao pensar que ele a apanhara no colo e a carregara para terra firme.
Braque estava logo ali, esticado de lado, inerte.
— Braque! — Kate ficou apavorada por ele.
— Ora, francamente — disse Linay, ofendido. — Eu só fiz com que ele dormisse. Ele foi meu presente para você, Kate, quando você me deu sua sombra. Você realmente acha que, depois de tanta distância e de tanta treva, eu desfaria essa troca? — Ele passou um polegar entre as orelhas de Braque. — Acorde, gato.
O gato acordou, cuspindo e chiando, e investiu contra Linay, com um salto. O mágico ergueu as mãos e cantou. O gato pareceu bater numa teia de aranha, no meio do salto. Ele caiu e voltou a investir contra Linay, mas não conseguiu chegar a ele. Kate Somente ficou simplesmente feliz de ver que Linay já tinha arranhões de gato no nariz e no pescoço: comprovação de que tirá-la do barco não tinha sido fácil.
— Nós realmente não gostamos de você — rosnou o gato.
— E eu realmente não os culpo — disse Linay, com um suspiro. — Mas você precisa me dar ouvidos, Kate Somente. Você não vai conseguir roubar de volta sua sombra. Se você a soltar sem minha ajuda, ela a matará. Na verdade, não sei como você sobreviveu dessa vez.
Ela desejou ter as garras de Braque para unhá-lo.
— Deixe-me em paz, Linay.
Ele estava sentado, petrificado... magoado, pensou ela. Em seguida, se levantou.
— Descansaremos aqui hoje — disse ele, de costas para ela, cuidando da fogueira. — E esta noite eu dou o sangue. Mas amanhã precisamos prosseguir viagem. — Ele saiu, embrenhando-se nos salgueiros, e desapareceu.
Kate Somente dormiu e acordou sentindo-se mais forte e mais aquecida com o queixo de Braque se encaixando perfeitamente em sua mão. Mesmo assim, o sol estava indo embora. Rio acima, ela podia ver uma muralha de mau tempo: nuvens e nevoeiro. Uma rajada fria a estava soprando na direção deles. Kate sentia o cheiro da umidade. Ela suspirou: mais chuva.
— É como se ela estivesse nos acompanhando — resmungou, despenteando o pelo de Braque.
— Nós a puxamos. Como um urso numa corrente. — Kate sentou-se de repente, e Braque ficou em pé, com um salto. Do outro lado da fogueira, Linay estava sentado numa pedra, esfolando um coelho. — Sou um bruxo das intempéries, lembra? Os humores do vento e da água. — Ele fincou uma vara afiada, atravessando o coelho, como um homem que sabe lidar com espadas. — Esse nevoeiro tem fome.
— Você — disse Kate. — Você fez o nevoeiro e a chuva. Tudo isso. Nessa região inteira.
Na voz dela havia horror, mas Linay aceitou suas palavras com modéstia e reverência.
— É um trabalho em nada insignificante, admito. Eu teria vergonha de lhe contar as coisas sinistras que fiz para ter esse tipo de poder. A sua sombra foi só a mais recente... e talvez a última. Estou preparando esta viagem há anos.
— Mas... — Ela não podia começar a dizer-lhe o que estava pensando.
Ele tinha feito o nevoeiro e a chuva, as lavouras destruídas pelas águas, o medo sufocado que ela vira crescer como um mofo na feira de Toila. Até mesmo as orelhas de Braque estavam se estendendo para trás à medida que ele entendia.
Mas a verdade é que Braque ainda era um gato.
— Eu me molhei — rosnou ele. — Minhas patas ficaram úmidas por meses a fio.
Linay encolheu um ombro de marionete.
— O nevoeiro é o lar da rusalka. Ela precisa dele como uma rã precisa de água. Ele é como metade da sua pele. Nem mesmo o encantamento do sangue conseguiria trazê-la sem esse nevoeiro. — E ele cantou:
Pequenos remansos enevoados
Poços na floresta jamais visitados
Elos perdidos do rio sonhando sonhos
— Sem mim, ela estaria presa a algum lugar solitário, onde o nevoeiro nunca se dissipa. Comigo, ela pode viajar. Toda a distância até Lov.
Kate Somente imaginou a cena. A muralha de nevoeiro estava seguindo pelo rio, apenas um pouco mais rápido do que um homem poderia andar. Nela, a rusalka. Qualquer um que ela encontrasse, ela pegaria: como pegou Stivo, como pegou Wen. Essa era a história sombria que estavam contando em Toila. A essa altura, já era um horror. O campo estava se esvaziando diante da história, como uma floresta se esvazia com a chegada de um incêndio.
E ela o vinha ajudando. Dando-lhe sangue para o encantamento da puxada. Fazia semanas. Kate tremia. Ela virou de lado e vomitou.
Linay levantou uma sobrancelha e ajeitou o coelho no espeto acima do fogo.
Kate Somente sentiu-se fria e cinzenta. Esperar que os nômades a queimassem não tinha sido pior do que isso.
— Por quê? — perguntou ela. — Por que você a está levando para Lov?
— Ora — disse ele, cantando. — Tenho minhas razões. Tenho planos e esquemas. — Ele arrancou uma perna do coelho que assava e a atirou, sangrenta, para Braque, que deu um salto para trás. — Vamos, venha jantar.
Kate Somente entalhava. Ela entalhava para evitar tremer. Ela entalhava para pensar.
— Tudo bem com você, Katerina? — Braque espiava seu rosto arrasado. Quando ela não respondia, ele sacudia a cabeça... realmente a balançava de um lado para outro, um “não” de humanos.
O gesto impressionou Kate e a deixou triste. Parecia errado, parecia certo. Tornava visível o que ele era: não um gato, não um ser humano, algo novo.
— Ai, Braque — disse ela. O que ele era? O que ela era? O que Linay tinha feito deles?
Encontre sua forma. Levante seu formão.
Kate Somente parou de pensar e entalhou, seu formão conhecendo as coisas. O furo que ela fizera quando o formão escorregou sugeria a pálpebra inferior de um olho amendoado. Ela o desbastou, pôs no lugar o outro olho e depois usou a ponta do formão para esboçar as linhas do nariz, da testa e da boca. E de repente a rádica de nogueira tinha um rosto: um rosto de mulher, fino, forte e triste, estranho demais para ser belo. Com apenas os olhos prontos, ele parecia olhar para ela. E ela já sabia: era o rosto humano da rusalka, o rosto da irmã que Linay perdera, da mãe de Drina, Lenore.
Encontre sua forma. Ela era Kate Somente, a Entalhadora, filha de Piotr, a garota que conhecia os segredos dentro da madeira. A garota que era valente e erguia seu formão. A garota que tinha dito ao pai que seria mestre antes dos vinte anos.
Mas, em vez disso, ela ia morrer. Porque ia continuar com Linay.
Tempo suficiente para descobrir como impedi-lo.