Kate Somente
3. Os Peixes, o Machado e a Troca
três
OS PEIXES, O MACHADO E A TROCA
Durante os três dias seguintes Kate Somente desenhou e entalhou em restos de madeira, tentando aprender como o arco funcionava. Ela mantinha a cabeça baixa, apesar da animação reinante: havia nômades na feira.
Os nômades eram andarilhos. Moravam em tendas e viajavam de cidade em cidade, negociando, cantando em troca do jantar, lendo a sorte. Às vezes, mendigando. Roubando, como se dizia. Era um povo com sua própria língua e seus próprios costumes. Tinham a pele como nogueira polida, olhos como castanhas, roupas como um carnaval. Viviam à margem da sociedade e costumavam ser magros.
Em sua maioria, os nômades não eram muito bem-vindos na cidadezinha de Kate, que vivia perto demais da fome para se alegrar com malabaristas, perto demais do medo para gostar de videntes. Mas esse clã em particular vinha uma vez por ano e negociava cavalos, o que era tão razoável que até mesmo Niki, o padeiro, fazia negócios com eles. Ele comprou uma pônei vigorosa dos dois rapazes gêmeos que cuidavam da pequena manada.
— Ela vai levar uma vida sem graça, movendo minha mó — disse ele —, mas não vai ser espancada.
Linay, como se tivesse sido expulso pelos outros desconhecidos, havia desaparecido. Kate Somente largou seu arco e preferiu trabalhar no objarka de Niki. Ela descobriu que seus pensamentos não sossegavam. Naquele país, tinha havido um tempo em que a Donzela do Trigo era uma mulher de verdade, em que era levada ao último quarto não colhido da lavoura madura e era amarrada ali enquanto ateavam fogo aos campos. Seu espírito ardente mantinha os deuses saciados, seu sangue era incorporado ao solo.
Agora eles tinham apenas um único Deus, e a Donzela do Trigo era somente um talismã. Mas as mulheres ainda eram queimadas. Kate Somente trabalhava para transformar as pontas do cabelo do objarka em barbas de cevada, transformar os cortes das hachuras numa coroa de trigo entrelaçado que ficava pousada na testa lisa. Ela queria que Niki tivesse pedido uma cara de cavalo. Os cavalos na feira eram cheios de vida; nas pedras arredondadas, seus cascos batiam como boa música. Melhor do que o tamborim de Linay, muito melhor. Kate ficou triste quando anoiteceu, e os homens de pele morena, com suas cores vibrantes, levaram embora os cavalos.
Quando ficou escuro demais para trabalhar, Kate Somente desceu às docas para pegar o jantar. Braque ia à sua frente, com a cauda enrolada na expectativa dos peixes. Os barcos dos pescadores estavam chegando bem naquela hora, a grande fogueira do farol estava sendo acesa, e o cais estava movimentado. Kate Somente começou a pescar no momento em que as estrelas apareciam, lançando sua linha nas águas cada vez mais escuras.
Na primeira hora, Kate Somente pegou apenas uma carpa pequena e magra, mas, à medida que os pescadores passavam por ali com seus carrinhos, as coisas foram mudando. Onde sua linha entrava na água, o rio de repente pululava de peixes, juntos como ondas num remoinho. Braque fincou as garras e se debruçou até seu focinho quase tocar na água. Seus olhos dourados estavam enormes, seus dentes estalavam de empolgação.
Os pescadores pararam para olhar.
— Olhe só uma coisa dessas — disse Jan Grandão. Ele se agigantava acima dela ao luar. — Daria para ficar em pé em cima deles. — Com a bota, ele cutucou o traseiro de Braque. O gato caiu e se contorceu na queda, afundando as garras no cais e escoiceando a água. Kate Somente agarrou-o pelo cangote e o tirou da água. Braque gotejava, miava furioso e chiou para Jan Grandão, que riu.
— Bichinho feroz esse que você tem, menina — disse ele. — Não quer ver se ele consegue andar por cima dos peixes?
— Deixa pra lá, Jan — disse o pescador mais velho, que se chamava Boyar. — O que está acontecendo aqui, Kate Somente? Como você atraiu os peixes?
— Eu não os atraí! — exclamou ela. — Eles simplesmente... — Ela não tinha como explicar. — Eles simplesmente vieram.
Jan Grandão riu com desprezo, e até mesmo o Velho Boyar pareceu não acreditar, mas falou:
— Pesque, então. Não rejeite uma bênção. — Ele ajudou o gato gotejante a sair dos braços dela, deixando-a livre para pescar. Braque contorceu-se para se soltar e saiu em disparada, arranhando o tornozelo de Jan Grandão ao passar.
Os pescadores ficaram ali parados um instante, olhando, enquanto Kate lançava seu anzol no cardume, pescando um peixe atrás do outro, trutas grandes que refulgiam brancas ao luar.
— Coisa esquisita — disse o Velho Boyar.
— Coisa de bruxa — resmungou Jan Grandão.
— Ah, deixa pra lá, Jan — disse o Velho Boyar. — Vamos guardar nossa pesca. — Ele foi se afastando, e os outros homens o acompanharam.
A pouca distância dali, rio abaixo, um barquinho desconhecido, uma pequena chalana, estava atracada à margem. O luar a iluminou, e Kate viu alguma coisa se movimentar lá, alguma coisa branca. Linay estava em pé no convés como um fantasma num parapeito. Ela o viu erguer a mão numa saudação irônica e se lembrou da ameaça: Não duvide de que eu possa torcer as coisas...
Ela acreditou nele. Mas estava com fome e ficou com os peixes.
No todo, Kate Somente pegou 27 trutas. Ela trocou o conserto de uma verga lascada no barco do Velho Boyar por uma parte do espaço dele no defumadouro da cidadezinha. Um peixe gordo ela recheou com endro silvestre e cebolas e assou no fogo da praça da feira. Comeu tanto quanto aguentou e se sentiu saciada pela primeira vez em semanas. Mas estava inquieta. A tagarelice animada dos nômades e dos compradores de cavalos tinha acabado, e Linay estava de volta, parado num canto da feira, como uma cegonha. Consigo, ele tinha trazido mau tempo: o céu estava totalmente fechado por trás de um manto de nuvens baixas.
Kate Somente ainda não tinha terminado a objarka da Donzela do Trigo quando Niki, o padeiro, foi apanhá-la para a porta da cocheira do novo cavalo. Ela ficou envergonhada, mas ele deu de ombros e pagou de qualquer modo. E então ficou ali, mudando de um pé para outro, como se tivesse algo a dizer. Kate Somente não era muito boa nesse tipo de coisa. Ela não sabia como ajudá-lo a encontrar palavras.
— Esquisito — disse Niki, por fim, indicando o resto de peixe que estava embrulhado num oleado ao lado do cotovelo de Kate. — Foi esquisita essa história dos peixes. Você devia tomar cuidado, Kate Somente. Dizem... — Ele parou.
Kate Somente cruzou os braços diante de si, com os dedos tocando nos nós ossudos dos seus ombros.
— O que dizem?
Mas Niki só desviou o olhar.
— Tome cuidado, Kate Somente — repetiu ele.
No calor úmido da tarde, enquanto trabalhava no arco de Linay, Kate Somente sentiu esse aviso como uma mão no seu pescoço. Ela sabia que sobrevivia principalmente da tênue generosidade da cidadezinha. Podia sentir exatamente como era tênue por causa dos murmúrios da praça da feira. Um cheiro estranho, azedo e estragado, vinha do defumadouro, turbilhonando no calor enevoado. O tamborim de Linay chocalhava e retinia na sua cabeça.
Braque veio e lhe deu de presente um morcego quase morto. Kate Somente bateu nele com um martelo e o escondeu numa gaveta para comer mais tarde. Não era aconselhável comer esse tipo de coisa à luz do dia. Não agora, com as pessoas falando. Quando levantou os olhos, viu as pessoas olhando para ela como se já o estivesse comendo, como se as asas pretas, membranosas, estivessem saindo da sua boca. Ela baixou os olhos.
Braque deu um balido que parecia “quero, quero” e bateu com a cabeça na mão dela.
— Depois que escurecer. Vou lhe dar um pouco depois de cozinhar. — Ela prendeu com cavilhas a madeira para o arco.
O gato jogou-se por cima do seu trabalho.
— Você está atrapalhando.
— Prrummm — ronronou Braque, rolando para mostrar a barriga rosa por baixo do pelo cinza.
— Obrigada pelo morcego, gatinho. Mas você ainda está me atrapalhando. — Ela o coçou, e então mergulhou o nariz no pelo macio e morno. — Todos estão nos vigiando, Bra... — sussurrou ela. — Eu...
Mas Braque saltou de repente caindo de pé e chiou. Kate Somente olhou para cima. Linay estava encostado no esteio do seu toldo.
— Andei ouvindo seu nome em histórias estranhas, Katezinha. Dizem que você enfeitiçou os peixes. — E ele cantarolou: — Bruxa, peixe, vacilo, beijo... não quer me deixar conceder seu desejo?
— Não.
— Hummm. — Ele sorriu. — Eu me pergunto o que vai ser preciso para fazê-la mudar de ideia. — E cantou:
Kate Somente, sempre a entalhar
Amiga de ninguém, filha de ninguém mais
Kate talvez vá seu destino encontrar
Aparando pauzinhos até ser tarde demais
Kate Somente arregalou os olhos.
— Foi você que atraiu os peixes.
— Mas foi você que os pescou. E é sobre você que todos murmuram. — O sorriso de Linay era longo e estreito. — Estou lhe dizendo a verdade, Kate Somente, eu não ia querer ver você ser ferida. Você sabe disso, não sabe, a respeito de nós, bruxos? Nós dizemos a verdade.
Ela tinha ouvido a lenda: que os bruxos não conseguiam mentir. As pessoas diziam que quando o demônio deu poder aos bruxos, Deus atrelou suas línguas à verdade. Não lhe parecia uma história provável, e ela não confiava em Linay.
Os olhos cinza metálicos de Linay rebrilharam quando ele falou:
— Eu lhe quero bem. Mas existem outras coisas que quero ainda mais. E um cardume de peixes poderia ser só um começo. Pense nisso. Sua sombra por um desejo do seu coração. Não é um negócio tão mau assim!
— O que eu desejo — disse ela — é que você vá embora.
E, como se estivesse cumprindo uma ordem, Braque se enroscou no esteio do toldo, deu um salto, subiu de qualquer modo pela camisa de Linay e atacou sua orelha. Linay deu um grito, girou e agitou os braços como um homem que tivesse pisado numa colmeia. Toda a sua dignidade e todas as suas ameaças perdidas num torvelinho de gritos e movimentos desconjuntados dos braços. Kate Somente riu. Por fim, o gato saiu voando da refrega e atravessou a praça em disparada. Houve aplausos esparsos.
Linay fez uma reverência.
— Até amanhã — disse ele a Kate, e foi embora, tranquilo, sangrando.
Quando abriram o defumadouro no dia seguinte, os peixes eram espinhas e cinzas. A um toque, eles se desfaziam em pó. Somente as trutas de Kate Somente ainda estavam roliças, rosadas e amarelas com a fumaça, perfeitas.
O mestre do defumadouro a convocou, e ela precisou se postar diante dele, na chuva fina, com as mãos fortes fechadas em punhos cerrados. O mestre era um homem imponente, as mãos gordas e com muitos anéis, os cabelos brancos penteados em cachos, amarelados pela fumaça, com cheiro de peixe. Sua cadeira era imponente também, com os braços entalhados na forma de salmões em pleno salto: obra do seu pai. Ela se lembrava de tê-lo ajudado a fazê-la, com as mãos grandes e calejadas por cima das suas pequenas e calejadas, enquanto ele a ensinava a acompanhar o veio da madeira... Ah, suas mãos eram tão pequenas, e ela era feliz.
— Já decidi — disse o mestre, recostando-se na bela cadeira de braços, bem seco sob a proteção do toldo — que sua pesca será dividida entre os homens cujos peixes estavam no lote. Afinal de contas, foi apenas por sorte que somente seus peixes se salvaram.
Apenas por sorte. Ele a estava desafiando a contradizê-lo. Ninguém achava que tivesse sido por sorte. Ela olhou para os salmões, tão fortes que quase dava para sentir a contração dos seus músculos. Uma pequena multidão estava reunida atrás dela. Ela pensou nos salmões nadando com força contra a correnteza dos olhares.
— É justo — disse ela, por fim. — Mas eu não queimei os peixes.
— Como eu disse, menina — falou o homem, carrancudo. — Foi por sorte.
— Não foi sorte, foi bruxaria — disse ela, e às suas costas o silêncio se adensou. — O desconhecido, Linay. Ele atraiu os peixes.
Jan Grandão, atrás dela, disse o que Linay dissera:
— Mas foi você que os pegou.
— Os peixes serão divididos — disse o mestre. — E de você já chega, Kate, Entalhadora.
Kate Somente pôde sentir como seria. Linay era útil, era poderoso. Os que sabiam que ele era bruxo queriam sua proteção. Os que não sabiam, procurariam atingir um alvo mais fácil. Embora ele fosse um desconhecido, as pessoas sabiam que Linay não era alguém que se contrariasse. Como cão acuado, seu poder era enorme. Se a cidade ia escolher alguém para culpar pelos tempos difíceis que estavam por vir, não seria Linay.
Kate Somente deu meia-volta, passou em silêncio por entre as pessoas e voltou para sua banca. O arco estava em cima da bancada. Ela teve vontade de destruí-lo, mas ele era lindo. Era tranquilo e forte. Ela o apanhou e voltou ao trabalho.
Estava atenta para a chegada de Linay, mas ele conseguiu aparecer de mansinho.
— Bela donzela da madeira — disse ele, fazendo com que ela se sobressaltasse. — Como vai o trabalho?
Kate Somente se reequilibrou e deu de ombros.
— Será um bom arco — disse ela. — Sou uma boa entalhadora.
— Boa demais é o que dizem. — Ele tocou no nariz dela. — Já a estão chamando de “bruxa-criança”, menina Kate.
— Fazem isso por sua causa.
Ele pegou suas palavras e as cantou de volta para ela:
Fazem isso por sua causa
O que veem é por minha causa
Até pode ser, até pode ser,
Mas eu só vejo o que digo e digo o que posso ver
Ele sorriu para ela.
— Sabe o que acontece com as bruxas, Kate Somente? Você já viu as fogueiras?
O cheiro acre do defumadouro de repente pareceu mais forte.
— Por causa de alguns peixes? — Kate Somente tentou dar uma risada, que saiu forçada.
— Bem — disse Linay, com uma reverência —, talvez venham outros.
— Vá embora. Ou mando meu gato pegar você.
E ele foi embora. Mas não para muito longe.
No dia seguinte os pescadores não pescaram nada... ou não pescaram peixes. O Velho Boyar pegou três botas. Jan Grandão pegou um cachorro morto. No dia seguinte a esse as redes voltaram totalmente vazias. A semana inteira não se pescou nada, e as barcaças de grãos não chegaram. E a chuva caía como uma longa febre.
Então Boyar levou uma chalana rio acima, entrando nos bancos de nevoeiro, e no dia seguinte o barco voltou à deriva. Boyar estava deitado no convés, como um rei de antigamente, não morto, mas adormecido — de um sono sobrenatural, do qual foi impossível acordá-lo.
A conversa na feira transformou-se em resmungos. Kate Somente viu Jan Grandão dar um tapa em Braque para expulsá-lo do ninho no alto de um rolo de corda. O gato era enxotado de todas as bancas a chutes e xingamentos.
Kate mantinha-se ocupada com seu trabalho. O arco estava quase terminado. A Donzela do Trigo a assombrava. O rosto entalhado era liso e bonito, mas na sua tristeza estreita e no semblante irônico Kate via seu próprio reflexo.
À noite, ela se trancava na sua gaveta e ficava acordada no calor e na escuridão. Seus pensamentos não paravam até Braque entrar pela portinhola que ela fizera para ele. Ele se deixava cair no rosto dela. Kate Somente o aninhava debaixo do queixo como um violino, e os dois adormeciam.
E assim se passou uma semana. Então, uma noite, alguém deu com um machado na sua banca.
Raios! Ela achou que tinha sido atingida por um raio. Foi alto assim.
E frio. O ar da noite foi despejado por cima dela, como se viesse de um balde. Alguma coisa entrou pelo cobertor junto da sua cabeça. As garras de Braque arranharam seu pescoço, quando ele saiu em disparada da toca.
Ela agora estava acordada. Havia adagas de madeira por toda parte. Sua gavetinha segura era um ninho de lascas. E mais uma vez alguma coisa estourou, passando bem junto da sua orelha. Um machado. Kate berrou.
O machado foi puxado para trás e voltou novamente. Ar, luz e coisas que caíam a atingiram.
Kate Somente puxou com violência a alavanca da porta. A gaveta se inclinou e emperrou.
Sua banca estava estilhaçada. Por um buraco vinha o machado destruidor outra vez.
Ela socou a gaveta acima dela. Alguma coisa cedeu à força das suas mãos. Ela empurrou, se debateu e atingiu o ar.
Kate Somente, cambaleante, conseguiu ficar em pé. A praça estava em silêncio, tomada pelo nevoeiro. Quem quer que tivesse brandido o machado, já não estava ali. Algumas pessoas tinham se agrupado diante da porta da estalagem, atraídas pelo barulho. Linay estava sentado no seu cobertor branco, com cara de sono. Cabeças se penduravam das janelas. Os vigias da cidade vieram com passos ruidosos através do arco do rio. E todos olhavam para ela. Ela não sentia nada. Nem mesmo pavor. Tinha ido tão além do pavor que demoraria algum tempo para o medo conseguir alcançá-la.
Os vigias que vinham correndo pararam quando viram que era só ela. Os que bebiam na estalagem tinham começado a conversar outra vez, e foram entrando aos poucos. Janelas se fecharam. Kate Somente estava ali parada, sozinha. Seus músculos estavam tão tensos que faziam com que tremesse, como a madeira tremia quando curvada quase a ponto de quebrar.
A banca do seu pai, sua casa, estava arruinada, uma confusão, cheia de pontas e arestas. Ferramentas e entalhes parcialmente terminados estavam espalhados pelas pedras redondas molhadas. Um cervo pálido, ainda inteiro, saltava na direção de um pedaço do toldo, todo lascado. Ela o levantou e olhou para ele por algum tempo. Onde vou guardá-lo?, pensou. Não tenho nenhum lugar para pôr essa peça. Ela se afastou quatro passos da destruição e pôs o cervo delicadamente sobre pedras lisas.
Braque voltou e se enroscou nos pés de Kate, gemendo. Ela se abaixou, afagou-o entre as orelhas e então apanhou do chão um furador que tinha saído girando, afastando-se um pouco da pilha de destroços. Ela pôs a ferramenta ao lado do cervo. Voltou lentamente na direção dos destroços. Ela moveu uma gaveta quebrada. Coisas tombaram de dentro dela. O barulho foi muito alto, mas Kate Somente não disse nada. Ninguém veio. Ela trabalhava sem uma palavra, separando entalhes e ferramentas de lixo e palha.
Depois de algum tempo, Linay deixou seu cobertor branco, aproximou-se e trabalhou ao seu lado; ele também estava calado.
Kate Somente sabia que o machado viera por causa dos rumores aos quais Linay tinha dado vida. Talvez ele tivesse até mesmo mandado o machado — uma cutucada, uma palavra aparentemente inocente no ouvido certo. Mas ela aceitou sua ajuda, porque algumas coisas que ela precisava mover eram pesadas e porque seu rosto estranho, desbotado, estava encovado, como se alguém tivesse morrido. Ele puxou o acolchoado do casamento dos pais de Kate, que estava por baixo dos últimos entulhos. Ela viu os buracos do machado nele, como o nevoeiro que passava por eles como serpentes.
Kate Somente dobrou o acolchoado como um capacho. Martelou umas tábuas quebradas para fazer uma bancada tosca. Chegou o dia. Trovões de verão limparam a praça da feira. Encharcada e com frio, Kate Somente trabalhou sozinha para terminar o arco, com o cabelo gotejando no rosto, fazendo arder seus olhos descombinados.
Finalmente, quando o arco estava pronto, ele era o objeto mais perfeito que ela já havia feito. Ele não tinha ornamentação, mas suas linhas simples eram belas, como um pássaro em contraste com o céu.
E, agora que ele estava pronto, Kate não tinha mais trabalho para fazer.
Ela se sentou um pouco, vazia como a praça vazia, pensando. Em seguida, sem dizer palavra, ela se levantou. Apanhou o arco como uma espada e partiu para procurar Linay.
A tarde estava úmida e pegajosa. Kate Somente foi atrás dos sons fracos do tamborim, desviando-se das poças e dos excrementos de cavalos, passando pelo portão da cidade que dava para o rio. Lá embaixo, ao lado do cais, ela encontrou Linay sentado na cobertura do porão de um pequeno barco. Era a chalana na qual ela o vira na noite em que os peixes tinham vindo pululando: uma balsa pequena, bem construída, pintada de verde-bandeira. Linay estava cantando uma canção triste sobre espíritos do rio, para distrair os homens que passavam breu nas frestas. Ela foi na direção dele, sem dar atenção aos olhares que a atingiam como chuva. Jan Grandão a agarrou pelo braço.
— Você não é bem-vinda aqui, menina-bruxa.
Linay parou de cantar e se levantou.
— O assunto dela é comigo.
Jan Grandão era grande como um touro selvagem, mas Linay era magricela como um lobo furioso, e Jan recuou. Linay passou majestoso e apanhou Kate na sua esteira. Ela o acompanhou pelo cais e depois pela estrada que seguia na direção da floresta.
A chuva tinha parado. A luz era um verde de tempestade, e as árvores estavam se mexendo inquietas. O cheiro do rio pesava no ar.
Kate Somente estendeu o arco. Linay o apanhou como se fosse uma rosa e se debruçou sobre ele. Olhou para ela em silêncio. Ela o olhou de volta.
Por fim, Linay mexeu-se.
— Suas quatro moedas de prata. — Ele tirou moedas da orelha dela, como um malabarista feliz, mas seus olhos eram penetrantes. — Isso encerra nossos negócios?
— Vou embora — disse ela. — Preciso de comida, de coisas.
— Hummmm — disse ele, envolvente. — Você estava pensando numa troca?
— Pela minha sombra — disse ela. — Quero um oleado. Um saco de dormir e um embornal. Um pacote de anzóis, machadinha de acampar. Dez metros de corda.
Ele deu uma risada.
— Você acha que pode morar na estrada? Nos bosques?
— Eu me viro.
— Você vai se virar, vai se virar — cantou ele. — Eu quase gostaria de vê-la tentar. — Ele se empertigou. — Fechado.
Ao longe, o estrondo do trovão. Parecia uma porta batendo.
— Fechado — disse ela.
Linay enxugou a chuva do rosto.
— Nas docas. Venha me encontrar ao lado da minha chalana, ao terceiro toque do sino depois da meia-noite. — Ele se virou e voltou para a cidade.
Kate Somente, de mãos vazias, foi até as ruínas da banca do pai. Pensou no que poderia carregar e no que deveria deixar. Às suas costas, ela ouviu a rabeca de Linay começar a tocar: selvagem e poderosa como uma tempestade, ela se precipitava pelo crepúsculo chuvoso.
Kate levou uma das moedas de prata ao sapateiro e comprou um bom par de botas: resistentes, de couro de veado e com costura dupla. Ela pegou a segunda moeda e comprou um embornal do curtidor de peles, que aceitou seu dinheiro, mas cuspiu na soleira da porta quando ela saiu. Ela pegou a terceira e foi ao açougue comprar carne-seca, mas o açougueiro se recusou a fazer negócio com ela. Ela levou a última moeda até a padaria de Niki para comprar bolacha dura, mas àquela altura a luz já estava acabando e a padaria estava escura e fechada. Ela voltou para onde os estilhaços da banca estavam empilhados como um cavalo morto, entre as poças da praça da feira.
Kate Somente guardou suas melhores ferramentas nos saquinhos de feltro, embalou sua única panela e guardou seus dois camisões listrados e as meias de reserva. Enrolou seu cordel e sua linha de pescar. Chegou então ao acolchoado do casamento dos pais. Um dia, ele tinha tido para ela o cheiro do seu pai. E, apesar de agora cheirar a serragem e a gatos, ela se lembrava de como aquele cheiro a havia envolvido, na sua primeira noite na gaveta. Mas precisava de um casaco, e o acolchoado era grande demais. Kate era prática. Partiu o acolchoado ao meio. Recortou um buraco para sua cabeça, vestiu-o por cima do cabelo molhado e usou como cinto um pedaço de corda. A outra metade ficou nas pedras redondas, ensopando-se com a água da chuva.
Ela pegou o pedaço dos destroços com o cervo entalhado. Era pesado demais para levar. Não servia para nada. Ela o pôs de novo no chão. Ele pareceu ficar meio borrado e saltar na penumbra, e Kate levou um momento para perceber que seus olhos estavam marejados. Ela pegou o cervo outra vez. E o devolveu para o chão de novo.
Braque estava sentado no alto da pilha de madeira, olhando para ela.
— Ele fica — disse-lhe ela. — Não preciso dele. — Seus olhos arderam quando ela disse isso. Ela passou a mão, veloz, por eles, revoltada consigo mesma. O gato ronronou, como que indagando. — Não foi nada — disse-lhe ela, com a garganta irritada e dolorida pelo esforço de não chorar. Decidida, pegou o formão que seu pai lhe dera, o formão que sua mão conhecia desde sempre, o formão que a tinha moldado... e o enfiou na bainha na sua bota nova.
— Agora podemos viajar — disse ela a Braque. Ela se sentou na bancada improvisada. — Eu não poderia ir sem o meu formão. Apesar de imaginar que não vá encontrar muito trabalho, vivendo sem endereço.
O anoitecer chuvoso estava afundando na escuridão. O gato saltou da pilha e se aproximou para farejar seus tornozelos.
— E você? — perguntou ela, levantando-o para o colo. — Um cachorro viria junto, sem dúvida, mas suponho que um gato deva fazer suas próprias escolhas. — Era tolice falar sozinha, e ela parou. E assim não chegou a expressar seu desejo mais profundo: que tivesse alguém com quem conversar, que não precisasse andar sozinha.
Tarde da noite Kate Somente desceu ao rio. Ela levava seu embornal num lado e Braque nos braços. Nenhum gato acompanharia um andarilho. Agora ela percebia isso. Mas não estava pronta para desistir dele, para deixá-lo para trás como tinha deixado o cervo entalhado da banca do pai, encostado na bancada na praça abandonada. Ainda não, ainda não mesmo. E talvez ele a seguisse, um pouco.
Longe das grelhas da feira, sob o manto das nuvens, estava muito escuro... e muito quieto. Ela ouvia o murmúrio rouco do rio, o chape do salto de um peixe. Atrás dela, alguém fechou uma veneziana. Do outro lado do rio, uma raposa uivou.
Linay estava sentado em silêncio, olhando para o brilho negro do rio, balançando as pernas no alto do cais, como uma criança. Uma lanterna rendilhada de metal estava ao lado dele, e sob a luz fraca ele parecia pálido, como uma mariposa na noite fechada. Estava comendo uma torta de carne. Enquanto Kate Somente se aproximava, ele lhe estendeu uma segunda torta. Ela não deu atenção. Ele encolheu os ombros, lambeu o molho da adaga e pôs a torta na madeira molhada aos pés de Kate.
O focinho de Braque começou a se contrair.
Kate Somente permaneceu em pé acima de Linay. Braque tinha começado a se contorcer nas suas mãos como um peixe forte — um peixe que queria comer torta de carne. Ela teria de pô-lo no chão depressa.
— E agora? — perguntou ela.
— Sangue — disse Linay. Kate recuou, e ele riu: — Ah, o meu, Pequeno Formão, não se preocupe.
— Até parece — disse ela, tentando uma zombaria, apesar de sua voz estar aguda e tensa.
A adaga de Linay dava a impressão de que poderia estripar um cervo.
— O sangue atrai coisas. E seria tolice atrair sua própria sombra para você. — Ele hesitou um segundo, apanhou então a adaga, girou-a e a riscou sem medo, de um lado a outro do pulso. Seu rosto branco não estremeceu, mas Kate Somente se encolheu por ele quando o sangue começou a jorrar. Braque soltou uma tosse estrangulada, como se ela o estivesse apertando demais.
Linay debruçou-se e abriu o alto do lampião. Ele deixou o sangue escorrer sobre a chama. Kate Somente preparou-se para a escuridão, mas, em vez de abafar a chama, o sangue pegou fogo, queimando como óleo, iluminando a noite.
— O que… — começou ela a perguntar.
— Fogo para ativar o encantamento — disse ele, com um ar distante, vendo o sangue se incendiar. — Você ficaria surpresa com as coisas que um bruxo pode fazer pegar fogo.
Seu ar distante e o modo como seu sangue escorria em chamas tornaram a noite de repente assustadora. Braque chiou, e Kate recuou.
— Aonde você está indo? — perguntou Linay.
Kate Somente começou a balbuciar alguma coisa, mas Linay tinha se posto de pé em silêncio, como uma onda. Sua mão fez um movimento veloz, seu pulso virou. O sangue voou e caiu sobre Kate como uma rede. Ela saltou para trás, gritando, e Braque escapuliu dos seus braços e uivou como uma criatura moribunda. Depois o ar se transformou em vidro.
— Pare — disse Linay, baixinho, insinuante, no silêncio repentino.
Kate não conseguia se mexer. Não conseguia respirar. Braque estava deitado de bruços, como se tivesse fraturado a espinha.
Linay olhava para ela com a cabeça inclinada de lado, com um sorriso manso, como um pai sorri diante de um filho adormecido.
Kate Somente achou que estava morrendo e que, quando morresse, continuaria como estátua, mantida no lugar pela rigidez do ar. Linay estendeu a mão para ela. Ela tinha certeza de que morreria quando ele a tocasse, mas só pôde ficar olhando a mão se aproximar.
E ele a tocou.
O ar voltou a ser ar. Kate cambaleou e caiu com um estrondo no cais. O mundo girou, e faíscas passaram velozes pela sua visão. Linay se agigantava acima dela, mal-iluminado e branco como uma pilastra.
— Bem — disse o bruxo. — É isso aí.
— O que... — arquejou Kate. Ela tossiu, piscou os olhos.
Braque sacudiu forte a cabeça.
— Deixei a sua mercadoria na terceira pedra grande depois da curva da estrada.
— Mas... — Kate não podia pará-lo, nem mesmo conseguia vê-lo. Ele era uma espécie de sombra acima dela. Ela estava jogada, arfando na madeira molhada, com o cabelo caindo por cima da beira do cais, na direção do rio lá embaixo.
Ele a olhava dali de cima, o rosto desfocado. Ela achou que Linay estava realmente triste.
— A perda de uma sombra é uma coisa lenta — disse ele. — Você terá um pouco de tempo até que alguém perceba. Procure um lugar para ficar, antes que aconteça. — E então ele cantou:
Vá depressa, Kate Somente, e não leve peso
Na noite sombria, aprenda a viajar
Sem sua sombra, fuja da luz
Para uma sombra de verdade se tornar
Ele se agachou ao lado dela.
— Quer vir comigo para a cidade de pedra?
— Não. — Ela mal conseguiu pronunciar a palavra.
— Não — repetiu ele. — Mas acho que vou vê-la outra vez. — Ele deu uma olhada na direção de Braque. — Ver vocês dois. — E ele se levantou e se foi, deixando-a deitada, indefesa, no escuro, junto da água.
Demorou muito para ela conseguir se sentar, para Braque recuperar o domínio de si mesmo o suficiente para retomar as farejadas em torno da torta de carne. Kate Somente inclinou-se para a frente e pressionou as pálpebras com a base dos polegares até ver manchas. Alguma coisa fora tirada dela; e, apesar de supostamente ter sido sua sombra, ela tinha a impressão de que havia sido sua alma.
— O que foi que eu fiz? — resmungou ela.
Lá, junto da torta de carne, Braque deu um chiado e cuspiu uma bola de pelo. Kate Somente abriu os olhos.
— Mússssssicos — disse o gato, cuspindo. — Você sabe do que são feitas as cordas de violino? Ora! Estou feliz que ele foi embora. Vamos comer.