Kate Somente
19. O Nome dos Mortos
dezenove
O NOME DOS MORTOS
Kate seguia pelas ruas de Lov com o corpo de Braque nos braços. Uma sombra fina estava crescendo a partir dos seus calcanhares. A luz estava turva, mas Lenore brilhava como a lua, com Drina como uma estrela tímida ao lado dela.
As ruas ainda estavam vazias, embora aqui e ali elas encontrassem uma janela sendo aberta ou um grupo de refugiados olhando ao redor, como sobreviventes de uma tempestade. Vozes recomeçaram, enchendo aos poucos a cidade, como o canto de pássaros de manhã. E Kate odiava todas elas — todos os milhares e milhares. Elas não valiam a pena: elas não eram nada em comparação com o pequeno peso nos seus braços.
Lenore parou no espaço aberto da praça do portão, onde as pedras redondas do calçamento ainda estavam manchadas de sangue.
— Não pode ser tão fácil — disse ela.
Mas o portão estava aberto, e ninguém tentou pará-las. Elas simplesmente passaram direto.
A lama diante da cidade estava remexida e bastante esburacada, com o acampamento parcialmente abandonado. Parecia que tinha havido uma batalha. Lenore olhou em volta.
— Eu não deveria estar viva — disse ela.
Mas ninguém veio matá-las. Elas simplesmente seguiram em frente.
No bosque de bétulas, o vardo vermelho estava onde elas o deixaram, brilhante como uma chaleira ao sol da tarde. Kate mal percebeu a exclamação e a aflição de Drina: Creme não estava à vista em parte alguma. Mas a égua não tinha se afastado muito. Quando elas deram a volta no vardo, viram a traseira e a cauda chicoteante de Creme. Avançaram um pouco mais e viram Behjet sentado na escada.
O nômade estava tentando se barbear, esticando bem a pele sobre o maxilar e raspando-a com uma faca. A lâmina tremia na sua mão e lançava pequenas ondulações de luz na direção delas. Creme estava tentando focinhá-lo como se ele fosse um potrinho.
Se a rusalka for salva, dissera Linay, os adormecidos talvez despertem também. Mas ele não se importava com eles, e Kate também não conseguia forçar-se a se importar. Drina, porém, deu um grito de alegria, tão rouco que não havia palavras nele. Lenore parou.
— Marido — disse ela, com um sopro, empalidecendo da cor do linho para a da neve.
Drina segurou o cotovelo da mãe, como se quisesse guiá-la durante uma cegueira momentânea.
— Não é... — sussurrou Drina. Mas antes que pudesse explicar para Lenore que esse não era seu marido, mas o irmão gêmeo, Behjet levantou-se meio cambaleante. A faca caiu e afundou a ponta na terra molhada com um som que fez Kate se encolher.
— Eu morri? Vocês são meus queimados, que vieram para me levar direto para o inferno?
— Ninguém está morto — disse Drina.
— Não sei se estou morta — disse Lenore, porém.
— Por que tinha de ser você? — perguntou Kate.
— O quê? — Behjet estava confuso e trêmulo dentro da pele que caía frouxa dele como se ele fosse de fato um cadáver ambulante.
— Linay morreu — disse Kate. — E também as pessoas diante do portão, e as pessoas na praça. E Stivo e Ciri, e meu pai, e... — Ela não conseguiu pronunciar o nome de Braque. — Meu... meu coração está morto. — Ela pegou do chão a faca e ficou ali olhando para ela, para a escuridão da sujeira na lâmina. — De todos os que poderiam ter sobrevivido, por que tinha de ser você?
E ela passou por ele, com um empurrão, subindo para a tranquilidade dourada do vardo.
Do lado de fora, Drina, Behjet e Lenore murmuravam juntos como participantes de um velório, parados sem ter o que fazer. Kate achou que eles estavam contando uns para os outros pedaços da sua história longa e estranha. Pensou então em como a história terminava e parou de se importar.
Ela se sentou no catre. Ainda estava ali o cheiro da longa enfermidade de Behjet. As dobras do cobertor estavam duras de suor e sujeira. Braque tinha morrido. Só isso deveria ter limpado o mundo por inteiro, e no entanto havia roupa a ser lavada. Kate respirou fundo e pôs o corpo do gato ali.
Seu belo pelo estava grudado com sangue. Ele detestaria isso. Ela apanhou uma das escovas dos cavalos. Escovou até as cerdas ficarem grossas como se estivessem enferrujadas e o pelo estar perfeito. Ela gostava da textura do pelo, de como ele acompanhava as linhas dos ossos e músculos. Ele formava remoinhos por cima das articulações e se erguia numa crista macia ao longo do esterno, bem ao lado do ferimento que o matara. Era estranho que seu pelo ainda estivesse tão macio, enquanto seu corpo estava se enrijecendo.
Ela se sentou ao seu lado, entorpecida, para sempre.
Kate nunca tinha sido dada a espíritos, embora tivesse visto um excesso deles. Mas agora teria decepado sua mão de entalhar para ter um vislumbre de um. Não era justo. Pelo menos deveria haver um espírito.
Mas não havia. Somente Behjet e Drina atrás dele, hesitantes junto da cortina. Ela não os vira entrar.
— Kate Somente — disse o nômade. Sua voz estava baixa como se ele estivesse tentando acalmar um cavalo. — Tenho rezado, Kate Somente...
— Chamo-me Kate.
— O quê?
— Apenas Kate. — Ela continuava lisa como uma tábua, como sempre tinha sido. E ainda por cima tinha cicatrizes de queimaduras e estava meio careca. Mas Braque achava que ela era linda. — Meu nome é Katerina Svetlana. Kate.
— Sinto muito — disse ele.
E ninguém disse nada por um tempo. O arco de lona em torno deles reluzia com o sol.
— Seu gato — disse Behjet, então. — Drina me contou...
— Ele era mais que um gato — disse ela.
Mais um silêncio.
— O que deveríamos fazer com... — perguntou Drina.
O corpo de Braque foi o que ela não disse. Kate tinha pensado nisso. Não havia pensado em outra coisa.
— Aquele lugar onde nos encontramos: o prado à margem do rio. Ele estava feliz lá. Tínhamos salsichas. — Ela olhou para cima. — Podemos enterrá-lo...
Mas não conseguiu terminar.
— Vou arrear Creme — disse Drina.
Dentro do vardo, Kate desmontou um dos bancos de cavalete e o remontou como uma caixa. Ela usou a faca de barbear de Behjet, embora na sua mão ela parecesse um instrumento desconhecido, embora soubesse que estava destruindo seu fio e, em algum ponto profundo nela, sua alma de entalhadora protestasse. Seu formão... ela matara seu amigo com o formão. Tinha deixado seu formão e talvez seu coração lá, jogado no sangue e no fogo.
Mas mesmo assim ela trabalhava. Enquanto abria os encaixes macho e fêmea para unir os lados, suas mãos lhe pareciam estranhas: a escuridão as acompanhava à medida que elas se movimentavam; sua face inferior portava a escuridão como uma segunda pele. Era sua sombra. Sua sombra que voltava.
Ela trabalhou enquanto Creme era arreada, com partes dos arreios chocalhando como sinos abafados. Trabalhou enquanto Drina vinha e enrolava o corpo de Braque no seu lenço preferido, vermelho com pássaros brancos. Trabalhou enquanto o vardo seguia sacolejando pela estrada de troncos sobre o terreno pantanoso. Trabalhou quando os galhos arranharam as laterais de lona como unhadas. Trabalhou quando a luz foi se apagando e o vardo parou, com um tremor.
Ela terminou a caixa. Era forte e quadrada, e duraria bastante tempo, mesmo na terra. E depois ela esperou.
Depois de muito pouco tempo a pá ficou parada. Mas Kate não conseguia se levantar. Pensou no nome de Braque, e em como os nômades não pronunciavam o nome dos mortos. Ela também não tinha pronunciado o dele, ainda não. Tinha medo de fazê-lo. Tornaria tudo aquilo real.
Lenore ergueu a cortina e parou, um vulto pálido de branco em contraste com a noite lilás.
— Se for permitido — disse ela, baixinho —, que uma mulher entre e fale.
Kate deu de ombros.
Lenore entrou, trazendo luz consigo. Apesar de ter pedido para falar, não disse nada. Depois de um instante, ela se ajoelhou diante de Kate e baixou a cabeça até o corpo de Braque. Uma orelha cinzenta se projetava entre as voltas vermelhas do tecido, os tufos de pelos arqueando-se sobre o interior intrincado, delicado. Ela ficou parada como uma garça por um bom tempo antes de falar.
— A cova está pronta.
— Eu sei.
— Eu queria — disse Lenore, tocando no pano vermelho —, eu quase queria que ela fosse para mim. O que meu irmão fez por mim e a lembrança do que eu fiz: não vai ser fácil conviver com isso. E me sinto tão estranha. Como uma tigela que mantém a água do lado de fora. Como uma taça sem haste...
— O que acontece — perguntou Kate — depois que se morre?
— Não sei. — Lenore acompanhou a curva da orelha de Braque. Por baixo dos seus dedos longos ela parecia frágil e rígida como uma asa de cigarra. — A morte era uma porta fechada. Bati muito nela, ai... tanto que minha pele se partiu. Mas ela estava fechada para mim. Eu gostaria de imaginar que os mortos permanecem por perto. — Sua voz tinha começado a devanear. — Os mortos permanecem por perto. Pelo menos por um tempo.
E, como uma asa, a orelha de Braque tremelicou.
— Busque minha filha — disse Lenore, com a voz abafada.
Kate recuou, tropeçando.
— Drina! — gritou ela. — Drina!
— Ele estava certo — sussurrou Lenore. — Os mortos deveriam permanecer mortos. E no entanto...
Drina entrou bruscamente pela cortina.
— Mãe! — E então ela ficou paralisada, e seu rosto se abriu como se um anjo estivesse postado diante dela.
Kate girou veloz, e lá estava seu gato. Ele estava em pé na cama, abanando a cabeça e tentando arrancar o pano da cara com as patas. O uivo de indignação estava abafado:
— Miaaaau!
— Braque! — gritou Kate. — Braque! — Ela estendeu a mão, mas não conseguiu tocá-lo. Estava com medo de tentar e ele acabar se dissolvendo no ar. Suas mãos ficaram ali, pairando. Volta após volta Braque abriu caminho para se livrar do invólucro vermelho; depois ficou ali parado no catre: liso como um galgo, de olhos dourados, perfeito, vivo.
— Bem! — disse ele. — Foi uma aventura e tanto!
— Ah! — disse Kate. — Ah! — E ela o apanhou no colo e o abraçou com força, sentindo seu pelo macio e sua força esguia. Ela o apertou com fúria.
— Ufa! — disse ele.
Drina virou-se para a mãe, com o rosto arrasado.
— O que você fez?!
— O que eu devia fazer — disse Lenore. — O que eu poderia fazer: uma pequena boa ação, depois de tanta escuridão. — Ela desenrolou o turbante de Drina devagar, com ternura, e depois o amarrou novamente como uma faixa de menina, deixando a parte que sobrou cair pelas costas de Drina, como o cabelo que ela tinha perdido, como asas. — É uma tamanha bênção ver você de novo. — Ela deixou os polegares deslizarem pelos malares de Drina. — Mas é uma bênção que não posso aceitar.
— Não... — disse Drina. E Kate, olhando espantada, descobriu que conseguia ver o rosto de Drina através das mãos de Lenore. — Não. Não vá.
— Não posso conviver com o que meu irmão fez. Ele deveria saber. E deveria saber que um bruxo não pode dar vida, não de modo perfeito, não para sempre. — Lenore olhou para o gato. — Braque.
— Que foi? — O gato sacudiu tanto a cabeça que suas orelhas fizeram um ruído como o de asas de pássaros. — Eu não sou um fantasma assassino, sou?
— Você é uma dádiva — disse a mulher, que ia desaparecendo. — Mas não sem um custo. Kate, sua sombra volta para você. À medida que você a recuperar, seu amigo perderá a voz.
— Então eu não quero! Não quero minha sombra! Braque... conte para ela...
— Ora — disse o gato, simulando um bocejo de língua enrolada. — Conversar é complicado. Que gato ia precisar de palavras? — Mas seus olhos dourados se encheram e brilharam com lágrimas.
E Drina também estava chorando em silêncio, embora estivesse empertigada, olhando direto nos olhos da mãe: Drina, esplêndida como o sol.
— Deem-nos este momento — disse o espírito.
E assim Kate pegou Braque, e eles saíram para a luz suave e comprida do entardecer. Ela sentia o cheiro do gato: aconchegante, limpo e forte. Ele estava vivo. Vivo. E no entanto lágrimas escorriam pelo rosto de Kate. Ele estendeu uma pata aveludada e as enxugou.
— Não percamos nosso tempo chorando. Precisamos cuidar dos nossos assuntos. Precisamos encontrar um formão novo para você.
Kate engoliu três vezes, antes de conseguir falar:
— Eu sei onde tem um. Amanhã.
— Amanhã — disse o gato, concordando, com um gesto humano. — Bem... Isso nos dá uma noite livre para cozinhar.
Uma última noite. Uma boa noite. Como poderia ser uma boa noite? Mas foi. Behjet recolheu lenha, carregou água, e logo eles estavam com um acampamento tão confortável quanto seria possível armar, lá junto da cova não utilizada. O rio passava por cima de pedras lisas, e não veio nevoeiro algum. Behjet pegou uma truta-pintada e a assou com endro silvestre e alhos-porós. E Kate fritou três tipos de linguiças temperadas, com cebolas, alho e o que restava das pimentas secas.
Ela guardou um pouco para Drina, que saiu do vardo uma hora depois, sozinha. Ela parou na escada. Já era quase noite. Estrelas oscilavam nos pequenos pés de bétulas. Pirilampos piscavam devagar acima do rio, vagando juntos, aos pares.
— Ela se foi — disse Braque, baixinho, para poupar a Drina a necessidade de falar.
Drina acendeu o lampião junto da porta do vardo, e a luz afagou sua bochecha enquanto ela concordava:
— Ela está em paz.
— Sinto muito — disse Braque, e Kate se lembrou de quando ele dissera que “sentir muito” não era para gatos.
— Aqui, uma coisa para você, Kate. — Drina desceu a escada com o lampião na mão. Kate viu que na sua mão havia uma pequena trança de cabelo branco. — Foi ela que me deu.
— Para mim chega de magia — disse Kate.
— Um presente — disse Drina, pousando a mão no lado do rosto de Kate, onde a cicatriz da queimadura era grossa e retorcida. — Uma canção. — Ela baixou a cabeça e cantou.
Kate conhecia a canção. Linay a tinha entoado para curar suas mãos queimadas, noite após noite, na chalana assombrada. E antes disso, uma vez, num dia de primavera na praça da feira em Samilae, Lenore a tinha cantado para seu pai. Linay a cantara com tristeza, em tons menores. Lenore a cantara como uma canção de ninar. Drina a cantava séria, lenta e suave: um hino religioso.
Sob as mãos de Drina as cicatrizes de Kate latejavam e davam fisgadas. Ela tentava não se mexer. Do outro lado da fogueira Braque vigiava solene. Depois de um bom tempo, Drina deixou cair as mãos. Kate levantou as dela. Mapeou sua pele nova com as pontas dos dedos. Estava esticada e sensível, mas a bolha comprida da cicatriz tinha sumido.
— Você vai ser uma curandeira? — perguntou ela.
— Pode ser — disse Drina. E então, porque a esperança parte o coração mais do que qualquer tristeza, ela começou a chorar. — É o que minha mãe me ensinou.
De manhã eles realizaram o sepultamento possível, sem nada para enterrar além dos fragmentos calcinados do entalhe de Kate: um olho e uma testa, um pedaço de asa.
— Para Lenore — disse Kate. — E Linay.
— Nós não pronunciamos... — Behjet corrigiu-a delicadamente, mas Drina o interrompeu:
— Para Lenore e Linay — disse ela, baixinho.
E Braque disse o que era uma bênção tradicional naquela terra:
— Que todos os túmulos tenham nomes.
— Vou entalhar um epitáfio para eles — disse Kate. — Mas tem uma coisa que preciso fazer primeiro. Uma vez, Linay roubou um formão para mim. Vou buscá-lo.
Behjet franziu o cenho.
— Aquela cidade... ela talvez ainda seja perigosa.
— Bobagem — disse Braque, intrépido. — Ela é destemida. E, seja como for, vou com ela.
E assim Kate e Braque viraram-se, caminhando juntos rumo a Lov. Partiram cedo, com suas sombras esticadas juntas, a do gato e a dela, pela longa estrada às suas costas.
— Sua voz — disse Kate. — Quanto... por quanto tempo?
— Hã... — Braque parou, com a cabeça inclinada. — Não consigo entender direito o tempo.
— Não é uma questão para gatos — disse Kate baixinho.
— Não.
— Você vai ser sempre meu amigo — disse ela.
O rabo do gato estremeceu, e ele rosnou feroz:
— Imagino que sim.
Um último dia. A terra dava a impressão de que uma enorme maldição tinha sido suspensa. Nuvens brancas atravessavam as poças espelhadas na estrada. A sombra de Kate foi se fortalecendo à medida que o sol subia no céu.
— Você lembra daquele cavalo de Behjet? — disse Braque. — Aquele que nos fez pular tanto?
— Xeri — disse Kate.
— Eu unhei o tornozelo dele. E o cachorro do acampamento, o marrom. Andei nas costas dele uns oitocentos metros.
— Eu me lembro.
— E... e... — gaguejou ele. — Aquela ave, grande...
— A garça.
— Eu poderia...
— Você poderia tê-la matado — disse Kate. — Poderia tê-la atacado de cima.
— Ah! — disse Braque.
— Você é o rei das criaturas — disse Kate. — É uma pantera, é um lorde.
Eles seguiram em silêncio por um tempo. A beira da estrada era bordada de ásteres e cenouras silvestres, luzindo branca e roxa ao sol.
— Braque?
— Hummmm... — miou ele.
— Não é nada.
— Estou aqui — disse ele, com a língua arrastada. — Eu...
— Você será sempre meu amigo — disse ela.
Anoitecia. A ponte para Lov. À frente deles, a sombra de Kate se espalhava como uma capa por cima de uma poça. Braque saltou por cima da água num arco de prata, sem esforço, elegante. Ele se virou e mexeu com os bigodes: um aceno de gato.
— Braque?
— K-Katerina — gaguejou ele. — Sssim... — Minha voz ainda está aqui, era o que pretendia dizer. Mas sua resposta foi o chiado de um gato.
— Deixe-me carregá-lo — disse Kate, e o pegou no colo.
— Miaaau — disse ele, e deu umas cabeçadas carinhosas na sua orelha.
Eles deram a volta à cidade. Barquinhos balançavam na água parada diante do portão do canal. Cegonhas brancas andavam de um lado para outro, entre eles. E lá estava a balsa verde. Kate içou Braque para cima do ombro, saiu vadeando e subiu a bordo.
O minúsculo espaço do convés parecia pequeno demais para tudo o que lhe acontecera ali. Mas o vardo vermelho era pequeno também. E a gaveta inferior do armário do seu pai tinha sido ainda menor. Talvez fosse hora de parar de escolher lugares pequenos.
Braque deixou-se cair dos seus braços e desceu aos saltos para dentro do porão.
Ela o acompanhou. Aquele espaço também parecia menor do que tinha parecido, e mais comum. As cordas enroladas estavam mais frouxas, as ervas silvestres mais estragadas. Relâmpagos tinham vivido ali, mas agora haviam sumido.
O catre estava arrumado, e a caixa que um dia tinha contido sua sombra estava pousada bem no meio dele. O cervo na tampa da caixa parecia quase vivo à luz oscilante. Ao seu lado, no cobertor, estava seu vestido branco com os acabamentos de renda, o pote de bálsamo que curara suas mãos, o rolo de ferramentas, o formão que ela havia rejeitado. Todos estavam reunidos e amarrados com uma fita vermelha que tinha custado um copeque ou dois. Kate imaginou Linay arrumando a cama e indo embora para morrer. Ele havia pensado nela? Ele tinha querido que ela ficasse com as coisas que ele lhe dera naquela época estranha, em que os dois quase se tornaram amigos?
Ela abriu a caixa, que já não estava lotada de uma escuridão grumosa, espectral. Era apenas uma caixa. Havia uma bolsa simples de couro no fundo. Lembrando-se do peso, Kate abriu os cordões que fechavam a bolsa. Havia um pedaço de papel e...
A bolsa estava cheia de moedas finas e reluzentes, em sua maioria de prata, mas algumas de cobre ou... agora que Kate olhava melhor... elas eram de ouro. Era uma taxa para a guilda. Cem vezes uma taxa para a guilda. Mil vezes.
— Braque — disse ela. — Veja!
— G-gato — gaguejou ele. — K-Katerina. Gato.
Ela soube que aquele era o momento e se voltou para ele. O gato levantou os olhos para ela com o último traço do seu coração partido, e então voltou o olhar para as moedas de ouro, com seus olhos de moedas de ouro. Não disse nada. Depois disso, ele nunca mais disse nada.
— Braque... — disse Kate, com a voz embargada. — B-Braque... — No papel, com uma letra tão raivosa que ameaçava tombar e arrebentar como uma onda, Linay tinha escrito:
Kate. Espero que você sobreviva.
Alguma coisa passou veloz por ela, surpreendendo-a com um jorro de lágrimas. Ela achou que fosse perplexidade, raiva, medo — até que reconheceu o que era: a dor da perda.
— Eu sobrevivi — disse ela ao papel, em voz baixa. — Nós dois sobrevivemos. — Ela apanhou no colo o gato, que ronronou, sussurrou e foi parar no seu ombro. — E vamos continuar a viver.
E foi o que eles fizeram, nem sempre sem problemas, mas por muito tempo ainda saudáveis e felizes.
Você terminou Kate Somente
Erin Bow
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