Kate Somente
12. O Nevoeiro
doze
O NEVOEIRO
No dia seguinte Kate Somente procurou e viu o buraco na sombra de Linay.
Ele estava empurrando a chalana com a zinga. A luz lançava sua longa sombra de um lado a outro do convés. No centro daquela sombra, sobre seu coração, havia um trecho que se agitava como um pássaro ferido. O sol passava por ali, de vez em quando, em rodelas de luz.
Kate ficou olhando aquele trecho turvo. Debaixo dela, o barco subia, avançava e desacelerava; subia, avançava e desacelerava. O nevoeiro ainda estava atrás deles, com sua parte superior tornada rosa e amarela pelo amanhecer aquoso. Ela estava se lembrando de como ele tinha usado cabelo e sangue para rasgar sua sombra. Para dar voz ao fantasma da irmã.
— Qual era o nome dela? — perguntou Kate. — Da sua irmã. A rusalka. Como ela se chamava?
O barco balançou um pouco quando Linay se atrapalhou com a zinga, mas seu rosto pálido e sobrenatural permaneceu neutro.
— Ela morreu — respondeu ele, por fim. — Nós não dizemos o nome dos mortos.
— Eu sei. Drina me disse.
Isso provocou de repente um olhar espantado.
— Drina. — Ele voltou a se acalmar. — Ora, ora. Como a vida dá voltas. Enquanto eu a acompanhava, eu sabia que você estava com os nômades, mas eu...
— Você me acompanhava? — Foi a vez de Kate se sentir chocada.
— Para puxar sua sombra. Você achou que o que restava da sombra ia ser enviado a mim por algum mensageiro do rei? Como eu lhe disse, a perda de uma sombra é uma coisa lenta. Eu precisava estar por perto, para apanhar a sua à medida que ela escapasse. — Ele deu de ombros. — Só há uma estrada. Só há um rio. Não foi difícil segui-la.
Por que ela deveria se sentir traída? Mas era assim que se sentia. As palavras dele despertavam a sensação de pânico da sua longa perda, do seu pesado segredo, da sua sombra se retorcendo para se afastar dela. Ela lhe deu as costas. A sombra de Linay caía por cima dela, e a dela mesma não estava em parte alguma. Tinha sumido.
— Por quê? — perguntou ela. — Por que você fez isso comigo?
Ela viu a sombra de Linay encolher os ombros.
— Eu precisava de uma sombra. A sua era a mais fácil para eu conseguir.
Kate Somente baixou os olhos até as mãos queimadas, com a luz as atravessando direto. Não disse nada. O tempo passou. E depois, de repente, Linay estava em silêncio junto dos seus ombros. Ela estremeceu e se afastou dele, mas ele estendeu as mãos e a segurou pelos pulsos. Ele os levantou, sem dar atenção à sua resistência fria.
— Estão se recuperando bem.
— Me solta! — Ela puxava as mãos inutilmente.
— Primeiro, um pouco de unguento. — Ele a soltou e tirou das dobras do seu zupan um pote com tampa. Esfregou um pouco do produto oleoso e refrescante nas suas cicatrizes. O cheiro forte de menta derramou-se sobre ela. A cabeça de Linay estava curvada sobre as mãos dela.
— Lenore — disse ele, baixinho. — O nome da minha irmã era Lenore. Ela era curandeira. E me ensinou isso. Vou ver você entalhar novamente.
Ela não conseguiu pensar em nada para dizer. Linay continuou encurvado sobre suas mãos, cantando baixinho. Kate lembrou-se do que Drina tinha dito: que toda a magia dependia de uma dádiva, doada espontaneamente, e que os curandeiros davam parte da própria vida pela saúde daqueles que eles curavam. Linay se balançava enquanto cantava, como se estivesse exausto ou rezando. Lentamente ele foi cantando, até se calar. Soltou as mãos dela, mas não levantou a cabeça. Sua voz era grave:
— Como seu gato a chama?
— Katerina.
— Katerina, sinto muito. — Mesmo que ele não tivesse sido um bruxo, obrigado a dizer a verdade por seu próprio poder, ela teria certeza de que estava falando sério.
Mas naquela noite, enquanto o nevoeiro turbilhonava em torno da chalana, ele mais uma vez invocou a rusalka. Mais uma vez ficou sentado, olhando, enquanto Kate enchia a mão com o próprio sangue — a mão que ele tinha acabado de cuidar. E ele deixou a rusalka se alimentar do seu sangue, até Kate perceber que deslizava para dentro do cinza, tentando se agarrar à lembrança de que Linay era perigoso, que ele não a amava e que ela não podia perdoá-lo.
Kate Somente dormiu até tarde no dia seguinte. Quando acordou, a primeira coisa que viu foram olhos de gato. Braque estava sentando no seu peito, olhando com raiva como somente os gatos conseguem olhar.
— Você deixou a criatura vir atrás de você de novo — disse ele. — Se você morrer, vou ficar furioso com você.
Kate sentia a cabeça atordoada.
— Onde você estava?
Abruptamente o gato decidiu alisar o ombro.
— Ele me deu peixe — disse com a voz abafada pelos pelos. — Eu adormeci.
— Ele lhe deu veneno?
— Não aceitarei mais comida dele — declarou Braque. — Saiba que esse é um sacrifício enorme. Mas está claro que preciso protegê-la, Katerina. — Ele olhou de esguelha para ela. — Você está pensando em lhe dar mais sangue.
— Acho... — disse ela, e então parou para pensar. A pequena cabine estava abafada e balançava, deixando-a sonolenta. Ela permaneceu deitada, olhando as ervas e feixes acima dela oscilarem lentamente. — Acho que tenho de fazer isso — disse ela. — Ele me devolverá minha sombra em Lov. Não posso viver sem minha sombra.
— Eu não confio nele.
— Ele não pode mentir.
— É o que ele diz. — A cauda de Braque chicoteava. — Katerina, sua sombra não lhe valerá de nada se a criatura a matar.
— Ela não matará — disse Linay, e Kate deu um pulo. Ele tinha descido pela escada sem que eles percebessem.
Braque não se dignou a encolher-se, mas suas orelhas se inclinaram para trás.
— Matará, sim. Já fiz sangrar muitas criaturas pequenas. Eu conheço sangue. Katerina, você não pode alimentar a criatura outra vez. Ela vai matar você.
— Bem — disse Linay. — Existe um jeitinho.
— Ora! — Braque cuspiu. — Você é cheio de jeitinhos! Já é tarde para jeitinhos! Você enfraquece Kate. Você a deixa confusa!
Linay não deu atenção a isso.
— Vamos desembarcar. Vou lhe mostrar.
Kate Somente queria dormir. O calor a embalava, sua cabeça latejava. Mas, depois de algum tempo, ela se levantou e subiu pela escada. Descobriu a chalana atracada à margem do rio, onde alguma inundação antiga tinha deixado uma pilha emaranhada de árvores mortas. Ela demorara demais. Linay tinha partido numa das suas missões de pilhagem, deixando-os sozinhos.
Sentada no bosque ossudo e esbranquiçado, com o sol passando direto por ela, Kate Somente tentou entalhar. O formão, que no passado tinha sido como outra mão para ela, agora parecia duro, em cima das cicatrizes recentes. Seus dedos tinham perdido a segurança e a força. Mesmo assim, ela girou repetidamente debaixo do seu formão a rádica que tinha encontrado na estrada, cortando fora os pontos enfraquecidos pela podridão, buscando pela forma no seu cerne. Era um trabalho tosco, o único que suas mãos conseguiam fazer.
A rádica aos poucos assumiu uma forma semelhante à de alguma coisa com asas. Ela pensou em duas mãos, com os pulsos unidos, as palmas e os dedos abertos. Mãos atadas.
Braque estava sentado empertigado num ramo seco caído, olhando para ela com raiva até ela desistir de entalhar e resolver lhe fazer um agrado, pegando um peixe. Ela o preparou. Os dois comeram. O tempo passou tranquilo.
— Quando você estava com os nômades — disse a voz de Linay atrás dela, súbita e baixa como a de um fantasma —, ela apareceu?
Kate Somente recusou-se a se sobressaltar outra vez. Ela fez que sim sem olhar para ele. Sim, a rusalka tinha vindo. E os nômades — as pessoas que tinham sido quase sua família — puseram a culpa em Kate.
— Quem? — perguntou Linay. Kate Somente não via por que deveria responder. Ele que ficasse se perguntando. Mas então ele disse: — Não Drina...?
Drina. Sua primeira amiga, sua... a palavra a espantou ao surgir no seu pensamento... sua irmã.
— Não — disse ela. — Drina, não. Wen. Stivo.
— Ah! — disse ele, com a voz neutra. E se sentou de frente para ela, espetando a cabeça do peixe.
— Tem como salvar as pessoas? — perguntou Kate. — As que estão adormecidas... eu teria como salvá-las?
Linay deu de ombros.
— Se a rusalka fosse despertada do seu meio-sono, as pessoas adormecidas poderiam despertar também. Eu não sei, e não me importo. — Ele levantou a aba da guelra e tirou o bocado de carne por trás dela.
— Queremos ver esse seu jeitinho — disse Braque.
— Hummm — disse Linay. — Chegue mais perto.
Kate Somente hesitou e mexeu com o pé para ter certeza do acesso ao formão na sua bota. Seu movimento foi sutil, mas ele percebeu.
— Ora, francamente. — Ele cutucou o dedo do pé de Kate com o seu. — Eu salvei sua vida. Até parece que ia querer feri-la. Estenda as mãos. — Ele simulou o movimento, fazendo uma taça com as próprias mãos longas e a erguendo.
Ela o olhou com os olhos semicerrados. No sol, a cicatriz da queimadura repuxava no seu couro cabeludo. Ela levantou as mãos em taça.
— Eu nem sempre fui um ladrão de sombras, sabe? — disse ele. — Eu trabalhava com o tempo... e era bem-vindo por toda parte, bem-vindo como uma chuva de verão. E ainda conheço os humores do vento e da água. — Ele se debruçou sobre ela, encaixando as próprias mãos encostadas na parte inferior das dela, com os dedos longos tocando os seus pulsos. — Não se pode esperar que um fantasma lamba sangue derramado como um...
— ... cachorro — sugeriu Braque. O gato tinha se levantado e os estava observando, com o pelo arrepiado.
— Ela aceitará sangue somente de um corpo. Mas o que é um corpo? Uma taça para a vida. Uma taça de alento. — E ele deu um longo sopro na taça formada pelas suas mãos. De início, o ar estava morno, mas aos poucos esfriou.
Kate abriu as mãos delicadamente. Dentro delas — assumindo seu formato — havia uma taça de gelo. Era pequena como um ninho de passarinho, tecida da mesma forma, e rebrilhava ao sol. Ela a levantou para a luz. Delicadas plumas de gelo recobriam suas bordas.
— Viu? — disse ele, sorrindo. — Nem sempre foi feio. —Em seguida se levantou de repente como um homem ofendido. — É uma taça. Você a enche de sangue, e ela não saberá a diferença entre a taça e um corpo. Assim, eu controlo seus apetites insaciáveis. Saiba que você não tem como fazer isso sem mim. — Ele deu as costas para ela e brandiu a frigideira como se fosse uma espada. — Apague direito o fogo e venha para o barco — disse ele. — Quero cobrir alguma distância ainda hoje.
Mas, quando ela se ergueu por cima da borda do barco, ele estava lá embaixo no porão e não subiu de imediato. Ela achou que o ouviu chorando.
E assim eles seguiam. A região tornou-se mais plana, e a temperatura, mais fresca. As mãos de Kate se curavam lentamente. Linay ia se fortalecendo, e Kate Somente descobriu por que ele tinha ficado fraco.
Todas as noites ela deixava seu sangue encher a taça de gelo que forrava as mãos de Linay. Eram mãos grandes, estreitas, mas de dedos compridos. A sangria acabou por atingi-la como uma doença. No primeiro dia, ela não se sentiu diferente. Mas, no segundo, o sol lhe causou sonolência. No terceiro, ela se flagrou cabeceando de sono sobre a peça a entalhar. No quinto, uma espécie de peso já tinha desabado sobre ela, fazendo seu formão tremer. Ela o embainhou e perguntou:
— Quanto falta para chegarmos a Lov?
Linay deu de ombros. Suas juntas tinham recuperado a fluidez de antes. Ele já não se mexia como se seus cordéis de polichinelo estivessem ressecados.
— Duas semanas? Três? Essa região não é a minha. – Ele fincou a zinga no leito do rio, empurrou a chalana adiante e acrescentou: — Mas estamos chegando lá, mira. Dá para eu sentir o gosto, como o de cinzas. Lov, finalmente.
Sua voz fez doer as cicatrizes de Kate. Ela abaixou a cabeça e retomou o trabalho na madeira.
Passaram-se dias. Linay trouxe das suas perambulações calças de couro e a bata de um lavrador, e ela dobrou com prazer o vestido comprido de linho. No dia seguinte, ele lhe deu um rolo de ferramentas de mão: uma grosa, um cinzel, três tipos de goivas, um furador e um formão. Kate, cujo velho formão era tão parte dela quanto seu nome, guardou o novo, mas ficou grata por poder usar as outras ferramentas.
— Nenhum gato faria isso — disse Braque. — Lute!
— Estou lutando — respondeu ela. Mas lentamente isso foi deixando de ser verdade.
Ela tentou impedir a si mesma de sentir a onda de ternura que a invadia, quando ele trabalhava para curar suas mãos: a canção suave que um dia tinha consertado os dedos esmagados do seu pai, o repartido torto e queimado de sol do cabelo branco de Linay, quando ele curvava a cabeça clara. Ele é perigoso, dizia a si mesma. Ele não me ama. Eu não confio nele. Só estou indo a Lov para recuperar minha sombra.
Ele não me ama. Este não é o meu lugar.