Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 4 de 19

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Kate Somente

4. Os Nômades

quatro

OS NÔMADES

 

Kate Somente engasgou, com os olhos arregalados.

— Braque!

Braque estava absorto na torta de carne.

— Está coberta com pão — bufou ele. — Que palerma foi cobrir carne com pão? — Ele deu umas pancadinhas na casca, saltou para trás quando ela se rompeu e começou a lamber o molho da pata. — Huuuum — ronronou ele. — Huuum, bom...

— Braque. — Kate engoliu em seco, outra vez.

O gato levantou os olhos da lambição.

— Ah, bem, eu podia dividir com você. — Ele direcionou os bigodes para a frente e, como um senhor, demonstrou sua generosidade dando o que não queria. — Tem pão do tipo que você poderá gostar.

— Você... — Kate fechou a boca, com determinação. — Você está falando.

— Foi... hummmm... seu desejo. — Ele pareceu voltar os olhos amarelos para dentro de si. — Para você não precisar seguir sozinha.

— Ah! — Eu lhe concederei o desejo secreto do seu coração, dissera Linay.

Braque inclinou a cabeça para ela.

— Tem carne também. Além do pão. Você pode comer um pouco também.

A noite estava fresca e sussurrante com a chuva. Tudo o que ela possuía neste mundo estava num embornal espremido contra seu quadril. Ela estava usando uma colcha velha circundada por um cinto improvisado com um pedaço de corda, e a noite úmida a envolvia por inteiro. E agora seu gato falava. Kate Somente se sentia ridícula, aliviada, apavorada e, apesar do gato, extremamente só.

— Não condiz com minha dignidade tentar convencê-la — Com a cabeça, Braque empurrou a mão dela. — Coma.

Foi o que ela fez.

 

Cheia de torta de carne e acompanhada por um gato falante, Kate Somente deu as costas à sua cidadezinha e foi entrando pela embocadura da estrada. Suas pernas tremiam e sua cabeça girava. Seu gato sabia falar. Ela tinha feito um acordo com um bruxo. Estava indo embora do único lugar que conhecia como lar. Estava se dirigindo para a curva, a terceira pedra grande. O que faria se Linay não tivesse deixado lá seus apetrechos, ela não sabia, nem conseguia pensar no assunto. Tinha só um pouco de comida no embornal de ferramentas e entalhes meio prontos. Se não houvesse nada atrás da terceira pedra grande, ela simplesmente morreria aos poucos.

Braque ia caminhando, curvando os bigodes e saboreando a noite. Ele não dizia palavra, e Kate Somente quase pôde acreditar que estivera sonhando. Para você não ficar sozinha, dissera ele. Não importava o que acontecesse depois, ela não estaria só. Ela localizou a pedra. Encostada nela estava um cesto.

Era o tipo de cesto que os camponeses levavam nas costas para transportar a colheita para a feira: com a forma de meio barril e tiras de couro para passar pelos ombros. Era novo e muito bem-feito: Kate Somente passou o dedo pela palidez lisa das lascas de freixo trançadas. Braque empinou-se e pôs as patas dianteiras no aro do cesto. Ele enfiou a cabeça por baixo da tampa presa por dobradiça.

— Você acha que ele incluiu mais torta de carne? — Sua voz estava abafada, mas não era um sonho.

— Bem — disse ela, sentindo-se atordoada —, vamos olhar.

Havia embrulhos de pão de minuto que fizeram Braque torcer o focinho de revolta. Havia um saco de dormir de oleado e pele. Uma machadinha. Um casaco de pele de carneiro, grande demais para ela. Um chapéu e mitenes de pelo de coelho. Uma montoeira de pequenas coisas: uma pederneira para fazer fogo, uma carteira de couro com anzóis e outra com agulhas, meias de lã de cano alto, uma bata de linho.

Linay tinha sido generoso. A ideia a deixou inquieta.

Kate Somente tirou o embornal do ombro e começou a arrumar no cesto suas ferramentas e peças entalhadas. A última coisa que pegou foi o objarka da Donzela do Trigo. Ela parou e olhou para a peça. O rosto entalhado da mulher pareceu tremer nas suas mãos, e Kate percebeu que ela estava tremendo.

O objarka estava terminado e pago. O medo recomendava que ela seguisse pela estrada, mas a honra fez com que desse meia-volta e olhasse para o volume escuro da cidade que tinha ficado para trás, com o weizi se erguendo como o mastro de um navio a partir de um nevoeiro fechado.

Kate Somente pôs o cesto numa pedra e lutou para enfiar as tiras. Ela tinha acabado de conseguir ficar em pé quando Braque saltou para cima da tampa do cesto e, derrapando, conseguiu parar junto da sua orelha. Kate deu um gritinho de surpresa e cambaleou, enquanto o gato virava para cá e para lá, com o flanco se esfregando no seu pescoço e a cauda batendo de leve em torno da sua cabeça.

— O que você está fazendo? — perguntou ela.

— Estou indo com você — disse ele, com a fala arrastada. — Por favor, me acorde quando a fuga tiver terminado.

— Você não poderia me acompanhar?

— Cachorros acompanham — disse ele, num tom tão horrorizado que ela nem se deu o trabalho de discutir.

Kate sentiu que ele oscilava às suas costas quando ela andava até se acomodar ao movimento. Eles seguiram em silêncio por algum tempo, ao lado do rio.

Um denso nevoeiro surgia da água e encobria a estrada e a cidade. Era como luar pairando no ar: uma luz fraca por toda parte, de tal modo que não se via nada. Ele envolvia os sons ao seu redor, transformando as passadas e o murmúrio do rio numa música submarina. Ele a embalava e a ninava, cantando.

Kate Somente estava se sentindo desnorteada e estranha. Não dormia desde os golpes do machado. A música parecia real; ela podia ouvir um violino nela, uma voz cantando numa língua que ela desconhecia. Achou que era o próprio rio que estava cantando, ou a lua, ou todos os fantasmas do mundo. Ela se sacudiu, e do meio da noite de repente se agigantou a muralha da cidade. Kate parou de chofre.

— Estávamos fugindo — cantarolou Braque — na direção errada.

— Você ouviu isso? — Ainda havia uma música espectral em algum lugar.

— Ouvi — disse o gato, em tom de superioridade —, é real. Eu posso falar. Foi seu desejo. E eu estava dizendo que esta é a cidadezinha onde iam matá-la.

— Tenho de dar o objarka para Niki.

— Hummm — disse ele. — Bem. Não é a mim que estão tentando matar.

Mas só por precaução ele se enfiou debaixo da tampa do cesto. Kate Somente sentiu que ele se acomodava encostado nas suas omoplatas. Ela endireitou os ombros e partiu, entrando pelas ruas escuras.

 

Na padaria, Kate Somente parou no umbral. Pretendia deixar a Donzela do Trigo na soleira, como um bebê, mas tinha se esquecido de que os padeiros madrugam.

A meia-lua da boca do forno refulgia com os carvões prontos bem lá no fundo. A pá de forno, de cabo comprido, estava jogada sobre uma mesa como uma lança. Niki, o padeiro, estava em pé junto do cocho de fazer pão, socando a massa para o pão branco — uma massa grudenta, pálida como a morte. Kate Somente olhava os músculos que se contraíam nos braços grandes. Ele olhou para o alto.

— Kate Somente!

Ela ficou na soleira, com a noite às suas costas.

— Eu trouxe... — Ela exibiu o objarka. — Está pronto.

— Entre, entre. — Niki esfregou as mãos grudentas, formando minhocas de massa, que caíram no chão.

— Esse vai ter de crescer para a fornada da manhã. Você não precisava vir tão cedo... cedo demais para qualquer um, menos para padeiros! Ponha a peça no chão. Vamos dar uma olhada.

Kate Somente pôs o objarka no chão e recuou um passo. Ela precisava ir, mas não conseguia parar de olhar para o rosto da Donzela do Trigo. A verdade, ela não parava de pensar. A verdade é...

— Kate Somente. Katerina. Você vai fugir.

Ela deu de ombros.

— É — disse ele. — Você vai, sim. Ah, Kate Somente. Para onde você vai?

Ela deu de ombros novamente, e Niki suspirou:

— Mas é prudente, pequena. Prudente. Andam falando.

Ela continuou ali em pé, olhando para o objarka. Niki hesitou e olhou também.

— É muito bonito, sabe? Uma peça muito bonita. Você sabe trabalhar com o formão, sem a menor dúvida. Uma lâmina abençoada. Ela vai me dar sorte, com certeza. Mas vou sentir sua falta. — Como se admitir isso o deixasse embaraçado, ele começou a se afobar. — Posso lhe dar pão. De painço, de dois dias, só um pouco passado. E acho que — ele estava procurando alguma coisa — tenho um pouco de pão de minuto, sabe, para viagem. Eu... — Ele parou quando lhe ocorreu uma ideia. — Você deveria ir com os nômades.

Uma esperança repentina a abalou. Ir com outras pessoas — até mesmo com uma gente estrangeira e desprezada — lhe daria uma chance verdadeira de sobreviver.

— Os nômades? — repetiu ela.

— É, isso mesmo. Os nômades — disse Niki.

Os dois se entreolharam, sem saber ao certo como se fazia para ser aceito por párias.

— Tenho negócios com eles, sabe, por causa do cavalo — disse Niki, por fim. — Por isso acho que eles falarão comigo. Estão lá para os prados dos carneiros.

Ele parou, vendo a expressão no rosto dela.

— Não tenha medo — disse ele, afagando sua mão. — Os nômades são razoáveis.

Mas ele tinha se enganado com ela. Kate estava com medo, não de que os nômades a aceitassem, mas de que a rejeitassem.

 

E assim, ao amanhecer, sob uma chuva fina, Kate Somente descobriu-se com Niki, o padeiro, na borda das pastagens dos carneiros, do lado de fora do portão mais baixo de Samilae. Os nômades estavam começando a se mexer: um velho descobria uma fogueira abafada, duas moças batiam papo e recolhiam ovos de galinhas sonolentas. As carroças pintadas de cores vivas flutuavam no nevoeiro do orvalho da manhã. No outro lado do acampamento, duas dúzias de cavalos remoinhavam como sombras na névoa, e um rapaz de azul se movimentava entre eles.

— Espere um instante — murmurou Niki, deixando-a parada junto do muro baixo de pedras e espinheiros de framboesa que marcavam o limite do prado. Ela ficou parada ali, olhando Niki ir na direção dos cavalos. Um instante depois, ela se desvencilhou do cesto. A tampa se ergueu, e Braque veio se esparramando pelo lado.

— A fuga terminou? — perguntou o gato, engolindo a última palavra num bocejo imenso. Ele se esticou para a frente, estendendo as costas e abrindo os dedos das patas, e em seguida saltou para cima do muro ao lado dela. Seu focinho estava ocupado. — Cavalos — disse ele. — Cachorros. Hummmm. Humanos. Galinhas. E... ah! Outro gato! Preciso ir estabelecer meu domínio sobre o território. — Ele saltou do muro.

Kate Somente mergulhou atrás dele.

— Braque! Espera! — Ela o agarrou no ar pelo cangote.

— Miaaaaaau! — gritou ele, pendurado na mão de Kate. — Que ofensa! Que indignidade!

Kate ajoelhou-se e aconchegou o gato furioso junto do peito.

— Braque! — disse ela, entre dentes. — Para com isso!

— Vou arranhá-la agora mesmo, por mais que eu goste de você. Trate de me soltar! — Ele se contorcia contra o peito dela.

— Braque, você não pode falar.

— Posso, sim — veio a voz abafada, revoltada. — Também posso morder, dilacerar, arran...

— Não — interrompeu ela. — Você não pode, não deve falar. Ouça o que digo. Eles o matarão se o ouvirem falar.

O gato parou de se contorcer.

— Quem faria isso? Quem se atreveria?

— As outras pessoas. Por favor, Braque. Elas vão pensar que é magia. Vão matar nós dois.

— É magia — disse ele, em tom de reprovação. — E o desejo foi seu.

— Eu sei... sinto muito... Mas, por favor.

— Bem. Eu não estou com medo. Mas, para protegê-la, Katerina, serei discreto.

Kate Somente pensou na ideia de discrição de um gato, e ficou apavorada. Mas não podia fazer mais nada.

— Agora, solte-me — disse Braque. — Tenho assuntos a resolver na língua das garras e dos pelos.

— Boa sorte — disse ela, e o desejou com todas as forças.

 

Kate Somente ainda estava sentada encostada no muro quando Niki voltou com o rapaz que estava cuidando dos cavalos.

— Levante-se, levante-se — disse o padeiro, alvoroçado. Kate levantou-se e fez um esforço para não recuar para junto do muro. — Venha conhecer uma pessoa. Conheça Behjet, que me vendeu o cavalo. O melhor cavaleiro entre os nômades, é o que se diz.

O elogio deixou óbvio que Niki queria alguma coisa. Kate Somente teve vontade de se encolher, mas o homem simplesmente disse:

— E quem temos aqui, Nikolai? — Ele falava baixo, era esbelto e usava uma camisa azul com um lenço verde amarrado no pescoço: cores de martim-pescador.

— Ela é, essa é — disse Niki atabalhoadamente. — Kate Somente. Órfã, órfã de Piotr, o Entalhador. — Ele puxou Kate Somente para a frente, prendendo-a no seu braço. — Behjet, ela precisa de um lugar.

— Entre os nômades, é o que você está querendo dizer? — O homem, Behjet, enxugou a palma das mãos no avental de cavalariço. — É um pedido e tanto. Para onde ela está indo?

Kate Somente soltou-se do calor suave, massudo, de Niki e respondeu por si mesma:

— Vou embora.

— Hummm — disse Behjet. — E por que motivo?

De longe dali, Kate Somente ouviu o berro de vitória de Braque. O gato estava estabelecendo seu domínio. Encontrando seu lugar.

— Porque... — Kate engoliu em seco. — Porque me matarão, se eu ficar aqui. Eles acham que sou bruxa.

— O que ela não é — acrescentou Niki.

— Ah — disse o rapaz, baixinho. — Como todos os nômades, ele tinha a pele morena e olhos escuros, grandes e amendoados. Eram profundos e doces, como os dos cavalos; davam-lhe uma aparência bondosa. Mas mesmo assim ele não se mexeu.

Niki agitou as mãos.

— E você estava dizendo que precisava de um carpinteiro, que precisava consertar as carroças em cada cidade aonde chegava e desejou ter entre vocês um carpinteiro. Kate Somente trabalha com madeira.

— Trabalho bem — acrescentou Kate. Sua voz saiu neutra. Era algo de que tinha orgulho.

Behjet soprou pelos lábios, bufando como um dos seus cavalos.

— Aceitar um gadje... não é uma coisa que eu possa decidir. Mas deixe-me levá-la para conhecer minha mãe. — Ele partiu para atravessar o capim cortado rente, cinza como o chuvisco.

Kate Somente pôs nos ombros seu cesto e se apressou atrás dele, com Niki os acompanhando.

— O que “gage-eh” significa?

— Gadje-eh — corrigiu Behjet, puxando o g dela na direção de um z. — Significa alguém que “não pertence aos nômades”. Não é uma palavra das mais gentis, e eu peço desculpas por ela. Mas você não deve pensar que, só porque não temos muralhas, não temos costumes. Não somos selvagens, apesar de não termos boa acolhida na maioria dos lugares. É isso aí. — Eles tinham chegado às carroças. Elas eram pequenas, com rodas altas, com o piso de madeira, com muitos entalhes, pintadas de cores fortes. Suas plataformas eram cobertas com lona armada sobre arcos de madeira. Nos degraus da traseira de uma carroça pintada de vermelho, uma velha de bochechas rosadas estava depenando um galo. Estava entrouxada em saias verdes e amarelas e muitos lenços. O cabelo grisalho saía crespo do seu turbante e se derramava no rosto moreno.

Niki não fez uma reverência, mas torcia as mãos diante de si como se achasse que talvez devesse tê-la feito.

— Mãe Daj — disse ele.

— Daj — disse Behjet, que realmente fez uma pequena reverência e depois acrescentou alguma coisa em outra língua. A Kate Somente pareceu ser um longo discurso, e ela ficou frustrada. Se seu destino estava sendo decidido, ela queria entender.

Behjet calou-se. Kate Somente descobriu que a mulher olhava para ela, com os olhos pequenos e brilhantes como os de um falcão em meio às rugas. Imitando Behjet, ela fez uma reverência, mas não disse nada.

— Entalhadora, hein? — disse a mulher, com a fala arrastada. Ela usou o bico do galo para indicar o objarka de Kate. — Só coisa fina?

Kate Somente fincou os pés no chão como se estivesse prestes a lutar.

— Trabalho fino e trabalho simples. Faço caixas, faço rodas, torneio madeira. Mas o principal são os entalhes. — Ela tirou o objarka que seu pai tinha chamado de obra-prima e o entregou à mulher.

Ela virou o gato escuro de madeira muitas vezes nas mãos morenas e levou o pequeno focinho até seu nariz grande.

— Ela é boa com o formão, mãe — disse Niki. Mas a velha não fez caso do padeiro, concentrada no objarka de Kate e em alguma pergunta interior.

— Bem — disse ela, por fim —, nós estamos precisando de um carpinteiro, e essa é a pura verdade, menina. — Sua cabeça ainda estava baixa, como se ela estivesse falando com o gato entalhado. Em seguida olhou para cima, com o rosto suave, cheio de rugas. — E, por mais que você não demonstre, acho que você está precisando de nós. Você tem equipamento próprio? Suas próprias ferramentas?

Kate Somente fez que sim.

— Não posso lhe prometer um lugar. Mas venha conosco a Toila. Um mês na estrada. Vamos ver como a gente se dá.

Uma prova. Kate Somente entendia de provas. Ela fez que sim mais uma vez. Estava sentindo um aperto na garganta, mas não sabia ao certo se era esperança ou medo.

— Pois bem — disse a mulher. — Sou Daj. Ou Mãe Daj, se ficar melhor numa língua da cidade. E você é Kate.

— Kate Somente — corrigiu ela.

Daj levantou as sobrancelhas, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Braque veio se aproximando. Havia um arranhão recente de um lado a outro de uma orelha, e um rato morto na boca. Ele largou o corpo de patas cor-de-rosa aos pés de Daj e ficou ali em pé, com um largo sorriso. Kate Somente encolheu-se.

— Eu também tenho um gato.

— Belo animal, Mãe Daj — disse Niki, intrometido. — Famoso caçador de camundongos.

— Bem — disse Daj. — Portanto, um par bastante útil. Seja bem-vindo, gato.

E Braque concordou.

 

Como Daj insistiu de forma rude, Kate Somente lançou seu cesto para a plataforma da carroça, e Braque, sem absolutamente nenhuma insistência, saltou seu lado.

— Você viu? — disse ele, arqueando as costas na mão de Kate, todo vaidoso. — Meu presente provou que nós somos úteis.

— Braque — chiou Kate. Ela olhou em volta. Ninguém tinha ouvido.

O gato se ofendeu:

— Seria de imaginar que estava na hora de um elogio.

— Cale-se, por favor — disse ela. — Olhe aqui. – Ela tirou seu casaco novo do cesto e o abriu, com o lado da lã para cima, para ele se aninhar.

— Ah! — disse ele, pisando na lã como se fosse um rei dignando-se a entrar num casebre. — Melhor. — Descreveu três círculos, levantando as patas muito alto, com elegância, e então se enroscou, passando a cauda por cima do focinho.

— Durma em silêncio — recomendou ela, esfregando um polegar entre as orelhas dele. Ele lhe lançou um olhar furioso, meio turvo de sono, e fechou os olhos.

Kate Somente foi apressada atrás de Behjet e Niki, o padeiro. Seus pés tinham derrubado as gotas de orvalho e deixado marcas escuras no capim prateado, que estava baixo onde os carneiros pastavam. O rastro escuro fez com que ela pensasse na sua sombra. A perda de uma sombra é uma coisa lenta, tinha dito Linay. Procure um lugar para ficar. Se os nômades a aceitassem, se ela comprovasse ser útil, chegaria a hora em que ela poderia explicar, antes que alguém a visse.

Niki a deixou com Behjet, não sem antes se alvoroçar, como um pássaro tentando fazer com que seus filhotes voassem do ninho. Behjet deu um suspiro depois que ele se foi e voltou a cuidar dos cavalos.

Kate Somente o olhava, enquanto ele trabalhava. Estava desesperada para poder ajudar, mas não sabia o que fazer. Behjet estava cuidando de uma égua parda, segurando um dos cascos no alto, entre suas pernas, e tentando tirar com um ganchinho uma pedra do fundo esponjoso do casco. Os outros cavalos andavam em círculo. Kate Somente nunca estivera tão perto de cavalos. Eles eram grandes. Ela sentia o cheiro de suor de cavalo, de couro e esterco, cada vez que um se mexia. A cabeça morena de Behjet estava abaixada; ele murmurava para o animal inquieto. O trabalho parecia perigoso. Ela nem mesmo se atrevia a perguntar como poderia ajudar.

Behjet terminou com a égua e passou para outro cavalo. Ele falava manso com os animais em sua própria língua. Kate Somente gostou da voz: calma, mas profunda. Isso a deixou um pouco mais à vontade, e ela quase não se deu conta quando ele começou a falar com ela:

— Foi a bruxaria que a convenceu — disse ele.

— O quê? — disse Kate.

— Daj. Eu contei para ela que seu povo achou que você era bruxa. Foi por isso que ela decidiu aceitá-la. Você devia saber.

— Ah — disse Kate.

— A mulher do meu irmão... foi queimada como bruxa. Acontece com os nômades. Mais do que deveria. — Ele se levantou, limpando as mãos no avental de couro e enxugando as gotas de chuva do rosto com o lenço verde.

— Grude-se a Daj, Kate Somente. Não pense que ela tem coração mole. Ela é feroz como um texugo. Mas, se ela decidir ficar do seu lado, seu lugar aqui estará garantido.

Kate Somente não soube que resposta dar a isso. Um lugar garantido — era algo grande demais até mesmo para ela chegar a cogitar. Behjet tinha lido o desejo do seu coração tão bem quanto qualquer bruxa. Não estar só.

— Então, trate de ir para lá — disse Behjet. — Levantar acampamento dá muito trabalho. Tenho certeza de que suas mãos encontrarão alguma coisa para fazer.

 

Kate Somente encontrou Mãe Daj ainda sentada na escada da carroça. O galo estava quase todo depenado, e Daj usava no turbante um ramo de penas lustrosas da cauda. Ela estava observando o trabalho de duas mulheres mais jovens, que batiam tapetes enormes, e de uma outra debruçada sobre uma caixa de utensílios variados. Aos pés de Daj, uma menina pouco mais nova que Kate estava areando uma panela. A menina ergueu os olhos brilhantes e francos como os de um pardal.

— Mãe Daj? — perguntou Kate, tímida. — Posso ajudar?

— Não tem nada que precise ser entalhado neste instante — respondeu Daj.

Kate engoliu em seco; uma rejeição tão rápida. Pareceu que Daj percebeu o estremecimento e adivinhou a razão. Seu rosto se enterneceu e ela disse:

— Drina, meu bem. Está quase terminando?

— Preciso ir buscar mais areia — respondeu a menina da panela. Também sua voz era como a de um pardal: cristalina e aguda, sem esconder nada. Seu nariz era estreito, a boca, larga, e os olhos grandes eram amendoados, como os de um gato. Apesar de ser mais nova que Kate, ela era mais alta e mais delicada: uma menina que nunca tinha sentido fome. Seu cabelo preto e comprido estava preso para trás com um lenço verde e amarelo; suas saias escuras eram bordadas com papoulas.

— Leve essa aqui — disse Daj, indicando Kate com um cotovelo, enquanto virava o frango.

— Essa é Kate, a Entalhadora, que seguirá com a gente por um tempo.

— Kate Somente — corrigiu ela.

— Hum, foi o que você disse. — Daj a encarou. — Como você preferir, menina. — Kate corou, e Daj sorriu com carinho e acrescentou: — Nossa Drina vai lhe mostrar o acampamento. Para você não ser pisoteada. — Ela levantou a cabeça flácida, cheia de penas, e com ela indicou as redondezas. — Com toda essa movimentação.

E assim Drina apanhou um balde vazio e levou Kate Somente na direção do rio. Elas passaram por cima da mureta de pedras soltas na borda da pastagem de carneiros e entraram no terreno abandonado que às vezes o rio inundava. O capim ali era alto e encurvado pela água. Bétulas novinhas tremiam e gotejavam na chuva fina. A calça de malha de Kate Somente ficou encharcada e pesada. As pernas compridas de Drina reluziam, molhadas, e suas saias caíam sem vida em torno dos joelhos. As duas meninas seguiam em silêncio, olhando disfarçadamente uma para a outra.

— Na verdade você não ia ser pisoteada — disse Drina depois de um tempo. — Daj estava brincando.

— Ah, foi engraçado — disse Kate. Estava falando sério, mas a frase saiu seca, e Drina riu.

— Seja como for, você deve estar acostumada a mais gente do que temos aqui.

— É, mas... — Kate Somente não sabia ao certo como explicar. — Geralmente eles não conversam comigo.

— Bem — disse Drina, dando uma volta completa no seu balde —, se você adotar os costumes dos nômades, não nos faltará conversa. Podem faltar muitas outras coisas, mas não conversa, é o que Daj diz.

— Daj é sua mãe?

— Ah, não! — Drina riu. — Ela é muito velha! Eu só a chamo assim. É como todos a chamam. É respeito.

— Chamam...? — Kate estava perdida.

— De Daj. Ah, você não fala a língua. Vai ter de aprender um pouco. Daj significa “mãe”. Mas ela não é minha mãe. Só cuida de mim, porque minha mãe morreu.

— A minha também. — Pela primeira vez Kate Somente ficou feliz em dizê-lo. Dava-lhe algo em comum com essa menina alegre, amada.

— Ah! — Drina parou de balançar o balde e ficou ali parada, com as saias tocando no capim ensopado. Parecia que não tinha pernas, como uma peça de xadrez. — Você sente falta dela?

— Não. Ela morreu quando eu nasci.

— Ah — disse Drina, e recomeçou a andar.

— Mas sinto falta do meu pai. — Kate Somente estava tentando manter o ritmo da conversa. — Ele morreu há quatro anos, no skara rok. Pegou a febre de bruxa.

E Drina — a Drina alegre e sorridente — respondeu com grosseria, quase rosnando:

— Não use esse nome!

Kate Somente sentiu seus ombros se retesarem e avançarem como que para proteger seu coração.

— Não usar o nome “skara rok”?

— Não use o nome “febre de bruxa”. As bruxas não criam febres, não fazem adoecer as vacas, não matam as lavouras, nem fazem nada desse tipo.

— Eu não disse que elas faziam. Mas a febre de... quer dizer, a doença. Todo mundo usa esse nome.

— Eu sei. — A voz de Drina agora estava mais suave. Elas tinham chegado ao rio pelo lado interno de uma curva larga, onde uma rampa de barro e seixos descia suave até a água. Drina foi andando pela margem, pisando com a delicadeza de uma garça e vendo suas pegadas se encherem de água. — Mas é que... com o skara rok, as pessoas procuram alguém para culpar. Gente feia. Forasteiros. “Brancos de bruxa.” Nômades.

Entalhadoras, pensou Kate. Ela achou que sabia mais sobre ser perseguida e culpada do que Drina sabia, mas não disse nada.

O sinuoso rio Narwe estava fazendo mais uma curva. Havia uma pedra enorme a um passo ou dois da margem, no seu leito; presa nela, uma muralha de troncos e ramos emaranhados, restos de alguma antiga inundação, impedia que as meninas avançassem. Drina bufou de frustração:

— Nada por aqui!

— O que você está procurando?

— Areia. Areia limpa, para arear as panelas.

A raiva que Drina demonstrara um momento antes tinha se esvaído com a mesma facilidade de água que escorre de madeira impermeabilizada. Esse tipo de generosidade era algo novo para Kate Somente; ela não sabia como lidar com isso. Mas respondeu:

— Tem areia logo depois desse amontoado de galhos. — Ela indicou o emaranhado de madeira descorada. — É a que eu uso.

— Acho que até mesmo uma menina da cidade tem de esfregar panelas — disse Drina, dando um salto para passar por cima dos paus, manchando as pernas com musgo.

Kate Somente foi escalando com cuidado atrás dela.

— Só tenho uma panela. Uso a areia para alisar a madeira. Para entalhar. É isso que eu sou, uma entalhadora.

O chuvisco tinha se tornado intermitente durante a caminhada. Enquanto Drina recolhia a areia clara, Kate se descobriu em pé no borrão de sombra lançado pelo obstáculo de galhos mortos. Antes ela nunca tinha percebido como as sombras dão peso às coisas, fazendo com que pareçam sólidas, reais e ligadas ao chão. Sem a sua...

Ela entrou de mansinho na luz.

Sua sombra parecia estranha e rala. Não parecia que era lançada contra o chão, mas que flutuava acima dele, como um nevoeiro. O que Linay dissera era verdade: ninguém perceberia isso de início. Era só uma pequena alteração incômoda, como o movimento quase imperceptível de um barco que aos poucos provoca um forte mal-estar.

— Pronto! — De repente do seu cotovelo veio a voz de Drina. Ela subiu escalando pela margem na direção do campo, e Kate foi atrás. Ao chegar à mureta da pastagem, Drina parou. — Se voltarmos agora, vamos ter de depenar galinhas. — Ela lançou para Kate um olhar sabido, amistoso. — Vamos ver se Behjet precisa de ajuda.

— Eu já perguntei a ele — disse Kate Somente, e logo se arrependeu, quando o rosto de Drina se entristeceu.

Drina esfregou um pé descalço na outra perna, sujando-a de lama.

— Bem. Vamos ver os cavalos de qualquer jeito. Só por um instante. — Ela deu um impulso para o alto da mureta e saiu andando sobre as pedras soltas, inseguras, com elegância e sem esforço. — Vamos! — Kate Somente foi andando ao lado dela, apesar de os pés de Drina estarem no mesmo nível que os ombros de Kate. Mesmo que ela pudesse ter andado sobre a mureta (e aos seus olhos parecia um feito de acrobacia), Kate não teria se atrevido. Aquilo poderia chamar atenção.

Os cavalos eram mantidos no piquete do outro lado do acampamento. Havia cerca de duas dúzias de cavalos de tiro: animais grandes, vigorosos, os motores das propriedades rurais e das cidadezinhas. Espalhados entre eles havia um punhado de pôneis de tração e alguns dos cavalos menores, mais velozes e mais exuberantes, para serem montados.

Drina pulou da mureta com um salto mortal, pousando os pés no chão com perfeição, e saiu correndo na direção deles. Kate foi cautelosa atrás dela. Drina estava afagando o focinho rosado e sardento de um cavalo de carroça. O cavalo era quase branco, mas salpicado de manchas amareladas, como manteiga boiando em leitelho.

— Esta aqui é Creme — disse Drina. Ela se abaixou, arrancou um punhado de capim e o ofereceu. A égua enrolou a língua na mão de Drina. — Ela é minha. — Drina olhou de esguelha para Kate Somente, deu um sorriso trêmulo e se corrigiu: — Quer dizer, ela é a minha preferida. Eu a ajudei a nascer. — Creme remexeu o maxilar e relinchou. Drina encostou a bochecha na reentrância entre as clavículas enormes de Creme. Seu rosto parecia nogueira tingida em contraste com o pinho novo e claro do pelo da égua.

Drina olhou para Kate Somente, com os olhos brilhando.

— Quer andar nela?

Kate Somente levantou o olhar para a égua, bem alto.

— Eu não sei.

— Eu ensino. Não é difícil, você só precisa se segurar.

— Eu... Não devíamos voltar?

— Devíamos. — Drina levantou os braços para envolver os ombros de Creme e beijou seu queixo. A égua fungou e tocou o cabelo de Drina com os beiços. — Mas vou ensinar você a cavalgar logo, logo. Não se pode seguir com os nômades sem saber cavalgar.

 

Havia centenas de coisas a cuidar, milhares de coisas a fazer, quando se levantava um acampamento, e Kate Somente não sabia fazer nenhuma delas.

Ela não sabia desmontar um tripé de cozinhar e unir as três pernas para formar uma única haste de ferro, nem sabia onde guardar o tripé por baixo da carroça. Não sabia dobrar um tapete molhado para que ele não mofasse. Não sabia olear apetrechos para cavalos nem consertar arreios.

Havia ovos a colher e galinhas a pegar e guardar em cestas de vime, que eram depois empilhadas dentro de uma jaula tosca de ferro.

— Uma jaula de urso — disse Drina, com os braços cheios de penas cacarejantes. — Nós tínhamos uma ursa que dançava, para as feiras. Ela morreu. — Kate Somente não sabia pegar galinhas.

— Vou lhe ensinar — ofereceu-se Braque, ainda cochilando no seu casaco.

— Amanhã — sussurrou ela, torcendo para conseguir mantê-lo calado todo esse tempo.

Os nômades içaram a jaula de ferro para cima de uma das carroças com uma talha. Kate não sabia usar uma talha. Ela não sabia por que uma única carroça era como uma pequena casa sobre rodas, construída de madeira maciça, enquanto as outras eram como tendas. Ela nem mesmo conseguia guardar a diferença entre as três mulheres: uma era filha de Daj e as outras duas eram algum tipo complicado de primas. Ela não tinha certeza de onde os homens estavam, nem se era permitido que falasse com eles, já que as outras mulheres não falavam.

Mas ela sabia arear uma panela, sim. Não era muito diferente de polir uma peça acabada, e era feito com um quadrado de couro dobrado, molhado e mergulhado na areia. Kate Somente esfregou as panelas até elas luzirem negras como a noite refletida no rio, e quando terminou os nômades estavam prontos para partir.

E quando eles partiram Kate Somente foi com eles.