Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 6 de 19

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Kate Somente

6. Segredos e Rosas

seis

SEGREDOS E ROSAS

 

Drina levantou-se de um salto. Suas saias turbilhonaram e se enredaram, fazendo com que ela tropeçasse e caísse no chão. O nevoeiro se encapelava em torno dela.

— E-ele... — disse ela, ofegante. — O gato...?

— Ele o quê? — disse o gato, arrastando a voz.

— Falou. — Drina engoliu em seco.

— Drina... — Kate Somente estremeceu, e sua pele ardia. Ela estava disposta a implorar, mas não sabia ao certo o quê, nem como começar. — Drina, se você contar... se as pessoas descobrirem...

— Elas matarão você. — Os olhos de Drina se reviraram como os de um coelho assustado, pronto para fugir em disparada.

Tudo ficou tão quieto por um instante que Kate Somente pôde ouvir a chama no lampião atrás dela batendo suas asas.

— Sabe? — disse Braque. — Você estava quase chegando àquele lugar que coça por cima do maxilar.

— Braque — chiou Kate. E então, de repente, as palavras foram escapando: — Drina, mira Drina, por favor, não sou bruxa. Havia um homem, e ele era bruxo. Ele me forçou a lhe dar minha sombra. Foi ele quem fez Braque falar.

— Você está sob o efeito de uma maldição — disse Drina. — Ele a amaldiçoou.

Kate Somente nunca tinha encarado o assunto desse modo, mas fez que sim. Sua garganta quase tinha se fechado, e seu crânio dava a impressão de que poderia explodir, arrebentando a pele.

— Eu vou... — A voz de Drina ficou embargada. Ela engoliu em seco. — Vou ajudá-la a desfazer a maldição.

Kate Somente arregalou os olhos para ela.

— Vai?

— Minha mãe... — Drina baixou os olhos para as mãos, esfregando o polegar no lugar do canto do degrau onde a tinta vermelha tinha descascado. — Minha mãe era bruxa. Acho que tenho o poder dela, e estava aprendendo quando ela... ela ia me ensinar. Mas eles a mataram.

— Eles... — disse Kate.

— Nessa cidade, Lov. Foi no skara rok, a febre de bruxa. Estavam queimando bruxas. Descobriram que ela tinha o poder e...

Kate lembrou-se de ter pensado que sabia mais sobre caça às bruxas do que Drina. Mas estava errada.

— Eles a queimaram — disse ela, para Drina não precisar dizer.

— Sim. Não. — Drina se sentou, e Kate pôde sentir o tremor que emanava dela, como água se encrespando com uma brisa. — Eles a levaram. Eles a machucaram até ela contar para eles... Não sei. Que ela tinha provocado a febre, acho. E então eles... eles a queimaram. Eles tentaram queimá-la. Mas ela tinha poder, poder de verdade. Ela se livrou e saiu correndo. Estava queimando, mas se jogou no rio e morreu afogada.

— Drina... — disse Kate, mas não conseguiu continuar.

— Por isso vou ajudar você — disse Drina. — Tenho poder e quero ajudar.

Kate fechou os olhos.

— Me ajuda — disse ela.

 

Tarde, no calor escuro do vardo, Drina e Kate Somente sussurravam, deitadas. A chuva batia no teto de lona, e Daj roncava a alguns palmos delas. Braque estava esticado entre as meninas, de barriga para cima, com uma orelha debaixo do queixo de cada uma, ronronando feliz. Kate Somente contou a Drina a história do cardume de peixes, do fedor no defumadouro, do machado na escuridão. A história dos motivos para ela ter trocado sua sombra por um punhado de anzóis.

Sobre o homem que tinha feito aquilo, que tinha tirado a sombra dela como quem tira a casca de um camarão, ela pouco falou. Naquela terra, dizia-se que bastava falar no demônio para ele aparecer. Linay. Kate não queria pronunciar seu nome.

— Sua sombra — murmurou Drina. — Mas... eu já vi. Sei que está sempre chovendo, mas... já vi você. Tem certeza de ter perdido sua sombra?

— Ele disse que seria lento. — Descrever desse jeito dava uma impressão horrível, como a de uma morte lenta. Ela tentou voltar atrás: — De qualquer modo, tenho certeza. Dá para eu sentir... como um saco com um furo. Derramando.

— Sangrando? — sugeriu Braque. — Como quando se morde uma criatura pequena perto da barriga. Elas vazam.

Kate não sentiu muita ajuda nessa observação de um perito.

— O que vai acontecer comigo, Drina? Sua mãe lhe ensinou...?

Drina ficou calada por um tempo. E depois falou:

— Quando minha mãe morreu... depois que minha mãe morreu, meu tio... — Atrás delas, Daj bufou e se remexeu dormindo. As duas meninas se retesaram e depois relaxaram, quando os roncos recomeçaram. Drina continuou, com a voz no mais baixo dos sussurros:

— Meu tio era bruxo também. Eles eram gêmeos, minha mãe e ele, e estavam sempre juntos; era como se os dois tivessem só um coração. Eu me lembro. Nós estávamos acampados do lado de fora das muralhas de Lov, junto do rio. Quando minha mãe morreu, quero dizer. E ele a encontrou, encontrou o corpo, boiando ali, junto da comporta do rio. Todo, todo queimado e ferido, disse ele. Eles não quiseram me deixar olhar.

“Meu pai berrava sem parar. Mas meu tio ficou muito quieto. ‘Tem alguma coisa errada’, dizia ele. E não parava de dizer: ‘Tem alguma coisa errada com ela.’ E meu pai bateu nele. Ele disse: ‘É claro que tem alguma coisa errada, ela está morta!’ Mas meu tio... ele não queria que a enterrassem. E quando realmente a enterramos, ele se jogou por cima da cova, sem querer comer e sem querer falar.

“E finalmente ele disse: ‘Ela não está aqui. Não está descansando, não está aqui.’ Meu pai ameaçou matá-lo se ele não se calasse, mas ele não parou de falar. E disse: ‘Não se incomode, eu mesmo vou me matar.’ E ele era bruxo, sabe, o que quer dizer que era verdade. Tudo o que ele dizia era verdade, de alguma maneira.”

— E ele fez isso? — perguntou Kate Somente. — Ele se matou?

— Não. Ele pegou a própria sombra. É por isso que estou lhe contando isso. Ele fez uma corda com o próprio cabelo... cortou o cabelo inteiro e com ele fez uma corda. E ensopou a corda com sangue, seu próprio sangue. E esperou até amanhecer para fazer com aquela corda um nó corredio, e a jogou por cima da sua sombra, por cima do coração da sombra. E... isso eu vi, de verdade... a sombra ficou com um buraco, como se ele tivesse um buraco que atravessasse direto seu corpo, e a luz do sol passasse por ali. Esse pequeno pedaço de sombra se soltou, se solidificou, como um pássaro. E ele o pegou e o segurou na mão.

“E então ele a chamou, chamou minha mãe. Usou o nome dela. Quer dizer... nós nunca dizemos o nome dos mortos. Mas ele a chamou e disse: ‘Venha me dizer onde você está!’”

A respiração de Drina, ao repetir o grito do tio, soprou o cabelo de Kate. Daj voltou a se mexer, e as duas meninas ficaram paralisadas, em silêncio, escutando, como se fossem elas que tivessem acabado de invocar os mortos.

— Ela estava na terra sem sombras — disse Kate Somente. — Na terra dos mortos.

— Mas ela... alguma coisa... alguma coisa veio.

Uma rajada de vento soprou galhos contra o vardo; eles arranharam como unhas. Até mesmo o gato ficou calado.

— Ele pôs a sombra na língua dela — disse Drina. — E ela falou. Eu não ouvi. Ele não quis me contar o que ela disse.

Houve um longo silêncio. O teto de lona do vardo luzia fraco como a parte escura da lua, e essa era a única luz.

— Meu tio invocou o espírito da minha mãe só com um pedaço da sua própria sombra — disse Drina. — Uma sombra dá vida a um espírito, acho. Poder. Com uma sombra inteira... acho que um bruxo poderoso conseguiria ressuscitar os mortos.

— Deve ser por isso que... — A voz de Kate foi se calando.

— Por isso que tomaram sua sombra. Mas o que significa viver sem sombra... eu não sei.

 

As duas meninas ficaram cochichando até tarde da noite, dormiram bem juntas, com Braque entre elas, depois se levantaram, atiçaram as fogueiras, pegaram as galinhas e carregaram água. E daquele dia em diante andaram uma ao lado da outra.

Kate Somente tentou aprender as regras da magia, que eram mais estranhas e mais difíceis que as regras da vida entre os nômades. Na realidade, Drina não era boa professora. Ela mesma só sabia as coisas pela metade, e o esforço de se lembrar a deixava dividida entre a alegria das lembranças da mãe e o medo do destino dela.

Por isso, Kate aprendeu só um pouco. A magia é uma troca de dádivas. Essa era a primeira regra. Desse modo, o tio anônimo de Drina tinha renunciado a um pedaço da própria sombra para dar voz aos mortos. E desse modo Linay tinha precisado pagar com magia pela sombra de Kate. Daí, o gato falante.

— Uma pechincha — disse o gato —, a qualquer preço que fosse.

Toda grande magia exige uma grande doação. Mas mesmo pequenas magias pediam alguma coisa, disse Drina. E assim uma bruxa poria pequenos pedaços de si mesma num encantamento: cabelo, digamos, ou lágrimas.

— Sangue — disse Braque. — É sempre sangue.

Kate Somente olhou para ele com os olhos semicerrados.

— O que você sabe sobre magia?

— Eu — disse ele, em tom solene, enrolando a cauda sobre as patas, sentado majestosamente — sou um gato falante.

— Ele tem razão — disse Drina. — O sangue é o que há de mais poderoso. O sangue e a respiração. Molda-se a magia com a respiração: ela é entoada. É por isso que as bruxas não podem mentir, minha mãe dizia. O poder flui junto com as palavras. Mentir volta esse poder contra quem fala. É uma coisa verdadeira. Pode matar uma pessoa.

— Então seu tio... — Uma pergunta vinha crescendo na cabeça de Kate havia dias, crescendo à medida que sua sombra ia se tornando mais rala e se torcendo. — Ele morreu? Ele disse que ia se matar. Sem a sombra, ele morreu?

— Ele... — Drina fez uma pausa. — Ele enlouqueceu. Com o passar do tempo, o clã declarou sua morte. Ele foi expulso. Seguiu sozinho.

— Mas o que aconteceu com ele?

— Você não entende — disse Drina. — Nós declaramos sua morte. Ele morreu para nós. Seu nome está encerrado. Ele seguiu sozinho.

Era uma coisa de nômades, mas Kate Somente entendia mais do que Drina achava. Toila estava chegando. Em Toila, eles a testariam, e depois disso ela bem poderia ser expulsa. Quando pararam outra vez, Braque aconchegou a cabeça por baixo do queixo de Kate e ronronou enquanto ela se agarrava a ele.

— Sozinha, não — disse ele, com voz grave. — Sozinha, não.

 

Os vardo avançavam a passo, se enfurnando mais na região desabitada. Um dia, ao anoitecer, eles acamparam perto do casebre de um carvoeiro, nas profundezas da mata. Ele estava abandonado: as pilhas de madeira estavam cobertas de sujeira de passarinho, o portal negro tinha folhas do último ano amontoadas. Kate Somente não gostou do lugar, mas ele significava que ela e Drina tinham pouco trabalho a fazer: havia um poço d’água e madeira para queimar.

Kate estava quase sem madeira curada para entalhar. Ela vasculhou a pilha de madeira até seus braços ficarem cobertos com podridão-negra e seu rosto, pegajoso com teias de aranha. Ela não ouviu Drina às suas costas. Quando sentiu um toque no ombro, deu um pulo e bateu a cabeça com força num galho que sobressaía da pilha. Ela se sentou, sentindo-se mal. Braque deu um salto para o chão e encostou o focinho no nariz dela, enquanto ela se inclinava para a frente e tentava recuperar o fôlego.

— Desculpe! — Drina curvou-se timidamente sobre ela. — Você se machucou?

Os olhos cor de âmbar de Braque brilhavam a centímetros do seu rosto.

— Você quer que eu a arranhe para você?

Kate levou a mão à cabeça; o cabelo estava úmido, mas de chuva, não de sangue. Não havia nenhuma cordialidade.

— Não estou ferida — respondeu ela. E afagou o gato entre as orelhas. — Nada de arranhões.

— Eu só queria pedir para você me deixar trançar seu cabelo. — Do jeito que ela disse, a impressão era de que isso era algo perigoso. Kate Somente levou alguns instantes para se lembrar da história que Drina lhe contara sobre o tio recortando o coração da própria sombra: Ele fez uma corda com o próprio cabelo e a ensopou com sangue...

Kate Somente sentiu um aperto na garganta.

— Você tem certeza?

Drina demorou um instante para responder. Ela se sentou ao lado de Kate Somente no musgo úmido.

— Eu vi você, mira. Ontem, quando o sol se abriu um momento sobre o rio. Sua sombra... era como um rio que ia se afastando de você. Comprida demais. Fina como uma agulha. E ela apontava para o rio. Na direção do sol.

Carvalhos e faias pairavam acima delas, resmungando na chuva. Kate Somente olhou para suas mãos nodosas. Elas pareciam estranhas: o espaço por dentro dos dedos não continha sombra alguma, só mais ar cinzento, desbotado. Era como se não fossem verdadeiras.

— Precisamos fazer alguma coisa — disse Drina —, e tem de ser logo.

Kate Somente virou-se para olhar para Drina, e depois para além dela, para onde os fornos de carvão se erguiam como colmeias de sombra.

— Obrigada — murmurou ela. — Mesmo que não consigamos, obrigada.

— Agora! Não quero saber disso! — Drina levantou-se, sacudindo as saias para se livrar da sujeira e de repente falando com um jeito muito semelhante ao de Daj: — Você sabe que não vai morrer!

E assim Kate Somente se levantou e acompanhou Drina, que entrou no vardo vermelho, onde a menina mais nova se empoleirou no catre e escovou o cabelo de Kate, para então trançá-lo. Enquanto fazia isso, ela cantava, uma canção sem melodia, com sua respiração morna no couro cabeludo de Kate. Kate prometeu a si mesma que, não importava o que acontecesse, ela não se esqueceria disso: de ter seu cabelo emaranhado alisado com a escovação vagarosa, a sensação dos dedos quentes no couro cabeludo e depois os puxões e mexidas à medida que Drina fazia a trança.

O tempo todo Braque insistia que ele deveria ser o próximo, quando fossem mexer com pelo outra vez.

Quando tudo estava pronto, Kate Somente tinha uma pequena trança, da grossura de um dedo, caindo por cima das orelhas. Drina puxou-as para o alto da cabeça e as cobriu com um dos seus próprios lenços: um pedaço de pano azul vivo, estampado de estrelas. Ela o arrumou por cima da ponta das orelhas de Kate e o amarrou na nuca.

— Pronto. Agora você parece uma nômade.

— Nem tanto — disse Braque.

Nenhuma das duas lhe deu atenção.

— Deixe secar assim — disse Drina. — Mantenha o cabelo coberto. Não deixe meu pai ver.

Ela então se voltou para perseguir o gato com o pente, ameaçando trançar sua cauda. Os dois saíram em disparada, deixando Kate em pé, sem se mexer, sob a lona que chiava com a chuva. Ela podia sentir sua sombra se levantando e se contorcendo para se afastar.

 

Quando estavam levantando acampamento de manhã, Kate Somente procurou Daj para explicar que estava sem madeira.

Daj olhou ao redor para as árvores, para a pilha de madeira do carvoeiro. Expressiva, não disse nada.

Kate encolheu-se.

— Estou querendo dizer madeira curada. Madeira verde, madeira viva, encolhe quando seca. Se você entalhar madeira verde, o trabalho vai rachar.

E assim Daj roncou e resmungou, e levou Kate até a fogueira dos homens, onde encontrou Stivo encurvado, tomando chá, enquanto os outros homens oleavam arreios e apetrechos. Ela o endireitou puxando-o pela orelha.

— Leve esta pequena pela floresta adentro — ordenou ela. — Ela precisa de madeira.

Stivo olhou em volta.

— Ela está com madeira até os joelhos.

— Madeira diferente — disse Daj. — Tenha educação e obedeça à sua mãe.

E assim Stivo se levantou, apanhou a machadinha do acampamento e partiu relaxado, deixando Kate a trotar atrás dele.

— Você não precisa vir — disse ela, quando eles estavam longe dos outros. — Cuido de mim mesma há muito tempo.

— Trate de seguir os costumes dos nômades — respondeu ele. — Nós não andamos sozinhos.

— Sem falar nos lobos — acrescentou Drina, com a voz aguda, aparecendo com um balde pela metade de amoras-pretas.

— É mesmo, alguns. — Stivo balançou a machadinha à toa, como Drina balançava o balde. — E por isso você vai ficar no acampamento, cheya.

— Mas Kate Somente vai.

— Ela precisa da madeira — disse Stivo. — Por algum motivo, a madeira que temos não é boa o suficiente.

Kate Somente pensou em explicar, mas permaneceu calada.

— Daj disse que eu podia ir — disse Drina.

— E eu digo que não pode, filha. Trate de voltar.

Drina foi parando, furtiva. Kate Somente ficou para trás com ela, e Stivo seguiu em frente na direção dos bosques, balançando o machado.

— Stivo é seu pai? — Ela nunca tinha recebido nada que não fosse delicadeza do próprio pai, e considerava a ideia de Stivo ser pai inimaginável.

Drina deu de ombros.

— Daj cuida de mim. — Mas é claro que era verdade. Behjet lhe dissera que a mulher de Stivo tinha sido queimada como bruxa. A mulher de Stivo e a mãe de Drina eram a mesma pessoa. E isso fazia de Stivo pai de Drina. E Daj sua... avó? Mais uma vez, Kate Somente desistiu de tentar entender quem era parente de quem entre os nômades. Para eles não parecia importante. Eles eram todos família, mira, clã.

Stivo, mais à frente, tinha se voltado para elas.

— Venha junto, gadje!

Uma família da qual ela não fazia parte. Pelo menos, não aos olhos de Stivo. Kate Somente deu um aperto rápido no braço de Drina e saiu apressada atrás de Stivo e seu machado.

Em torno do casebre abandonado o bosque era denso. Amoreiras emaranhadas se escondiam debaixo das saias das árvores, crescendo de um lado a outro de um muro esquecido de pedras soltas. Stivo estava sentado numa pedra grande, comendo amoras.

Kate Somente olhou em volta.

— Seja como for, está mais seco aqui — disse ela, puxando conversa. As árvores densas formavam uma proteção contra o chuvisco.

— Essa chuva é uma maldição. Os cavalos estão todos roendo as patas e fedendo ao mal dos cascos. Vai passar para a manada inteira, se a umidade não parar.

— Sinto muito.

— Não é sua culpa, é? A menos que você consiga mudar o tempo. — Stivo se levantou. — Vamos logo. Descubra sua madeira diferente.

Estava escuro embaixo das árvores enormes, e os espinheiros logo deram lugar a samambaias. Kate Somente entrou nelas devagar. Elas roçavam sua cintura, gotejando e farfalhando. Ela ouviu o movimento de alguma coisa grande atrás dela e olhou de relance por cima do ombro. Stivo a estava seguindo, mas não perto demais. Eles continuaram a avançar calados.

Por fim, ela encontrou a árvore certa. Uma nogueira tombada. Atingida por um raio, meio chamuscada, morta havia um ano. Ela teria os veios densos e estaria seca. Aceitaria bem um formão.

— Esta aqui — disse ela. Quando ela disse isso, o chuvisco parou mais uma vez e de repente a árvore caída foi atingida por um dedo de luz. Kate Somente ficou espantada por um instante, e então viu que naturalmente a queda da árvore tinha deixado um buraco no dossel da floresta, o suficiente para a luz entrar oblíqua. A luz a atingiu também e, por um instante, ela pôde ver como o que restava da sua sombra girava em torno dela, como ondulações na superfície da água.

Ela recuou para fora da luz e quase deu um encontrão em Stivo.

— Eu percebi — disse ele, e o coração de Kate Somente teve um sobressalto. — Percebi que você passa muito tempo com minha filha.

Kate Somente nada disse.

— Dá para eu farejar encrenca em você, Kate Somente — disse ele, balançando o machado. — Trate de não trazer nenhuma encrenca para a minha Drina. Ela é tudo o que me resta. Você está me ouvindo? Não quero que ela se perca por causa de alguma menininha que chamam de “bruxa”.

Ela se voltou para encará-lo.

— Não sou uma menininha. Sou Kate Somente, a Entalhadora. Vivo há muitos anos graças a meus próprios esforços. Sou melhor do que qualquer aprendiz e tão boa quanto muitos mestres. E não sou bruxa.

Ela então parou. Estava muito consciente do pano de estrelas azuis amarrado na sua nuca, e das tranças complicadas por baixo dele. Não deixe meu pai ver, dissera Drina. Esses eram os olhos dos quais ela tinha medo.

— Não sou bruxa — repetiu ela, tentando parecer segura.

— Melhor que não seja mesmo — respondeu ele. E lançou o machado, que passou pela orelha dela. A lâmina atingiu fundo o coração partido da árvore.

 

Os nômades continuavam viagem, e Kate Somente continuava a entalhar. A região de mata foi descendo, e as árvores começaram a rarear. Os vardo dos nômades saíram da floresta de volta para o vale do rio, onde Daj disse que eles estavam a menos de uma semana de Toila. Os morros ondulantes eram encimados por árvores, mas os vales abrigavam fazendas aqui e acolá. Era estranho ver construções depois de tanto tempo, e Kate Somente se sentiu inquieta. Eram muitos os que poderiam ver sua sombra adoentada.

As tranças que Drina tinha feito em seu cabelo repuxavam seu couro cabeludo. Ela podia sentir o rio puxando por sua sombra, ou sua sombra a puxá-la na direção do rio. A sensação era como a de acordar de um pesadelo e voltar a cair no sono, sabendo que ainda estava ali, à espera, logo abaixo da fina superfície do sono: alguma coisa faminta e voraz.

Por isso, ela tinha um sono leve, cochilava quando estava trabalhando e fazia coisas estranhas, quando meio acordada. Era o que ela estava fazendo no crepúsculo, encostada num toco em algum campo sem cultivo, quando voltou a si e encontrou Drina ao seu lado.

— Não quero sua ajuda — disse Kate Somente sem pensar.

Drina reagiu como se tivesse sido atingida, dando um pulo para trás. Kate Somente, ainda acordando, estendeu a mão para segurá-la.

— Não, espere, Drina... Eu só quis dizer... — Ela guardou o formão e esfregou os olhos. — Seu pai disse...

— Meu pai... — começou Drina, feroz, cheia de raiva, mas nesse exato instante o pequeno Ciri veio na direção delas, ainda aprendendo a andar. Ele era o jovem príncipe dos nômades, garoto de dois anos, o favorito da dúzia de crianças nuas e brincalhonas que perseguia galinhas e pegava carona nos cavalos nos acampamentos de nômades. Agora ele trazia Braque numa chave de pescoço.

— Socorro — disse o gato, rouco.

Drina abandonou a raiva e puxou para seu colo o menino e o gato.

— Ciri, Ciri — disse ela, e passou para a língua dos nômades, um fluente esforço de convencimento no qual Kate Somente captou apenas a palavra gato. Ciri desdobrou os cotovelos e Braque se esparramou, com os olhos esbugalhados.

Kate Somente pegou-o no colo e coçou os pelos em volta do seu pescoço.

— Obrigada por não matá-lo. — A essa altura ela sabia agradar um gato: elogiar tanto a sua ferocidade quanto sua civilidade.

Braque envaideceu-se.

— É só um filhote. — Ele recompôs sua dignidade ao redor de si com algumas lambidas cuidadosamente colocadas. — Se não fosse assim, eu teria deixado tantos arranhões nele que ele ficaria com escamas como um peixe.

— Gato! — balbuciou Ciri, estendendo a mão.

Braque deixou-se acarinhar com grosseria e em seguida, agarrado pela orelha, lançou um olhar amarelo para Ciri.

— Eu tenho meus limites.

— Fala! — disse Ciri, com a voz aguda. — Gato fala gato.

Kate olhou de relance para Drina.

— Vai ser só uma história — respondeu Drina. — Ele está sempre contando histórias. Não se preocupe, Kate Somente.

Ela se aproximou, cambaleando, com Ciri no colo.

— Mais alguns dias, Kate Somente. Tem um lugar perto de Toila onde a gente sempre para. Lá nós duas vamos ter nossa própria tenda. Escuridão e silêncio. — Ela girou o menino para carregá-lo nas costas. — Venha, mira, vamos procurar sua dajena. — Ela se voltou para olhar para Kate mais uma vez. — Não se apavore.

Mas Kate estava apavorada. Toda grande magia exige uma grande doação... Ele fez uma corda do cabelo e a ensopou com seu próprio sangue... E o que Linay tinha dito: O sangue atrai coisas. Seria tolice atrair sua própria sombra para você.

— Sangue — disse ela.

— Salsichas, eu acho — disse Braque, farejando o ar. — Pegue uma para mim, por favor? — Mas ele subiu no colo de Kate e deixou que ela mergulhasse o nariz no seu pelo macio e músculos vigorosos.

 

A alguns dias de distância de Toila os montes foram se espalhando numa vasta planície. O carvalho e o abeto deram lugar ao salgueiro e ao amieiro, e, mais adiante, a campos e jardins. Sob o olhar carrancudo dos lavradores e pastores, os nômades seguiam com cuidado, os cinco vardo mantendo-se em fila como contas num fio. Mas no dia seguinte seu estado de espírito tornou-se mais animado.

— Esta noite vamos parar na propriedade de Pan Oksar — explicou Drina. — Ele é gadje, mas amigo nosso. Ele tem cavalos. — Ela estava quase pulando de felicidade. — Vamos ficar lá com ele.

Tem um lugar perto de Toila onde sempre paramos, dissera Drina. Esse devia ser o lugar. Um feitiço de sangue e cabelo.

— Quanto tempo... — começou Kate Somente.

— Tempo suficiente para a lama endurecer nas rodas — disse Daj, da escada traseira do vardo vagaroso, gemedor. — Mais ou menos uma semana, e depois mais alguns dias para chegar a Toila.

— Nós podemos... — começou Drina, mas Daj a interrompeu:

— Podem, mira, vocês duas podem dividir uma tenda, se quiserem.

O rosto de Drina iluminou-se. Ela deu um aperto rápido no braço de Kate e um olhar significativo para o lenço azul de estrelas que escondia as tranças do feitiço. Mas nesse momento dois meninos que vigiavam gansos começaram a zombar dos nômades e a jogar pedras nos cavalos. Na confusão, as duas meninas foram separadas. Elas não tiveram condição de se falar enquanto não chegaram aos portões pintados de vermelho da fazenda de Pan Oksar.

Para Kate, a fazenda de Pan Oksar parecia incrivelmente próspera, quase uma pequena cidade. Havia construções separadas para os animais e para as pessoas, um pomar e um jardim, uma casa só para as galinhas. Pelos espaços verdes, cavalos perambulavam. Em torno de tudo havia uma sebe de roseiras vermelhas, alta como uma casa, grossa como uma muralha de cidade. Os nômades entraram pelo portão, cantando, e as pessoas da casa saíram todas para recebê-los.

Eles falavam uma língua que Kate não conhecia, e seus trajes eram estranhos para ela.

— Ninguém gosta deles, porque os seus costumes são diferentes — explicou Drina. — Exatamente como os nômades. Ninguém gosta de nós também. Por isso, nós temos de gostar uns dos outros.

Os nômades pararam os vardo assim que passaram pela sebe, com arcos de rosas roçando as coberturas de lona. E pela primeira vez desde que Kate Somente se juntara a eles, eles começaram a fincar tendas no chão: uma para cada casal, uma para o solteiro Behjet e o viúvo Stivo, uma para Daj e as crianças menores, e uma para as “donzelas”, como Behjet as chamava: Drina e Kate.

— E eu? — resmungou o marido de Daj, Wen. — Não quero dormir com todos aqueles filhotes que não param de se mexer!

Kate Somente lembrou-se de ter visto Daj e Wen de mãos dadas, beijando-se nas sombras entre a fogueira dos homens e a das mulheres, e adivinhou o verdadeiro motivo do seu desapontamento. Ele ainda estava lançando olhares para Daj quando Behjet e Stivo o levaram para dentro.

Kate Somente não ficou muito impressionada com as tendas. Elas eram feitas só com alguns salgueiros jovens, desgalhados para se transformarem em postes, e depois curvados e enfiados no chão nas duas pontas. Um pedaço de lona passava em volta dos postes, e alguma corda prendia toda a estrutura — apesar de não muito bem. Elas eram abafadas e o piso era de lama. Kate Somente, que tinha dormido anos numa gaveta, teria preferido dormir no vardo. Mas Drina abriu os braços para tocar nas paredes de cada lado, como se lhe tivessem dado um palácio.

— Com o povo da minha mãe, eu ficava na tenda das donzelas. Mas aqui não há outras donzelas. Todos são casados. Por isso, eles me fizeram cuidar dos pequenos. — Ela começou a armar uma pequena fogueira no meio do espaço. — Estou feliz por você ter vindo, Kate Somente.

Kate descobriu que sua garganta se contraía. Ela queria responder Eu também estou feliz, mas de repente isso pareceu uma coisa impossível de dizer.

— Este é o lugar? — perguntou ela. — Para fazer o feitiço?

Drina ficou séria... quase totalmente. Um sorriso de prazer ainda estava tentando repuxar as bordas do seu rosto, como gavinhas de cabelo tentando sair encaracoladas por baixo de um lenço.

— Enquanto tivermos paredes, sim. Para que ninguém nos impeça.

Seu jeito de falar fez Kate se perguntar se talvez alguém não deveria impedi-las.

 

Mas é claro que ninguém impediu. Eles tinham parado, Kate Somente descobriu, para a monta dos cavalos, um projeto que exigia tanto riso como conversa séria e ocupava a atenção de todos. Havia também negócios humanos: troca de notícias e de mercadorias, de canções e de histórias. A fazenda de Pan Oksar era um lugar alegre e movimentado, mesmo com a lama e a chuva interminável. Foi assim que, quando Drina acendeu a fogueira no centro da sua tenda, tornando as paredes douradas e o pequeno espaço aconchegante com a luz tremeluzente, pela primeira vez de que Kate Somente conseguiu se lembrar, elas estavam totalmente sozinhas; e era provável que continuassem assim.

Drina inclinou-se para a frente, alimentando as chamas novinhas com gravetos e lascas. A fumaça e os lampejos de luz passavam em espirais pelo seu rosto moreno.

A mesma luz atravessou Kate, ondulante, e ela sentiu que se encrespava como água. Ela pôs a mão no pelo quente e liso de Braque.

— Quer dizer — disse o gato — que vocês vão fazer comida?

Kate Somente não disse nada. Sentia uma dor em torno dos olhos porque ela os vinha mantendo muito arregalados.

— Vi minha mãe fazer isso — explicou Drina, parecendo embaraçada, hesitante. — Havia uma mulher que tinha perdido a memória. Minha mãe a trouxe de volta e a prendeu à mulher com uma corda de cabelo. Ela a prendeu com o cabelo e a chamou de volta com...

Drina parou. Fez-se silêncio, e a madeira molhada estalou e espirrou.

— Sangue — disse Kate.

Drina fez que sim.

— E fogo? — perguntou ela.

— Fogo — disse Drina. — Vai-se recolhendo o feitiço devagar, sabe? — disse ela, e Kate pôde ouvir o fantasma da voz da mãe de Drina à medida que a menina nômade repetia alguma coisa que ela mesma não tinha formulado. — Como uma árvore recolhe o sol. Mas para soltá-lo todo de uma vez... o fogo é um dos melhores métodos.

— Realmente parece uma pena não cozinhar alguma coisa — disse Braque, que via somente um uso para o fogo.

— Mais tarde. — Kate Somente pôs a mão nas costas do gato. — Drina, você tem certeza...

— começou ela, mas então viu como o fogo atiçado lançava as sombras nítidas de Drina e Braque contra a parede da tenda. Sua própria sombra estava espalhada por toda a lona iluminada em arabescos que se contorciam, fina como a fumaça ao meio-dia. Ela fechou os olhos e sentiu que a luz a atravessava como flechas.

— ... tenha medo — dizia Drina, quando Kate a ouviu de novo. — São só algumas gotas.

Kate Somente respirou fundo.

— O que fazemos primeiro?

— Cortamos fora as tranças — disse Drina. — Posso usar seu formão?

Kate entregou-lhe o formão e desamarrou o lenço de estrelas azuis. Ela não pôde deixar de se retesar, quando Drina veio se aproximando com o formão erguido, e recuou quando a sombra de Drina caiu sobre seu rosto. As tranças ardiam e repuxavam nas suas têmporas enquanto Drina tentava serrá-las com o formão. Por fim, elas se soltaram: as tranças cortadas estavam enroladas na palma da mão de Drina como duas cobras jovens.

— Só me deixa... — disse Drina, inclinando-se novamente na direção dela, o formão tremendo na sua mão. Kate Somente encolheu-se, mas, antes que entendesse o que estava acontecendo, Drina já tinha cortado o alto da sua orelha.

Kate Somente sufocou um grito e tapou o pequeno ferimento com a mão.

— Desculpa, desculpa! — Drina afastou a mão de Kate dali e pôs a própria mão no lugar. — Mas é um dos melhores lugares para tirar sangue. Vem um monte de um ferimento pequeno, e dá para cobrir as cicatrizes.

O sangue morno escorria fino por trás da orelha e descia pelo pescoço de Kate.

— Tudo bem — disse ela. Estava sentindo as cordas sedosas do seu próprio cabelo em contato com a pele. Quando Drina as afastou, as tranças reluziam aqui e ali, onde o sangue as tinha molhado.

Kate apalpou o ferimento. Realmente era apenas um talho mínimo; ela mal conseguia senti-lo.

— E agora?

Drina estava tremendo, mas abriu um breve sorriso.

— Agora isso. — Ela atirou as cordas de cabelo no meio do fogo.

O cheiro desagradável de cabelo queimado encheu a tenda de imediato. O silêncio ficou tenso, como a membrana de um tambor. O pelo de Braque se eriçou numa grossa coluna ao longo da sua espinha. Em seguida, Drina começou a cantar.

Era uma canção grave, balbuciada, murmurada, uma canção que um rio poderia cantar. Kate Somente não sabia dizer se a melodia não tinha letra ou se ela não conhecia a língua. Era melancólica como uma lembrança antiga e fez Kate se lembrar — de repente e com tanta clareza que pôde sentir o cheiro — do momento em que seu pai tinha morrido. Ele a chamara pelo nome, mas seus olhos já estavam vendo a terra sem sombras. E ela não soube — e nunca viria a saber — se ele estava chamando a ela ou a sua mãe.

Cantando, Drina debruçou-se por cima do fogo.

— Sombra, sombra, sombra... — dizia a canção.

O ar estava denso com a fumaça. As lágrimas no rosto de Kate Somente estavam frias; todo o resto dela estava em brasa. Contra a parede da tenda giravam sombras: a de Drina, fina, a de Braque, dançando, e uma terceira...

Um barulho horrível veio do fundo da garganta de Braque.

Kate Somente ficou olhando a terceira sombra; ela prendia seus olhos. Deveria ser sua sombra, mas não era. Era sinuosa e se movimentava como uma cobra-d’água. Ela soube nas suas entranhas que aquela não era uma simples sombra, mas alguma coisa fria, alguma coisa morta e úmida que deveria estar descansando. E embora sua fogueira fosse a única luz, ela achou que a sombra não estava sendo lançada a partir da chama, mas estava se aproximando da chama, vindo de fora da tenda.

— Criatura! — O gato berrava e cuspia. — Criatura!

— Drina — disse Kate, sem fôlego. — Para!

Drina voltou-se e olhou por cima do ombro para a coisa que tinha capturado os olhos de Kate. Ela ficou paralisada. A canção parou. A sombra se estendeu.

Em seguida, Kate despejou a água da chaleira em cima do fogo.

O vapor e a fumaça subiram. As duas meninas começaram a tossir. E a sombra sumiu.

 

O ar na tenda ainda cheirava a cabelo queimado.

Kate Somente estava tentando persuadir o fogo a subir a partir da poça de cinzas, sem muita sorte. Até mesmo os gravetos só geravam fumaça. Ela pegou um galho e começou a desbastar aparas encaracoladas, deixando-as cair nas brasas sibilantes, uma a uma.

Braque estava dando voltas ao redor da tenda como um leão em torno da borda da jaula.

— Uma criatura — chiou o gato. — Faz com que eu me sinta faminto e molhado. Detesto isso! Criatura!

— Não era a minha sombra — disse Kate. — Era alguma outra coisa.

— Você não sabe — disse Drina, com a voz trêmula de medo.

— Mas eu sei — disse Kate. Ela ainda sentia no cabelo o arrepio da presença da coisa.

A chuva caiu pelo buraco por onde saía a fumaça e chiou nas brasas. O fogo que lutava por se manter aceso voltou a se apagar. A tenda mergulhou de novo na escuridão.

— Eu... — disse Drina. — Eu não imaginei. Desculpe.

— O que você não imaginou?

— Que o sangue... — Drina engoliu em seco. — Que o sangue pudesse invocar mais de uma coisa. Nós... chamamos para a escuridão. E não sabemos o que respondeu.

— Ah — disse Kate.

Elas se aproximaram mais no escuro.

— Em Toila — disse Drina, depois de muito tempo. — Na grande feira de Toila, há vendedoras de talismãs. Minha mãe conhecia algumas delas. Umas são realmente... outras têm verdadeiro poder. Nós vamos... nós podemos perguntar a uma delas como fazer para chamar e ter certeza de que é a sua sombra que vai responder.

— Não — disse Kate.

— Kate Somente. Precisamos tentar.

— Não.

Houve um som confuso na escuridão, e depois de um instante, um clarão amarelado. Drina tinha encontrado a lâmpada de sebo na sua caixa de pertences e a acendera. A pequena chama dançava no bico de barro. Kate olhou para ela por um tempo. Braque subiu no seu colo, alisando o pelo, apesar de ela ainda poder sentir músculos diminutos se contraindo ao longo da espinha dele.

Com a luz familiar, acolhedora, as duas meninas ficaram sentadas juntas até sua respiração se acalmar. Pareceu que haviam se passado horas.

— Drina — disse Kate. — Drina, é perigoso demais. Mesmo que... Não quero que você sofra. Por minha causa.

Drina ficou sentada em silêncio por um instante, levando espirais de madeira à chama da lâmpada e as deixando cair, acesas, nos gravetos úmidos.

— Você se lembra — disse ela — que eu lhe contei que minha mãe era uma curandeira. E que para fazer uma magia importante era preciso dar alguma coisa? Foi por isso que o seu mago teve de lhe conceder um desejo quando pegou sua sombra.

— Drina — disse Kate Somente. — O que você está querendo me dizer?

— Minha mãe — respondeu ela. — Você não entende? Uma curandeira deve fazer uma doação para realizar uma cura. Uma curandeira doa sua própria vida, aos poucos. É o que minha mãe fazia. E eu quero, eu quero ser como ela. Quero ajudar você. Não importa o que aconteça.

Kate ficou olhando os gravetos de madeira queimarem e mandarem para o alto suas tiras de fumaça, tentando compreender.

— Amanhã — disse Kate, por fim. — Amanhã, vou pedir para mostrar meus objarka a Rye Baro. Em Toila podemos vendê-los e descobrir alguém a quem perguntar.

Drina fechou os olhos e fez que sim com pequenos movimentos da cabeça, velozes como os de um beija-flor.

— Mas, Drina, não vou conseguir manter esse segredo. Alguém vai ver. Logo, alguém vai ver. É melhor contar antes que alguém veja.

— Só mais um pouco — implorou Drina. — Depois de Toila.

Kate Somente concordou em silêncio.

— Será melhor estar com a prata de Toila. Quando tivermos de contar. A prata irá... talvez eles fiquem comigo de qualquer maneira, se tivermos prata.

— Além disso, posso trazer coelhos bem grandes — disse Braque. — Possivelmente um cervo pequeno.

— Isso vai ajudar — disse Kate, e o aconchegou ao peito, sentindo seus olhos arderem com o que ela disse a si mesma que era fumaça.

 

Kate Somente pretendera ir ao clã no dia seguinte, mas o que houve foi que ela não pôde. Seu sangue mensal de mulher tinha chegado pela primeira vez. Com o rosto ardendo, ela procurou Daj para descobrir o que fazer.

— Uh-uh! — Daj cocoricou como um galo, quando compreendeu o que tinha acontecido. — Nós, os nômades, a engordamos!

Kate Somente só ouvira falar de porcos serem engordados para o abate. Parte da sua confusão deve ter aparecido, porque Daj continuou:

— Bem, você tinha passado fome, mira, quando veio nos procurar. Qualquer pateta podia ver. A fome atrasa a chegada do sangue. É difícil assumir seu poder quando se está com fome. Se você tivesse tido mãe, saberia disso. E se você fosse minha, que bolo eu não lhe faria. Com amoras e mel, e talvez faça, de qualquer modo.

O enrubescimento de Kate estava passando da vergonha para o prazer, mas Daj não tinha terminado de falar.

— É claro que você não pode contar aos homens. E vai precisar se sentar afastada.

Daj fez o bolo, sim. Mas Kate ficou frustrada. Ela não podia ir até Rye Baro para mostrar seus objarka. Não podia ir de modo algum à fogueira dos homens, nem mexer a comida, nem buscar água. Todas as vezes que tentava fazer alguma coisa útil, ela deparava com alguma regra nova, e passou longos dias sentada num banco de cavalete, com o trabalho de entalhe no colo. A sebe de roseiras gotejava nela. Creme tentou comer seu cabelo.

Era estranho não andar e não trabalhar. Kate Somente sentia-se mal-humorada e boba, mas o horror despertado pela criatura que tinham invocado estava desaparecendo.

Drina ia se alegrando a cada dia e logo estava se sentando ao lado de Kate Somente, fazendo pequenas trouxas de penas, gravetos e flores, escondendo-as nas dobras da saia sempre que alguém olhava para o lado delas.

— Talismãs — disse Kate. Eles a deixavam preocupada. Linay os chamara de tolice, e ela tinha a impressão de que ele sabia o que estava falando. E ela achava que eles poderiam atrair a atenção dos olhos errados. Mas não sabia como dizer nada disso a Drina. Contentou-se em perguntar:

— E se seu pai vir?

— Ora — disse Drina, bufando, como Braque quando uma pata dele se molhava. — Ele está com os homens de Oksar, ficando bêbedo e falando da chuva como se fosse o fim do mundo. Parece que há uma doença do sono ou coisa semelhante. Todos estão alvoroçados como pintinhos debaixo de um falcão.

Drina arrancou um fio vermelho das papoulas puídas bordadas na sua saia. Ela o cortou com os dentes e depois amarrou a trouxinha, com um puxão.

— Nós precisamos deles. Eles vão me ajudar a encontrar a pessoa certa: alguém que saiba como invocar uma sombra. Não podemos simplesmente ir à feira e perguntar. Essas trouxinhas mostrarão meu dom, para quem souber olhar.

— Além disso — disse ela —, elas se somarão à sua prata.

 

Eles ficaram mais três dias com Pan Oksar, e então desarmaram as tendas, arrearam os cavalos, bateram a lama das rodas e partiram pela estrada para Toila. Na primeira noite na estrada, Kate Somente foi com Daj à fogueira dos homens, para apresentar seu objarka.

Kate Somente fez uma reverência, ajoelhou-se e ofereceu o objarka a Rye Baro com as duas mãos.

Ele o apanhou com as duas mãos e o levantou.

Kate Somente tinha trazido apenas um objarka para mostrar: sua melhor peça. Era um rosto humano com olhos de coruja, provido de galhada e com um sorriso sedutor. Ela permaneceu de joelhos e observou enquanto Rye Baro encarava os olhos da criatura. Ela podia ouvir a voz do seu pai: A magia de entalhar está em dizer às pessoas a verdade. O que aquela carnuda boca de madeira estava dizendo?

Era a boca de Linay, ela percebeu abruptamente. Era por isso que a assustava.

O rosto de Rye Baro estava impassível. Nenhuma outra pessoa falava. A inspeção se prolongava. Daj mexeu-se atrás de Kate, rangendo de joelho para joelho.

— Pela Madona Negra, Rye! — disse ela. — Não provoque a criança!

Rye Baro riu.

— Bem, ela não sabe que é boa? Bom trabalho! — Ele entregou a peça entalhada para Daj. — Você tem um dom, Kate Entalhadora. Suas mãos sabem das coisas.

Daj olhou para o entalhe.

— É bom nem começar a descrever. É lindo, mira. A seu próprio modo horrendo, é claro. Essas mãos têm talento.

— Talento demais — disse Stivo, pegando o entalhe. — Os gadje não reconhecem o talento. Eles não vão pagar por ele. Mas é bom — e aqui ele sorriu para ela, ao mesmo tempo com zombaria e como uma oferta de paz —, menininha.

— Logo saberemos o que os gadje têm a intenção de comprar — falou Rye Baro. — Seguiremos para Toila amanhã. E tem aquele potro de montaria que você domou sem perícia, Stivo. Xeri, o que come. Veja se você consegue se desfazer dele antes que fiquemos encalacrados com a sua alimentação durante o inverno.

— Ah — disse Behjet, vindo ajudar o irmão, Stivo. — No fundo Xeri é um bom animal. Vamos lhe dar um banho no rio e escová-lo até ele brilhar. Toila inteira vai cobrir os olhos para se proteger do seu brilho.

Eles enveredaram pelo assunto dos cavalos, Kate Somente se levantou em silêncio e voltou para o vardo vermelho, onde Braque estava mantendo sua cama aquecida.

E no dia seguinte eles seguiram para Toila.