Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 7 de 19

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Kate Somente

7. Toila

sete

TOILA

 

Toila era maior do que Samilae e tinha três feiras: a feira dos animais, a feira dos vegetais e a feira das escadas. Que, explicou Drina, naturalmente não vendia escadas, mas se localizava na larga escadaria do celeiro do dízimo, perto do rio.

— É uma cidade — disse ela, como se cidade fosse outra palavra para dizer “maravilhoso”. E deu uma cambalhota, só porque podia.

Braque a imitou: uma torção cinza e um lampejo de prata.

— É uma cidade — ecoou Behjet. — E numa cidade os nômades precisam ter cuidado. Lembrem-se disso, meninas. Fiquem juntas.

Behjet e Stivo conduziram o potro de tração por uma viela com calçamento de pedras arredondadas, com seus cascos ecoando ocos nas paredes de pedra dos prédios muito próximos dos dois lados. Kate nunca tinha visto tanta pedra. Ela e Drina pareciam pequenas no meio daquilo tudo.

— Por aqui — disse Braque, e partiu tranquilo com a cauda enrolada no alto. — Estão vendendo bolinhos de peixe!

Elas o acompanharam por um caminho de pequenos ângulos e curvas, encontrando apenas santos de rosto fino em nichos, que nada guardavam. Para Kate, já há tanto tempo entre os nômades, as figuras que ela um dia entalhara pareciam desconhecidas. As meninas começaram a pensar que estavam perdidas. Mas então a viela fez uma curva e, através de um arco de madeira, desaguou na feira.

Enorme e barulhenta, a feira as fez parar, boquiabertas. Bem diante delas, longas peças de tecelagem caseira em tons de ferrugem, ocre e índigo panejavam ao vento que vinha do rio, lançando pequenos borrifos d’água, recortando a vista em relances confusos. Bancas de especiarias. Aves canoras gritando em gaiolas. Rodas empilhadas. O cheiro de metal queimado de uma ferraria; o fedor de um curtume. Havia bancas e mantas no chão, carrinhos de mão e gente por toda parte. O weizi da cidade subia agudo do centro da feira, como uma árvore que permaneceu de pé numa floresta destruída. Cenas de comércio estavam entalhadas nos lados dele.

Drina estava grudada em Kate, já sem confiança. Braque estava parado entre os pés de Drina, com a cauda em pé e os olhos redondos e brilhantes.

— Mexam-se! — veio uma voz por trás delas.

Uma carrocinha de mão colidiu com as costas de Kate, amassando seu cesto. Kate Somente cambaleou, e do carrinho caíram jarros e copos de metal, com estrondo, nas pedras arredondadas. O carroceiro olhou para elas, furioso. — O que temos aqui? Uma ratazana caipira e uma nômade batedora de carteiras? Apanhando uma fresca, meninas? Olhando a paisagem? Seja como for, fechando o caminho.

Kate Somente tinha se abaixado para recolher os jarros, mas diante dessas palavras ela se empertigou. Pegou o cotovelo de Drina e as duas foram embora, como duas senhoras.

O carroceiro antipático tinha pelo menos ajudado Drina a encontrar a língua.

— A grande feira de Toila — disse ela — se realiza somente três vezes por verão. Portanto, não pode ser sempre tão... assim.

Isso pareceu tranquilizá-la. Elas foram se embrenhando na multidão e no barulho, à procura de algum lugar para vender os entalhes de Kate Somente.

As meninas instalaram-se em um lugar na parte mais baixa da escadaria larga — um lugar privilegiado que os outros vendedores tinham deixado de ocupar por ele ter sido recentemente brindado por algum cavalo. Drina, no fundo uma amazona, chutou dali os caroços de bosta sem nenhum traço de nojo. Ali perto um violinista de cabelos brancos estava tocando por esmolas. O coração de Kate Somente teve um sobressalto, mas em seguida o violinista se virou, e ela viu seu rosto. Não era Linay.

— Nós devíamos ter trazido um cobertor — disse Drina, libertando Kate do seu foco concentrado no violinista. — Para seus talismãs.

— Objarka, não talismãs — corrigiu Kate. — Eles não são mágicos. Não tenho uma manta, mas trouxe o saco de dormir no meu cesto. — Ela detestava a ideia de pôr a pele limpa do saco de dormir nas pedras sujas de esterco, mas foi o que fez. Organizou os rostos entalhados a uma distância harmoniosa e, quando tinha acabado, olhou para cima. Não havia nenhuma multidão reunida, mas alguns transeuntes olhavam de relance, crispando a boca e erguendo as sobrancelhas. Isso bastou para Kate, que havia passado a vida inteira numa feira, saber que seu trabalho ia vender.

Kate Somente sentiu sua boca ir se abrindo num sorriso e, para escondê-lo, voltou a olhar para baixo, para os rostos horríveis dos objarka dispostos diante dela.

— Vai dar tudo certo — disse, baixinho, quase para si mesma.

— Eu lhe disse! — Drina abriu um sorriso e deu um salto mortal para trás.

Braque também saltou e ricocheteou nas botas dela. O gato voou, contorcendo-se no ar como uma fita de prata, e aterrissou com perfeição sobre as quatro patas. Alguém deu vivas. E eles repetiram o número.

Drina parou para estender um lenço de esmolas e amarrar as saias. Depois, ela e Braque dançaram e deram saltos, luminosos como um par de libélulas. Drina estava longe de ser a única acrobata na feira, mas Kate Somente poderia apostar que Braque era o único e melhor gato acrobata no mundo inteiro. Formou-se ali uma aglomeração de gente. Entre eles, alguns paravam para olhar os objarka. Kate Somente entrou no tranquilo vaivém da negociação, que era semelhante a uma serra manejada por dois serradores, e por algum tempo ela se sentiu mais feliz do que nunca.

Quando parou de dançar, Drina estava corada e ofegante. Braque, todo envaidecido nos seus braços. Copeques se espalhavam no lenço aos seus pés.

— Olhe! — disse ela. — E você?

— Três — disse-lhe Kate, e abriu com timidez a mão, deixando que Drina visse as moedas de prata que suas três vendas lhe renderam.

— Eu sabia! — exclamou Drina, radiante. — A sorte estará conosco aqui, Kate Somente. Você ganhará sua prata e eu encontrarei — ela baixou a voz e olhou de relance ao redor — nossa resposta. — Ainda reluzindo com o suor e respirando com esforço, ela desamarrou as saias e prendeu o lenço de um lado a outro dos ombros.

Kate tinha agora passado bastante tempo entre os nômades e sabia que Drina era jovem demais para usar o lenço cruzado sobre o corpo. Esse era o traje de uma mulher, o lenço e o turbante. Quando Drina puxou o cabelo para o alto, ela assumiu um poder que Kate mal conseguiu vislumbrar, e que não entendia. Drina estendeu a borda do lenço para formar uma bolsa.

— Dê-me os pequenos; vou perambular pela multidão.

Enquanto Kate Somente apanhava alguns dos seus objarka menores, Drina abriu a bolsa do seu cinto e dela retirou os talismãs que tinha feito: trouxinhas de gravetos de bétula, milefólio, ervas e penas amarradas com fio vermelho e crina branca de cavalo. Kate olhou para elas.

— Você tem certeza?

Mas Drina estava quase rindo de alegria.

— A sorte está conosco — disse ela, mais uma vez.

E, assim, Kate Somente pôs os pequenos objarka burji na faixa de Drina, como ervilhas num avental, e ficou olhando enquanto ela se afastava, subindo os degraus largos, apinhados de gente.

 

Kate ficou olhando Drina por um tempo, morena e cheia de vida entre o povo pálido e desanimado de Toila nos seus marrons e bege. Com seu turbante vermelho, ela sobressaía como uma papoula num trigal. Ela se movimentava com uma ondulação felina que Kate não a tinha visto usar antes, e cantava enquanto andava, tecendo um encantamento de notas sem palavras. Braque, elegante como um galgo, a acompanhava de perto.

Drina estava ocupada. Ela deixava os rapazes porem a mão no seu avental e lhes contava histórias sobre os pequenos e horríveis burji que eles tiravam. E com as mulheres mais velhas ela trocava sussurros, moedas e dedos que apontavam. Estava usando as trouxinhas como um passaporte, em busca da bruxa verdadeira... alguém que pudesse ensiná-las a chamar para dentro da escuridão e ter certeza do que responderia.

Mas a feira estava lotada de gente muito barulhenta, e Kate logo perdeu Drina de vista. Sem as acrobacias para prender sua atenção, a maré de gente ao redor da sua manta tinha se dissolvido, mas mesmo assim ela estava sendo alvo de mais interesse do que havia calculado. Algumas pessoas lançavam olhares rápidos na direção dela ou dos seus entalhes, mas algumas diminuíam o passo, algumas paravam por um instante, e outras paravam mesmo.

— Nunca a vi por aqui antes.

O homem que se agigantava acima de Kate Somente era careca, mas tinha suíças longas como um bagre. Seu zupan escuro estava coberto com figurinhas feitas de peltre: bolotas e anjos, nós e criaturas da noite. Havia centenas delas. O homem tilintava levemente nas rajadas molhadas do vento.

— Nunca vi você, não é? — disse ele.

— Eu nunca estive aqui mesmo — disse ela, dando de ombros.

— Não esteve — grasnou ele. — Não esteve na famosa feira? Na grande feira? Na grande feira de Toila?

— Não.

— Não esteve — repetiu ele, e Kate começou a se perguntar se ele era simplório ou maluco. — Não, não esteve. Eu a teria visto. Teria visto — sorriu ele, e de repente pareceu terrivelmente são — um trabalho tão primoroso.

Kate Somente nada disse.

— Um pouco de bruxa nesse seu formão, não é, menina?

— Entalhadora — disse ela. — Sou entalhadora.

— Mas faz objarka. — Ele ergueu os braços, com imponência, e os objetos de peltre retiniram por todo o seu casaco. — Eu vendo objarka.

— Não tão bons quanto os meus — disse Kate. — Mas não se preocupe. Não voltarei aqui.

— Não volte — disse ele, virando-se para ir embora.

— Hum! — bufou Kate consigo mesma. Braque era uma péssima influência.

— Ele não pode impedi-la de vir aqui — disse a mulher na manta seguinte. Ela estava vendendo cestos redondos, e tinha as mãos de cesteiro: calejadas e duras como raízes. — A grande feira é para todos. E nós precisamos de talismãs melhores do que os que Stanislaus vende. — Ela lançou algum tipo de maldição de dedos para as costas do homem-bagre, que se afastava. — Objarka uma ova! Eles deveriam atrair a sorte, mas esse homem não conseguiria atrair abelhas com mel.

Kate Somente, baixando o olhar para os rostos horríveis dos seus objarka grandes, sentiu que sorria.

— É isso aí — disse a mulher. — Dá para você ver por si mesma, sem dúvida. No trabalho dele não há magia. — Ela tocou a orelha com o dedo; no alto tinha um talho estranho, no mesmo lugar onde Drina tinha cortado Kate. Essa era uma bruxa? — Peltre — zombou a mulher. — Não se pode atrair sorte com lata. É preciso usar uma lâmina.

— Sou apenas uma entalhadora — disse Kate outra vez.

A mulher olhou para ela, avaliando a situação, com o dedo ainda beliscando a orelha.

— Se é o que você diz...

Daí a um instante outro homem parou. A frente do seu zupan era brilhante e dura, com bordados. Ele olhou um pouco, depois se curvou e apanhou o rosto de focinho de porco.

— Sorte! Não sei se eu mesmo entraria na minha própria casa se para isso tivesse de passar por esse camarada aqui. O que você quer por ele? — E ele lhe deu oito moedas de prata, sem chegar a regatear.

— Esse era o mestre da guilda dos alfaiates — sussurrou a cesteira, quando ele se foi. — Agora, você vai vender. Espere só para ver.

E de fato foi engrossando o fluxo de fregueses ao seu redor, e pessoas de todas as classes chegavam para ver seu trabalho, levantando a cara e passando os dedos pela madeira lisa dos entalhes. Ela vendeu quatro dos seus objarka grandes e ganhou um bom dinheiro. Mas depois, de repente, a multidão se espalhou, debandando como um campo cheio de estorninhos, sem nenhum motivo que Kate pudesse perceber. Ela se descobriu olhando para um único par de boas botas e o punho de uma espada. Levantou os olhos e viu um homem com uniforme de vigia da cidade.

— Não aceitamos bruxaria na feira — disse ele.

— Eu não faço nada disso.

— E sua amiguinha? — perguntou o vigia. Por um instante, ela achou que ele estava falando de Braque, e sentiu o estômago revirar. Olhou para a cesteira, cujos olhos estavam arregalados de medo. — A menina toda faceira com as trouxinhas — disse ele. — A menina dos nômades.

Kate Somente engoliu em seco e olhou bem à sua frente. Isso lhe deu uma boa visão da espada do vigia, que batia contra o seu quadril.

— E então? — insistiu ele.

Mas Kate não conseguia pensar em nada para dizer.

— Fale com ela — disse o homem com mais delicadeza. — Queimaram uma mulher aqui na semana passada.

Quando ele se foi, Kate Somente tentou captar o olhar da cesteira. Mas a mulher, pálida, virou o rosto para o outro lado.

Kate Somente ficou sentada tremendo no seu saco de dormir com as três máscaras à sua frente, sem saber o que fazer. Ela se levantou e não viu Drina em nenhum lugar. Olhou e olhou. Seus olhos se iluminavam a cada lampejo de vermelho, mas nenhum era o turbante vermelho que Drina estava usando. Ela tentou gritar o nome de Drina, e sua voz ficou embargada na garganta.

As pessoas ainda se apinhavam em torno da sua manta, mas agora os olhares eram para ela e não para seu trabalho, e alguns eram quentes, e outros eram frios. Kate Somente baixou o olhar para o objarka que tinha o rosto de uma mulher sendo queimada. Ela mudou o peso de um pé para outro.

— Vá atrás dela — disse a cesteira. — Apresse-se.

E assim Kate Somente recolheu o saco de dormir e o enfiou, com os objarka e tudo, no seu cesto. Ela o levou às costas e seguiu correndo para o centro da feira. Não encontrou nada a não ser confusão. Seus pés escorregavam nas pedras molhadas. Ombros e cotovelos esbarravam nela. Cabeças e carrocinhas de mão impediam sua visão.

Ela escalou de qualquer jeito os degraus que levavam à plataforma de onde o weizi se erguia. Tinha esperado ver lenha para a fogueira empilhada em torno da coluna, mas não havia. Eram só as figuras entalhadas do próprio weizi: homens descarregando barcos, um pouco grandes demais para serem humanos, os rostos muito estreitos, os membros compridos demais. A partir da plataforma do weizi ela conseguia ver a uma pequena distância. Alguma coisa estava acontecendo perto de uma das vielas. A multidão, inquieta, tinha começado a fluir naquela direção. Kate viu o homem-bagre com o casaco tilintante indo para lá, levando consigo um padre, a mão no cotovelo do sacerdote.

Kate Somente saltou da plataforma e abriu caminho lutando com as poças e o esterco. Uma ponte de uma casa para outra formava um lábio de madeira acima de onde uma viela desembocava na praça. Havia um espaço de sombras por baixo da ponte. Diante dele havia uma muralha de costas humanas e gritos.

Kate ouviu um grito estridente. O berro de um gato.

Ali perto ela ouviu o homem-bagre falando com o padre ofegante:

— ... as trouxas do demônio, santo padre, com meus próprios olhos...

As trouxas do demônio, pensou Kate. Os talismãs de Drina. Mas ela não conseguia ver nada, a não ser a aglomeração de costas.

De repente, Braque veio avançando de qualquer maneira por cima da cabeça e dos ombros dos homens reunidos. Deixou atrás de si um rastro de sangue e maldições.

— Katerina! — urrou ele, apesar de que, na algazarra, só ela soube que era ele. O gato saltou para o alto do seu cesto, cuspindo, com o pelo duro como uma escova. — Katerina! É...

— Cale a boca! — disse ela, grosseira. Os talismãs enfeitiçados de Drina. Suas perguntas secretas. — É Drina. Ela está viva?

— Quando eu saí, estava.

— O que é isso, então? — perguntou o padreco, mas a multidão estava tão apinhada que eles não se viraram, nem conseguiriam se voltar.

Kate olhava para eles em desespero.

— Precisamos passar.

Ela podia sentir o bafo quente de Braque na sua nuca quando o gato se remexeu no alto do cesto, com os músculos se retesando.

— Vem comigo — disse ele.

E antes que ela pudesse pensar em fazê-lo parar Braque lançou-se contra a multidão.

As garras dianteiras furaram o ombro dela quando ele saltou; as garras traseiras roçaram sua orelha. E então ele começou a lutar para passar pelas cabeças e ombros da multidão compacta. Ele estava com as garras de fora e rangendo os dentes. Estava enorme, com os pelos em pé e rugindo como uma pantera. Os homens — os homens que ele já tinha ferido — gritavam e uivavam, e batiam e se acotovelavam para escapar dele. A muralha de corpos se abriu. Kate Somente acompanhou o gato como um soldado acompanha sua lança.

Cotovelos a atingiam. Pés se enganchavam nela. Ela tropeçava e avançava pela turba acalorada e pelo mau cheiro humano. Alguma coisa dura atingiu sua têmpora. Outro golpe nas costelas. Um peso se fincou no peito do seu pé. E então, de repente, ela estava do outro lado. Ofegante, machucada, apavorada. Mas do outro lado. Num espaço pequeno cercado pela multidão, pelos muros da viela, e por uma carroça com um cavalo histérico, que empinava, impedindo a passagem.

O que ela viu...

Foi um relance de horror e sangue como uma cena de um sonho. Kate Somente berrou antes de Drina. Mas os berros não a tiraram do sonho.

Ela viu um homem segurando Drina pelo cabelo. Ele puxava sua cabeça para trás como se fosse lhe cortar o pescoço. Estava com um cutelo de açougueiro. E talhava a orelha de Drina, cortando-a do alto para baixo. Sangue por toda parte. Mais sangue do que se ele lhe tivesse cortado o pescoço. Uma cor viva, doentia. Um cheiro de abatedouro. Drina berrava, berrava como um cavalo com uma lança fincada nas entranhas. Kate gritava. Empunhando seu pequeno formão, ela investiu contra o homem. Braque aproximou-se correndo, pulou para cima do seu cesto e saltou, passando por ela, direto para o homem do cutelo. Estava cinza e magnífico, um anjo da vingança. O açougueiro soltou Drina e se encolheu. Kate segurou a amiga num braço e girou, encostando-a no muro. Drina se encolheu, rasgada por soluços. Kate encarou a multidão.

Para ela, eles eram só olhos e dentes, só cuspe e vozes. Demorou um momento até eles se tornarem pessoas: um homem com um olho cego, outro cujo pescoço estava grosso com os calombos e feridas úmidas da escrófula. Os mais pobres da feira.

Aos pés de Kate, Drina. Seu lenço e sua saia estavam rasgados. E alguém tinha cortado rente seu cabelo. Seu turbante estava enredado em torno do pescoço. Tinham batido na sua boca, que estava cheia de sangue. Sangue da sua orelha pendurada ensopava metade da sua cabeça.

Muita coisa havia acontecido, mas o tempo não tinha passado. O cavalo ainda estava empinando, o carroceiro lutando para segurá-lo no chão. Braque mantinha-se entre as meninas e a multidão, chiando, enorme. Os agressores tinham hesitado um instante, mas já estavam se recuperando, tentando avançar.

Os mais pobres da feira, pensou Kate outra vez. E soube o que fazer.

— Prata! — gritou ela, com a voz embargada. — Prata para quem nos deixar passar!

Kate Somente podia ver nos rostos à sua frente a ganância em conflito com a medonha sede de sangue. Drina tinha se levantado um pouco e estava grudada aos joelhos de Kate. Kate a içou por uma axila e, com a outra mão, abriu sua capanga. Moedas reluziram em sua mão. Era mais dinheiro do que ela jamais tinha visto na vida. O dinheiro destinado para ela comprar um lugar para si.

— Qualquer dinheiro ganho pela magia pertence à Igreja — veio a voz esganiçada do padre.

— Pode pegar, então! — gritou Kate, jogando as moedas de cobre e prata por cima das cabeças da multidão.

Todos se voltaram, engalfinhando-se. Kate e Drina dispararam na outra direção, passando espremidas pelos cascos do cavalo, para entrar na escuridão da viela, com Braque nos seus calcanhares, deixando espalhadas entre os montes dos cabelos escuros de Drina, batidos pelo vento, algumas pequenas trouxas e caras de demônio.

 

Drina soluçava e tropeçava enquanto Kate a puxava.

— Depressa! — disse ela, arquejando. — Depressa!

Braque disparou à frente como um raio. Vozes ladravam como cães de caça atrás delas.

E então alguém agarrou Kate pelo cotovelo e a puxou com violência por um portal. Ela se sentiu cega com a redução da claridade. Seu salvador era um vulto escuro em contraste com a luz da porta. Depois a pessoa se virou, com Drina nos braços. Era a cesteira.

— Silêncio um instante — sussurrou ela.

As três ficaram bem juntas, escutando. Os perseguidores se aproximaram, passaram por ali e foram embora, desaparecendo.

Kate afastou-se um pouco e bateu com a canela numa tina onde varinhas de salgueiro estavam de molho. Cestos parcialmente trançados cutucavam seus cotovelos. Havia um forte cheiro de ervas.

— Pronto — murmurou a mulher, enquanto Drina soluçava baixinho. — Não tenham medo. Eles não vão encontrá-las. Na realidade, eles não vão olhar.

Ela fez Drina se levantar e apertou o canto do turbante contra a orelha cortada, gotejante.

De repente, Braque apareceu à porta.

— Eles se foram. Deixei que me perseguissem. Eu os conduzi como um raio de sol e desapareci como uma sombra.

Ao ouvir a voz do gato, a cesteira respirou fundo, com um som como o de uma espada sendo desembainhada. Mas nada disse.

Kate Somente pegou Braque no colo.

— Precisamos sair da cidade.

— Precisam — disse a cesteira, amarrando apertado o turbante sobre a orelha de Drina. — Saiam e não voltem. — Ela passou o dedo pelo talho na sua própria orelha. — Também fui marcada assim, minha pequena.

Drina grudou-se a ela e escondeu seu rosto de Kate.

Kate continuou parada um instante, sem saber o que fazer, escutando a rua silenciosa e olhando para os restos dos cabelos negros de Drina.

— Vou — sugeriu ela — à feira dos animais. Vou pegar Behjet. E seu pai.

— Não olhe para mim — disse Drina.

E assim Kate pegou Braque e foi embora.