Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 8 de 19

Páginas do PDF

Kate Somente

8. O Acampamento no Pântano

oito

O ACAMPAMENTO NO PÂNTANO

 

Kate Somente encontrou Behjet e Stivo na feira dos animais e balbuciou o suficiente da história para fazer Stivo sair correndo. Kate começou a segui-lo, mas Behjet a segurou pelo ombro para detê-la. Suas mãos tremiam um pouco, mas ele mantinha seus movimentos calmos, enquanto punha uma sela no potro de tração. Eles montaram juntos, com Behjet atrás e Kate espremida entre ele e o pescoço pulsante do cavalo. Saíram de Toila tranquilamente, para não atrair olhares. Mas, depois de passar pelos portões da cidade, eles seguiram a galope.

Quando Behjet soltou as rédeas, o cavalo quase empinou e, com um tranco, disparou. Kate agarrou-se à crina até os pelos ásperos cortarem seus dedos. Por baixo dela, o cavalo pisava pesado. A estrada perdeu a nitidez. Seu cesto, com Braque dentro, batia no seu joelho. Às suas costas, ela sentia a respiração forte de Behjet. Os braços dele atingiam suas orelhas, e as rédeas chicoteavam seu cabelo. Ainda assim, ela se arriscou a se inclinar para o lado e a olhar para trás.

— Ninguém está nos seguindo! — gritou ela, com a voz levada pela velocidade.

— Ainda não — disse Behjet. — Se começarem a falar... se lembrarem que ela é uma menina nômade... bem. Todos saberão que ela não chegou a Toila sozinha.

Os nômades já estavam levantando acampamento quando eles chegaram. Behjet puxou as rédeas de Xeri, que bateu as patas. Uma das filhas de Daj veio até eles, esvoaçante.

— Eles estão aqui. Daj está com ela, no vardo vermelho. Stivo também.

— Drina está muito machucada? — perguntou Behjet.

Com os arquejos fortes do cavalo, Kate se abaixou para poder ouvir.

— Na orelha, e um dente ou dois... mas não muito. Stivo está fora de si.

Behjet fez que sim. Os músculos dos seus braços em torno de Kate estavam retesados, salpicados de lama.

— Nós vamos na frente. Precisamos encontrar um lugar que seja pelo menos um pouco afastado da estrada. — Ele cutucou Xeri com os calcanhares, e o cavalo tentou virar a cabeça para dar uma mordida em Kate. — Diga a Daj que vou marcar a trilha.

A mulher nômade assentiu.

— Você acha... que eles vão vir? Os que a machucaram? Ou o guarda?

Mas Behjet espicaçou o cavalo, e eles seguiram para a estrada sem responder.

 

Behjet conseguiu controlar o cavalo mal-ensinado, e eles seguiram mais devagar. De poucas em poucas centenas de metros Behjet escolhia uma bétula e fazia uma marca rápida na casca branca: a trilha que tinha prometido. Para se manterem perto das árvores, eles avançavam pelo canal de drenagem à beira da estrada. Não falavam; Kate procurava recuperar o fôlego e pensar.

Em Samilae, tinha sido ela que os caçadores de bruxas queriam. Isso é problema seu, e você não pode fazer com que caia sobre nós, dissera Rye Baro. E Stivo: Trate de não trazer nenhuma encrenca para minha Drina. Mas era isso que ela havia feito. Ao deixar Drina tentar ajudá-la, Kate tinha tornado a amiga um alvo para a turba. Behjet não sabia o suficiente para culpá-la, mas Drina sabia... e Stivo a culparia, mesmo sem saber que devia. Era bom que Kate contasse alguma coisa a Behjet, mas era difícil saber o quê.

Braque conseguiu pôr a cabeça para fora do cesto de bagagem de Kate, exatamente a tempo de levar um monte de água na cara, quando Xeri pisou num lugar fundo na vala.

Braque voltou a se esconder com um berro, e Behjet reprimiu um sorriso.

— Daria para jurar que ele sabe falar. Isso aí pareceu um xingamento. Desculpe, gato. — Um lugar mais fundo levantou mais água, encharcando a calça de malha de Kate e provocando mais reclamações abafadas no interior do cesto. Behjet repuxou as rédeas, e as espáduas do cavalo se avolumaram, crescendo por baixo dela. Eles saíram da vala com esforço e seguiram pela estrada. — Meio molhado, ali — disse Behjet. — Essa chuva está interminável.

— Eles... — Kate controlou a respiração. — É verdade que eles não vão vir atrás da gente? Na cidade, eles não estavam procurando.

— É muito provável que não. Mas as pessoas têm ideias estranhas, quando o sol se põe. Às vezes histórias sinistras dominam seus corações. E aquela cidade está com problemas.

Behjet conduziu Xeri mais para perto da beira da estrada. Uma garça-real levantou voo da vala, e o cavalo empinou e girou. Ele descreveu três voltas pequenas até Behjet conseguir acalmá-lo. O homem inclinou-se muito para a frente, a fim de afagar a orelha do cavalo e sussurrar. Kate sentiu o cheiro do seu suor e o calor do seu corpo contra o dela. Era estranho estar assim tão perto de outra pessoa.

Behjet facilitou outra vez o avanço do cavalo.

— Estão falando na fazenda de Pan Oksar, mas é pior naquela feira. A colheita está fracassando. Não haverá nada para colher se essa chuva não parar... nem mesmo feno.

A chuva. A chuva pela qual ela era tão grata, a chuva que escondia o esgarçamento da sua sombra. A chuva ia matar pessoas.

— Mas — disse Behjet, e deixou o pensamento em suspenso.

Kate Somente podia sentir a tensão no corpo dele, às suas costas. Na lama, os cascos de Xeri faziam chape-chape e lançavam salpicos.

— Mas não é só isso. Dizem que alguma coisa está vindo. Alguma coisa vindo rio abaixo, vindo de Samilae e da serra: um tipo de doença mortal. Os mercadores estão todos falando nisso. Um nevoeiro que domina sua alma. Dizem que vêm nele uma mulher e música. Música dos nômades. Dizem que ele faz os homens adormecerem e não acordarem mais. Dizem que os barcos vão e não voltam. Vai ser o skara rok outra vez. Mas pior. Eles vão perseguir os nômades, como fizeram no passado.

Kate estava se esforçando para pensar. Em Samilae, Boyar, o pescador, tinha caído num sono do qual não foi possível despertá-lo. E ao escapar da cidade pela estrada ela deparou com um nevoeiro. E tinha ouvido...

— Música — sussurrou ela.

— É. Uma rabeca.

Linay tocava rabeca. Kate Somente sentiu um aperto no peito, uma dor desconfortável como a de um ferimento antigo. Medo. Culpa. O peso do seu segredo.

— Uma rabeca — disse ela.

— Uma rabeca de nômades, é o que dizem. — Behjet puxou as rédeas para o cavalo reduzir a marcha. — Kate Somente, você está grasnando palavras de volta para mim como um corvo. Será que eles a apavoraram a ponto de você perder a razão naquela viela? Ou você sabe de alguma coisa?

Não confiando em si mesma, Kate preferiu não falar e fez que não.

— Se você sabe, precisa me contar. — Com uma determinação repentina, ele parou o cavalo. Ela não conseguia ver o rosto dele, só os dedos compridos, firmes nas rédeas, a faquinha em uma das mãos. — Agora você está tremendo. O que aconteceu, Kate Somente? O que aconteceu com você e Drina naquela feira?

Kate Somente tentou formular uma resposta, mas descobriu que as lágrimas picavam a superfície dos seus olhos. Ela sacudiu a cabeça com mais força. Xeri batia com as patas e lutava para avançar, movendo a cabeça com violência. Behjet deu-lhe rédeas, e ele assumiu um passo tranquilo. E ainda assim Kate Somente conseguia fazer que não.

Behjet levantou a mão... com faca e tudo... e a pousou sobre a dela.

— Tudo bem, então, mira — disse ele, e ela pôde ouvir na voz dele a voz da sua mãe Daj. Sua bondade a desconcertou, e ela falou. Uma enxurrada de detalhes foi se despejando dela como peixes de uma rede, os últimos apanhados saindo primeiro: a cesteira que as tinha salvado, o arco de moedas de prata jogadas sobre a multidão enfurecida, o sangue no cutelo, o cavalo empinando, o guarda de botas, o latoeiro zangado...

— Um latoeiro? — interrompeu Behjet, parecendo preocupado. — Vendendo talismãs? Como ele era?

Kate Somente descreveu por alto para ele o homem careca com as suíças de bagre, vendendo os objarka baratos de lata do seu próprio casaco tilintante.

— Ah! — Behjet relaxou. — Achei que talvez... bem. Olhe aqui. — Ele virou o cavalo quase como se fosse dar meia-volta, e subiram por uma pequena trilha que corria oblíqua em relação à estrada. Ela descrevia uma curva e entrava sinuosa no bosque de bétulas. Ramos roçavam de cada lado dos seus joelhos e batiam ruidosos no cesto. Braque pôs a cabeça para fora novamente, e dessa vez recebeu um monte de agulhas de pinheiro na cara. Ele xingou em fala de gato.

— Desculpe, Braque! — disse Behjet, reprimindo o riso.

Eles seguiram em frente. A trilha abriu-se e desembocou num leito de riacho, de juncos e salgueiros pequenos.

— Não vai dar em lugar nenhum — disse Kate. — É só uma trilha de cervos.

— Ah, mas essa é a questão. Aqui os vardo podem sair da estrada sem deixar uma pista muito extensa. E ainda assim não é uma trilha que o pessoal da cidade vá seguir, se eles vierem olhar.

Ele desmontou e depois a retirou das costas de Xeri. Ela cambaleou, com o chão subitamente firme, e mal estava em pé quando Braque pulou nos seus braços. Ela tombou de costas numa moita de malmequeres-dos-brejos. Behjet deu um sorriso zombeteiro, mas bondoso. Antes, ela nunca tinha sabido de alguém que pudesse zombar com bondade. Ele voltou a montar no cavalo.

— Fique aqui um instante — disse ele, e foi embora.

Kate viu-o indo embora com um tremor no coração, e Braque, com uma fungada revoltada.

— Foi horrível! — proclamou o gato, contorcendo-se ao descer para seu colo. — Os solavancos. As empinadas! A lama. Decidi que nunca mais vamos viajar a cavalo. — Como ela não respondeu, ele a cutucou com o focinho úmido e roçou o canto da boca no polegar dela. — Olha, eu ainda estou molhado. Cuida de mim.

Por isso, ela o abraçou junto do peito.

— Meu herói — disse ela. — Meu guerreirozinho macio e molhado. O que vamos fazer?

 

Behjet deixou-a sozinha durante muito tempo. Os bosques, que tinham mergulhado no silêncio, perturbados com a presença deles, encheram-se novamente com o canto de pássaros e relances de movimentos, de coelhos e cervos. Aos poucos, ocorreu a Kate Somente que os nômades poderiam deixá-la ali, abandonada como um saco cheio de gatinhos.

Mas, por fim, Behjet voltou. Juntos, eles levaram Xeri a passo, penetrando mais no bosque, até onde o riacho se alargava numa clareira à margem do rio. Behjet pescou, e Kate tentou cumprir as tarefas que ela e Drina faziam juntas. Trabalhar sozinha demorou mais e foi mais pesado e enfadonho. Ela ainda estava empilhando lenha quando o primeiro vardo veio fuçando em meio aos salgueiros novinhos, com o cavalo se esforçando para puxá-lo pela lama.

A clareira era um lugar péssimo para acampar: mais um charco do que um prado. Cada passo fazia brotar do capim água da cor de chá. As rodas dos vardo afundavam até a altura dos eixos. Havia enxames de moscas que picavam. Os cavalos puxavam e repuxavam o capim de cheiro ácido. As pessoas tentavam matar os insetos e resmungavam.

Daj e Drina não saíram do vardo vermelho. Stivo estava sentado na escada, afiando o machado.

E assim Kate, sozinha, tirou os baldes dos ganchos no vardo verde e os dispôs — um, dois, três, quatro — separados por alguns passos de distância ao longo do riacho. Ela pegou o balde grande do vardo azul e partiu na direção do rio. Uma das mulheres, puxando cestos de galinha da jaula do urso, gritou para ela:

— Sozinha, não! Não é como os nômades fazem...

Mas Stivo a interrompeu:

— Só que ela não é nômade, ou será que é? E ela sabe se cuidar até que bastante bem.

E assim Kate foi sozinha. Cheio, o balde grande era pesado como chumbo. Geralmente, ela e Drina o carregavam juntas, com as mãos entrelaçadas na alça, as duas inclinando-se para fora para compensar o peso. Sem Drina, Kate avançava tropeçando. O balde tinha de ser carregado longe do corpo o suficiente para não bater no seu joelho, o que tornava o peso ainda maior. Era como carregar seu segredo. Ela tremia.

Foi demais. Drina ferida e com ódio dela... sua prata perdida... seu lugar desaparecendo... sua sombra se afastando em espirais. Entrando no acampamento, ela prendeu o pé numa toca de coelho e caiu. A água se derramou. O balde rolou para debaixo dos cavalos; Xeri se assustou e pisou nele. Duas aduelas racharam, e quando o apanhou do chão, Kate estava chorando.

Mas o pior ainda estava por vir. Ela levou até a hora de dormir para dar água às galinhas, encher as chaleiras e cuidar das fogueiras. E todo esse tempo ninguém falou com ela, apesar dos sussurros.

Onde deveria estar a fogueira dos homens, os nômades tinham erguido uma tenda grande, que ela somente havia visto dobrada e amarrada por baixo do vardo maior.

— É a tenda do conselho — disse Behjet, que a pegou olhando. — Essa história em Toila foi ruim, Kate Somente. Precisamos decidir o que fazer.

O que fazer com ela, ele não disse. De qualquer maneira, ela sabia. Eu sabia disso, disse ela para si mesma, para se lembrar. A prova. Depois de Toila, eles iam decidir.

Todos os homens entraram, e as mulheres falavam somente na sua própria língua. Tinham se esquecido de que Kate a estava aprendendo. Drina, ouviu Kate, gadje, Toila, feira, faca, sangue, bruxa. Culpa.

Kate acomodou-se na escada de trás do vardo vermelho e tentou consertar o balde sob a luz que ia sumindo. Ela podia ouvir ali dentro Daj resmungando, desnorteada, enquanto Stivo — Stivo, grosseiro e zangado — cantava uma canção de ninar que seu próprio pai tinha no passado cantado para ela. Ela conhecia a melodia, apesar de ele cantar na língua dos nômades: “Cheya, Drina, mira cheya.” Filha, filha mais querida.

A fogueira acesa dentro da tenda do conselho projetava a sombra dos homens na lona amarela — sombras tão nítidas e sólidas que pareciam ser de gente feita de sombra. A fumaça subia, ondulante, como um dragão, a partir do respiradouro no teto. No círculo das mulheres, a fogueira de cozinhar ardia e crepitava, fumegante com a umidade. Os bosques se fecharam sobre eles, e o rio resmungava.

Kate Somente trabalhava e escutava Stivo cantar. Não se ouvia a voz de Drina. A noite se fechou.

Uma das mulheres aproximou-se com uma lasca acesa e acendeu os lampiões suspensos da porta traseira dos cinco vardo, o que Kate sempre tinha achado que dava aos carroções uma aparência agradável como a de vaga-lumes. Mas nessa noite — o lampião se derramava sobre ela enquanto ela lutava para aplainar uma aduela para o balde quebrado. E, depois de um instante, ela viu como a sombra da escada criava uma linha esvoaçante no capim úmido. Nada interrompia aquela linha. Da sua própria sombra não havia sinal.

Kate parou. Suas mãos ficaram dormentes, seu estômago se encolheu, sua respiração se atrapalhou. Sumida. Ela, por fim, tinha desaparecido. Na escuridão que se adensava, ela chamou, sussurrando:

— Braque? Braque?

Dos vultos escuros e inquietos dos cavalos saiu perambulando uma figura menor, cinzenta. O gato saltou para a escada, ao seu lado. Sua sombra caía, sozinha, sobre o capim.

— Encontrei o cavalo — anunciou ele. — O que nos levou numa viagem tão horrível. Arranhei seu tornozelo.

— Ah! — disse ela, automaticamente. Nem mesmo conseguia reunir coragem para lhe contar, para dizer em voz alta a coisa horrorosa. Minha sombra. — Braque...

De qualquer modo, ele tinha ouvido alguma coisa.

— Katerina? — Ele voltou as orelhas atentas para ela. Sua cauda se contraía e ele a farejava, como se estivesse procurando pelo ferimento. — Você está machucada?

— Braque, minha sombra.

Mas de repente, dentro do vardo, alguém estava se mexendo. A escada oscilou, a estrutura rangeu. Daj abriu um lado da cortina, e sua sombra se projetou por cima de Kate. Minha sombra, pensou ela de novo. Mas nenhuma das duas falou. Braque encostou em Kate, transmitindo-lhe seu calor.

Sentindo os olhos de Daj sobre ela, Kate Somente curvou a cabeça e tentou trabalhar. O pedaço de madeira curvo estava preso, firme, entre seus joelhos. Ela puxava a plaina pela madeira em sua direção. Aparas claras saíam encaracoladas como cascas de cenoura.

— Um trabalho mortal para mãos tão pequenas — disse Daj, por fim.

— Não é difícil.

Embora fosse. Consertar um balde era trabalho para um tanoeiro, e Kate nunca tinha feito esse serviço. Ela precisava adivinhar como a madeira poderia inchar ou encolher, curvar-se ou endireitar-se, e a aduela tinha de ser perfeita. Se o balde vazasse, pensou ela, os nômades sem dúvida a expulsariam. Mesmo assim, ela repetiu:

— Não é difícil.

— Bem, parece difícil — disse Daj. — Vamos parar agora, menina. Acabou a luz. — Ela tirou o lampião do gancho e espiou para o interior do vardo. — Parece que estamos sem espaço aqui dentro. Está cheio como os bolsos do rei. Por que você não arma a tenda no chão? Tire uma noite para si.

Sozinha. Diante das palavras de Daj, Kate Somente fez o que nunca tinha feito. Deixou a plaina escapar.

A lâmina resvalou em algum nó na madeira e foi direto cortar seu antebraço. Ela viu a lâmina tirar um pedaço da sua pele como casca de árvore. Braque uivou. Daj quase deixou cair o lampião.

— Mira! — Daj correu e desceu a escada atabalhoadamente, arrancando lenços. — É! Eu lhe dei azar!

Sangue estava brotando do braço de Kate Somente como a água se infiltra do pântano. Daj amarrou o lenço apertado em torno do braço. As flores cor-de-rosa de imediato ficaram ensopadas.

— Sangue! — exclamou Braque, chiando.

— Ai! — disse Kate, mais alto que ele.

— Ai! — soluçou Daj. — Nunca vou me perdoar. — Ela levantou Kate da escada. — Vamos, menina — e a puxou pelo pulso, indo cambaleante na direção da tenda grande, com o gato se enredando nos seus pés. Elas foram entrando pela luz amarela e pelo silêncio repentino. Rostos voltaram-se para elas.

Não houve nenhuma cerimônia diante da fogueira dos homens, nada de “Posso passar entre vocês?”.

— Chá! — rosnou Daj.

Seu marido, Wen, levantou-se com dificuldade, as mãos nos joelhos, e foi arrastando os pés até a chaleira negra. Daj a apanhou e empurrou Kate para um dos bancos. Braque subiu junto. Daj o enxotou dali. Ela rasgou o lenço-atadura. Antes que Kate Somente soubesse o que estava acontecendo, chá quente estava sendo despejado sobre o ferimento aberto.

— Acabei de fazer esse chá — disse Wen.

Daj empurrou a tampa da chaleira para ele.

— Não dá para você ver que a criança se feriu? — Ela aplicou um punhado de folhas fumegantes de chá no braço de Kate Somente.

— O que aconteceu? — Stivo vinha entrando pelo portal da tenda atrás delas. — A entalhadora se cortou, foi isso? Menina pequena com faca grande?

Kate Somente olhou para ele. O clarão amarelo lhe dava uma cor estranha, como a de um peixe defumado. Daj viu que ela o olhava e falou:

— Não foi culpa dela. Fui eu que lhe dei um esbarrão. E ela entalha melhor do que você cuida de cavalos, menino. — Ela deixou cair o lenço berrante e sangrento no bule de chá e amarrou outro lenço sobre as folhas de chá, e mais outro por cima do segundo.

— O que me conta da sua filha, Stivo? — A voz de Rye Baro veio do outro lado da fogueira.

Para Kate, parecia que era o próprio fogo que estava falando, como se quisesse reivindicar a posse de Drina.

— Ela vai sobreviver — disse Stivo. — E não vai ser graças a essa aí. — Ele indicou Kate, com grosseria.

— O que... — Kate Somente, sentia-se apagada como a parte escura da lua. — O que ela lhe contou?

A voz veio da fogueira mais uma vez:

— O que ela deveria ter contado, Kate Somente, Entalhadora?

Que a culpa foi minha, pensou Kate Somente. Que ela só estava tentando me ajudar. Que eu sabia que era perigoso e deixei que ela me ajudasse assim mesmo. Eu a deixei ir sozinha.

Braque saltou de volta para cima do banco, ao seu lado, farejando o lenço ensopado de chá em torno do braço de Kate, balindo sem palavras. Sua língua cor-de-rosa chispava como uma pequena chama. Ao lado dela, de repente, Wen cuspiu seu chá.

— Droga! Quem pôs as ataduras no chá?

— Kate Somente? — perguntou o fogo, com a voz de Rye Baro.

— Eu... — começou ela, com a voz rouca.

— Isso não é hora para interrogar a menina — disse Daj, firme, levantando Kate para colocá-la de pé. — Vamos, Kate Somente. Vou abrir um cantinho para você dormir.

— Mas está cheio como os bolsos do rei — resmungou ela.

— Não, você vai ver — disse Daj, levando-a para fora, para o escuro da noite. — Você pode dormir junto de mim, mira. — Ela pôs um braço em torno dos ombros de Kate e a conduziu de volta, através do prado do rio, em meio ao nevoeiro que ressoava e se adensava, como que entrando na terra dos mortos.

 

— Sangue!

Kate Somente lutou para acordar. Ela estava enrolada em cobertores, deitada no catre de Daj no vardo quente. Braque dormia. Drina dormia no outro catre, com o rosto voltado para a parede, o cabelo tosado toscamente, arrepiado e grudado aqui e ali com sangue. Kate podia ver o arfar das suas costelas e ouvir o som áspero e o tremor da sua respiração. Já era dia, não muito depois do amanhecer. As frestas em torno da cortina da porta deixavam entrar longos raios oblíquos de sol.

Kate balançou a cabeça, tentando se lembrar do que a tinha despertado. Uma voz furiosa, a palavra sangue. Aquela voz lá de fora chegou novamente:

— E o que isso lhe diz?

— Que o pateta do meu marido não consegue distinguir uma atadura de uma folha de chá. — A voz firme e áspera de Daj veio de bem junto do portal. Ela estava sentada na escada do vardo. — Não é novidade.

Kate Somente libertou lentamente seu braço das colchas de Daj e remexeu os dedos. O ferimento recente estava duro como couro seco, mas tudo se movimentava como deveria. Ela sentiu uma fisgada de alívio... e depois de culpa. Que tipo de entalhador se cortava? Tinha sido muito sangue.

— Ele tomou o sangue dela, e agora está enfeitiçado. — Finalmente Kate Somente reconheceu a voz de Stivo. Havia um tremor nela que antes não existia... não apenas raiva, mas medo. Era isso o que a tinha confundido. — Essa criança gadje tem olhos de bruxa.

Os olhos de Braque se entreabriram.

— Não gosto dele.

Ela fez com que ele se calasse e esfregou um polegar entre as suas orelhas.

— Bem, vamos olhar, então. — A escada rangeu, com o peso de Daj descendo.

Kate Somente ouviu as vozes irem se afastando. Lá fora, um cavalo relinchou, inquieto.

Kate tentou recuperar o controle.

— O que está acontecendo?

Braque abriu um olho dourado.

— Nós estamos cochilando. — Ele rolou na cama e se esticou de barriga para cima na dobra do seu cotovelo. — Você pode coçar meu pescoço.

— Eu quis dizer... Stivo acabou de dizer...

Estava claro que o gato não ia ser de nenhuma ajuda. O pateta do meu marido, tinha dito Daj. Wen. Ontem de noite ele havia cuspido o chá, feito alguma piada sobre a atadura... a atadura com seu sangue, na chaleira. Wen tinha bebido seu sangue. Kate Somente sentou-se na cama.

Braque foi despejado do seu cantinho para o piso do vardo. Ele lhe lançou um olhar de esguelha.

— Hum! — queixou-se ele.

— É Wen — disse ela. — Deve ter acontecido alguma coisa com ele. E Stivo acha... — Ela se levantou, e o vardo balançou ao redor dela. Ela sentia pontadas no braço. — Temos de ir ver.

— Ah, tudo bem. — Braque esticou a membrana de plumas entre os dedos das patas. — Depois eu deixo você procurar comida para nós. Estou sentindo o cheiro de salsichas.

 

Kate Somente não se afastou da beira do bosque enquanto atravessava o prado, sorrateira. Ela estava carregando a bata ensanguentada que tinha usado no dia anterior e tentava dar a impressão de que queria somente ir até o segundo balde, onde a roupa era lavada. Braque zombou do seu jeito sorrateiro e desapareceu no meio das moitas e juncos. Kate Somente disse uma pequena prece por algum camundongo ou rã desafortunada.

No riacho, ela se curvou sobre a bata, esfregando a manga manchada e observando. Os nômades, tanto homens como mulheres, estavam reunidos do lado de fora das abas abertas da tenda do conselho. De lá da margem do rio, onde os cavalos estavam presos, vinha uma pequena procissão: quatro homens segurando os cantos de um saco de dormir, e nele estava Wen, jogado, inerte. Stivo e Behjet à cabeceira da manta pareciam um par de garanhões iguais.

No capim pisoteado, eles puseram a manta no chão. Kate levantou a cabeça, sentindo o perigo como um cervo. Ela via só o cabelo branco de Wen, uma orelha com um brinco de ouro, a mão sem vida, como uma luva. Daj agachou-se ao seu lado. Ela inclinou o ouvido e a bochecha perto da boca do marido e esperou. O grupo reunido prendeu a respiração.

Daj balançou de volta sobre os calcanhares.

— Ele está respirando, de qualquer forma. É bebida?

— Nem uma gota, Mãe — disse Stivo. — Eu juro.

— É verdade, não sinto nenhum cheiro. — Daj pegou a mão branca. — Ele está danado de frio.

— Estão falando naquela feira — disse Behjet. — Falando de um sono... — Ele deixou o pensamento pairar. Para Kate, que sabia o que ele ia dizer, a espera foi horrível. — Estão falando numa morte do sono. Vinda de Samilae pelo rio.

— Morte! — exclamou alguém.

— Samilae? — disse Stivo, porém.

Kate abaixou mais a cabeça.

Houve um movimento entre o grupo de pessoas, e Rye Baro veio avançando entre elas, lentamente, nas suas duas bengalas. Ele falou com Daj na língua dos nômades. Ela respondeu na mesma língua e, depois de um instante, se pôs de pé. Behjet e Stivo começaram a falar juntos. E ainda assim Wen não se mexia.

Em seguida, Rye Baro voltou a falar, e Kate Somente o ouviu dizer seu nome. Ele caiu do meio da fala estrangeira como uma pedra do céu. Ela se abaixou ainda mais, lavando, e se manteve imóvel, presa pelo seu peso.

— Mas é só uma criança — sussurrou Daj.

Kate Somente não ouviu nenhum passo, mas de repente Stivo se agigantava acima dela, agarrando-a pelo braço para fazer com que se levantasse. Ela deu um grito e um safanão. O ferimento se abriu.

— Aqui está ela! — gritou Stivo, e a arrastou na direção dos rostos, que se voltaram, lá onde Wen jazia como que pronto para a cova. Ela se contorceu, aterrorizada, e viu sua bata ir à deriva, rio abaixo.

— Ensanguentando a água — disse Stivo.

— Ela é gadje — disse Behjet. — Não sabe.

— Mas deveria — retrucou Stivo, ainda prendendo-a pelo braço.

— Traga-a para cá — disse Rye Baro, baixinho. Stivo a levou. Rye Baro estava em pé com as pernas separadas, apoiando-se para a frente nas duas bengalas. — Kate Somente, Entalhadora — disse ele, olhando para ela ali embaixo. Seu rosto coriáceo estava solene e gentil, como o de um cavalo. — Na cidade, é diferente. Mas você agora está entre os nômades. Você precisa aprender que seu sangue é impuro. Deve lavá-lo no quarto balde. O que fica mais afastado, rio abaixo.

Seria só isso? De olhos arregalados, Kate Somente concordou.

— Está vendo que Wen está deitado, enfeitiçado?

— Estou vendo.

— O que você pode dizer sobre isso?

Kate se empertigou.

— Que não fui eu.

Rye Baro olhou para ela, por muito tempo e com cuidado.

— Menina — disse ele —, você não tem sombra.