Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 5 de 19

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Kate Somente

5. A Estrada e a Chuva

cinco

A ESTRADA E A CHUVA

 

Apesar do que Drina tinha dito, dava para seguir com os nômades sem cavalgar. Na maior parte do tempo, todos andavam.

A caravana toda unida avançava lentamente pela estrada. As pessoas a pé iam na frente, por onde a estrada estava apenas pegajosa e sulcada pela água. Depois vinham os cavalos soltos, com os cavaleiros entre eles. E por fim, revirando a lama e o esterco fresco de cavalo, vinham as carroças. E atrás de todos vinha Kate Somente.

Andar atrás de todos foi ideia de Daj, para manter Kate Somente longe dos olhos, até que estivessem longe da cidadezinha.

— Assim fica mais difícil para algum tonto mandar você embora — dissera ela. Kate Somente ficou confusa; tinha achado que seu lugar entre os nômades era algo que Daj lhe daria. Mas, não, explicou Drina. Grandes decisões como aquela eram uma questão para os homens. — Não tenha medo, criança — disse Daj. — Confie em Mãe Daj. Eu sei liderar a partir da última carroça.

E assim Kate foi andando por último. A dificuldade era enorme. Ela tinha passado toda a vida sobre calçamentos de pedras arredondadas, e a lama da estrada era novidade para ela. A lama tentava agarrar seus calcanhares como uma criatura moribunda. Suas botas ficaram escuras com a água. Suas meias compridas ficaram molhadas, seus pés chapinhavam e logo desenvolveram bolhas. Mas ela não disse nada e continuou a andar.

Sua cidadezinha foi afundando atrás dela. Samilae. Kate nunca saíra dela antes, e nunca precisara pensar no seu nome. Seu pai, quando estava vivo, tinha sido simplesmente Pai. Morto, ele era Piotr, o Entalhador, e ela precisou dizer seu nome algumas vezes. E agora sua cidade natal era Samilae. Ela olhou para trás e a viu tornar-se um amontoado de telhados, com a agulha alta do weizi acima de todos — trabalho do seu pai, que lançava seu dedo de sombra na direção dela. Ela não chorou e continuou andando.

Drina passou o dia andando ao lado de Kate Somente e avançando veloz para ficar entre os cavalos, para então voltar outra vez em disparada. Ela dava estrelas por nenhum motivo e cantava como uma cotovia, lançando para o ar faixas de melodia. Uma hora ela deixou Kate Somente de cabelo em pé, ao cantar a canção que Linay estava cantando no cais, havia tanto tempo, mas tinha sido só ontem: uma canção triste sobre fantasmas no rio.

A chuva fina continuava a cair. Kate Somente ficou encharcada e começou a sentir dores: ela era forte, mas não estava acostumada a andar. As alças do seu cesto arranhavam seus ombros magros. Braque passou o dia dormindo no cesto, bem entre suas omoplatas. O calor dele fez com que ela sentisse menos dor.

Por fim eles pararam, já bem depois do entardecer de verão.

Ao longo do dia, a paisagem tinha se reduzido a uma tira de campos entre o rio e a escuridão pesada dos montes cobertos de bosques. E agora não havia nada além de bosques e água.

Eles pararam num trecho de prado, fazendo cervos fugirem aos saltos para se esconderem nos bosques, e coelhos saíram em debandada. Houve uns movimentos de escalada entre as omoplatas de Kate, e daí a um instante surgiu um gato no seu ombro.

— C-co... — começou ele, e Kate teve certeza de que ele ia dizer “coelhos”, mas ele parou, deu uma olhada para o lado de Daj, que os observava, e disse apenas: — Miau.

— Ora — disse a velha —, esse é um ótimo jeito de viajar. Olá, rei dos gatos.

Braque empertigou-se e saltou para o chão, encaminhando-se para se enroscar nos tornozelos de Daj.

Os nômades armaram acampamento em dois círculos e fizeram duas grandes fogueiras. Mandaram Kate Somente e Drina buscar água e depois procurar galhos caídos para o fogo. Quando elas voltaram, os cavalos já estavam nos piquetes, as galinhas estavam soltas, os tapetes estendidos, as panelas borbulhando. Bancos de cavalete tinham aparecido. Kate Somente deixou-se cair num deles e tirou as meias úmidas. Seus pés estavam enrugados de tão molhados e tinham uma dúzia de bolhas totalmente brancas, grandes como impressões digitais.

— Gordura de ganso — disse Daj. Ela estava agachada junto do fogo, refogando rodelas de cebola numa frigideira. — Amanhã, vou pegar um pouco de gordura para suas botas não chuparem água. Tolice não pensar nisso antes. — Ela deu uma remexida na panela de gulache e se levantou, estalando as juntas. — Esta noite vamos à fogueira dos homens. Vou apresentá-la a Rye Baro.

Kate Somente ficou assustada com o “apresentar”. As pessoas eram apresentadas ao prefeito, aos mestres da guilda ou ao carrasco.

— Quem é Rye Baro? — disse ela.

— Baro quer dizer homem grande, e Rye é nosso Baro: o líder desses vardo, ou seja, carroças. Se você seguir conosco, caberá a ele julgá-la, caberá a ele mantê-la ou largá-la no mundo.

Kate levantou-se e endireitou os ombros magros.

— Ele vai me largar no mundo?

— Ah, não — riu Daj. — Ele não dirá não para mim.

Kate achou que ela não aparentava ter certeza absoluta.

— Sente-se e deixe-me ver esses pés, criança — disse Daj, com a voz retumbante. Kate sentou-se. Daj levantou os pés dela nas mãos. — Você não pode andar entre os homens sangrando — disse ela, e Kate viu que, realmente, um de seus calcanhares tinha uma bolha funda de onde escorria sangue. Ele não doía muito mais que qualquer outra parte do pé, e ela não percebera. Mas Daj o estava envolvendo num pedaço de um lenço verde. Kate ficou encabulada.

— Ele não está me incomodando.

— Entre os nômades, o sangue tem muito poder — disse Daj, balançando a cabeça. — Principalmente o sangue de uma mulher. Algumas mulheres conseguem fazer uma magia espantosa quando estão com o sangue. Sabendo disso, os homens ficam apavorados. Quando vem nosso sangue todo mês, eles nos forçam a permanecer sentadas, onde possam ficar de olho em nós.

— Mas eu não sou — disse Kate. — Não sei fazer magia. Não sou bruxa.

— E eu não sou um rato-almiscarado — disse Daj. — Mas nenhuma de nós duas vai andar por aí sangrando. Eu lhe explico nossos costumes, criança da cidade, quando me passar pela cabeça, mas, quer você os entenda, quer não, você deve respeitá-los.

— Eu... — começou Kate Somente, mas Daj fez com que se calasse, pondo um dedo na sua bochecha.

Kate descobriu que se concentrava na textura das mãos de Daj: tão calejadas e desgastadas com o trabalho que eram lisas e lustrosas, como a parte interna de um jugo de bois ou como a borda de uma forqueta. Lisa como poeira seca. As mãos do seu pai tinham sido um pouco daquele jeito. Fazia muito tempo que ela não era tocada por mãos semelhantes. Daj enfiou o cabelo crespo de Kate atrás das orelhas.

— Venha comigo agora, mira. Eu diria para você ser corajosa, mas isso dá para eu ver que você já é.

 

Daj foi na frente, de uma fogueira para outra, e Kate a acompanhou, sentindo a terra empapada e barrenta ceder sob seus pés como pão macio, sentindo o curativo no seu calcanhar começar a se soltar com a umidade. Ela estava tentando absorver o labirinto de normas que Daj estava lhe transmitindo: não passe entre um homem e uma fogueira. Não ande entre dois homens que estejam se encarando. Peça permissão para falar. Se você passar perto de um homem, recolha sua saia para que ela não roce nele.

— Eu não tenho saia — disse Kate. Ela estava usando, como sempre, o camisão listrado que tinha pertencido a seu pai. Ele chegava aos seus joelhos, mas não era de modo algum um vestido. Entre os numerosos lenços de cores vivas dos nômades, as listras da cor de ferrugem e de anil pareciam sem vida.

— Ah, é mesmo — disse Daj. — Bem, não se incomode, criança. Pois cá estamos nós. — E Kate acompanhou Mãe Daj enquanto ela entrava no círculo da claridade do fogo tão calada e solene como se estivesse entrando em uma igreja.

Havia apenas alguns homens ali. Kate Somente podia ouvi-los mais adiante, movimentando-se entre os cavalos. Mas, para sua surpresa, Behjet estava sentado numa pedra perto da fogueira, aparando madeira. Ele olhou para ela, com frieza e sem expressão, como se não a conhecesse. Isso poderia ser cortesia? Era como baterem uma porta na sua cara.

Daj levou-a aonde um velho estava sentado num banco entalhado e pintado. Seu rosto era sulcado como uma estrada no inverno. Uma bengala estava pousada ao lado de cada joelho; seus pés estavam quase dentro da fogueira. Daj fez uma mesura à sua frente, não com muitos floreios, mas como um maçarico poderia mergulhar o bico, rápido e natural, sem reverência.

— Se uma mulher puder passar entre vocês e falar — disse Daj. E então, sem esperar por uma resposta —, Rye Baro. Trago-lhe uma convidada. Esta é Kate Somente, a Entalhadora, de Samilae. Ela gostaria de seguir com os nômades.

Rye Baro tinha as sobrancelhas como lagartas antes de um longo inverno. Ele ergueu uma.

— Com estes vardo?

— Sim — disse Daj. — Ela é órfã, pelo que me disseram, e não tem aonde ir.

— Será que nós somos uma matilha de cães para aceitar desgarrados? — Kate Somente virou-se. O homem tinha o rosto de Behjet, mas a sua postura era diferente. Estava sentado, encolhido como um arco envergado.

— Então somos cachorros jogando conversa fora diante da fogueira? — Daj deu um cascudo carinhoso na cabeça do homem. — Demonstre boas maneiras, Stivo.

O homem — Stivo — encolheu os ombros. Gêmeos, percebeu Kate Somente. Behjet e Stivo eram os gêmeos que ela tinha visto vendendo cavalos na feira de Samilae, algumas semanas antes.

— Bem, não seria educado abandoná-la no meio do mato, seria? — disse Rye Baro. Ele tinha uma voz de lima fina: áspera, porém capaz de dar polimento. — Faz a gente pensar em como ela chegou ao meio do mato com os nômades, para começo de conversa.

— Hummm — disse Daj, com cumplicidade na voz. — É um mistério.

Parecia que ninguém estava intrigado nem muito surpreso.

— Behjet diz que a gente dela quer queimá-la por ser bruxa — disse Stivo.

— É — concordou Daj. — Ele disse isso também para mim.

A roda inteira voltou-se para Stivo e esperou. Ele atiçou o fogo, fazendo com que fagulhas subissem em espiral para o céu escuro e chuvoso. O fogo chiou. Stivo nada disse. Uma tora estalou e se partiu. E Stivo continuou calado.

Por fim, Daj voltou a falar:

— Kate Somente é entalhadora — disse ela. — Precisamos de alguém que trabalhe com madeira.

— Nós nos saímos bastante bem, ao que me parece — retrucou Rye Baro.

— Se o vardo amarelo durar mais uma semana sem que o macho quebre, vai ser por obra da Madona Negra — disse Daj. — Mas eu estive pensando: ela pode fazer moedas de verdade virem para o nosso bolso.

— Agora andam entalhando moedas? — A luz do fogo dançou de um lado a outro do rosto de Rye Baro. — Eu não sabia.

— Ela faz objarka. — Daj envolveu Kate Somente com um braço, como uma asa em torno de um pintinho. — Dos melhores que já vi. Eles vendem bem, e por prata, não por cobre.

— Na feira de Toila? — disse Rye Baro.

— Era o que eu tinha em mente — disse Daj, concordando.

— Venha aqui, criança gadje — disse Rye Baro. Kate Somente deu um passo na direção dele e, orientada pela mão de Daj no seu ombro, se ajoelhou. O velho apontou para seu objarka, e Kate o tirou e o entregou a ele. Ele o apanhou e, como Daj tinha feito, o examinou em silêncio. Kate permaneceu de joelhos, com a calça chupando água do chão molhado, o rosto e as orelhas quentes onde estavam mais próximos do fogo. Por fim, Rye Baro baixou os olhos para ela. — A questão de queima de bruxas não é assunto nosso — disse ele. — É problema seu, e você não pode fazer com que caia sobre nós. Mas seu trabalho é bom. Levante-se.

Kate Somente levantou-se.

— Este é, portanto, seu dever, criança — disse Rye Baro. — Conquistar um lugar pelo seu talento, e moedas para seu clã. — Kate Somente recuou um passo, assoberbada pelo peso das palavras “seu clã”. Ela quase não ouviu Rye Baro acrescentar: — Esteja com os objarka prontos para Toila. E faça-os burji. Os tempos estão terríveis.

Burji. Enquanto os objarka atraíam a boa sorte, os objarka burji espantavam a má sorte. Eles tinham cara de demônios.

Kate Somente não tinha nenhum interesse em coisas feias, mas concordou:

— Sim, Rye Baro.

E quando estava de volta, junto da sua própria fogueira, ela levantou o rosto para receber o beijo da chuva.

Só muito depois foi que se lembrou do que Behjet dissera: A mulher do meu irmão foi queimada como bruxa. E ela se perguntou o que Stivo tinha visto naquela fogueira.

 

Os vardo dos nômades avançavam por um território despovoado. A estrada seguia sinuosa ao longo do rio e, onde as margens se tornavam pantanosas demais, voltava para dentro dos bosques. Havia cavaleiros ou carroceiros, mas só de vez em quando. Nos bosques, apenas filetes de fumaça de chaminé subindo retos para o céu cinzento lhes revelavam outras pessoas. No rio, eles às vezes viam um barco ou uma das pequenas balsas pintadas que faziam Kate Somente pensar em Linay, em pé observando enquanto ela pegava os peixes encantados. Havia uma verde que fazia sua cabeça virar de repente sempre que ela a via — mas ela estava sempre atrás deles, e nunca se aproximava.

Kate Somente passou gordura nas botas e envolveu os pés com ataduras, e logo conseguiu andar como uma nômade nata. Ela ajudava Drina com a água e a madeira, e nas longas noites úmidas entalhava os objarka burji.

Kate Somente entalhava rápido e aprendia devagar. Ela aprendeu a montar a cavalo, ou pelo menos a se segurar em cima de um cavalo. Aprendeu a cozinhar gulache: um ensopado picante de pimentões e qualquer carne que pudesse ser surrupiada. Ela aprendeu a pegar galinha com a ponta em gancho de uma vara. Aprendeu a língua dos nômades e seus costumes, que eram muitos e complicados. Aprendeu, por exemplo, que cada acampamento devia ter um riacho, e cada riacho devia ter quatro baldes, e cada balde era usado para alguma coisa diferente: o primeiro, para beber e comer; o segundo, para lavar; o terceiro, para os animais; o quarto, para a latrina. Mas a mulher que estivesse sangrando deveria usar o quarto balde até mesmo para se lavar.

Ela passava grande parte do tempo confusa, mas Daj a chamou de mira outra vez, e quando ela perguntou a Drina o que significava, a menina respondeu:

— Quer dizer que ela gosta de você. Quer dizer que você é da família.

Família. Isso poderia tê-la mantido andando uns cem quilômetros. E ela andou muito mesmo. A região foi se tornando mais difícil e mais silenciosa, com os cervos pastando no meio da estrada. A chuva não parava de cair. As rodas dos vardo ficavam grossas de lama, e de noite as meias eram dispostas em varas diante da fogueira, como salsichas a serem tostadas. Era desastroso, mas em segredo Kate Somente estava satisfeita. Ela não precisava olhar para sua sombra.

De tempos em tempos, quando a chuva acabava em rajadas de chuvisco e sol, ela a via: via o que restava da sua sombra. A sombra se movia de modo diferente do seu. Ficava parada no ar, onde nenhuma sombra poderia ficar. Era longa demais, rala demais e às vezes apontava na direção errada. Ela a estava perdendo, e não sabia ao certo o que aconteceria quando a sombra sumisse.

De noite, Kate Somente dormia ao lado de Drina, com Braque na parte interna de um cotovelo. Ela fechava os olhos e o vardo parecia girar. Ela encostava suas costas nas costas quentinhas de Drina, puxava Braque mais para junto de si e escutava os roncos de Daj. Muitas vezes, ela sonhava que tinha duas asas. E uma estava apavorada, e a outra, feliz.

 

O tempo todo eles iam se aproximando de Toila, onde os nômades decidiriam se ficariam com ela ou a abandonariam. Dependia dos seus entalhes.

Kate Somente obedeceu a Rye Baro e fez seus objarka tão burji quanto conseguiu suportar, feios o suficiente para espantar até mesmo uma volta do skara rok. Ela fez um homem com focinho de porco, uma criatura com cara de morcego e orelhas comicamente providas de dobradiças, um rosto que não tinha nada a não ser dentes. Ela fez o rosto aos berros da mulher que tinha visto de relance sendo queimada na fogueira das bruxas. Fez o rosto impossível que via às vezes em sonhos, um vazio com olhos de cabelo. Eles venderiam, pensou ela. Sem dúvida, eles venderiam.

Braque, enquanto isso, tornava-se popular, matando ratos e trazendo um coelho para o acampamento todos os dias ao anoitecer, envaidecendo-se com os elogios — em silêncio, graças a Deus, apesar de à noite relatar os melhores pontos para Kate:

— Rye Baro diz que eu sou um principezinho. Ele partiu o osso da perna para eu poder comer a medula. Eles me adoram. E tenho certeza de que vão ficar com você também.

Mira, pensava ela, e se encantava cada vez que ouvia a palavra. Eles devem ficar comigo. Família.

Os vardo seguiam vagarosos pela estrada, enfurnando-se nas terras ermas. Kate Somente sempre soubera que Samilae era uma cidadezinha, muito distante de qualquer lugar. Mas não sabia como seria andar semanas sem ver ninguém, seguir uma estrada por uma floresta que parecia tão grande quanto a história do mar. Dentro do túnel dos galhos gotejantes a estrada era lamacenta, e suas botas tinham de ser untadas com gordura todas as noites para não apodrecerem. Ela também oleava suas ferramentas, mas mesmo assim a ferrugem as atacava.

De noite, o nevoeiro era denso e cheio de luzes, e, às vezes, de vozes.

 

Uma noite, o nevoeiro do rio chegou tão denso que os vardo ali pareciam ilhas, como barcos. Kate Somente sentou-se para entalhar, com Braque enroscado sobre os dedos dos seus pés, na escada do vardo vermelho, onde dormia com Drina e Daj.

O nevoeiro era tão denso que ela não conseguia ver o chão. Ele se encapelava, e quando Drina veio andando, ele ondulava à sua passagem. Drina deu um salto para se sentar ao lado de Kate e se acomodou ali. Braque abriu um olho, levantou-se, alongou o corpo como se fosse fazer uma longa viagem e deu então os dois passos até os pés de Drina, preferindo se jogar sobre eles.

— Traidor — reclamou Kate, cutucando-o com um dedo do pé. Ele encostou a bochecha no pé dela e lhe esfregou o dedo com o canto da boca, ronronando.

Drina baixou a mão e coçou Braque entre as orelhas.

— Quem dera eu tivesse um gato. Antes de minha mãe morrer, eu tinha um corvo.

Quando Drina disse isso, Kate de repente se lembrou de tê-lo visto. Ela estava trabalhando num pião aos pés do pai. A madeira que ele estava trabalhando era bétula clara. Tinha sido a semana na primavera em que as sementes aladas do bordo ficavam presas entre as pedras redondas do calçamento. Ela estava olhando os nômades se apresentarem em troca de moedas. Fazia quantos anos que aquilo tinha acontecido? Ela era descuidada, des-gatada e feliz. O espetáculo a deixara animada: um homem tocando uma rabeca, outro homem fazendo malabarismos e uma menina, um pouco mais nova que Kate, que tinha um corvo no ombro e dava saltos acrobáticos.

— Eu vi! — disse Kate Somente a Drina. — Você e o corvo. E... — Sim, ela agora se lembrava: seu pai tinha quebrado dois dedos quando um formão escorregou, e Kate tinha achado que era o fim do mundo. Um dos nômades era uma mulher jovem, de olhos tristes, mas um sorriso permanente. Ela repôs os ossos no lugar e os acomodou numa tala, cantando o tempo todo uma música estranha, fluente.

— Isso vale prata de verdade — disse seu pai, encolhendo-se e mantendo a mão no alto, com o suor brotando no seu rosto como resina saindo do pinho quando ele está muito quente. — Você abafou a dor com sua canção.

A mulher riu.

— E é por isso que você está mais branco que eu, imagino. — Kate lembrou-se de que a mulher era branca-de-bruxa, como Linay: seu cabelo e sua pele eram da cor de linho clareado. Antes de começar a trabalhar, ela tinha feito dois anéis para Piotr, o Entalhador, coisas estranhas trançadas de salgueiro-chorão e do seu próprio cabelo branco. — Aceito cobre — disse a mulher —, e agradeço se não espalhar nenhuma história.

A mulher chamou a menina para si, e o corvo veio voando. E esse era o fim da lembrança de Kate.

— Eu vi você — disse Kate a Drina. — Você veio a Samilae antes de meu pai morrer, antes do skara rok. Você tinha um corvo e fazia acrobacias para as pessoas darem dinheiro.

— Eu ia a toda parte. — Drina inclinou-se para a frente. Braque rolou um pouco e deixou que ela esfregasse a reentrância do ossinho da sorte por baixo do seu queixo. — Eu ia a toda parte com o clã da minha mãe. Nós fazíamos acrobacias, cantavamos, líamos a sorte nos ossos e nos astros. — Ela se inclinou ainda mais para a frente, até seu nariz tocar no do gato. — Quando minha mãe morreu, meu pai me apanhou e veio para cá. Este é o clã dele. — Seu cabelo balançou em torno dela, e Kate não podia ver seu rosto. — Ninguém me perguntou nada.

— Havia uma mulher — disse Kate, hesitante, dominada pela lembrança, mas cautelosa. — Uma curandeira, uma branca-de-bruxa...

A cabeça de Drina subiu de repente, fazendo voar o cabelo solto.

— Era minha mãe! Você a conheceu?

— Eu... — começou Kate, mas exatamente nesse instante Braque, que já não estava recebendo carinhos, rosnou:

— Ai, por favor, não pare!