Kate Somente
9. A Jaula do Urso
nove
A JAULA DO URSO
As palavras de Rye Baro provocaram de início um silêncio atordoado e, depois, um coro de gritos. Stivo virou Kate Somente de um lado para outro. Ela podia ver como a sombra de Stivo girava como uma capa em volta dele, como a sombra de todos se estendia com a luz oblíqua do amanhecer.
— Não tem sombra! — exclamou Stivo, e alguém deu um berro.
No alto de um dos vardo estava a jaula de ferro onde no passado era guardado um urso dançarino. Eles a desceram e empurraram Kate para dentro dela. Ela cambaleou, bateu com a cabeça nas barras e caiu estatelada.
— Não fui eu! — gritava ela. — Eu não fiz nada!
Stivo estava trancando a porta da jaula. Estava com tanta pressa para se afastar dela que deixou cair a chave. Kate estendeu a mão para pegá-la. Stivo pisou na chave com a bota e deu um chute na mão de Kate.
Caída no piso, Kate Somente rolou e olhou para os nômades reunidos. As barras da jaula lançavam sombras de barras em todo o seu redor. Ela se agachou e ouviu um grito de espanto: atrás dela, as linhas de sombra, sem serem interrompidas pela sombra que ela deveria ter lançado, se estendiam retas pela palha suja e pelo esterco branco das galinhas. Ela quase podia senti-las, atravessando-a direto, como lanças frias. Os rostos que olhavam de cima para ela estavam dominados pelo pasmo e pelo medo.
— Não tem sombra — sussurrou Daj. Até mesmo ela parecia estar com medo.
Kate Somente ficou ali agachada, respirando forte.
— Eles estavam certos. — A voz de Stivo estava neutra com o assombro. — Em Samilae, onde queriam queimar você. Eles estavam certos. Você é uma bruxa.
— Não sou... — soluçou ela. — Não sou.
— São os gadje que queimam suas bruxas — disse Rye Baro. — Isso não tem nada a ver conosco.
— Mas é a nós que eles queimam! — explodiu Stivo.
— Não sou bruxa! Stivo, por favor. — Kate Somente estendeu a mão pelas barras da jaula e tocou na sua bota. — Pergunte a Drina. Pergunte a Drina, ela sabe...
— Drina! — Stivo recuou com um salto como se sua mão fosse uma cobra dando um bote, arrancando a chave da lama enquanto se afastava trôpego. — Drina! Eu lhe disse para não trazer encrenca para minha Drina. Meu Deus, o que ela já viu, sem ter de dar as mãos a... — ele falou como quem cospe — a demônios!
O pavor trancou a garganta de Kate. Ela conseguia somente sussurrar:
— Não sou.
— Nos ensinam — disse Rye Baro, com a voz ainda atenciosa, gentil — que só os mortos não têm sombra. Mas Stivo nos falou do irmão da sua mulher, que entregou partes da sua sombra para dar poder aos mortos. Nós não sabemos o que está acontecendo nesse caso. — Ele interrompeu o murmúrio de vozes, levantando uma das mãos. — Kate Somente, Entalhadora. O que você pode dizer a respeito disso?
Ela engoliu em seco e se sentou o mais empertigada possível.
— Um bruxo. — Sua voz se embargou. O grupo prendeu a respiração como se fosse uma única criatura enorme. — Um bruxo levou minha sombra.
— E o que você pode dizer sobre Wen?
Ela empinou a cabeça, como um cavalo nervoso.
— Eu... Não fui eu. Não sei o que está acontecendo.
— E Drina?
Um aperto na garganta de Kate.
— Ela... — Saiu como um sussurro, e até mesmo aos seus ouvidos dava para ela ouvir a culpa. Subiu um resmungo dos nômades ali reunidos. — Ela só estava tentando me ajudar. Sinto... sinto muito.
Stivo exultou com a vitória amarga, e o agrupamento de repente se tornou ruidoso. Kate queria dizer mais, mas estava com medo.
Mais uma vez, Rye Baro ergueu a mão exigindo silêncio.
— Não sabemos o suficiente dessa história. — Ele repuxou a ponta do nariz comprido. — Precisamos conversar sobre isso. Vamos nos reunir em conselho. Vamos ver se Wen morre.
Kate Somente ouviu Daj respirar fundo com essas palavras.
— Daj, não fui eu — protestou ela. — Wen... Não fui eu. Pergunte a Drina. Daj! Mira! Mãe Daj! Pergunte...
— Já basta, menina — disse Daj, e lhe deu as costas.
Sol. Sol, depois de semanas intermináveis de chuvisco e nevoeiro. Parecia irreal e fazia Kate se sentir irreal, amortecida e enjoada. A jaula do urso ficou muito quente. Tinha o cheiro desagradável e azedo dos cestos das galinhas, mas por baixo dele ainda restava o cheiro do urso: repugnante. E ela ainda tinha algumas das pulgas do urso. Kate Somente coçou-se e empurrou a palha velha para a beira da jaula.
Em seguida, através da pilha de palha, Braque chegou, tranquilo, passando pelas barras, com um rato-almiscarado semimorto, entre os dentes.
— Rrrumh — disse Braque, em torno da presa. Ele cuspiu a criatura e pôs uma pata nas costas dela, como um jovem príncipe pousa uma bota num tamborete. — Você encontrou as salsichas?
Kate Somente agarrou o gato no colo e virou a cabeça de um lado para outro, em pânico, com medo de que alguém pudesse tê-lo ouvido. O rato-almiscarado tentou escapulir, trôpego.
— Ele está escapando! — gritou o gato.
— Braque! — gritou Kate, em resposta. E depois ela se forçou a sussurrar, apesar de ter saído como um chiado: — Braque, eles vão me matar.
— O quê? Quem? E quer fazer o favor de parar aquele rato-almiscarado?
Kate o soltou, e ele deu um bote e matou a criatura com um único golpe na nuca. Braque então se voltou para ela e tentou continuar indiferente:
— Você estava dizendo?
— Os nômades. Eles descobriram o caso da minha sombra. Acham que sou bruxa. Eles... Não podemos deixar que eles encontrem você aqui.
— Ora, bobagem. Eles me adoram. Todo mundo me adora.
— Nós dois precisamos fugir daqui, Braque.
Braque enfiou a cabeça pelas barras. O vão apertado alisou para trás seus bigodes.
— Não dá para você passar — disse ele, puxando a cabeça de volta para dentro.
— Eu sei disso. Precisamos da chave.
— Bem — disse ele. — É bastante simples. Vou roubá-la.
Kate ficou abatida com a ideia.
— E se eles o apanharem...
— Ora. — Braque agitou as orelhas. — Eles não vão me ver nem de relance. Sou o rei dos gatunos, o mestre da dissimulação. Se é da chave que você precisa, vou obtê-la para você. Onde ela está?
— Stivo — gaguejou ela. — Stivo pendurou-a no cinto. Braque, se eles o apanharem, vão matá-lo.
— Eles não me apanharão — disse ele, despreocupado, e saiu dali pelo meio do capim alto.
Deixou para trás o rato-almiscarado, como a lembrança de um amante, como uma promessa de que retornaria.
Kate Somente deixou a cabeça cair para trás contra as barras. Elas eram duras e desconfortáveis em contato com seu cabelo. O teto de barras quebrava o sol em tiras de sombra, mas nenhuma sombra tocava nela. Era como não conseguir piscar os olhos, como não conseguir gritar num sonho. Ela arregaçou as mangas da bata para coçar as picadas de pulga e olhar para o sangue que saía do longo ferimento.
Do chão por baixo dela brotava água, e sua calça de malha estava molhada, com a lã cheirando mal e grudando nela. Na frente da jaula, onde os nômades apavorados tinham ficado circulando, o sol fazia subir espirais de vapor da lama revirada. Ela ficou olhando para as pegadas arrastadas, os furos gêmeos das bengalas gêmeas de Rye Baro, que eram como olhos, e as grandes marcas das botas de Stivo. Bem diante da porta ela podia ver o lugar onde ele tinha pisado na chave.
A forma da chave estava gravada na lama.
Kate Somente fixou o olhar nela. Uma forma de esperança.
Como sempre, ela estava com o formão que seu pai lhe dera quando tinha três anos. Estava enfiado numa bainha costurada no interior da sua bota. Se ela tivesse madeira... e sua mente já estava escolhendo alguma madeira dura, freixo, carvalho, para contornos resistentes, para forçar a fechadura... se ela tivesse madeira, poderia entalhar uma chave.
Kate Somente passou o dedo pelo objarka de gato na tira de couro em torno do seu pescoço... mas era pequeno demais. Ela começou a revirar a palha e a lama, mantendo a cabeça levantada, a observar a tenda do conselho. Chegavam vozes duras e brandas, que aumentavam e baixavam. Do lado de fora da tenda, Wen jazia descorado e imóvel na esteira, com Daj encurvada ao seu lado, as mãos no rosto, cantando alguma coisa. Ninguém estava vigiando a jaula.
Mas não havia madeira. Kate procurou entre todos os fragmentos de palha. Ela enfiou os dedos na lama na esperança de encontrar raízes, mas as únicas que encontrou eram finas como cabelo emaranhado.
De repente, da tenda veio uma explosão de gritos. Braque saiu como um raio pela aba da frente, correndo veloz e junto do chão, como uma raposa, com a chave da jaula na boca. Alguns dos nômades saíram a toda velocidade atrás dele. Ela viu Stivo com um machado na mão.
Braque era veloz, mais veloz que os homens. Ele vinha em disparada direto para ela. Ele ia conseguir, mas depois o quê...
Stivo lançou o machado.
A parte chata do machado atingiu a cabeça de Braque atrás das orelhas. O gato caiu com uma cambalhota e ficou mole como se fosse só pele. A lâmina do machado soltou-se do cabo. Stivo levantou Braque pelas pernas traseiras, como um coelho morto. Ele apanhou o cabo do machado com a outra mão. Veio andando a passos largos na direção dela, com a cabeça de Braque balançando.
Kate Somente soluçava. Ela não queria chorar na frente de Stivo, mas não conseguiu se conter. Ele largou o corpo de Braque na lama revirada diante da jaula.
— Esse animal é seu, menina-bruxa?
Braque entreabriu um olho amarelo.
— O nome dela — disse ele, com a voz arrastada e pesada — é Katerina, Estrela do Meu Coração.
Stivo deu um salto para trás, deixando cair o cabo do machado e protegendo o rosto com dedos torcidos.
— Braque! — disse Kate, soluçando. Ela estendeu as mãos através das barras para pegá-lo. Stivo ainda estava recuando. — Braque!
Ela apalpou e virou o corpo quente do gato. Ele estava se debatendo um pouco.
— Não se mexa — sussurrou ela, e o segurou por baixo dos braços, aninhou sua cabeça e o fez passar delicadamente pelas barras. Ela manteve uma das mãos nas suas costelas arquejantes, enquanto puxava a palha mais seca para fazer uma cama para ele. Stivo tinha ido embora. — Ai, Braque — disse ela. — Braque, me perdoa.
Ele tentou olhar para ela. Seus olhos se envesgaram, e ele não mexeu a cabeça.
— Deixei cair a chave.
— Não se preocupe. Pequeno gatuno, pequeno mestre da dissimulação... — Ela afagou o lado do seu corpo e viu que ele ficava mais mole e mais comprido à medida que ia adormecendo.
De repente, ele abriu os olhos outra vez.
— Você guardou algum pedaço do rato-almiscarado?
— Guardei ele todo. — Ela pôs a caça ao lado dele.
— Hummm. — Ele piscou devagar e voltou a amolecer o corpo. — Quando eu acordar do cochilo... — Em seguida ele adormeceu de verdade. Ela observava sua respiração. Vigiava a tenda do conselho, onde as vozes agora estavam mais altas, e ela ouvia a de Stivo aguda, com raiva ou medo. Ninguém ia vir, não por enquanto.
Kate Somente olhou para Braque estendido, ferido e sem energia. Ela então inclinou o ombro e o braço entre as barras para alcançar o cabo do machado. Seus dedos roçaram nele, e ela o moveu aos poucos pela lama até conseguir apanhá-lo.
Acabou se revelando que o cabo do machado estava partido, e que a fratura estava amarrada com um retalho de riscadinho puído. Era um trabalho desleixado, que a deixou zangada. Ela poderia tê-lo consertado facilmente, para Stivo, se ao menos ele lhe tivesse pedido. E assim talvez ele não a tivesse odiado. Ela prendeu o cabo por baixo do pé e puxou a madeira fendida até quebrá-la de vez. Fechou o punho em torno do resto de madeira e tirou a faca da bota.
Kate Somente entalhava, e ninguém veio matá-la. Os homens permaneceram na tenda. As mulheres não se aproximaram. Andorinhas precipitavam-se pelo céu da tarde. Daj entoava a melodia monótona sobre Wen, que não movia um músculo. Braque continuava a dormir, abraçado ao seu rato-almiscarado, como uma criança com uma boneca. O tempo todo a madeira dura ia saindo em espirais a partir da pequena lâmina, e ninguém via.
Ela estava com tanto calor e com tantas picadas de pulgas que quase ficou feliz quando anoiteceu, apesar de poder sentir que seu tempo estava se esgotando, do mesmo jeito que o pão no skara rok. A chave agora estava quase com o mesmo formato da impressão na lama, mas não entrava na fechadura. Ela a afinou, lasca por lasca.
Junto com o dia, o calor foi embora. Uma névoa começou a se erguer do riacho, do rio, do próprio chão encharcado. Kate aconchegou-se na palha úmida e fria. Acenderam uma fogueira na tenda do conselho, e a lona se iluminou. Fogos-fátuos balançavam junto ao rio, como a lanterna de um barco. Uma outra luz veio se aproximando dela através do nevoeiro, e o vulto de um homem vinha atrás. Era Behjet com uma lâmpada de sebo. Ele estava segurando um cobertor, com um forte cheiro de cavalo, que passou para ela pelas barras. Ela se enrolou no cobertor.
— Tudo bem com seu gato?
Kate puxou um canto do cobertor por cima de Braque, encobrindo-o.
— É um belo animalzinho — disse Behjet. — Mas é estranho, você não acha? Um gato que rouba chaves. Faz a gente pensar.
Kate não disse nada.
— Meu irmão diz que ele falou.
Kate continuou sem dizer nada.
— Stivo. — Behjet puxou o próprio queixo. — Entenda, Kate Somente. Ele perdeu a mulher porque ela era bruxa. Quase perdeu a filha. Seu amor se transformou em raiva. E sua suspeita... veja só. As histórias da sua cidade. A morte do sono que acompanha você. Sua sombra. E agora seu gato, roubando uma...
Nesse exato instante a cabeça de Braque saiu escorregando de dentro do cobertor.
— Tem morcegos por aí — balbuciou ele, levantando-se trôpego. — Ouça, eles cantam para mim! — E tombou.
— Quer dizer que é verdade — disse Behjet.
Kate Somente olhou para ele, forçando os olhos através do nevoeiro. Estava praticamente tudo escuro, e ela não conseguia ver o rosto dele, com exceção da lua que estava redonda nos seus olhos.
— Behjet, não sou bruxa. E não fiz mal a Wen.
E agora Behjet não disse nada.
— Behjet, o que vão fazer comigo?
Ele olhou por cima do ombro para a luz espectral da tenda.
— Preciso voltar para o conselho.
— Me diga, por favor — disse ela, mas ele deu meia-volta e foi embora.
A chave estava quase pronta. Entrava na fechadura, e Kate pôde sentir que ela se encaixava e girava, quase girava. Kate precisou arregalar os olhos como os de uma coruja para comparar a chave de madeira clara com o fantasma negro da chave na lama.
O luar estava luminoso, mas a névoa o toldava. Daj cantava por sobre o marido. A cantilena não parava nunca. Tinha se tornado interminável, como o ruído de um rio. Kate continuava a entalhar e desejava ter alguma coisa com que pudesse tapar os ouvidos.
Finalmente, ela pôs a chave junto do buraco da fechadura e não conseguiu ver diferença. Kate enfiou a chave no buraco da fechadura, e ela entrou como a mão numa luva. Podia ser dessa vez. Ela apanhou a chave. Agachou-se e olhou ao redor. Ela só teria uma oportunidade para escapar.
Kate Somente passou o dedo pela chave.
Havia alguém se movimentando no nevoeiro.
Kate ficou paralisada.
Ela não conseguia ver quem era, nem mesmo o que era. Vinha subindo do rio, e de início Kate achou que era uma mulher vestida em cordões de cabelos e nuvens. Mas, à medida que ela se movimentava, um membro se encompridava e outro se encurtava; quando ela se voltava, seu torso se contorcia como roupas de cama sendo torcidas. Às vezes, Kate conseguia ver através dela, e às vezes não. Vinha uma música com ela. Era linda, e Kate teve vontade de...
Braque levantou-se cambaleando e deu um uivo chiado, horrível.
— Criatura! — disse ele, cuspindo. — Criatura!
E então Kate teve vontade de dar um berro.
Nós chamamos para a escuridão, dissera Drina. Não sabemos o que respondeu. Foi isso o que respondeu. A sombra doentia na parede da tenda delas, o horror que se aproximava. A criatura-mulher estava vindo na direção dos vardo e da tenda do conselho. Kate Somente tentou gritar pedindo ajuda, mas não conseguiu. A música enevoada envolveu-a como uma teia de aranha, e ela não conseguia nem se mexer. Ficou olhando a criatura chegar deslizando.
Ela então viu Stivo, de lâmpada na mão, sair para cuidar dos cavalos que se queixavam e batiam as patas.
A mulher branca chegou perto de Stivo depois da borda do acampamento, onde o nevoeiro turbilhonava. Ele deixou a lâmpada cair e o óleo derramou no capim, com chamas fortes. Ele disse alguma coisa, uma palavra que Kate não captou, um grito rouco de... medo? alegria? e abriu os braços para a criatura. Quando ele a tocou, seu corpo inteiro se contorceu como um junco na água. Kate, olhando, sentiu a torção horrorosa, impossível, como se estivesse acontecendo com ela, mas continuava paralisada, praticamente nem...
Braque uivou e mordeu a mão de Kate.
Kate deu um grito e descobriu que conseguia voltar a se mexer.
— Stivo! Stivo! — berrou ela.
A mulher voltou-se na direção da sua voz. Ela recolheu a mão e Stivo desabou aos seus pés. Olhos como abismos fixaram-se em Kate Somente.
Num medo descontrolado, Kate gritava. Ela batia nas barras da jaula, ainda presa ao olhar da criatura: a pele descorada e fina como a de uma cebola, o cabelo branco e ondulante como algas, o rosto afilado como uma faca e esfaimado.
— Socorro! — berrou Kate. — Socorro! Deixem-me sair!
Saindo da tenda e descendo dos vardo, os nômades estavam vindo na sua direção, cautelosos, olhando ao redor. De imediato, Kate descobriu que seus olhos estavam liberados. A criatura branca estava sumindo na direção do rio. Kate arquejou e se inclinou para a frente encostando nas barras, respirando com dificuldade.
— Katerina... — avisou Braque.
Ela levantou os olhos bem a tempo de ver Behjet, que vinha subindo do prado dos cavalos, cair inteiro sobre o corpo caído de Stivo.
Behjet levantou-se até ficar de joelhos, com as mãos no irmão, seu rosto triste, afetuoso, contorcido de medo e dor.
— Stivo! — gritou ele. — Deus! Pela Madona Negra, venha nos ajudar! — Ele levantou Stivo, pálido e imóvel nos seus braços. Exatamente como Wen, pensou Kate. Exatamente como Wen.
Daj chegou apressada, pesada e bamboleante, como um urso correndo. Ela se jogou de joelhos, e seu canto baixo se transformou num lamento lancinante:
— Ai, não! — gritou ela. — Não, não!
— Daj! — disse Behjet. — O que houve?
— Deus nos livre! — respondeu ela. — Esse sono mata. Wen morreu. Meu marido! Meu filho!
Uma calma abateu-se sobre Behjet. Ele apanhou a lâmpada de Stivo com o óleo que espirrava. Levantou-se devagar como a subida da maré. Foi se aproximando de Kate Somente.
Ela fugiu da expressão no rosto dele, até as barras a impedirem. Braque levantou-se, meio torto e atordoado.
— Não se aproxime — disse ele. — Eu mordo.
Kate mal ouviu o grito abafado das pessoas que iam se reunindo. Os olhos arrasados de dor de Behjet prendiam seu olhar como os da criatura tinham prendido.
— Menina-bruxa — disse Behjet, tranquilamente. — Isso foi demais. — E atirou a lâmpada sobre ela.
A lâmpada de barro quebrou, e o sebo se espalhou. As chamas cobriram a jaula. A palha e a manta de cavalo começaram a fumegar. Kate Somente deu um grito e se jogou contra a porta, lutando com a chave de madeira.
— Katerina! — uivou Braque, com o pelo já se encrespando. Ele foi recuando entre as barras, cambaleando. — Katerina!
— Corre, Braque, corre! — Mas ele se encostava tanto nas barras quentes que ela sentia o cheiro do pelo fumegante. Sua calça de malha encharcada também fumegava; o fogo subia pela sua bata leve, e ela dava tapas para apagá-lo. Ela estendeu a mão através das barras, torcendo o pulso para trás. Seu cabelo estava em chamas. A chave entrou na fechadura. Behjet olhava espantado, mas não a impediu. A chave quase girou, e depois finalmente girou. Ela se jogou contra a porta, que se escancarou. Apanhou Braque no colo e saiu trôpega na direção do rio. Ela ouviu Behjet começar a gritar e Daj aos soluços:
— Chega, chega, deixem que ela vá embora.
A multidão abriu-se em torno dela. A água estava fria e a acolheu.