Kate Somente
11. Um Fantasma no Rio
onze
UM FANTASMA NO RIO
— Esse seu gato é mesmo uma amolação. — Linay estava empoleirado na beira do catre. Kate o viu desfocado e depois com o contorno em silhueta, enquanto se esforçava para conseguir abrir os olhos. Kate estava acordada de novo e de novo confusa. Demorou um instante para ela organizar na cabeça, e na ordem certa, o rapaz nas papoulas, a jaula do urso, o remanso dos salgueiros, o arco do violino e o machado na escuridão. Todos eles giravam em torno de Linay. Todos eram culpa dele, e ali estava ele sentado ao lado dela, cuidando de um ferimento no pulso, assobiando. — Ele mordeu quase até o osso, olhe! — Ele exibiu um dedo arranhado.
Era dia novamente. E era um amanhecer ou um entardecer. A luz na escotilha era suave, e pássaros cantavam.
— Sente-se então, bela donzela. Isso você deveria conseguir. Embora talvez não devesse voltar a sair em peregrinação. — Ele estendeu a mão para a dela e a puxou para cima. As mãos de Kate estavam cobertas com curativos macios e bem-feitos, de linho limpo.
Linay fechou a mão e então simulou que os dedos passavam ondulantes sobre o trasto do violino. O dedo mordido parecia duro.
— Meu dedilhado vai ficar uma droga. — Ele olhou para ela, sorrindo, mas sem humor, implacável como a neve. — Sorte sua eu não machucá-lo.
Kate Somente sentiu frio. Ela podia ouvir Braque no convés, miando ruidosamente. E Linay cantou baixinho, pondo em palavras a canção do gato:
Ó ratos, ratos, lanches com patas,
Venham a canção de Braque escutar!
Podem se contorcer, podem gritar...
Hão de ser presente para minhas gatas!
— Eu sentiria muito feri-lo, Kate Somente. Sentiria de verdade.
— O que você quer? — perguntou ela.
— Sangue — disse ele, com leveza. Depois, como se tivesse se lembrado de já ter dito isso antes, acrescentou: — Desta vez, o seu, Kate, minha menina. Já dei a maior parte do que eu tinha para dar.
Ela estava sentada ao alcance dele, acuada num canto do catre. Ele estava entre ela e a escotilha. Estava ficando escuro. Ela levantou o queixo... e sentiu o repuxão das suas cicatrizes recentes.
— Se você quer sangue, deveria ter me matado enquanto eu dormia.
Os miados de Braque foram desaparecendo à medida que ele partiu para caçar e fazer filhotes. Linay ainda sorria.
— Mas não é assim que a magia funciona, bela donzela. A magia é — ele abriu majestosamente as mãos ossudas — uma troca de dádivas. Uma sombra pelo desejo do seu coração, por exemplo.
Kate semicerrou os olhos.
— Para que você precisa de sangue?
Linay olhou para ela. O olhar pareceu ir fundo.
— Talvez eu lhe mostre — disse ele.
Eles saíram para o convés. Estava fresco e claro, logo depois do pôr do sol; a estrela vespertina abria seu olho, e os grilos cantavam mais alto. Eles tinham avançado mais pela região de serra, onde o rio se dividia como tranças de cabelo em torno de ilhas, cobertas de bosques. Protegido por uma dessas ilhas, o barco ancorado balançava.
Havia um nevoeiro um pouco atrás deles.
— Então — disse ela.
Linay nada disse. Kate olhou ao redor. Não se via Braque em parte alguma. Ela conseguia ouvi-lo ao longe, cantando sua canção de galanteio. Morcegos enxameavam o céu pálido, andorinhas disparavam acima do rio, e ela pensava nele. Linay sentou no teto da cabine. Ela, em pé, estava da mesma altura que ele sentado no teto baixo. Ela podia ver o queimado de sol, rosa no repartido do cabelo branco. Fazia com que ele parecesse quase humano.
Olhando na direção do nevoeiro que se adensava, ele fez uma pergunta:
— Você já passou fome?
Ela deu de ombros.
— É claro que passou — resmungou ele. — É claro.
— O que você quer, Linay? — Era a primeira vez que ela dizia o nome dele. Parecia ter poder.
— Os mortos, sabe, têm fome. Aqueles que não descansam. Eles passam fome o tempo todo, e não podem nem comer capim. — Ele estava a meio caminho de cantar de novo. E pareceu se conter. — Eles têm a boca do tamanho do buraco de uma agulha e o estômago do tamanho de uma montanha. É um destino terrível.
— Disso eu sei — disse ela. — Todo mundo sabe disso. — Embora na realidade seu jeito de dizer isso fizesse sua pele formigar.
Mais uma vez ele parou de falar. Seu silêncio cresceu entre eles como a música de insetos na noite de verão.
— Minha irmã — disse ele por fim, com a voz baixa e embargada. Ele engoliu em seco e tentou novamente: — Minha irmã é um deles. Um dos mortos famintos.
— Eu a vi. — Kate adivinhou, soube, de imediato, e seu cabelo ficou em pé com a percepção. — Uma mulher branca. Uma...
— Rusalka — disse ele, demorando-se no sabor amargo da palavra. — O fantasma de uma mulher afogada. De uma bruxa empurrada por engano para dentro do rio. Criaturas desse tipo são chamadas de rusalka. Não há muitas. A verdadeira bruxaria é um dom raro, e os gadje preferem o fogo quando nos matam.
Ele disse gadje do mesmo jeito de Stivo, e Kate viu que, por trás do seu modo de usar sua própria pele branca-de-bruxa como uma máscara, Linay tinha os ossos estreitos, a boca cheia e os olhos amendoados de um nômade. Um nômade, sozinho.
Ele se levantou.
— Você já a viu?
Ela fez que sim.
— E a verá novamente. — Ele passou roçando por ela e ficou parado na borda do barco, olhando para a água lá embaixo. Kate Somente virou-se e olhou também. Ali começava a surgir de leve um nevoeiro trêmulo: a extremidade do nevoeiro os estava alcançando. — Logo — disse Linay. Ele desenrolou as ataduras do braço, que estava coberto de cortes longos e profundos. Kate Somente olhou espantada. De repente, havia uma faca na outra mão de Linay. Ela faiscou, e Kate se afastou sobressaltada, mas a faca já tinha sumido, devolvida para algum bolso oculto nos recônditos do casaco de Linay.
Linay tinha se cortado. Ele estendeu o braço, e o sangue escorreu e gotejou das pontas dos dedos. A noite estava muito silenciosa, e eles podiam ouvir o minúsculo som das gotas de sangue caindo no rio.
Linay relaxou e sentou-se no teto da cabine como se seus joelhos não o aguentassem mais.
— Ela virá. O sangue chama. Ela virá.
Kate ficou ali parada, olhando para o nevoeiro. Ele estava mais denso, mas os buracos criados pelas gotas de sangue permaneciam, descendo através dele.
Linay falou atrás dela:
— O que você vai fazer, Kate Somente? Se ela tocar em você, se ela só tocar, você cairá num sono sombrio para nunca despertar. Estão dizendo que é “a morte do sono”. Não há como você escapar. — Ainda assim, Kate não quis se virar. Os buracos no nevoeiro estavam se abrindo como uma boca. Linay continuou: — Ela está chegando.
Kate nada disse.
— Posso salvar você — disse ele. — Posso impedi-la. Existe um feitiço, com sangue. Se você me der sangue, posso usá-lo para impedir que ela a mate. Não quero que ela a mate.
— Você está mentindo.
Linay deu uma risada, como um latido frustrado.
— Não posso! — Sua voz estava descontrolada. — Até mesmo tentar já me mataria. Não posso mentir e não posso lhe dar mais sangue, não muito. Eu a estou levando, pelo rio, até Lov. Quer dizer um mês, pode ser. Não preciso de muito sangue para isso. Uma xícara por dia, talvez. Duas. — Agora ele estava procurando convencê-la. O pânico de Linay lhe deu medo.
Ele olhou para além dela. Seus olhos se fixaram em alguma coisa. Ele os fechou.
— Decida-se.
Kate Somente girou. O fantasma vinha se erguendo do poço de escuridão.
Kate Somente precisou recorrer a toda sua força de vontade para dar as costas ao fantasma e encarar Linay. Ela podia sentir a criatura atrás dela. Era como estar parada junto da entrada de uma gruta: o bafo parado enregelava sua nuca. Sua própria respiração estava presa com o pavor. Mas ela não se virou.
— Eu quero uma coisa — disse ela.
Linay bufou, quase com uma risada:
— O quê?
— Minha sombra.
— Mas ainda não acabei com ela. — Ele realmente parecia estar a ponto de rir, prestes a se desfazer em risinhos nervosos, como o final de uma água fervendo numa panela. — E tanto faz eu ficar com ela, porque dentro de um minuto ela já não lhe servirá de nada. Eles não usam sombra, sabe, na terra dos mortos. Simplesmente não se usa.
Kate não deu atenção a isso.
— Sem ela eu não posso viver. Por isso, eu bem poderia morrer agora. Nós dois vamos morrer, não vamos? Ela vai levar nós dois.
O olhar dele bruxuleou por um instante, atrás dela e mais para o alto.
— Isso mesmo.
— Então... — disse ela. No limiar da sua audição, música. Uma voz fria cantava.
Linay estava sentado imóvel, mordendo a ponta da língua, tingindo os lábios brancos com sangue. E então ele concordou, com um gesto súbito e marcante.
— Ainda não. Vou precisar da sua sombra. Em Lov. Mas em Lov eu a libertarei.
Kate Somente ficou ali em pé, paralisada, presa entre a ameaça e a esperança.
— É uma promessa de um homem que não pode mentir — disse Linay. — E é só isso o que você vai conseguir. Aceite agora se quer continuar viva.
Algo tocou de leve a nuca de Kate, como uma pena. Ela se virou de repente, sacando o formão. A criatura estava bem ali, logo atrás dela, como uma sombra.
Kate deu um salto para trás, tropeçando. O nevoeiro se encapelou, e a criatura feita de nevoeiro avançou. A música, a música vazia, derramou-se sobre o convés do barco. Kate sentiu-a ao seu redor, dentro de si, avolumando-se e enchendo suas pernas. Era um vazio que era como um calor, um peso que era como ir embora flutuando. O sono.
— Pare! — disse ela, quase sem voz, brandindo o formão, que atravessou o nevoeiro e não deixou nenhum ferimento. — Linay!
— Sangue — disse ele, parecendo calmo novamente, achando graça. Ela arriscou um olhar na direção dele, procurando um contato com os olhos, como quem está se afogando procura. Ele apenas estava sentado, apenas observava. — Experimente o pulso.
Kate Somente tentou se controlar. Facas... ela conhecia facas. Tinha se cortado com frequência suficiente para saber como tirar sangue. Respirando fundo, ela enfiou a ponta do formão no pulso, e com um leve giro abriu ali um pequeno furo. O sangue escuro se acumulou, e ela o deixou escorrer para a mão em concha.
A rusalka foi deslizando na direção dela — como o próprio sono, a criatura deslizava: cinzenta, sem rosto, imensa. A figura tremeluzia como camadas de gelo e aparecia em pequenos pedaços: a mão comprida, o cabelo jogado, um olho vazio. E depois, de repente, um rosto. Era estreito, triste e de uma beleza inimaginável. Kate Somente caiu de joelhos, como se tivesse visto um anjo.
Kate teve vontade de se enrodilhar no convés e cobrir o rosto, mas não o fez. Ela ergueu a mão, cheia de sangue. De modo disparatado, ela se lembrou da última vez que tinha erguido a mão desse jeito, para Braque: um dia, quando os nômades se afastaram muito do rio, ela despejou água de um odre na mão em concha e a estendeu para ele. Enquanto Kate pensava, a rusalka mergulhou a cabeça e bebeu.
Kate teve a sensação de que uma coisa semelhante a uma boca se fechava sobre o furo no seu pulso. Ela sugava o sangue, ou mais que o sangue. Os ossos. Seu próprio nome.
O tempo foi passando.
Kate estava morrendo. Tinha a sensação de estar sendo transformada em sono e água.
E em seguida um borrão cinzento chegou como uma bala de canhão através do nevoeiro e com um baque colidiu com seu peito.
Kate Somente caiu de costas. Braque estava em pé sobre seu tórax, aos gritos:
— Katerina! Kate! Kate! — Suas garras a espetavam através das roupas. O pelo estava eriçado numa crista em suas costas.
— Braque... — Ela engasgou ao dizer seu nome. Grogue e passando mal, ela se apoiou num cotovelo. A rusalka...
... a rusalka estava ajoelhada ao lado de Kate Somente no convés. Ela era feita de nevoeiro e sombra, até Kate captar seu olhar, e então, de imediato, ela se tornou humana. Ela era jovem, travessamente triste, uma raposa numa fábula. Kate apaixonou-se por ela. Em seguida, ela se foi.
Foi como acordar de um sonho. Kate sentou-se, e Braque caiu do seu peito, enredando-se nas suas pernas abertas, dando voltas, com ar arrogante, roncando como os gatos fazem quando estão muito magoados.
— A criatura! — disse ele. — A criatura veio, quando eu não estava aqui para enfrentá-la!
Kate Somente girou o corpo. Linay, como se não tivesse se mexido, estava sentado de pernas cruzadas no teto da cabine. Ele encolheu os ombros de um jeito leve, despreocupado, e apanhou a rabeca. Kate levantou-se e desceu do convés.
Kate Somente ficou deitada no catre estreito, escutando os sons agudos da rabeca de Linay, que ressoavam estranhos e descontrolados pela água afora. Braque andava para cima e para baixo pela beira do catre. Suas patinhas a atingiam como cinzéis rombudos.
— Pare com isso — disse ela, quando não conseguia aguentar mais. — Deite-se.
O gato saltou por cima dela e começou a percorrer o espaço de um palmo entre o corpo de Kate e a parede do barco. Na terceira ou quarta vez que ele deu a volta junto ao rosto dela, ela o enxotou:
— Braque! Deite-se!
Ele parou, olhando para outro lado, com a cauda inquieta ondulando acima do rosto dela.
— Eu poderia ir matar alguma coisa para você — ofereceu-se ele.
— Basta você se sentar.
Ele se voltou, pisando no baço dela, e se sentou.
— Sinto muito — disse ele. — Não gosto disso. É uma expressão nova, “sinto muito”. Não deveria ser usada por gatos.
— Acho que não.
Ele se deitou e encaixou o queixo estreito na mão dela.
— Mas sinto muito. Sinto muito por não estar aqui para matar a criatura para você.
— Não é uma criatura. — Kate estava se lembrando do rosto brilhante da rusalka... medo e um bruxulear de chama nos olhos espectrais. — Um dia ela deve ter tido um nome.
— Ora! — disse o gato. — Ela agora está morta. Os mortos deveriam permanecer mortos. Se não for assim, eles poderiam arranhar a gente por dentro.
— Ora! — ecoou Kate. A música suspirava e ondulava. Ela esfregou seu pulso cortado e então enroscou o braço no calor macio de Braque. As noites estavam ficando mais frias.
O gato rolou e amoldou a espinha ao lado do seu corpo.
— Durma — disse ele. — Eu fico de guarda.
Mas Kate Somente ficou muito tempo deitada no escuro, muito depois que o gato adormeceu, escutando a música triste e pensando.
Linay era bruxo e um nômade solitário. Sua irmã era bruxa, uma mulher que tinha sido queimada e afogada. Quantos deles poderia haver? Linay, Kate tinha certeza, era tio de Drina, o homem que tinha dado um pedaço da sua sombra para invocar os mortos. O homem que havia enlouquecido.