Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 10 de 19

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Kate Somente

10. A Chalana, o Remanso e a Estrada Deserta

dez

A CHALANA, O REMANSO E A ESTRADA DESERTA

 

Ela balançava como um berço. Havia um ruído leve como uma pomba ou ondas num cais. Kate Somente acordou.

Estava seca. Deitada em alguma coisa macia. Enrolada em acolchoados. Havia uma estrela de luz flutuando acima dela e um cheiro semelhante a um jardim de ervas. Braque era uma quentura esticada ao seu lado, com o queixo na sua mão, a cauda enrolada sobre seu pescoço. Ela achou que eles poderiam estar no paraíso.

Braque soltou um pum.

Kate Somente tossiu e espirrou. E em seguida acordou de verdade.

Não estava no paraíso, mas num pequeno catre, em um barco. O teto pintado estava bem perto dela. As lambidas da água batiam na sua orelha através do casco. A cauda de Braque movia-se rapidamente sobre seu rosto. Ela sentiu o cheiro do pelo torrado. Ele se contorceu e logo seu rosto apareceu saindo do cobertor.

— Braque — sussurrou ela. Sua voz estava áspera devido à fumaça.

Ele soltou um pequeno “miau”. Não houve palavras.

A luz dourada se mexeu. Uma lâmpada de junco numa lata perfurada balançava acima dela como o céu noturno. Um rosto pálido flutuava no alto.

— Bela donzela da madeira — disse uma voz conhecida. — Você está acordada?

— Você — disse Braque, cuspindo.

Porque era Linay.

Linay deu uma risada, surpreso.

— Foi esse o seu desejo? Um gato falante!

Braque alisou as orelhas para trás.

— Nós não gostamos de você.

— Ora, ora — disse Linay, com um largo sorriso —, eu não os culpo, bichano. Mas posso curá-los, gostem de mim ou não. — Ele pendurou a lanterna. — Você consegue se sentar, minha pequena?

Kate Somente lutou para se sentar, e ele pôs os braços em torno dos seus ombros. Estava com um pequeno pote na mão, que cheirava a ervas e trovões. Braque farejou uma vez, contraiu-se com repulsa e começou a recuar.

— O que...? — Kate tentou dizer e começou a tossir. Sua garganta dava a impressão de ter sido lixada com uma grosa.

— Shhh — disse ele. — É só um unguento.

— O que você quer? — sussurrou ela.

O unguento parecia fresco como algas sobre suas queimaduras. Linay cantarolava. Ele passou o unguento na testa e nos malares de Kate. A melodia cantarolada foi se transformando em canção:

Lenore minha irmã tinha poder

Ela podia fazer o botão florescer

Fechar a ferida ou a febre abrandar

E assim sua vida ia passar

No ano da febre, eles a buscaram

Com açoites e fogo à loucura a levaram

Para o rio enregelado a empurraram

Para ali encontrar a morte, eles acharam

Mas sua alma injustiçada se tornou água

Rusalka, fantasma perdido do rio

Vampiresa, sereia, condenada a vagar

e a nunca descanso encontrar

Lenore, minha irmã — eu quis salvá-la

Do rio procurei puxá-la

O que a ela fizeram a eles hei de fazer

para assim sua vida renascer

A canção era importante. Kate tentou escutá-la e guardá-la na lembrança, mas não conseguiu. Tinha a sensação de que poderia se desfazer no ar, como o sal na água.

— Beba — disse Linay.

Havia uma xícara junto dos seus lábios. A bebida era ao mesmo tempo fresca e morna.

Ela adormeceu.

 

Kate despertou de novo, e mais uma vez o barco estava balançando. Ela se sentia como se estivesse dormindo havia dias e mais dias, meio que mergulhada em longos pesadelos. A correnteza falava na madeira junto do seu ouvido, e ela podia sentir o balanço do barco e ouvir os chapes e estalos de uma zinga. Eles estavam se movimentando.

Eles. Linay.

Ela se sentou no catre. Quanto tempo tinha passado dormindo? Havia uma secura azeda na sua boca, e o sonho se estendia longo demais por trás dela.

— Braque — sussurrou ela, e a voz saiu gutural.

O gato estava enroscado num canto junto dos seus pés, entre um pequeno caldeirão e uma bolsa encaroçada: três pilhas redondas. Ela só o avistou quando ele levantou a cabeça e entreabriu um olho.

— Ah! — bocejou ele. — Olá.

— Há quanto tempo... — Ela esfregou os olhos e seus dedos encontraram trechos de oleosidade dormente no seu rosto. — Há quanto tempo... onde é que nós estamos?

— Num barco — disse ele, levantando-se e se espichando num bom alongamento. Seu pelo estava queimado de um lado, mas os pedaços nus estavam cobertos com uma penugem nova. — Não me agrada. Tem a água. Mas também tem peixe, o que é ótimo para mim. — Ele foi se aproximando e esfregou o canto da boca na mão dela, marcando-a com seu cheiro.

— Há quanto tempo... Não me lembro de nada. Há quanto tempo estou dormindo?

Encolhendo os bigodes, Braque deu de ombros.

— Quanto tempo não é uma questão que interesse a gatos. — Ele levantou o queixo e olhou para ela. Quase parecia preocupado. — Comi muitas vezes — ofereceu ele a informação. — Muito peixe, muitos camundongos, três ratos-almiscarados, dois coelhos e uma pequena ave que estava dormindo. Você tomou caldo.

Ela tentou se lembrar do caldo, mas não conseguiu. Havia apenas o longo sonho sobre ser queimada e se afogar e sobre uma mulher feita de nevoeiro, faminta e terrivelmente triste. Stivo desabando no chão com um único toque. Daj indo embora. Drina sangrando. Behjet jogando a lâmpada. Ela se sacudiu. Caldo. Teria sido quente. Mas ela sentia frio; enquanto dormia, Linay a tinha alimentado, a tinha vestido. Sua pele estremeceu e seu cabelo se arrepiou. Ela se levantou.

O teto era baixo e dele pendiam muitas quinquilharias e feixes de ervas. Eles batiam e se emaranhavam no seu cabelo. Ela se abaixou e saiu com cuidado do catre para o espaço escuro e minúsculo.

Sua bata chamuscada, que fora do seu pai, que ela usava havia anos, tinha sumido. Ela estava usando um vestido de linho, branco, com bordados brancos, uma bela peça debruada com renda. Era grande demais para ela, e a renda arrastava no chão. Ela levantou a saia.

— Eu não peguei os peixes — disse Braque, continuando sua história da comida, enquanto a acompanhava. — É claro que eu poderia, mas existe a questão de eu me molhar. Ele deu os peixes para mim. Embora eu continue não gostando dele.

A claridade do dia se derramava pela escotilha e caía num quadrado do piso. O resto da cabine era uma bagunça sombreada. Sacos, rolos de cordas e fieiras de salsichas secas estavam pendurados na parede. Havia um cheiro de madeira molhada, podridão da água doce, suor humano, salsichas, especiarias e o odor de mofo de muitas ervas. Kate Somente olhou ao redor em busca das suas botas.

Encontrou-as jogadas nas sombras e se curvou para apanhá-las. Depois ela parou. As botas estavam ao lado de uma caixa, um pequeno baú torto de tábuas lascadas. No entanto, a tampa era entalhada e linda: um veado saltando.

Ela conhecia aquele veado. A caixa era feita de pedaços da banca do seu pai.

E havia algo de errado com ela.

O cabelo de Kate ficou todo arrepiado. A caixa estava mais escura do que deveria. Ela dava a impressão de estar respirando.

— Braque? — sussurrou ela. — Estou procurando uma machadinha.

— Eu não procuraria — disse uma voz cantada, atrás dela.

Kate Somente girou nos calcanhares. Linay estava encostado na escada de mão, branco à luz do sol.

— Essa caixa não é para machadinhas. Se você ama sua vida, deixe-a em paz. — Ele sorriu para ela, aquele sorriso lento, lento. — A não ser, é claro, que a machadinha seja para mim.

Ela não respondeu.

— É bom vê-la de pé. Não tem ninguém por perto. Vamos lá para cima.

Ela hesitou, semicerrando os olhos diante do seu brilho.

— Não se preocupe. É bastante seguro durante o dia. — Ele subiu deslizando pela escada.

Kate Somente assistiu enquanto ele subia e lançou um olhar comprido na direção da caixa lascada, abrigada. Depois foi pegar suas botas. Mexer nelas levantou um cheiro de couro chamuscado e de fumaça que por um instante a deixou quase enjoada de tanto medo. Ela engoliu em seco e respirou para se acalmar. Calçou então as botas, verificou o formão e passou pelo alçapão, acompanhando Linay.

 

A chalana da qual Kate se lembrava de Samilae estava atracada numa curva lenta do rio, onde a correnteza tinha aberto um canal mais reto e deixado uma volta de águas tranquilas, protegidas por um banco de areia e sombreadas por salgueiros. Kate Somente levantou-se ao sair da escotilha e respirou fundo.

Grandes salgueiros cercavam o rio, e mais além havia uma faixa de trigais. O ar cheirava a pão. Ao lado deles, na água, uma garça-cinzenta estava em pé acima do seu próprio reflexo. Kate olhou para a garça, e a garça olhou para ela, e as duas ficaram imóveis por um instante, até a garça se elevar pesada, com suas asas enormes, e partir dali.

— Uuuuu — disse Braque, saltando para o banco na extremidade chata da chalana.

— Ela é grande demais para você, bichano — disse Linay, sentado de pernas cruzadas no teto da cabine. — Essa beleza conseguiria matar um lúcio.

— Humm — disse Braque, e fechou os olhos ao sol filtrado pela folhagem.

Kate Somente ficou parada, com os joelhos bambos no pequeno convés, sem ter para onde olhar, a não ser o céu e Linay. Ela olhou para Linay. Ele estava enrolando tiras de pano branco nas mãos, puxando-as para o lugar com os dentes. As mangas do seu zupan pendiam das suas costas; seus braços estavam nus, e as ataduras subiam até os cotovelos. A parte interna dos antebraços estava manchada de sangue fresco.

Kate Somente conhecia facas: era possível alguém se cortar naquele lugar, mas somente de propósito.

Linay viu que ela o observava e estendeu a mão como que para mostrar o sangue. Ela desviou o olhar.

Seu rosto flutuava na água escura. Kate se viu e fechou os olhos, com as mãos se erguendo para cobrir o rosto queimado. Ela apalpou as cicatrizes com bolhas. E afastou as mãos.

A água lá embaixo era um espelho escuro, mostrando os salgueiros e pequenas rajadas de céu. E o seu rosto. Só Kate é o que ela é, pensou ela. Lisa como uma tábua. Um lado do seu rosto estava marcado com cicatrizes de queimaduras, em sua maior parte pálido e liso, mas engrossado e cheio de bolhas onde estava pior, um retângulo da orelha à sobrancelha. Também daquele lado, seu cabelo tinha sido chamuscado e estava crescendo de novo somente em algumas partes, feio como um pinto cujas penas mal começam a crescer.

— É bom assim — disse Linay, delicadamente, atrás dela. — Todo mundo vai virar a cara. Menos gente vai ver.

Que ela não tinha sombra, quis ele dizer. Uma vez que conseguisse olhar por trás das queimaduras, ela poderia ver que não ter sombra também lhe deixara marcas. Seu nariz não lançava sombra sobre seu rosto, seus olhos não tinham peso. Ela parecia meio apagada, flutuando na água como o fantasma de um afogado. Olhou para outro lado. Linay ainda a vigiava, concentrado, como se estivesse com fome.

Ele estava ensanguentado, com um ar tresloucado e pálido. Pálido... Ele já era pálido quando tomou sua sombra, mas pálido e forte. Agora, parecia cinzento, tão fraco quanto ela, e enlouquecido na sua fraqueza.

Ele levantou uma sobrancelha branca para ela.

— Se você quiser se lavar, vá antes de escurecer.

Ela hesitou.

— Vá em frente. Vai lhe fazer bem, se suas pernas aguentarem. Não vou espiar.

 

Kate Somente estava se dirigindo para o remanso, escondido do barco de Linay pelo salgueiro maior. Ela avançava aos poucos, ao longo do fundo do V formado pela margem íngreme e pelo imponente tronco rugoso do salgueiro, equilibrando-se com as duas mãos. A casca grossa do salgueiro fez com que ela sentisse como estavam frágeis e esticadas as cicatrizes recentes nas suas mãos. Seu movimento estava emperrado como se ela estivesse usando luvas.

— Eu poderia matar a garça — disse Braque. — Se eu quisesse. Eu me deitaria à espera num dos galhos de salgueiro e a atacaria do alto.

— Como uma pantera — disse Kate, que na realidade não estava escutando. Suas mãos. Suas mãos que seguravam o formão. Sua habilidade no manejo desse formão era toda a sua vida: a única coisa que lhe restava no mundo. Suas mãos estavam tão estranhas.

Braque enrolou a cauda.

— Como uma pantera. Ah! Uma pantera. — Ele saltou para cima de um galho e deu uns passos junto da sua orelha.

— Braque — começou ela. Queria lhe perguntar o que aconteceria com ela se não conseguisse entalhar. O que aconteceria... mas ela não encontrava as palavras. E então ela saiu da sombra do salgueiro e se descobriu acima da beira de um remanso, engastado na margem como uma pedra preciosa. O salgueiro se ramificava ali no alto e os ramos caíam como uma cortina, em toda a volta.

Braque espichou-se num galho acima do remanso.

— Eu esperaria — anunciou ele —, assim.

Kate Somente estava em pé olhando para o espaço verde, salpicado de sol. Sua pele estava suja e pegajosa como se ela tivesse passado meses enrolada numa teia de aranha. Suas pernas tremiam de fraqueza. E ela sentia as mãos dormentes, maiores do que deveriam ser, e mais distantes.

— Vou ficar de guarda — disse o gato, bocejando e fechando os olhos.

O que eu vou fazer?, teve ela vontade de perguntar. O que eu vou fazer se não puder entalhar? Mas essa pergunta estava errada. O que vou fazer sem minha sombra? O que vou fazer sem família, sem gente, sem um lugar que seja meu? O que vou fazer com minha vida nas mãos desse homem perigoso?

— Braque — começou ela.

Mas o gato estava de guarda com tanta atenção que tinha adormecido. Estava deitado no galho, com as patas penduradas, com pequenas contorções de sonho. Kate riu. E riu mais. E descobriu que não conseguia parar de rir. O riso investiu contra ela até ela se dobrar ao meio e lágrimas escorrerem dos seus olhos. E ainda assim ela continuava a rir, até vomitar com o horror daquilo tudo.

O choque físico de passar mal a acalmou. Ela se lavou. Exausta, dormiu. Quando acordou, a tarde estava dourada. Não dava para ver o barco de Linay atrás dos salgueiros grandes, mas ela podia ouvir o rio batendo nos costados retos. Ela podia voltar para lá.

Ou podia ir embora.

Qualquer um que a visse acharia que ela era um demônio. Ela não poderia ir aonde houvesse gente; eles a matariam. Não poderia viver sozinha; ela ia morrer.

Quando se está entalhando uma ponta fina, como a cauda deste peixe, dissera-lhe seu pai, com as mãos grandes sobre as suas, pequenas, e a peça a entalhar por baixo delas, este é um momento de perigo. O formão pode resvalar. Ele pode acompanhar um veio e estragar o contorno. Pode haver uma falha profunda na madeira que partirá seu trabalho em dois. Você vai ter vontade de deixar a cauda tosca e grossa; é mais seguro. Um mestre entalhador terá coragem e confiará na madeira. As coisas acabam se ajeitando. Kate, Minha Estrela. Levante seu formão.

Kate Somente pôs-se de pé. Entre ela e a estrada havia uma encosta íngreme, quase uma ribanceira, com um emaranhado de raízes curvas dos salgueiros e tomada de urtigas. Ela ergueu o rosto.

— Braque — disse ela —, vamos embora.

 

Quando por fim chegou à estrada, Kate estava arranhada e picada pelas urtigas, tremendo de exaustão. Tinha sido só uma pequena escalada, mas seu corpo estava fraco. Ela tentou ouvir a voz do pai: Coragem. As coisas acabam se ajeitando. Levante seu formão.

Ela deu as costas à direção que Linay ia seguindo e acompanhou a estrada rio acima. A estrada acompanhava os veios da terra, abrindo caminho entre as ribanceiras do rio e a faixa de terra cultivada, conquistada da floresta: campos de trigo e painço, com os montes cobertos de bosques mais além. Era uma estrada estreita, tranquila. Kate andava, e Braque saltitava logo atrás.

Enquanto ela caminhava, o tempo mudou. O sol amanteigado deu lugar a uma luz semelhante a leite aguado, e depois a um denso nevoeiro, úmido como chuvisco. O nevoeiro captava e retorcia o som de corvos no trigo, rouco como um tumulto de vozes.

Depois de andarem um pouco por dentro do nevoeiro, eles encontraram um toco de árvore abandonado na estrada. Era um carvalho, grande como um barracão e ainda atrelado a uma canga, que estava ali vazia. Kate Somente tocou um dos canzis: de freixo, velho, mas bem-feito, com a curva interna lisa como o pulso de uma dama. Não era o tipo de coisa que as pessoas numa região pobre deixariam jogada no meio da estrada. Kate Somente foi aos poucos dando a volta no toco, e em seguida viu uma coisa que a fez parar. Lá dentro, entre as raízes maiores, havia um nó de madeira, duas vezes maior que sua cabeça. Era uma rádica.

As rádicas tinham veios retorcidos que as tornavam difíceis de entalhar, mas também lhes conferiam beleza. Muitos entalhadores tinham feito sua obra principal a partir de uma rádica daquelas. Kate sonhara com isso, mas nunca teve dinheiro suficiente para poder comprar a madeira. A rádica era uma madeira rara e cara.

Kate Somente dirigiu seu olhar para as mãos, duras e remendadas com cicatrizes, brancas e cor-de-rosa como o ventre de um peixe velho. Numa terra desconhecida, sem um copeque que fosse no bolso, ela teria coisas melhores a carregar do que cinco quilos de madeira. E havia madeiras mais fáceis de entalhar, quando não se tinha certeza se as mãos trabalhariam bem. Na realidade, qualquer coisa que ela tivesse escolhido seria mais fácil de entalhar do que uma rádica de nogueira.

Mas ela a pegou assim mesmo.

 

Kate Somente seguiu pela estrada com a rádica de nogueira debaixo do braço. Farelos e grumos de terra iam se soltando, entrando nas dobras do seu vestido branco. Mas não havia ninguém para estalar a língua nos dentes em reprovação pelo estrago. A estrada enevoada estava começando a parecer estranha de tão vazia. Os campos, que deveriam estar em polvorosa com os ceifadores, estavam desertos. Da chaminé dos casebres de lavradores não saía nenhuma fumaça. Ela topou com uma vaca que mugia para ser ordenhada e deu uma cabeçada na sua direção. Quilômetro após outro, não havia ninguém.

Ela acabou chegando a um trigal que estava meio ceifado, mal tosado como o cabelo de Drina. O campo estava quieto, cheio de estorninhos que se banqueteavam com o trigo caído.

Kate Somente era uma menina da cidade, mas sabia que não se devia deixar o trigo jogado nos campos, até que as papoulas subissem através dele. Ela foi andando ao lado das flores vermelhas, sentindo suas pernas começarem a tremer de fraqueza. Havia algum problema. Algum problema.

Ela continuou andando. Havia um cheiro azedo de cervejaria, de trigo apodrecendo. Uma revoada de estorninhos se assustou quando ela passou e subiu, espiralando acima da sua cabeça, como uma tira de fumaça. Braque esticou o pescoço para acompanhar o voo, mas permaneceu bem junto dela, quase como um cachorro. É claro que ela não mencionou isso.

Kate avançava com esforço. Suas pernas pareciam odres velhos: a pele dura e os músculos batendo dentro como líquido. Enquanto andava, ela oscilava um pouco, apesar de procurar não fazê-lo. Mas não havia lugar para parar. Ela forçava os olhos para enxergar mais adiante. Havia um lugar em que o trigo ainda estava em pé, e mais além, na borda do campo, um quebra-vento de bétulas. Quando chegasse àquele quebra-vento, prometeu a si mesma que cortaria um cajado e pararia para entalhá-lo. Fixou os olhos nas árvores brancas e tentou impedir seus pés de se arrastarem. Quando chegasse ao quebra-vento, ela não parava de pensar. Quando chegasse ao quebra-vento...

Mas ela nunca chegou.

No limite irregular entre o trigo ceifado e o não ceifado havia um borrão de papoulas. Jogada ali havia alguma coisa escura como uma tora. Ela se sentaria nela, pensou, cambaleando, e...

Ela viu que a tora era um corpo. Um rapaz jovem, com o cabelo louro como o trigo, estava caído ali, com seu alfanje fincado no chão ao lado. Kate tombou de joelhos.

Braque farejou o rosto do rapaz.

— Está vivo. Comeu peixe... mas... Katerina. Sinto o cheiro da criatura. A criatura que fez isso com ele.

Kate pegou a mão sem vida do rapaz, sacudiu o ombro vestido de roupas toscas. O garoto não se mexeu, nem mesmo suspirou em seu sono. Como Wen, pensou ela. Como Stivo e como Wen. Ela fechou os olhos e tentou se levantar, mas, em vez disso, caiu para a frente. Poderia ter desmaiado. O tempo parou, sem explicação.

Quando voltou a passar, Braque estava dando cabeçadas na sua mão. Ela sentia o caroço no crânio dele, onde o machado o atingira, um ponto nodoso por baixo do pelo macio.

— Encontrei mais deles — disse ele, chiando, com o pelo arrepiado. — A criatura. Mais gente dormindo. A criatura esteve por aqui.

— A sombra branca. — Kate Somente engasgou e cuspiu fora o azedo que estava em sua boca. — A criatura que matou Wen e Stivo. — Ela olhou para o rapaz inerte, adormecido. Então arrancou o alfanje da terra e, apoiando-se nele, se levantou com esforço. Ficou ali em pé, arfando.

Braque olhava para o céu, com uma crista de pelo erguida ao longo da espinha. Kate Somente olhou para o alto também, sua pele começou a se arrepiar com um medo que foi se abatendo devagar sobre ela. Estava começando a escurecer. Um nevoeiro vinha se desenrolando a partir do rio, serpenteando acima da estrada. Já seria noite dentro de uma ou duas horas. O nevoeiro chegaria. A criatura branca viria com ele. Com um toque, ela havia matado Stivo. Kate não tinha como se defender.

— Temos de voltar — disse ela.

E, assim, eles voltaram. Exausta, ela ia trôpega e manca, carregando sua rádica, apoiada no alfanje, até o cabo liso rasgar suas cicatrizes. Ela chegou ao barco de Linay num crepúsculo roxo, com as duas mãos sangrando, encurvada como o anjo da morte.

Linay ergueu as sobrancelhas.

— Esse foi um banho demorado.

Braque deu-lhe uma mordida. Kate caiu desmaiada aos seus pés.