Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 2 de 19

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Kate Somente

2. O Desconhecido

dois

O DESCONHECIDO

 

O desconhecido era branco. Seu cabelo era cinza-esbranquiçado, como madeira descorada; seus olhos eram de um branco prateado como lata; sua pele era branca como se ele já estivesse morto há um dia.

Albino era a palavra que as pessoas instruídas usariam, mas “branco-de-bruxa” era como se dizia no país de Kate Somente. Era um azar, e talvez, pensou Kate Somente, fosse o que o mantinha perambulando. Ela sentiu uma onda de compaixão pelo homem: era fácil demais perder o lugar numa cidadezinha ou numa propriedade rural, ser forçado a viver na estrada. Uma diferença casual na cor da pele era mais do que suficiente.

Mas o homem não era nenhum mendigo esfaimado, isso ela podia ver. Ele era magro, porém forte, e se movimentava pela feira como um senhor. Do outro lado da praça, em frente à banca de Kate, ele sacudiu e estendeu um cobertor e dispôs sobre ele uma série de bugigangas de lata. Sentou-se na beira do cobertor, com um tamborim no colo.

Kate, naquele momento, estava trabalhando em um objarka para Niki, o padeiro: uma máscara na forma da Donzela do Trigo, para ser pendurada na porta da cocheira do novo cavalo que ele estava planejando comprar. Era uma peça num tamanho considerável, que lhe proporcionaria algumas semanas sem fome. Enquanto entalhava, ela escutava. O desconhecido tocava tamborim como ela nunca tinha ouvido antes: não apenas batidas e chocalhadas, mas música, cheia de vida como um riacho de águas rápidas, animada como o canto de pássaros, o tipo de música que fazia com que se acompanhasse o ritmo com os pés. A música atraía o povo para seu cobertor. Ele inclinava o queixo para cima e sorria para todos, tagarelando como filhote de passarinho, mas tudo escutando, como um poço vazio.

O desconhecido deixou Kate Somente intrigada. As bugigangas que estava vendendo não dariam conta de mantê-lo alimentado. Devia haver algo mais. Quando começou a escurecer, Niki, o padeiro, veio dar uma olhada na sua encomenda. Niki era um homem grande, macio como massa de pão e igualmente delicado. Era uma das poucas pessoas na cidadezinha a quem Kate podia fazer uma pergunta sem preocupação. Ela apontou o queixo para o desconhecido.

— Quem é aquele lá? O que ele está vendendo?

— Aquele lá? — Niki bufou. — Quinquilharias inúteis. Inúteis. — O padeiro detestava coisas que eram inúteis, desde cãezinhos de colo a bolos de casamento. — Olho nele, Kate Somente. Aquele cara poderia roubar qualquer coisa que não estivesse pregada no lugar, e algumas coisas que estivessem mal pregadas. — Sem dizer nada, ele pôs na bancada dois pães que estavam dormidos demais para vender. E, calada, Kate Somente os apanhou e deu uma mordida em um deles. Era um hábito entre os dois.

O pão estava duro como um nabo antes de cozinhar.

— Vá com calma — disse Niki, olhando enquanto ela comia. — Podem vir a ser os últimos por um tempo. Está faltando farinha.

Ela fez que sim e embrulhou o outro pão para guardá-lo. Niki olhou para o embrulho com seus olhos de cachorro triste.

— É terrível, terrível — disse ele, com um suspiro. — As balsas de trigo estão, no mínimo, uma semana atrasadas. Nenhum trigo e nenhuma notícia. Algum problema rio acima. — Ele entortou os dois dedos médios para fazer o sinal contra bruxaria.

Tempo de fome. Kate Somente sentiu frio na noite amena. O skara rok tinha começado desse jeito.

 

Kate Somente deu atenção ao que Niki disse e ficou de olho no desconhecido. Ele não estava vendendo muito: alguns brinquedos e talismãs de metal que Kate poderia ter feito melhor em madeira. Três dias de música puseram 3 copeques solitários em sua cumbuca de pedinte. O que ele parecia estar vendendo principalmente era conversa. Quando Kate Somente voltou da pesca, o cobertor dele ainda estava estendido, branco na penumbra cada vez mais densa, sozinho na feira vazia, por conta da noite.

Kate Somente estava pensando em bruxas. Como nos tempos ruins, as pessoas tinham maior disposição para comprar seus objarka, mas também estavam mais propensas a recuar um passo, a entortar os dedos para ela, quando achavam que ela não estava olhando ou quando tinham certeza de que ela estava. Como queriam que a bruxaria as protegesse, mas também procuravam por uma bruxa para culpar. Não importava que não houvesse magia na sua lâmina; as pessoas a enxergavam lá. Elas viam bruxaria no seu talento, sinais da bruxa nos olhos descombinados, na sua má sorte, na sua sombra comprida.

O desconhecido estava vendendo coisas na penumbra. Vinha gente de todos os tipos: desde o carvoeiro esfarrapado até a mulher do senhor juiz, homens e mulheres, jovens e velhos. Vinham sozinhos e aos pares, esquivando-se dos outros, olhando ao redor. Ele lhes vendia frascos de vidro que distorciam a luz do fogo das grelhas da feira, vendia ervas e penas amarradas com barbante.

Talismãs, pensou Kate. Talismãs contra ventres estéreis, amores indiferentes. Contra a fome, a doença. Contra o rumor de alguma coisa pior que emanava do rio. O desconhecido estava vendendo a bruxaria que as pessoas ansiavam por ter para se proteger. Mas era provável que já tivesse ido embora quando elas começassem a procurar por alguém para culpar.

Por quatro dias Kate Somente observou e pensou. No quarto dia, um silêncio repentino fez com que ela erguesse os olhos, espantada como se a correnteza do rio tivesse parado. O desconhecido tinha descansado seu tamborim. Ele se levantou, espreguiçou-se e foi tranquilo na sua direção.

Ela observou sua aproximação. Ele se movimentava como um polichinelo que tivesse sido montado frouxo demais, de modo que parecia prestes a dar um salto mortal ou a desabar numa pilha de ossos e barbante. As saias largas do seu zupan turbilhonavam em torno dos seus joelhos, e suas mangas desabotoadas ondulavam enquanto ele andava. Todos os homens no país de Kate usavam um casaco desse tipo, mas nesse homem ele parecia uma fantasia. Kate se perguntou se ele não era estrangeiro. Era difícil dizer por conta da sua pele e do seu cabelo, estranhos e pálidos. O casaco branco o tornava ainda mais branco, fazia com que se parecesse com um quadro que estivesse meio desbotado.

— Linda menina — disse ele, com a voz arrastada, apoiando os cotovelos pontudos no seu balcão —, ouvi dizer que você faz maravilhas de madeira.

Agora, havia dois dias que Kate Somente não pegava peixe algum. O pão de Niki tinha acabado, e ela estava com fome. Mas era obrigada a recusar trabalho, e foi o que fez.

— Há uma oficina da guilda dos trabalhadores de madeira... — começou ela.

Ele deu uma risada de maneira elegante.

— Mestre Chuny? Buxo no lugar do cérebro, raminhos mortos no lugar dos dedos. Não, não, Pequeno Formão. Quero alguém que tenha sentimento. Sabe? — Ele arregalou os olhos para ela. — Sofri uma perda. — E ele tirou das costas um pedaço de madeira que trazia a tiracolo como uma espada. Ele o colocou diante dela.

O objeto era do tamanho de um galho pequeno, polido e encurvado. A parte de trás da curva estava quebrada, estilhaçada, como um osso. Uma corda arrebentada estava enroscada nele. Kate Somente pegou-o com uma das mãos.

— O que é isso?

— Um cortesão da rainha de todos os objetos de madeira — disse ele.

Kate Somente ergueu uma sobrancelha e esperou por uma resposta mais razoável.

— É um arco — disse ele. — Um arco para minha rabeca. — E então como que cantou: — Caminhante, viajante, vendedor de bugigangas... um andarilho com um violino. Meu nome é Linay e eu concedo desejos.

Nesse exato instante Braque saltou do nada e pousou com perfeição diante dela. Ele enfiou o focinho comprido na bolsa de Linay. Kate Somente apanhou-o do chão. O gato se contorceu, depois relaxou no seu braço e começou a ronronar. Ela o ajeitou sobre um ombro, e ele se enroscou no seu pescoço, de onde se deixou cair, como se não tivesse ossos, como uma gola de peles com olhos cintilantes.

— Ora — disse Linay —, nenhum vison prateado poderia se comparar a isso. — Ele estendeu a mão para afagar o queixo do gato.

Braque deu-lhe uma mordida.

Linay afastou depressa a mão e sorriu mostrando os dentes.

— Que bichinho mais meigo!

Kate Somente tinha se recuperado da estranheza da cantoria de Linay e dos seus olhos que brilhavam como lata nova. Ela passou um dedo pelo arco quebrado.

— É, acho que eu poderia lhe fazer outro. Quanto pode me pagar?

— Hummm. — Linay inclinou-se mais para perto. — Eu poderia compor uma canção sobre seus olhos.

Kate evitava desfazer de um freguês pagante, mas respondeu sem rodeios:

— Alguma coisa que eu possa comer.

Linay sorriu, devagar como uma folha de samambaia se desenrolando.

— O que você deseja, de noite, na sua gaveta escura? O que você deseja, Kate Somente? — Enquanto cantarolava, ele estendeu a mão e roçou o lado do seu rosto com dedos ossudos. As mãos tinham cheiro de ervas; e alguma coisa a atravessou veloz, como gelo no pescoço. Ela recuou com um salto.

— Puxa, isso é que é desejo — disse ele, sorrindo da sua aflição. — Mas eu não o realizaria. Ressuscitar os mortos é complicado. Na maioria das vezes dá errado.

Kate Somente estava ofegante.

— Eu não quero que você ressuscite meu pai!

— É claro que você quer, orfãzinha. Todo mundo quer seus mortos de volta, e eu deveria saber. Já falei com os que não têm sombra, e como eles vêm trôpegos, como eles vêm com fome, como vêm mal, como um pássaro dentro d’água...

— Pare com isso!

Linay riu, alegre, mas sem gentileza.

— Bem, então o que você quer? Beleza? Sorte? Tudo isso eu vendo. — Ele se debruçou, com um cheiro amargo de especiarias queimadas. — É claro que as quinquilharias são uma bobagem, ração para tolos. Mas eu possuo um poder verdadeiro e me disponho a usá-lo. É mais do que vale o trabalho, mas poderíamos negociar.

— O que você quer?

— Sua sombra. — A sombra dele se lançava por cima da mesa entre eles e ela parecia rala aos olhos de Kate, turbilhonando como se lançada por fumaça e não por carne sólida. — Se você me der sua sombra, eu lhe concederei o desejo secreto do seu coração.

— Mas por quê? Por que você a quer?

— Ah! — Ele piscou para ela. — Conheço uma dama que precisa de uma. — Ela devia estar boquiaberta, porque ele enganchou um dedo por baixo do seu queixo para fechar sua boca. Braque tentou acertar-lhe um golpe, preguiçoso. Linay desviou-se a tempo, recolhendo o sorriso. — Venho escutando a conversa nesta cidade. Dizem que sua sombra é comprida e que ninguém a ama. Você não tem sorte e é indefesa. Não duvide que eu possa torcer as coisas de tal modo que você se sinta feliz de me dar qualquer coisa que eu queira.

E depois, de repente, seu sorriso voltou, e a borda turbilhonante da sua sombra sumiu.

— Mas, enquanto isso, e o meu arco? Talvez você queira um talismã de beleza, em pagamento, Kate Somente? — Na boca de Linay, o nome dela de repente pareceu o insulto que tinha sido no passado.

— Aceito nabos — disse ela, firme. — Anzóis. Madeira de qualidade, talvez. Moedas, na improvável hipótese de que você as tenha. Mas não negocio com bruxos.

— Não mesmo? — Ele estava animado novamente. — Não tenho nabos, nem anzóis, nem carros de boi, nem pano para velas de barcos. Duas de prata.

— Cinco — disse ela.

— Três.

— Cinco — disse ela, outra vez.

Ele deu de ombros como se não fizesse diferença.

— Cinco.

Kate Somente pôs a moeda que ele lhe deu de adiantamento na bolsa e apanhou sua lousa para fazer um esboço do arco. O pelo de Braque estava macio em contato com seu pescoço, e essa era a única parte do seu corpo que estava aquecida. Linay estava observando o repartido do seu cabelo. Por fim, como ela continuou a trabalhar, ele foi embora, assobiando.