Kate Somente

Erin Bow · Capítulo 15 de 19

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Kate Somente

15. A Terra Abandonada

quinze

A TERRA ABANDONADA

 

Seguindo aos trancos pela estrada até Lov, Kate Somente pingava e tremia. Braque estava jogado nos seus braços como uma criancinha, dormindo. Tinha dormido o tempo todo em que ela aguardara encolhida no barco, dormido enquanto ela vadeava até a margem do rio, dormido mesmo com os golpes e espetadas dos galhos de amieiro, enquanto ela lutava para escalar a margem. Ela tentava não se sentir apavorada por ele. Ele vai sobreviver, dissera Linay, e isso tornava a afirmação realidade.

O nevoeiro deixava a noite tão branca que não se enxergava nada, e Kate tropeçava em todas as pedras e caía em todas as poças, mas não parava de avançar no ritmo possível.

Fora o gato adormecido, ela estava quase de mãos vazias. O entalhe de Lenore batia no seu quadril. Sua mochila continha apenas meias roubadas, algumas maçãs e um pão de cevada. Não era muito; era insuficiente para sustentá-la por muito tempo. Mas na região abandonada seria fácil encontrar o que precisava.

Com exceção da sua sombra.

Em Lov, libertarei sua sombra, tinha prometido Linay a ela.

Libertá-la, ela deveria ter perguntado, para fazer o quê? Ainda via a andorinha, sem vida como uma luva, desfazendo-se em grumos de poeira e penas, destruída como as folhas do ano anterior. A cidade inteira.

E ela tornara aquilo possível. Seu sangue. Sua sombra.

A lua surgiu, toda partida, enredada nos galhos de bétula. A estrada para Lov apareceu diante de Kate, estendendo-se ao longe. Ela foi caminhando por ela até descobrir que seus olhos se fechavam e seu braço, onde segurava Braque, se tornava duro e dormente. Por fim, ela se viu saindo da estrada. Com delicadeza, soltou o gato do ombro, resmungando:

— Sinto muito. Sinto muito.

— Por que motivo? Por quê? — disse Braque. — Será que perdi alguma coisa? Tinha alguma coisa a ver com comida?

E ela o deixou cair de tanta alegria.

 

Durante três dias e duas noites Kate e Braque seguiram pela estrada rumo a Lov. Eles se apressavam quando podiam e cochilavam quando era preciso, escondendo-se em emaranhados de sanguinárias e amores-perfeitos à beira da estrada. Quando Kate não conseguia dormir, ela se encurvava, tremendo como se estivesse com febre, e libertava o rosto de Lenore da rádica. As linhas sinuosas dos veios percorriam, como línguas de fogo, os traços do rosto entalhado. Ela estava se apressando pela estrada para chegar a Lov antes de Linay, mas não tinha a menor ideia de como detê-lo.

Kate carregou Braque no primeiro dia e no segundo, enquanto ondas de tremores se abatiam sobre ele, se reduziam e paravam. No terceiro dia, ele andou. Eles seguiam na maior velocidade possível, e a acompanhá-los vinha uma frente de nevoeiro e chuva, sólida como uma muralha, lenta como um exército.

A morte do sono ainda não tinha chegado ali, mas a fuga à sua frente tinha criado sua própria devastação: a estrada estava cheia de sulcos e salpicada com rodas quebradas, caixas abandonadas, corpos de cavalos exigidos demais, com moscas zumbindo em torno dos olhos. Os trigais estavam pisoteados com os restos de acampamentos apressados. E no entanto eles não encontraram ninguém. As granjas por onde passavam estavam vazias e algumas tinham sido incendiadas. Do lado de fora de uma granja, três mulheres estavam penduradas mortas no galho que atravessava a estrada, com as mãos retalhadas por marcas contra a bruxaria. Kate fechou os olhos, abaixou-se para passar por baixo dos pés negros e prosseguiu depressa.

Ao anoitecer do quarto dia a estrada se desviava do rio e eles se descobriram caminhando num túnel de salgueiros. E através deles, do outro lado do rio, Kate viu de vislumbre alguma coisa branca. Grande. Em movimento. Foi só um vislumbre, mas Kate Somente estancou de chofre, espremendo os olhos. No seu ombro, Braque mexeu-se e acordou. Kate levantou a mão para tocar nele e avançou devagar. Sua garganta contraiu-se, como se ela tivesse visto e reconhecido alguma coisa, e seus olhos, não.

O rio fez uma curva, o túnel terminou, e Kate olhou para trás pela margem.

Do outro lado do rio alguma criatura olhou de volta para ela. Apenas um cavalo, um grande cavalo branco, de tiro. Estava preso do lado de fora de um único vardo de nômades, vermelho.

— É Creme — disse Kate.

— Creme? — Braque saltou para o chão. — Creme de leite? — Ele se enroscou nos pés dela, ronronando. — Creme, sim, por favor, quanta gentileza! Quanta consideração de um ser humano...

— Não, o cavalo. É o cavalo de Drina. É Creme.

— Ah! — Braque fungou e abanou as orelhas. — Isso eu sabia.

Kate continuou andando com Braque ao lado, arrogante e majestoso em seu constrangimento. A égua Creme relinchou para os dois do seu círculo de lama, mas ninguém se mexeu no vardo, e Kate não parou. O sol desceu por baixo das nuvens, e a luz vermelha percorreu a superfície do rio como fogo. Kate olhou de relance para trás mais uma vez, observando à medida que o vardo ia ficando menor. Suas mãos estavam tensas. Sua pulsação latejava por baixo das cicatrizes.

Um vardo, uma égua. Uma égua deixada presa tanto tempo que tinha comido todo o capim, até restar somente terra. Creme bateu as patas e gritou para eles outra vez.

Kate parou e deu meia-volta.

— Há algo errado.

— Mesmo que seja Creme, talvez não seja Drina — disse Braque.

Kate tentou se lembrar de quando o gato tinha se tornado a voz da cautela e da razão.

— Poderia ser qualquer um.

— Stivo — sussurrou ela.

— Ele disse que Stivo tinha morrido.

E Kate se lembrou de que foi Behjet — Behjet da voz mansa e do coração mole — que, usando a expressão de Stivo, tinha ateado fogo nela.

— Eu também poderia ressaltar — disse Braque — que essas são as pessoas que tentaram nos matar. E também que já temos uma demanda intimidante.

— Mas andar sozinho não é costume dos nômades — disse Kate.

E ela enrolou Braque numa trouxa e entrou no rio para atravessá-lo a pé.

 

A égua era Creme, com sua conhecida constelação de manchas pardas, e o vardo era o pequeno e vermelho no qual Kate Somente tinha dormido meses a fio. À luz do crepúsculo, ela podia ver o entalhe de cavalos trançados em cordas, o lugar na beira do degrau de cima onde a tinta tinha descascado. Kate sentiu uma fisgada no coração e não teve certeza se foi reconhecimento, perda ou medo. Faminta e desesperada, no centro do piquete enlameado, a égua guinchava e puxava a cabeça de lado para se livrar da corda do cabresto. Kate circundou-a, com esperança de não fazer barulho. A égua berrava. Mas ninguém saía do vardo. Kate subiu a escada e levantou a cortina da porta.

Uma garota com um turbante escuro estava ajoelhada diante do catre dos fundos, sobre o qual havia uma pilha desarrumada de cobertores. Kate deixou cair a cortina da porta, que farfalhou. A menina voltou-se. Era Drina. Kate já sabia.

Drina olhou para Kate com seus olhos grandes e negros, sem expressão, como os de um coelho assustado.

Kate levantou a mão e tocou na cicatriz lisa e empolada no seu próprio rosto. Não disse nada.

— Ah! — disse Drina. Ela deu um passo adiante. E então Kate pôde ver que a pilha de cobertores não era uma pilha de cobertores, mas um homem deitado, dormindo. Drina deu mais um passo, e Kate viu que era Behjet.

— Ah, são esses dois — disse Braque. — Espero que tenham salsichas.

Mas Kate deu um passo atrás tão rápido que sentiu seus calcanhares oscilando na borda do degrau — ela rodopiou e saltou. Ficou ali em pé, com o capim na altura dos joelhos, calada. Creme aproximou-se, forçando a corda com que estava amarrada. Kate ouviu o degrau ranger às suas costas.

Kate deu um passo adiante, para longe de Drina, e afagou o focinho sardento de Creme.

— Você simplesmente largou Creme amarrada aqui?

A égua bufou e começou a farejar sua mão em busca de alimento.

— Ela está aqui há muito tempo. Está presa. Ela, ela... — Sua respiração ficou travada, o que a surpreendeu, e, com a mesma nitidez como se estivesse lá, ela sentiu o mau cheiro da jaula do urso, a palha fumegando sem chamas.

Drina desceu devagar para postar-se ali com ela, lado a lado, mas sem tocar em Kate, sem olhar.

— Eu... — disse Drina, e parou.

Kate afastou-se um pouco para o lado para que Drina pudesse soltar a guia de Creme. A égua balançou a crina e afastou Drina com o ombro, a caminho de capim novo.

— Desculpe — sussurrou Drina, afagando o pescoço de Creme. Creme bateu a pata no chão, mas não parou de mordiscar o capim.

— Mira. — A voz de Drina ficou embargada como a de Kate tinha ficado.

— Ele está morto? — perguntou Kate, sem se virar. — Behjet morreu?

Drina fez que não.

— Você é uma bruxa de verdade, Kate Somente? Será que pode salvá-lo?

— Por que eu o faria? — retrucou Kate.

As duas ficaram ali paradas um tempo, olhando a égua e escutando a chegada da noite: rãs-touros, grilos, as aves noturnas. Por fim, Kate virou-se. Ela viu que Drina parecia mais magra e menor, e que sua boca se fechava um pouco torta, como uma caixa malfeita.

— Sou só uma entalhadora — disse ela. — Mas você tem poder. Eu vi.

Drina engoliu em seco, como se estivesse tentando fazer descer uma pedra.

— Não sei usá-lo.

Kate Somente lembrou-se do encantamento trançado no seu cabelo, o pequeno talho do formão na sua orelha. A sombra na lona da tenda. Aquela sombra tinha sido a rusalka. Poderia tê-las matado. Kate lembrou-se do vapor que subiu pelo seu rosto quando ela jogou água no fogo. O rosto moreno de Drina, cinzento como que reduzido a cinzas. Drina tinha tentado ajudá-la, usara tudo o que sabia — o que não era suficiente — e, quando estava tentando descobrir mais, a multidão a atacara. Não tinha sido Drina quem lhe ateara fogo.

Ela se lembrou de dormir no vardo, com Braque nos braços e as costas de Drina, quentinhas, encostadas nas suas.

Kate ficou calada por um instante e em seguida falou:

— Não sei o que fazer. E não posso ficar aqui. Preciso chegar a Lov. Mas... vou tentar.

Elas voltaram para dentro do vardo, onde encontraram Behjet deitado como um morto, e Braque equilibrado no seu peito, tentando puxar salsichas de um gancho na parede.

Behjet dava a impressão de estar apenas dormindo. Ao mesmo tempo, Kate queria e não queria que ele acordasse, queria e não queria que ele morresse. Ela se agachou e segurou sua mão. Estava pesada, fria e um pouco dura, como um peixe cru. Na parte interna do seu pulso dava para sentir uma pulsação preguiçosa. Havia uma queimadura curada de um lado a outro do dorso da sua mão, onde o óleo da lâmpada tinha respingado quando ele tentou matá-la.

Kate se preparou e o sacudiu pelo ombro.

— Behjet? Behjet, sou eu, Kate Somente. — Ela o sacudiu mais forte. Sua cabeça caiu para um lado, como se ele tivesse se virado para olhar para ela. Ela deu um salto para trás. Mas o rosto estava inerte. Kate voltou-se para Drina.

— Faz quatro dias — disse Drina. — Daj diz que o corpo não tem como viver se a alma se perder. Venho tentando. Tenho lhe dado comida e... o mantenho limpo. Cheguei a tentar viajar rio abaixo, para sair do nevoeiro. Dizem que o sono está no nevoeiro. Mas nada funciona. Não consigo acordá-lo.

— Deixe-me experimentar — disse Braque. Ele enrolou os bigodes na direção dela, cheio de presunção. — Acordar alguém não é assim tão difícil, na verdade, quando se sabe como fazer.

Solene, o gato colocou uma pata no cotovelo de Behjet e outra no estômago. Kate e Drina se aproximaram uma da outra e ficaram olhando. Braque foi altivo, delicado, ao empoleirar-se no esterno do homem. Ele esticou o pescoço e tocou o nariz de Behjet com seu focinho. Ele farejou. Ele miou. Abriu então a boca e gritou:

— Acorde!

As garotas pularam.

— Acorde! — ululou Braque. — Levante-se para me alimentar! Levante-se para me coçar! Levante-se para me ver! Acorde!

O ruído era ensurdecedor, chocalhando todo o vardo. Mas Behjet não se mexia.

Braque levantou o focinho e virou uma orelha para elas.

— Pode ser que não tenha jeito — disse ele, em voz neutra. — ACORDE! — berrou então. — Acorde, acorde, acorde!

Drina chorava e dava risinhos ao mesmo tempo. Kate avançou um passo e apanhou o gato no colo.

— Chega, Braque.

— Ele vai morrer — disse Drina, abraçando-a. — É assim que acontece. Os outros morreram. Meu pai morreu. E o marido de Daj. — Kate percebia que ela evitava os nomes: o nome dos mortos. — E depois que você foi embora, o filho de Magda, aquele que agarrou Braque, daquela vez...

Ciri. O príncipe das crianças nômades, o que estava aprendendo a andar, o que tinha se surpreendido com o gato falante. Ciri.

Kate Somente levou Drina para fora e a fez sentar na escada do vardo. Empilhou lenha e armou uma fogueira. Apanhou uma frigideira, tirou uma cebola da réstia e soltou um par de salsichas do gancho na parede acima da cabeça de Behjet. Ela olhou para o rosto dele.

— Bom... — ronronou Braque, quando ela saiu com a frigideira e as salsichas. — Comida, sim. Tenho certeza de que isso o acordará. Comida.

Kate bateu na beira do fogo para formar carvão e ali pôs a frigideira.

— Você já comeu? — perguntou Kate. — Faz quanto tempo que você não come?

Drina estava sentada encurvada na escada. Ela deu de ombros.

— Desde...

Kate jogou as salsichas na frigideira fumegante e começou a cortar a cebola. O calor do ferro fundido espalhava o aroma da cozinha dos nômades, o aroma de ser amada, de estar em segurança, em casa.

— Não posso ficar aqui — disse Kate. — Preciso ir a Lov.

Drina abraçou os próprios joelhos. A noite caía veloz.

— Eu estava indo para o clã da minha mãe. Meu pai morreu. Não tenho laço de sangue com o clã dele. Daj disse que eu podia ir se quisesse, e Behjet estava me levando. E aí... — Ela parou e engoliu em seco. — Kate Somente — disse ela. — Posso ir com você?

Kate não sabia como responder. Você não pode. Quero que venha. Ainda tenho medo de você. Você não deveria, porque vou tentar deter Linay, e é provável que ele me mate.

— Bem — disse ela, em voz alta. — Coma. — Ela espetou uma salsicha com uma faca e a passou para Drina.

Drina comeu sem atenção, e a largou pela metade. Braque tratou de aproveitar, e ninguém o impediu. Drina estava sentada imóvel, com a luz da fogueira dançando pela textura escura do seu rosto.

— Você é parecida com sua mãe — disse Kate, abruptamente. — Você se parece com Lenore.

— Você não deveria... — Drina engoliu em seco, com o maxilar estalando. — Nós não pronunciamos o nome dos mortos. — E então, tensa, ela sussurrou: — Como...

E Kate, sabendo que partiria o coração da amiga, exibiu o entalhe feito na rádica. As mãos de Drina chocalhavam quando ela a pegou. Segurou-a pelas asas e olhou fundo nos olhos de madeira.

— É ela. Você é uma bruxa de verdade. É ela mesmo.

— Não sou bruxa — disse Kate. — Mas já a vi. Já vi sua mãe.

A cabeça de Drina se levantou de repente.

— Ela está viva?

— Não. — Kate se arrependeu de ter começado daquele jeito e mudou a abordagem: — Ela tinha um irmão. O que enlouqueceu. Linay.

Drina estremeceu.

— Como você sabe o nome dele?

— Quando eu... ele... depois... — Kate parou e atiçou o fogo. — Depois que os nômades me queimaram, Linay me salvou. Ele me tirou de dentro do rio. Ele é o cara, Drina. Ele é o bruxo que roubou minha sombra.

Kate Somente levantou-se e começou do início, do dia em que um desconhecido branco-de-bruxa lhe pedira para fazer um arco de rabeca. Ela contou para Drina sua própria história como se fosse a respeito de outra pessoa, e ficou perplexa diante de como ela parecia estranha e rica, como uma história antiga. Ela contou a Drina sobre como aprendeu o nome da rusalka, sobre como trocou sangue por respostas e sobre a andorinha que tinha se desfeito em cinzas. Falou também sobre o que Linay planejava para Lov.

— Foi então que vi você — terminou ela. — Eu reconheci Creme, e ela estava amarrada ali havia tanto tempo... Achei que devia me aproximar... Estava com medo porque vocês me queimaram. Mas andar sozinho não é costume dos nômades.

Drina não respondeu de pronto. As duas meninas estavam sentadas, ouvindo Creme aparar o capim, abanando a cauda.

— Eles eram gêmeos — disse Drina, por fim. — Minha mãe e meu tio. Lenore e Linay. Ele era meu preferido, meu outro pai. Ele me ensinou pequenos truques de mágica e me ensinou a dar cambalhotas. Ele ficou diferente, depois que ela morreu. Depois daquele feitiço, com a sombra dele... depois que ele a chamou. O clã declarou-o morto. Ele foi embora sozinho. Lembro-me de ficar olhando enquanto ele seguia pela estrada.

Agora estava totalmente escuro. Havia movimentos e farfalhadas nas árvores, um curiango piou, uma vibração estranha que parecia vir de todos os lados. Drina passou o dedo pelas linhas do rosto entalhado na madeira.

— Kate Somente, você não a conheceu, você não entende. Ela nunca teria feito isso. — Drina estava chorando. — O que você está dizendo... a rusalka... não pode ser verdade.

— Temos provas à vontade — disse Braque. — Cicatrizes e tudo mais, mesmo.

— Mas meu pai — disse Drina, em desespero. — Antes de ela morrer, ele era diferente. Ela o amava. Como pode ser que ela tenha matado o próprio marido? E, e... Ciri! — O nome irrompeu a partir dela. — Stivo, Wen e Ciri! Kate, ela nunca teria ferido Ciri. Teria morrido antes.

— Foi o que aconteceu — disse Braque.

— Cale-se, Braque. — Kate afagou os ombros encolhidos de Drina, constrangida como se estivesse afagando um cavalo. — Drina. Ela não tem escolha. Linay disse que esse era um destino terrível. É por esse motivo que ele está fazendo tudo isso. Ele quer salvá-la.

Drina fungou com força e engoliu em seco.

— Salvá-la?

— O destino de uma rusalka... — Kate tentou se lembrar das palavras exatas. — Ele disse que o destino de uma rusalka poderia ser desfeito, se alguém vingasse sua morte. É o que ele quer fazer. É por isso que ele quer matar todas as pessoas em Lov.

— Desfeito... — Os olhos de Drina estavam enormes. — O que isso quer dizer? Isso... a traria de volta?

Kate teve a impressão de que Drina lhe dera um chute no estômago. Será que Drina ficaria do lado de Linay? Lenore tinha sido sua mãe. Kate perdera o pai. O que ela faria para salvá-lo? Para deter Linay, ela teria de lutar com Drina?

Mas Drina lutou contra si mesma. Ela agarrou a mão de Kate e a apertou tanto que os dedos de Kate doeram.

— Não podemos deixá-lo fazer isso, Kate Somente. Minha mãe não ia querer. Temos de fazê-lo parar.

Kate entrelaçou seus dedos com os de Drina. Ela mal conseguia vê-los no escuro: castanhos como a nogueira e claros como pinho verde, como um desenho marchetado.

— Sim — disse ela. — Você pode vir comigo.

 

E assim Kate Somente e Drina seguiram juntas pela estrada rumo a Lov. Não importava o que tivesse ocorrido entre elas — a amizade assimétrica, a alegria de Drina e os silêncios cautelosos de Kate —, agora havia desaparecido, estava derrubado e incinerado. Mas alguma coisa nova tinha crescido no seu lugar, um laço forte como uma cicatriz. Elas não falavam nisso e avançavam o mais rápido possível.

Viajar no vardo era mais fácil que caminhar, mas não muito mais rápido. A muralha de nevoeiro as acompanhava, implacável. Mesmo assim, Kate recuperou alguma força, cabeceando e cochilando no ombro de Drina, enquanto seguiam sentadas no banco do condutor, bem mais alto que o dorso de Creme. Nenhuma das duas estava disposta a viajar sozinha ao lado do corpo indefeso de Behjet.

A estrada larga, pela qual Kate tinha andado por três dias, ficava na outra margem do rio.

Desse lado do rio o caminho não passava de uma trilha, que serpeava através de bosques de bétulas e trechos encharcados de junco e áster roxo, um lugar estranhamente tranquilo.

— Quisemos seguir pela estrada menor — explicou Drina. — A principal estava lotada: a região inteira, e as pessoas estão com raiva. Elas... — Ela parou, dando a impressão de que poderia passar mal.

— Eu vi. — Kate pensou nas mulheres enforcadas, os pés pretos roçando nos seus ombros quando ela se abaixou para passar por eles.

— Estão indo para Lov — disse Drina. — Os camponeses gadje nesta região sempre se escondem na cidade de pedra quando há algum problema. Desde o tempo dos barcos-dragão, diz Daj. Todos eles vão para Lov.

E vão morrer, pensou Kate. A menos que consigamos fazer Linay parar.

Mas, por mais que conversassem, elas não faziam ideia de como pará-lo. Finalmente, no terceiro dia, quando a luz estava terminando, a pequena trilha saiu de uma muralha de bétulas para se juntar a uma estrada maior com uma ponte que cruzava o rio. Tiras de nevoeiro serpeavam em remoinhos por cima da água, e a cerração ocultava em parte a lua nascente. Do outro lado do rio, Lov se esparramava, fria como um sapo.

 

Elas não puderam cobrir o quilômetro e meio que faltava — já estava quase totalmente escuro — e por isso fizeram Creme virar, voltando o vardo para o abrigo das árvores. Galhos arranhavam as laterais de lona. Elas encontraram uma pequena elevação junto do rio e se abrigaram num arvoredo de bétulas jovens. Drina cuidou de Behjet. Elas acenderam uma pequena fogueira.

Do outro lado do rio a cidade resmungava consigo mesma na escuridão úmida.

— Ela é grande — disse Drina. — Tinha me esquecido de como ela é grande.

Kate trabalhava no seu entalhe, dando vida à madeira ao alisá-la com um pedaço de couro molhado e mergulhado em areia. Ele estava quase terminado, e ela sabia, sabia que era uma boa peça, que era verdadeira, que era importante. Mas fosse o que fosse que a peça lhe estivesse dizendo, ela não conseguia ouvir.

Creme estava abrindo caminho no bosque fechado, emaranhando a crina nos galhos baixos. Drina levantou-se e a soltou; depois apanhou a escova mais macia e começou a pentear o pescoço da égua. Braque pulou para o colo de Kate.

— Você podia fazer isso por mim, sabia? — E, assim, Kate largou o couro de lixar e a peça muda, inútil, e passou as unhas pela pelagem densa em torno do pescoço.

A luz da fogueira se encrespava na água e passava direto por Kate.

— Minha sombra — disse ela. — Ele não pode criar o monstro sem minha sombra. Precisamos pegá-la de volta.

— Isso você já tentou — salientou o gato. — Precisei agir como um herói para salvá-la. — Ele se sentou empertigado, muito embora ela ainda o estivesse afagando. — Crie um plano melhor.

Kate fez o possível para obedecer. O rio murmurava junto do seu cotovelo, e o nevoeiro nele trazia trechos de outras vozes, de risos altos e gritos densos; e por um instante um fragmento sinistro de música de rabeca.

— Ele está aqui — disse Kate.

Drina veio se sentar ao seu lado. Elas tentaram escutar, mas a música não voltou.

— Não sei como impedi-lo — disse Kate. — Nunca soube.

As palavras ficaram ali pairando um instante. E depois Braque falou:

— Por que temos de impedi-lo?

— Porque minha mãe... — começou Drina.

— Ora. Ela morreu. Os desejos dela não têm a menor importância.

— Braque. — Kate pôs a mão entre as orelhas dele para silenciá-lo, e encontrou ali pequenas estrias de músculos, alertas, tensos.

— Dê-me outra razão — disse Braque, virando as orelhas. — Dê-me uma razão de gato. — Ele pigarreou, cheio de si. — Tenha em mente que nós não entramos correndo em prédios incendiados, fazendo “au-au”.

— É... — Kate lutava para explicar. — É uma cidade grande. Milhares e milhares de pessoas.

— E daí? — disse o gato de novo, mas com a voz muito baixa. Ele estava olhando para as patas.

— Você me salvou — relembrou-lhe ela. — No barco. E Linay quase o matou. Você tinha uma razão de gato?

— Eu gosto de você.

— E você é mais que um gato.

Kate passou o polegar ao longo das vibrissas das sobrancelhas de Braque, tentando acalmá-lo, mas ele ergueu uma pata e afastou a mão dela. Ele se levantou.

— Tem mais uma coisa que se pode fazer.

Alguma coisa na sua voz, o jeito do seu pelo se eriçar ligeiramente por cima dos músculos retesados fizeram formigar as cicatrizes de Kate.

— Braque — sussurrou ela. — O que é?

— Ele me deu a palavra, quando pegou sua sombra. Se destruirmos a dádiva, destruiremos o encantamento. Sua sombra já não pertenceria a ele. A criatura que ele fez seria desfeita.

— Você está querendo dizer — perguntou Drina — que você simplesmente pode parar de falar?

— Ai, não — disse Kate. — Não.

Braque abanou a cabeça, como um ser humano.

— Minha mente está cheia de palavras. Eu penso com elas. Isso mudou quem eu sou. A magia está nisso, não na fala.

— E então o quê?

Braque olhou para ela, com seus olhos da cor de âmbar fundos como a solidão que Kate sentia antes que ele se tornasse seu amigo.

— O método tradicional — disse ele, devagar — envolve o rio e um saco.