Kate Somente
14. Sangue e Perguntas
quatorze
SANGUE E PERGUNTAS
Ao entardecer do dia seguinte eles ancoraram num lugar em que os campos de cevada e centeio desciam direto até o rio, com o cereal crescendo no meio do emaranhado ribeirinho de sanguinárias e juncos. A lavoura — como Kate vinha temendo — não estava colhida e estava cheia de estorninhos que se banqueteavam. Quando o pôr do sol acendeu, as aves se lançaram pelo céu em línguas de fogo escuro, que lampejavam para lá e para cá por cima do rio. Linay estava em pé no teto do porão, tocando sua rabeca. As notas agudas se entremeavam ao farfalhar das asas.
Kate Somente mantinha-se de cabeça baixa sobre a peça a entalhar, com o coração batendo depressa à medida que a luz diminuía. O nevoeiro se erguia ao redor dela. A rabeca foi ficando cada vez mais baixa, até que ela e o seu tocador se perderam na escuridão que se adensava. Kate Somente guardou as ferramentas de entalhadora uma a uma no rolo de couro. O estojo de ferramentas era um belo objeto, com seus bolsos internos, forrados de feltro, macios pelo uso prolongado, sua parte externa de textura lisa escurecida com o suor de alguém. Ele não fora abandonado, a entalhadora em Kate tinha certeza disso. Alguém havia morrido. E então Linay roubara o estojo para lhe dar. E ela lhe era grata.
Agora o nevoeiro estava tão denso que ela se sentia totalmente só. E então Braque surgiu do nada, ficando parado, majestoso, junto do seu cotovelo, com as orelhas empinadas e a bela cabeça erguida. Eles ouviram Linay pular para o convés. Ele veio saindo do nevoeiro e parou diante deles. Sem dizer palavra, estendeu as mãos em concha, pronto para o sangue dela.
Kate levantou-se.
— Eu me recuso — disse ela.
— Ah, você se recusa? Acho que nós fizemos uma troca. Seu sangue pela sua sombra.
— Já lhe dei sangue. Eu nunca disse que continuaria a dar. — No campo de centeio, os pássaros caíram num silêncio que pareceu ameaçador a Kate. Ela se empertigou. — Quero mais uma coisa.
Linay cruzou as mãos. A ideia de violência estava clara no seu rosto.
— Quero respostas — disse Kate. — Para três perguntas.
— Três perguntas! — Ele riu. — Você acha que é uma linda donzela num conto de fadas? Quer que eu lhe traga um espelho, Gravetinho, para você corrigir essa impressão?
— Duas perguntas — propôs ela.
Linay parou de rir. Um nevoeiro mais espesso estava começando a se derramar pelo costado da chalana.
— Você regatearia até com o barqueiro do inferno! — Linay cuspiu com desprezo e então afinou a voz para se assemelhar à de uma menininha: — Uma moeda ou duas?
Kate tentou dar de ombros.
— Se prefere, tire seu próprio sangue.
— Eu ajudo — disse Braque.
Linay não deu atenção ao gato e falou como que consigo mesmo:
— Vou precisar da minha força.
Agora o barco estava tomado pelo nevoeiro. Kate Somente tinha a sensação de que eles poderiam afundar nele e se afogar.
— Uma pergunta — disse Linay.
— Uma por noite.
— Fechado. Agora o sangue.
Foi o que ela lhe deu, deixando-o escorrer para a taça de gelo nas mãos de Linay. Na penumbra, o sangue parecia preto. À medida que a taça se enchia, o nevoeiro cresceu e se adensou, começando a turbilhonar em torno deles e a roçar neles como um cachorro perdido. Dentro de mais um instante a rusalka estaria ali, fina como um osso de costela, mas como que os envolvendo. Ela se inclinou em busca do sangue. Nela não havia nada de humano, nada de bonito... somente uma avidez interminável.
Kate recuou.
Linay, porém, permaneceu onde estava, e, quando a rusalka se ajoelhou para beber, ele se agachou ao seu lado, como se quisesse passar um braço por cima dos seus ombros. Ele estava cantando alguma coisa. Kate não conseguiu ouvir o quê.
Ela abaixou a mão esticada e pegou Braque no colo. Juntos eles ficaram olhando a rusalka e Linay ajoelhados, como noivos. Eles aguardaram.
A rusalka tomou o sangue da taça, e quando ela se foi, Linay dobrou-se. Ficou sentado no convés, com os joelhos encolhidos e a cabeça pousada nos braços.
— Linay? — disse Kate. Ela não saberia dizer se ele estava chorando ou não.
Sem levantar a cabeça, ele agitou a mão pálida.
— Sim, sim. Faça sua pergunta.
— Por que... — perguntou ela, baixinho. Para sua surpresa, ela descobriu que não queria feri-lo. — Por que você está levando... Lenore... para Lov?
— Ela morreu lá. — A cabeça baixa tornou sua voz baixa. — No skara rok. Ela cuidava dos doentes. — Ele riu, pouco mais alto que o marulho do rio. — Pela Madona Negra, dificilmente eles teriam precisado matá-la: ela já tinha dado tudo de si em magia de cura. Mas foi o que fizeram. Eles a mataram. Tomaram-na por bruxa, a torturaram e mataram. O povo de Lov.
Kate sentou-se no banco do zingador, não ao lado de Linay, mas perto dele.
— Então, por quê? Por que levá-la de volta para lá?
— Depois... — Ele engoliu em seco. — Depois que eu vi o que ela se tornara, decidi que precisava salvá-la. Estudei magia negra. Frequentei lugares das trevas. Falei com... criaturas... com as quais homem algum deveria falar. Acumulei poder. E aprendi. Aprendi, entre outras coisas, que o destino de uma rusalka pode ser desfeito, se sua morte for vingada.
— Mas... pessoas já morreram. — Pessoas que eu conheci, pensou ela. Stivo. Wen. E talvez, tomara que não, Drina. — Já aconteceu. Já morreu gente.
Linay encolheu os ombros.
— Mas não o povo que a matou.
— Lov — disse ela. — O povo de Lov.
— Lov. — Ele fez que sim. — E assim finalmente estamos chegando. — Com isso, ele levantou a cabeça. Não estava chorando. Seu rosto estava firme e feroz como uma espada. Kate Somente levantou-se e desejou ter espaço para onde recuar.
— Basta — disse ele, baixando os olhos e atirando longe os fragmentos de gelo das mãos. — Vá embora.
Ela foi.
O entalhe do rosto de Lenore ia ficar lindo. Mesmo na sua apresentação tosca, ele era cativante. O nariz, estreito. A boca, generosa e triste. Os olhos, inclinados como os de uma raposa. O cabelo, revolto como o nevoeiro, incorporando-se sem união visível naquelas asas de algas. Durante toda a manhã seguinte Kate Somente trabalhou no entalhe, permanecendo no porão para evitar os olhos de Linay. E, apesar de não gostar do espaço quente e fechado, Braque ficou com ela, cochilando aos seus pés.
Trabalhando com rapidez e destemor, Kate usou um cinzel para liberar malares altos e sobrancelhas irônicas da madeira que os encerrava. Lenore. Kate podia ver os olhos vivazes de Drina no rosto entalhado. Ela sentiu uma fisgada de perda e culpa. Drina. O que tinha acontecido com Drina?
E essa mulher que tinha sido sua mãe, com os olhos vivazes, com os lábios generosos de Linay, com alguma alquimia de travessura e tristeza que era só dela mesma, Lenore: será que restava alguma coisa dela na rusalka? Ela sabia no que tinha se tornado? Quando levou seu próprio marido, Stivo, para seu cinzento reino de sono, ela sabia?
Na fazenda de Pan Oksar, Kate Somente tinha visto algo de novo: a gente de Oksar, com seus costumes estrangeiros, pregava ferro nas árvores para ter sorte. Ferraduras e cruzes toscas feitas de arados quebrados e dentes de forcados. Alguns estavam lá havia muito tempo, e as árvores, em seu crescimento constante, tinham, com a casca, formado bordas em torno do metal, como lábios vagarosos. Tinham crescido em torno do ferimento e absorvido o ferro negro em suas bocas, em seus corações.
Assim, Linay tinha se apropriado do destino da irmã. E o peso e a atrocidade desse destino o enlouquecera aos poucos. Não era de estranhar que seu povo o tivesse banido. Ele estava tão perdido quanto Lenore — mais perdido, porque, diferentemente dela, ele, sem dúvida, sabia. Ele bem sabia o que estava fazendo.
E ia fazê-lo de qualquer modo. A menos que ela conseguisse impedi-lo.
Por isso, na segunda noite, Kate esperou, tentando espantar os mosquitos, e Braque veio e se sentou como uma esfinge, entre seus pés. A luz foi se tornando azulada, e o nevoeiro os alcançou. Logo a pequena chalana estava sozinha num mundo de nevoeiro.
Linay fixou a zinga e se aproximou, saltando lépido para o teto do barco e depois descendo de novo para o convés diante de Kate. Ele fez para ela uma reverência sofisticada.
— Doce donzela do bosque, mais uma vez chegou a hora. Faça sua pergunta.
— Como? — disse ela. — Você vai vingar a morte de Lenore. Como?
— Hummm — disse ele. — Esse seu interesse é... interessante. Você está planejando mais alguma aventurazinha? Já tentou pensar de que jeito isso pode acabar?
— Como? — insistiu ela.
— Ora — disse ele, com um pequeno sorriso. — Vou destruir a cidade, é claro.
Ele ainda sorria quando estendeu as mãos para pegar sangue. Toda aquela noite ele não disse mais uma palavra.
— Acho que devíamos matá-lo — disse Braque.
Kate Somente pôs a cabeça entre as mãos. Fazia calor no porão, e o balanço lhe dava enjoos.
— Tem de haver — resmungou ela. — Tem de haver alguma coisa que possamos fazer para impedi-lo.
— É — disse o gato, paciente. — Matá-lo o impediria.
— Não posso. — Ela passou o dedo pela curva da face de Lenore. — Não posso.
Kate Somente ficou no porão o máximo que pôde, até depois que o barco parou seu movimento, até sentir o cheiro do nevoeiro se formando. Quando subiu pela escada, de início não viu Linay, mas, quando ela se virou, ele estava a centímetros dela, sentado de pernas cruzadas no teto do porão, com um sorriso de lobo.
— Ora, ora, Gravetinho. Está pronta para um desafio de inteligências?
Kate voltou-se para encará-lo. Estavam ancorados no açude de um moinho, escuro como ardósia à luz do crepúsculo e cheio de andorinhas. O canal da água do moinho tagarelava e a roda girava, mas as mós lá dentro estavam mudas, e a chaminé, fria. Kate Somente sabia o que encontraria se entrasse ali: o moleiro fugiu, como todos os outros habitantes da região, antes da chegada da muralha de nevoeiro e do sono cinzento da rusalka. Um moinho, pensou ela. Toda essa região vai morrer de fome.
— E então? — disse Linay.
Kate preparou-se para fazer a pergunta.
— Como você planeja destruir Lov?
— Ora — disse Linay, com a voz arrastada. — Com sua ajuda, minha pequena. Você tem certeza de que quer saber?
O couro cabeludo de Kate formigou. Podia sentir a rusalka ali por perto, mas estava com mais medo do homem diante dela. Ela separou os pés para se equilibrar melhor.
— Como?
— Você vai morrer se tentar me impedir — disse ele.
— Três vezes eu lhe pergunto — disse ela. — Como?
Linay abafou um risinho.
— Ah, Kate Somente. Pequena heroína. E eu achei que você era a mais fraca da cidade. — De repente, ele se levantou, deslizando os pés. Kate estremeceu, mas não se encolheu. — Gostaria de ver? — Sua voz estava quase delicada, quase achando graça. Era como Braque quando recolhia as garras para fazer alguma criatura infeliz durar mais. — Quer que eu lhe mostre o destino de Lov?
O medo fez sua pele se encolher, fazendo pressão contra o crânio. Seus lábios estavam dormentes. Sem poder falar, ela fez que sim.
— Venha — disse Linay, e deu um passo para fora do costado do barco.
Kate deu um grito e estendeu a mão para salvá-lo, mas ele não afundou. Em torno dos seus pés havia um brilho branco na água escura. Gelo. Ele estava em pé sobre gelo naquele entardecer quente, parado. Linay foi se afastando dela, na direção do moinho, e o gelo ia se espalhando a partir dele, desenrolando-se como um tapete, como uma ponte para um rei. A roda do moinho chocalhou e, entalada no gelo, parou com um gemido, e o silêncio apertou a garganta de Kate.
— Ela é só um espírito, sabe? — disse ele, com a voz baixa formando ondulações pela água afora. Ele subiu no muro de pedra entre o canal da água e o açude, e ficou ali em pé como num palco. — Só mais uma, entre as pessoas sem sombra neste mundo sombrio. Mas basta acrescentar uma sombra a um espírito...
E ele passou uma faca pelo pulso.
O sangue esguichou. Dava para ela ouvi-lo gotejando na água negra.
Enquanto o sangue caía, a rusalka se ergueu. Era como a morte acontecendo ao contrário, ossos se erguendo e se revestindo de uma pele solta.
— Irmã — disse Linay, oferecendo a mão à criatura. Ela a aceitou e subiu no muro ao seu lado, com elegância. Inclinou a cabeça até o pulso que sangrava, mas ele a deteve, pondo o dorso da mão por baixo do seu queixo e levantando seu rosto para encará-lo. Seu sussurro ecoou: — Peço-lhe perdão. — Ele então agarrou-lhe o braço e o torceu.
A rusalka contorceu-se como uma corda. Tiras dela se separaram e se enroscaram umas nas outras. Seu rosto desfigurou-se num berro mudo.
Em seguida, alguma coisa passou veloz através de Kate — fria como uma mão no seu pescoço, súbita como uma queda num sonho. A coisa foi voando por cima da água na direção de Linay e Lenore, e Kate a reconheceu: sua sombra.
Linay estava entoando alguma coisa. Ainda torcia o braço de Lenore, apesar dos seus berros. A sombra acompanhava as curvas feias das palavras dele, insinuando-se nos novos rasgos no corpo da rusalka, uma corda se trançando em outra corda.
E de repente, no lugar do nevoeiro em forma de mulher, havia outra criatura. Alguma criatura enorme, alguma criatura feia. Linay lançou para o alto as duas mãos. A criatura deu um grito como um falcão e abriu duas asas: uma branca como um cogumelo venenoso, a outra, turva de sombra. As asas se uniram, e o açude inteiro estremeceu.
Alguma coisa atingiu a orelha e o ombro de Kate, antes de cair pesada no convés aos seus pés. Era uma andorinha, morta. Dava para ela ouvi-las caindo por todo o açude. As asas brancas e negras se abriram com força, e Kate jogou-se no chão para ficar por baixo delas. Ela podia sentir a morte sólida, passando logo acima da sua cabeça.
Em seguida, Linay baixou as mãos outra vez. E as asas de sombra se fecharam, recolhidas.
— Por enquanto ela se foi — disse Linay. Ele desceu do muro e veio atravessando o gelo, que gemia.
Braque saltou para a amurada entre Kate e o homem que vinha a passos largos.
— Mantenha distância! — disse, chiando.
— Mas foi ela que perguntou! — Linay deu uma risada amarga e enlouquecida. — Como vou destruir Lov? Com o espírito e a sombra. Será necessário um encantamento de enorme poder para unir sua sombra à rusalka por mais do que um instante. Mas trabalho há anos para reunir esse poder. Não duvide da minha capacidade para fazê-lo. E, quando eu o fizer, não duvide de que todos os que forem tocados por essas asas morrerão. A cidade inteira de Lov. E você, Kate Somente...
Mas nesse momento Braque rosnou e saltou.
Linay pegou o gato no meio do pulo, com os olhos e uma fórmula mágica atirada como uma lança. Braque caiu no convés com estrondo e emitiu um som agudo, terrível.
— Braque! — gritou Kate. Ela se ajoelhou ao seu lado. O gato se sacudia como se estivesse tendo uma convulsão. Ela tentou apanhá-lo do chão, mas a mão de Linay se fechou em torno do seu pulso. Ele estava de novo a bordo do barco e a puxou com violência para si. Kate sentiu a força esmagadora da mão forte, bem na hora em que se contorcia para alcançar Braque.
— Ele vai sobreviver — disse Linay, grosseiro.
— O que você fez com ele? — disse ela, com a respiração entrecortada.
— Ainda estou respondendo sua pergunta — disse ele, furioso —, e você vai me escutar. —
Ele recolheu o passarinho morto do convés. A ave estava se desfazendo nas suas mãos, esfarelando-se como madeira corroída por cupins. — É por isso que preciso de uma sombra. Este é o destino de Lov. A cidade que tentou queimar minha irmã. Ela terá sua vingança, e, assim, seu destino será revertido. A asa cinzenta matará todos na cidade, desde o sineiro na torre da igreja até o órfão encolhido no porão mais fundo. É isso o que vou fazer com sua sombra.
— Não vou ajudá-lo — disse ela, ofegante. Ele estava quebrando seu pulso. — Eu me mato antes.
Ele riu.
— Sua sombra foi comprada e paga, e sua morte não cancela esse pagamento. Você pode ir sem sombra para o mundo sem sombras, e sua morte será apenas um último detalhe sinistro no meu caminho longo e sinistro. Ela me ferirá, mas não me importo. Está praticamente acabado.
Ele a soltou. Kate recuou, cambaleando. Seu pulso batia com violência.
— Vá dormir — disse ele. — Tenho o sangue de que preciso.
Kate pegou Braque no colo e saltou para dentro do porão, sem se importar com a escada. Forçou os tornozelos e recebeu bem a dor pura e simples, que expulsou as lágrimas dos seus olhos. Correu para a caixa que continha sua sombra e abriu a tampa com violência. Estava disposta a morrer, se pudesse levar consigo sua sombra. Mas a caixa estava vazia: continha apenas lascas de madeira e ar. Tinha sumido. Sua sombra havia sumido.
Sentou-se na borda do catre com Braque inerte no colo. Esperou trêmula e calada, até que o silêncio se abatesse sobre o convés acima dela. Amarrou então aos quadris a talha de Lenore, roubou meias de Linay, pegou nos braços o gato inconsciente e desceu pelo costado do barco para dentro do rio.