Mantendo um olho aberto
Degas: e as mulheres
Grandes artistas atraem preconceitos básicos; básicos, mas
esclarecedores. Jean-François Raffaëlli (1850-1924), pintor dos
subúrbios parisienses, afirmou em 1894 que Degas era um artista
“que procurava tornar ignóbeis as formas secretas da Mulher” e que
ele seria alguém que “certamente não gosta das mulheres”. E, como
evidência, Raffaëlli relatara as palavras de uma das modelos de Degas:
“Ele é um cavalheiro estranho – ele passa as quatro horas da sessão
penteando o meu cabelo.” Edmond de Goncourt (que tinha suas
próprias dúvidas sarcásticas sobre Degas, assim como sobre todo
mundo) anotou essas acusações em seu diário e acrescentou, como
argumento decisivo, uma história que lhe fora contada pelo escritor
Léon Hennique, que tivera uma amante cuja irmã era amante de
Degas. Parece que a “cunhada” de Hennique reclamou da “falta de
recursos amorosos” de Degas.
Poderia ser mais óbvio? O dele era pequeno (e/ou ele não
conseguia ter uma ereção); comporta-se de modo estranho com
modelos; odeia mulheres; em sua arte, ele as desvaloriza. Caso
encerrado, réu culpado. Tragam o próximo artista para o massacre
biográfico. Não deveríamos sorrir, como se soubéssemos das coisas,
diante de tal grosseria de cem anos atrás e dessa suposta inveja
(Raffaëlli estava prestes a começar a elaborar o tema das mulheres com
seus próprios pincéis). Aqui está um crítico da nossa época, Tobia
Bezzola:
Não se sabe se Degas tinha relações sexuais com mulheres; em
todo caso, não há nenhuma evidência de que ele tinha... [Sua] série
de monotipos retratando cenas de bordel é o exemplo mais
extremo da mistura de voyeurismo e aversão com que ele reagia à
sexualidade feminina.
Ou, se você preferir uma versão ainda mais abrangente, ouça o
poeta Tom Paulin no The Late Show. Paulin foi à exposição de 1996 de Degas na National Gallery com o conhecimento prévio de que Degas
teria sido antissemita e antidreyfusista:
Fiquei especulando como isso afetaria suas pinturas. Você não
consegue ver isso nas pinturas, e eu pensei “Pois bem, eu deveria
estar admirando a sua beleza”, mas então percebi, a partir da
leitura desse estudo de Eliot [por Anthony Julius], que a misoginia
e o antissemitismo estão intimamente conectados, de modo que o
que temos nessa exposição são mulheres em poses contorcidas...
Elas são como animais em apresentações, como animais no
zoológico. Há ali algum ódio profundo, profundo, das mulheres, e
eu pensei “Isso me lembra de quê”, e eu pensei “Algo como um
médico de campo de concentração criou essas figuras...” Estou
dentro da cabeça de alguém que é uma pessoa profundamente,
profundamente odiosa... Acho que é codificado – basicamente
aquilo em que ele está pensando é em mulheres no banheiro, e
acho que este é o seu erotismo. Ele é um velho pornográfico – uma
mulher se limpando –, eu fiquei pensando no que as crianças
achariam disso – uma mulher se limpando, e isso continua e
continua.
Por onde começar? Com o puritanismo sibilante, com a falácia
biográfica, com a rápida desconexão, primeiro do olho e depois do
cérebro? Com a insistência de que, mesmo quando você “não
consegue” ver as coisas doentias que você quer ver nas pinturas, você
ainda pode anunciar a presença delas de qualquer maneira? Com a
descoberta de que “admirar a beleza” é um negócio suspeito, melhor
deixar isso de lado em função da afirmação de que o criador da beleza
é alguém que você não empregaria para tomar conta de crianças?
A exposição que provocou esse acesso de cólera era da última fase
de Degas. (E, para constar, ela incluía um único quadro de uma
mulher limpando o lado do joelho com uma esponja, quadro no qual
Paulin parece ter baseado sua concepção de que todas as mulheres de
Degas estão “se limpando”.) Ela mostrava um grande pintor
envelhecendo e trabalhando na linha divisória entre a Fidelidade à Vida e a Fidelidade à Arte, forçando constantemente ou contrariando
a forma, a cor e a técnica. A maioria das mostras individuais de
artistas tende a ser uma colheita de cerejas: o melhor exemplo desta ou
daquela fase do “desenvolvimento” do artista, as telas em que o pintor
toca nossas músicas favoritas. Elas não são realmente enganadoras,
mas são sutilmente ilusórias se, a partir dali, passarmos a ver a carreira
do artista como uma sucessão de números de loteria, de ganhos e
perdas – obra-prima, porcaria, porcaria, semi-obra-prima, porcaria,
obra-prima. A carreira de um artista, como essa exposição
demonstrava, parece ser mais uma questão de superposição obsessiva,
de levar o barco para a frente e para trás, de processo mais do que
resultado, viagem mais do que chegada.
Apoteose de Degas por Edgar Degas e Walter
Barnes
Muitas das obras eram em papel de desenho, por motivos tanto
estéticos – papel de desenho é particularmente adequado para pastel –
e práticos: a imagem proposta (mais do que obtida) pode ser copiada
de novo e de novo. Copiada, isto é, a fim de ser reutilizada e reelaborada, ou mesmo reintegrada em uma composição inteiramente
diferente. Aquela virada da cintura, cabeça jogada para trás, abertura
dos pés podem retornar novamente, às vezes na mesma parede, às
vezes duas salas depois. A pose ou o gesto transita do carvão para o
pastel, para o óleo, para a escultura (o papel das esculturas – não
forjadas em bronze até depois da morte de Degas – é bastante
enigmático: elas eram suficientes em si mesmas, feitas para auxiliar as
pinturas, desdobramentos das pinturas, ou as três opções?). É
sentimental perceber uma raiva por trás de uma investigação tão
inquieta e incessante de certas formas? Uma raiva artística, isto é, uma
fúria a respeito do tempo que está se esgotando, a respeito da luz que
se esvai (a cegueira de Degas estava aumentando), quando ainda havia
muito mais a ser visto, tantas formas para serem levadas adiante.
Tempo. Degas passou quatro horas penteando o cabelo de uma
modelo. Que cavalheiro estranho, quando a norma deveria ter sido:
tire a roupa, suba no pedestal, e que tal um drinque depois? O
“estranho cavalheiro” estava sempre observando; e cabelo é um
assunto complicado. Há uma história de Degas saindo de uma festa,
certa noite, e virando-se para seu companheiro com a reclamação de
que não se veem mais ombros caídos na sociedade. É o pequeno
aparte de um grande artista. Goncourt relata a observação, confirma
sua justeza e busca sua explicação nos hábitos de reprodução ao longo
de diversas gerações, mas foi Degas – o artista, em vez do romancista,
observador social e crítico de arte – quem o viu. O tom de Degas, vale
a pena notar, é de lamento. O motivo da história não é comentado por
Goncourt, mas o lamento é presumivelmente artístico: pela percepção
de que o grande e fundamental formato que foi o tema de tantas
pinturas estava mudando, talvez não diante dos seus olhos, mas
durante a sua vida – e continuaria a mudar depois dela.
Quatro horas (e essa foi apenas uma das “quatro horas” dentre
muitas): a obra de Degas está repleta de momentos em que o cabelo é
“visto”. Cabelo íntimo, informal – cabelo pendendo; Degas sabe como
uma mulher segura seu cabelo para penteá-lo, como ela o apoia quando outra pessoa está penteando, como ela alivia o peso no couro
cabeludo com a palma da mão esticada nos momentos em que o
cabelo é puxado. Mas (fidelidade à vida fundindo-se com fidelidade à
arte) o cabelo também é maleável e metamórfico, ávido para tomar
formas abstratas. Em muitos dos quadros “após o banho”, ele faz eco
e joga com as viradas e os arranjos em cascata das toalhas, às vezes
parecendo trocar de lugar com elas. Em Mulher em seu banho (1893-8),
há até mesmo uma peça engraçada de impressão visual equívoca: o
que, a princípio, consideramos ser o cabelo preto da mulher preso
para o alto é, na verdade, a jarra d’água da empregada, pronta para
enxaguar, enquanto a cabeça está mais à frente, inclinada para baixo.
O corpo feminino moderno representado em estado de intimidade
por um observador masculino. Um século depois, nós nos tornamos
espectadores mais autoconscientes; mal-estar e pensamento correto
entraram na equação. O artista também contribuiu para essas coisas
com sua afirmação muito citada de que “as mulheres podem nunca
me perdoar; elas me odeiam, elas sentem que as estou desarmando.
Eu as mostro sem a sua afetação”. Talvez mulheres extremamente
afetadas realmente o odiassem por causa de sua arte; talvez as modelos
com as quais ele gritava (mas que ele também tratava com “enorme
paciência”) sentissem que tinham feito por merecer o que ganhavam.
Mas deveríamos evitar nos sentir facilmente ultrajados em nome de
pessoas que nunca encontramos. E há outro ponto a ser lembrado:
como Richard Kendall demonstrou, com frequência, os primeiros
compradores dessas cenas íntimas de arrumação feminina foram
mulheres.
Penteando o cabelo por Degas
Não se trata de uma área fácil: todos nós importamos nossos
preconceitos. Na sessão da National Gallery destinada à imprensa,
encontrei um diretor de museu que disse achar que os quadros eram
todos sobre “a decadência da carne”; já, para mim, parecia que Degas
estava retratando a carne em sua máxima robustez. Suas bailarinas
não são as sílfides e ninfas – delicadas, mas também suavemente
pornográficas – que pintores homens anteriores tinham retratado. Elas
são mulheres reais engajadas em um duro trabalho físico, que suam e
reclamam, contraem músculos e sangram nos dedos dos pés; mas que,
mesmo em seu estado de exaustão no descanso (aquela pose de mãos
na cintura, costas tensas, mal-posso-esperar-para-o-dia-terminar),
indicam uma vigorosa vida física. Isso é só o meu preconceito? Assim
como é meu preconceito diferenciar entre a vida, na qual Degas pode
ou não ter expressado a misoginia de sua época, e a arte, na qual me
parece que Degas amava francamente as mulheres. Essa observação necessita de uma qualificação imediata, é claro (quando ele pintava,
não estava “amando mulheres”, estava fazendo um quadro, e o quadro
sem dúvida era o que preenchia a sua mente), mas, por outro lado,
que ela fique como está. Será que você se inquieta constante e
obsessivamente com a representação de algo de que você não gosta,
algo que você despreza? “Pois cada homem desenha a coisa que ele
detesta”? No geral, não. Será que a “falta de recursos amorosos” de
Degas (se verdadeira – e existe, absurdamente, certa evidência recém-
descoberta de compra de preservativo para questionar isso) fez dele
um misógino? Não necessariamente: pode até mesmo fazer dele um
observador mais dedicado.
O artista como “voyeur”? Mas é exatamente isso que o artista
deveria ser: alguém que vê (e voyeur pode comportar também o
significado de visionário alucinatório). O pintor que torturava suas
modelos forçando-as em poses desconfortáveis? Só que ele usava a
fotografia, e também a memória (e papel de desenho). O pintor de
bordel que assim deixa escapar sua “aversão” pela sexualidade
feminina? No entanto, os monotipos de bordel feitos por Degas me
parecem refletir toda a vivacidade, o tédio, a absorção e o
profissionalismo daquelas pessoas envolvidas nesse negócio de linha
de montagem. Além disso, o tom não é mais aversivo do que nos
quadros de bordel de Lautrec. Talvez a reputação de Lautrec como
uma figura jovial marginalizada pelo nanismo – e assim nivelada
moralmente com as prostitutas marginalizadas – funcione a favor dele,
enquanto a reputação de Degas opera contra ele. O produto gráfico
permanece o mesmo em todo caso. Mas se você olhar para, digamos,
La Fête de la patronne, de Degas, e vir apenas aversão quanto à
sexualidade feminina, então eu suspeito de que você tenha problemas
de crítica – e talvez também pessoais – profundos.
Lição de dança (detalhe) por Degas
Outra linha de desaprovação propõe que a frequente evitação do
rosto nas pinturas da última fase indica um intento quase
pornográfico. Todos os argumentos implicam seus opostos: você
poderia argumentar igualmente (se você quisesse) que o rosto evitado
é o de uma mulher ignorando o pintor/espectador, uma mulher
indiferente em sua privacidade e envolvimento consigo mesma.
Especificamente a esse respeito: não se trata de retrato; ou pelo menos
não se trata de retrato como uma representação do caráter revelado. É
o retrato do corpo como forma, o final de uma busca da vida inteira,
que tinha começado para Degas muito antes, com a instrução de
Ingres: “Desenhe linhas, jovem, desenhe linhas.” Em dado momento,
Degas era dono de Angelica salva por Ruggiero, de Ingres, assim como
de um estudo a lápis para La Grande Odalisque. Reconsiderando essas
duas obras, pode-se ver até que ponto Degas levou adiante a
representação do corpo feminino. A pintura mostra o nu como algo que diz respeito totalmente ao acabamento, ao resplendor: a mulher
pintada em esplendor enaltecido mesmo quando submetida ao perigo
e ao tormento. O desenho mostra o nu como algo que diz respeito
totalmente à linha: a mulher com a espinha tão arquitetônica quanto a
quilha de um barco Viking, e com um peito que, apesar do que a pose
virada teria feito com ele, mantém um esplendor de silicone. Chez
Ingres, o mamário é marmóreo; chez Degas, o peito tem a mobilidade,
a inclinação e a queda da vida real. Idealização versus naturalismo. É
claro que artistas masculinos representando o nu feminino com
certeza serão criticados por alguém; nós temos nossas preferências e
princípios em voga – embora eles estejam, é claro, apenas em voga.
A mostra da National Gallery incluía A loja de chapéus (1879-84).
Você poderia, caso se esforçasse, ver aí mais um exemplo da
abordagem “com o rosto evitado”; pois há, sim, uma modista com seu
rosto semivirado. Mas isso acontece porque se trata de uma pintura
sobre chapéus. Não é um retrato, não é sobre trabalho, é sobre
chapéus; aqui, o tecido equivale à carne. Sua franca ousadia de
concepção lembra o grande retrato de Degas Mulher com crisântemos.
Esse quadro é, mais propriamente, Crisântemos com mulher: o brilho
solar das flores ocupa o centro da tela, enquanto a mulher olha para
fora da moldura, para a direita do espectador. Sempre que vejo essa
pintura (que vive no Metropolitan Museum em Nova York), ouço um
desafio e uma questão implícita: Você pensa que sabe o que é um
retrato? Há mais maneiras de pintar uma mulher e um bando de flores
do que você e eu jamais sonhamos, esse quadro sussurra. E a esse
respeito ele prefigura o que nós vemos de modo mais vívido e mais
frequente no Degas da última fase: o artista forçando as formas, a cor,
as possibilidades da forma e do movimento humanos ainda passíveis
de expansão. Se ele era implacável com suas modelos, não era menos
implacável consigo próprio, e com o que a arte pode ver e mostrar.