Mantendo um olho aberto
Courbet: não é daquele jeito, é deste
Em 1991, o Museu Courbet em Ornans, Franche-Comté, realizou
uma exibição da obra “erótica” de André Masson. A maior parte era
de coisas horríveis: obras juvenis, simplórias e, por vezes,
simplesmente desagradáveis, lembrando-nos de que vasculhar o
subconsciente masculino pode facilmente trazer à tona cachorros
mortos e equipamento de tortura enferrujado. Mas, para aqueles que
se arrastaram por toda a galeria, bem no final havia uma recompensa
inesperada. Sozinha e sem aviso encontrava-se a raramente vista[1] A
origem do mundo, de Courbet: o nu feminino esparramado, dos seios
até o meio da coxa, pintado para o diplomata turco Khalil Bey, e que
posteriormente ficaria na casa de campo de Jacques Lacan. Apesar de
mais de um século subsequente de erotismo e pornografia, ainda é
uma obra extraordinariamente potente. Mesmo Edmond de
Goncourt, que considerou “ce Jourdaens moderne” vulgar demais para
o seu gosto, seus nus “artificiais”, e que após comparecer, em 1867, a
uma exibição privada que trazia o lésbico O sono, de Courbet, e O
banho turco, de Ingres (ambos também pintados para Khalil Bey),
rejeitou os dois pintores como idiots populaires, foi conquistado por A
origem do mundo. Ele o viu pela primeira vez em 1889, dez anos após a
morte de Courbet, e ofereceu em seu diário “reparações honrosas” a
alguém que podia apresentar a carne tão bem quanto Correggio. Ele é
pintado com uma delicadeza exuberante, e o efeito é
intimidantemente realista. Não, não é daquele jeito, é deste, o pintor
parece declarar (todo realismo é essencialmente corretivo). E o fato de
que ele continue a fazer essa declaração, mesmo quando cercado pelo
erotismo do século XX, de que ele seja capaz de repreender seu futuro
tão bem quanto seu passado e presente, é um sinal do quanto a obra
de Courbet permanece viva.
O Mediterrâneo por Courbet Ele sempre foi um
grande crítico, um corrigidor, tanto na arte
quanto na vida. Não, não é daquela forma, é
desta: a paisagem marinha que cresce
frontalmente até o céu, o autorretrato arrogante,
a carne feminina densa, o animal agonizante na
neve, todos eles estão imbuídos de um zelo
descritivo e instrutivo. Ele é um pintor realista
confrontativo, esteticamente assertivo. “Grite
alto e ande reto” era, aparentemente, a máxima
familiar de Courbet, e, ao longo de sua vida – em
pessoa, em pinturas e em cartas –, ele gritou alto
e ouviu com gosto o eco. Em 1853, ele se
intitulou “o homem mais orgulhoso e mais
arrogante na França”. Em 1861, declarou: “Eu
tenho toda a juventude artística olhando para
mim e neste momento sou seu comandante
supremo.” Em 1867: “Assombrei o mundo todo... triunfei não só sobre os modernos, mas sobre os
velhos mestres também.” Em 1873: “Do meu lado, eu tenho tudo da democracia, todas as
mulheres de todas as nações, todos os pintores
estrangeiros.” Ele não podia sair para caçar
cervos nas colinas próximas a Frankfurt sem
noticiar que suas explorações tinham
“despertado a inveja de toda a Alemanha”.
Embora muito dessa arrogância pareça natural, ela também foi
feita sob medida para o mercado. Courbet – que nasceu em Ornans
em 1819 − foi para Paris aos vinte anos e teve sua primeira pintura
aceita pelo Salon cinco anos depois – criou, ou adaptou para seu uso, a
persona do provinciano tempestuoso, beligerante, subversivo e
desordeiro. E então, como algumas personalidades contemporâneas da
tevê, ele descobriu que sua imagem pública se tornara indistinguível
de sua verdadeira natureza. Courbet era um grande pintor, mas
também uma grande peça publicitária. Ele foi um pioneiro da
autopromoção; vendeu fotos de seus quadros para ajudar a espalhar
sua fama; divulgava notas para a imprensa quando uma de suas
pinturas era vendida por muito dinheiro; e planejou o primeiro centro
de exposição permanente dedicado a um único artista – ele mesmo.
Na Guerra Franco-Prussiana, chegou até mesmo a conseguir que um
canhão ganhasse o seu nome – e, aproveitando-se disso, escreveu para
um caricaturista de jornal dando detalhes de “cronograma e rota” do
“Le Courbet”, pedindo-lhe “para fazer uma cobertura em algum dos
jornais à sua disposição”.
Por todo seu socialismo libertário, suas tiradas contra o
establishment, seu desejo genuíno de purificar os estábulos imundos
da arte francesa, havia mais do que um toque de Yevtushenkoísmo em
torno dele, do rebelde aprovado sabendo até onde podia ir, e como
converter o ultraje a seu favor. Quando o seu quadro anticlerical
Retorno da Conferência foi rechaçado pelo Salon em 1863 (de modo
algum sua primeira rejeição), Courbet comentou com mais
complacência talvez do que fosse apropriado: “Eu o pintei para ser
recusado. Tive sucesso. Desse modo, vai me trazer algum dinheiro.”
Ele era escolado, ou pelo menos ruidosamente envolvido, na
politicagem que cercava a escolha e exibição de quadros no Salon; ele
queria ser aceito e recusado ao mesmo tempo.
Ele também queria aceitar e recusar, mais notoriamente no caso da
Légion d’honneur. Precisava da oferta pública de uma condecoração
para poder ficar publicamente ofendido por ela. Quase conseguiu o
que queria em 1861, até que Napoleão III retirasse com irritação o
seu nome da lista, e foi só em 1870 que o aguardado insulto
finalmente chegou. Ele o rejeitou – em uma carta para os jornais,
naturalmente – com grande pompa gaulesa: “A honra não se encontra
em um título nem em uma fita, mas nas ações e suas motivações. O
respeito por si mesmo e pelas próprias ideias constitui a maior parte
dela. Faço honras a mim mesmo por manter-me fiel a meus princípios
de toda a vida [etc. etc.].” Vale a pena comparar com o caso de
Daumier, que tinha recebido a oferta da Légion d’honneur antes,
naquele mesmo ano, e a tinha recusado discretamente. Quando
Courbet o censurou, Daumier, sempre o republicano reservado,
respondeu: “Fiz o que achava que devia fazer. Estou satisfeito por tê-
lo feito, mas não é assunto do público.” Courbet deu de ombros e
comentou: “Nunca faremos nada de Daumier. Ele é um sonhador.”
Existe uma montagem fotográfica, feita em torno de 1855, de
Courbet falando consigo mesmo: ambas as figuras parecem absortas.
Seus autorretratos são pintados com uma sensualidade cuidadosa que
beira o narcisismo. Enquanto a pose em que ele se retrata é com
frequência deliberadamente semelhante a Cristo. (Proudhon, seu
amigo filósofo anarquista, também não se intimidava com a
comparação: observem seu comentário “Se eu encontrar doze tecelões,
estou certo de conquistar o mundo.”) Em O encontro (1854), Courbet,
tendo acabado de descer de uma carruagem que é vista partindo à
direita, está sendo saudado em uma paisagem ampla por seu amigo e
patrono Alfred Bruyas e pelo criado de Bruyas, Calas. É difícil dizer
qual dos dois tem uma aparência de maior deferência. Bruyas acaba
de tirar o chapéu para saudar Courbet, enquanto o chapéu de Courbet
está em sua mão porque é assim que ele, como um artista livre,
escolhe caminhar; Bruyas baixa os olhos ao cumprimentar, enquanto
Courbet ergue a cabeça e aponta a sua barba como um complemento de interrogação. Para marcar sua posição, o artista carrega um bastão
duas vezes maior do que o do patrono. Não resta nenhuma dúvida a
respeito do que está acontecendo: o artista está testando se seu
patrono é apropriado, em vez de o contrário. O quadro se tornou
conhecido, satiricamente, como “Riqueza saudando o Gênio”.
Chegamos muito longe dos dias em que os patronos ou benfeitores de
uma pintura eram retratados ajoelhando ao lado dos santos, enquanto
o artista podia no máximo se disfarçar entre os camponeses nos cantos
do quadro.
O encontro (detalhe) por Courbet Ou então
observe O ateliê do artista (1854-5), a “Alegoria
real determinando uma fase de sete anos de
minha vida artística”: amigos e patronos à
direita, mais vasto e baixo mundo para a
esquerda, artista com modelo nu à disposição
no centro. Courbet o chamava de “a história
moral e física do meu ateliê”, assim como,
naturalmente, “o mais surpreendente quadro
imaginável”. Ele se deleitou com a qualidade
enigmática da pintura: os críticos teriam “seu
trabalho excluído”; o quadro “deixaria as pessoas
tentando adivinhar”. E ele ainda faz isso. Quem
são essas figuras, posicionadas em grupos
inertes que não se comunicam, esse improvável
cruzamento de visitantes no estúdio de
Courbet? De onde vem a luz? Por que uma
modelo está presente se ele está pintando uma paisagem – e por que está pintando a paisagem
em seu estúdio? E assim por diante. Mas seja
como for que tentemos resolver ou
sobrerresolver o mistério – é uma caricatura
política? Tem ornamentos maçônicos? (em caso
de dúvida, sempre se volte para os maçons) –
não há dúvida acerca do maior foco do quadro:
a figura do próprio Courbet trabalhando. Parece
ser uma área relativamente pequena para dar
suporte a uma pintura tão grande; mas a
imagem do mestre manejando seu pincel é
claramente pensada como suficientemente
poderosa para o serviço.
Ajuda ver O ateliê do artista em exibição no Museu d’Orsay na
parede diretamente oposta à grande pintura mais antiga de Courbet,
Enterro em Ornans (1849). Esta é uma pintura planejada como um
grande friso, firmemente emoldurado, com o sussurro e a reverência
das pessoas enlutadas ecoando nos penhascos mais além, e ela é
cortada na parte de cima, somente com uma pequena faixa de céu, o
suficiente apenas para acomodar e enfatizar o crucifixo erguido. Essa
severidade e esse foco fechado contrastam com a dispersividade de O
ateliê, especialmente pelo fato de que dois quintos dessa pintura se
encontram acima do alinhamento das figuras humanas, ocupando
uma vasta área de tom difuso e de marrom. Estruturalmente, O ateliê
pode nos recordar um tríptico medieval: Céu e Inferno dos dois lados,
com o vasto firmamento acima. E no centro, o que temos? Cristo com
Maria? Deus com Eva? Bem, Courbet com uma modelo, de qualquer
forma, sentado ali, reinventando o mundo. E talvez isso ajude a responder à pergunta sobre o porquê de Courbet estar pintando uma
paisagem em seu estúdio, em vez de en plein air: porque ele está
fazendo mais do que meramente reproduzir o mundo conhecido e
estabelecido – ele próprio o está criando de novo. A partir de agora, o
quadro diz, é o artista quem cria o mundo em vez de Deus (de fato,
Courbet certa vez disse ao escritor Francis Wey “Eu pinto como le bon
Dieu”). Lido assim, O ateliê do artista é tanto uma colossal blasfêmia
quanto uma reivindicação suprema da importância da arte,
dependendo do seu ponto de vista. Ou os dois.
Se Delacroix, o pintor romântico, tinha um temperamento não
romântico, então Courbet, o pintor realista, tinha a egomania de um
verdadeiro romântico. Estamos lidando não apenas com uma carreira,
mas com uma missão. Baudelaire escreveu que a estreia de Courbet
em 1855, em uma exibição que ele próprio organizou depois que tanto
O ateliê quanto o Enterro tinham sido recusados para a Exibição
Universal, aconteceu “com toda a violência de uma insurreição
armada”. E, a partir de então, a vida do pintor e o futuro da arte
francesa podem ser considerados indistinguíveis. “Estou
conquistando minha liberdade. Estou salvando a independência da
arte”, ele escreve, como se a segunda afirmação fosse meramente uma
elaboração da primeira. A destruição purificadora da arte
estereotipada, acadêmica e romântica (os símbolos correntes do
romantismo – violão, adaga, chapéu com pena – encontram-se
descartados no plano frontal de O ateliê) seria seguida pelo ato de
refazer a forma. Em uma carta aberta de 1861, dirigida aos jovens
artistas de Paris, Courbet expôs os elementos principais da nova arte:
contemporaneidade do tema (artistas não deviam pintar o passado ou
o futuro), individualidade da maneira, concretude, realismo (ele certa
vez louvou um de seus próprios quadros de cervos por ser
“matematicamente preciso” e por não conter “nenhum idealismo”) e
beleza. Essa beleza devia ser encontrada na natureza, porque a
natureza carregava sua própria expressividade artística “dentro de si”, algo que o artista não tinha nenhum direito de adulterar. “A beleza
fornecida pela natureza é superior a todas as composições artísticas”.
O ateliê do artista (detalhe) por Courbet
Geralmente se considera que essa profession de
foi na verdade foi escrita por Jules Castagnary,
amigo do pintor. Courbet se imaginava um
teórico, mas sua disposição mental era prática,
mais do que abstrata. Em qualquer caso,
devemos sempre confiar na pintura (e avaliá-la),
e não no manifesto alardeado. O chamado para
o realismo concreto claramente não exclui
alegoria, mistério ou sugestão –, como em O
ateliê do artista. Da mesma forma, a retórica belicosa não nos prepara nem para a sutileza
nem para a variedade simplesmente desmedida
da obra de Courbet: do primeiro retrato
belliniesco de sua irmã Juliette até aquelas
paisagens marinhas confrontadoras que no seu
auge têm um poder para além do realismo, e daí
até o complexo e entorpecidamente erótico Senhoritas às margens do Sena. Courbet foi
acusado de seguir “a batida da publicidade” com esse último quadro (e sem dúvida ele a seguiu –
quando não fez isso?), mas agora que a sua história como provocação passou, o quadro
permanece uma imagem tensamente atrativa. A
cena está disposta na sombra, no entanto indica
um calor opressivo; a atmosfera aparentemente
lânguida é negada pela coloração brilhante,
quase espalhafatosa; o olho sonolento e
semiaberto da mulher virada de lado contrasta
com o olhar franco que nos permitimos lançar
sobre ela e sua companheira. Esse nosso olhar é
também próximo como o de um intruso, uma
vez que a pintura está rigidamente enquadrada;
as árvores viçosas se inclinam excepcionalmente
baixas sobre as figuras reclinadas, e o ramo de
folhas no canto inferior direito acrescenta a essa
imagem um encarceramento sufocante. Há
ainda um laço estrutural que envolve o quadro.
O barqueiro que levou essas mulheres pelo Sena
até esse ponto tranquilo saiu de cena, deixando
seu chapéu abandonado no bote atracado no
fundo da pintura. Para onde ele foi? É de se
presumir que se retirou do quadro, dando uma
volta, e agora se encontra de pé onde nós
estamos, observando às escondidas essas duas
passageiras deitadas. Se o barqueiro não chega a
se fundir com o espectador, ele certamente se
encontra por perto, cúmplice de olhar ávido,
impelindo para dentro do quadro.
Da mesma maneira com que há ausências expressivas em vários
dos melhores quadros de Courbet – o dono do chapéu em Senhoritas,
o corpo fora do alcance abaixo dos pés das pessoas enlutadas no
Enterro, Madame Proudhon na homenagem diáfana ao filósofo –,
também há silêncios poderosos nas cartas de Courbet. É óbvio que a
sobrevivência de correspondências depende de muitos fatores e seu
testemunho pode ser pouco representativo, mas, mesmo assim, é difícil pensar em um pintor importante que demonstre menos
interesse em, ou valorização de, obras de outros. Nenhum relato
animado a respeito da visão de uma grande pintura pela primeira vez,
nenhum encorajamento de outros (com exceção de encorajá-los a ser
mais como Courbet). O mundo se divide entre “os antigos”, ou seja,
aqueles desafortunados que nasceram antes dele, e “os modernos”, ou
seja, ele mesmo. Ele socializa com Boudin, é financeiramente generoso
com Monet, tem uma palavra bondosa, porém breve, para dizer a
Corot e cita Ticiano como um ponto útil de comparação com sua
própria obra. A única pessoa, ou talvez persona, diante da qual
Courbet se inclina é Victor Hugo, o único francês que mesmo ele teria
de admitir ser mais famoso e para quem escreve ansiosamente cartas
embaraçosas em busca de amizade.
Courbet era um socialista (pré-marxista, reconhecidamente) que
se envolvia com o mercado de ações e era um perspicaz comprador de
terras. De modo similar, levando em conta todas as suas convicções
milenares, sua atitude em relação às mulheres era sugestivamente a de
sua época e de sua classe: bordéis, amantes e imaturidade sem
reflexão. Assim, ele afirma: “Mulheres deveriam se ocupar apenas de
sopa de repolho e de tomar conta da casa.” Ou, elevando um pouco o
mesmo sentimento, como um aforismo galante: “Cabe às damas
corrigir, com seus sentimentos, a racionalidade especulativa dos
homens entre eles.” Ele declarou, de forma intermitente, que sua arte
não lhe deixava tempo para se casar, enquanto tentava, da mesma
forma descontínua, se casar. Em 1872, escolheu uma jovem de sua
nativa Franche-Comté, declarando solenemente que ele e sua família
não se incomodavam com “as diferenças sociais”, e continuando de
maneira displicente em sua carta para um intermediário: É impossível
que a senhorita Léontine, apesar dos conselhos estúpidos que venha a
receber dos camponeses, possa não aceitar a posição brilhante que lhe
estou oferecendo. Ela será sem dúvida a mulher mais invejada da
França e poderia renascer outras três vezes sem nunca chegar perto de uma posição como esta. Porque eu poderia escolher uma esposa de
qualquer sociedade francesa sem nunca ser recusado.
Aqueles que acreditam no trabalho da hybris e aqueles que apenas
gostam de uma boa novela ficarão igualmente alegres por saber que a
senhorita Léontine declinou de se tornar a mulher mais invejada da
França. Ela o deixou bufando e vociferando a respeito do rival rústico
para o qual a tinha perdido, e sobre as “doçuras de vila”, que têm “um
valor intelectual semelhante ao de suas vacas, sem valer a mesma
quantia em dinheiro”.
Sob o Segundo Império, Courbet promoveu uma campanha
turbulenta, estrepitosa e admirável em favor da democratização da
arte, em seu financiamento, administração e ensino. Em 1870-1,
durante o Cerco e sob a Comuna, ele finalmente obteve o poder
artístico que supostamente almejava. No entanto, ironicamente, isso o
levou à ruína. A história toda é estranhamente prognosticada em suas
cartas. Em 1848 – aquele ano do início da revolução –, Courbet
escreve para sua família garantindo-lhes que “não está se envolvendo
muito em política”, mas que ele “sempre estará pronto a oferecer
ajuda para destruir o mal que está estabelecido”. No ano seguinte, ele
diz a Francis Wey: “Eu sempre senti que, se a lei pusesse na cabeça a
ideia de me acusar de assassinato, eu certamente seria guilhotinado,
mesmo se não fosse culpado.” Um ano depois: “Se eu tivesse que fazer
uma escolha entre países, admito que não escolheria o meu próprio.”
Duas décadas depois, Courbet instigou a campanha para demolir o
mal estabelecido que era a Coluna Vendôme, um símbolo do
imperialismo napoleônico. Após a queda da Comuna, a lei de fato o
acusou e, embora talvez não fosse tecnicamente culpado (com certeza
menos culpado do que alguns outros, uma vez que ele não era um
delegado da Comuna no período relevante), ele foi sentenciado a seis
meses de prisão. Posteriormente, a sentença foi complementada com a
exigência de uma ruinosa indenização de cerca de 290 mil francos; de
modo que a perspectiva de mais tempo de prisão por dívida o forçou a
fazer a sua “escolha entre países”. Ele optou pela Suíça.
Courbet aceitou a responsabilidade moral pela destruição da
odiada coluna. Mas nem isso, nem a recordação para as autoridades de
que durante o Cerco e a Comuna ele havia salvado de possível perda
muitos tesouros nacionais mitigaram sua posição. Ele parece não ter
entendido até que ponto, em torno de 1871, havia se tornado um alvo
perfeito para o novo governo. Uma figura pública carismática,
provocador profissional da ordem estabelecida, socialista, anticlerical,
delegado da Comuna, um homem que elevou a independência
artística a um credo político, que podia escrever sobre Napoleão III:
“Ele é um castigo que eu não mereço”, e cuja frase de fechamento em
seu apelo aos artistas de Paris, em abril de 1871, tinha sido: “Adeus,
velho mundo e sua diplomacia.” Que vítima seria mais apropriada e
exemplar quando o “velho mundo” retornou ao poder? E quando o
Estado decide perseguir um indivíduo por motivo de política pública,
tem mais do que as vantagens normais de dinheiro e organização; ele
tem também o formidável benefício do tempo. O indivíduo pode ficar
cansado e deprimido, sentir seu talento ser afetado, seus anos indo
embora; enquanto o Estado se imagina imortal e raramente fica
cansado. O Estado francês em particular pode ser implacável depois
de guerras, especialmente guerras civis.
Mesmo em torno de 1876, Courbet ainda não conseguia entender
o que tinha acontecido, ou melhor, o porquê. “Foi”, ele perguntou a
senadores e deputados em uma carta aberta, “para punir-me por ter
recusado a condecoração sob o Império que eu tenho de carregar uma
cruz de outro tipo?” Talvez isso não seja mais do que um jogo de
palavras, mas é revelador por parte do pintor que chamou um de seus
autorretratos de Cristo com cachimbo. Se o Estado francês não
crucificou Courbet, certamente fez seu melhor para arruiná-lo: sua
propriedade foi confiscada; seus quadros foram roubados; seus bens,
vendidos; sua família, vigiada. Ele continuou a pintar, e a enfrentar a
situação a partir da Suíça; em algumas ocasiões, chegou a reunir toda
a sua velha presunção: “Neste momento, eu tenho mais de cem
encomendas. Devo isso à Comuna... A Comuna teria feito de mim um milionário.” Mas seus derradeiros anos foram tristes e estressantes –
separado da família e dos amigos, cada vez mais obcecado com aqueles
que o tinham denunciado e traído. Enfim, exaurido, ele concordou em
negociar um acordo com o governo francês, segundo o qual prometeu
pagar o custo da reconstrução da Coluna Vendôme ao longo de um
período de 32 anos. “Tenho de ir a Genebra para pegar um passaporte
no consulado”, ele escreveu com otimismo em maio de 1877; mas o
distúrbio continuado na França o manteve em exílio até sua morte em
dezembro.
Depois de visitar aquela exibição de Masson em 1991, sentei-me a
uma das mesas de café na praça Humboldt e olhei para além do Loue,
rio raso e de águas rápidas – que Courbet havia pintado em um ponto
bem anterior, passando pelas florestas, em sua nascente –, para a
maison natale do artista. Em sua lateral, estavam as letras apagadas da
palavra BRASSERIE. Isso pareceu conveniente demais. O pintor belga
Alfred Stevens contou a Edmond de Goncourt que o consumo de
cerveja por Courbet era “aterrorizante”; trinta bocks em uma noite, e
ele também preferia acrescentar a seu absinto vinho branco, em vez de
água. Em diversas ocasiões, seu amigo Étienne Baudry enviou barris
de 62 litros de conhaque para o exílio (a irmã de Courbet mandava
apenas “esplêndidas meias”, às quais ele respondeu com presentes,
como uma máquina de costura para ela e um moedor de pimenta para
seu pai). O abuso de álcool resultou em hidropsia, causando o inchaço
do corpo do pintor em proporções enormes. A assustadora técnica
nova de “punção” produzia vinte litros de líquido, pouco mais efetiva
do que o sistema antigo (banhos de vapor e purgante), que havia
extraído “dezoito litros provenientes do ânus”. Parece horrivelmente
apropriado que tenha havido algo de extravagante na morte de
Courbet, assim como havia em sua vida e em sua arte.
1. Atualmente é mais fácil de ser vista no Museu d’Orsay. Sua chegada foi
celebrada por John Updike em um poema, peculiarmente intitulado ‘Duas xoxotas em Paris’ (Americana and other Poems, 2001).