Mantendo um olho aberto
Vallotton: o nabi estrangeiro
Na virada do século XX, as irmãs Cone, de Baltimore, dra.
Claribel e srta. Etta, herdaram uma fortuna tecida com algodão, sarja
e lona de colchão. Elas escolheram gastá-la com arte. Ao longo das
décadas seguintes, comprando principalmente em Paris, elas
reuniram, com bom gosto e a ajuda de especialistas – inclusive Leo e
Gertrude Stein –, um grande número de Matisses, além de obras de
Picasso, Cézanne, Van Gogh, Seurat e Gauguin. Antes da dra.
Claribel morrer, em 1929, ela assinou um dos testamentos mais
manipuladores da história da arte. Sua parte da coleção iria em
primeira instância para sua irmã, com a “sugestão, mas não uma
ordem ou obrigação” de que, após a morte de Etta, ela passasse para o
museu de arte local “caso o apreço pela arte moderna em Baltimore
crescesse”. Este maravilhoso desafio de uma mulher moribunda para
uma cidade inteira combinou-se com a proposta, ou ameaça, de que o
Metropolitan Museum de Nova York seria o receptor alternativo. Os
vinte anos seguintes – até a morte da srta. Etta, em 1949 –
naturalmente foram repletos de politicagens por parte do
Metropolitan, mas a pequena e corajosa Baltimore acabou provando
sua qualificação e modernidade. A Coleção Cone é hoje a principal
razão para se visitar o Baltimore Museum of Art no campus da
universidade John Hopkins.
Quando estava ensinando lá por um semestre, em meados dos
anos 1990, eu costumava visitar o museu entre uma aula e outra. A
princípio, Matisse e os outros grandes nomes me ocuparam, mas o
quadro que mais atraía a minha atenção era um óleo pequeno, intenso,
do pintor suíço Félix Vallotton; ele se chamava A mentira. Havia outro
Vallotton na coleção, uma imagem extremamente taciturna de
Gertrude Stein (1907) – que Vuillard chamou espirituosamente de
“Madame Bertin” – que teria sem dúvida se tornado a sua face pública,
caso Picasso não tivesse roubado a preeminência do tema no ano anterior. Mas eu fiquei fascinado com A mentira; pintado em 1897 e
comprado trinta anos depois por Etta Cone do irmão de Félix, Paul,
que era marchand, em Lausanne. O quadro custou 800 francos suíços;
nada mais que uns trocados, considerando que, no mesmo dia, com o
mesmo marchand, ela comprou um pastel de Degas por 20 mil francos.
A mentira por Vallotton Um dos meus alunos de
redação escrevera uma história baseada numa
misteriosa mentira, então eu me vi descrevendo
o Vallotton para a turma. Um homem e uma
mulher estão sentados num interior típico do
final do século XIX: papel de parede listrado de
rosa e amarelo ao fundo e móveis pesados em
tons de vermelho escuro em primeiro plano. O
casal está enlaçado em um sofá, as curvas
escarlates abundantes dela aconchegadas entre
as pernas pretas das calças dele. Ela está
murmurando algo no ouvido do homem; ele
tem os olhos fechados. Claramente, a mulher é a
mentirosa, um fato confirmado pela
complacência sorridente da expressão do
homem e pelo modo como o pé esquerdo dele
está levantado com uma elegância inocente. Só o que nos resta imaginar é que mentira ela está
contando. A velha frase enganadora “Eu te
amo”? Ou o volume do vestido da mulher
invoca aquela outra favorita “É claro que o filho
é seu”?
Na minha aula seguinte, diversos alunos se manifestaram a
respeito do assunto. Um deles, a romancista canadense Kate Sterns,
disse educadamente que minha interpretação estava inteiramente
errada. Para ela, estava óbvio que o homem era o mentiroso, um fato
confirmado pela complacência sorridente da sua expressão e pela
posição do seu pé. Toda a postura dele era de presunção e falsidade; a
da mulher era de uma pessoa docilmente enganada. Só o que nos resta
imaginar é que mentira ele está contando. Se não “Eu te amo”, então,
talvez, aquela outra mentira masculina recorrente: “É claro que eu vou
me casar com você.” Outros alunos tiveram outras ideias. Um deles
sugeriu engenhosamente que o título, em vez de se referir a uma
inverdade específica, poderia ser uma alusão mais ampla – àquela
mentira necessária de conveniência social que torna impossível uma
troca honesta entre os sexos. O uso que Vallotton faz da cor talvez
confirmasse isso. À esquerda, está o casal em tons vivamente
contrastantes; à direita, uma poltrona vermelha se funde com uma
toalha de mesa vermelha. Os móveis podem se harmonizar,
poderíamos concluir; os seres humanos, não.
Vallotton, assim como compatriotas tão diversos quanto Liotard,
Le Corbusier e Godard fizeram aquela coisa suíça de dar a impressão
ao mundo de ser franceses. Na realidade, ele foi mais longe, e um ano
depois de se casar com uma pessoa de uma família de marchands
parisienses de Bernheim, em 1899, se naturalizou cidadão francês. Ele
foi membro do grupo nabi e amigo da vida inteira de Vuillard. Não
que qualquer dessas coisas aumentasse sua reputação na Inglaterra.
Baltimore foi o primeiro lugar onde registrei o nome de Vallotton; e
frequentadores de galerias locais não precisam ficar envergonhados se
ele não soar familiar. Quem deve ficar constrangido são os
compradores de arte do país. Na Inglaterra, ele nem é o nabi
esquecido; está mais para o nabi desconhecido. Nunca houve uma exposição pública dos seus quadros neste país; embora, em 1976,
tenha havido uma exposição itinerante de suas xilogravuras
promovida pelo Arts Council. Uma consulta recente junto à
Fundação Félix Vallotton revelou que nós temos um único quadro
dele de propriedade pública, Estrada em St Paul (1922), que pertence
ao Tate só porque foi doado por Paul Vallotton depois da morte do
irmão. Ele não é exposto desde 1993; e nem esteve emprestado
durante esse tempo. A maior parte de suas obras está nas principais
cidades suíças e no Museu d’Orsay; fora isso, você raramente
encontrará mais do que dois de seus quadros pendurados um ao lado
do outro. Muitos deles, inclusive alguns dos melhores, ainda estão em
posse de particulares e não aparecem nem mediante convite de
curadores poderosos.
Vallotton foi subestimado com frequência, até mesmo tratado com
desdém: Gertrude Stein o chamou esnobemente de “um Manet para
os pobres”. Mas há outro motivo para ele ter sido ignorado. Sua
produção foi grande, e ele é um pintor que, mais do qualquer outro
que eu possa me lembrar, varia de alta qualidade a terrível feiura. O
Museu de Belas-Artes em Rouen, por exemplo, tem dois Vallottons
expostos num corredor escuro e um tanto apinhado. Um deles é um
esboço de teatro, com nove cabecinhas escuras espiando por cima de
um parapeito de galeria e parecendo manchinhas de poeira, por causa
do grande volume amarelo-creme da parte da frente do balcão pintado
logo abaixo. O quadro não tem nada do impressionismo agitado, da
luz cambiante e do brilho, digamos, dos esboços de teatro de Degas ou
Sickert. Com tons vivos mas escassos, ele é um bom estudo do
isolamento da vida moderna na cidade. Mas, na parede oposta do
corredor, está um nu de tal feiura que, se você o visse antes, anotaria o
nome do artista para futuramente evitar a qualquer custo o trabalho
dele. Um amigo meu suíço uma vez me perguntou tristemente: “Mas
você alguma vez viu um bom nu de Vallotton?”
A primeira vez em que fui a uma exposição centrada em Vallotton
– no Zurich Kunsthaus em 2007 – minha reação inicial foi de alívio: ele era um artista ainda melhor do que eu tinha imaginado e com uma
gama mais ampla de temas. Eu percebi também que, apesar do seu
casamento e adoção da cidadania francesa, de seus verões em Étretat e
Honfleur e do seu status parisiense oficial de “o nabi estrangeiro”, ele
não era de forma alguma um artista francês; mas, sim, um
independente desajeitado que se ajusta com dificuldade em qualquer
narrativa mais ampla de pintura. Em 1888, depois de uma viagem à
Holanda, ele escreveu para seu amigo, o pintor francês Charles
Maurin: “Meu ódio pela pintura italiana aumentou, bem como pela
nossa pintura francesa... vida longa para o Norte e merde para a Itália.”
Embora um dedicado nabi, que pintava a vida moderna e os eventos
urbanos cotidianos, Vallotton era instintivamente atraído pela
narrativa e pela alegoria, pelas arestas afiadas do norte – Alemanha e
Escandinávia – e por um estilo sem emoção que às vezes prefigura
Hopper (que pode ter visto a obra de Vallotton durante sua estada em
Paris em 1906-7). Ele também era mais político, mais satírico, mais
avesso à autoridade. Talvez seu mais simbólico ato de solidariedade
para com seus colegas franceses tenha sido quando ele, Bonnard e
Vuillard foram indicados para receber a Légion d’honneur ao mesmo
tempo; todos os três a recusaram.
Em termos de temperamento, em sua juventude, ele parecia
francês ou suficientemente francês: “afável, calmo e alegre” por estar
em Paris. Naturalmente, ele tinha uma modelo/amante, Hélène
Chatenay, conhecida como “la petite”, que também naturalmente era
uma costureira. Em certo momento, parece ter pensado em se casar
com ela, mas foi aconselhado a não fazer isso por Maurin, que lhe
disse: “Eu tive amigos que eram tão afáveis antes e ficaram tão
desagradáveis depois.” A pintura de retratos pagava as contas; embora
ele também tivesse ajuda financeira da família. Seu irmão Paul, que
ainda não era um marchand, trabalhava na fabricação de chocolate,
chocolate em pó e nougat, e Félix era enviado a possíveis
distribuidores parisienses para estabelecer contato. “Mandem
chocolate em pó, por favor”, ele escrevia para casa. No decorrer dos anos 1890, aos poucos, mas de forma consistente, Vallotton se tornou
conhecido por suas caricaturas e xilogravuras satíricas; colaborou com
a Revue Blanche e foi diretor artístico da Revue Franco-Américaine, uma
revista de luxo fundada pelo príncipe Poniatowski, que naufragou
depois de três números. Ele se tornou oficialmente um nabi quando
apareceu na terceira exposição em grupo de 1893. Ele encontrou
Vuillard poucos anos antes; conheceu Mallarmé e o escritor Jules
Renard, que escreveu em seu jornal de 1894: “Vallotton, amável,
franco e distinto, seu cabelo liso muito bem repartido; de gestos
sóbrios, teorias simples e um sabor bastante egoísta em tudo o que
diz.” Ele estava com trinta e poucos anos, traçando o seu caminho,
autossuficiente, em ascensão.
Os cinco pintores por Vallotton.
O detalhe mostra Vallotton (de pé), Bonnard
(esquerda) e Vuillard E então, em 1899, Vuillard
escreve para ele: “Soube que houve uma
revolução.” Tinha havido mesmo: Vallotton
tinha anunciado sua intenção de se casar com
Gabrielle Rodrigues-Henriques, filha do
marchand Alexandre Bernheim. Ele a conhecia
havia quatro anos; parece ter sido um
casamento baseado tanto no amor quanto no
bom senso. Vallotton, sempre contido ao se
expressar, disse ao seu irmão Paul que “ela é
uma mulher de infinita bondade com quem eu
vou me dar muito bem”; tudo ia ser “muito
sensato”; e a família Bernheim era “muito
honrada e rica”. Gabrielle, que tinha 35 anos
enquanto ele tinha 33, era uma viúva cujo
primeiro marido se matara e tinha três filhos entre quinze e sete anos – “e eu irei amá-los”, Vallotton assegurou ao irmão (e a si mesmo).
S em dúvida houve uma revolução: casamento;
enteados; mudança da Margem Esquerda para a
Margem Direita, da Rue Jacob para a Rue de
Milan; da independência, insegurança e um
gosto pela anarquia para o conforto burguês.
Neste ponto, ele também abandonou sua
carreira jornalística e principalmente parou de
fazer xilogravuras. Dali em diante, na virada do
século, ele se dedicaria à pintura e ao
casamento. O que poderia dar errado?
De fato, o que poderia dar errado? No dia 24 de abril de 1901,
Paul Léautaud, de 29 anos, foi jantar na casa de Paul Valéry, onde o
convidado de honra foi Odilon Redon. O pintor falou longamente
sobre os vinhedos de Bordeaux, antes de comunicar inesperadamente:
Fofoca sobre Vallotton, que se casou com uma viúva muito rica faz
pouco tempo. Parece que ele não consegue produzir nada, porque está
sempre tendo que fazer visitas ou recebê-las.
Tanto Valéry quanto Redon eram casados (e ambas as mulheres
estavam presentes), então talvez houvesse uma presunção implícita:
nós conseguimos ser artistas casados e prosseguir com nosso trabalho
– ele, não. De fato, como a maioria das fofocas, isso só era verdadeiro
em parte. Os primeiros anos do século foram um bom período para a
arte de Vallotton, e são desta fase os quadros mais ternos que ele pintou – todos de sua nova mulher. Gabrielle de camisola, em seu
quarto, costurando, tricotando, mexendo num armário, tocando
piano, parada diante de uma série de quartos que parecem
proporcionar uma profunda felicidade: não há dúvida de que este era
um relacionamento amoroso. Mas era também um casamento
burguês. Gabrielle, apesar dos negócios do pai, não estava muito
interessada no trabalho do marido; enquanto Félix descobriu que
tinha trocado as preocupações financeiras de um boêmio pelas
preocupações financeiras em escala maior de um burguês. No período
de 1897-1905, sua renda, na verdade, diminuiu. Além disso, a vida
luxuosa que ele passara a ter não combinava com o seu temperamento.
Em dezembro de 1905, ele escreveu de Nice para o irmão: “Nós
estamos morando numa villa suntuosa, cercada de palmeiras e
laranjeiras. Isto me deixa desconfortável: eu preferia estar numa
cabana no campo.” E, embora ele ainda mantivesse contato com
Hélène Chatenay, a moral burguesa não permitia que Bonnard
visitasse os Vallottons acompanhado por sua petite, Marthe de
Méligny.
Parte disso havia sido estranhamente (ou não tão estranhamente)
antecipada no trabalho que Vallotton produziu imediatamente antes
de seu casamento. Este é composto de uma série de quadros de 1897 a
1899 conhecidos como Intimidades, dos quais A mentira fazia parte.
Eles são do auge do seu período nabi: composição em blocos de cor,
tons esplendidamente contrastantes, cenário interno e geralmente uma
iluminação tenebrosa. Mas, enquanto que para Vuillard e Bonnard a
cor e suas harmonias eram o principal, e os habitantes de seus espaços
domésticos eram formas conspiratórias mais do que pessoas, Vallotton
sempre esteve interessado no que estava acontecendo com os seres
humanos que retratava. Suas figuras têm uma vida para além da tinta
que as pinta; elas, ao mesmo tempo, oferecem (e ocultam) uma
narrativa. Em Esperando, um homem de terno marrom, meio oculto
por pesadas cortinas marrons, espia pela fresta para ver a chegada de,
provavelmente, uma mulher: mas ele está timidamente esperançoso ou ameaçadoramente predatório? Em A visita, outro homem (ou talvez o
mesmo) cumprimenta uma mulher de casaco roxo, e as linhas de força
da pintura levam você inevitavelmente para a porta aberta do quarto
no fundo à esquerda: mas qual dos dois está no comando aqui? Interior
com poltrona vermelha e figuras mostra o desenlace de uma briga: uma
mulher sentada, com a mão no queixo, e um homem em pé cuja
sombra preta cai sobre a saia dela como uma mancha sexual sinistra.
Em outros, casais se acariciam ou se abraçam na semiescuridão; até a
mobília parece cúmplice do que está acontecendo. Estas são pinturas
de ansiedade, desagrado, conflito. São narrativas enigmáticas sobre a
vida sexual: raramente está claro quem é dominante, quem está
pagando, e em que moeda. Eles foram chamados de “interiores
violentos”, o que pode ser exagerado; mas com certeza são pinturas de
profunda dissonância emocional. Mais ou menos na mesma época,
Vallotton fez uma série de dez xilogravuras, também conhecidas como
Intimidades, embora só haja uma cena diretamente repetida: a de A
mentira. As xilogravuras são mais agudamente satíricas – e mais
diretamente legíveis – ilustrações de guerra emocional. O triunfo
mostra uma mulher implacável reduzindo um homem às lágrimas;
Preparando-se para uma visita, um marido extremamente entediado
esperando enquanto a mulher se enfeita; Medida extrema, uma
discussão à mesa de jantar – a esposa em pé, de costas, o rosto
enterrado no guardanapo, o marido, culpado, se levantando para
acalmá-la. A mais forte de todas, Dinheiro, tem um casal em pé numa
sacada do lado esquerdo da gravura; o homem, vestido de preto, está
apontando algo para a mulher, vestida de branco. O que ela não pode
ver, mas nós podemos, é o que está atrás do homem: uma faixa preta
que ocupa dois terços da gravura, tomando conta do corpo do homem,
de modo que apenas sua mão esquerda e seu rosto escapam dela. Isto,
nós compreendemos, é dinheiro e é o modo como ele interfere
inexoravelmente na vida do casal e seu relacionamento. Tudo
esculpido na madeira pouco antes de Vallotton se casar com sua viúva
“muito rica”.
As gravuras são onde ele expressou mais completamente sua
jocosidade, ironia e seu olhar sarcástico para a Paris do fin-de-siècle.
Elas têm dimensões reduzidas (normalmente de 17 por 22
centímetros) e há em todas um grande contraste entre preto e branco.
No entanto, neste material ele é capaz de diferenciar texturas sutis de
tecido; e neste espaço restrito ele é capaz de dispor cenas dinâmicas de
multidão. Manifestantes fogem da polícia; guarda-chuvas se abrem em
todas as direções durante um temporal; gendarmes grosseiros batem
num anarquista magro e poético. Este elemento narrativo também nos
lembra que Vallotton foi um artista raro em outro aspecto: ele tinha
ambições literárias. Como muitos pintores, ele mantinha um diário.
Mas também trabalhou como crítico de arte, escreveu oito peças, duas
das quais foram produzidas por um breve período, e três romances,
nenhum dos quais foi editado durante a vida do autor. O melhor
deles, A vida assassina, é um “interior violento” mais abertamente
sangrento do que qualquer uma de suas Intimidades: a história, meio
que à maneira de Poe, trata de um advogado que se tornou crítico de
arte e que, desde a infância, descobre que sua simples presença traz a
morte para aqueles que o cercam. Ele está presente quando um amigo
cai num rio, quando um entalhador se fere com seu buril e morre por
envenenamento de cobre, quando a modelo de um artista cai sobre
uma estufa e sofre queimaduras fatais. Até que ponto o protagonista é
cúmplice ou espectador involuntário do que acontece? Seria ele vítima
de uma obscura maldição? E, se isto for verdade, como ele pode evitar
causar outras mortes? A narrativa de Vallotton é outro enigma
organizado.
Dinheiro por Vallotton O pintor era lúcido
demais para se achar vítima de uma obscura
maldição; mas a solução que imaginou ter
encontrado em Gabrielle – uma vida de pintura,
felicidade matrimonial e amor pelos enteados –
não se realizou. Jantar à luz de lampião (1899)
mostra a nuca (sem dúvida suíça) de alguém na
mesa de jantar. À direita dele, usando um
vestido cor-de-rosa, Gabrielle fita do outro lado
da mesa o seu filho mais velho, Jacques, que
mastiga uma fruta, enquanto que, diretamente
em frente, está sentada uma menina que olha de
olhos arregalados para o intruso à mesa. Este
não é um quadro sobre textura e harmonia de
cor; é todo ele sobre contraste de cor e
psicodinâmica. E ele é profético. O
relacionamento de Vallotton com seus enteados
logo deu errado. “A espontaneidade deles o assustava”, disse um observador. E, em suas
cartas, o pintor se queixa: “Estaria tudo bem se
Jacques não fosse especialmente odioso.”
Jacques e o irmão são “dois perfeitos cretinos”
(Stein se referiu à “violência dos enteados”).
Mas o foco principal do antagonismo (mútuo)
sempre foi a enteada. “Madeleine desfila e
impõe sua arrogância, sua estupidez, seu
autoritarismo.” “Ela dança o tango, enche a casa
de conhecidos eventuais e critica tudo.” “Ela
passa o tempo fazendo as unhas e vendo o
sofrimento de todos como que do alto.” Em uma
carta de 1893, o pintor Philippe-Charles Blache
havia se dirigido de brincadeira a Vallotton
como “Monsieur le Mélancholique”, e agora a melancolia subjacente do temperamento dele
começava a emergir. O pintor também era
“supersensível e parcimonioso” – o que não seria
o temperamento adequado para um padrasto
ideal. Gabrielle, dividida entre lealdades
emocionais, estava sempre doente. Nas
primeiras cartas, ele se refere à mulher sempre
como “ma bonne Gab”, mas rapidamente muda
para “ma pauvre Gab” e continua assim até o
fim. Em 1911, Félix informa seu estado de
“angústia permanente” ao irmão Paul: “Eu não
tenho ninguém em quem confiar, e a
negligência dos que me cercam, que vivem apenas para a gratificação imediata de seus
apetites, é estarrecedora.” Em 1918, ele está
escrevendo em seu diário: “O que o homem fez
de errado para ser obrigado a se submeter a este
‘sócio’ assustador conhecido como mulher?” É
como se A mentira tivesse se tornado a verdade.
Ele expressa seu horror a “esta vida falsa, à
margem da vida real, que eu venho suportando
há vinte anos, e com a qual sofro tão cruelmente
quanto sofri desde o primeiro dia”. Enquanto
Vuillard poderia dizer, satisfeito, “eu nunca fui
nada além de um espectador”, Vallotton se
queixa de que “toda a minha vida eu terei sido
alguém que vê a vida através de uma janela e
que não vive”.
Só restava para ele a arte. Em 1909, numa carta a seu novo
mecenas, Hedy Hahnloser (que morava com o marido Arthur na Villa Flora em Winterthur), ele escreve: Eu acho que o que é característico
da minha arte é um desejo de expressão através de forma, silhueta,
linha e volume; a cor é um aditivo destinado a enfatizar o que é
importante, mas que permanece secundária. Eu não sou sob nenhum
aspecto um impressionista e, embora eu admire muito a arte deles,
orgulho-me de haver resistido a sua forte influência. Eu tenho um
gosto especial pela síntese: sutilezas de detalhes não são o que eu
quero nem são o meu forte.
Esta é uma autoanálise perceptiva, que marca o quanto ele está,
esteve e continuou distante dos seus companheiros nabis: por volta de
1920, ele observou que ele e Bonnard ainda se davam muito bem,
“apesar de estarem em extremos opostos da pintura”. Vallotton foi
sempre um pintor protestador: acreditava em trabalho árduo, controle
e dificuldade de execução; ele detestava artifícios, virtuosidade e
“sorte” num quadro. Os críticos de forma geral concordam: ele era um
pintor “forte e sóbrio”; seu trabalho emanava uma “sinceridade
teimosa”; era “concentrado, austero, friamente apaixonado e
desprovido de graça”.
É fácil ver como esses críticos poderiam se virar contra ele se
quisessem. E realmente fizeram isso, cada vez mais. Os últimos quinze
anos de Vallotton, de 1910 a 1925, são marcados, em um nível pessoal,
por crescente isolamento e desencanto; ele se torna brigão, e também
deprimido – ou “neurastênico”, como se dizia então; seu diário
registra as tentativas de suicídio. Ele fica horrorizado com a guerra, e
frustrado com sua passividade até o nada belicoso Vuillard está
ajudando no esforço de guerra, tendo sido enviado para guardar as
pontes. Em seu ódio aos alemães, Vallotton parece mais francês do que
os franceses; mas se sente igualmente indignado com a “corrupção”
dos civis franceses, com seu alcoolismo e intolerância, com a
promiscuidade sexual de mulheres cujos maridos ou amantes estão no
front. O período imediatamente pós-guerra não traz nenhuma trégua:
houve um declínio no espírito e nos valores franceses; em toda parte
uma abdicação moral caracterizada pela “masturbação em massa de bailes de tango”. Ele tem poucos amigos e vive paralisado, num
impasse com a família. Sua carreira estagnou; às vezes passam-se
meses sem uma única venda; seu trabalho volta da galeria para
entulhar seu estúdio; seus quadros são colocados em leilão de uma
forma que prejudica a sua reputação. Em 1916, a notícia de que ele
usara fotografia para fazer uma pintura (hoje em dia, um lugar-comum
em termos artísticos) fez com que alguns colecionadores suíços
devolvessem seus quadros, temendo que eles fossem diminuir de
valor.
Além de tudo isso, Vallotton sente a moda se virando contra ele.
Em 1911, o pintor nota que “o cubismo é a última moda, e aqueles
que o descobriram estão orgulhosos demais de si mesmos para se
incomodar com qualquer outra coisa”. Em 1916, está quase
paranoico: Eu tenho quadros expostos em Haia, em Christiana, na
Basileia e em breve em Barcelona. Nada disso adianta. Os cubistas,
futuristas, matissistas e assim por diante estão fazendo um esforço
tremendo através dos seus representantes, vendedores e corretores,
por toda a Europa e pelas Américas. Eles estão preparando
cuidadosamente seu domínio pós-guerra.
Ele também se vê caindo na faixa errada de preço: é mais fácil
vender um quadro de 50 mil francos do que um de 500 francos. Os
colecionadores querem ou “artistas novos por preços baixíssimos ou
Renoirs por 50 mil francos – os que estão no meu nível sofrem”.
Vallotton uma vez advertiu sabiamente Hedy Hahnloser ao dizer:
“Uma pintura medíocre é sempre cara demais; uma boa pintura pode
ser cara dependendo de seu preço; enquanto que uma pintura muito
boa nunca é cara demais.”
Ele pintava e pintava: pintava para manter a sanidade. Portanto,
provavelmente, pintou demais. Ele expunha mais e mais nus, o que
desagradava cada vez mais aos críticos. Teimosamente, ele continuou
pintando e expondo cada vez mais nus. Outras partes da sua criação
foram injustamente ignoradas. Ele era um ótimo pintor de naturezas-
mortas – extraordinariamente bom com pimentas vermelhas – enquanto que suas paisagens são um enorme prodígio, e ainda, para
muita gente, a surpresa de qualquer exposição de Vallotton. Em todas
as décadas, ele pintou o pôr do sol – sempre o pôr do sol, nunca o
nascer do sol. Isto parecia combinar com seu temperamento – só que
seus pores de sol são arrojados e suntuosos, explosões flamejantes: Pôr
do sol em Villerville (1917), quase alucinatório com suas faixas de
laranja, roxo e preto, está mais próximo de Munch.
Em suas paisagens diurnas, ele trouxe sua própria interpretação à
tradição idealista de Poussin e Rubens. Poussin eliminou acidentes da
natureza, sua imaginação reordenando tudo para atingir o alto estilo
próprio. Mas Rubens foi além de Poussin, na opinião de Vallotton:
“Ele é, em minha opinião, o maior pintor de paisagens porque tem
uma noção de universalidade. Suas paisagens são espetáculos da
natureza mais do que incidentes topográficos.” Com base nesses dois
mestres, Vallotton desenvolveu, a partir de 1909, seu conceito de
paysage composé, a “paisagem composta”. Ele ia para o campo, fazia
esboços e anotações, depois voltava para o estúdio e pintava o quadro,
usando material de lugares diferentes: uma natureza nova,
tecnicamente inexistente, criada pela primeira vez na tela. Os
resultados apresentam elementos sobreviventes de nabismo: o uso de
formas recortadas e fortes contrastes de cor. Há uma calma sabedoria
também: O lago (1909), por exemplo, contém algumas áreas em estilo
impressionista e outras pintadas com forte realismo, enquanto uma
extensão de água escura e sombria parece se transformar num grande
e sinistro peixe quando você a olha. E, embora essas paisagens tardias
tenham quase sempre nomes de lugares – O Dordogne em Carrenac ou
Bancos de areia no Loire –, elas de certa forma escapam da
especificidade. São “espetáculos da natureza”, mas há algo de
dissonante ali também; à sua própria maneira, são narrativas
enigmáticas, como as Intimidades.
O lago (Honfleur) por Vallotton E então,
inevitavelmente, existem os nus. “Mas você
alguma vez viu um bom nu de Vallotton?” Sim,
alguns. A maioria deles, do início de sua
carreira. Estudo para nádegas (c.1884) é um
retrato de bunda de extraordinário realismo,
uma versão da carne humana tão realista como
qualquer trabalho de Courbet ou Correggio. Nu
em interior (c.1890) mostra uma mulher de rosto
triste sentada sobre suas roupas empilhadas no
divã do estúdio: por suposição, ela era uma
modelo amadora, e seu mal-estar é vibrante.
Banhistas numa noite de verão (1893), em que
mulheres de várias idades e formatos de corpo
se despem e entram na água, tem uma etérea sensação multicultural: em parte estilização à
moda japonesa, em parte mito escandinavo, em
parte uma retomada do velho tema da fonte da
juventude. Quando foi exposto pela primeira vez
no Salon des Indépendants, ele causou um
rebuliço, e Douanier Rousseau, parado em frente
a ele, disse fraternalmente a respeito do seu
autor: “Bem, agora, Vallotton, vamos caminhar
juntos.” Mas Vallotton estava sempre seguindo o
seu próprio caminho, e ele o levava cada vez
mais para grandes estudos do nu feminino. A
primeira vez em que eu vi muitos nus seus
juntos em uma exposição, eles pareciam
demonstrar bem formidavelmente o que se
poderia chamar de lei de Vallotton: quanto
menos roupa uma mulher usa em suas pinturas,
pior o resultado. Havia estudos encantadores de
Gabrielle de camisola e vestido longo; outro, de
uma modelo começando a tirar a combinação;
em seguida, alguns estudos atrevidos de
mulheres com as alças abaixadas; e finalmente,
Félix em sua plenitude.
Vallotton chegou ao nu através de um estudo de Ingres, provando
que os grandes pintores, assim como os grandes escritores – Milton,
sabidamente – podem ser influências perniciosas. (Ele chegou a
revisitar diversos dos temas conhecidos de Ingres – O banho turco, A
fonte, e Roger e Angélica – de uma maneira tão fora de propósito, tão
nitidamente inferior, que você se pergunta se ele algum dia os expôs
ou vendeu.) Mas Vallotton foi, de todo modo, um pintor muito sério e
realmente dedicado; às vezes brincalhão, mas nunca trivial; sua
fraqueza estava mais provavelmente em um excesso de reflexão e
controle do que na indolência ou no desleixo. Então, depois daquele
primeiro choque, eu tentei apreciar, ou pelo menos entender, os seus
nus. As obras se encaixam em dois grupos: o nu interno e o nu
externo; sempre com mundos vazios em volta deles. O nu feminino
desacompanhado, pobremente iluminado num quarto moderno,
geralmente exibindo torpor e alienação, inevitavelmente nos faz
lembrar que o tema seria tratado posteriormente com mais sutileza e
complexidade por Hopper. Mas este não é o problema. O problema é,
primeiro, que a maioria desses nus são tristemente inertes; eles
poderiam ter sido esculpidos com massa, apesar da vida que existe
neles. Eles estão longe de ser eróticos, porque parecem desprovidos de
ideias e sentimentos. Além disso, eles são quase sempre não convincentes pictoricamente: é como se Vallotton tivesse ampliado a
ideia de paysage composé para incluir o nue composé. Assim, em Nu
reclinado sobre um tapete vermelho (1909), o pintor parece ter posto a
cabeça da esposa sobre um pescoço de Ingres, e depois juntado ambos
a um corpo de modelo: uma articulação desconcertante. O que
funciona com uma paisagem não funciona com a figura humana.
Depois vêm os nus externos: banhistas enfiadas no mar até o
joelho e coxa; uma robusta Europa em águas rasas, pegando carona de
um touro de curral; uma Andrômeda moderna de cabelo curto e
louro, amarrada pelos pulsos a uma pedra e reagindo àquela situação
desagradável como se tudo fosse terrivelmente inconveniente; Perseu
matando um “dragão” que se parece demais com o animal que
Vallotton copiou, a saber, um crocodilo empalhado. A própria
seriedade e elevada intenção dessas cenas mitológicas e alegóricas –
que vão ficando cada vez maiores – fazem você sacudir a cabeça
incredulamente ao ver seu resultado. E é mais frustrante ainda
porque, em outros trabalhos, Vallotton mostrou que era capaz de se
apropriar do mito e atualizá-lo brilhantemente. A casta Suzana (1922)
é sua versão de Suzana e os anciãos: o banho bíblico se torna um
reservado com banqueta cor-de-rosa num bar ou boate sofisticada, e
os anciãos dois empresários insinuantes, balançando ligeiramente os
crânios calvos enquanto negociam com sua presa de chapéu prateado.
É um quadro intenso e ameaçador, mas também enigmático: a
pretensa vítima parece – para mim, pelo menos – distintamente
calculista e a par da situação. Nos tempos modernos, a pintura sugere,
pode muito bem ser Suzana quem vira a mesa e chantageia os anciãos.
Naquela exposição em Zurique, eu fugi dos nus e voltei para A
mentira, que me reservava uma última surpresa, agora enfatizada por
aqueles volumosos zepelins de carne feminina. Ele era pequeno – na
verdade, o menor quadro em exposição (33 por 24 centímetros). Se,
no intervalo entre a primeira vez em que o vi em Baltimore e a
exposição em Zurique, tivessem me perguntado qual o tamanho dele,
provavelmente teria respondido que era cerca de quatro vezes o seu tamanho real. É estranho o que o tempo e a ausência podem fazer com
quadros que você admira e acha que conhece bem: é como voltar à
casa em que você morou quando criança e perceber como as
proporções dela eram diferentes e continuam sendo. Com quadros,
você tende a se lembrar dos pequenos como sendo maiores do que são
e dos grandes, como sendo menores. Eu não sei por que isto acontece,
mas fico feliz em deixar isto – bem apropriadamente no caso de
Vallotton – como um enigma.