Mantendo um olho aberto
Vuillard: podem chamá-lo de Édouard
Eu me lembro da primeira vez em que parei diante de A flagelação
de Cristo, de Piero della Francesca, em Urbino. Um grande quadro
força o espectador a uma reação verbal, apesar de sabermos que essas
observações serão simples ecos do que outros já expressaram mais
convincentemente e mais inteligentemente. Então algumas palavras
me vieram à cabeça (e saíram da minha boca) sobre a combinação
entre uma estrutura sólida e uma atmosfera serena, sobre lucidez e
religiosidade; uma breve noção sobre o fato da arte mais elevada ser a
que combina beleza e mistério, que oculta (Vermeer, Giorgione)
mesmo quando anuncia de maneira luminosa. Então, imediatamente,
uma noção contrária: e se o que nós chamamos de “mistério” não
passar de ignorância ou esquecimento? Talvez a Flagelação, ou A
tempestade, de Giorgione, ou um Vermeer com uma dama diante de
um mapa de parede, fossem perfeitamente compreensíveis para
aqueles que o vissem recém-pintados. Neste caso, o mistério radiante
que celebramos é apenas um pouco de falsidade misturada com nossa
avaliação amadora. Esgotado o conhecimento, era preciso algum tipo
de declaração: “Bem, ele vai direto para os meus dez preferidos”, eu
concluí.
Ao voltar para casa, eu li o ensaio de Aldous Huxley sobre Piero:
Nada é mais fútil do que a ocupação daqueles especialistas que
passam o tempo listando os melhores pintores do mundo, os melhores
músicos, os melhores poetas, as estrelas da arquitetura, e assim por
diante.
O pecador é quem melhor conhece o pecado: Huxley admite pelo
próprio título do ensaio – “A melhor pintura” – que ele é tão
suscetível quanto qualquer um a este jogo fútil, embora inofensivo.
Para ele, a Melhor Pintura é a Ressurreição, de Piero, em Borgo San
Sepolcro. Melhor de acordo com seu gosto pessoal, mas também de
acordo com o padrão absoluto de arte, que é um padrão moral: “se uma obra de arte é boa ou ruim depende inteiramente do caráter
expresso na obra.” A virtude e a integridade artística, como sabemos,
são independentes (às vezes de forma surpreendente) da virtude e da
integridade pessoal. Arte ruim, a arte que é uma mentira e uma farsa,
pode não ser desmascarada durante a vida do artista. Mas, “no final,
as mentiras são sempre descobertas”; o impostor e o charlatão acabam
sendo desmascarados. Huxley está certo (nós esperamos), embora se
deva também apontar o paradoxo de que, enquanto a verdade triunfa
lentamente, a ignorância do próximo espectador a respeito do que está
realmente acontecendo numa pintura pode estar aumentando.
Ao voltar para casa, eu quis saber mais sobre o próprio Piero,
então consultei Vasari. Lá eu soube como a vida de alguém cuja arte
era tão ordenada e tão serena havia terminado em desgraça e traição;
como, aos sessenta anos, uma infecção respiratória o deixara cego nos
seus últimos 26 anos de vida; e como, depois de sua morte, sua fama
fora roubada e sua lembrança, quase destruída por um pupilo
invejoso, Fra Luca del Borgo. Estes fatos melancólicos provocaram a
reação que se esperava em qualquer pessoa – até eu ler as notas da
edição do livro. Vasari não tinha feito apenas alguns bordados; ele
havia tecido toda uma tapeçaria. A história da cegueira era infundada,
enquanto que o pupilo, longe de ter roubado os tratados aritméticos e
geométricos de Piero, havia simplesmente publicado alguns estudos
rotineiros de Euclides, que não continham nenhuma teorização
original de Piero. “No final, as mentiras são sempre reveladas?” Em se
tratando de biografia, só às vezes.
Lista dos dez melhores e biografia: estes são os leves, divertidos e
aparentemente inocentes vícios que nos tentam quando nos vemos
diante de uns poucos metros quadrados de óleo, têmpera, pastel ou
aquarela que nos agradam acima de qualquer expectativa. A primeira
vez em que eu visitei a Phillips Collection em Washington, vi um
quadro que entrou instantaneamente para a minha lista dos dez
melhores e que lá permaneceu desde então. (De fato, eu vi muitos
outros que fizeram o mesmo – um Courbet, um Degas e um Bonnard –, mas é que eu nunca contei os primeiros de meus dez melhores, que
já devem ser muito mais de cem, a esta altura.) Este quadro em
particular é mais ou menos quadrado, com cerca de quarenta e seis
centímetros de lado, em tons de marrom tendendo para o dourado, e
mostra uma mulher gorda de vestido listrado, varrendo um quarto. Há
uma porta aberta à esquerda, que combina com a outra superfície
plana e sem graça de uma cômoda do meio para trás. No primeiro
plano à esquerda, há uma colcha berrante amontoada; atrás da
cômoda, um papel de parede no mesmo estilo. A mulher está varrendo
calmamente com uma vassoura de pelo curto. É uma organização
intensa de espaço e cor, cheia de virtude e integridade huxleyanas.
Além disso, eu concluí, tratava-se de uma pintura profundamente
sábia: a obra de um artista em plena maturidade, ou mais
provavelmente de idade avançada, que expressava seu profundo
conhecimento da vida, e com uma ternura outonal, quase como uma
despedida; a celebração de um momento doméstico, comum,
democrático, mas repleto de mais compreensão do que muitas
marcantes obras de arte populares. Mas o mal impresso cartão-postal
em preto e branco, apenas o que havia disponível então, me informou
que Vuillard (a quem Huxley muito admirava) tinha pintado Mulher
varrendo por volta de 1892, quando tinha 23 ou 24 anos; embora a
biografia declare que “conhecimento da vida”, como é normalmente
entendido, era algo que Édouard Vuillard não tinha muito aos 23 ou
24 anos. Entretanto, cada vez em que torno a ver aquele quadro, fico
convencido de que estou certo e a cronologia, errada. Aquele é um
quadro sábio, que contém a ternura da idade; só que Vuillard deve ter
tido esses atributos excepcionalmente cedo. Bem, ele disse um dia
acerca do processo artístico: “Ou você chega lá num lampejo ou
através da velhice.”
Mulher varrendo por Vuillard Biografia e
Vuillard. Na capa do catálogo da monumental
exposição de 2003-4 de Vuillard (que iluminou Washington, Montreal, Paris e Londres), está a
fotografia perfeita do artista em seu estúdio – na
realidade, de qualquer artista em seu ateliê. Vuillard está sentado numa cadeira de vime
com as mãos apertadas entre os joelhos, com
um ar sério e levemente melancólico. Ele
também está, graças ao amadorismo (ou talvez
ao excesso de sutileza) do fotógrafo, fora de
foco. O balde de ferro para carvão e a estufa do
ateliê, uns dois ou três metros atrás do pintor,
estão perfeitamente nítidos; assim como
algumas de suas pinturas – inclusive um retrato
do jovem Bonnard – pregado na parede atrás
dele; mas o próprio Vuillard está um tanto fora
de foco. Isto, você desconfia, é exatamente o que
ele teria desejado. Olhem para o que eu vejo,
não para o que eu sou.
Por mais de um século, esta estratégia, ou tática, ou modéstia,
funcionou. Além disso, os franceses não dão muita importância a
biografias, especialmente de artistas; enquanto que as famílias tendem
a guardar seus segredos. O livro de Claude Roger-Marx Vuillard et son
temps – iniciado com a aprovação do pintor, mas publicado apenas em
1945, cinco anos depois de sua morte – começa com uma conclusão:
“A vida de Vuillard, assim como sua obra, não é pitoresca, e não é
marcada por nenhum incidente externo.” Ele era realmente tímido,
discreto e observador. E morou com a mãe até a morte dela, quando
ele tinha sessenta anos. Estava longe de ser um ermitão – conhecia
Valéry e Mallarmé (que o pediu para ilustrar Hérodiade), Lautrec e
Degas, Giraudoux, Proust e Léon Blum. Também viajou mais do que
suas pinturas sugerem; foi várias vezes a Londres com Bonnard (e fez
alguns esboços para The Master Builder lá, em 1895). Mas ele desliza
entre as frestas da vida artística e social; deixa poucos traços nos
diários e correspondências do período. Sua vida pessoal parece
consistir em presenciar silenciosamente o drama de outras pessoas. No
início dos anos 1920, por exemplo, conheceu Edith Wharton (através
do grande amigo dela Walter Berry, cujo retrato ele pintara em 1918);
mas esta ligação potencialmente fascinante chega até nós apenas com o
sobrenome dele num apontamento social dela.
Da mesma forma, embora Vuillard fosse reconhecido como um
mestre, não era o tipo de mestre a quem a geração seguinte
considerasse útil ou necessário derrubar a fim de defender seus
interesses. Picasso, por exemplo, sentiu-se suficientemente ameaçado
por Bonnard para atacar violentamente a obra dele; mas, na mesma
fonte (a autobiografia de Françoise Gilot), Vuillard é mencionado
apenas quando se torna útil para uma crítica passageira. Gilot
relembra Picasso levando-a para ver Braque em seu estúdio, pouco
depois da Segunda Guerra Mundial. Ao ver o trabalho mais recente
do seu anfitrião, o patologicamente competitivo Picasso comentou:
“Bem, estou vendo que você está voltando à pintura francesa. Mas, quer saber, eu jamais pensaria que acabaria sendo o Vuillard do
cubismo.” Não havia aí nenhuma intenção de elogiar um ou outro.
A nuca de Misia por Vuillard Entretanto,
ninguém tem realmente uma vida que não seja
“marcada por nenhum incidente externo”, ou
que possa dizer de si mesmo “eu nunca fui mais
do que um espectador”; nem mesmo alguém
cujas amigas foram discretas e protetoras. Misia
Sert conta em suas memórias – e se trata do
único fato pitoresco ligado à vida de Vuillard –
que estava andando com ele por uma plantação
de beterrabas ao entardecer, que tropeçou numa
raiz e quase caiu, que ele a ajudou a recuperar o
equilíbrio e que seus olhos se encontraram... e
então Vuillard rompeu em soluços. Sert escreve a frase seguinte num parágrafo separado (então
talvez devamos fazer o mesmo): “Foi a mais
linda declaração de amor que alguém me fez.”
E ela com certeza teve muitas para comparar com a dele. Linda
declaração, mas também típica – do homem, e da pintura também.
John Russell fez uma astuta comparação entre os preceitos de
Mallarmé sobre poesia e a prática do jovem Vuillard como pintor. A
orientação de Mallarmé era “pintar não a coisa em si, mas o efeito que
ela produz”. Ele escreveu também: “Em algum lugar do ato criativo
está a tentativa de evocar um objeto colocando-o deliberadamente na
sombra e se referindo a ele de forma alusiva e nunca pelo nome.” A
pintura de Vuillard é sempre menos etérea e menos excludente do que
a poesia de Mallarmé; mas o incidente na plantação de beterrabas é a
estética de Mallarmé aplicada diretamente à vida. Os soluços de Vuillard não são uma declaração de amor, mas uma demonstração do
efeito que o amor produz.
Está claro agora que seu relacionamento com Misia foi a primeira
paixão sexual verdadeira de sua vida; embora também não fosse
platônica sua ligação de décadas com Lucy Hessel, que sucedeu Misia
na função de assessora social e artística . E mais: seu diário, que só se
tornou acessível aos estudiosos em 1981, atesta que o homem que
Jacques-Émile Blanche descreveu como um “gourmand que se tornou
ascético” não era tão ascético assim. Por ocasião daquela exposição de
2003-4, seu curador, Guy Cogeval, me explicou que o diário, escrito
quase todo com a secura de um livro de anotações de um capitão do
mar, continha notas em código que indicava aventuras amorosas. Eu
perguntei que código Vuillard usava. “Ele costumava escrever d’içi –
passion”, Cogeval explicou. Sim, eu pensei, um código estranho – “a
partir daqui – paixão” –, mas facilmente quebrável. Na verdade, eu
tinha entendido mal, e o código era ostensivamente não codificado: a
palavra que ele usava era dissipação.
Então Vuillard, até então considerado tão monástico quanto Henry
James, tinha uma vida sexual, e podemos todos ficar contentes ou
aliviados (ou indiferentes) com este fato. Isso muda de alguma forma
o modo de interpretarmos os quadros? Existe uma pequena e terna
pintura retangular chamada La Nuque de Misia (A nuca de Misia). De
fato, aparece apenas metade da nuca, com a mesma proporção de
ombro nu quanto de nuca. Misia é vista ligeiramente de cima, com a
cabeça baixa, o cabelo cobrindo o rosto; ela está usando uma blusa
branca. Trata-se, indiscutivelmente, de uma obra intensamente erótica
para uma pessoa tímida. Enquanto eu olhava o quadro em Montreal,
um jornalista francês passou por mim e murmurou: “C’est une vraie
déclaration d’amour.” Realmente; mas a pintura continua sendo a
mesma, não importa se Vuillard e Misia eram ou não amantes quando
ele a pintou. Nós olhamos para uma Flagelação pintada em torno de
1455-60 e ficamos perturbados com nossa ignorância (quem são
aqueles três sujeitos em primeiro plano?); nós contemplamos uma pintura secular de 1897-9 e ficamos perturbados com nosso
conhecimento (adivinhe aonde eles chegaram?).
Uma biografia não pode ser neutra, e algumas das pinturas iniciais
de Vuillard estão atualmente sendo submetidas, mesmo que com boas
intenções, mesmo que eticamente, a uma espécie de fabulação
persistente. Fatos sobre a vida dele estão se tornando conhecidos; os
quadros existem; conclusões estão sendo tiradas. Em Montreal, a
grande exposição foi anunciada com um slogan alarmantemente
vulgar: “Os especialistas o chamam de Vuillard. Vocês podem chamá-
lo de Édouard.” Como se você fosse a uma exposição a fim de
conhecer melhor o artista, em vez de conhecer melhor a arte. Mas a
tentativa – em diferentes níveis – de transformar Vuillard num tipo
comum de sujeito que costumava pintar para nos contar a história da
vida dele é altamente controversa. Vejam a exposição duas vezes e
poderão chamá-lo de Ted.
Pintores não datam quadros se a data não for importante para eles;
e nem lhes dão nomes a menos que queiram que eles tenham nomes.
Mas, no mundo exterior, as pinturas, assim como as crianças, não
podem existir sem receber um nome e uma data oficial de nascimento.
As pinturas de Vuillard foram rebatizadas mais do que a maioria. Às
vezes, é claro, isto é necessário. Há uma pintura de cerca de 1891 que,
por décadas, foi conhecida como O vagão de terceira classe. Uma
mistura intensa de pretos, ocres e ferrugens mostra um homem de
perfil, de nariz adunco, possivelmente de boina, virando-se para uma
mulher e uma criança sentadas ao lado dele. O título nos remete às
variações de Daumier sobre este tema, e, alguns anos depois, Vuillard
pintou diversos quadros chamados O vagão de primeira classe
(admitindo abertamente a influência de Daumier em seu diário). No
entanto, em 1990, observaram que, se O vagão de terceira classe é
realmente a representação de um vagão de terceira classe de um trem,
então ele deve ter sido único na história do transporte público, porque
parece conter uma árvore florida. Agora este quadro tem o título mais
sóbrio de No jardim.
Mas outras mudanças de título são mais duvidosas. Por exemplo, é
uma verdade comprovada por Cogeval que Vuillard foi quem mais
conspirou para o casamento de sua irmã Marie com seu amigo íntimo
e companheiro nabi, Ker-Xavier Roussel – um plano que a velha
Madame Vuillard achou mal concebido, porque Roussel era um
mulherengo volúvel. Por volta dessa época, Vuillard pintou duas de
suas obras mais conhecidas: Interior com mesa de trabalho, que mostra
uma figura como a de Roussel enfiando a cabeça na porta da oficina
de costura para olhar para uma figura como a de Marie, e Interior com
cama vermelha, que mostra uma figura como a de Marie em pé com
uma bandeja em frente a um biombo amarelo, enquanto duas
mulheres arrumam o quarto atrás dela. Eles são quadros típicos de
Vuillard daquele período: interiores com figuras ocupadas com alguma
tarefa, em que a identidade das figuras e a natureza exata das tarefas
estão subordinadas às exigências de cor e estrutura do quadro. O
primeiro tem uma atmosfera calma e lúdica, todo ele em cinza azulado
e marrom acinzentado; o segundo é mais quente, com tons de
vermelho, laranja e amarelo (mas também mais preto). Quando
Jacques Salomon, o marido de Annette, sobrinha de Vuillard, viu
Interior com mesa de trabalho no Smith College of Art, ele
“astutamente” (segundo o catálogo de 2003-4) deu ao quadro o título
de O perseguidor; e assim ele é conhecido até hoje. Da mesma forma,
Interior com cama vermelha foi renomeado como O quarto de noiva. Mas
este novo batismo só é “astuto” no sentido comercial – Ei, não tenham
medo, vocês podem chamá-lo de Édouard. Artisticamente, está longe
de ser um título astuto. É o mesmo que dizer: Ah, e por falar nisso,
era isto que ele estava realmente pintando, só que ele não quis nos
contar na época. E esse é um enfoque reducionista que, embora não
tenha conseguido tornar os quadros banais, os faz parecer mais
comuns. Na verdade, ele os trata como narrativa, como uma conversa,
como uma autobiografia doméstica. Convida-nos a procurar o assunto
e não a composição e a estética. É uma pequena mas importante
traição ao artista.
O bate-papo por Vuillard O primeiro período de
Vuillard é uma das explosões de arte mais
completas e importantes dos últimos 200 anos.
Em seu trabalho, quase não há obras
consideradas “de mocidade” ou juvenília, pois, antes dos trinta anos, ele é um mestre do óleo, pastel, aquarela e bico de pena. Felizmente ele
encontra perto de casa o perfeito material bruto
(literalmente, com frequência – os rolos e cortes
de tecidos usados na oficina de costura de sua
mãe). Isto ele transforma em intensos estudos
de cor que são verdadeiras joias, em que
movimento e associação entre cor e forma
excedem os “fatos” da cena. Eles não são
abstratos, é óbvio; são pinturas (na maior parte)
de interiores, incluindo as pessoas que vivem e
trabalham nesses espaços. Posições corporais –
curvar-se, agachar-se, virar-se – são fatores
primordiais; Vuillard confirma a máxima de
Edmond Duranty de que “as costas de um
homem podem revelar seu temperamento, sua
idade e sua posição social”. Mas o rosto
raramente é importante; as pinturas podem
sugerir, até mesmo indicar, temperamento ou
disposição, mas a identidade é irrelevante.
Assim, O bate-papo pode agora receber o subtítulo ou ser
renomeado como A noiva, e nós podemos ser informados de que ele é
“sobre” uma mãe dando conselhos pré-nupciais a uma filha; mas, na
realidade, ele é sobre a relação entre a filha vestida de branco e o vaso
de flores brancas acima e atrás dela, a relação entre a mãe vestida de
preto e o item preto incompleto (colcha? Casaco jogado?) na cama
atrás dela, e a relação deste branco e deste preto com os marrons –
rosados, ocres, fulvos, esverdeados – que ocupam quase todo o resto
do espaço. Como Gide escreveu a respeito de Vuillard: Ele nunca
busca um efeito brilhante; a harmonia de cor é sua preocupação
permanente; ciência e intuição desempenham um duplo papel na
disposição de suas cores, e cada uma delas lança nova luz sobre a
seguinte, e como que extrai uma confissão dela.
Assim, o extraordinário Nu em uma poltrona (c.1900), um dos raros
nus de Vuillard, é um encontro entre bege rosado (o corpo da modelo,
a parede atrás) e marrom acastanhado (o cabelo da modelo, tanto da
cabeça quanto púbico; a cadeira; o chão) tendo apenas um traço
apaziguador de azul acinzentado para separar os matizes.
A seriedade do olhar e o elevado senso estético são animados por
uma jocosidade humana e uma perspicácia visual. Estrutura e tecido,
roupa e papel de parede ultrapassam lucidamente seus limites
normais, se fundem e se entrelaçam, no que é agora chamado de
Interior: a mãe e a irmã do artista (embora o título exibido em 1909 na
Bernheim-Jeune Gallery fosse O vestido preto e o vestido verde). A
mulher mais jovem, usando um vestido de tecido quadriculado, tem
atrás de si um papel de parede tão esfuziante quanto uma cerca viva
florida, através do qual você tem impressão de que ela vai a qualquer
momento cair e desaparecer; deixando apenas os saltos das botinas
espetados para fora. Nestes interiores exuberantes, há pouca
necessidade de vasos de plantas ou cestas penduradas quando
mulheres como A dama em azul estão passeando com jardins públicos sobre suas cabeças. Ou pensem em Ker-Xavier Roussel lendo o jornal
(1893), no qual o personagem está sentado num sofá baixo usando um
paletó preto e um par de calças bufantes marrons. Há um desenho
preliminar que lembra a estrutura final em tudo, menos num detalhe
primordial. No desenho, Roussel está sentado com as pernas abertas e
o jornal cai entre elas. Na pintura final, Vuillard ajustou sagazmente o
jornal caído para cobrir e substituir a perna direita e a cintura da calça
de Roussel: é como se ele estivesse lendo o gancho da sua extravagante
calça de dois tons.
Na sua fase nabi, Vuillard era indiscutivelmente o líder; Bonnard
parecia no máximo estar tentando acompanhá-lo. Mas a maestria
precoce tem um preço (embora não tão alto quanto o da
incompetência precoce). Signac visitou Vuillard em 1898 e descreve
em seu diário este “pintor altamente sensível” com “uma incansável
paixão pela arte”. Apesar de encontrar fantasia demais em Vuillard e
desejar que ele fosse mais realista, Signac ficou muito impressionado
com seu trabalho. Entretanto, ele previu um problema: Tão forte, em
seu trabalho, é o elemento de fantasia, que ele tem que se ater a esses
pequenos quadros; seria impossível para ele ir além... Suas pinturas
são como croquis. Se ele tivesse que trabalhar em escala maior, teria
que ser mais exato – e o que seria dele então?
O que, realmente? Signac parece não saber que Vuillard – desde
1894, quando fez Os jardins públicos para os Natansons – já havia
pintado em escala grande, na realidade, enorme. Mas, em todo caso, é
aqui que começa o desafio de Vuillard. Bonnard, que o ultrapassou em
reconhecimento público neste período de mais de meio século desde a
morte deles, é um pintor cuja direção artística é mais fácil de
acompanhar. Bonnard aprofunda, expande, mas permanece
visivelmente o mesmo artista; é charmoso, atraente – ele nos inclui no
que pinta. Vuillard não é assim: seus interiores são escuros demais,
herméticos demais, vagamente claustrofóbicos. Embora
graciosamente, eles excluem: nós não somos especialmente desejados
ali. E então, de repente, há uma enorme mudança de curso. Mesmo que saibamos sobre ela, a série de painéis decorativos que ele fez nos
anos 1890 e 1900 são uma grande surpresa. Em 1971, quando foi o
curador da grande exposição de Vuillard em Toronto, John Russell
lamentou que os nove painéis de Os jardins públicos “nunca mais
pudessem ser reunidos”. Eles tinham sido expostos todos juntos pela
última vez em Bernheim-Jeune, em 1906; mas, quase um século
depois, cinco proprietários diferentes foram convencidos a permitir
que eles fossem reunidos. Em pé diante deles, e também dos painéis
da Place Vintimille (1911), você pode compreender por que Vuillard
achou que a decoração em grande escala era uma forma de arte mais
elevada do que a pintura em cavalete. (“Decoração” é um termo
inadequado, parecendo sugerir um mero passatempo para o
frequentador de salões.) Os riscos, como tudo o mais, são
simplesmente maiores: por exemplo, a questão do que acontece entre
os quadros – o silêncio entre as notas – e como o cérebro e o olho são
controlados e desafiados de uma moldura para a seguinte. Estes são
quadros agrupados com tanta intenção comunitária quanto qualquer
altar políptico.
A mudança de rumo não se dá apenas em termos de escala, mas
também de estilo e tema. Vuillard se tornou maior – e maior ainda; ele
se tornou, como Signac havia previsto, mais exato na representação; e
começou a pintar uma outra camada social. Na sua juventude, ele
havia dito: “Pode-se fazer do próprio cozinheiro uma obra de arte”, e
envolveu seus familiares e os empregados da mãe em intensos arranjos
de cor; mas, em 1928, ele estava pintando retratos encomendados da
Princesa de Polignac e de outras figuras do haut monde. A identidade
agora é específica, na verdade, necessária, considerando quem está
pagando a conta. Para alguns, isto foi como se Debussy tivesse
começado a escrever trilhas sonoras para Hollywood: uma perda de
coragem ou uma aceitação de conforto; de todo modo, uma decepção.
Numa grande exposição de 300-400 obras, dada aquela fadiga ocular
normal que ocorre após cerca de noventa minutos, muitos irão se
demorar prazerosamente diante dos primeiros Vuillard, admirar os raramente vistos painéis decorativos e depois passar batidos pelo
trabalho posterior. Mas isto também poderia ser considerado uma
perda de coragem. Se ele pode pintar como pintou no início de sua
carreira, nós devemos a ele pelo menos a nossa total atenção daí em
diante. Félix Vallotton foi um crítico severo da maioria dos outros
pintores contemporâneos (inclusive ele mesmo); o único que ele
admirou de forma consistente foi Vuillard, cuja arte sempre
permaneceu “intata e exemplar”. Durante a Primeira Guerra
Mundial, Vallotton sucumbiu à ansiedade e à depressão, mal
conseguindo ver a razão de pintar diante de tal catástrofe; Bonnard
sobreviveu ignorando aquilo tudo; apenas Vuillard, desses três nabis
originais, se mostrou ao mesmo tempo consciente dos eventos
mundiais e capaz de encontrar concentração e disciplina para
trabalhar.
O avanço dele foi um processo longo, complicado, às vezes
tortuoso, produzindo alguns grandes triunfos e alguns tristes
fracassos. Talvez o melhor para começar seja a respeito da técnica. Um
efeito colateral inesperado da obra de Vuillard no teatro foi sua
descoberta da peinture à la colle, uma têmpera feita à base de cola usada
para pintar cenários. Até onde Cogeval sabe, nenhum pintor de
cavalete a havia usado antes ou a usou depois (embora artistas
decorativos do século XVIII a empregassem para pintar painéis e
divisórias). Era um processo difícil e trabalhoso que envolvia ferver as
cores em panelas de cobre com até trinta ao mesmo tempo; também
havia um problema constante em combinar os tons fervidos na
véspera com os fervidos no dia. As vantagens sobre óleo eram que
grandes extensões podiam ser cobertas muito mais rapidamente; que a
têmpera secava depressa e então podia ser pintada por cima mais cedo
e que o papel sobre o qual você pintava podia ser colocado no chão (e
mais tarde aplicado a uma superfície sólida como lona ou madeira).
Esta foi a técnica que Vuillard usou para seus grandes painéis
decorativos; e ela aos poucos substituiu os óleos em sua preferência.
O motivo exato não está documentado; há uma única referência a
peinture à la colle nos diários. Uma razão duradoura para seu uso no
teatro era que a superfície absorvia o clarão dos lampiões a óleo que
iluminavam o palco. John Russell descreve exatamente a técnica à la
colle como proporcionando “um brilho tênue, uma eloquência fosca,
feltrada, discreta”. Mas também é perfeitamente possível conseguir
um efeito fosco, feltrado com óleo. Veja, por exemplo, o Paisagem da
Île-de-France de 1895, que também é, desconcertantemente, tão
grande quanto qualquer um dos painéis decorativos de Vuillard. Se ele
conseguia obter efeitos praticamente semelhantes tanto com óleo
quanto com têmpera, o que orientou sua escolha? As razões podem ter
sido principalmente psicológicas. Ele disse a Jacques Salomon que a
atração da peinture à la colle era o próprio fato de ser muito trabalhosa,
o que colocava um freio em sua “excessiva facilidade” e permitia que
ele ponderasse melhor. Poderia haver um fator emocional também?
Óleo brilhante para as pinturas domésticas envolvendo seu círculo
familiar mais íntimo; têmpera para o beau monde no qual ele entrou?
Talvez.
A peinture à la colle o encorajou a pintar em escala muito maior.
Como Bonnard, ele começou a pintar as grandes paisagens assim
como os grandes interiores – embora Vuillard frequentemente pintasse
paisagens no norte, e sua paleta portanto permanecesse mais fria. Ele
também começou a frequentar círculos para ricos e elegantes:
primeiro aqueles ao redor de Misia e Thadée Natanson, depois
aqueles em torno de Lucy e Jos Hessel. Nesta segunda casa, ele parece
ter ocupado um lugar semelhante ao de Turguêniev junto aos Viardot:
o reconhecido amante/alma gêmea num trio sofisticado e
complacente. Hessel era um marchand, mais preocupado com os
problemas de lidar com o trabalho de Vuillard do que com o que sua
esposa fazia na cama; enquanto o pintor, por sua vez, ficava furioso se
alguém tentasse depreciar o marido da amante na sua presença.
A distância que Vuillard percorreu, tanto artística quanto
socialmente, pode ser medida exatamente por um de seus mais belos quadros da fase madura – na realidade, um dos mais notáveis retratos
do século XX. No início dos anos 1890, ele estava pintando pequenos
quadros a óleo do negócio familiar na rua de Miromesnil, que
Madame Vuillard administrava no “espaço estreito, parecendo um
corredor, espremido entre dois andares de uma casa antiga”. Quarenta
anos depois, ele estava trabalhando no grande retrato a têmpera,
encomendado, de Jeanne Lanvin, diretora de um dos primeiros
impérios modernos de moda e artigos de luxo. Assim como Vuillard,
ela havia subido na vida: de um início modesto como chapeleira para
uma posição de poder e influência – em 1925, a casa de Lanvin
empregava oitocentos funcionários em 23 oficinas. O estilo de Lanvin
atraía freguesas como Mary Pickford e Yvonne Printemps; enquanto
sua posição social foi confirmada quando sua filha se casou com o
conde Jean de Polignac.
Vuillard afirmou: “Eu não pinto retratos; eu pinto pessoas em suas
casas.” E escritórios: lá está Madame Lanvin sentada em sua mesa na
Rue du Faubourg Saint-Honoré, fazendo uma pausa em seu trabalho,
relaxada mas impositiva. Do lado direito do quadro, recebendo a
claridade plena da janela ao fundo, estão as ferramentas simples de sua
profissão: lápis bem apontados enfiados num pote e um par de óculos
sobre a mesa. Do lado oposto, mais ou menos no mesmo nível, está
um símbolo da consequência social dessas ferramentas: um busto em
gesso da filha de Lanvin, Marguerite, agora aristocrática devido ao
matrimônio. (O busto está dentro de um recipiente de vidro, que, sem
dúvida, era verdadeiro, mas talvez, também, bastante sugestivo.) Este
é um quadro sobre trabalho, competência, dedicação, dinheiro,
sucesso e classe. O ofício tradicional, sem tecnologia avançada, de
papel e lápis, é exposto e misturado com o mundo moderno dos
móveis Art Déco e do telefone. (Vuillard amava telefones, e
especialmente seus fios – no Retrato de Henry e Marcel Kapferer, de
1912, um fio multicolorido se estende exoticamente sobre o tapete
como uma serpente amazônica.) A pintura contrasta a desordem da
criação – amostras, tecidos, papéis espalhados e outros itens caindo pela parte da frente da escrivaninha – com a regularidade absoluta do
dinheiro: os livros-caixa ordenadamente arrumados, as gavetas
metálicas parecendo cofres atrás da modelo. A unidade do quadro é
garantida pela cor: da parte de baixo à esquerda até a parte de cima à
direita, os verdes do recipiente de vidro da escultura, do casaco da
modelo, e subindo até as sombras verde-acinzentadas; da parte de
baixo à direita até a parte de cima à esquerda, os vermelhos das
amostras de tecidos, dos lábios da modelo e das lombadas dos livros.
As duas cores se entrelaçam engenhosamente – e sem dúvida
verdadeiramente – no casaco de Madame Lanvin: lá, na lapela verde,
está a fita vermelha da Légion d’honneur.
É uma vitória dos detalhes relevantes. Também está muito distante
dos quadros de costureiras nos quais há um mínimo de
particularidades faciais e as figuras indicam mais atitude do que
personalidade. Quando Vuillard estava indo pintar Anna de Noailles, a
modelo disse para a criada, “Pelo amor de Deus, guarde esse pote de
creme de beleza! Você sabe que monsieur Vuillard nunca deixa nada de
fora”. (Nada que seja relevante, é bom lembrar.) Jeanne Lanvin é,
portanto, um quadro muito pouco mallarmeano, cheio de coisas em si
e não do efeito que elas produzem. Ele contém, no entanto, algumas
ambiguidades típicas de Vuillard na forma de reflexos impensáveis:
tente realizar como as lombadas dos livros no canto inferior esquerdo
são compatíveis com o reflexo do busto de gesso ao lado delas;
considere a implausibilidade do reflexo da manga de Madame Lanvin
(ou talvez do casaco). Ele é também, infelizmente, um dos muitos
quadros em estado de deterioração. O rosto da modelo parece, a
princípio, cheio de rugas pouco lisonjeiras; de fato, isto é a
consequência da peinture à la colle. Vuillard tinha dificuldades normais
com o rosto, e a têmpera permitia que ele o retrabalhasse inúmeras
vezes; mas estas múltiplas camadas são intrinsecamente instáveis. Pior,
o pigmento é, segundo Cogeval, impossível de restaurar.
Em 1910, escrevendo em The Art News, Sickert fez uma distinção
entre artistas que são mestres de seus clientes e aqueles, como Jacques-Émile Blanche, em que cada detalhe parece “pintado para os
donos da casa”. Sickert, que admirava muito Vuillard, prossegue: “O
uniforme é uma roupa honrada, mas a liberdade tem um sabor todo
próprio.” Será que Vuillard, quando ficou mais velho, passou da
liberdade para o uniforme assim como aceitou a eleição para a
Academia de Belas Artes dois anos antes de sua morte? Às vezes isso é
inegável. O enorme retrato de Marcelle Aron é tediosamente vazio; o
da srta. Jacqueline Fontaine, embaraçosamente cafona. Aqui parece
que – para retomar os termos de Huxley – a virtude artística
desapareceu. O monumental Os cirurgiões (1912-14) e o quadro
pintado durante a guerra Interrogatório do prisioneiro (1917) parecem
ser exemplos de um tipo diferente de insucesso: o de trabalhar contra
a natureza do seu talento natural, fazendo o tipo de arte que você acha
que deve fazer. Mas, em contraste com estes, nós podemos apontar
corretamente o famoso Théodore Duret em seu ateliê (1912) ou o
maravilhosamente divertido retrato duplo de Sacha Guitry e Yvonne
Printemps (1919-21).
Em 1938, a última grande exposição de Vuillard em Paris até
aquela de 2003-4 teve como curador o próprio Vuillard. E ele
enfatizou deliberadamente seu trabalho da última fase, achando que
despertaria mais interesse nos jovens. Uma esperança implausível,
ainda mais porque, naquela altura, ele carregava a maldição de ser
aclamado por críticos conservadores como o defensor e patrono da
“autêntica” pintura francesa. Mas, com o tempo, o tema da arte se
torna menos importante. E assim como as gerações subsequentes
podem enxergar além do fato de que Proust “só escreve sobre gente
chique”, nós agora também devemos ser capazes de olhar para o
trabalho da última fase de Vuillard de forma mais equilibrada. Em
especial – já que Vuillard era extremamente inteligente e
profundamente absorvido pela história da pintura –, nós poderíamos
examinar sete quadros da fase posterior cujo tema é a arte em si. O
Autorretrato no espelho do camarim (1923-4) é tão sombrio e impiedoso
quanto qualquer dos últimos autorretratos de Bonnard: o reflexo de um velho de barba branca, de olhar edipiano, num espelho cercado
por quadros, que assim parece estar, ele mesmo, prestes a desaparecer
dentro da história da arte. Em seguida, a série de quatro pinturas
chamadas Os anabatistas (Bonnard, Roussel, Denis e Maillol, 1931-4),
nas quais os quatro colegas de Vuillard – dois deles já mortos naquela
altura – são vistos diminuídos pela arte que estão criando. Denis está
olhando de trás de uma barricada de grandes potes de tinta; Roussel
está sentado atrás de um cavalete que ocupa uma área quatro vezes
maior do que a cabeça do pintor; Maillol, uma figura atarracada
usando um terno listrado e um chapéu de palha, está esculpindo os
pés de uma enorme deusa de mármore como um pedicuro
subserviente. Quanto a Bonnard, é dada a ele a maior presença física
dos quatro: ele é mostrado alto, de corpo inteiro, colocado no centro
da tela. Mas deixem que as cores contem a história: o pintor tem
cabelos grisalhos, está usando um terno formal e óculos e lança uma
sombra escura, enquanto que, na parede em frente a ele, resplandece
sua própria pintura de Le Cannet e, atrás dele, mais subversivamente,
resplandece seu estojo aberto de tintas.
Finalmente, há a série de painéis decorativos que Vuillard pintou
em 1921-2 para Camille Bauer, representando a arte de museus: em
especial, dois que representam a Salle des Cariatides e a Salle La Caze
no Louvre. No primeiro, o grande Vaso Borghese e outros itens
clássicos ocupam nove décimos da pintura; lá embaixo, estão os rostos
de um punhado de espectadores – uma mulher de chapéu azul (na
realidade, a sobrinha de Vuillard, Annette, mas a identidade
novamente não é importante) e um homem de chapéu de feltro – que
são total e comicamente diminuídos pela arte. No segundo, as figuras
abaixo dos quadros franceses do século XVIII ganham um pouco
mais de espaço: duas delas são copistas debruçados sobre seus
trabalhos; outra está lendo o guia da galeria; uma quarta, com um belo
casaco e chapéu de pele, está olhando para fora da cena. Estas
pinturas, de acordo com o catálogo de 2003-4, são uma “celebração do
olhar humano”. Até certo ponto; mas, significativamente, apenas uma das nove figuras representadas é mostrada contemplando realmente
um dos objetos de arte pintados ao redor. Vuillard pode ter descrito a
si mesmo como nada mais do que um espectador, mas nós que
olhamos para seus quadros somos mais ainda simples observadores: às
vezes, simples copistas do talento de outros; às vezes, atentos; às vezes,
meros passantes. Nós percorremos as grandes galerias, apreciativa ou
desdenhosamente, segundo nosso conhecimento, nosso
temperamento, o estado da nossa digestão e a moda da época,
colocando este ou aquele quadro na lista dos nossos dez melhores, e
permanecendo incorrigivelmente curiosos a respeito da vida privada
deste ou daquele artista. Mas a arte em si continua a existir
independentemente disso, acima de nossas cabeças, sólida e
indiferente.