Mantendo um olho aberto
Fantin-Latour: homens em linha
Trinta e quatro homens, vinte deles em pé, catorze sentados,
distribuídos por quatro pinturas e por 21 anos. Quase todos vestem
roupas escuras, com a sobrecasaca preta usada tanto por burgueses
quanto por artistas na França daqueles dias; o menor desvio no estilo
– um par de calças claras, um casaco cinza de proletário, um avental
branco de pintor – causa surpresa. Os espaços em que esses homens
estão representados são similarmente sombrios, estreitos da frente ao
fundo, sem ar e claustrofóbicos: não há nenhuma janela à vista, e,
apenas na última pintura, está indicada uma porta; parece não haver
nenhuma maneira de escapar. Pode haver pinturas na parede, mas não
do tipo que ofereça alguma vista para fora. Elas são escuras e ilegíveis,
devolvendo-nos para os intensos agrupamentos de homens.
Ocasionalmente, um pequeno alívio vem na forma de flores, ou frutas,
ou uma garrafa de vinho, e há uma toalha de mesa vermelha, mas
mesmo ela é de um vermelho sombrio que não interrompe a
tonalidade escura e o clima de funeral. E, embora cada grupo de
homens tenha sido reunido para um propósito comum – para prestar
homenagem a um pintor morto, para assistir a um pintor vivo
enquanto dá suas pinceladas, para ouvir a leitura de poesia, para ficar
em torno de um piano –, nenhum deles parece estar se divertindo.
Não há nenhuma risada, nenhum sorriso por parte de nenhum
daqueles 34 (33, na verdade, já que um aparece duas vezes). A maioria
emana uma sensação de gravidade e de propósitos elevados, embora
certo número deles pareça distraído, perdido em seu mundo próprio,
até mesmo entediado. Alguns são amigos (dois são amantes), a maior
parte é de aliados, colaboradores, membros da elite ou vanguarda
autosseletiva; há, no entanto, pouquíssima interação entre eles.
Nenhuma das figuras toca seu vizinho; elas podem quase se apoiar,
ficar na frente uma da outra ou se esconder, mas não há contato
algum. É quase como se os homens mal conseguissem esperar o final daquela sessão em que posam sentados (ou de pé), de modo a
poderem voltar para seu próprio ateliê, oficina, estúdio, sala de
música.
Um canto da mesa por Fantin-Latour.
Detalhe mostrando (a partir da esquerda)
Verlaine, Rimbaud e Léon Valade
Essas quatro pinturas de Henri Fantin-Latour (havia uma quinta,
mas ele a destruiu depois que os críticos a rejeitaram no Salon) estão
todas agora no Museu d’Orsay. Eu as vi diversas vezes de passagem e
olhei para reproduções em vários livros, mas nunca antes havia me
dado conta de sua peculiaridade, porque – como a maioria das
pessoas, suponho – nunca havia chegado a examiná-las como pinturas.
Sempre as tratei apenas como exemplos de retratos coletivos e, como tais, são da maior qualidade: olha só, dizemos, aqui está Manet, e ali
está Baudelaire e Monet e Renoir e Whistler e Zola, todos eles como
eram em vida. E aqui, justamente aqui, onde a maioria das pessoas
para, na extremidade esquerda de Um canto da mesa, encontra-se a
seção mais famosa – o canto de um canto – de qualquer das quatro
pinturas de Fantin, porque ela mostra Rimbaud e Verlaine sentados
lado a lado. Rimbaud, o belo rapaz entre homens de barba, o queixo
apoiado na mão como um querubim, tem um olhar fixo que passa por
cima de nosso ombro esquerdo; Verlaine, prematuramente calvo, está
meio de perfil e parece tenso, sua mão direita apanhando uma taça de
vinho dentro do qual ele logo desaparecerá. Contudo, mesmo os dois
homens desse par, mais íntimos e mais notórios dentre as 34 figuras,
não estão olhando um para o outro, muito menos parecendo amantes.
Inevitavelmente, no caso de tais pinturas, nos concentramos nos
nomes famosos; é virtualmente impossível para o observador
contemporâneo dar mais do que uma breve olhada compadecida para
gente como Louis Cordier, Zacharie Astruc, Otto Scholderer, Pierre-
Elzéar Bonnier, Jean Aicard, Arthur Boisseau, Antoine Lascoux, e
assim por diante. E a nossa compaixão contém uma parcela não
exatamente de culpa, mas de inquietação: nós somos a posteridade
que os condenou ao esquecimento.
Olhamos para essas pinturas – a princípio, pelo menos – como
obras anedóticas, documentárias. É a mesma coisa com qualquer
retrato de grupo, seja a Apoteose de Homero, de Ingres, ou a mais
recente fotografia de revista enfileirando “Os melhores jovens
romancistas ingleses”. Quem é novo, quem é sexy, quem é bom, quem
não vai cortar o bigode? A triagem crítica começa imediatamente:
lembro-me de tomar o meu lugar ao lado dos companheiros “Jovens
romancistas” em 1983, e, depois que deixamos nossas imagens na
câmera de Lord Snowdon, um dos mais sarcásticos entre nós
observou: “Bem, eles escolhem os melhores vinte de sete.” Poucos
observaram a foto publicada para avaliar o senso de composição de
Snowdon, assim como poucos fazem uma pausa estética enquanto seus olhos deslizam dos sem importância para os notáveis em um
Fantin no d’Orsay. Desse modo, a primeira conquista de Bridget
Alsdorf em Fellow Men[2] é simples, mas séria: ela converteu as
pinturas de Fantin de novo em pinturas – em obras que começam com
uma ideia e uma esperança e avançam por meio de desenhos e de
insistentes ideias erradas até chegar a possíveis soluções, e então a
mais desenhos, e finalmente a esboços a óleo, e então, por causa de
problemas de última hora de indisponibilidade de alguém que havia
posado, chegar a uma imagem final que se tornaria logo disponível
para o julgamento dos arrogantes de bom gosto do Salon, para a
incompreensão da crítica e a zombaria dos cartunistas.
As quatro pinturas sobreviventes são enormes: a menor delas tem
160 x 222 cm; a maior, 204 x 273,5 cm. Elas não são recordações para
companheiros que têm a mesma mentalidade, mas gigantescas
declarações públicas, feitas com a intenção de insistir, até de intimidar.
Esses são os homens nos quais você deveria estar prestando atenção;
os escritores e pintores que aconselhamos você a estudar
intensivamente (embora o último quadro, Em torno do piano [1885],
seja menos sobre seus participantes individuais do que a favor da ideia
que todos eles apoiam – o Wagnerianismo). Para um pintor conhecido
apenas por autorretratos e flores, elas oferecem um desafio técnico
imenso: como organizar de maneira interessante um número de
sujeitos vestidos de modo similar; como você os torna evidente e
distintamente eles mesmos, enquanto representa, ao mesmo tempo, a
ideia mais ampla que eles pretendem tornar pública? Cada quadro
adota uma estrutura diferente. O primeiro, Homenagem a Delacroix
(1864), parece bastante pomposo: quatro figuras sentadas com as
cabeças na mesma altura, seis figuras de pé com as cabeças na mesma
altura, e, na parede ao fundo, com a cabeça um pouco mais alta do que
as dos homens de pé, um retrato (na verdade, algo bastante
complicado, uma pintura de uma litografia baseada em uma
fotografia) de Delacroix. O segundo quadro, Um ateliê em Batignolles
(1870), é mais inovador, com uma diagonal feita pela cascata de cabeças avançando para a tela em que Manet aparece trabalhando. O
terceiro, Um canto da mesa (1872), é o mais sutil e também o menos
confrontador, tanto no título quanto no ponto de foco (um livro
aberto que o poeta provavelmente estava lendo) e na estrutura: uma
curva de cinco homens sentados, acompanhados de perto por três
homens de pé, com os lados e a frente do quadro decorados com
folhas, flores e frutas. O quarto quadro tem uma arquitetura mais
convencional, com uma partitura aberta no seu centro e quatro
homens vestidos de preto em cada lado desse esplendor musical em
tom creme.
Mas que tipo de tributo, ou manifesto, esses quadros prestam?
Nada direto, de maneira alguma. Homenagem a Delacroix, por
exemplo, é fundamentalmente uma não homenagem, pelo simples fato
de ser uma pintura feita por Fantin-Latour. Em seu modo realista,
colorações sem brilho e estrutura bastante mesquinha, trata-se do
oposto exato de um Delacroix; já o fato de que esses prestadores de
homenagem estão todos virados para nós, e com isso dando as costas
para a imagem do herói-pintor morto, implica que eles certamente
não vão continuar pintando como ele. Saudação e despedida é o que a
pintura implica. Um ateliê em Batignolles na verdade não é um ateliê no
bairro Batignolles, mas sim um “Ateliê quase igual ao do próprio
Fantin”; a “Escola Batignolles” era ela própria mais uma “construção
retrospectiva do que realidade” na época em que Fantin a celebrou; já
o próprio homem que a batizou originalmente, Edmond Duranty, foi
deixado fora do quadro porque tinha brigado com Manet (uma
desavença pela qual ele culpava Fantin). Uma história de bastidores
como essa talvez não seja incomum: pertencer a um grupo costuma
ser importante para o artista (e escritor) jovem, quando o
encorajamento mútuo e a identificação coletiva do inimigo imediato
são vitais; mas logo depois, quando o indivíduo adquire mais
autoconfiança, ele se aflige por ser rotulado e agrupado. Assim, Um
canto da mesa, que pode parecer um quadro mais homogêneo e
harmonioso, na medida em que apresenta apenas escritores (enquanto os dois retratos grupais anteriores misturavam pintores e escritores),
na verdade, mostra um grupo tão fissíparo quanto os dois precedentes.
Rimbaud e Verlaine, por seu comportamento público tanto quanto
por sua poesia, estavam prestes a explodir esse pequeno mundo
parnasiano; e, mesmo que as colorações esverdeadas e suaves da
pintura, assim como a presença de frutas e flores, possam sugerir
menos austeridade e mais harmonia, o grande vaso de planta na
beirada direita foi imposto a Fantin quando Albert Mérat recusou-se a
aparecer junto com o par de “cafajestes e ladrões” ostentando-se no
canto oposto.
O testemunho externo de Bridget Alsdorf nos persuade de que
tudo isso não é tão sólido como parece nessas celebrações
monumentais. Mas a evidência interna – argumentada de modo
erudito, exato e próximo – é decisiva. Quando os críticos daqueles dias
examinavam essas coleções pouco tocantes, sem conexão e sem
sorrisos, de colegas não colegiados, aquilo de que eles se queixavam
era principalmente – para além do egotismo de Fantin e da
autopromoção do grupo – da falta de unidade formal nos quadros.
Alsdorf argumenta de maneira convincente que essa falta de
interatividade entre as figuras, longe de ser uma falha formal, é o
próprio tema da pintura. Aquilo em que Fantin está interessado, e que
ele representa em pintura, é a negociação interna do indivíduo com o
grupo. O aparente embaraço é proposital: os participantes estão
tentando descobrir como proteger e manter sua individualidade na
presença de irmãos e colegas que também podem ser concorrentes e
assistentes. Alguns dos desenhos preliminares de Fantin mostram
trocas animadas entre os diferentes artistas e escritores, mas elas são
eliminadas à medida que a imagem se aproxima de sua forma final.
Uma das comparações mais frutíferas de Alsdorf é com O ateliê da rua
Condamine (1870), do pré-impressionista de meio escalão Frédéric
Bazille (que aparece ele próprio no quadro Um ateliê em Batignolles).
Bazille nos fornece um espaço aberto, alto, arejado, com uma grande
janela de ateliê, quadros de nus saudáveis nas paredes e atividades artísticas acontecendo em três lugares separados: à direita, alguém está
dedilhando o piano; à esquerda, dois homens (um deles a meio
caminho, escada acima) estão tendo uma discussão estética animada;
no centro, o próprio Bazille se encontra de pé ao lado de seu cavalete,
mostrando um quadro terminado para dois companheiros pintores
(um é certamente Manet; o outro, provavelmente Monet). A arte pode
ainda ser apenas para homens, mas esta é uma cena clara, brilhante,
alegre – ela tem a aparência que lhe caberia se os mortos de fome de
La Bohème tivessem dado sorte e se mudado, abonados, para bairros
mais elegantes, com Mimi, de saúde restaurada, prestes a chegar com
um enorme almoço. É também, comparado com o Ateliê, de Fantin,
um quadro banal, tanto em concepção quanto em execução. O quadro
de Bazille diz: é com isto que se parece a vida de um artista. O de
Fantin diz: a vida de um artista é realmente desse jeito.
Homenagem a Delacroix por Fantin-Latour.
Detalhe mostrando Fantin-Latour
Na vida de um artista, assim, há muita ansiedade e dúvida sobre si
mesmo, combinadas com trabalho incessante que às vezes não leva a
nada. Esses são exatamente os traços tipificados pelo segundo quadro
de Fantin, aquele que ele destruiu em seu retorno do Salon (o pintor
guardou apenas três retratos de cabeças – dele próprio, de Whistler e
de Ambroise Vollon). Alsdorf o descreve como “o mais ambicioso e
desastroso dos retratos grupais de Fantin”. A pintura chamava-se O
brinde! Homenagem à verdade. Se Homenagem a Delacroix era em parte
um protesto contra o rápido esquecimento público de seu tema (o
funeral de Delacroix atraiu pouca gente, e a cobertura da imprensa foi mínima), O brinde! (1865) pretendia fazer uma reivindicação mais
ruidosa e mais geral em favor da arte – e em favor do próprio Fantin.
Em Homenagem a Delacroix, os críticos tinham se irritado com o que
consideraram autopromoção do pintor – Fantin não só se destacava
em sua brilhante roupa branca contra um quarto cheio de
sobrecasacas negras, mas também conspicuamente animou o quadro
segurando sua paleta virada para nós, já que as flores em frente ao
Maître morto eram seu tema-assinatura. O brinde! se mostraria uma
provocação ainda maior.
A intensa discussão de Alsdorf acerca dos estágios preliminares de
O brinde! – que retrata a Verdade como uma figura feminina nua
segurando um espelho em um ateliê cheio de artistas homens –
demonstra o esforço de Fantin para tentar efetivamente fazer seu
conceito funcionar. À medida que se desenvolve, ele oscila entre uma
alegoria pseudoclássica (com outras artes personificadas) e um retrato
mais realista de Nu com Grupo; o elenco coadjuvante de artistas
muda constantemente de forma e de caráter; mas o problema principal
e insolúvel vem à tona a partir da interação central, no quadro, entre a
figura de Fantin e a figura mitológica da Verdade. Ao longo dos
séculos, pintores frequentemente se incluíram em quadros
multifigurais, embora costumassem se posicionar no canto, olhando
com uma ligeira expressão de quem sabe alguma coisa, demonstrando
uma modéstia ostensiva. Mas pôr-se no centro de um quadro era um
desafio formal, tanto quanto um risco crítico. O ponto de referência
imediato de Fantin teria sido O ateliê, de Courbet, aquele gesto denso,
prometeico, que implicitamente mostrava o artista tomando o lugar de
Deus como criador do universo. Só que o ego de Courbet era
revestido de uma armadura em comparação com o de Fantin; e
Courbet representou-se calmamente pintando o mundo (e sendo
admirado), enquanto Fantin estava tentando se apresentar em um
complexo engajamento com uma figura nua portando um espelho. A
princípio, ela é vista por trás, segurando o espelho no alto, com o
artista respondendo a ela ao segurar uma grande placa anunciando VERITÉ. Isso é obviamente algo em estado bruto. Depois, ela é
mostrada pegando a mão do artista que segura a paleta, e ele responde
fazendo com sua outra mão um gesto de “Quem, eu?” (o que leva a
um tipo de Anunciação blasfematória). Gradualmente, Fantin
elaborou seu caminho em direção à forma final do quadro –
evidenciada por um esboço tardio a óleo –, na qual a Verdade, nua
com seu espelho agora abaixado, está de pé, encarando-nos a partir do
centro negro; todos os artistas (assim como em Homenagem a
Delacroix) também nos encaram fixamente – com a exceção do próprio
Fantin, que, enquanto mantém um olho dirigido para nós, estica um
braço e aponta para a Verdade. Como ele formulou em uma carta a seu
marchand Edwin Edwards: “Eu sou o único que vai vê-la.” Fantin
estava, desse modo, expondo-se ainda mais para a acusação de
vaidade; pior, a presença da mulher nua cercada por homens vestidos
iria reviver a histeria despertada no Salon, dois anos antes, pelo O
almoço na relva, de Manet. Fantin ficou, com razão, preocupado com a
possibilidade de que o público visse seu quadro como “a orgia de um
pintor”.
O que Fantin não tentou, em todos os seus ajustes, foi tornar
Fantin menos central: colocar-se, digamos, na tradicional beirada dos
eventos. Alsdorf cita o retrato grupal feito por Félix Vallotton
(igualmente denso e bastante enigmático) dos nabis [3] (1902-3); aqui, o
pintor se faz ligeiramente menor do que os outros, e um pouco mais
afastado para o fundo, mais como um maître assistindo a uma
discussão animadamente gestualizada. Fantin nunca considerou essa
possibilidade. Nem tentou uma solução ainda mais radical: perder a
musa. O Symposium (1894), de Akseli Gallen-Kallela, é um retrato
grupal alucinatório à maneira de Munch, localizado no Hotel Kämp
em Helsinki, depois de muita bebida. Na cadeira à direita, Sibelius e
seu amigo compositor Robert Kajanus, de meio-perfil, com os olhos
vermelhos e os rostos estupefatos, cigarros queimando; perto deles,
está a figura inconsciente do crítico e compositor Oskar Merikanto; de
pé à esquerda, e olhando para nós, está o próprio artista. Ele se encontra parcialmente ensombrecido por aquilo que Sibelius e
Kajanus estão contemplando: um par de asas vermelhas de ave de
rapina. O Mistério da Arte acabou de fazer sua entrada diante deles,
mas agora está voando, indo embora, somos convidados a concluir.
Trata-se de uma imagem melodramática que beira o disparatado, mas
certamente seria mais disparatado ainda se Gallen-Kallela tivesse
mantido uma de suas ideias originais: nada de asas partindo, em vez
disso uma mulher nua, simbólica, deitada sobre a toalha da mesa.
Bem, isso realmente teria a aparência de “a orgia de um pintor”.
Mesmo antes de completar O brinde!, Fantin tinha grandes
dúvidas, temendo que seu tema fosse “verdadeiramente absurdo”. O
quadro realmente foi acusado de absurdidade, pretensão e
vulgaridade. Um crítico diagnosticou “uma crise de orgulho”; outro
descartou o quadro como um “desses paraísos de caneca de cerveja em
que o artista assume o papel de Deus e Pai, com seus pequenos
amigos como apóstolos”. Assim como a maior parte da crítica francesa
da época, tais observações são maliciosas, presunçosas e bastante
equivocadas, contudo corretas justamente em uma medida suficiente
para solidificar qualquer dúvida sobre si mesmo que o pintor possa ter
tido. Ao destruir O brinde!, Fantin admitiu o fracasso do quadro e
também a acusação pessoal de egotismo. Depois disso, se ausentou de
seus retratos grupais e começou uma lenta retirada da colegialidade.
Ele tinha sido um republicano passional em sua juventude, mas nunca
foi um pintor que saiu muito para a rua; seu modo de retratar a
política da época era por meio da representação de colegas mais ativos
do que ele (Um canto da mesa ganhou o apelido de “A refeição dos
Communards”). Então não foi um desastre – dada a natureza do seu
talento – o fato de ter escolhido gradativamente recolher-se para o
Louvre e para o seu próprio ateliê. Em 1875, escreveu para o pintor
alemão Otto Scholderer (que está de pé ao lado de Manet em Um
ateliê em Batignolles): “Você está certo sobre reuniões de artistas...
Nada se compara ao interior de alguém.” Em novembro de 1876, ele contou a Scholderer sobre seu desejo de “ir viver sozinho, longe de
todos os artistas, uma vez que não sinto que sou como eles”.
Coincidentemente, naquele mesmo mês, Fantin se casou com
Victoria Dubourg, uma pintora que conheceu quando estavam ambos
fazendo cópias no Louvre. Dois anos depois, ele produziu A família
Dubourg (1878), um grupo composto por sua esposa, a irmã dela,
Charlotte, e seus pais. Qualquer um que suspeite de uma aparente
incompatibilidade entre querer “viver sozinho” e se casar deveria
examinar essa pintura: ela deve ser uma das mais sombriamente
alarmantes representações de parentes de cônjuge na história artística
e matrimonial. Quatro figuras vestidas de preto – os pais sentados, as
filhas de pé – habitam um espaço estreito em frente a uma parede de
cor parda na qual se encontra o canto de um quadro, que, por sua vez,
não oferece nenhuma claridade para aliviar; à esquerda está uma porta
que parece completamente trancada. A sensação de denso e mortiço
enclausuramento doméstico faz você pensar nos primeiros romances
de Mauriac; ou na observação de Tchekhov: “Se você tem medo da
solidão, não se case.” Na pintura, há outra surpresa, Fantin privilegia
formalmente Charlotte sobre Victoria: a partir disso, e de outros
retratos das irmãs, você não consegue evitar a especulação sobre a
possibilidade de Fantin estar conjecturando se não havia se casado
com a irmã errada. Pelo menos, e para variar, esse retrato grupal
contém sim uma figura que efetivamente chega a tocar outra: a esposa
de Fantin pousa uma mão terna sobre o ombro da mãe. Uma
estranheza do considerável talento de Fantin é o fato de que seus
retratos humanos têm a aparência lúgubre, fúnebre, de naturezas-
mortas, enquanto suas naturezas-mortas, as pinturas de flores com as
quais ele ganhou seu dinheiro (e também seu nome neste país),
exibem todo o vigor, a vida e a cor de que ele era naturalmente
consciente.
A família Dubourg por Fantin-Latour
2. Fellow Men: Fantin-Latour and the Problem of the Group in Nineteenth-
Century French Painting. Bridget Alsdorf. Hardcover, 2012.
3. Os nabis (sobre os quais virá muito mais) eram o grupo artístico com um
dos nomes menos atraentes e menos úteis do ponto de vista descritivo. Os melhores batismos costumam ser feitos por críticos hostis: assim com o impressionismo e o cubismo. O termo nabismo – cujos principais seguidores
foram Bonnard, Vuillard, Vallotton, Maurice Denis, Ker-Xavier Roussel e o
escultor Maillol – foi oficialmente cunhado pelo poeta Henri Cazalis. Nabi significa ‘profeta’ em hebraico e arábico; desse modo, os nabis deveriam revitalizar a pintura assim como os antigos profetas hebreus tinham revitalizado a religião. Mas não havia nada de profético seja em sua temática – a vida urbana moderna e cotidiana – ou em sua conduta pessoal, que era geralmente modesta. Um observador satírico sugeriu que eles eram assim denominados porque ‘a maioria deles usa barba, alguns eram judeus, e todos eram desesperadamente sérios’.