Mantendo um olho aberto
Redon: para o alto, para o alto!
Existe uma forte tradição no século XIX, que entrou pelo século
XX, de artistas que veem o casamento como inimigo da arte. Amor,
sim; casamento, não. Flaubert considerava o casamento de qualquer
amigo escritor como uma traição pessoal, e, além disso, uma traição à
arte compartilhada por eles. O pintor impressionista russo Leonid
Pasternak temia que a felicidade doméstica tivesse minado o seu
talento e que sua arte precisasse de mais sofrimento para alcançar sua
expressão mais completa. O compositor Delius acreditava que o
artista não devia se casar, ou então, se viesse a se casar, devia ser com
uma mulher que amasse não a sua pessoa, mas a sua arte.
Normalmente, não existe resposta para este dilema: apenas, bem à
frente no futuro, alternativas que ficaram perdidas no passado
distante. Mas a ideia de que a instituição burguesa do casamento
enjaula e domestica o artista apaixonado que busca a verdade era
amplamente difundida, e pode ser exemplificada por esta anotação no
diário do littérateur Paul Léautaud. Ela foi feita no dia 11 de fevereiro
de 1906, e ele havia jantado com seu amigo Henri Chatelain: Nós
conversamos sobre a influência da vida doméstica num artista.
Vantagens: menos ansiedades materiais. Desvantagens: a mudança de
atmosfera e humor, uma diminuição da individualidade e da
independência: a pessoa não pode mais escrever seus pensamentos
mais secretos nem descrever suas aventuras mais secretas, a não ser
transformando-os numa obra da imaginação. Você deveria ter: 1) Uma
vontade absoluta de ser livre e independente neste sentido, em relação
a tudo e apesar de tudo; 2) Um sentimento de duplicidade muito bem
desenvolvido: na sala de jantar, com a esposa, você é de um jeito –
enquanto que, ao mesmo tempo, no escritório, você é um homem só,
livre e sem envolvimentos...
A mulher (supondo que o artista seja homem) sai sempre
perdendo: se ela traz dinheiro para o casamento, isto é aprisionador; se não o traz, ela traz ansiedade. Se ela faz o artista feliz, prejudica sua
veia artística; se não o faz, funciona como uma perturbação a mais
para sua arte. E há o sexo (que é geralmente o mais importante em
tudo isto). Mesmo que prevaleçam as hipocrisias sociais e o homem
possa prevaricar – desde que mantendo as aparências –, o que
acontece quando ele quer escrever a respeito disso? A dificuldade, ou
impossibilidade, de divórcio também era um fator não explícito; e
neste aspecto as coisas são mais fáceis. Eu me lembro de ler uma
entrevista com Brigid Brophy numa revista estudantil nos anos 1960;
quando lhe perguntaram do que um escritor mais precisava para
ajudá-lo ou ajudá-la a escrever, ela respondeu: “Uma esposa” (leia-se:
secretária, compradora, cozinheira, trocadora de fita de máquina de
escrever, terapeuta...). Flaubert aconselhava os artistas a serem
rotineiros e normais em suas vidas para poderem ser violentos e
originais em seu trabalho. O casamento é uma forma de ser rotineiro e
normal.
Entretanto, talvez estejamos olhando para as coisas de trás para
frente. Em vez de contemplar a vida de um artista e deixá-la colorida,
ou decidir o que achamos de sua arte (“falta ousadia”, “falta
imaginação”, “precisava ter sofrido mais” – “ah, se ao menos ele/ela
não tivesse se casado”), talvez devêssemos olhar para as coisas a partir
da direção oposta. Será que podemos deduzir o estado civil de um
escritor, de um pintor, de um compositor com base na sua obra?
Quem vê o casamento com mais clareza, os casados ou os não casados?
São os que têm filhos ou os que não têm filhos que retratam melhor as
crianças? Jane Austen, Flaubert e Henry James eram todos
secretamente casados e tinham vários filhos: se descobríssemos isso
amanhã, esse fato mudaria nossa visão da obra deles? Courbet não
conseguiu impressionar uma “queridinha da cidade” e nunca se
casou; Delacroix imaginou casar-se com uma mulher igual, se não
superior, a ele, mas rapidamente desistiu de procurá-la; Manet era
casado, mas vivia perseguindo (e conquistando) outras mulheres. Nós
achamos que eles teriam pintado de outro jeito se seu estado civil tivesse sido diferente? Isto é impossível de ser verificado; assim como
não se podem fazer especulações.
Madame Camille Redon lendo por Redon Se lhe
mostrassem uma obra de Odilon Redon e
pedissem que você deduzisse a vida do artista a
partir dela, o que você diria? Seu estranho
mundo é povoado pelo fantástico e pelo
fantasmagórico, com imagens sombrias e
aberrantes, e você talvez se sentisse justificado em adivinhar uma vida semelhante – uma vida
baudelairiana, talvez, cheia de ópio, alucinações,
amantes mulatas e viagens (ou sonhos de
viagens) a terras exóticas. Dificilmente você
adivinharia que ele viveu um casamento muito
feliz, era profundamente afeiçoado à mulher e a
pintou constantemente ao longo de trinta anos.
Ele escreveu o seguinte: Você pode determinar a
índole de um homem pela sua companheira ou
sua esposa. Toda mulher explica o homem pelo
qual ela é amada, e vice-versa – ele explica o
caráter dela. É raro um observador não
encontrar entre eles muitas conexões íntimas e
delicadas. Eu acredito que a maior felicidade é
sempre resultado da maior harmonia.
Ele não escreveu isto na qualidade de marido complacente, mas
nove anos antes de conhecer sua esposa, Camille Falte. Ele também
disse que nenhuma decisão que tomou como artista foi tão clara e tão
segura do que quando disse Sim no dia do seu casamento.
Portanto, uma pergunta mais fácil, menos teórica. Como, na
qualidade de artista, você se sairia no teste do duto da chaminé?
Rodolphe Bresdin, aquafortista, litógrafo e professor do jovem Redon,
disse o seguinte, com “branda autoridade”, um dia em 1864: Olhe
para este duto de chaminé. O que ele diz para você? Para mim, ele
conta uma história. Se você tiver a capacidade de observá-lo bem e de
compreendê-lo, imagine o mais estranho, o mais bizarro tema; se ele
estiver apoiado e permanecer dentro dos limites deste simples pedaço
de parede, o seu sonho ganhará vida.
Redon, refletindo mais tarde sobre esse conselho, reclamou que a
maioria dos artistas da sua geração tinha olhado para um duto de
chaminé e visto nada além de um duto de chaminé. Eles eram, como
ele disse em “À soi-même”, “verdadeiros parasitas do objeto”, que
“cultivavam a arte em um campo unicamente visual”. Uma pequena
parte dos seus contemporâneos (não nomeados, mas possivelmente a
primeira onda de impressionistas) é elogiada de leve por ter seguido
“o caminho da verdade na floresta de árvores altas”, por ter
caminhado “com a arrogância de rebeldes convictos” e por ter apoiado
“por um momento uma parte da verdade dentro da verdade”. Mas
não há espaço para concessões: Redon foi igualmente condescendente
em relação a Ingres (“deficiente em realidade”) e Bonnard (“um tipo
bom de pintor, produzindo quadros quase sempre espirituosos”). A
verdadeira arte não poderia contentar-se com um campo unicamente
visual; e os verdadeiros artistas não deveriam contentar-se com nada
menos do que o todo da verdade dentro da verdade. A arte, ele afirmava, só começa com o que “ultrapassa, ilumina ou amplia o
objeto e amplia a mente ao entrar no campo do mistério”.
Nós não sabemos por que Bresdin se fixou no duto da chaminé e
não em outra coisa da casa, mas a escolha tem uma pertinência
especial para Redon. Um duto de chaminé é um sistema para carregar
para cima matéria transformada: esta poderia ser, também, uma
definição básica da arte de Redon. É uma arte de aspiração e
transubstanciação, incorporada em imagens que se erguem numa
corrente de ar em direção às alturas. Pégaso, o cavalo alado, serve aqui
como símbolo da imaginação artística; cabeças, decepadas ou
frouxamente presas, flutuam como balões de gás; os dentes de
Berenice levitam estalantes no meio das estantes da biblioteca; os
cavalos da carruagem de Apolo urram no ar; a humanidade busca em
toda parte erguer-se acima da podridão bárbara. Imagens de
ondulação e flutuação para o alto são tão importantes e temáticas, que
invadem até as obras mais calmas e naturalistas de Redon. Sob as
ondas, há cavalos-marinhos flutuando, carregados pela correnteza;
acima do chão, há larvas se transformando em borboletas. Mas não
são apenas larvas: em suas pinturas mais agitadas de flores, as próprias
cabeças das flores – sem talos, flutuando, fantasticamente coloridas –
estão em processo de se transformar em borboletas. Os nastúrcios são,
de certa forma, a flor perfeita de Redon: eles têm cores vibrantes e,
quando colocados num vaso, não ficam duros como soldados, mas se
curvam e flutuam, suas folhas e flores exibindo uma liberdade
circular. A princípio surpreende o fato de ele não os ter pintado com
mais frequência. Mas talvez o problema dos nastúrcios seja o de que
eles não colaboram com você: quando você os espeta num vaso, eles
imediatamente reduzem a função transformacional do artista.
A quimera (Monstro fantástico) por Redon Em
contraste com o ímpeto para o alto da obra de
Redon, existe um terrível medo compensatório de ficar encalhado, enterrado, abandonado, de
perder a capacidade de voar. Um centauro
melancólico olha saudosamente para a nuvem
que lhe deu vida; um anjo caído esquadrinha os
céus; um anjo amarrado é impedido de alçar voo. A humanidade também está algemada,
enclausurada, atrofiada: o frontispício do álbum
de litogravuras de Redon de 1879, Dans le Rêve,
mostra a imaginação poética vindo em auxílio
de uma árvore podada que representa o espírito
humano. Por mais que desejemos voar, somos
impedidos pela corporalidade, pela melancolia,
por nossos desejos mais baixos. Ou podemos
voar, e ainda assim não escapar deles: um dos
principais noirs de Redon é de um balão de ar
quente, sua cobertura decorada com o rosto de
um homem nobre, esperançoso, enquanto que
na cesta está agachado um macaco, a
personificação de tudo o que não podemos
deixar para trás. Este tema, imagem, questão –
se podemos voar, como podemos voar? – é
examinado obsessivamente na sequência de cabeças decepadas de Redon. Algumas estão
colocadas sobre travessas, outras flutuam;
algumas estão ligadas como cabeças de plantas,
outras estão soltas numa brincadeira particular;
algumas têm pequenas asas, outras, fogareiros escondidos. A cabeça decepada pode parecer o
resultado de uma execução, um castigo final,
mas de fato é geralmente o oposto: se a mente
quiser se elevar, então ela precisa se separar do
corpo, esses noirs quase sempre argumentam.
À s vezes a separação é literal, ou melhor,
escritural, como no caso de João Batista. Mais
frequentemente, ela é emblemática e
fantasmagórica, a aranha que chora, a cabeça de
cacto se erguendo, o girino rodopiando,
membros escuros de uma tribo sem corpo de
cabeças serenas, risonhas, angustiadas e
lamentosas. Seu exemplo assombra até algumas das obras posteriores, mais calmas, de Redon. O
clima da sequência de pinturas “Olhos fechados”
é contemplativo e místico, e seu colorido não
poderia ser mais diferente dos noirs; mas a
imagem em si (olhos fechados como na morte) e
sua composição repetida (retrato recortado no
pescoço ou na parte de cima do ombro como
que por uma guilhotina) carregam um eco do
trabalho anterior, mais sombrio.
A reputação de Redon tem crescido nas últimas décadas: houve
grandes exposições em 1994-5 (Chicago/Amsterdã/Londres) e em
2011 (Paris/Montpellier). Elas confirmaram sua obsessão com a
imagem; mas também, mais surpreendentemente, sua inquietação
artística. Ele está sempre variando de técnicas e temas, sempre
experimentando. “O pintor que encontrou sua técnica”, ele escreveu
uma vez, “não me interessa.” Ele também é incomum pelo fato de seu período sombrio ter vindo primeiro e não por último: ele fugiu das
sombras, em vez de se sentir cercado por elas no decorrer dos anos.
Primeiro, as paisagens malditas, o horror tipo Poe, o terror
melancólico e o desamparo dos noirs; mais tarde, a paleta
fosforescente, os azuis crayon e os marrons acastanhados, o roxo
nebuloso e o laranja nastúrcio, o rubor e a contusão em tom pastel.
Primeiro, também, o sonho íntimo, sugestivo, mais pessoal; depois, o
mais público, o mais programático. E não, não parece haver nenhuma
ligação biográfica óbvia entre este traço artístico de fratura e
acontecimentos na vida de Redon.
O fato de a narrativa se partir tão nitidamente em duas metades é o
sonho de qualquer curador: e tanto em Amsterdã quanto em Paris, as
exposições foram organizadas para representar isto. No térreo, as
primeiras obras ganharam vida no meio de tetos baixos e – por
necessidade – iluminação mais suave: ali estavam as cabeças
decepadas, as fantasias sombrias, os anjos caídos. No andar de cima,
com iluminação forte, tetos altos e janelas sem cortinas, a arte de
Redon explodia em cores e (literalmente) em flores: ali estavam os
vasos repletos, as barcas lustrosas e simbólicas, os perfis exaltados
brilhando como que através de vitrais, os retratos da sociedade, os
encostos de cadeira de tapeçaria. No andar de baixo, estava a obra tão
aclamada por Huysmans (“indo além dos limites da arte pictórica e
criando um novo tipo de fantasia, nascida do delírio e da doença”) e
tão insultada por Goncourt (“produções fantásticas expelidas por um
lunático senil evacuando num vaso sanitário”); no andar de cima, a
obra aclamada pelos rosa-cruzes e místicos modernos, a obra elogiada
por Matisse e odiada por Tolstói, que viu A célula dourada em Londres
e achou que suas cores – principalmente ultramarino e marrom
dourado – eram provas de que a arte moderna havia enlouquecido.
O ciclope por Redon E agora? Existem dois
problemas principais com Redon, um deles é
nosso, o outro é dele. O nosso vem da tendência
normal de observar os artistas em termos de
influência e descendência, e do prazer normal
que temos em nos parabenizar. Nós olhamos
para sua obra e percebemos facilmente,
digamos, uma ponte entre o romantismo e o
surrealismo, ou um precursor gráfico dos
estudos psicanalíticos. As conexões literárias em
sua obra nos dão uma boa desculpa para
verbalizar futilmente: Poe, nós murmuramos,
Baudelaire, Flaubert, Mallarmé, Huysmans.
N uma exposição de Redon, há o zumbido do
século XX (e XXI) aplaudindo a si mesmo pelo
fato de que Redon estava do seu lado e nos
previu com tanta exatidão. Dans le Rêve não
prefigura Magritte e Ernst? O distribuidor de
coroas não poderia ter sido pintado por alguns
satíricos alemães dos anos 1920? E a
descendência de Redon não se limita de forma
alguma às belas artes. Suas cabeças aladas
conduzem a Monty Python; Jovem em um
chapéu: Mlle Botkin é puro Adrian George; enquanto que seus olhos bola de sinuca se
tornaram um tropo kitsch para grades de
parques públicos. Parte do que é ruim na arte
moderna, e em culturas visuais no sentido mais
amplo, encontra uma possível fonte e
justificativa em Redon, o que torna difícil
considerar os originais de um modo não
preconceituoso: as séries “Olhos fechados”, com suas cores discretamente enjoativas e seu ligeiro
ar de misticismo presunçoso, parecem letreiros
anunciando um guru barato, sacudindo um
pauzinho de incenso. Às vezes a estética estática
que existe sobre a obra de Redon é tanta, que
pode ser um alívio ouvir o comentário ocasional
de um filistinismo sem culpa. Em Amsterdã, eu
estava parado diante do lascivo Ciclope, sem
saber o que pensar dele, quando um grupo de
francesas se aproximou, exalando aquele jeito
jovial, mas cheio de propriedade que de algum
modo só os franceses são suficientemente
confiantes para demonstrar em galerias de arte.
A primeira mulher deu uma olhada no quadro e
anunciou com segurança, como se arte fosse
simplesmente vida: “Ah, quelle horreur!” Esta
sublime falta de ironia fez suas duas
companheiras pararem por um instante e
domesticarem o retrato do gigante de um só
olho. “É um pargo”, uma delas sugeriu. “Não, é
um linguado”, a outra respondeu; e, tendo assim
despachado Redon para a barraca do peixeiro,
elas passaram para as flores. “Isso é bonito.”
O problema do próprio Redon – e esse é o mais interessante – está
na resposta à seguinte pergunta: em que medida a individualidade de
um artista se desenvolve através da busca e do refinamento dos pontos
fortes de seu talento, e em que medida pode evitar suas fraquezas ? Você pensaria: as duas coisas, é claro – no entanto, Braque terá algo a
dizer sobre o assunto (e trará o exemplo contrastante de Picasso, que
não tinha pontos fracos óbvios, apenas muitos pontos fortes que
competiam entre si – o que pode funcionar como um ponto fraco). No
caso de Redon, o ponto fraco, do qual ele estava bem consciente, era
ao mesmo tempo particular e comum. Em À soi-même, ele descreve
sua educação artística, relembra “os tremores e a febre” causados por
sua primeira visão de Delacroix, e o “fervor” que ele sentiu quando do
seu primeiro contato com a obra de Millet, Corot e Moreau. Ele
continua: Quando, depois, eu fui a Paris para direcionar meu trabalho
para um estudo mais completo do modelo vivo, era tarde demais,
felizmente: a dobra estava feita.
Isto é verdade: ele nunca desenhou o corpo humano tão bem
quanto desenhava uma árvore. Não há desenho de um corpo que se
compare a Árvore podada, nem retrato que se compare a Árvore com céu
azul de 1883, com seu tronco triangular, semiabstrato e a névoa
flutuante de folhas em primeiro plano. Ele também era muito melhor
com pedras, e muitas das mulheres da primeira fase do seu trabalho
têm uma corpulência esculpida: seu Anjo em correntes teria dificuldade
em se tornar aerodinâmico mesmo sem as correntes. Quando ele
passou a pintar retratos mais tarde, tornou a cair na estilização: muitas
de suas mulheres tendem para a mesma aduncidade decorativa, e seu
interesse principal está normalmente em algo diferente: por exemplo,
no tom pastel de Madame de Domecy, na forma como o fundo florido
invade a figura central, enfeitando de pétalas sua blusa e talvez até
mesmo seu casaco.
“Felizmente” é a palavra-chave na declaração de Redon. Ele quer
dizer, provavelmente, que sua arte escapou do controle insípido das
escolas de pintura e teria sido prejudicada, senão ativamente
esmagada, por alguma volta forçada aos fundamentos. Naturalmente,
e corretamente, ele fez da lacuna em sua formação artística uma
virtude combativa.
Eu estou pronto para admitir que o estudo de modelos é
essencial em nossa arte, mas com a condição de que seu único
objetivo seja a beleza. Fora isso, esse famoso estudo de modelos é
uma inutilidade.
Coloque esta ideia ao lado de outra, explicitada em uma das
citações sobre Bresdin, o homem do duto de chaminé – “A cor é a
própria vida, elimina a linha sob seu brilho” – e você tem o processo
de criação da sua arte posterior. Ela irradia cor; cria a forma por meio
de sobreposições e aglutinações; tende a agir de forma centrífuga mais
do que centrípeta. É uma arte de idealismo voluptuoso e
monumentalidade iridescente. Ela tem por objetivos elevar e inspirar,
e quando não consegue isto, pode parecer tolamente piegas, se não
inteiramente excêntrica. Alguém se interessa por Monge lendo (Alsace)?
Se Redon não atrai mais a antipatia tolstoiana ou goncourtiana, ele
ainda provoca algumas opiniões estranhas. David Gascoyne declarou
em Surrealism (1935): “se Des Esseintes estivessem vivos hoje eles
teriam uma fraqueza especial por Salvador Dalí, cujos horrores
facilmente ultrapassam aqueles de Redon.” Já o poeta John Ashbery
acha “as pinturas realistas de Redon mais fantásticas do que as
imaginárias, e as pinturas de flor mais estranhas e perturbadoras do
que os monstros que espreitam no seu trabalho gráfico”. A frase de
Ashbery parece simplesmente um paradoxo proposital (Perturbado por
flores – uma sequência em relação a Surpreendido pela alegria de C. S.
Lewis). Redon é um daqueles pintores de talento tão diversificado e às
vezes tão evidente (suas poucas naturezas-mortas são tremendamente
ousadas – basta ver o fundo cor de ferrugem de Natureza-morta com
pimentões e jarro), que somos tentados a visitar mais de uma vez os
juízos emitidos sobre ele. Mas só a perversidade nos afastaria da
certeza de que os noirs são – como ele também achava – seu melhor
trabalho. Eles representam o momento em que sua técnica mais
combinou com as formas que ele desejava criar.
Os noirs são também mais puramente artísticos, menos literários e
referenciais do que seu trabalho posterior. Isto pode parecer paradoxal, já que muitos são usados como ilustrações: para Poe,
Flaubert, Pascal, e assim por diante. Mas as imagens em si são tão
impetuosamente inventadas, que pairam livres do texto de origem: a
“ilustração” para O coração tem suas razões, de Pascal, mostra um
homem nu da cintura para cima diante de um portal de pedra (ou
talvez uma janela), com uma cabeça picassoide e longos cachos, com o
braço direito enfiado até a altura do punho numa cavidade do peito. É
uma imagem simples, aterradora – enfiar o punho no coração –, cuja
origem é irrelevante, cujo impacto é puro Redon. Os fantasmagóricos
e flutuantes Dentes não nos fazem voltar a Poe, enquanto que uma
imagem como O coração revelador pode ser mais perturbadora se nós
não voltarmos ao texto; assim como as quimeras e os crânios coroados
de flores da série Tentações de Santo Antão. As pinturas simbolistas
posteriores, por outro lado, mesmo que não tenham origem em frases
ou textos, parecem mais “literárias”. Precisam de mais análise, de
mais notas explicativas; elas não se sustentam tão bem sozinhas, e
parecem insistir não só em que entendamos os seus símbolos, mas
também que os aceitemos. Ao contrário da tradicional pintura cristã,
na qual um agnóstico pode estudar a história e entrar
imaginativamente no quadro, o que Redon pede que você estude
parece especializado, desagradável e até mesmo tolo espiritualmente.
Sua obra se divide realmente em dois níveis. Nós nos aquecemos de
leve no calor de suas cores mais tardias, embora permaneçamos
indiferentes à mensagem; enquanto que os noirs, que são a glória de
Redon, pairam, assombram e permanecem como produtos mutantes
do inconsciente coletivo.