Mantendo um olho aberto
Dedicatória
PARA PAT
Introdução
Alguns anos atrás, um amigo jornalista, correspondente de sua
revista em Paris, tornou-se, numa rápida sucessão, pai de duas
crianças. Assim que os olhos dos bebês tornaram-se capazes de focar
apropriadamente, meu amigo os levava a passear pelo Louvre e
apontava ternamente suas retinas infantis para algumas das melhores
pinturas do mundo. Não sei se ele também tocava música clássica para
as crianças enquanto estavam na barriga da mãe, como fazem algumas
pessoas grávidas; mas já me peguei especulando algumas vezes sobre o
efeito disso naquelas crianças: serão potenciais diretoras do MoMA –
ou, talvez, adultos sem absolutamente nenhum senso visual e com
horror a galerias de arte?
Meus próprios pais nunca tentaram me oferecer um contato maior
com a cultura em uma idade precoce (ou em qualquer idade); nem me
desencorajaram de o fazer. Ambos eram professores dos primeiros
segmentos e, portanto, as artes – ou talvez mais precisamente a ideia
das artes – eram respeitadas na nossa casa. Havia livros de verdade nas
prateleiras; e havia até mesmo um piano na sala de estar – embora, em
nenhum momento da minha infância, ele tenha sido realmente tocado.
Minha mãe o tinha ganhado de seu pai coruja quando era uma jovem
pianista, dotada e cheia de esperança. Entretanto, sua dedicação ao
piano foi interrompida quando, aos vinte e poucos anos, se deparou
com uma difícil peça de Scriabin. Ela percebeu, à medida que falhava
repetidamente em dominar essa peça, que tinha alcançado um certo
nível como pianista, mas nunca chegaria a ultrapassá-lo. Então, parou
de tocar abrupta e definitivamente. Mesmo assim, não pôde se livrar
do piano; ele se mudou de casa com ela, seguindo-a fielmente no
casamento e na vida materna, e na velhice e na viuvez. Em sua
superfície empoeirada, encontrava-se uma pilha de partituras,
incluindo aquela peça de Scriabin que havia sido abandonada décadas
antes.
Quanto às artes plásticas, havia três pinturas a óleo na casa. Duas
delas eram de cenas rurais em Finistère, pintadas por um dos
assistants franceses de meu pai. Elas eram de certo modo tão
enganosas quanto o piano, uma vez que “Tio Paul”, como era
conhecido, não as tinha pintado exatamente en plein air, mas as
copiado – e aumentado – a partir de cartões-postais de pinturas.
Ainda hoje, tenho os originais a partir dos quais ele trabalhou (um
deles manchado de tinta) em minha escrivaninha. A terceira pintura,
que ficava na parede do hall, era um pouco mais autêntica. Era um nu
feminino a óleo, numa moldura dourada, provavelmente uma cópia
obscura feita no século XIX de um original igualmente obscuro.
Meus pais tinham comprado o quadro em um leilão no subúrbio
longínquo de Londres, em que vivíamos. Lembro-me dele
principalmente porque o considerava completamente sem erotismo.
Isso parecia muito estranho, porque a maioria das outras
representações de mulheres despidas me davam a sensação de um
efeito fortificante. Talvez fosse isso o que a arte fazia: por ser solene,
tirava a excitação da vida.
Havia outra evidência de que esse poderia ser o propósito e o
efeito da arte: as entediantes peças de teatro amadoras para as quais os
meus pais me levavam, junto com o meu irmão, uma vez por ano; e os
monótonos programas de discussão sobre artes que eles costumavam
ouvir no rádio. Aos doze ou treze anos, eu era um saudável pequeno
filisteu do tipo como os britânicos são, tão bons em produzir,
apaixonado por esportes e por quadrinhos. Eu não sabia cantar, não
aprendi nenhum instrumento musical, nunca estudei artes na escola e,
além de uma rápida participação em uma cena (sem fala) como um
dos Três Reis Magos, mais ou menos aos sete anos, nunca mais atuei.
Embora tivesse sido introduzido à literatura por meio de minhas
atividades escolares e começasse a perceber como tinha conexões com
a vida real, pensava na literatura principalmente como uma matéria na
qual eu tinha que passar de ano.
Uma vez, fui levado por meus pais à Wallace Collection em
Londres: mais molduras douradas e mais nus sem erotismo. Por
algum tempo, ficamos diante de uma das pinturas mais famosas do
museu: O cavaleiro sorridente, de Frans Hals. Eu não conseguia
entender de jeito nenhum o motivo do sorrisinho daquele homem
com um bigode idiota, ou por que aquela deveria ser uma pintura
interessante. Provavelmente devo ter sido levado à National Gallery
também, mas não tenho nenhuma recordação disso. Apenas a partir
do verão de 1964, quando passei algumas semanas em Paris, entre a
escola e a universidade, foi que comecei a observar pinturas por
vontade própria. E, embora eu tivesse ido ao Louvre, foi, na verdade,
um museu grande, escuro e fora de moda que me causou a impressão
mais forte – talvez porque não houvesse mais ninguém lá, de modo
que eu não sentia nenhuma pressão emulativa para responder de uma
determinada maneira ao que via. O Museu Gustave Moreau, perto da
Gare Saint-Lazare, tinha sido doado ao Estado francês na ocasião da
morte do pintor, em 1898, e – a julgar por seu aspecto sombrio e
desleixado – parecia ter sido conservado com má vontade a partir de
então. No andar de cima, se encontrava o imenso ateliê de Moreau,
alto como um celeiro e precariamente aquecido por um forno preto e
grandalhão que provavelmente estava em funcionamento desde a
época em que o artista era vivo. Pinturas mal iluminadas estavam
penduradas nas paredes, do chão até o teto. Além disso, havia grandes
arcas de madeira com gavetas finas que você podia puxar para
examinar centenas de esboços. Que eu tivesse consciência, nunca
antes vira uma pintura de Moreau e não sabia nada sobre ele (muito
menos que era o único pintor contemporâneo de Flaubert, por quem
este nutria uma profunda admiração). Eu estava inseguro sobre o que
achar daquela obra: exótica, ornamentada e de um brilho obscuro,
com uma estranha mistura de simbolismo privado e público, ao qual
eu tinha dificuldade em dar algum ordenamento. Talvez tenha sido
esse caráter misterioso que me atraiu; e talvez eu admirasse Moreau
especialmente porque ninguém tinha me dito para fazer isso. Mas foi certamente nesse lugar que eu me lembro de, pela primeira vez,
observar pinturas conscientemente, em vez de me encontrar na
presença delas de modo passivo e obediente.
Quimper (Finistère): A ponte florida
Eu também gostava de Moreau porque ele era tão diferente. Nesse
estágio inicial de minha observação, estava atraído pela arte que era o
mais transformadora possível: de fato, eu pensava que era isso o que a
arte era. Você pegava a vida e a transformava, por meio de um
processo secreto, carismático, em outra coisa: relacionada com a vida,
porém mais forte, mais intensa e, de preferência, mais estranha.
Dentre os pintores do passado, fui atraído por artistas como El Greco
e Tintoretto, em função do prolongamento líquido da forma; Bosch e
Brueghel, por seus imaginários fantásticos; Arcimboldo, por suas
engenhosas construções emblemáticas. Quanto aos pintores do século
XX – os modernistas, pelo menos –, eu estava bastante entusiasmado
com todos eles, bastava que transformassem a realidade insípida em
cubos e superfícies, em vórtices viscerais, em jatos intensos, estruturas
inteligentes e construções enigmáticas. Se tivesse conhecido
Apollinaire como algo além de poeta (modernista, portanto
admirável), eu teria aprovado seu elogio ao cubismo por ser uma
reação “nobre” e “necessária” contra a “frivolidade contemporânea”. Quanto à história mais ampla e mais extensa da pintura, eu podia
evidentemente perceber que Dürer, Memling e Mantegna eram
brilhantes, mas tendia a achar que o realismo era um tipo de esquema
padrão para a arte.
Essa era uma abordagem comum e normalmente romântica. Foi
necessária muita observação antes que eu entendesse que o realismo,
longe de ser apenas o campo-base para as grandes aventuras de outros
movimentos artísticos, podia ser tão verdadeiro quanto, e mesmo tão
estranho quanto –, que ele também envolvia escolha, organização e
imaginação, de modo que, à sua maneira, podia ser igualmente
transformador. Eu estava também, lentamente, aprendendo que havia
pintores que você deixava para trás ao amadurecer (como os pré-
rafaelitas); pintores diante dos quais você amadurecia para entrar em
sua obra (Chardin); pintores em relação aos quais você mantinha uma
indiferença suspirante por toda a vida (Greuze); pintores nos quais
você subitamente prestava atenção após anos sem tê-los notado
(Liotard, Hammershoi, Cassatt, Vallotton); pintores seguramente
grandes, mas para os quais sua resposta era sempre um tanto
negligente (Rubens); e pintores que permaneceriam, em qualquer
época das suas vidas, persistentes e indomavelmente grandes (Piero,
Rembrandt, Degas). E então – talvez o avanço mais lento de todos –
eu me permiti acreditar, ou melhor, ver, que nem todo o modernismo
era inteiramente maravilhoso. Que algumas de suas partes eram
melhores que outras; que talvez Picasso pudesse se vangloriar demais,
talvez Miró e Klee pudessem ser afetados, talvez Léger pudesse ser
repetitivo, e assim por diante. Finalmente entendi que o modernismo
tinha forças e fraquezas e uma obsolescência intrínseca, da mesma
maneira com que todos os outros movimentos artísticos. O que, na
verdade, tornou-o mais interessante, ao invés de menos.
Ainda assim, em 1964, eu sabia que ele era o “meu” movimento. E
me sentia afortunado pelo fato de que alguns dos grandes modernistas
ainda estavam vivos. Braque tinha morrido no ano anterior, mas
Picasso, o grande competidor (na vida como na arte), estava por aí; assim como o sofisticado ilusionista Salvador Dalí, e ainda Magritte e
Miró (e Giacometti e Calder e Kokoschka). Enquanto alguns de seus
expoentes continuassem a praticá-lo, o modernismo ainda não podia
ser entregue aos museus e aos acadêmicos. Isso valia para as outras
artes também: em 1964, T. S. Eliot e Ezra Pound estavam vivos; e
também Stravinsky, que cheguei a ver conduzir metade de um
concerto no Royal Festival Hall de Londres. Esse sentido de ter minha
vida (apenas) se justapondo à deles era importante de uma maneira
como eu não reconhecia totalmente na época, porque não tinha
nenhuma noção, até aquele momento, de que me tornaria um escritor.
Mas todo aspirante a qualquer arte na segunda metade do século XX
tinha de levar em conta o modernismo: entendê-lo, digeri-lo, elaborar
o porquê e como ele havia mudado as coisas. E decidir onde isso o
deixava, como um potencial artista, trabalhando após o modernismo.
Você podia (e devia) escolher seguir o seu próprio caminho, mas não
era uma opção simplesmente ignorar o movimento, fingir que ele
nunca tinha existido. Além disso, nos anos 1960, a geração seguinte
tinha feito seu trabalho – havia o pós-modernismo, e o pós-
modernismo tardio, e assim por diante, até que os rótulos acabassem.
Um crítico literário em Nova York chegaria, depois, a me chamar de
“pré-pós-modernista”, um apelido que ainda estou tentando explicar.
Embora eu não estivesse consciente disso naquela época, vejo
agora que a maneira como processei – admirei e fiquei animado com –
o modernismo foi menos por meio da literatura do que das artes
visuais. A jornada para escapar do realismo me parecia mais fácil de
acompanhar em tinta do que impressa. Num museu, você ia de uma
galeria para a seguinte, lendo o que parecia ser uma narrativa clara: de
Courbet a Manet e Monet e Degas a Cézanne, e então a Braque e
Picasso – e você tinha chegado lá! Com a ficção, tudo parecia mais
complicado e menos linear, com mais retrocessos. Se o primeiro
grande romance europeu era Dom Quixote, seus estranhos eventos,
suas artimanhas e sua autoconsciência narrativa também o tornavam
moderno, pós-moderno, realista mágico – tudo de uma vez. De modo similar, se o primeiro grande romance modernista era Ulisses, como é
que as suas melhores partes eram as mais realistas, aquelas que
restituíam de maneira mais verdadeira a vida cotidiana? Eu não
entendia – ainda não conseguia enxergar – que, em todas as artes, há
normalmente duas coisas acontecendo ao mesmo tempo: o desejo de
fazer o novo e um diálogo contínuo com o passado. Todos os grandes
inovadores olham para os anteriores, para aqueles que lhes deram a
permissão para seguir adiante e fazer de outro modo, e as homenagens
a precursores em forma de pintura são um tropo frequente.
Ao mesmo tempo, há progresso, muitas vezes descoordenado,
sempre necessário. Em 2000, a Royal Academy promoveu uma
exposição chamada “1900 – Arte nas encruzilhadas” . Ela exibia um
espectro amplo do que estava sendo admirado e comprado na virada
do século precedente, isso sem quaisquer preferências na disposição
dos quadros ou qualquer avanço em termos de curadoria, e também
sem levar em conta escola, afiliação ou juízo crítico subsequente.
Bouguereau e Lord Leighton encontravam-se lado a lado com Degas e
Munch; o academicismo inerte e a representação tediosa de episódios
ficavam perto das liberdades arejadas do impressionismo; o realismo
diligente e didático, ao lado do intenso expressionismo; sofisticações
levemente pornográficas e representações ingenuamente eróticas,
perto das mais novas e consistentes tentativas de representar o corpo
de modo verdadeiro. Se uma exposição assim tivesse sido organizada
no próprio ano 1900, você poderia imaginar os visitantes aturdidos e
afrontados pela enorme confusão estética diante deles. Ali estava a
atualidade cacofônica, sobreposta, irreconciliável, que posteriormente
seria discutida e planificada na história da arte, com virtudes e vícios
atribuídos, vitória e derrota calculadas, mau gosto repreendido.
Exatamente porque não tinha a intenção deliberada de instruir, essa
exposição ensinou claramente uma coisa: a “imponente necessidade”
do modernismo.
Flaubert acreditava ser impossível explicar uma forma de arte nos
termos de outra e também que as grandes pinturas não exigiam quaisquer palavras de explicação. Braque pensava que a situação ideal
seria alcançada quando não disséssemos nada diante de uma pintura.
Mas estamos muito longe disso. Continuamos a ser criaturas
incorrigivelmente verbais que amam explicar coisas, formar opiniões,
discutir. Basta nos encontrarmos diante de uma pintura e começamos
a tagarelar, cada um a seu modo. Proust, quando percorria uma galeria
de arte, gostava de comentar quem as pessoas nos quadros o
lembravam na vida real; o que pode ter sido um jeito hábil de evitar a
confrontação estética direta. Mas raramente uma pintura nos atordoa
ou nos convence a ponto de nos silenciar. E, se alguma consegue isso,
é apenas por um curto tempo, antes que queiramos explicar e
entender o próprio silêncio no qual fomos mergulhados.
Em 2014, voltei ao Museu Gustave Moreau pela primeira vez em
meio século. Ele era, em grande parte, como a minha memória
continuava a representá-lo: cavernoso, lúgubre e densamente
carregado de pinturas. Aquele velho forno de ferro fundido tinha sido
aposentado e reduzido a uma condição decorativa; e eu tinha
esquecido que Moreau, ao planejar sua casa, tinha concedido a si
mesmo não apenas um, mas dois ateliês gigantescos, um em cima do
outro, ligados por uma escada de ferro fundido em caracol. O museu
permanece obstinadamente no setor menos reputado das atrações
turísticas parisienses. E, nesse meio-tempo, eu havia tomado
conhecimento da opinião que Degas tinha sobre o local. Ele estava
planejando um museu póstumo para si mesmo, mas uma visita à Rue
de la Rochefoucauld o dissuadiu. Ao sair de lá, ele observou: “Como é
realmente sinistro... podia ser um mausoléu de família... Todos
aqueles quadros amontoados me parecem como um Thesaurus ou um
Gradus ad Parnassum.”
Desta vez, parte de mim estava impressionada por quem eu era
quando jovem – por não ter virado as costas e fugido. Tentei insistir
em que meus cinquenta anos de observação extra me permitiam
apreciar Moreau agora melhor que da primeira vez. Mas eu vi de novo
a mesma escala de CinemaScope e o obtuso colorido Technicolor; a mesma repetição temática bem-intencionada, e o solene despropósito
da sexualidade. (Uma vez Moreau perguntou a Degas: “Você
realmente tem a intenção de reavivar a pintura por intermédio da
dança?” Degas replicou: “E você – você realmente tem a intenção de
renová-la por intermédio das joias?”) Apesar de admirar algo da
técnica de Moreau – especialmente a inovação de adicionar contornos
e decoração em tinta preta sobre a superfície pintada –, após umas
duas horas eu ainda estava tentando e fracassando. O Flaubert que
admirava Gustave Moreau era mais o Flaubert de Salammbô do que o
de Madame Bovary. Aquela obra era e tinha permanecido um tipo de
arte livresca: tinha origem no estudo acadêmico, e se tornara um
assunto digno de tais estudos. E parecia nunca ter passado por um
período intermediário em que fosse provida de vida, fogo e excitação.
E, mesmo que antes eu a tivesse achado curiosamente estranha, agora
não a considero suficientemente diferente.
Comecei a escrever sobre arte com um capítulo sobre A balsa da
Medusa, de Géricault, em meu romance Uma história do mundo em 10½
capítulos (1989). Desde então, não segui nenhum plano específico.
Mas descobri, quando estava juntando estas peças, que tinha estado
inconscientemente retraçando a história que começara a ler de modo
provisório nos anos 1960: a história de como a arte (principalmente a
arte francesa) seguiu seu caminho do romantismo para o realismo e
para o modernismo. Os anos intermediários desse período –
aproximadamente de 1850 a 1920 – continuam a me fascinar, como a
época do discurso da verdade retumbante, combinada com um
reexame fundamental das formas da arte. Penso que ainda temos
muito o que aprender dessa época. E, se eu estava certo, quando
garoto, a respeito da insipidez daquele nu que tínhamos em casa,
estava errado em minhas deduções sobre a solenidade da arte. Ela não
só captura e transmite a excitação, o entusiasmo da vida. Às vezes, ela
faz mais do que isso: ela é esse entusiasmo.