Mantendo um olho aberto
Magritte: pássaro dentro do ovo
Magritte não poderia ter tido alguém melhor para descrevê-lo, e
consequentemente melhor defensor, do que David Sylvester (1924-
2001), que escreveu sobre o artista ao longo de quatro décadas e
dedicou todo esse tempo à organização do Catálogo Raisonné.
Sylvester desenvolveu seu trabalho em uma época na qual os
programas televisivos de arte comportavam discussão estética séria (e
os apresentadores tinham permissão até para fumar diante da câmera).
Ele também era amplamente reconhecido como o melhor organizador
de exposições de seu tempo e, em 1992, na Hayward Gallery de
Londres, apresentou a obra de Magritte no espaço físico de maneira
tão sábia e primorosa quanto havia feito antes em texto. Essa foi a
mostra de arte mais brilhantemente montada que eu já vi. Sylvester
converteu em franca virtude o espaço bizarro e repugnante da
Hayward: aquela estética miserável de concreto batido, aqueles
corredores estranhos, setores laterais sem graça e escada
repentinamente apertada foram transformados em algo que parecia
uma versão monstruosa do cérebro de Magritte. Você caminhava em
meio a passagens desconcertantes e sombrias de matéria cinzenta, para
ser confrontado a cada virada de curva com eclosões estelares de ideias
brilhantes.
Os escritos de Sylvester sobre Magritte eram igualmente
exemplares: cuidadosos e perspicazes, extraordinariamente sensíveis a
referências artísticas cruzadas, desprezando jargões e teoria,
extensivamente à vontade com a vida e capazes de acrescentar coisas a
ela a partir dos próprios encontros pessoais do autor com o artista.
Sylvester também evitou graciosamente o grande risco que assombra
qualquer um que tenha passado tanto tempo refletindo sobre o
mesmo artista: o de estar certo demais. Lembro-me de percorrer uma
exposição de Mantegna na Royal Academy e de me deparar com um
grupo de estudantes de arte sendo conduzidos por um monitor. Eles estavam diante do Retrato de um homem (supostamente Carlo de’
Medici), que o responsável pela explicação comparou com o retrato de
Lucian Freud feito por Bacon, acrescentando confiantemente que “é
claro que o objetivo de Mantegna não era o realismo”. Quanto a isso, a
única resposta possível seria: “Tem falado com ele ultimamente,
camarada?” Sylvester, por sua vez, sabia o bastante para saber que
você não pode sempre saber. Deslindando as conexões confusas e
delicadas entre o suicídio por afogamento da mãe de Magritte, a
maneira como isso foi contado a ele, a maneira como ele contou isso
para os outros, o efeito que o acontecimento pode ter tido, e o
consequente surgimento em sua arte de figuras femininas nuas
envolvidas por véus, Sylvester corretamente precedeu suas
observações com um “talvez”. Não fez isso apenas uma vez, mas
constantemente: há um parágrafo no qual seis afirmações consecutivas
são precedidas por seis “talvez”. Pound reclamou com Eliot que o
primeiro esboço de A terra desolada era “cheio demais de talvez”.
Sylvester demonstrou o mérito – raro na crítica de arte – de usar esse
termo.
O poeta, artista surrealista e funcionário público Louis Scutenaire
declarou que seu amigo Magritte tinha “estrangulado a eloquência da
pintura”. Outra maneira de formular isso seria dizer que ele reagiu à
história da arte como um jardineiro paisagístico intimidado, e
sobrecarregado, pelas tentativas imponentes de seus predecessores de
simular a natureza, de induzi-la a suas próprias finalidades enquanto
apreciavam cada outeiro e várzea e que, portanto, decide aplicar o
máximo de ordem: nada além de cascalho, cerca viva e gerânios em
uma superfície inteiramente horizontal sob iluminação artificial. A
arte de Magritte é feita de controle e exclusão: ele usa um ponto de
vista agradavelmente frontal, simetria e planos que se projetam em
paralelo; um acervo deliberadamente reduzido de objetos-imagens, ou
ordinários por si mesmos (cortinas, pássaros, fogo), ou elaborados por
meio da repetição para se tornar ordinários (o bilboquê, os sinos);
planaridade da pintura; e uma maneira imparcial de representar as coisas, de modo que o azul do céu, por exemplo, é sempre
parodicamente claro. Ele rejeita o fantástico e a livre associação em
favor do rigoroso, do argumentado, do sistemático. Trata-se de uma
arte engenhosa, sedutora, autoconsciente, organizada com o que
Sylvester denominava “uma suavidade de representação” e encimada
por títulos consideravelmente provocativos. Como você poderia ser
jovem e deixar de amar Magritte?
Essa maneira de pintar – concentrada, restritiva, icônica – é
projetada para produzir imagens monumentais. Elas são monumentais
independentemente do tamanho da tela. Sabe-se exatamente o que se
está fazendo, o que torna irrelevante reclamar, digamos, do fato de
que, quando você se depara subitamente com as mesmas imagens em
guache, você as considera mais quentes, mais agradáveis, mais dóceis:
a frieza e a planaridade são centrais para a pintura de Magritte. De
modo similar, quando o pintor conta a seu colega surrealista Paul
Nougé, em novembro de 1928, que seu objetivo é produzir “quadros
nos quais o olho precisa ‘pensar’ de uma maneira completamente
diferente da usual”, não adianta observar que “fazer o olho pensar”
parece impedir de “fazer o coração se mover”. É claro que isso
acontece: a obra mais comovente de Magritte foi provavelmente a série
de nus pós-cubistas que ele fez em 1922-3.
Mas esse sistema, esse sistema implacável, produziu uma
quantidade de obras que podemos designar pelo termo inexpressivo
“grandes”: imagens com as quais o espectador fica enervado,
desorientado, perdido; obras nas quais, como Magritte escreveu a de
Chirico, “o espectador pode reconhecer seu próprio isolamento e
ouvir o silêncio do mundo”. Pinturas como Os caçadores da noite, que
encerra e provoca medo em seu estado puro; ou o trovejante Os dias
titânicos (que Sylvester relaciona fascinantemente ao templo de Zeus
em Olímpia), em que o toque mais aterrorizante é um toque mínimo,
o corte no punho da jaqueta do agressor na coxa da mulher – é o
modo inextricável como o homem ocupa o espaço corporal da mulher;
ou a monumental imagem-confecção No limiar da liberdade; ou a astutamente sensual O eternamente óbvio (1930), um agrupamento
vertical de cinco seções separadamente enquadradas de um nu
feminino, que Sylvester habilmente instalou na Hayward em uma sala
pequena isolada, como algum políptico flamengo em uma capela
lateral escondida. Quadros como esses são a grande justificativa do
método. Não faz sentido desejar que seja de outro modo, querendo
que artistas sejam diferentes da identidade que eles passaram tanto
tempo para encontrar; não faz sentido dizer: Oh, se pelo menos ele
tivesse buscado mais textura, ou realmente feito colagem, se tivesse
sido menos esperto, pintado com mais “coração”, ou qualquer coisa
assim. O resultado não apenas teria sido menos magrittiano, mas
também redundaria em uma confusão maior ainda. Já existem artistas
demais por aí sem nenhuma individualidade digna de expressão para
reclamarmos quando um artista “expressa exageradamente” a sua. E,
enquanto estamos nisso, vamos liquidar com a alegação de Magritte,
de 1925, de que, ao usar deliberadamente um estilo banal de pintura e
lidar com coisas já prontas, ele estava se recusando a ter indulgência,
do ponto de vista artístico, com “as predileções menores de um
indivíduo”. Talvez ele pensasse assim naquela época, mas, quando um
artista escolhe ser “objetivo” em vez de “subjetivo”, exatamente a
maneira de escolher pode resultar em uma subjetividade igualmente
densa e pungente. Nenhum conjunto de obras na arte do século XX é
tão individual e imitável quanto o de Magritte; nenhum depende
tanto do reuso consistente de imagens que são uma marca registrada.
Explicando seu processo criativo na conferência “La Ligne de
Vie”, é célebre a descrição que Magritte faz de como ele acordou certa
noite e, em um “esplêndido equívoco”, imaginou que o canário de sua
esposa Georgette tinha sido substituído na gaiola por um ovo. Daí
(embora “daí” seja sempre um resumo brutal) a doutrina das
“afinidades eletivas”, o “novo e surpreendente segredo poético”, a
virada do método surrealista de contrapor objetos completamente sem
relação para o método magrittiano de contrapor objetos sutilmente (às
vezes nem tão sutilmente) relacionados. Ou, como Magritte afirma:
Estamos familiarizados com a imagem de um pássaro na gaiola;
o interesse é amplificado se o pássaro é substituído por um peixe
ou um sapato; mas, embora essas imagens possam ser intrigantes,
elas são desafortunadamente acidentais, arbitrárias. É possível
encontrar uma nova imagem que vá opor-se ao exame por meio de
seu caráter definitivo, preciso: essa é a imagem que mostra um ovo
na gaiola.
Assim, temos As afinidades eletivas, de 1933. A pintura tem como
foco uma gaiola de passarinho, seu suporte com o formato de um
bilboquê; dentro do suporte se encontra pendurada a gaiola;
preenchendo a gaiola quase completamente encontra-se um ovo
colossal, impossível de ter sido posto. O quadro é predominantemente
cinza, com um resplendor de branco no ovo, talvez para indicar o
futuro que ele encerra. Ora, podemos comentar sobre o tamanho
perturbador do ovo; podemos refletir que ovo e gaiola são ambos, de
diferentes modos, como Nougé afirma, “imagens de confinamento”;
podemos acrescentar que os bilboquês do suporte adicionam uma
camada extra de confinamento (assim como o ambiente cinza em
torno e a própria moldura do quadro). Certamente se trata de uma
imagem perturbadora, ao mesmo tempo suave e sombria. Mas será
que ela “se opõe ao exame”? Quando tudo está dito e feito, a coisa
primária e final acerca de As afinidades eletivas é o fato de que, em vez
de um pássaro em uma gaiola, Magritte pintou um ovo em uma
gaiola. O que dificilmente chega a ser um salto conceitual
surpreendente. Isso também deveria nos lembrar que nossas
brilhantes descobertas feitas durante a noite costumam se revelar, na
luz pouco lisonjeira da manhã, menos notáveis do que pareceram
então.
As afinidades eletivas por Magritte
Um caso similar é o do autorretrato A clarividência (1936). Aqui,
um Magritte reconhecível senta-se diante do cavalete, paleta na mão;
ele olha para um ovo à sua esquerda, posicionado em uma mesa
coberta por uma toalha marrom, enquanto termina, com a sua mão
direita, de pintar um pássaro, suas asas abertas, elevando-se em
triunfo contra um fundo bege. Trata-se de uma imagem nítida e
vívida, prazerosa à primeira vista. Mas, embora possamos fazer
alguma coisa com o fato de que o pintor está olhando para o objeto e
não para a tela na qual está trabalhando, como uma imagem da
transformação artística A clarividência não nos leva muito longe. O
artista pode transformar o ovo em um pássaro; bem, a natureza faz
isso todos os dias, em viveiros ao redor do mundo. Ah, mas o artista
apenas olha para o ovo a fim de transfigurá-lo. De novo, não é nada de
mais: conheço alguém que não pode passar de carro por um campo
cheio de carneiros sem dizer “Jantar” e imaginar uma bandeja com cordeiro assado, ele alega simplesmente que está com fome, e não que
é um magrittiano. O problema de ser um pintor de “ideias” em vez
de, digamos, um esteticista burguês do tipo desprezado por Magritte,
é que qualquer ideia que não chegue a ser brilhante parece, na tela,
mais exposta do que um esboço “estético” nem-tão-brilhante.
A clarividência por Magritte
Quando a fábrica de ideias está simplesmente em rápida produção,
Magritte faz pensar na reclamação do dr. Johnson sobre A viagem de
Gulliver: “Quando você já chegou a pensar em homens grandes e em
homens pequenos, é fácil fazer o resto.” Contudo, longe das suas
preocupações mais programáticas, Magritte é também um ótimo e
caprichoso pintor cômico, com boas piadas e improvisos. Ele é
jocosamente um adepto da “indústria cottage” – como Sylvester a
designou – do objeto surrealista, com suas máscaras bem-humoradas e
seus rótulos de vinho pintados (o “raro Picasso vintage envelhecido” é um trocadilho elegante sobre o esnobismo conjunto da enofilia e do
colecionismo de arte). Os títulos de suas pinturas – na verdade, todo o
processo de dar títulos, com camaradas surrealistas fazendo ruídos
com a boca e os pronunciando – podem parecer excessivamente
cuidadosos, senão pomposos, da mesma maneira com que sua série
“Usos da fala” (como, por exemplo, Isto não é um cachimbo), seu plano
de “encontrar novas palavras para objetos”, parece concebido de modo
equivocado, ou pelo menos bastante inconsistente. A principal objeção
é a de que se trata de um projeto literário, mais do que pictórico: o
que nos dá a breve surpresa é o ato de dar nome, mais do que a
representação do objeto com o nome trocado. Assim, tendemos a
reagir com: “Oh, ele está chamando um chapéu-coco de La Neige”, em
vez de: “Oh, então essa é a verdadeira aparência da neve, ou é assim
que a neve pode ser levada a parecer.” Mas a nossa reação pode ser
confundida pela ubiquidade com a qual as imagens de Magritte foram
convertidas em commodities. “Isto não é alguma coisa” se tornou faz
tempo um tópico de escritores de manchetes e de publicitários.
Recentemente, recebi os primeiros volumes da nova tradução dos
romances de Maigret, feitas pelo companheiro belga de Magritte,
Georges Simenon. A capa da brochura de publicidade tem um
desenho de um cachimbo magrittiano-maigretiano, o nome de
Simenon e, embaixo, o bordão “Eu não sou Maigret”. Quanto àquelas
garrafas de vinho pintadas: elas já são há várias décadas o logotipo de
um vendedor de vinhos londrino. [5]
Então há o período de guerra do impressionismo, ou o que
Sylvester chama de “Surrealismo iluminado pelo sol”. Magritte
deixou várias explicações acerca de seu vistoso renoirismo. Ele disse
que, se a escuridão e o pânico eram o que você queria, os surrealistas
poderiam guardar suas tendas com o advento da versão em vida real
dos nazistas; ele disse que, contra o pessimismo geral, conduzia “a
busca pela alegria e pelo prazer”; e, finalmente (em uma carta para
Éluard de 1941), afirmou que queria “explorar o ‘lado bom’ da vida.
Com isso, me refiro a toda a parafernália tradicional de coisas graciosas, mulheres, flores, pássaros, árvores, a atmosfera de felicidade
etc.”. É difícil não considerar maliciosa a primeira parte disso: vamos
pintar ameaça e medo e desorientação até que a coisa real surja, e
então vamos recuar para o modo como o mundo não é. Quanto ao
apelo, feito de Bruxelas durante a guerra, em favor do “lado bom”,
esse pré-eco da canção de crucificação em A vida de Brian não é uma
resposta mais convincente às circunstâncias nas quais uma pessoa se
encontra. Talvez a fase impressionista possa ser um exemplo de
menopausa artística masculina, induzida pelo controle extremo dos
métodos de trabalho de Magritte. Se você é famoso por não ficar com
nenhuma tinta em suas roupas, talvez a tentação de meia-idade por
um jorro de tinta mais solto pareça irrefletidamente poderosa. De
modo mais abrangente, não é verdade que os pintores, como outros
artistas, costumam chegar a se ressentir do que eles fazem melhor?
Boudin ficou enfastiado de ser elogiado por suas pequenas cenas de
praia com figuras grupais. Se o período pós-guerra fauve ou vache de
Magritte foi, como sustenta Sylvester, um Foda-se para o mercado de
arte de Paris, talvez seu período impressionista tenha sido um Foda-se
para si mesmo. Ele tinha um temperamento sarcástico, irônico, e
naturezas assim têm a inclinação para se punir ou para escarnecer de si
próprios.
Sylvester aprecia ambos os períodos e indica com razão que, se
eles oferecem o que parecem ser variações perniciosas de estilo (que
eram odiadas pelos parceiros e pelos amigos de Magritte), eles não
representam um abandono de sua atitude geral em relação ao estilo.
Essa atitude era essencialmente uma oposição ao estilo em nome da
arte, e ao estilo como uma ego trip para o artista de elite. Todos os
pintores deveriam ter a sorte de encontrar um apreciador tão lúcido de
sua obra quanto David Sylvester. A frase final de sua monografia, de
1992, descreve perfeitamente o efeito que os Magrittes mais poderosos
ainda têm sobre nós: eles induzem “o tipo de reverência sentido em
presença de um eclipse”.
5. E como o dono da empresa é também um dos donos do Crystal Palace
Football Club, os fãs que estiverem no terraço do Selhurst Park podem olhar para baixo e ver garrafas de vinho de Magritte decorando os telhados do local que abriga os jogadores. Trata-se de um pequeno deslocamento que você não pode evitar de pensar que o pintor teria aprovado.