Mantendo um olho aberto
Delacroix: como assim, romântico?
Em 1937, o crítico de arte americano Walter Pach editou e
traduziu a primeira versão em língua inglesa do Diário, de Delacroix.
Em sua introdução, recordou uma história a ele contada décadas antes
por Odilon Redon. Em 1861, o jovem Redon, vindo de Bordeaux,
mas ainda desconhecido, tinha ido a um baile parisiense com seu
irmão músico Ernest. Quando apresentados a Delacroix, os dois quase
não ousaram falar e, em vez disso, o seguiram à volta do salão “de
grupo em grupo, a fim de ouvir cada palavra que ele dissesse”.
Homens e mulheres famosos silenciavam com a aproximação do
pintor que, embora não fosse bonito, portava-se como “um príncipe”.
Quando Delacroix deixou o baile, os dois Redons continuaram a
segui-lo.
Andamos atrás dele pelas ruas. Ele ia devagar e parecia estar
meditando, então mantivemos certa distância para não o perturbar.
Tinha chovido, e eu me lembro de como ele andava com cuidado
para evitar os lugares molhados. Mas, quando ele chegou à casa na
Margem Direita em que vivera por tantos anos, pareceu se dar
conta de que tinha seguido o caminho até ali por hábito e fez a
volta e andou, ainda devagar e pensativamente, atravessando a
cidade e o rio, até a Rue de Furstenberg, onde iria morrer dois
anos depois.
O próprio Redon, em sua miscelânea póstuma à soi-même, também
fez um relato do incidente, que ele datou de 1859. Embora em teoria
mais autêntica, essa versão dá a impressão de ter sido mais elaborada.
Assim, em vez de os dois jovens terem sido simplesmente
apresentados a Delacroix, Ernest aponta “por instinto” o grande
pintor. Os dois rapazes se preparam para ele, enquanto: Ele vira os
olhos para nós, única olhada que atingiu com mais intensidade do que
a luz do candelabro. Ele era muito distinto. Tinha a grand’croix na
parte direita de seu colarinho e, de tempos em tempos, baixava os olhos para ela. Estava acompanhado por Auber, que o apresentou a
uma princesa Bonaparte muito jovem, “ansiosa”, disse Auber, “para
ver um grande artista”. Ele teve um arrepio, inclinou-se sorrindo e
disse: “Como pode ver, ele não é tão grande.”
O relato de Redon torna Delacroix tanto o mito heroico que a
imaginação do jovem requeria quanto o ser humano comum que
desperta nossa simpatia. Assim: “Quando vi Delacroix... ele era
esplêndido como um tigre; o mesmo orgulho, a mesma classe, a
mesma força.” Contudo, ao mesmo tempo, ele tinha “ombros caídos,
postura curvada” e “era de altura mediana, magro e tenso”.
Atravessando sozinho a Paris noturna, o artista estava “andando como
um gato nas calçadas mais estreitas”. E então este momento, ausente
da versão que Redon contou a Pach – talvez porque parecesse bom
demais para ser verdade: Um pôster no qual estava escrito “Tableaux”
(“Quadros”) atraiu seu olhar; ele se aproximou, leu e foi embora com
seu sonho – eu diria, com sua obsessão.
A história era obviamente uma das cenas criadas por Redon, e
talvez exista em outras fontes com variações. Mas, apesar disso, ela
contém muito de Delacroix: orgulho e insegurança, sucesso social e
solidão, uma presença intensa e um jeito sonhador, um amor pelas
honrarias e certa modéstia, uma habilidade felina para lidar com Paris
e um ar perdido. E, embora os fãs pudessem perseguir essa grande
figura romântica, o próprio artista tinha poucos seguidores. Ele
chegava, atuava e saía para caminhar sozinho pelas ruas úmidas.
Delacroix tinha 24 anos quando começou o Diário, no dia 3 de
setembro de 1822. Ele começa com uma simples declaração e uma
promessa fascinante: Estou levando adiante meu plano, arquitetado
tantas vezes, de manter um diário. O que desejo com mais ardor é não
esquecer que estou escrevendo para mim mesmo. Desse modo, devo
sempre dizer a verdade, espero, e assim devo me aprimorar. Estas
páginas vão me repreender por minhas mudanças de ideia. Estou
começando com bom humor.
Você praticamente pode entender por que algumas pessoas
acreditam que todos os diários privados têm, em certo grau, a intenção
de ser lidos por outros. Apesar do caráter excludente da segunda
sentença, o parágrafo citado como um todo nos convida a entrar nele.
Se isso fosse um romance, o gancho narrativo já estaria inserido: nós
queremos e precisamos saber se o autor do diário de fato conta a
verdade, se ele se aprimora como um resultado, se ele muda de ideia, e
se o seu bom humor inicial se dissipa ou não. Além de tudo isso,
Delacroix escolheu um dia particularmente auspicioso para começar a
escrever, um que o comanda e nos permite olhar tanto para o passado
– é o aniversário de morte de sua mãe –, quanto para o futuro: sua
primeira pintura importante, Dante e Virgílio, acabara de ser comprada
pelo governo francês e se encontrava nas paredes do Luxembourg.
Além disso, seu coração havia se empolgado recentemente por uma
garota – de algum modo é inevitável que ela se chame Lisette – que
tem “uma qualidade que Rafael entendia tão bem: braços como
bronze e uma forma ao mesmo tempo delicada e robusta”. Ele a
beijou pela primeira vez, em alguma passagem escura da casa, após
retornar da vila pelo jardim. Como pode o Diário não se tornar um
conto stendhaliano de amor e ambição, principalmente se
considerarmos as origens novelisticamente misteriosas do herói-
pintor? (Há rumores, mesmo durante sua vida, de que Delacroix era
filho natural de Talleyrand.) Mas, se as expectativas de Lisette
estavam para ser desapontadas – seu jovem perseguidor já sonhava
olhar para trás e vê-la do futuro como “uma adorável flor na estrada
da vida em minha memória” –, assim também pode acontecer com as
expectativas de seus leitores. O Diário é um dos grandes documentos
artísticos do século XIX. Mas não é, de modo algum, o que você
poderia esperar – ou o que aqueles que se aprofundaram nas suas
várias versões resumidas poderiam considerar. Para começar, logo no
início, ele contém uma grande lacuna, de 1824 a 1847, de modo que o
autor do diário salta de seus vinte e poucos anos para seus quarenta e
tantos. Além disso, e de modo mais revelador, aquela esperada narrativa stendhaliana não se desdobra. A vida romântica do artista
acaba por não ser especialmente romântica. Por mais que Delacroix
admirasse Byron, ele não imitou as paixões e transgressões do inglês.
Com exceção de sua viagem formativa para Marrocos em 1832, ele
raramente deixava Paris; não chegou nem mesmo a ir para a Itália,
como tantos de seus colegas o fizeram para admirar os originais das
obras que conheciam apenas em reprodução. E, embora ele tivesse
envolvimentos sexuais, não há grandes amores para serem dissecados e
celebrados. Ele considerava que o amor consumia tempo e, apesar de
se iludir brevemente com o sonho de uma esposa que poderia ser
como ele, ou mesmo superior a ele, logo se acomodou na
complacência de que “uma mulher é apenas uma mulher, sempre
basicamente muito semelhante à próxima”. Delacroix conhecia bem –
e em parte escolheu – “essa inevitável solidão à qual nossos corações
estão condenados”, mas reconhecia suas vantagens artísticas: “coisas
que você experimenta quando está sozinho são muito mais fortes e
mais autênticas.” Então ele encarou o mundo com uma cortesia fria
requintada. Depois de apenas um ano dedicado ao hábito de manter
um diário, ele escreve sobre isso como “uma maneira de acalmar as
emoções que tinham me inquietado por tanto tempo”. O diário era
sobre autodomínio, e o propósito do autodomínio era o de se tornar
um grande artista da melhor maneira. As Lisettes desse mundo não
tinham chance alguma contra essa paixão dominante. “Não
negligencie nada que vai torná-lo grande”, era o conselho de Stendhal;
enquanto o próprio pintor anotou a opinião de Voltaire de que a
preguiça é um sinal da mediocridade.
A balsa da Medusa por Géricault.
Detalhe mostrando a figura de bruços para a
qual Delacroix serviu de modelo Assim, embora
o Diário contenha algo que podíamos esperar,
ele também serviu para várias outras coisas:
diário de trabalho, caderno de viagem,
apontamento para a proposta de um
Dictionnaire des Beaux-Arts, auxílio de
memória, arquivo de cartas enviadas, antologia,
agenda de endereços, e assim por diante; há
tabelas de horários de trens e ônibus junto com
recortes de jornal e receitas. Delacroix não
deixou quaisquer instruções testamentárias
sobre esses “écrits intimes”. Em 1853, ele havia
permitido que seu amigo Théophile Silvestre
visse o manuscrito e publicasse alguns extratos; entretanto, sabemos que ele não queria o Diário
publicado em vida (ou durante a vida daqueles
sobre os quais ele havia escrito comentários descorteses). Além disso, sua governanta de
longa data, Jenny Le Guillou, alegou que o
pintor tentara queimar o manuscrito poucos
dias antes de sua morte, mas que ela o salvara
das chamas. Michèle Hannoosh, introduzindo a
primeira nova edição francesa do Diário desde
1932, descreve como paira uma “perfeita
ambiguidade” sobre as intenções de Delacroix.
Nem os limites da própria “obra” estão claros, de
modo algum. Editores anteriores escolheram
priorizar certos volumes de notas em
detrimento de outros, com o objetivo de
publicar algo que se parecesse mais com o que
poderíamos chamar de um diário – embora haja
poucas evidências de que Delacroix estivesse
mais interessado nas anotações que fazem parte do corpo principal do que naquelas relegadas ao
apêndice. Hannoosh o classifica como “um documento extraordinariamente complexo,
híbrido, caótico e labiríntico”. O artista admitia
que o escrevia “às pressas”, usando qualquer
pedaço de papel ou caderno que estivesse à
mão; de modo que a progressão narrativa e
mesmo a ordem cronológica são
frequentemente perdidas. Ele retorna a esse
texto e o corrige, ou acrescenta coisas a ele; às
vezes há múltiplos registros reunidos sob a
mesma data. Em algumas sessões, o texto parece
menos um diário do que um rascunho bruto de
trabalho para algo mais parecido com os Ensaios
de Montaigne ou com o Dicionário filosófico de
Voltaire, obras que Delacroix admirava muito.
Walter Pach, embora alegue trinta anos de
devoção ao “grande artista”, não ficou nem um
pouco arrependido ou embaraçado em cortar
“páginas de refugos” para a primeira publicação em língua inglesa: Conheci apenas umas poucas
pessoas que até chegaram a tentar passar pelos
três sólidos volumes das edições francesas. A
maioria daqueles que tentaram ler a famosa
obra, quaisquer que fossem suas intenções,
desistiram após se debater em meio a alusões a pessoas definitivamente esquecidas, em meio a
páginas com a contabilidade das despesas... e
em meio a listas intermináveis de cores – dados
a partir dos quais os assistentes do mestre
trabalhavam nas grandes decorações –, mas sem
nenhuma utilidade para artistas hoje em dia,
quando Delacroix não está mais disponível para
orientar a proporção de cores usadas em uma
combinação ou outra.
Michèle Hannoosh expandiu muito aqueles “três sólidos volumes”
em sua edição de 2010 do Diário. Os manuscritos originais foram
inteiramente reexaminados, nova documentação de apoio foi
acrescentada, enquanto notas suntuosas foram empurrando o texto
original cada vez mais para o alto da página, à medida que aquelas
“pessoas permanentemente esquecidas” ganham uma temporária vida
renovada e aquelas “intermináveis listas de cores” são recuperadas.
Trata-se de uma peça prodigiosa de trabalho editorial, que pode deixar
toda uma nova geração de leitores se debatendo, e alguns deles citando
a anotação de 1857 de Delacroix “Extensão demais em um livro é um
defeito capital”. Mas essa versão assustadoramente completa está a
serviço daqueles que estão interessados não só nas histórias e nas
opiniões e no autorretrato, mas em tudo aquilo em que o próprio
artista está interessado, incluindo toda a necessária labuta e fadiga
profissional. A leitura do Diário completo pode ser exaustiva às vezes,
mas leva você para muito mais perto da verdade cotidiana acerca da
vida do artista.
E, quanto mais verdade você consegue, se torna mais difícil
classificar Delacroix. Ele pertencia àquela geração de românticos
franceses que foram inspirados por Shakespeare e Byron, Scott e
Goethe; contudo também se manteve próximo a Voltaire como um
modelo. Ele parece compartilhar uma afinidade com Berlioz e
Stendhal, contudo é frequentemente duro, no Diário, a respeito do
compositor “insupportable” cuja obra era tão desleixada quanto a de
Alexandre Dumas, e cuja Danação de Fausto é “uma confusão
heroica”. E, embora Stendhal tenha sido um dos primeiros a
reconhecer Delacroix, se referindo a ele como “um pupilo de
Tintoretto” em 1824, esse foi justamente o ano em que Delacroix
escreveu em seu diário que “Stendhal é grosseiro, arrogante quando
tem razão e muitas vezes disparatado”. Ao contrário de Berlioz, Delacroix não saúda Beethoven como o grande libertador musical; ele
o admira, às vezes intensamente, mas também o considera cansativo e
desigual, preferindo Mozart, que “respira a calma de um período bem
ordenado”. Como muitos dos que são marcantemente originais em
sua própria arte, ele é menos inclinado a aceitar as novas formas e
métodos nas outras artes: assim ele tem uma desconfiança instintiva
de Wagner – sem ter ouvido uma nota sequer de sua música –, com a
alegação de que o compositor quer ser “inovador” tanto na música
quanto na política. “Ele pensa que alcançou a verdade; ele suprime
muitas das convenções da música, acreditando que convenções não se
baseiam em leis naturais.” (Ironicamente, Nietzsche concluiria mais
tarde, no decorrer de uma avaliação muito negativa, que “Delacroix é
uma espécie de Wagner”.) Também não há nenhuma fácil associação
normal, como ocorre com outros artistas românticos, entre a arte e a
vida. A arte de Delacroix fala de extravagância, paixão, violência,
excesso; contudo, sua vida era a de um homem reservado que temia a
paixão e valorizava acima de tudo a tranquilidade, esperando e
acreditando que o homem estava “destinado a descobrir que a calma
se encontra acima de tudo”. Ele se qualifica como um dândi, não pela
aparência exterior, mas pela superioridade interior de espírito. Ele era,
nas palavras de Anita Brookner, “talvez a mais glamorosa
personalidade artística desde Rubens”; mas era também (ainda nas
palavras dela) de um “temperamento melindroso e um tanto avaro” e
“um recluso e um ascético” em tudo, menos em sua imaginação
pictórica. Ele não gostava de voluptuosidades e desconfiava da
“luxúria apavorante” à vista no salão do demi-mondaine La Païva, cujos
jantares o deixavam “sentindo-se ainda pesado na manhã seguinte”.
Faltava-lhe o otimismo romântico, pois acreditava que as artes tinham
estado em uma “decadência perpétua” desde o século XVI, quando
todos os grandes problemas da pintura tinham sido resolvidos.
Também não gostava da maneira como aqueles que com ele se
alinharam listaram-no no círculo romântico “quer eu o fizesse ou
não”. Quando alguém, tentando bajulá-lo, o louvava como “O Victor Hugo da pintura”, ele respondia friamente: “Você está enganado,
Monsieur, eu sou puramente um artista clássico.” Embora sua pintura
mais popular fosse provavelmente Liberdade guiando o povo (que
muitos hoje em dia leem de modo equivocado como referida a 1789
em vez de 1830), seus instintos criadores eram em geral reacionários.
Ele julgava o ser humano um “animal ignóbil e horrível”, cuja
condição natural era a mediocridade. Pensava que a liberdade existia
apenas em meio a indivíduos superiores, não entre as massas.
Desaprovava as máquinas agrícolas porque sua introdução poderia
oferecer aos camponeses ociosidade demais (embora uma de suas
regras profissionais, como relatada por Redon, fosse “Descanse com
frequência”). Como Flaubert e Ruskin, ele odiava estradas de ferro e
imaginava de modo pessimista que o futuro conteria “um mundo de
corretores”, com cidades cheias de ex-camponeses checando suas
ações e possessões, “gado humano engordado por filósofos”. Julgava o
sentimentalismo um grande defeito, e o humanitarismo um defeito
maior ainda (isso vindo de um homem que adorava George Sand). Há
momentos em que parece sensato considerá-lo não como um
romântico, de modo algum, mas como uma grande explosão
inflamada acontecendo ao mesmo tempo que o romantismo.
E Delacroix é sempre surpreendente. Ele admirava a obra de
Holman Hunt. Considerava as mulheres de Périgueux mais bonitas do
que as de Paris. Alegava que se divertia tanto falando com “imbecis”
quanto com “homens do pensamento”. Estava convencido (e isso era
uma “blasfêmia” para a sua época) de que Rembrandt era um “pintor
muito melhor do que Rafael”. Em 1851, se tornou um membro
fundador da Société héliographique – a primeira sociedade erudita a se
dedicar à fotografia – e, portanto, um dos primeiros pintores a levarem
em consideração os processos e as prováveis consequências da nova
arte. Ele não era um daqueles que acreditavam que “A partir de hoje a
pintura está morta”. Em maio de 1853, examinou uma série de
fotografias que Eugène Durieu fez de modelos nus, “algumas delas
mal construídas, exageradamente desenvolvidas em certas partes e produzindo um efeito desagradável”. Mas então ele compara essa
evidência viva com algumas gravuras de Marcantonio, que produzem
um “efeito de repulsão, quase náusea, à sua incorreção, seu
maneirismo e sua falta de naturalidade”. Os benefícios da fotografia
não são, todavia, diretos: por um lado, Delacroix acredita que “um
homem de gênio” pode usar o daguerreótipo para “elevar-se a uma
altura que não conhecemos”; mas, no momento, essa “arte-máquina”
só conseguiu “estragar obras-primas”, sem nos “satisfazer
completamente”. No ano seguinte, contudo, em agosto, ele voltou a
fazer desenhos a partir dos daguerreótipos de Durieu, e em outubro
de 1855 ele é muito menos ambíguo, examinando “com paixão e
infatigavelmente aquelas fotografias de homens nus, aquele admirável
poema, aquele corpo humano a partir do qual estou aprendendo a
ler”.
Ao lado dessa mente aberta, corria um grande medo de se prender
– seja artística ou pessoalmente – e um medo ainda maior de ser preso.
Ele se permitiu gostar de Jenny Le Guillou e apreciava sua devoção a
ele, sem dúvida porque essas emoções eram calmas e tranquilizadoras.
No entanto, apesar de não querer se comprometer com ninguém, ele
também queria aquela grand’croix em torno do seu pescoço. E, assim
como no caso de tantos outros artistas e escritores franceses originais,
a rejeição repetida do instituto apenas aumentou a sua determinação
em pertencer a ele (foi finalmente eleito na oitava tentativa, em 1857).
Baudelaire ficava perplexo com tal conformismo e, em uma carta a
Sainte-Beuve três anos depois da morte de Delacroix, relembrou ter
pedido ao pintor para justificar essa “persistência obstinada”, quando
“muitas pessoas jovens prefeririam vê-lo como um pária e um
rebelde”. Delacroix respondera: Meu caro senhor, se o meu braço
direito ficasse paralisado, ser membro do Instituto me daria o direito
de ensinar, e, levando em conta que eu ainda estava bastante bem de
saúde, o Instituto serviria para pagar o meu café e os meus cigarros.
Essa é uma reminiscência de nossos cavalheiros e fidalgos
artísticos contemporâneos que, com simulado automenosprezo, explicam que o ponto principal de uma honraria é o fato de ela tornar
mais fácil fazer reservas em restaurantes.
Homenagem a Delacroix por Fantin-Latour.
Detalhe mostrando, a partir da esquerda,
Whistler, o romancista Champfleury e Manet Ao
mesmo tempo – e há uma porção de “ao mesmo
tempo” com Delacroix –, o pintor não desejava
ser visto como “um pária e um rebelde”. Era assim que Baudelaire queria que as pessoas
jovens o vissem, e muito da relação complicada
entre os dois consistia nessa busca de Baudelaire
de cooptar Delacroix e na recusa deste de ser
cooptado. Havia certo melindre de sua parte,
mas também um orgulho que exigia o louvor
pelas razões corretas. Baudelaire pode ter
exagerado no elogio ao considerá-lo
“enfaticamente o pintor mais original da
antiguidade e da modernidade”, mas o poeta também procurava impingir sobre o pintor o
que Brookner chamou de “sua estampa imortal e
mórbida”. Delacroix não queria A morte de
S ardanápalo ou As mulheres de Argel
interpretados de acordo com as desconcertantes
necessidades do temperamento particular de
Baudelaire. De forma reveladora, há poucas
referências a Baudelaire no Diário, e a maior
parte delas parece ser, à primeira vista, prosaica,
até mesmo calma: O sr. Baudelaire entrou
quando eu estava começando a trabalhar
novamente em uma pequena figura de uma
mulher com roupas orientais deitada em um
sofá, encomendada por Thomas da rue du Bac.
Ele me contou sobre as dificuldades que
Daumier teve com acabamentos. Ele passou a
Proudhon, que admira e chama de ídolo do
povo. Suas visões parecem ser o que há de mais
moderno, e em geral na linha progressista.
Continuei com a pequena figura após sua
partida, e então retornei para as Mulheres de
Argel.
Trata-se do equivalente literário da figura felina no pavimento
estreito, mantendo o equilíbrio perfeito. O crítico vem ver o artista.
Ele fala disso e daquilo. Ele é moderno e progressista; o artista, não. O
crítico vai embora, e o artista retorna a seu trabalho, primeiro na
“pequena figura”, depois na obra-prima.
Walter Pach pode ter cortado aquelas “intermináveis listas de
cores” da edição em língua inglesa, mas era a essas cores e suas
limitadas variações que Delacroix dedicou sua vida. Maxime Du
Camp, em sua obra Souvenirs littéraires, lembrou o artista sentado certa
noite perto de uma mesa na qual se encontrava uma cesta cheia de
novelos de lã. Ele ficou pegando os novelos, agrupando-os,
arrumando-os com fios cruzados, separando-os pelo tom e
produzindo extraordinários efeitos de cor. Também me lembro de tê-
lo ouvido dizer “Alguns dos melhores quadros que vi são certos
tapetes persas”.
A arte francesa no século XIX era, em termos amplos, uma
batalha entre cor e linha. Então, uma razão adicional para Delacroix
querer a sanção do Instituto era a de que, em uma sociedade na qual
as artes sempre haviam sido muito politizadas, isso endossaria
oficialmente seu tipo de pintura. No início do século, a linha havia
predominado por meio de David e sua escola; no final do século, a cor
triunfaria por meio do impressionismo; entre os dois momentos, o
meio do século foi tomado por um combate entre o campeão da linha
e o campeão da cor (no córner quadrado, Ingres; no córner redondo,
Delacroix). E essa confrontação não se dava sempre em tom elevado:
certa vez, depois que Delacroix havia visitado o Louvre, Ingres
propositalmente fez com que se abrissem as janelas para dispersar “o
cheiro de enxofre”. Du Camp conta a história de um banqueiro que,
inocente quanto à política artística, acabou equivocadamente
convidando ambos os pintores para jantar na mesma noite. Depois de
muitos olhares furiosos, Ingres não podia mais se conter. Com a xícara
de café na mão, abordou seu rival perto de uma lareira. “Senhor!”, ele
declarou, “Desenho significa honestidade! Desenho significa honra!”
Ficando colérico demais diante da frieza de Delacroix, Ingres
derramou seu café em sua própria camisa e em seu colete, então
apanhou seu chapéu e se dirigiu à porta, de onde se virou e repetiu:
“Sim, senhor! É honra! É honestidade!”
Da posição confortável da posteridade, podemos declarar ambos
como praticantes da honra e da honestidade, e algumas vezes mais
próximos entre si do que eles poderiam aguentar ou reconhecer.
Ambos basearam seu trabalho no dos Grandes Mestres; ambos
acreditavam que as “convenções estão baseadas em leis naturais” e
recorriam à literatura e à Bíblia em busca de temas. Nos murais e tetos
que Delacroix pintou em edifícios públicos ao longo de sua vida de
trabalho – de Orfeu levando a civilização ou Virgílio apresentando Dante a
Homero a Jacó lutando com o anjo e Heliodoro expulso do templo –, não são
só os títulos que sugerem o fato de que os dois rivais estavam se
aproximando de verdades e de declarações similares, meramente por caminhos diferentes. Na época, porém, sua contenda parecia ser tanto
vital quanto mortal: uma forma de alta seriedade pereceria e a outra
sobreviveria. Se a cor oferecia o apelo imediato – vigor, movimento,
paixão, vida –, esta era também a sua desvantagem tática. Delacroix
escreveu de maneira sarcástica em seu Diário no dia 4 de janeiro de
1857: Bem sei que o título de colorista é mais um obstáculo do que
uma recomendação... A opinião é a de que um colorista se ocupa
apenas com as fases inferiores e, por assim dizer, terrenas, da pintura:
de que um belo desenho é mais belo quando acompanhado de uma
cor tediosa, e que a função principal da cor é distrair a atenção da
qualidade mais sublime, que pode passar bem facilmente sem
qualquer prestígio que a cor possa dar.
Por outro lado, como ele indica em uma das notas para seu
Dictionnaire, a “superioridade” da cor, “ou a sua excelência, se você
preferir”, vem de seu efeito sobre a imaginação. Em um Delacroix, a
cor lidera: ela dirige o olho e o coração antes que a mente aborde
questões de linha e de tema. Olhando para trás a partir do final do
século XIX, quando a cor pareceu triunfar (antes de o cubismo
restaurar a primazia da linha), Odilon Redon escreveu sobre o fato de
Delacroix encontrar “seu verdadeiro caminho, que é a cor expressiva,
a cor que se pode chamar de cor moral”. Isso, de acordo com Redon,
constitui um novo aumento das apostas: “Veneza, Parma, Verona
viram a cor apenas a partir do lado material. Delacroix toca na cor
moral; é essa a sua oeuvre e é esse o seu legado para a posteridade.”
Quando estava em seu leito de morte, com 65 anos, Delacroix
lamentou o fato de ainda ter quarenta anos de trabalho dentro de si.
Para a posteridade, ele diversas vezes expressa o desejo esperançoso de
que pudesse ter a permissão de retornar em cem anos e descobrir o
que pensavam dele então. Quando ele mencionou esse desejo para Du
Camp, este não chegou a dizer o que realmente sentia: “Eles vão
posicionar você entre Tiepolo e Jouvenet.” Essa observação não dita
nos conta muito sobre o gosto e a opinião da época, algo que
Delacroix havia tentado superar durante tantas décadas.
Cama desfeita por Delacroix