Mantendo um olho aberto
Freud: o episodista
O pintor em seu ateliê (c. 1629), de Rembrandt, é um pequeno
quadro com uma mensagem resplandecente. O ponto de vista é o de
uma pessoa sentada diretamente no chão, no canto de um sótão-ateliê
com paredes de emboço rachado. À direita, na sombra, está a porta.
No centro, com sua parte de trás voltada para nós, está um enorme
cavalete como um quadro encaixado. À esquerda, com quase a metade
do tamanho do cavalete, encontra-se o pintor, de pé, pincel e tento na
mão, vestido com seu roupão e seu chapéu de pintura. Ele está na
sombra, mas com dificuldade podemos discernir seu rosto em forma
de lua enquanto ele observa fixamente o quadro. A fonte de luz, fora
de quadro, está à esquerda e acima dele. A luz incide quase
inteiramente nas tábuas de madeira do assoalho, dando a elas uma cor
de milho, e também na lateral esquerda da pintura, no cavalete, dando
a ela uma linha vertical brilhante. Mas, como não vemos de onde a luz
está vindo, a imagem faz um movimento circular em nossa cabeça: é
como se o resplendor da pintura se espalhasse pelo chão (mas não até
o pintor-manequim). Assim, cabe a nós entender: é a arte que
ilumina, que dá ao artista tanto seu ser quanto sua significância, em
vez de o contrário.
Lucian Freud defendeu a mesma coisa, certa vez, com um aparte
brilhante. Quaisquer palavras que pudessem vir de sua boca a respeito
de sua arte, ele observou, seriam tão relevantes para aquela arte
quanto o barulho que um jogador de tênis faz quando está fazendo
uma jogada. Ele escreveu um artigo para a Encounter bem no início de
sua carreira, em 1954, e bem no final acrescentou algumas frases a ele
para a Tatler, em 2004. (Sua visão da arte não tinha mudado no
intervalo de cinquenta anos.) Fora isso, ele manteve o silêncio textual.
Ele não assinou nenhum manifesto e não deu nenhuma entrevista para
a imprensa até sua derradeira década. Tudo isso em meio a um
período no qual artistas se tornaram assuntos da moda para suplementos coloridos, e o pintor de cavalete parecia vieux jeu em
comparação com o serígrafo, o criador de colagens ou de instalações, o
conceitualista, o videomaker, o performer, o criador de letreiros de
neon e o arranjador de pedras. Havia muita conversa fiada sobre arte,
e dos recém-chegados esperava-se que providenciassem credos de
fluente obscuridade.
O pintor em seu ateliê por Rembrandt Flaubert
disse uma vez, em resposta a uma consulta
jornalística acerca de sua vida: “Eu não tenho
biografia.” A arte é tudo, seu criador, nada.
Freud teria concordado − ele que costumava ler
em voz alta para suas namoradas trechos das
cartas de Flaubert e que certa vez retratou o
escritor Francis Wyndham segurando uma cópia
maltratada, porém reconhecível, do primeiro
volume da edição Harvard/Belknap. Mas “não
ter biografia” é impossível; o mais perto que
você pode chegar é não ter nenhuma biografia
publicada durante sua vida. Freud, mais do que
qualquer outro artista de sua estatura, chegou o
mais perto disso que era possível. Nos anos 1980, um biógrafo não autorizado começou a sondar a
respeito apenas para se deparar com um sujeito
mal encarado que bateu na sua porta e o
recomendou que desistisse. Uma década depois,
Freud chegou a autorizar uma biografia a ser
feita pelo crítico William Feaver e cooperou com
ela. Mas, quando ele leu o material e se deu
conta do que uma biografia implicava, pagou a
Feaver para desistir do projeto. Ele vivia
furtivamente, mudando de endereços, sem
nunca preencher um formulário (portanto sem
nunca votar) e raramente dava seu número de telefone. Aqueles próximos dele sabiam que o
silêncio e a discrição eram o preço de conhecê-
lo.
Em Capri, eles mostram para você o penhasco íngreme do qual,
segundo relatos, aqueles que desagradavam o imperador Tiberius
eram atirados (embora os capresi, que lhe dão o nome mais leve de
Timberio, insistam em que a taxa de mortos foi muito exagerada por
opositores como Suetonius). A corte de Freud era, de modo similar,
absolutista em suas punições: se você o desagradasse – por atrasos,
falta de profissionalismo ou desobediência à sua vontade –, você era
jogado do penhasco. Meu amigo Howard Hodgkin antigamente
conhecia bem Freud, até o dia em que Freud chegou a seu ateliê sem
avisar. “Agora não, Lucian”, Hodgkin lhe disse calmamente, “estou
trabalhando.” Essa foi uma saudação absolutamente errada. Freud foi
embora contrariado – “E eu nunca mais o vi”. Na pintura que mostra
em primeiro plano Francis Wyndham lendo Flaubert, o plano de
fundo originalmente tinha a figura da modelo Jerry Hall dando de
mamar a seu bebê. Ela posou para isso por vários meses, até que um
dia avisou que não podia ir porque estava doente. Quando, alguns dias
depois, ela ainda não tinha condições de posar, o enfurecido Freud
pintou por cima de seu rosto, inserindo o rosto de seu assistente de
longa data, David Dawson. Mas o bebê não tinha ofendido ninguém,
então não foi retirado da pintura, com o resultado de que um Dawson
nu e com um peito estranho agora é visto alimentando a criança. O marchand americano de Freud considerou melancolicamente que o
quadro seria impossível de vender; ele foi comprado pelo primeiro
cliente americano ao qual foi mostrado.
A romancista Penelope Fitzgerald pensava que o mundo se dividia
em “exterminadores” e “exterminados”. Certamente ele se divide
entre controladores e controlados. Encontrei-me com Freud algumas
vezes e me impressionei com o fato de que ele nunca sorria, nem no
momento do encontro, nem em nenhum ponto da conversa em que
qualquer outra pessoa “normal” poderia sorrir: era um
comportamento clássico de um controlador, projetado para inquietar.
Um típico controlado é alguém que é dependente de amor; Freud foi
assim um dia e jurou que nunca mais seria novamente. Ele era sempre
um controlador e, algumas vezes, um exterminador. Os relatos sobre o
comportamento de Freud feitos por Martin Gayford e Geordie
Greig [6] às vezes me lembravam de dois romancistas improváveis:
Kingsley Amis e Georges Simenon. Quando a segunda esposa e colega
romancista de Amis, Elizabeth Jane Howard, o viu, às onze da manhã
de um dia no qual ele deveria almoçar no Palácio de Buckingham, em
pé no jardim bebendo um enorme copo de uísque, ela perguntou,
ansiosa: “Bunny, você tem que tomar um drinque?” Ele respondeu (e
é uma resposta que teria se aplicado a um grande número de outras
conversas): “Olha só, eu sou Kingsley Amis, entende, e eu bebo na
hora em que eu quiser.” Quanto a Simenon, ele praticava duas coisas
de maneira obsessiva: sua arte e sexo. Certa vez, em um momento
vitorioso de autoanálise, ele observou: “Não sou completamente
louco, mas sou um psicopata.” Freud confessou sua “megalomania”
para Martin Gayford, acrescentando que havia uma parte de sua
mente “que acredita, possivelmente, que minhas coisas são as
melhores já feitas por qualquer um, em todos os tempos”. Amis,
Simenon e Freud tinham mães controladoras que interferiam em suas
vidas, o que pode ou não ser relevante.
Freud sempre viveu uma vida de altos e baixos: duques e duquesas
e realeza e vistosas namoradas de um lado, gângsteres e agenciadores de apostas de outro. As pessoas de classe média eram em geral
desdenhadas ou ignoradas. Ele também tinha um comportamento
com altos e baixos: imperturbável e relaxado em círculos da realeza,
um defensor dos bons modos dos seus filhos, mas também
indelevelmente grosseiro e agressivo. Ele fazia o que queria, na hora
em que queria, e esperava que os outros concordassem com isso. Seu
modo de dirigir fazia Mr. Toad parecer um aprendiz nervoso. Ele
agredia pessoas sem aviso ou, com frequência, sem desculpa. Quando
era uma criança exilada, costumava bater em seus colegas de escola
ingleses porque não entendia sua língua; quando era um octogenário,
continuava se metendo em brigas em supermercados. Uma vez, ele
agrediu o amante de Francis Bacon porque o amante havia surrado
Bacon – mas era a resposta errada: Bacon ficou furioso, pois era um
masoquista e gostava de ser surrado. Freud escrevia “cartões-postais
venenosos”, cartas perversamente ofensivas e ameaçava mandar
espancar pessoas. Quando Anthony d’Offay encerrou uma mostra dele
com dois dias de antecedência, um envelope com merda chegou à
caixa de correio de d’Offay.
Em uma versão da filosofia do self, todos nós operamos em algum
ponto em uma linha entre os pontos gêmeos do episodismo e do
narrativismo. A distinção entre ambos é existencial, não moral. Os
episodistas sentem e veem pouca conexão entre as diferentes partes da
sua vida que se desdobram, possuem um senso mais fragmentário de
si e tendem a não acreditar no conceito de livre-arbítrio. Os
narrativistas sentem e veem constante conectividade, um eu [self] que
perdura, e reconhecem o livre-arbítrio como sendo o instrumento que
forja sua identidade [self] e sua conectividade. Narrativistas sentem-se
responsáveis por suas ações e culpados por seus fracassos; episodistas
pensam que uma coisa acontece e então outra coisa acontece. Freud
era, em sua vida pessoal, um exemplo tão puro de um episodista
quanto você pode chegar a ter. Ele sempre agiu por impulso; ele se
descrevia como “egoísta... mas... nem um pouco introspectivo”.
Indagado se sentia culpa por ser um pai totalmente ausente para seu grande número de filhos, ele respondeu: “Nenhuma.” Quando o filho
de Freud, Ali, que estava com raiva em função da pesada ausência de
seu pai, depois pediu desculpas caso seu próprio comportamento
tivesse causado ansiedade para o pai, Freud respondeu: “É gentil de
sua parte dizer isso, mas não funciona assim. Não existe algo como o
livre-arbítrio – as pessoas só têm que fazer o que elas têm que fazer.”
Ele era um leitor de Nietzsche, que considerava todos nós como
“joguetes do destino”. Seu episodismo se aplicava a assuntos tão
variados quanto o clima (sendo o seu favorito o irlandês, que assume
várias formas imprevisíveis a cada dia) e o sofrimento (“Eu detesto
luto e todas as coisas desse tipo – nunca fiz isso”). Ele julgava a ideia
de uma vida após a morte “extremamente medonha” – talvez porque
tal dispositivo pudesse comprovar o narrativismo. Não é de se
surpreender que os narrativistas tendam a considerar os episodistas
egoístas e irresponsáveis; enquanto os episodistas tendem a considerar
os narrativistas tediosos e burgueses. Felizmente (ou confusamente),
na maioria de nós essas duas tendências se encontram sobrepostas.
Embora cada nova pintura possa ser vista como um episódio
furiosamente concentrado, cada artista pode – e precisa – ser também
um narrativista, precisa ver como uma pincelada está conectada com a
próxima e como cada uma tem uma consequência. Como o passado
está conectado com o presente e o presente com o futuro, e como há
uma história que se desdobra em qualquer pintura, o que é em larga
escala o resultado da aplicação do livre-arbítrio. E também que, para
além disso, há uma narrativa mais ampla: de autoinstrução, de
progresso real ou imaginado, de uma carreira artística. Homem com
cachecol azul, de Martin Gayford, é a narrativa de um único episódio:
sua experiência de posar por sete meses para o quadro que leva esse
título. Estruturado como um diário, com cada registro contando como
um tipo de pincelada, ele é um dos melhores livros sobre arte, e sobre
fazer arte, que eu já li. Enquanto Freud estuda Gayford, Gayford
estuda Freud; enquanto o retrato se constrói no cavalete, ele o faz
também no texto. Gayford descreve engenhosamente o processo real de posar como “algo entre a meditação transcendental e uma visita ao
barbeiro”. Mas ele foi parar na cadeira do mais exigente dos
cabeleireiros. Convidado a adotar uma posição confortável, ele se senta
com a perna direita cruzada sobre a esquerda, e o processo artístico se
inicia. Após uma hora aproximadamente, um intervalo é feito, já se
encontra na tela um contorno em carvão da cabeça de Gayford, e
Freud se deixa cair em uma das famosas pilhas de trapos espalhadas
em seu ateliê. Quando Gayford volta para sua cadeira, ele pergunta se
pode cruzar a perna esquerda sobre a direita. De modo algum,
responde Freud, porque isso alteraria sutilmente o ângulo da cabeça.
E você certamente tinha que aceitar o que ele dizia nesse caso.
Gayford, cujo retrato começou a ser feito em novembro, também se
viu estorvado com seu casaco de lã e com o cachecol à medida que as
sessões se arrastaram até o verão seguinte. Freud nunca usou modelos
profissionais, mas exigia obediência profissional de seus amadores.
Tudo era em seus termos, mesmo quando quem posava era um colega
de profissão. David Hockney calculou que ele posou para Freud “por
mais de cem horas ao longo de quatro meses”; em reciprocidade,
Freud concedeu a Hockney duas tardes.
Gayford oferece um relato intenso de um processo intenso, de
como a arte é feita de uma mistura de instinto e controle, olho e
cérebro, de nervos, dúvida e correção constante. Ele descreve o modo
como Freud resmungava e murmurava coisas enquanto estava
trabalhando (“Sim, talvez – um pouco”, “É isso!”, “Nã-ão, acho que
não”, “Um pouco mais amarelo”), seus suspiros e pausas, irritação
com um erro e aceno triunfante do pincel na conclusão de uma
pincelada bem-sucedida. Gayford também é engraçado e honesto a
respeito do que se passa com uma pessoa que posa – a excitação, as
vaidades vergonhosas (ele se preocupa com cabelos na orelha) e o
desconforto e o tédio. Uma grande recompensa secundária é o prazer
e o valor – ainda mais para um crítico de arte – da alta qualidade da
conversa de Freud à mesa e ao cavalete. Há boas fofocas sobre sua vida
e os períodos pelos quais passou, e Freud fala livremente sobre suas ambições e procedimentos. Também sobre pintores que ele admira
(Ticiano, Rembrandt, Velázquez, Ingres, Matisse, Gwen John) e sobre
aqueles que ele não admira: Leonardo da Vinci (“Alguém deveria
escrever um livro sobre como Leonardo da Vinci era um pintor
ruim”), Rafael e Picasso. Ele prefere Chardin a Vermeer e descarta
Rossetti tão violentamente, a ponto de induzir piedade. Ele não é
apenas “o pior dos pré-rafaelitas” (Burne-Johnes solta um suspiro de
alívio), mas “o mais perto a que a pintura pode chegar do mau hálito”.
Freud sempre foi um pintor dos Grandes Interiores. Mesmo seus
cavalos são pintados em casa, em seus estábulos; e, embora ele tenha
sido o curador de uma sensacional mostra de John Constable em
Paris, em 2003, as folhagens que ele próprio pintou encontravam-se
ou em vasos ou visíveis pela janela do ateliê. Seu tema era
“inteiramente autobiográfico”. Verdi certa vez disse que “copiar a
verdade pode ser uma coisa boa, mas inventar a verdade é melhor,
bem melhor”. Freud não inventou: nem fez alegoria; ele nunca
generalizava ou era genérico; ele pintava o aqui e o agora. Considerava-
se um biólogo – do mesmo modo com que considerava seu avô
Sigmund um eminente zoologista, em vez de um psicanalista. Ele não
gostava da “arte que se parece demais com arte”, pinturas que eram
suaves, ou “rimadas”, ou buscavam lisonjear seja o tema, seja o
observador, ou que mostravam “sentimento falso”. Ele “nunca quis
cores bonitas” em sua obra e cultivava um “antissentimentalismo
agressivo”. Quando há mais de uma figura em um quadro, cada uma é
separada, isolada: seja quando uma delas está lendo Flaubert e a outra
está amamentando, seja quando ambas estão juntas, nuas, em uma
cama. Existe apenas contiguidade, nunca interação. Ele admirava
extraordinariamente A jovem professora, de Chardin – que a maioria
das pessoas veria como uma das imagens mais delicadas (e com as
mais belas cores) da interação humana; Freud gostava dela
principalmente porque a professora tinha a orelha mais bem pintada
da história da arte. Ele admirava a “jocosidade” em um pintor,
encontrando-a em Goya, Ingres e Courbet; embora suas próprias tentativas de jocosidades raramente dessem certo. Apesar de toda a
sua inteligência, quando Freud tem uma “ideia” em uma pintura,
costuma ser uma ideia ruim ou desajeitada. A mulher nua com duas
metades de um ovo cozido em primeiro plano (mulher – útero – ovos;
mulher – seios – bicos dos seios – gemas de ovo) é algo grosseiro e
juvenil. Pintor e modelo mostra Celia Paul vestida, com seu pincel
apontando para o pênis do modelo, enquanto seu pé direito descalço
aperta um tubo de tinta e a faz escorrer no chão. Isso faz cenas de
duplo sentido em filmes de James Bond parecerem sofisticadas.
No início, ele pintava com uma precisão à maneira de Memling,
cada cabelo e cada pestana claramente delineados, com uma paleta
clara e um olho (comparativamente) delicado. Então, mudando do
pincel de pelo de marta para o de pelo de porco, sua pincelada se
tornou mais larga, seus tons, mais pardos e esverdeados, suas telas,
maiores; alguns de seus modelos se tornaram maiores também,
culminando com o enorme Leigh Bowery e a supervisora de seguros
Sue Tilley (tornando-a a mais famosa mulher gorda na pintura desde a
Two-Ton Tessie O’Shea). Freud gostava de enfatizar sua própria
incorrigibilidade, seu instinto para fazer o oposto do que lhe diziam
para fazer, e diversas vezes em entrevistas atribuiu essa grande
mudança estilística ao fato de ter sido elogiado pelo desenho que era a
base de sua pintura. E assim, imperioso em sua perversidade, ele
decidiu parar de desenhar e começar a pintar de modo mais solto.
Essa explicação parece difícil de acreditar, dada a admiração que ele
tinha por grandes desenhistas como Ingres e Rembrandt. Além disso,
nenhum artista tão sério quanto Freud, por mais do contra que ele
gostasse de parecer, se permitiria ser estilisticamente controlado
(mesmo que de maneira favorável) pela crítica. Mas a explicação afasta
a atenção para longe da razão mais verídica – que ele também admitiu:
a influência de Francis Bacon. Freud vivia sua vida instintivamente,
mas pintava com extremo controle. Bacon vivia da mesma maneira,
mas parecia sobrepujar Freud por também pintar instintivamente, e
de modo rápido, sem qualquer desenho preliminar, ocasionalmente chegando a terminar uma pintura em uma única manhã. Alguns
consideraram a mudança estilística de Freud alarmante, ou pior do
que isso: Kenneth Clark, um admirador desde o início da carreira,
escreveu a Freud sugerindo que ele estava, deliberadamente,
suprimindo aquilo que tornava sua obra notável. “Nunca mais o vi”,
Freud conta a Gayford. Mais um lançado do penhasco tiberiano.
Essa pincelada mais solta não levou a qualquer velocidade maior
no trabalho. (“O problema com Lucian”, Bacon comentou certa vez
sarcasticamente, “é ele ser tão cuidadoso.”) Mas mudou a maneira
como ele retratava a carne. A partir de então, mesmo quando pintava
jovens de pele macia, ele enfatizava a vulnerabilidade da carne, “o que
ela tem de caído e murcho em potencial”, como Gayford diz. Alguns
consideram que ele tinha feito isso sempre. Caroline Blackwood,
escrevendo em 1993 na New York Review of Books sobre os retratos de
Freud, descreveu-os como “profecias” em vez de “retratos
instantâneos de quem posa tais como capturados fisicamente em um
determinado momento histórico”. Ela acrescentou que a pintura que
ele fez dela a tinha deixado “desalentada”, enquanto “outros ficaram
perplexos, perguntando-se por que ele precisava pintar uma menina,
que, naquele ponto, ainda tinha uma aparência tão infantil, de
maneira tão aflitivamente velha”. Blackwood tinha muitos motivos
para ressentimento contra seu ex-marido (entre eles o fato de ele ter
dormido com a filha adolescente dela), mas essa acusação parece
equivocada. Se observarmos os retratos de Blackwood agora, o que
nos impressiona é mais a sua ansiedade e fragilidade, e não um
envelhecimento prematuro. Gayford considera que o segundo estilo de
Freud é todo acerca da mortalidade. Nos autorretratos, ele escreve,
Freud “se apodera quase alegremente dos sinais da idade e do tempo”;
e sua “atitude em relação a outros modelos é, nesse sentido, a mesma
atitude que ele tem para consigo mesmo”. Talvez; mas eu me pergunto
se não se trata mais de uma questão de estilo e tipo de pincelada do
que de uma mensagem não-muito-sutil sobre a mortalidade. Esse foi
o método que Freud desenvolveu em sua busca de expressar a natureza e a essência de quem posava para ele, tanto faz se estivesse
pintando uma pessoa jovem nua ou a octogenária rainha da Inglaterra
totalmente vestida. Quanto aos muitos autorretratos de Freud, o que
impressiona não é tanto sua decadência alegremente retratada, mas
sua autocelebração, sua postura implícita do artista-como-herói. O
pior é O pintor surpreendido por uma admiradora nua, outra das pinturas
de “ideias” de Freud. Ela mostra uma modelo nua sentada no chão do
ateliê agarrada ao tornozelo e à coxa de Freud, como que para evitar
que ele chegue a seu cavalete. Sua intenção pode ser jocosa, mas o
resultado é, de algum modo, ao mesmo tempo malicioso e vaidoso. E
talvez ela também não funcione porque se trata de uma rara tentativa
de mostrar a interação em vez da contiguidade.
Quarto de hotel por Freud.
O detalhe mostra Caroline Blackwood
Blackwood está certa em dizer que o estilo de
retrato de seu ex-marido não é lisonjeiro – nem
tinha essa intenção. Mesmo assim, é um choque,
depois de uma longa olhada para quadros de
Freud, recorrer às fotografias de muitas das
pessoas que posaram para ele feitas por Bruce
Bernard e David Dawson em Freud at Work
(2006). Como o corpo humano é, na verdade,
macio e erótico, você pensa, e que cor agradável
também. Não é que a supervisora de seguros tenha uma boa aparência, e não é que nossa rainha esteja maravilhosa para sua idade – é
notável que ela tenha tão poucas rugas. Mas,
por outro lado, a fotografia sempre foi uma arte
lisonjeira – do mesmo modo como a pintura de
retratos costumava ser. Nos velhos tempos (e
ainda em alguns lugares), havia um acordo não
escrito entre o pintor e quem posava como
modelo, porque o modelo era quem pagava.
Hoje em dia, quem posa só paga se comprar o quadro; e, de qualquer modo, Freud ignoraria
qualquer acordo não escrito desse tipo, mesmo
se ele acreditasse que existia.
O pintor surpreendido por uma admiradora nua
(detalhe) por Freud Artistas podem estar
errados a respeito de sua própria arte: Gayford
nos conta, por exemplo, que o objetivo de Freud
“ é fazer seus quadros tão desiguais quanto
possível, como se eles tivessem sido feitos por
outros artistas”. Isso deve ser algum tipo de
ilusão necessária, talvez projetada para
assegurar que sua atenção e ambição não
esmorecessem. Mas, na maior parte das vezes,
os artistas sabem mais a respeito do que estão
fazendo do que nós. O objetivo de Freud nunca
foi o de servir ou copiar a natureza, e sim de
“intensificá-la” até que ela tivesse tal força que substituísse o original. Desse modo, uma “boa
semelhança” é irrelevante para um “bom
quadro”. Sua ideia acerca de fazer retratos, ele uma vez contou a Lawrence Gowing, “vinha da insatisfação com retratos que se pareciam com
pessoas. Eu desejaria que meus retratos fossem
de pessoas, não como elas... No que me diz
respeito, a pintura é a pessoa”. Uma pessoa que
posou para ele (e preferiu ficar no anonimato)
me contou que Freud a abordou com as palavras
“eu estaria interessado em pintar a partir de você”. Ele disse a Gayford, a respeito de seu
retrato: “Você está aqui para ajudá-lo” – como se
quem posava fosse uma espécie de idiota útil,
presente enquanto o artista alcança seu objetivo
mais abrangente.
Isso pode ser um preciosismo, ou desnecessariamente complicado.
Presumivelmente, o que o pintor quer é que o observador, quando
confrontado com o retrato de alguém que lhe seja familiar, diga: “Sim,
é ele / ela, só que mais ainda.” A “intensificação” terá sido atingida
então. Mas a “semelhança” não foi, e não pode ser, abandonada –
afinal, para que serve o escrutínio de Freud, um escrutínio famoso por
sua intensidade, se não for para ver com mais clareza do que os outros
veem? Será que alguma vez reagiríamos a um quadro dizendo: “Oh,
isso é incrível – não se parece nem um pouco com ele / ela, na
verdade, se parece com outra pessoa, mas curiosamente é como uma
versão mais intensa deles.”? Acho que não. A questão também se
mistura com outra: em que medida o retrato mostra o caráter de quem
posou, em que medida ele atua como uma semelhança moral. Gayford
indica corretamente que reagimos a um Van Eyck, ou a um Ticiano,
ou a uma estátua egípcia antiga “ignorando a personalidade de quem
posou”. (Também ignorando se ali se encontra ou não uma boa
“semelhança”.) Mas a nossa leitura daquele Van Eyck ou Ticiano não
será livre de personalidade: não o vemos meramente como um arranjo
feito de tinta. Parte do encontro será a respeito de elaborar o que
aquela imitação ou substituição pintada nos diz sobre o original há
muito tempo morto. Quando observamos um grande retrato – digamos, Louis-François Bertin, de Ingres – consideramos sua
semelhança como garantida e (deixando de lado nossas meditações
puramente estéticas) reagimos como se o senhor Bertin estivesse vivo
e respirando diante de nós. Nesse sentido, a pintura é a pessoa.
O livro de Martin Gayford é sobre um artista que por acaso
também era um homem; o livro de Geordie Greig é sobre um homem
que por acaso também era um artista. O verbete da Wikipedia de
Greig nos lembra que “membros da família do seu pai foram cortesãos
da realeza por três gerações”. Tendo editado o Tatler e o Evening
Standard, ele está agora, como editor de The Mail on Sunday, na corte
de Rothermere. Porém, mais importantes para ele, suponho, foram
seus anos na corte bem mais restrita de Freud. Ele gastou muitos e
pacientes anos pleiteando a condição de sócio – colecionando as
amizades de outros artistas em seu caminho para o prêmio principal –,
antes de fazer a jogada astuta que lhe concedeu a entrada para o clube.
Ele prestou serviços na corte de Freud pelos últimos dez anos da vida
do pintor e, como ele mesmo nos conta, conquistou a “intimidade e
confiança” de Freud. Fez isso a tal ponto, que a foto na orelha de Café
com Lucian Freud mostra o pintor a meio caminho de sorrir – uma
conquista rara, já que Freud desde muito tempo tinha aperfeiçoado
sua carranca granítica toda vez em que uma lente era apontada em sua
direção. O livro de Greig é mais substancial do que parece de início –
não apenas café da manhã, mas um almoço leve também. Quando o
jantar – uma biografia completa – surgir, seu autor terá motivos para
ser grato a Greig, que teve acesso às primeiras (e agora nonagenárias)
namoradas de Freud, a pessoas que posaram, amantes, filhos e outros
que se sentiram liberados para testemunhar a partir da morte de
Freud. Se o próprio Freud teria sentido que sua “intimidade e
confiança” tinham sido traídas é outra questão. O livro de Greig
certamente fará mal à reputação de Freud. Mas também irá, penso eu,
fazer mal à maneira como olhamos para algumas de suas pinturas e
talvez afete as próprias pinturas – pelo menos até que surja uma
geração de espectadores diferente.
Em certo momento, Greig sugere (de modo bastante plausível, em
minha opinião) que os nus de Freud podem ser relacionados aos de
Stanley Spencer; mas Freud o rebaixa com violência, atacando a
“sentimentalidade de Spencer e sua inabilidade para observar”. Se eu
estivesse na posição de Greig, teria oferecido Egon Schiele como um
ancestral vienense, em função das poses ginecológicas, da pincelada
solta e da coloração (vejam, por exemplo, Autorretrato com ombro
levantado à mostra). Mas eu teria sido rebaixado violentamente
também: Freud via Klimt e Schiele como literatura barata, cheia de
sentimento falso. Duvido de que muitos acusassem Freud de falsos
sentimentos ou questionassem a sinceridade da constante reafirmação
do papel do artista como porta-voz da verdade. Mas há mais coisas aí
do que isso. Como Amis disse: “Os poetas deveriam encher o coração
humano como um pneu de bicicleta Ou amassá-lo até ficar vazio?”
[“Should poets bicycle-pump the human heart Or squash it flat?”]
Nenhuma das duas coisas, suponho. A acusação contra Freud seria a
de que ele é um esvaziador de corações, principalmente em seus nus
femininos, a parte mais controversa de sua produção. Eles são
orgulhosa e verdadeiramente vúlvicos, literalmente na sua cara. Suas
mulheres deitam-se para ser inspecionadas: Celia Paul, em suas
próprias palavras “uma mulher muito, muito inibida”, considerou
posar para Freud “algo quase clínico, como se eu estivesse em uma
mesa de cirurgia”. Os homens de Freud, em geral, conservam suas
roupas e dão a direção com seus rostos; as mulheres de Freud, em
geral, tiram suas roupas (são levadas a fazê-lo) e dão a direção com
suas partes íntimas. Seus animais, que têm a permissão de deixar sua
genitália escondida, são os que se saem melhor – mas, de fato, Freud
disse que tinha “uma conexão com cavalos, todos os animais, quase
acima dos humanos”.
Há duas questões aqui. A primeira é técnica, ou fisiológica. Há
muitas diferenças entre genitálias de pessoas, mas essas diferenças não
são expressivas; elas não levam a lugar algum. É por isso que
retratistas normalmente dão mais atenção ao rosto – “a grande tela do coração”, na frase de Lorrie Moore –, que é expressivo e leva a algum
lugar: a uma sensação da presença da pessoa e de sua essência, mesmo
que seja uma essência cambiante. A segunda questão é interpretativa,
e aqui a autobiografia, se não for deixada de fora, pode impregnar e
borrar. Existe o olhar masculino na arte; e então, para além disso,
existe o olhar freudiano. Seus quadros de mulheres nuas não são nem
um pouco pornográficos; não chegam nem mesmo a ser eróticos. Só
um menino de escola muito perturbado conseguiria se masturbar
diante de um livro com os nus de Freud. Eles fazem o quadro de
Courbet A origem do mundo parecer suave. A questão é a maneira como
eles são autobiográficos – já que toda a obra de Freud o é –, e aqui
entra a biografia.
Sabemos por muitos anos, anedoticamente, sobre Freud e as
mulheres. Que houve muitas delas; que ele se casou duas vezes; que
seus filhos eram literalmente incontáveis: ele reconheceu quatorze,
mas pode ter tido duas vezes esse número (ele considerava qualquer
forma de controle de natalidade como “terrivelmente ordinária”). Em
geral, suas mulheres eram pessoas elegantes e eram adolescentes
quando ele as conheceu. Ele sempre foi uma estrela – atrativo,
misterioso, famoso, intenso, vital. Uma namorada contou a Greig:
“Ele era como a própria vida.” Outra disse: “Quando ele não estava,
era como se a luz tivesse diminuído. Do mesmo modo, ele fazia todo
mundo que estava com ele sentir-se mais iluminado e de algum modo
mais vivo e mais interessante.” Até aí, talvez, tudo bem: o artista
perigosamente magnético, para cujo campo de força as mulheres são
atraídas, é um tema que existe há séculos. E há até mesmo momentos
em que a insistência de Freud em viver a vida inteiramente nos seus
termos, com os outros se adaptando, tem o seu lado cômico. Aqui está
uma história que claramente significa algo para ele, uma vez que ele a
conta tanto para Gayford quanto para Greig com pouca variação: Por
exemplo, eu gosto de espinafre servido sem óleo ou manteiga. Mesmo
assim, eu posso imaginar que, se uma mulher por quem eu estivesse
apaixonado cozinhasse espinafre com óleo, eu iria gostar. Também apreciaria o leve heroísmo de gostar disso, embora normalmente não
apreciasse esse prato servido dessa maneira.
Se essa era a ideia que Freud tinha do compromisso heroico que
um homem assume quando está apaixonado por uma mulher, não é
surpreendente que as anfitriãs da sociedade londrina não o
considerassem um bom genro em potencial.
Mas Freud, que nunca impunha limite algum para as coisas, era
mais do que um charmoso conquistador. Ele era priápico, bastava
conseguir uma mulher que partia atrás de outra, enquanto esperava
que a primeira continuasse disponível. Caroline Blackwood, sua
segunda esposa, o achava “sombrio demais, controlador e
incorrigivelmente infiel” – não que ele reconhecesse “fidelidade”
como um conceito, para início de conversa. Se isso as machucava,
problema delas; as mulheres podiam aceitar a situação. Ele também
era sexualmente sádico: duas de suas ex-namoradas, separadamente,
descrevem-no torcendo seus seios e batendo neles. Mas a testemunha
mais destrutiva de Greig para a acusação é Victor Chandler, um
agenciador de apostas educado em escola pública, juntando em uma
só pessoa a divisão de altos e baixos amados por Freud. Ele “adorava”
Freud, mas também conta as duas piores histórias sobre ele. Na
primeira, ele e Freud – que já está bêbado – foram jantar no River
Café. Em frente a eles, quando chegaram, havia dois casais de judeus
do norte de Londres. “Lucian podia ser muito antissemita”, Chandler
recorda, “o que era estranho.” Ele protestou contra o cheiro das
mulheres e gritou para elas: “Odeio perfume. Mulheres deviam ter o
cheiro de uma coisa: boceta. Na verdade, deviam inventar um
perfume chamado boceta.”
Em outra ocasião, Freud e Chandler conversavam sobre mulheres:
A conversa que tivemos sobre isso era que ele precisava que o sexo
ficasse vivo. Era sua postura com a vida, com necessitar do alívio.
Acho que ele precisava dominar as mulheres de certas maneiras. Ele
falava sobre tudo. Certa noite, tivemos uma longa conversa sobre sexo anal. Ele disse que, a não ser que você tenha feito sexo anal com uma
garota, ela não se submeteu realmente a você.
Então, o que é isso? Só um pouco de papo furado, como se viesse
das páginas do The Mail on Sunday, vazado para danificar a reputação
de um grande artista? Mais do que isso, penso eu. Por mais
desconfiados que possamos ser em relação ao fato de que a biografia
afeta a nossa interpretação de quadros, uma vez que conhecemos essas
duas histórias não podemos voltar a desconhecê-las, e elas parecem
modificar – ou, para alguns, confirmar – o modo como os nus
femininos devem ser lidos. Alguns homens e muitas mulheres ficam, e
sempre ficaram, desconfortáveis, até mesmo nauseados, diante deles.
Eles parecem frios e implacáveis, pinturas mais da carne do que das
mulheres. E, quando o olho se move dos membros abertos para o
rosto, qual expressão as mulheres de Freud têm? Mesmo nos
primeiros retratos, antes do pincel de pelo de porco, as mulheres
parecem ansiosas; depois, elas pareciam, na melhor das hipóteses,
inertes, passivas e dessangradas, e, na pior das hipóteses, aflitas e em
pânico. É difícil não se perguntar: este é o rosto de uma mulher que
primeiro foi sodomizada até a submissão e então pintada até a
submissão? Quando lhe perguntaram por que desprezava tanto
Rafael, Freud disse que, embora ele tivesse feito algumas coisas
maravilhosas, “acho que é a personalidade dele que eu detesto”.
Algumas vezes, dizem, a respeito de conquistadores compulsivos,
que eles não conseguem se envolver romanticamente com mulheres
porque não conseguem se envolver intimamente com elas. (Encontrei
pela primeira vez essa tirada em uma biografia do conquistador Ian
Fleming, que conhecia e cordialmente detestava Freud – que o
detestava também.) François Mauriac, em seu grande romance de
inveja literária, Ce qui était perdu, formula isso de maneira mais sutil e
reveladora: “Quanto mais mulheres um homem conhece, mais
rudimentar se torna a ideia que ele tem das mulheres em geral.” Isso
foi escrito em 1930, mas não é irrelevante hoje em dia. Embora Freud
pintasse muito lentamente, ele pintava dia e noite e terminou com um grande corpus. Inevitavelmente ele se repetia e especialmente na forma
como posicionava mulheres. Embora normalmente não desse
nenhuma atenção às correspondências de seus admiradores, certa vez
recebeu uma carta de uma procuradora (negra), perguntando por que
ele nunca tinha pintado pessoas negras. E então ele respondeu à carta,
aceitou o desafio e a pintou. Nenhum prêmio por adivinhar a pose:
nua, pernas abertas para inspeção, cabeça contorcida à distância. É um
quadro fraco. Ele o chamou de Procuradora nua.
A biografia infecta outros quadros também, ou melhor, ajusta
nossas leituras prévias deles. Eu sempre tinha imaginado, por
exemplo, que as pinturas da mãe de Freud envelhecida com seu
vestido estampado eram obras gentis, ternas, similares em espírito
àquelas que Hockney pintou de seus pais envelhecidos. A biografia
corrige essa interpretação. Desde muito cedo, Freud considerava
repulsivo o interesse que sua mãe tinha por ele (ela faria coisas
terríveis como trazer comida para ele quando ele era pobre) e, ao longo
da vida, ele a manteve à distância. Quando o pai dele morreu, ela
tomou uma overdose; sofreu uma lavagem de estômago, mas o dano já
tinha sido causado, e ela se tornou uma concha do que era. Só então –
quando, você pode dizer, a vida a sodomizou até a submissão – ele
começou a pintá-la. E, como ele afirma, ela se tornou uma “boa
modelo” porque tinha parado de ficar interessada nele. A prima de
Freud, Carola Zentner, achava “terrivelmente mórbido” que ele
estivesse “pintando alguém que não era mais a pessoa que tinha sido...
porque basicamente ela ainda estava viva do ponto de vista físico, mas
não estava realmente viva do ponto de vista mental”. Isso importa?
Artistas são implacáveis, eles pegam seus temas onde os encontram, e
assim por diante. Acho que, neste contexto, importa sim, porque esses
quadros se apresentam como retratos amáveis da Querida Velha
Mamãe, e por isso exemplificam o que Freud abominava: falsos
sentimentos.
Dois lutadores japoneses sobre uma pia por
Freud Talvez, com o tempo, tudo isso pare de
importar. A arte tende, mais cedo ou mais tarde,
a se libertar da biografia. O que uma geração
acha duro, ordinário, não artístico, frio, a outra
considera uma visão fiel, até mesmo bela, da
vida e de como ela deveria ser representada – ou
melhor, intensificada. Duas ou três gerações
atrás, os nus de Stanley Spencer chocaram
muitos. Esse homem pequeno posicionando-se,
nu, ao lado de mulheres volumosas – de fato,
esposas – cujos seios obedeciam à lei da
gravidade. Agora tais quadros parecem, sim,
obras gentis, ternas e uma representação fiel do
amor e do jogo do desejo. Será que Freud um
dia será visto como o grande retratista do século
XX? S erá que seus nus parecerão, para as
gerações futuras, o que os nus de Spencer nos
parecem? Ou será que o desapontamento de
K enneth Clark a respeito da mudança de estilo
prematura de Freud será confirmado? De minha parte, penso que seu pequeno retrato de Francis
Bacon é maior do que seus monumentais
estudos de Leigh Bowery. Também gostaria que
ele tivesse pintado mais pias e mais vasos de
plantas e mais folhas e mais árvores. Mais
terrenos baldios, mais ruas. Artistas são o que
são, o que eles podem e precisam ser. Mesmo
assim, gostaria que ele tivesse saído um pouco
mais de casa.
6. Homem com cachecol azul, por Martin Gayford (2010); Café da manhã com
Lucian, por Geordie Greig (2013).