Mantendo um olho aberto
Géricault: catástrofe transformada em arte
I
Tudo começou com um mau presságio.
Eles tinham atravessado o Cabo Finisterre e estavam velejando em
direção ao sul levados por um vento moderado quando um bando de
golfinhos cercou a fragata. Os homens a bordo se juntaram na popa e
na amurada, admirando a capacidade dos animais de circular em torno
de uma embarcação que avançava já a nove ou dez nós pelo menos.
Mas, enquanto eles assistiam à brincadeira dos golfinhos, ouviu-se um
grito. Um jovem camareiro tinha caído de uma das vigias dianteiras a
bombordo. Um sinalizador foi disparado, um bote salva-vidas foi
lançado ao mar, e a embarcação arribou. Mas essas manobras foram
feitas de maneira desastrada, e, quando a barcaça de seis remos foi
descida até o mar, foi em vão. Eles não puderam achar o bote, muito
menos o garoto. Ele tinha apenas quinze anos, e quem o conhecia
afirmava que era um bom nadador; deduziram que provavelmente
teria alcançado o bote. Se isso ocorreu, sem dúvida o rapaz pereceu a
bordo, após ter passado pelos mais cruéis sofrimentos.
A expedição para o Senegal consistia de quatro embarcações: uma
fragata, uma corveta, um filibote e um brigue. Ela partiu da Ilha de
Aix no dia 17 de junho de 1816 com 365 pessoas a bordo. Agora
continuava em direção ao sul com sua tripulação reduzida em uma
pessoa. Eles abasteceram em Tenerife, embarcando vinhos preciosos,
laranjas, limões, figos e legumes de todos os tipos. Ali notaram a
depravação dos habitantes locais: as mulheres de Santa Cruz ficavam
nas portas de suas casas e chamavam os franceses para entrar,
confiantes de que os ciúmes de seus maridos seriam curados pelos
monges da Inquisição, que discursariam contrariamente à obsessão
conjugal, como algo dado por Satã para nos cegar. Passageiros pensativos atribuíam esse comportamento ao sol do sul, cujo poder,
sabe-se, enfraquece tanto os laços naturais quanto os morais.
A partir de Tenerife, eles velejaram na direção sul-sudoeste. Os
ventos e a inabilidade dos navegadores espalharam a frota. Sozinha, a
fragata ultrapassou o trópico e circundou o Cabo Barbas. Ela seguia
próxima à costa, em alguns momentos não mais do que à metade da
distância de um tiro de canhão. O litoral era tão rochoso, que nem
mesmo bergantins conseguiriam navegar durante a maré baixa. Eles
tinham passado o Cabo Blanco, ou assim acreditavam, quando se
viram em águas rasas; o prumo era lançado a cada meia hora. Ao
nascer do dia, o sr. Maudet, responsável pela vigia, fez o
reconhecimento de cima de um galinheiro de madeira e julgou que
estavam na beirada do recife Arguin. Seu aviso foi desconsiderado.
Mas mesmo aqueles que não tinham conhecimento do mar podiam
observar que a água mudara de cor; o limo estava aparente na lateral
do navio, e uma grande quantidade de peixes estava sendo pescada.
Em mares calmos e com tempo claro, eles estavam prestes a encalhar.
O prumo marcava dezoito braças, e logo depois seis braças. A fragata,
navegando à bolina, numa sucessão quase imediata, deu um tranco;
depois um segundo e um terceiro, e, em seguida, parou. A linha de
prumo mostrava uma profundidade de cinco metros e sessenta
centímetros.
Por azar, eles tinham batido no recife na maré alta; e, com o mar
ficando mais violento, as tentativas de libertar o navio falharam. A
fragata estava perdida com certeza. Como os barcos que ela carregava
não eram suficientes para levar toda a tripulação, ficou decidido que
construiriam uma balsa e nela embarcariam aqueles que não
pudessem ir nos botes. A balsa seria então puxada para a costa, e
todos seriam salvos. Esse plano foi perfeitamente arquitetado; mas,
como dois homens da companhia afirmariam depois, ele foi traçado
em areia fofa, dispersada posteriormente pelo sopro do egoísmo.
A balsa foi feita, e bem-feita, os lugares nos botes foram
distribuídos, as provisões foram preparadas. Ao nascer do dia, com dois metros e setenta centímetros de água no porão de carga e as
bombas falhando, foi dada a ordem para abandonar o navio. No
entanto, a desordem rapidamente tomou conta do plano bem
arquitetado. A distribuição dos lugares foi ignorada, as provisões
foram mal manuseadas, esquecidas ou perdidas nas águas. A previsão
da tripulação da balsa era de 150 pessoas: 120 soldados, incluindo
oficiais; 29 marinheiros e passageiros homens, e uma mulher. Porém,
mal haviam embarcado cinquenta pessoas na balsa – cuja extensão era
de vinte metros de comprimento e sete de largura – e ela afundou pelo
menos setenta centímetros. Eles jogaram fora os tonéis de farinha que
tinham sido embarcados, com isso o nível dela subiu; mas, quando o
restante das pessoas desceu do navio para a balsa, ela afundou de
novo. Quando estava totalmente carregada, encontrava-se um metro
abaixo da superfície, e as pessoas a bordo estavam tão amontoadas,
que não podiam dar um passo sequer. Na parte traseira e na dianteira,
eles se encontravam com água até a cintura. Os tonéis de farinha que
haviam sido arremessados ao mar eram jogados contra eles pelas
ondas; um saco de biscoitos de uns 11 quilos foi atirado do navio para
eles, e a água o converteu imediatamente em uma pasta.
A intenção era a de que um dos oficiais assumisse o comando da
balsa; mas esse oficial declinou do dever de embarcar. Às sete da
manhã, foi dado o sinal de partida, e a pequena flotilha foi levada para
longe da fragata. Dezessete pessoas haviam se recusado a deixar a
embarcação, ou tinham se escondido, e permaneceram a bordo para
descobrir qual seria o seu destino.
A balsa foi puxada por quatro botes alinhados à popa, precedidos
por uma pinaça que sondava o caminho. Assim que os botes tomaram
suas posições, gritos de Vive le roi! ecoaram, e uma pequena bandeira
branca foi hasteada na ponta de um mosquete. Mas foi nesse instante
de maior esperança e expectativa para aqueles que se encontravam na
balsa, que o sopro do egoísmo se juntou aos ventos do mar. Uma a
uma, seja por razões de interesse próprio, incompetência, infortúnio ou aparente necessidade, as cordas que puxavam a balsa foram
deixadas para trás.
A balsa não estava a mais de duas léguas da fragata quando foi
abandonada. As pessoas a bordo tinham vinho, um pouco de
conhaque, alguma água e uma pequena porção de biscoitos
ensopados. Elas não tinham recebido nenhuma bússola nem mapa.
Sem remos nem leme, não havia como controlar a balsa, e havia
poucos meios de controlar aqueles que estavam a bordo,
constantemente lançados uns contra os outros enquanto as ondas
batiam. Na primeira noite, caiu uma tempestade que sacudiu a balsa
violentamente; os gritos das pessoas a bordo se misturaram aos
estrondos dos vagalhões. Alguns ataram cordas nas madeiras da balsa
e agarraram-se a elas; todos foram sacudidos sem piedade. Ao nascer
do dia, o ar estava repleto de gritos e lamentos; promessas que nunca
poderiam ser cumpridas foram oferecidas aos céus, e todos se
prepararam para a morte iminente. Era impossível fazer uma ideia
daquela primeira noite que não ficasse aquém da verdade.
No dia seguinte, o mar estava calmo e a esperança reacendeu para
muitos. Apesar disso, dois rapazes e um padeiro, convencidos de que
não havia como escapar da morte, deram adeus a seus companheiros e
se atiraram ao mar. Foi nesse dia que as pessoas na balsa começaram a
ter seus primeiros delírios. Alguns achavam que tinham visto terra,
outros avistavam embarcações que viriam salvá-los, mas o choque
dessas esperanças enganosas contra os rochedos provocava o pior
desalento.
A segunda noite foi mais terrível do que a primeira. O mar
esculpia montanhas, e o tempo todo havia o perigo da balsa virar. Os
oficiais, agrupados em torno do pequeno mastro, orientavam o
posicionamento dos soldados para manter o equilíbrio da embarcação.
Alguns homens, certos de que iriam morrer, fizeram um buraco em
um barril de vinho e resolveram anestesiar seus últimos momentos
abandonando a razão. Nisso tiveram sucesso, ao menos até a água do
mar que passava pelo buraco no barril estragar o vinho. Assim, duplamente ensandecidos, esses homens desnorteados decidiram
condenar todos a uma destruição conjunta e atacaram as cordas que
sustentavam a barca. Com a resistência que se ergueu contra os
amotinados, ocorreu uma batalha em meio às ondas e à escuridão da
noite. A ordem foi restaurada e houve uma hora de tranquilidade na
balsa da morte. Mas, à meia-noite, os soldados se sublevaram
novamente e atacaram seus superiores com facas e sabres; aqueles que
não tinham armas estavam tão perturbados, que tentaram ferir seus
oficiais com os dentes, e houve muitas mordidas. Homens foram
lançados ao mar, espancados, apunhalados; dois barris de vinho e o
resto da água também foram atirados ao mar. Quando os vilões foram
subjugados, a balsa estava carregada de cadáveres.
Durante a primeira revolta, um trabalhador chamado Dominique,
que havia se juntado aos amotinados, foi lançado ao mar. Mas, ao
ouvir os gritos de socorro desse subalterno traiçoeiro, o engenheiro
encarregado dos trabalhadores se jogou na água e, agarrando o vilão
pelos cabelos, conseguiu arrastá-lo de volta para a balsa. A cabeça de
Dominique tinha sido aberta por um sabre. Mesmo na escuridão,
fizeram um curativo e o patife foi restituído à vida. Porém, logo depois
de ser salvo dessa maneira, a ingratidão o dominou; ele se juntou aos
amotinados e se revoltou de novo. Dessa vez, teve menos sorte e
contou com menos piedade; morreu naquela noite.
O delírio agora ameaçava os infelizes sobreviventes. Alguns se
atiraram ao mar; alguns caíram em torpor; alguns miseráveis se
precipitaram sobre seus camaradas com os sabres desembainhados,
exigindo que lhes dessem a asa de uma galinha. O engenheiro cuja
bravura tinha salvado o trabalhador Dominique imaginou que estava
viajando pelas agradáveis planícies da Itália e que um dos oficiais lhe
dizia: “Lembro que fomos abandonados pelos botes, mas não tenha
medo; acabo de escrever para o governador, e, em poucas horas,
estaremos salvos.” O engenheiro, tranquilo em seu delírio, respondeu
então: “Você tem um pombo-correio para levar suas ordens com tanta
rapidez?”
Restava apenas um barril de vinho para as sessenta pessoas que
sobraram a bordo da balsa. Eles recolheram peças metálicas dos
soldados e as transformaram em anzóis; pegaram uma baioneta e a
curvaram de uma forma que possibilitasse capturar um tubarão.
Depois disso, surgiu um tubarão, que agarrou a baioneta e, com uma
torção selvagem de sua mandíbula, destorceu-a totalmente e nadou
para longe.
Foi necessário um recurso extremo para prolongar a existência
miserável deles. Alguns dos que tinham sobrevivido à noite do motim
se lançaram sobre os cadáveres e arrancaram pedaços deles, devorando
a carne rapidamente. A maioria dos oficiais recusou esse alimento;
contudo um deles propôs secar a carne antes, para torná-la mais
palatável. Alguns tentaram mastigar cintos e caixas de cartucho e as
correias de couro de seus chapéus, com pouco proveito. Um
marinheiro tentou comer seu próprio excremento, mas não conseguiu.
O terceiro dia foi calmo e bonito. Eles repousaram, mas sonhos
cruéis se somaram aos horrores já infligidos pela fome e pela sede. A
balsa, que agora carregava menos de metade de sua tripulação original,
tinha se elevado na água, um benefício imprevisto como resultado dos
motins noturnos. Entretanto, as pessoas a bordo continuavam com
água até os joelhos e só podiam repousar de pé, umas pressionadas
contra as outras em uma massa sólida. Na quarta manhã, eles
perceberam que uma dúzia de seus companheiros tinha morrido
durante a madrugada; os corpos foram lançados ao mar, com exceção
de um, que foi reservado para enfrentar a fome. Às quatro horas
daquela tarde, um cardume de peixes-voadores passou sobre a balsa, e
muitos deles ficaram presos nas extremidades da embarcação.
Naquela noite, eles temperaram os peixes, mas sua fome era tão
grande, e cada porção tão exígua, que muitos adicionaram carne
humana ao peixe, e a carne, temperada, foi considerada menos
repugnante. Até mesmo os oficiais começaram a comê-la quando
apresentada dessa maneira.
Desse dia em diante, todos aprenderam a consumir carne humana.
A noite seguinte permitiria renovar o estoque. Alguns espanhóis,
italianos e negros, que tinham ficado neutros durante os primeiros
motins, conspiraram com o plano de jogar seus superiores ao mar e
escapar para a costa, que acreditavam estar perto, levando valores e
bens que haviam sido depositados num saco e pendurados no mastro.
Mais uma vez, seguiu-se um terrível combate, e o sangue banhou a
balsa da morte. Quando esse terceiro motim foi finalmente contido,
restavam não mais de trinta pessoas a bordo, e a balsa tinha se elevado
mais ainda na água. Quase todos tinham ferimentos nos quais a água
salgada batia constantemente, e ouviam-se gritos cortantes.
No sétimo dia, dois soldados esconderam-se atrás do último barril
de vinho. Eles fizeram um buraco no barril e começaram a beber
vinho por um canudo. Ao ser descobertos, os dois transgressores
foram instantaneamente jogados na água, de acordo com a lei de
exceção que tinha sido promulgada.
Foi nesse momento que a decisão mais terrível teve que ser
tomada. Ao contar o número de pessoas, verificou-se que eram 27.
Quinze delas pareciam capazes de viver por alguns dias ainda; o resto,
com ferimentos grandes e, em muitos casos, vítimas de delírios, tinha
pouquíssima chance de sobreviver. No tempo que decorreria até a sua
morte, no entanto, elas certamente continuariam a diminuir o
suprimento limitado de provisões. Calculou-se que todos poderiam
beber até trinta ou quarenta garrafas de vinho. Pôr os doentes em
meia-porção era matá-los aos poucos. Assim, após um debate
dominado pelo desespero, as quinze pessoas saudáveis concordaram
com que seus camaradas doentes precisavam ser lançados ao mar, pelo
bem comum daqueles que poderiam sobreviver. Três marinheiros e
um soldado, com seus corações já endurecidos pela visão constante da
morte, realizaram essas execuções repugnantes, porém necessárias. Os
saudáveis foram separados dos não saudáveis como o puro do impuro.
Após esse sacrifício cruel, os últimos quinze sobreviventes jogaram
na água todas as suas armas, reservando apenas um sabre para o caso de precisarem cortar alguma corda ou madeira. Havia alimento
suficiente para seis dias, enquanto eles aguardavam a morte.
Então ocorreu um pequeno evento que cada um interpretou de
acordo com a sua natureza. Uma borboleta branca, de uma espécie
comum na França, apareceu esvoaçando sobre as suas cabeças e
pousou sobre a vela. Para alguns, enlouquecidos pela fome, pareceu
que mesmo aquilo poderia ser um naco a mais. Para outros, a leveza
com que sua visitante se movimentava parecia um deboche com
aqueles homens exaustos e quase imóveis estirados lá embaixo. Para
outros ainda, essa simples borboleta era um sinal, uma mensagem dos
céus, tão branca quanto a pomba de Noé. Mesmo os mais céticos, que
se recusavam a reconhecer ali um instrumento divino, sabiam que
borboletas viajavam distâncias curtas a partir da terra seca, então
foram acometidos de uma esperança cautelosa.
Contudo, nenhuma terra seca apareceu. Sob o sol ardente, uma
sede furiosa os consumia, a ponto de começarem a umedecer seus
lábios com a própria urina. Eles a bebiam em pequenas canecas que
primeiro eram colocadas na água para esfriar o líquido mais
rapidamente. Acontecia de a caneca de alguém ser roubada e
devolvida depois, sem a urina que estava antes nela. Havia um homem
que não conseguia se forçar a engolir aquilo, por mais sedento que
estivesse. Um cirurgião entre eles comentou que a urina de alguns
homens era mais agradável de engolir do que a de outros. Afirmou em
seguida que o efeito imediato de beber urina era uma propensão a
urinar mais.
Um oficial do exército descobriu um limão e pretendeu reservá-lo
inteiramente para si; súplicas violentas convenceram-no dos perigos
do egoísmo. Trinta dentes de alho também foram encontrados, e isso
despertou mais disputas. Se não tivessem descartado todas as armas
com exceção de um sabre, mais sangue poderia ter sido derramado.
Havia dois frascos cheios de um licor para limpar os dentes; uma ou
duas gotas desse licor, dispensadas com relutância por seu dono,
produziam na língua uma sensação agradável que por alguns segundos escondia a sede. Alguns pedaços de estanho, ao ser postos na boca,
tinham como efeito uma espécie de frescor. Um frasco vazio que antes
continha essência de rosas foi passado de mão em mão pelos
sobreviventes; eles aspiravam, e o odor remanescente do perfume dava
uma impressão reconfortante.
No décimo dia, vários dos homens, após receber sua porção de
vinho, conceberam o plano de ficar embriagados para em seguida se
matar; foram dissuadidos com dificuldade dessa ideia. Tubarões agora
cercavam a balsa, e alguns soldados, em seu desatino, mergulhavam à
vista dos grandes peixes. Oito dos homens, considerando que a terra
não poderia estar muito longe, construíram uma segunda balsa para
escapar. Eles fabricaram um barco estreito, com um mastro baixo e
uma rede de tecido como vela. Porém, quando foram testá-la, a
fragilidade da embarcação lhes demonstrou a temeridade de seu
empreendimento e eles abandonaram aquele plano.
No décimo terceiro dia do seu suplício, o sol subiu inteiramente
livre de nuvens. Os quinze desgraçados tinham feito suas orações para
o Todo-poderoso e dividido entre si as porções de vinho quando um
capitão de infantaria, olhando para o horizonte, avistou um navio e o
anunciou com uma exclamação. Todos agradeceram ao Senhor e se
entregaram ao arrebatamento da alegria. Eles esticaram aros de barril e
ataram lenços nas pontas; um deles montou no topo do mastro e ficou
balançando essas pequenas bandeiras. Todos observavam a
embarcação no horizonte e tentavam adivinhar o seu avanço. Alguns
estimavam que ela estava se aproximando a cada minuto; outros
afirmavam que seu curso ia na direção contrária. Por meia hora, eles
ficaram suspensos entre a esperança e o medo. Em seguida, o navio
desapareceu no mar.
Da alegria, eles caíram no desalento e na aflição; invejavam o
destino daqueles que tinham morrido antes. Então, para encontrar
algum consolo de seu desespero no sono, esticaram um pedaço de
tecido como proteção contra o sol e se deitaram sob ele. Então se
propuseram a escrever uma narrativa de suas aventuras, que todos iriam assinar e pregariam o escrito no topo do mastro, esperando que,
de algum modo, aquilo chegasse a suas famílias e ao governo.
Eles tinham passado mais duas horas tomados pelos pensamentos
mais cruéis quando o mestre artilheiro, querendo ir para a parte
frontal da balsa, saiu da tenda e viu o Argus a meia légua de distância,
a toda vela e vindo em direção a eles. Ele mal podia respirar, suas mãos
se esticaram em direção ao mar. “Salvos!”, ele gritou. “Olhem o
brigue quase chegando!” Todos se regozijaram; mesmo os feridos
conseguiram se arrastar para a parte de trás da balsa, a fim de ver
melhor seus salvadores se aproximando. Eles se abraçaram, e seu
encanto redobrou quando eles perceberam que deviam seu resgate a
franceses. Acenavam com lenços e agradeciam à Providência.
O Argus baixou suas velas e se posicionou a estibordo da balsa, a
meio tiro de distância. Os quinze sobreviventes, dentre os quais o mais
forte não poderia ter sobrevivido mais que 48 horas, foram recolhidos
a bordo; o capitão e os oficiais do brigue, com seus cuidados
reiterados, reacenderam neles a chama da vida. Dois homens que mais
tarde escreveram sua narração do suplício concluíram que a maneira
como eles foram salvos era realmente miraculosa e que o dedo do céu
foi providencial.
A viagem da fragata tinha começado com um presságio e terminou
com um eco. Quando a balsa da morte, puxada por suas embarcações
assistentes, foi lançada ao mar, deixou para trás dezessete pessoas na
Medusa. Abandonadas assim, por sua própria escolha, elas de imediato
examinaram o navio em busca de tudo aquilo que o mar não tivesse
atingido e que não tivesse sido levado pelos homens que partiram.
Encontraram biscoito, vinho, conhaque e bacon, o bastante para
subsistir por algum tempo. A princípio, a tranquilidade prevaleceu,
pois os seus camaradas tinham prometido retornar para resgatá-las.
Mas, quando 48 dias passaram sem socorro, doze daquelas dezessete
pessoas decidiram alcançar a terra. Com esse propósito, construíram
uma segunda balsa a partir de algumas sobras do madeiramento da
fragata, que ataram com cordas fortes, antes de embarcar. Assim como no caso de seus predecessores, faltavam remos e instrumentos de
navegação, e a balsa possuía apenas uma vela rudimentar. Eles levaram
consigo um pequeno suprimento de provisões e o tanto de esperança
que ainda lhes restava. No entanto, vários dias depois, alguns mouros
que vivem ao largo da costa do Saara e são súditos do rei Zaide
descobriram os vestígios daquela embarcação e chegaram a Andar
com a informação sobre a descoberta. Acreditou-se que os homens
nessa segunda balsa tinham sido, sem dúvida, presas daqueles
monstros marinhos que se encontram em grande número nas costas
da África.
E então, finalmente, como numa zombaria, houve o eco de um
eco. Cinco homens permaneceram sobre a fragata. Vários dias depois
que a segunda balsa partiu, um marinheiro que tinha se recusado a
subir nela também tentou chegar à costa. Incapaz de construir uma
terceira balsa para si, ele se lançou ao mar num galinheiro de madeira.
Talvez fosse a mesma gaiola sobre a qual o sr. Maudet tinha verificado
o curso fatal da fragata naquela manhã em que eles bateram no recife.
Mas o engradado afundou e o marinheiro morreu a uns cem metros
de distância da Medusa.
II
Como se transforma catástrofe em arte?
Hoje em dia, o processo é automático. Uma usina nuclear
explode? Teremos uma peça no palco londrino dentro de um ano. Um
presidente é assassinado? Você pode ter um livro, ou o filme, ou o
livro filmado, ou o filme convertido em livro. Guerra? Mandem os
escritores. Uma série de assassinatos horripilantes? Ouçam os passos
da chegada dos poetas. Temos que entender essa catástrofe e, para
entendê-la, temos de imaginá-la, portanto precisamos das artes. Mas
também precisamos justificar e perdoar essa catástrofe, mesmo que
minimamente. Por que ela aconteceu, esse ato louco da natureza, esse
momento insano da humanidade? Bem, ao menos ele produziu arte.
Talvez, no final das contas, seja para isso que serve a catástrofe.
Géricault raspou a cabeça antes de começar a pintura, nós todos
sabemos disso. Raspou sua cabeça para não ver ninguém, trancou-se
no ateliê e saiu quando terminou sua obra-prima. Foi isso o que
aconteceu?
A expedição partiu no dia 17 de junho de 1816.
A Medusa bateu no recife na tarde do dia 2 de julho de 1816.
Os sobreviventes foram resgatados da balsa no dia 17 de julho de
1816.
Savigny e Corréard publicaram seu relato da viagem em novembro
de 1817.
A tela para a pintura foi comprada no dia 24 de fevereiro de 1818.
A tela foi transferida para um ateliê maior e esticada no dia 28 de
junho de 1818.
A pintura foi terminada em julho de 1819.
No dia 28 de agosto de 1819, três dias antes da abertura do Salon,
Luís XVIII examinou a pintura e dirigiu ao artista o que o Moniteur
Universel chamou de “uma daquelas observações oportunas que ao mesmo tempo julgam a obra e encorajam o artista”. O rei disse:
“Monsieur Géricault, o seu naufrágio certamente não é um desastre.”
A obra começa com a verdade em relação à vida. O artista leu o
relato de Savigny e Corréard; ele os encontrou e os interrogou. Ele
compilou um dossiê do caso. Procurou o carpinteiro da Medusa que
tinha sobrevivido e o fez construir um modelo em escala da balsa
original. Nele, posicionou modelos de cera para representar os
sobreviventes. A seu redor, no ateliê, pôs suas próprias pinturas de
cabeças cortadas e membros dissecados, a fim de impregnar o ar com
a mortalidade. Retratos reconhecíveis de Savigny, Corréard e do
carpinteiro estão incluídos na pintura final. (Como eles se sentiram a
respeito de posar para essa reprise de seus sofrimentos?) Géricault
ficava perfeitamente calmo quando estava pintando, como relatou
Antoine Alphonse Montfort, o pupilo de Horace Vernet. Havia pouco
movimento perceptível do corpo ou dos braços, apenas um leve rubor
da face para indicar sua concentração. Ele trabalhava diretamente na
tela branca com apenas um esboço grosseiro para guiá-lo. Pintava
enquanto houvesse luz, com uma tenacidade que era também
proveniente de uma necessidade técnica: as tintas espessas e de
secagem rápida que ele usava implicavam que cada seção, uma vez
começada, precisava ser terminada naquele dia. Seus cachos ruivo-
alourados foram raspados, como sabemos, como um sinal de “Não
Perturbe”. Mas ele também não era solitário: modelos, pupilos e
amigos continuavam visitando a casa, que dividia com seu jovem
assistente Louis-Alexis Jamar. Entre os modelos que usou estava o
jovem Delacroix, que posou para uma figura morta deitada de bruços
com o braço esquerdo esticado.
Comecemos com o que Géricault não pintou. Ele não pintou: 1) A
Medusa batendo no recife; 2) O momento em que as cordas de
reboque foram retiradas e a balsa foi abandonada; 3) Os motins na
noite;
4) O canibalismo necessário; 5) O assassinato em massa para
autoproteção; 6) A chegada da borboleta;
7) Os sobreviventes imersos na água até suas cinturas, ou
panturrilhas ou tornozelos; 8) O momento exato do resgate.
Em outras palavras, sua primeira preocupação foi não ser: 1)
político; 2) simbólico; 3) teatral; 4) chocante; 5) aterrorizante; 6)
sentimental; 7) documental; ou 8) ambíguo.
Notas
1. A Medusa foi um naufrágio, uma notícia e uma pintura;
ela foi também uma causa. Bonapartistas atacaram
monarquistas. O comportamento do capitão da fragata
demonstrava: a) a incompetência e corrupção da Marinha Real;
b) a insensibilidade em geral da classe dominante em relação aos
que se encontravam abaixo dela. Paralelos com “o navio do
Estado encalhando” teriam sido tanto óbvios quanto
exagerados.
2. Savigny e Corréard, sobreviventes e coautores do
primeiro relato do naufrágio, entraram com uma petição ao
governo, em busca de compensação para as vítimas e punição
para os oficiais culpados. Rejeitados pela justiça institucional,
eles apelaram para as cortes mais amplas da opinião pública
com seu livro. Corréard, em seguida, se estabeleceu como editor
e redator de panfletos políticos com uma loja chamada “Nos
destroços da Medusa”; ela se tornou um lugar de encontro para
insatisfeitos políticos. Podemos imaginar uma pintura do
momento em que as cordas de reboque são cortadas: um
machado brilhando ao sol está sendo usado para o golpe; um
oficial, de costas para a balsa, está casualmente afrouxando um
nó... Daria um excelente panfleto pintado.
3. O motim foi a cena que Géricault chegou mais perto de
pintar. Vários desenhos preliminares sobrevivem. Noite,
tempestade, mares pesados, vela rasgada, sabres erguidos,
afogamento, combate corpo a corpo, corpos nus. O que há de
errado em tudo isso? Principalmente o fato de que pareceria
uma daquelas brigas de bar em faroestes de segunda categoria,
nas quais todas as pessoas estão envolvidas – dando um soco,
destruindo uma cadeira, quebrando uma garrafa na cabeça de
um inimigo, pendurando-se nos lustres. Acontecem coisas
demais. Você pode contar mais mostrando menos.
Considera-se que os esboços remanescentes do motim se
parecem com esboços tradicionais do Juízo Final, com sua
separação entre os inocentes e os culpados, e com a queda dos
amotinados na danação. Tal alusão teria sido enganosa. Na
balsa, não foi a virtude que triunfou, mas a força; e havia pouco
espaço para piedade ali. O subtexto de uma versão assim seria o
de que Deus estava do lado da classe dos oficiais. Talvez ele
costumasse estar mesmo naquela época.
Cena do canibalismo na balsa da Medusa por
Géricault 4. Há pouquíssimo canibalismo na
arte ocidental. Pudor? Parece improvável: a arte
ocidental não tem pudor quanto a olhos
arrancados, cabeças cortadas levadas em sacos,
mastectomia sacrificial, circuncisão,
crucificação. Além do mais, o canibalismo era
uma prática pagã que poderia ser condenada de
modo proveitoso na pintura enquanto, sub-
repticiamente, despertava a atenção do
espectador. Mas alguns temas apenas parecem
ser pintados mais do que outros.
Géricault fez um esboço do canibalismo na balsa. O
momento de antropofagia em foco mostra um sobrevivente
musculoso abocanhando o cotovelo de um cadáver também
musculoso. É quase cômico. O tom seria sempre um problema
neste caso.
5. Uma pintura é um momento. O que pensaríamos que está
acontecendo numa cena em que três marinheiros e um soldado
estavam lançando pessoas ao mar? Que suas vítimas já estavam
mortas? Ou, se não estivessem, que elas estavam sendo
assassinadas por causa de suas joias? Cartunistas com
dificuldades para explicar o pano de fundo de suas brincadeiras
mostram com frequência vendedores de jornal parados ao lado
de cartazes que exibem manchetes convenientes. Com uma
pintura, a informação equivalente teria de ser dada no título: UMA CENA ATROZ A BORDO DA BALSA DA MEDUSA NA QUAL
SOBREVIVENTES DESESPERADOS, ASSOLADOS POR SUA
CONSCIÊNCIA, PERCEBEM QUE AS PROVISÕES SÃO
INSUFICIENTES E TOMAM A DECISÃO TRÁGICA, PORÉM
NECESSÁRIA, DE SACRIFICAR OS FERIDOS A FIM DE PODER
TER ELES PRÓPRIOS UMA CHANCE MAIOR DE SOBREVIVER.
Isso daria conta da situação.
O título de A balsa da Medusa, aliás, não é A balsa da
Medusa. A pintura foi listada no catálogo do Salon como Scène
de naufrage – Cena de naufrágio. Uma jogada política cautelosa?
Talvez. Mas é igualmente uma instrução útil ao espectador:
trata-se de uma pintura, não de uma opinião.
6. Não é difícil imaginar a chegada da borboleta como algo
representado por outros pintores. Mas isso soa francamente
banal em seu apelo emocional, não é? E mesmo se a questão do
tom pudesse ser superada, restariam duas grandes dificuldades.
Em primeiro lugar, não pareceria um evento verdadeiro, embora
o fosse: nem tudo que é verdadeiro é necessariamente
convincente. Em segundo lugar, uma borboleta branca de seis
ou sete centímetros, pousando em uma balsa de vinte metros de
comprimento por sete de largura, é algo que oferece sérios
problemas de escala.
7. Se a balsa está sob a água, você não pode pintar a balsa.
As figuras estariam todas surgindo do mar como em uma série
de Vênus Anadyomenes. Além disso, a falta da balsa
apresentaria problemas formais: com todos de pé, porque se
afogariam caso se deitassem, sua pintura fica repleta de linhas
verticais; você precisaria ser extremamente engenhoso. Melhor
esperar até que mais pessoas a bordo tenham morrido e a balsa
tenha saído da água, de modo que o plano horizontal esteja
totalmente à disposição.
8. O bote do Argus encostando ao lado da balsa, os
sobreviventes esticando seus braços e se arrastando para dentro
dele, o contraste patético entre as condições físicas dos
resgatados e as dos resgatadores, uma cena de exaustão e alegria
– tudo muito comovente, sem dúvida. Géricault fez vários
esboços desse momento de resgate. Daria uma imagem forte;
mas um tanto quanto... óbvia.
Foi isso o que ele não pintou.
O que ele pintou então? Bem, o que parece que pintou? Vamos
imaginar novamente nosso olho ainda ignorante. Nós escrutinamos
Cena de naufrágio sem nenhum conhecimento da história naval
francesa. Vemos sobreviventes em uma balsa acenando para um
minúsculo navio no horizonte (a embarcação distante, como não
podemos deixar de notar, não é maior do que seria a borboleta). Nossa
suposição inicial é a de que se trata do momento em que se avistou a
embarcação, o que levou a um resgate. Esse sentimento vem, em
parte, de uma preferência incansável por finais felizes, mas também do
fato de nos fazermos, com algum grau de consciência, a seguinte pergunta: como saberíamos a respeito dessas pessoas na balsa se
algumas delas ou todas elas não tivessem sido resgatadas?
O que sustenta essa suposição? O navio está no horizonte; o sol
também está (embora não esteja à vista), colorindo-o de amarelo.
Nascer do sol, nós deduzimos, e o navio chegando com o sol, trazendo
um novo dia, esperança e resgate; as nuvens negras acima (muito
negras) logo desaparecerão. Entretanto, e se fosse o pôr do sol? A
alvorada e o anoitecer são facilmente confundíveis. E se fosse o pôr do
sol, o navio estivesse prestes a desaparecer junto com o sol e os
náufragos se encontrassem diante da desesperançosa noite, tão negra
quanto a nuvem acima deles? Intrigados, nós podemos olhar para a
vela da balsa a fim de verificar se a embarcação está sendo impelida na
direção ou para longe de seu salvador, e avaliar se aquela nuvem
maligna está prestes a se dispersar. Mas isso não ajuda muito – o vento
não está soprando para cima ou para baixo da pintura, mas para a
esquerda, e a moldura corta a imagem impedindo qualquer noção a
mais sobre as condições do clima à direita. Então, ainda indecisos, nos
ocorre uma terceira possibilidade: poderia ser o nascer do sol, no
entanto, a embarcação de resgate não está vindo em direção aos
náufragos. Este seria o mais completo revés do destino: o sol está
nascendo, mas não para você.
O olho ignorante se submete, não sem certa relutância
perscrutadora, ao olho informado. Vamos examinar Cena de naufrágio
em comparação com a narrativa de Savigny e Corréard. Fica claro, de
imediato, que Géricault não pintou o aceno que conduziu ao resgate
final: este aconteceu de outro modo, com o brigue chegando
subitamente perto da balsa e todos comemorando. Não, trata-se do
primeiro momento em que se avistou o Argus, quando ele apareceu no
horizonte por um período atormentador de meia-hora. Comparando o
pintado com o escrito, notamos logo que Géricault não representou os
sobreviventes em cima do mastro segurando aros de barril com lenços
atados nas pontas. Ele optou, em vez disso, por um homem sendo
sustentado por outros no topo de um barril e agitando um pano largo. Concentramo-nos um pouco nessa mudança e reconhecemos sua
vantagem: a realidade lhe oferecia a imagem como que de um macaco
sobre uma vara; a arte sugeriu um foco mais sólido e um plano vertical
adicional.
A balsa da Medusa por Géricault.
Detalhe mostrando o homem acenando para o
navio Mas não nos eduquemos depressa demais.
Retornemos a questão para o olho ignorante e
sensível. Esqueçamos o clima; o que pode ser deduzido a partir dos próprios tripulantes na
balsa? Por que não começar com uma
contagem? Há vinte figuras a bordo. Duas delas
estão gesticulando ativamente, uma apontando
ativamente, duas suplicando vigorosamente,
mais uma apoiando/segurando/levantando para a figura que acena sobre o barril: seis a favor da
esperança e do resgate. Além disso, há cinco
figuras (duas debruçadas, três inertes) que
parecem ou mortas ou moribundas, além de um
velho de barbas grisalhas de costas para o Argus,
em uma postura de luto: seis contra. Entre eles
(medimos o espaço tanto quanto o humor), há
mais oito figuras: uma meio que suplicando
meio que se apoiando; três observando com
expressões de desprendimento aquele homem que acena; uma observando-o em agonia; duas
de perfil examinando, respectivamente, as ondas
atrás e as ondas à frente; além de uma figura
obscura, na parte mais escura e mais defeituosa
da tela, com a cabeça entre as mãos (e cravando
as unhas no couro cabeludo?). Seis, seis e oito:
não há uma maioria absoluta.
(Vinte?, indaga o olho informado. Mas Savigny e Corréard
disseram que havia apenas quinze sobreviventes. Então aquelas cinco
figuras que poderiam estar apenas inconscientes estão definitivamente
mortas? Presumimos que sim. Mas, nesse caso, e quanto à separação
que havia ocorrido quando os últimos quinze sobreviventes saudáveis
jogaram seus doze camaradas feridos ao mar? Géricault trouxe de
volta das profundezas alguns deles para ajudar em sua composição. E
será que os mortos deveriam perder seu voto no referendo sobre
esperança versus desespero? Tecnicamente, sim; mas não quando
acessamos o estado de espírito sugerido pelo quadro.) Assim, a
estrutura está equilibrada, com seis a favor, seis contra, oito
indefinidos. Nossos olhos, ignorantes e informados, vagueiam
piscando. Gradativamente eles são atraídos para trás do foco óbvio de
atenção, o homem que acena sobre o barril, em direção à figura
desolada na parte frontal à esquerda, a única pessoa olhando para nós.
Ele apoia em seu colo um rapaz que está – já fizemos a soma –
certamente morto. O velho está de costas para todas as pessoas vivas
na balsa: sua pose é de resignação, sofrimento, desespero: além disso,
se destaca por seu cabelo grisalho e pelo pano vermelho usado em
torno do pescoço. Ele pode ter se desgarrado de um período e um
gênero diferentes – algum velho de Poussin que se perdeu, talvez.
(Nonsense, intervém o olho informado. Poussin? Guérin e Gros, se você quer saber. E o “Filho” morto? Uma mescla de Guérin, Girodet
e Prud’hon.) O que este “Pai” está fazendo? a) Lamentando o homem
morto (seu filho? seu companheiro?) em seu colo? b) Compreendendo
que eles nunca serão resgatados? c) Refletindo que, mesmo que sejam
resgatados, isso não importa mais por causa do morto que ele tem em
seus braços? (Aliás, diz o olho informado, realmente há desvantagens
em ser ignorante. Você nunca adivinharia, por exemplo, que Pai e
Filho são um tema canibalístico atenuado, adivinharia? Como grupo,
eles apareceram pela primeira vez no único esboço da cena de
canibalismo feito por Géricault; e qualquer espectador
contemporâneo educado seguramente seria lembrado da descrição,
feita por Dante, do Conde Ugolino sofrendo em sua torre, em Pisa,
entre seus filhos moribundos – que ele comeu. Isso está claro agora?)
A balsa da Medusa por Géricault.
Detalhe do homem com barba grisalha Seja lá o
que considerarmos que o velho está pensando,
sua presença se torna uma força tão poderosa na
pintura quanto a do homem que acena. Tal
contrabalanço sugere que a pintura representa o
que acontecia na balsa quando estava
exatamente na metade do tempo que durou
aquele primeiro avistamento do Argus. A
embarcação já estava à vista havia um quarto de
hora e ainda ficará à vista por mais quinze
minutos. Alguns acreditam que ela ainda está indo na direção deles; alguns estão incertos e
esperando para ver o que acontece; alguns –
incluindo a cabeça mais sábia a bordo – sabem que ela está se dirigindo para longe deles e que
não serão salvos. Essa figura nos incita a ler
Cena de naufrágio como uma imagem da
esperança sendo escarnecida.
Aqueles que viram a pintura de Géricault nas paredes do Salon de
1819 sabiam, quase sem exceção, que estavam vendo os sobreviventes
da balsa da Medusa, sabiam que o navio no horizonte de fato os
recolheu (mesmo que não na primeira tentativa) e sabiam que esses
acontecimentos da expedição ao Senegal foram um grande escândalo
político. Mas a pintura que sobrevive é uma dessas que vivem para
além de sua própria história. A religião decai, o ícone permanece; uma
narrativa é esquecida, mas sua representação ainda magnetiza (o olho
ignorante triunfa – que irritante para o olho informado). Hoje em dia,
ao examinarmos Cena de naufrágio, é difícil sentir muita indignação
contra Hugues Duroy de Chaumareys, capitão da expedição, ou
contra o ministro que o nomeou capitão, o oficial da marinha que se
recusou a comandar a balsa, os marinheiros que soltaram os cabos de
reboque, ou ainda contra os soldados que se amotinaram. (De fato, a
história democratiza as nossas simpatias. Os soldados não tinham sido
brutalizados por sua experiência durante a guerra? O capitão não era
uma vítima de sua própria formação privilegiada? Apostaríamos em
nós mesmos para agir heroicamente em circunstâncias similares?) O
tempo dissolve a história em forma, cor, emoção. Modernos e
ignorantes, nós reinventamos a história; votamos a favor do céu
otimista ganhando tons de amarelo, ou a favor da barba grisalha
enlutada? Ou acabamos acreditando nas duas versões? O olho pode
saltar de um a outro estado de espírito, de uma interpretação para a
outra: será que era essa a intenção?
8a. Ele chegou muito perto de pintar o seguinte. Dois
estudos a óleo de 1818 − que, em relação a qualquer dos
esboços preparatórios, são os mais próximos da imagem final
em termos de composição, − mostram esta diferença
significativa: a embarcação para a qual estão acenando se
encontra muito mais perto. Podemos ver seus contornos, velas e
mastros. Ela está de perfil, na extrema direita da tela, e acabou
de começar uma viagem dolorosa pelo horizonte pintado. A
embarcação evidentemente não avistou a balsa ainda. O impacto
desses esboços preliminares é mais ativo, cinético: sentimos
como se os acenos frenéticos daqueles na balsa pudessem ter
algum efeito nos próximos minutos e que a pintura, em vez de
ser um instante no tempo, toma impulso para seu próprio
futuro, fazendo a pergunta: será que o navio vai passar da
margem da tela sem ter visto a balsa? Em contraste, a versão
final de Naufrágio é menos ativa, oferece uma questão menos
articulada. A sinalização parece menos perceptível e o acaso, do
qual depende o destino dos sobreviventes, mais aterrorizante.
Qual é a chance de resgate? Uma gota no oceano.
Géricault ficou oito meses em seu ateliê. Durante esse período,
desenhou um autorretrato, do qual nos encara com a expressão
taciturna, um tanto desconfiada, que os pintores com frequência
assumem quando estão diante de um espelho. Sentindo-nos culpados,
imaginamos que a desaprovação se dirija a nós, embora de fato ela se
volte para quem está sentado. Sua barba é curta, e um quepe grego
ornado com borlas cobre seu cabelo curto (só ouvimos falar de ter sido
raspado quando ele começou o quadro, mas o cabelo cresce bastante
em oito meses: quantos cortes extras foram necessários?). Ele nos dá a
impressão de uma figura de pirata, determinado e suficientemente
feroz para enfrentar, para abordar seu enorme Naufrágio. A extensão
das suas pinceladas, por sinal, é surpreendente. Com base na
amplitude de sua pincelada, Montfort supôs que Géricault usava
pincéis muito grossos; contudo eles eram bem pequenos em comparação aos de outros artistas. Pincéis pequenos e óleos espessos
que secam depressa.
Precisamos nos lembrar do pintor enquanto trabalhava. É uma
tentação normal esquematizar, reduzindo oito meses a um quadro
terminado e uma série de esboços preliminares; mas precisamos
resistir a ela. Géricault é bastante alto, forte e esbelto, com pernas
admiráveis, que foram comparadas com as do efebo contendo os
cavalos no centro de sua Corrida de cavalos selvagens (“Barberi Race”).
Diante do Naufrágio, ele trabalha muito concentrado e tem
necessidade de absoluto silêncio: o arrastar de uma cadeira é suficiente
para quebrar o fio invisível entre o olho e a ponta do pincel. Está
pintando suas figuras grandes diretamente na tela apenas com a ajuda
de um desenho de contorno. Quando o trabalho se encontra
semipronto, tem a aparência de uma fileira de esculturas penduradas
na parede branca.
Precisamos nos lembrar do pintor no confinamento de seu ateliê,
trabalhando, em movimento, cometendo erros. Quando conhecemos o
resultado final de seus oito meses, seu progresso na direção desse
resultado parece incontestável. Nós começamos com a obra-prima e
retrocedemos em meio às ideias descartadas e aos quase equívocos;
mas, para Géricault, as ideias descartadas começaram como
empolgação e só no final ele enxergou o que tomamos como
assegurado no início. Para nós, a conclusão era inevitável; não para ele.
Nós temos de dar espaço para o acaso, para a descoberta fortuita,
mesmo para o blefe. Só podemos explicar isso em palavras, mas
também temos de tentar esquecê-las. Uma pintura pode ser
representada como uma série de decisões enumeradas de 1) a 8a), mas
devemos entender que se trata apenas de anotações do sentimento.
Precisamos recordar nervos e emoções. O pintor não é transportado
de modo fluido pela torrente em direção ao reservatório ensolarado
daquela imagem terminada, mas está tentando seguir um curso em
mar aberto, cheio de marés contrárias.
Verdade em relação à vida? No começo, com certeza. Contudo,
uma vez que o progresso está em marcha, a verdade em relação à arte é
a devoção maior. O incidente nunca ocorreu tal como retratado; os
números são imprecisos; o canibalismo é reduzido a uma referência
literária; a imagem da dupla Pai e Filho quase não tem justificativa em
documentos, o grupo no barril não tem nenhuma. A balsa passou por
uma faxina como que para a visita de Estado de um monarca com
náuseas: as tiras de carne humana sofreram uma limpeza, e os cabelos
de todos são lustrosos como um pincel recém-comprado.
À medida que Géricault se aproxima de sua imagem final,
questões de forma predominam. Ele muda o foco, faz cortes, ajusta. O
horizonte é elevado e abaixado (se a figura acenando se encontra
abaixo do horizonte, toda a balsa é engolfada obscuramente pelo mar;
se ela ultrapassa a linha do horizonte, é como a elevação da esperança).
Géricault corta as áreas circundantes do mar e do céu, arremessando-
nos na balsa quer gostemos ou não. Ele aumenta a distância dos
náufragos até a embarcação de resgate. Ele reajusta as posições de suas
figuras. Com que frequência, em uma pintura, tantos dos principais
participantes têm as costas voltadas para o espectador?
E que esplêndida musculatura a dessas costas. Neste ponto,
ficamos constrangidos, mas não devíamos. Com frequência, a questão
ingênua se mostra fundamental. Então vamos lá, façamos a pergunta:
por que os sobreviventes parecem tão saudáveis? Admiramos o modo
como Géricault foi procurar o carpinteiro da Medusa e o fez construir
um modelo em escala da balsa... mas... mas, se ele se preocupou em
capturar de modo correto a balsa, por que não podia fazer a mesma
coisa com seus ocupantes? Podemos entender o motivo pelo qual ele
movimentou a figura que acena para uma vertical separada e também
acrescentou alguns cadáveres a mais para auxiliar a estrutura formal.
Mas por que todos – inclusive os cadáveres – parecem tão musculosos,
tão... saudáveis? Onde estão os ferimentos, as cicatrizes, a fadiga, a
doença? Há homens que beberam sua própria urina, mastigaram
couro de seus chapéus, consumiram seus próprios camaradas. Cinco dos quinze não sobreviveram por muito tempo após o resgate. Então
por que é que eles têm a aparência de quem acaba de sair de uma
sessão de musculação?
Quando as emissoras de televisão fazem dramas-documentários
que se passam em campos de concentração, o olho – ignorante ou
informado – é sempre atraído para aqueles figurantes de pijamas. Suas
cabeças podem estar raspadas; seus ombros, curvados e todos os
esmaltes de unha, removidos; no entanto discretamente eles pulsam
ali cheios de vigor. Enquanto os vemos entrar na fila, em cena, para
pegar um pote de aveia no qual um dos vigias cuspiu
desdenhosamente, nós os imaginamos fora de cena, regalando-se na
van de alimentação. Será que Cena de naufrágio prefigura essa
anomalia? Com alguns pintores, precisamos parar e pensar. Mas não
com Géricault, o retratista da loucura, de cadáveres e de cabeças
cortadas. Certa vez, ele parou na rua um amigo que estava amarelo
com icterícia e lhe disse como ele estava bonito. Um artista assim
dificilmente recuaria diante da carne no limite de sua resistência.
Então, vamos imaginar algo mais que ele não pintou – Cena de
naufrágio com o elenco redistribuído para os definhados. Carne
enrugada, feridas supurantes, rostos de campo de concentração: tais
detalhes nos comoveriam, sem problemas, até a piedade. Água salgada
se derramaria dos nossos olhos para corresponder à água salgada na
tela. Mas isso seria precipitado: a pintura estaria agindo em nós de
modo demasiadamente direto. Náufragos sem viço em trapos
esfarrapados encontram-se no mesmo registro emocional que aquela
borboleta, os primeiros nos impelindo a uma desolação fácil assim
como a segunda nos impele a uma consolação fácil. O truque não é
difícil de elaborar.
Todavia, a resposta que Géricault procura está para além da
piedade e da indignação, embora essas emoções possam ser apanhadas
no caminho como quem dá uma carona. Levando em conta o seu
tema, Cena de naufrágio é cheia de músculos e dinamismo. As figuras
na balsa são como ondas: abaixo delas, mas também por meio delas, surge a energia do oceano. Se elas fossem pintadas exaustivamente tal
como eram na vida real, seriam meros esguichos de espuma em vez de
condutos formais. Pois o olho é lavado – não aliviado, não persuadido,
mas levado pela maré – acima até o pico da figura que acena, e
descendo até o fosso do velho em desespero, passando pelo cadáver
jogado na parte frontal à direita, que faz a ligação com as marés reais e
vaza para elas. É porque as figuras são suficientemente robustas para
transmitir tal potência, que a tela desencadeia em nós emoções mais
profundas, submarinas, pode nos deslocar através de correntes de
esperança e desespero, elação, pânico e resignação.
O que aconteceu? A pintura escapou da âncora da história. Não se
trata mais de Cena de naufrágio, muito menos de A balsa da Medusa.
Não imaginamos apenas os cruéis desalentos na embarcação fatal; não
apenas nos tornamos os sofredores. Eles se tornam nós. E o segredo da
pintura se encontra no padrão dessa energia. Olhe para ela mais uma
vez: para a violenta torrente de água se formando através daquelas
costas musculosas enquanto elas tentam alcançar a pequena mancha
da embarcação de resgate. Toda essa tensão – para quê? Não há
nenhuma resposta formal para o principal vagalhão da pintura, do
mesmo modo como não há resposta para a maioria dos sentimentos
humanos. Não somente a esperança, mas qualquer anseio opressivo:
ambição, ódio, amor (em especial o amor) – quão raro é nossas
emoções encontrarem o objeto que parecem merecer? Como fazemos
sinais sem esperança; como é escuro o céu; como são grandes as ondas.
Nós estamos todos perdidos no mar, nas águas da esperança e do
desespero, acenando para algo que talvez não venha nos resgatar
nunca. A catástrofe se tornou arte; mas não se trata de um processo de
redução. Trata-se de libertar, expandir, explicar. A catástrofe se tornou
arte: é para isso, afinal, que serve a arte.
Três reações a Cena de naufrágio: a) Os críticos do Salon
reclamaram que, mesmo tendo familiaridade com os eventos a que a
pintura se referia, não havia nenhuma evidência interna a partir da
qual se confirmasse a nacionalidade das vítimas, os céus sob os quais a tragédia estava tendo lugar, ou a data na qual tudo estava acontecendo.
Esse era, é claro, o ponto.
b) Delacroix, em 1855, relembrou sua reação de quase
quarenta anos antes, à primeira vista da Medusa emergindo: “A
impressão que tive foi tão forte, que, enquanto deixava o ateliê,
comecei a correr e continuei correndo como um louco por todo
o caminho até a Rue de la Planche, onde vivia na época, no final
do subúrbio Saint-Germain.”
c) Géricault, em seu leito de morte, em resposta a alguém
que mencionou a pintura: “Bah, une vignette!”
E aqui está o que temos – o momento de suprema agonia na balsa,
absorvido, transformado, justificado pela arte, convertido em uma
imagem tensionada e medida, e então polida, emoldurada,
envidraçada, exposta em uma famosa galeria de arte para iluminar
nossa condição humana, fixa, final, sempre ali. É isso o que temos?
Bem, não. Pessoas morrem, balsas apodrecem; e obras de arte não são
isentas disso. A estrutura emocional da obra de Géricault, a oscilação
entre esperança e desespero, é reforçada pelo pigmento: a balsa
contém áreas de iluminação brilhante em violento contraste com
pedaços da mais profunda escuridão. Para tornar a sombra tão preta
quanto possível, Géricault utilizou betume em quantidade suficiente
para conseguir a obscuridade bruxuleante que ele procurava. Betume,
entretanto, é quimicamente instável, e desde que Luís XVIII
examinou a obra, uma decadência lenta e irreparável da superfície
pintada foi inevitável. “Tão logo chegamos a este mundo”, disse
Flaubert, “pedaços de nós começam a se desprender.” A obra-prima,
uma vez completada, não para: ela continua em movimento, ladeira
abaixo. Nosso maior especialista em Géricault confirma que a pintura
é “agora em parte uma ruína”. E talvez, se eles examinarem a
moldura, cheguem a encontrar ali larvas que perfuram a madeira.