Mantendo um olho aberto
Braque: o coração da pintura
Eles eram amigos, companheiros, pintores camaradas
comprometidos com o que era, no início do século XX, a forma mais
nova e mais provocadora de arte. Braque era exatamente o mais jovem,
mas havia pouca presunção de superioridade por parte do outro. Eles
eram coaventureiros, codescobridores; pintavam lado a lado, com
frequência, o mesmo tema, e a obra deles era, às vezes, quase
indistinguível. O mundo era jovem, e seus futuros estavam diante
deles.
Você deve sentir pena de Othon Friesz, o companheiro de Braque
em Le Havrean e seu leal confederado no fauvismo, seu proto-Picasso.
Enquanto Braque seguiu adiante com seu novo amigo espanhol para
produzir a maior das rupturas na arte ocidental em vários séculos, e o
cubismo relegou o fauvismo a uma recordação vistosa, Friesz teve que
continuar com o resto da sua vida e o resto da sua carreira.
Estranhamente, a primeira mostra conjunta dos dois pintores foi
póstuma, um século depois que eles tinham parado de trabalhar
juntos. A exposição, em 2005 no Museu de Lodève no Languedoc,
revelou-se uma demonstração de crueldade não intencional. Os
quadros fauve mais envolventes eram todos de Braque; mas enquanto
esse era apenas um estágio em seu desenvolvimento (embora
relembrado com afeto – cinquenta anos depois ele compraria de volta
seu próprio Pequena baía em Ciotat), a obra fauve acabou sendo o que
Friesz fez melhor. Posteriormente, ele desviou-se por vários estilos,
inclinando-se mais e mais para o gesto vazio e magniloquente – um
pintor gritando para não ser esquecido.
O fauvismo era todo a respeito do calor; e, por mais que as
descobertas emocionantes dos dez anos subsequentes tenham sido
sobre forma e cor – sobre a forma se afirmando sobre a cor ou,
melhor, a cor se contendo a serviço da forma –, a jornada para o
cubismo analítico e depois sintético também termina em termos de temperatura. O fauvismo é todo de rosas e malvas, com azuis
berrantes e laranjas hilários: o sol é feroz, independentemente do que
o céu no quadro possa simular. Nas pinturas que Braque fez em
seguida, em L’Estaque e La Roche-Guyon, em 1908, você pode sentir
o calor escorrendo para fora do quadro: aqui se encontram ricos
marrons, verdes e cinza. Mas a cor era considerada suspeita pelo
cubismo clássico: ela era “anedótica”, era brusca, carregava
informação demais, ela distraía da busca pela forma. Então ela tinha
de ser compelida para a linha – literalmente: aquela velha batalha
francesa entre cor e linha estava agora ganhando um novo turno. Por
volta de 1910-11, você podia ter qualquer cor que quisesse, contanto
que fosse cinza, marrom ou bege.
A grande ruptura de Braque foi em L’Estaque, e não depois: com
pinturas que absorveram tudo o que Cézanne tinha ensinado, e foram
além, culminando em seus quadros das fábricas do Rio Tinto, que nos
lançam inteiramente no cubismo. Esses quadros são tão espantosos,
que quase negligenciamos a outra mudança súbita, de temática: uma
“paisagem” da Provence pode igualmente ser composta de uma vista
deslizante, desviante, de telhados de fábrica. E, a partir daí, aquilo
tudo parece tão inevitável: que Braque, retornando de L’Estaque, iria
combinar com Picasso de levar adiante as grandes descobertas. Os
dois, na formulação de Braque, “como escaladores presos por uma
corda em uma montanha”: e as palavras que ele rabiscou em um
cartão de visitas que deixou com o espanhol – “memórias
antecipadas” – soam como uma predição confiante de uma associação
pela vida toda.
Naquele tempo, o quanto ela deve ter parecido incerta: quem
poderia dizer se o cubismo – intitulado assim, de modo zombeteiro,
por seus detratores – não acabaria sendo mais uma fase passageira?
Esses novos pintores não eram como seus antecessores imediatos, que
tenderam a jogar fora as convenções pictóricas predominantes,
desenvolver sua própria maneira de ver e então mais ou menos aderir
a ela. A nova turma era constante e freneticamente metamórfica, e ninguém mais do que Picasso. O fauvismo era como que um
aeroporto com múltiplos destinos. Alguns anos antes, o Courtauld
Institute fez uma pequena mostra de uma dúzia de obras pintadas por
Derain em Londres, em 1906. Elas apresentavam a cidade em cores
mais lisonjeiramente – alarmantemente – vívidas do que qualquer um
já lhe havia concedido. Mas, enquanto as duas primeiras eram em
uma versão ousada, neopontilista, do fauvismo, as outras dez eram em
um estilo bastante diferente, mais maciço em forma, mais sólido em
suas pinceladas. Por que o cubismo não se tornaria também uma fase
passageira? O quanto ele tinha pra mostrar?
Fábricas do Rio Tinto em L’Estaque por Braque
Acontece que não era apenas uma questão de
estilo, mas também de tripulação. Quem estava
a bordo, quem tinha reservado apenas o passeio
em torno da baía, e quem estava ali para a
viagem completa? Também em L’Estaque, em 1908, encontrava-se Raoul Dufy, pintando em
um estilo tão radical quanto o de Braque (suas
Arcadas são algo admirável, enquanto seus
Azulejos e Barcos têm a dura eclosão de um
nariz de Picasso). O que aconteceu com Dufy
para ele acabar se tornando um artista de
trabalhos decorativos rebuscados, cujas pinturas
não acrescentavam nada a seus cartões-postais?
E havia outras maneiras como a viagem do
cubismo poderia terminar. Braque foi dado
como desaparecido em Somme, em maio de
1915; quando encontrado, ele estava cego. E se a mão do cirurgião que operou sua cabeça tivesse
vacilado? E se, como seu companheiro de
infortúnio Apollinaire, ele tivesse sobrevivido à
cirurgia apenas para ser vitimado pela grande
epidemia de gripe de 1918? Será que Picasso,
sem o companheirismo de Braque, sem a
necessidade de rivalizar com ele, de lutar e
superar, teria seguido o curso que seguiu?
A história da arte recebida por nós tende a negligenciar essa
variabilidade, as hipóteses que nunca ocorreram. Nós também
esquecemos facilmente que uma grande e séria aventura artística ainda
pode ter começado com um forte componente de divertimento: vejam
a Bauhaus. Velhos artistas se tornam solenes quando celebrados por
críticos jovens, e podem não se lembrar da alegria, da jocosidade, do
risco e da dúvida presentes em seus dias de juventude.
O cubismo era uma reinvenção profunda de como vemos e do que
nós vemos; era, conforme Picasso declarou a Françoise Gilot, “uma
espécie de experimento de laboratório do qual qualquer pretensão ou
vaidade individual estavam excluídas”; era uma busca eventualmente
malsucedida pelo que Braque chamava de “a personalidade anônima”,
com a qual a pintura existiria por si e para si, sem assinatura e sem
ego. Era tudo isso, e tudo associado a uma mentalidade tão elevada
assim; mas também era algo pessoal, uma brincadeira, algo sociável.
Era Braque provocando (e agradando) o vistoso Picasso ao comprar
para ele cem chapéus em um leilão em Le Havre; era Buffalo Bill e “Pard”, como Picasso assinava; era Braque como “Wilbourg”, a versão
por Picasso de Wilbur Wright, cuja máquina de voar era um análogo
(ou contrário) das pioneiras – e perdidas – esculturas em papel de
Braque de 1911-12. Era avaliar os quadros pelo fato de eles se
encaixarem na categoria “Louvre” ou na categoria “Dufayel” (sendo
Dufayel uma loja de departamentos que vendia imitações de
aparadores Henri II). Esse último termo era mais elogioso do que
pode parecer. “Eles querem arte”, Picasso iria lamentar no final de
seus dias. “Uma pessoa tem que saber como ser vulgar.”
O lado brincalhão e improvisador do cubismo é mais evidente na
obra de Picasso do que na de Braque: nos trocadinhos visuais, nas
esculturas engraçadas, nos pequenos quadros de praia em que o pintor
simplesmente vira do avesso a tela emoldurada e trabalha no declive
da parte de trás com areia; também na autorrepresentação – Picasso
em uma mesa de restaurante com rolos de pão no lugar dos dedos,
trabalhando em ateliê aberto, sendo interminavelmente fotografado,
atuando como o grande artista, agindo como uma celebridade da
maneira banal com que o público entende. Você pode ficar tentado a
concluir, à medida que a carreira deles evolui, que Picasso ofuscou
Braque, assim como Braque tinha ofuscado Friesz. Você pode até
mesmo ficar tentado a sentir pena de Braque; mas isso seria um erro.
Picasso queria fazer tudo e ser tudo. Braque sabia que não podia fazer
tudo e não queria ser tudo. Ele reconhecia suas limitações técnicas
desde o início: seu desenho era pobre, suas representações de figuras
eram malsucedidas, sua estatuária, lumpen. Tendo facilidade em
demasia, o artista pode se apaixonar por sua própria virtuosidade;
tendo facilidade de menos, um “Wilbourg” não sairá do chão. E,
mesmo quando você pode identificar suas próprias fraquezas, há uma
escolha a ser feita: a escolha aparentemente mais sensível de tentar
erradicá-las, ou a abordagem mais radical que Braque adotou, de
ignorá-las. “O progresso na arte”, ele escreveu, “não consiste em
expandir as suas limitações, mas em conhecê-las.” De modo mais
simples: “Eu não faço como quero, faço como posso.” Nisso, ele se parecia com Redon, que também decidiu tornar sua fraqueza ao
pintar a figura humana uma espécie de força.
Além disso, Braque tinha uma habilidade singular para não ser
distraído pela arte de que ele não tinha necessidade, a fim de fazer a
sua. Seus mestres eram Chardin e Corot; ele admirava Uccello; seu
pintor favorito era Grünewald – e em geral era isso, com relação à arte
ocidental. Ele detestava a Mona Lisa, como muitos detestavam, por
sua ascendência simbólica. Em uma visita à Itália, ele declarou que
“estava por aqui” com o Renascimento – embora não pareça haver
muita evidência de uma prévia dedicação excessiva. Ele não gostava de
museus, preferindo se sentar do lado de fora e mandar Madame
Braque entrar para ver se havia alguma coisa digna de ser observada (o
que soa como uma instrução com expectativa de receber a resposta
não). Às vezes isso parece beirar a afetação: quando o Tate fez uma
mostra Braque-Rouault, em 1946, ele escolheu ir no dia do
encerramento – em vez de ir no dia de abertura, ou em qualquer
outro.
Ele pintava. Era isso o que fazia. Ele pintava relevo sem
perspectiva. Pintava formas que avançavam em direção ao espectador,
em vez de retroceder. Não pintava objetos, pintava o espaço e então o
guarnecia. Encontrava-se tão perto da terra, que por vinte anos não
pintou o céu. Ele disse ao arquiteto que projetou sua casa em
Varengeville para não usar vidro de melhor qualidade, porque queria
que a visão pela janela fechada fosse diferente da vista pela janela
aberta. Ele evitava todos os símbolos. Começou com a cor
desordenada, gradualmente destacou a cor da forma, e então,
lentamente, a partir de 1920, pôs a cor de volta, junto com a forma,
mas nos seus próprios termos. Da mesma maneira, ele começou com
temas identificáveis, cubificou-os até estarem além do alcance do
reconhecimento e depois gradualmente os tornou identificáveis de
novo, mas nos seus próprios termos. Em uma carreira muito longa, ele
teve períodos mais fracos, e suas pinturas maiores tendem à diluição,
mais do que à monumentalidade; mas ele nunca se desgarrou de seus princípios, nem interrompeu sua busca – nos anos 1950, ele fez uma
sequência completamente original de paisagens em forma de caixa de
correio, com cores subitamente ricas. Picasso disse que Braque não era
“suficientemente dominante” para pintar um retrato, uma observação
que talvez seja mais reveladora a respeito de Picasso. Braque pensava
que seria o ideal alcançar um estado no qual nós não dizemos mais
nada quando estamos diante de uma pintura. Ele sabia que um falso
Braque era falso porque ele era “belo”. Nós podemos nos sentir
maravilhados e amedrontados por Picasso, podemos nos submeter à
sua arte e sucumbir, como muitos fizeram em relação à sua
personalidade. Mas amá-lo? Difícil. Braque é um pintor e uma
personalidade (amplamente escondida) para a qual admiração e
respeito são imediatos, e o amor não vem muito atrás.
Tanto em sua vida quanto em sua arte, ele demonstrou a mesma
constância, a mesma eliminação do indesejado, o mesmo compromisso
e certeza. Quando os alemães invadiram a França em 1940, Braque
tinha 58 anos. Seu tempo de serviço na Segunda Guerra Mundial foi
tão discretamente heroico quanto na Primeira. Os alemães foram
espertos e lisonjeiros e aliciavam importantes figuras culturais, então
era preciso resistir a eles não só com senso moral, mas também com
uma inteligência tática. Em uma noite de inverno, dois oficiais
alemães chegaram ao ateliê de Braque e fizeram conjecturas, em voz
alta, a respeito de como um grande pintor podia trabalhar em
condições tão congelantes. Eles gostariam de saudar o gênio do artista
enviando-lhe dois carregamentos de carvão. A resposta de Braque foi
perfeita: “Não, obrigado”, ele disse. “Pois se eu aceitasse, não seria
mais capaz de falar bem de vocês.”
Em 1941, os invasores persuadiram um grupo de artistas franceses
a visitar a Terra Pátria. Alguns de seus recursos de persuasão, como a
oferta de combustível, eram obviamente equivocados; outros, como a
promessa de libertar prisioneiros de guerra franceses, colocavam seus
convidados num dilema. E aqui Othon Friesz entra novamente na
história. Ele concordou em ir, assim como fizeram Derain, Vlaminck, Van Dongen e Dunoyer de Segonzac. A foto tirada deles na
plataforma da Gare de l’Est – ladeados de oficiais germânicos
triunfantes – está impregnada de inquietação e má-fé. O único
comentário público de Braque acerca da viagem foi adequadamente
consciente do dilema: “Felizmente, minha pintura não agradou. Eu
não fui convidado. Do contrário, talvez eu tivesse ido, em função das
libertações prometidas.” Após a Liberação, Picasso, embora não fosse
cidadão francês, assumiu a cadeira de um Front National des Arts,
órgão que enviou para as autoridades uma lista de colaboracionistas,
requerendo sua prisão e julgamento. Em junho de 1946, 23 pessoas
foram sancionadas por um tribunal purificador, e Friesz, Vlaminck,
Derian e Van Dongen receberam um ano de banimento. Braque não
se uniu aos pedidos públicos por épuration (como, em qualquer caso,
você pode “purificar” com um banimento de um ano?), mas sua
sanção individual foi mais condenadora e mais definitiva. Ele rompeu
relações com Friesz e Derain; e, quando encontrou Van Dongen em
Deauville, não trocaram nenhuma palavra sequer.
A autoridade moral era maior por não ser anunciada
publicamente. Havia alguma coisa a respeito da tranquilidade de
Braque, de seu silêncio, seu compromisso artístico, que
involuntariamente desmascarava homens e mulheres menos elevados.
Essa autoridade, enfim, vem das próprias pinturas: o senso de forma,
de harmonia, de equilíbrio da cor – a seriedade da fidelidade à
natureza, e da fidelidade à arte – tem um suporte moral. E Braque se
tornou, com o passar dos anos, uma reprovação viva dirigida à
vaidade, à pompa, ao charlatanismo. Gertrude Stein, para quem
apenas espanhóis podiam ser cubistas – e que posteriormente se
ofereceu para traduzir os discursos de Pétain –, escreveu um “retrato
falado” de Braque à sua maneira mais leve de pura tagarelice. (Talvez
o texto tivesse a intenção de ser prosa cubista. Se for assim, uma má
ideia – pinceladas podem evitar o representacionismo, mas palavras
fazem isso por sua conta e risco.) Cocteau, que teve a sorte de escapar
da épuration, tratou Braque com condescendência por ter o “gosto perfeito de um pobre chapeleiro” – observação digna de um esnobe
afetado. Um esnobismo similar está implícito no manifesto purista de
Le Corbusier: ele e seu comanifestante Amédée Ozenfant dispensam
soberbamente “simples pinturas feitas por pintores-decoradores
cativados pela forma e pela cor”. Que descrição de um pintor seria
mais desejável, você pode pensar, do que esta de alguém “cativado
pela forma e pela cor”? E então, temos o nosso próprio Bruce
Chatwin, que, aos vinte anos de idade, na condição de courier da
Sotheby’s, foi recebido por Braque quando um colecionador
conhecido queria a autenticação de um desenho. A cada vez que
Chatwin reciclava a anedota, sua própria participação aumentava
gloriosamente.
Esses são encontros reveladores, que confirmam o pintor como o
equivalente moral de um norte magnético (um norte de verdade
também, aliás). Mas o principal encontro foi sempre com Picasso. O
espanhol gostava de dizer que levou Braque para a estação em
Avignon, em 1914, e nunca mais o viu. Isso não era mais do que a
negação exasperada de uma verdade óbvia: a de que “memórias
antecipadas” era uma predição exata e que os dois – amarrados juntos
em uma montanha – permaneceriam nos pensamentos e nos ateliês
um do outro até a morte. Às vezes é espantoso que dois grandes
artistas, tão indistinguíveis esteticamente no momento mais elevado
do cubismo, possam ter sido tão radicalmente diferentes em termos de
temperamentos, crenças, política, hábitos pessoais e táticas sociais.
Quando você lê sobre a conduta de Picasso para com os meros
mortais, você algumas vezes fica pensando se “meros mortais” chega a
ser um termo apropriado: ele combinava a implacabilidade de um
Wunderkind com a obstinação e a vaidade de um deus. Ele era como
um daqueles velhos habitantes do Olimpo cujas intervenções abruptas
nos afazeres humanos são puramente egoístas e deliciosamente
manipulativas. O fato de alguém ser um amigo ou uma amante apenas
aumentava o valor da aposta. Como Françoise Gilot observou: “seus
truques mais baixos eram reservados para aqueles de quem mais gostava.” Braque era um dos poucos – sendo a própria Gilot outro
exemplo – que conseguia resistir a Picasso. Silêncio e recuo eram as
principais táticas de Braque, o que evidentemente exasperava Picasso
ainda mais. Um dos mais importantes intercâmbios não
documentados ocorreu quando Picasso passou uma semana, em 1944,
tentando persuadir Braque a entrar para o Partido Comunista. Braque
recusou, assim como fez com uma segunda abordagem feita por
ninguém menos do que Simone Signoret (pressinto um jogo com três
participantes).
Braque era como um castelo no alto de uma colina que Picasso
estava constantemente sitiando. Ele investe contra, bombardeia, mina,
assalta – e, a cada vez que a fumaça baixa, o castelo continua tão sólido
quanto sempre foi. Frustrado, ele declara que aquela colina não tem
mesmo nenhum interesse estratégico. Braque, ele diz, tem apenas
“charme”; retornou para a “pintura francesa”, tornando-se “o
Vuillard do cubismo”. Ele diz a Braque que seus quadros estão “bem
pendurados”. Braque responde que as cerâmicas de Picasso estão
“bem cozidas”. Muitas vezes é o lacônico, e não o volúvel, quem
ganha batalhas verbais. As palavras de Picasso com frequência surgem
do fato de ele não conseguir impor ao outro sua maneira de ser a
respeito de algo que não seja a arte; ou isso, ou como um recurso para
bancar o líder de torcida das picassomaníacas. As palavras de Braque
parecem mais ponderadas, têm mais a ver com a arte e portanto são
mais mortíferas. Palavras como “talento” e “virtuoso” possuem uma
afiação extra em sua boca. Suas respostas culminam em uma famosa
observação: “Picasso costumava ser um grande pintor. Agora ele é um
mero gênio.” Isso implica a ideia que o público faz de um gênio,
alguém proteico e industrialmente produtivo, cuja vida privada é
também um circo publicitário.
Eles não foram os primeiros nem os últimos “parceiros” a romper
relações, e a dar a quem é maliciosamente indiferente uma tarde de
prazer. Mas, ao contrário de outras rupturas (aquela de Truffaut e
Godard, por exemplo, que foi rancorosamente definitiva), a de Picasso e Braque foi complicada e contínua, em vez de conclusiva. E, embora
Picasso possa parecer o mais poderoso, e certamente fosse o mais
famoso, é ele quem dá a impressão de ser o suplicante, o mais
dependente, em suas relações. Era Picasso quem reclamava de ser
negligenciado e insuficientemente visitado; era Picasso quem levava
suas novas namoradas para a aprovação de Braque. E, em suas vidas
de trabalho, foi Picasso quem aprendeu com Braque como obter as
cores desejadas e como fazer seus papiers collés ficarem colados; foi
Picasso quem foi levado a novos desafios pelo trabalho de Braque (os
Ateliês de 1949-56 provocaram as variações de Las Meninas); foi
Picasso quem sugeriu, em meados dos anos 1950, que eles dois
voltassem a colaborar, assim como tinham feito quase uma vida antes
– outro convite que Braque recusou.
René Char os chamava de Picasso e anti-Picasso; mas, quanto mais
você os observa, mais eles se tornam Braque e anti-Braque. O Braque
lento, silencioso, autônomo, magistral; o anti-Braque mercurial,
barulhento, volumoso, virtuosístico. O Braque buscando seu próprio
caminho, conhecido, “limitado”; o anti-Braque furiosamente
metamórfico. O Braque sendo rural, doméstico e afeiçoado à mulher;
o anti-Braque sendo cosmopolita, voraz e dionisíaco. Não se trata de
um ou/ou, trata-se mais de um e/também: há diferentes modos de ser
um gênio, seja essa palavra carregada demais ou não. Todavia, também
é salutar inverter a ordem tradicional de expressão e escrever, como
faz Alex Danchev em sua maravilhosa biografia de Braque, que o
“período Braque” de Picasso foi “o mais concentrado e produtivo de
toda a sua carreira”.
No entanto, há um perigo em atribuir santidade a Braque. Jean
Paulhan escreveu que ele era “reflexivo, mas violento”. Ele foi
prejudicial a Juan Gris, recusando-se a expor suas obras na mesma
sala; ele certa vez bateu em seu ex-marchand no Hotel Drouot –
admite-se que os motivos pareciam razoáveis. Ao mesmo tempo em
que depreciava o período “Duquesa” de Picasso com suas roupas
extravagantes e de baile, Braque era também, de modo mais sóbrio, um sujeito bastante vistoso no vestir: em suas raras viagens a Londres,
ele não se dirigia à National Gallery, mas seguia para a casa do sr.
Lobb, o fabricante de botas. Ele tinha predileção por carros velozes e
caros, tanto para dirigir quanto para ser levado para os lugares: assim
como Picasso, ele tinha um chofer uniformizado. Ele apreciava comer,
embora ocasionalmente fosse acometido de puritanismo: em um
passeio por restaurantes três-estrelas de Paris com o pintor Umberto
Stragiotti, ele foi um estraga prazeres para seu companheiro de
viagem, ao devorar a comida depressa demais. Antes de fazer a sua
primeira ligação telefônica transatlântica, Braque penteou o cabelo.
Uma reação estranha – isso era vaidade ou modéstia? (Talvez não tão
estranha: uma vez, eu vi um jornalista de arte do Sunday Times ficar de
pé quando o telefone em sua mesa revelou que tinha do outro lado da
linha Lord Snowdon.) Essas são distrações passageiras e
humanizadoras. O que impactou muitas pessoas que encontraram
Braque foi a completude, a integridade da sua personalidade e ainda a
integração daquela personalidade com sua arte. Françoise Gilot disse:
“Tudo de Braque estava sempre lá.” Miró disse que ele era “um
modelo para tudo o que é habilidade, serenidade e reflexão”. Para o
jovem John Richardson, ao visitar o ateliê do pintor pela primeira vez:
“Senti que tinha chegado ao coração mesmo da pintura.” É disso,
finalmente – e primeiramente –, que vem a sua autoridade. Nunca
existe o perigo de que a vida de Braque se sobreponha a seu trabalho;
de fato, uma vida assim é vivida ao máximo quando está fazendo
aquele trabalho. Há pouca fofoca em torno da existência de Braque,
porque ele provocava e fornecia pouco (ele voltou da Primeira Guerra
Mundial com apenas um “relato de guerra”). Georges e Marcelle
Braque “foram completamente fiéis um ao outro por mais de
cinquenta anos”. Duncan Grant teve tanta dificuldade para entender
essa união do casal que concluiu que ela devia derivar de uma paixão
pelo mar compartilhada pelos dois. Quando Mariette Lachaud se
juntou à família em 1930, aos dezesseis anos (sua mãe era a cozinheira
de Braque), você poderia pensar que o futuro do casamento seria um clichê. Mas, como aponta Alex Danchev, ela “era tão casta quanto
devotada”, evoluindo de “assistente de ateliê para enfermeira e
documentarista fotográfica – nunca para amante”.
Georges Braque, artista, e sua esposa, Paris, 27
de janeiro de 1959, por Richard Avedon Isso é,
na verdade, mais interessante biograficamente
do que as narrativas e pistas usuais de camas
compartilhadas por artistas. Minha mulher,
antes de me conhecer, manteve por muito
tempo em sua lembrança duas imagens
importantes da vida conjugal: estátuas
matrimoniais de túmulos etruscos e o retrato de Avedon do casal Braque em idade avançada – ele
sentado, sorrindo, ela apoiada em seu ombro. (É
uma coincidência interessante o fato de que o
teto pintado por Braque no Louvre – a única de
tais encomendas que ele chegou a aceitar –
tenha sido para o salão etrusco.) Marcelle
Braque era ainda mais discreta do que seu
marido e deixou poucos vestígios; ela era
aparentemente “uma verdadeira mulher do
povo”; também culta, religiosa e perspicaz. Ela
certa vez advertiu Nicolas de Staël: “Tome
cuidado – você combateu a pobreza, tudo bem,
mas você tem a força para combater a riqueza?”
Contam-nos que ela costurou a mortalha de
Modigliani.
“A única coisa que importa na arte é o que não pode ser
explicado”, Braque escreveu. E: “Como alguém vai falar sobre cor?...
Aqueles que têm olhos sabem o quanto as palavras são irrelevantes em
relação ao que eles veem.” E mais: “Definir uma coisa é substituir a
definição pela coisa.” Da mesma maneira, escrever uma biografia é
substituir a vida escrita pela vivida. Isto pode ser um negócio
inadequado, na melhor das hipóteses, mas possível, desde que a
verdade moral braqueana esteja por perto. O pintor abordou a morte
como fez com a vida: “sempre ali”, nas palavras de Gilot. Perto do
fim, ele pediu sua paleta. As cores presentes nela foram depois listadas
pelo crítico Jean Grenier: ferrugem ao natural, ferrugem queimada,
siena ao natural, siena queimada, ocre amarelado, preto carbono, preto
de vinha, preto de carvão de osso, ultramarino, amarelo alaranjado e
amarelo antimônico. Braque morreu “sem sofrer, calmamente, seu
olhar fixo até o último momento nas árvores do jardim, cujos galhos
mais altos estavam visíveis a partir da grande janela de seu ateliê”.