Mantendo um olho aberto
Oldenburg: boa e leve diversão
O tempo obteve algumas vinganças amáveis em relação a Claes
Oldenburg desde que ele ganhou notoriedade; nada muito selvagem, é
claro, só uns poucos beliscões afetuosos. O rebelde cujo manifesto de
1961 proclamava, valentemente, uma arte “que faz alguma coisa
diferente de sentar na própria bunda em um museu” agora tem
retrospectivas sedentárias e turnês de museu em cinco cidades. “Sou a
favor de uma arte na qual você possa se sentar em cima”, ele
continuava. No entanto, qualquer nostálgico frequentador de
exposições que tratasse suas esculturas em forma de poltronas moles
como verdadeiras poltronas moles dos anos 1960 logo teria problemas
com os vigias. Naquela época, ele exigia ainda “uma arte que seja
posta e tirada como calças... que seja comida, como um pedaço de
torta, ou abandonada com grande desprezo, como uma porção de
merda” – um anseio por desmistificação e disponibilidade que agora
dá de cabeça contra avisos conservadores como: “Por favor, não toque
nas obras de arte nessa exposição. Muitas delas são extremamente
frágeis.”
Claro que é um tanto injusto pegar a profession de foi de um artista
e compará-la com a arte realmente produzida. Manifestos são sobre o
passado, sobre o que é questionado e sobre aquilo que gera uma
reação, mais do que sobre um conjunto de promessas confiáveis acerca
do trabalho futuro. A maior parte daquela posição adotada em 1961
deveria ser tratada como uma espécie de vaga efusão ginsbergiana.
Seria uma crítica grosseira e destituída de poesia comparar a assertiva
de Oldenburg de que “sou a favor de uma arte que ajude velhinhas a
atravessar a rua” com a estatística oficial de velhinhas que foram
ajudadas a atravessar a rua pela oeuvre subsequente. Não, deveríamos
ler tais afirmações de maneira tão solta quanto a que elas foram
escritas: Oldenburg é “a favor” da arte, e ele é “a favor” de ajudar velhinhas a atravessar a rua. Quem iria recusar alguma dessas
predileções?
Mais duradoura, e mais enganadora, é sua assertiva grandiosa feita
naquela mesma época, segundo a qual sua arte era para ser “político-
erótico-mística”. Marcuse certa vez objetou que, se qualquer um dos
monumentos-fantasias de Oldenburg fosse efetivamente realizado,
seria um “expediente sem derramamento de sangue para chegar à
mudança revolucionária”, e um sinal seguro de que “esta sociedade
chegou a um fim”. Bem, algumas dúzias de colossos brincalhões
foram agora erigidos (patrocinados por bancos alemães e outras de tais
corporações revolucionárias), e a sociedade permanece
consideravelmente inalterada. Na verdade, a obra de Oldenburg é
aproximadamente tão política quanto um cachorro-quente e tão
mística quanto um aspirador de pó. Quanto a ser “erótica”: a forma
humana e as relações humanas estão completamente ausentes de
quase todas as suas obras. Existe uma linha crítica, afagada pelo
próprio artista, asseverando que a ausência do corpo humano prova
que as esculturas estão realmente cheias de erotismo fervilhante
(coisas grandes e duras como pênis eretos, outras coisas macias e
molhadas com buracos nelas); mas isso é apenas conversa de
vendedor. Se você prestar atenção nos “desenhos de fantasia erótica”
que Oldenburg exibiu em 1975, eles são muito mais fantasiosos do
que eróticos. Uma figura comum era a mulher de seios grandes com
um pau monstruoso enfiado em sua boca: em outras palavras, um
“objeto impossível” do tipo que ele devotou a maior parte de sua vida
a criar em forma tridimensional.
Então vamos substituir “político-erótico-mística” por, digamos,
“demótico-plástico-jovial”. Menos grandioso, é claro; mas, por outro
lado, o pior que alguém pode fazer com a Pop Art não é descartá-la,
mas sim carregá-la com uma intenção exorbitante. Tome-se como
exemplo o bem conhecido monumento proposto por Oldenburg para
o Central Park: um monstruoso urso de pelúcia sentado de bunda no
chão. É um golpe divertido pôr um item de quarto de criança provocativamente no meio da cidade menos inocente do mundo. Mas
isso não é o suficiente para o artista, que reivindica a imagem como
“uma encarnação da consciência branca; e como tal ela fixa a Nova
York branca com um olhar acusador vindo do Harlem... Eu escolhi o
brinquedo como efeito ‘amputado’ das patas do urso – a falta de mãos
significa a frustrante falta de instrumentos da sociedade”. Será que
alguém precisa apontar o fato de que o monumento só transmitiria
qualquer coisa parecida com essa mensagem aos habitantes de
Manhattan se ela estivesse escrita, com letras grandes, em uma placa
aos pés do urso? E será que alguma coisa se parece mais com um
exemplo de um intento artístico ex-post-factum?
Monumento Colossal proposto ao Central Park
North, N.Y.C. – Urso de pelúcia por Oldenburg
Oldenburg pode ter começado como um boêmio, um rebelde dos
anos 1960, um organizador de happenings; mas sua transição para
artista de museu e escultor público não poderia ter sido mais rápida ou mais necessária. Olhar para trás, para as fotografias da arte de
performance (nota-se o público badalado reagindo com um deleite
cercado de boas maneiras, sem se sentir ameaçado), ou sentar para
assistir às pilhérias do filme caseiro hippie Birth of the Flag, ou ao
surrealismo sub-sub-Buñuel de Photodeath, é ficar consternado com
os valores da produção (parte da questão, sem dúvida), mas é
principalmente se entediar de modo estúpido com as derivações da
imaginação. Esse lado de Oldenburg se prolongou, embora ele
soubesse desde o início que estava condenado. “Se ao menos eu
pudesse esquecer inteiramente a ideia de arte”, ele meditou em 1961.
“Não acho que você possa vencer. Duchamp acabou sendo rotulado
como arte também... Possivelmente a arte está condenada a ser
burguesa.”
A arte de Oldenburg é fundamentalmente democrática – e a
democracia é uma das noções mais burguesas que há. Com
Oldenburg, você não precisa saber muito sobre arte para saber do que
você gosta nela. Em suas primeiras manifestações, ela criava seus
próprios objetos e transmutava entulhos, valorizando o transitório, o
descartável, o ready-made: as influências eram Duchamp como teórico
e Dubuffet como realizador. Havia uma consumibilidade fácil naquele
tempo, e uma jocosidade inerente e única: é ironicamente típico o fato
de que o saboroso acabamento de suas primeiras esculturas de
comidas seja o resultado de elas ganharem coberturas feitas com
ferramentas genuínas de decorar bolos.
Gradualmente, a arte se torna mais bem-feita, mais obviamente
destinada a agradar, e o acabamento vai exercer um papel fundamental
de seu apelo primário (e o que poderia ser mais burguês, mais vitrine,
do que isso?). Contudo o que esta arte pretende – tornar o macio
duro, o duro macio, fazer a coisa de tamanho normal grande, vasta ou
colossal – permanece democraticamente fácil de acompanhar. Nossas
expectativas visuais e nosso conhecimento sensorial são sabidamente
questionados: os picolés mordidos feitos na pelúcia de invólucros para
garrafas térmicas; a tomada de madeira de cerejeira e seu duplo de vinil bambo; a luva de beisebol em aço e couro com a bola de madeira.
Os recursos escolhidos e a maneira de dispô-los são, com frequência,
algo genuinamente engenhoso. Assim, Cargueiro e veleiro (flexíveis e
reduzidos) são fixados a uma linha de varal, como se fosse para secá-
los, retirando deles o elemento em que prosperam; já Bateria mole
gigante oferece todos os elementos de uma bateria que um músico
poderia tocar, com exceção da própria tensão que faz de uma bateria
uma bateria.
Quando Oldenburg se decide pela mera ampliação, os resultados
são comparativamente insípidos: um Aspirador de pó com o dobro do
tamanho (mesmo se ele estiver propondo, ou for construído para
propor, um questionamento socioeconômico sobre a natureza
monstruosa do trabalho doméstico) não deixa de ser só um aspirador
de pó com o dobro do tamanho. Suas obras de arte melhoram quando
despertam algum paradoxo ou enigma visual (cadarços de batatas
caindo de um saco muito pequeno para contê-las); melhoram ainda
mais quando a forma dos objetos entra em colapso em função da
moleza do material, de modo a sugerir um item ou ambiente
totalmente diferentes. Um telefone público se dobra em um saco de
golfe, o fone como um par de coberturas de tacos; um mapa do metrô
de Manhattan se torna uma fantasia fetichista; o Espremedor mole tem
a aparência de um menino de uniforme escolar sob o efeito da
descarga de uma privada. São especialmente ricos em sua
desconstrução os ventiladores gigantes, que vêm em lona e em vinil
preto S&M; cada um se assemelha a um pedaço de vida pré-histórica
em decomposição, ou a algum enorme inseto que sofreu mutação por
radiação atômica em um filme dos anos 1950 (uma possível fonte),
com o fio da tomada sendo uma antena cheia de baba.
Mesmo quando o olho está sendo forçado e desafiado desse modo,
nunca perdemos nosso caminho visual; e uma etiqueta de exposição,
bem burguesa, está sempre à mão para nos fazer saber o que é
realmente o quê. X pode parecer com Y, mas sabemos que é na
verdade X. E depois de um tempo você começa a sentir as limitações dessa entidade X. Por que isto – uma escada mole, martelo, serra e
tina – em vez de qualquer outra coisa? E por que não um mole
abstrato? Precisamos dos títulos porque, sem “captar” a metamorfose
à maneira de uma pista de palavras cruzadas, não há prazer, não há
razão? Ou é porque a abstração seria elitista demais, antidemocrática
demais para essa arte?
Ventilador macio gigante por Oldenburg
Quando se trata das esculturas monumentais, muitas delas
concebidas faz muito tempo mas só construídas recentemente, elas
não poderiam ser mais democráticas: animadas, coloridas e
instantaneamente identificáveis. Tudo o que temos que fazer é acionar
o nosso deslumbramento liliputiano. Elas exultam em sua ordinarice e
também a transcendem: aqui está um pregador de roupa que nunca
será perdido, uma espátula de jardinagem enfiada no chão que nunca
(enquanto durar o patrocínio) ficará enferrujada. Observamos essas
coisas com um espanto benigno e subjugado. No Parc de la Villette, norte de Paris, as crianças correm e pulam em torno das várias partes
de uma bicicleta semienterrada, abandonada por algum gigante, e
usam seu selim como um escorrega. Em uma época na qual está longe
de ser clara a função que esculturas públicas deveriam ter, na qual os
anciãos do município e os heróis de guerra estão sem prestígio, e o
rival do Pregador de roupa na Filadélfia é Rocky (não Stallone: Rocky),
a obra de Oldenburg pode ao menos ajudar a concentrar o debate. E
uma parte desse debate não pode deixar de perguntar se a
monumentalidade, a invariabilidade, a permanência da escultura de
Oldenburg não contradiz a essencial e bem-humorada efemeridade de
sua arte. Talvez nós possamos explorar melhor seu vibrante caráter
único tornando esta arte temporária, realocável. Por que não fazer um
enorme urso de pelúcia fácil de transportar e deixá-lo com toda a sua
simbólica ausência de patas no Central Park (onde poderíamos
rapidamente verificar se os brancos iriam tomá-lo como a encarnação
de sua consciência), mas depois fazê-lo reaparecer em outro local –
despontando de alguma campina, abandonado em alguma estrada
intermediária, flutuando perto da Estátua da Liberdade? Ou isso seria
um passo perigoso em direção à sugestão de que muitas das esculturas
ficariam melhores não sendo construídas, uma vez que a ideia e o
desenho preliminar são, com frequência, mais fortes do que a imagem
final pode chegar a ser?
A maior parte da Pop Art é arte de uma maneira solta, trivial e
galhofeira. Tem a ver com estar em torno da arte, experimentar suas
roupas, tem a ver com dizer para não ficarmos impressionados demais
com ela. Warhol, por exemplo, é um artista mais ou menos como
Fergie é alguém da realeza. De uma maneira reduzida, cada um é
autoevidentemente o que proclama ser. De uma maneira mais ampla,
eles mal chegam a aparecer no mostrador. Fergie se divertiu muito e
ganhou muito dinheiro com isso de ser da realeza; o mesmo pode ser
dito de Warhol em relação à arte. Apenas um grosseirão esnobe, ou
um pagador de impostos, objetaria; e, ao mesmo tempo, apenas um
leitor de fofocas da Hello! levaria demasiadamente a sério suas alegações. Muitas pessoas ricas gostam de colecionar Warhol, da
mesma maneira com que muitas pessoas ricas gostam de colecionar
uma realeza (de fato, você poderia propor uma regra: quanto maior a
proporção de pessoas ricas que colecionam um artista, menos
interessante sua arte). A maior parte da Pop Art tem a ver com se
divertir, com ampliar os temas da arte e os materiais com os quais ela
pode ser feita. Isso não é algo especialmente novo: existem, na
verdade, poucas ideias novas em arte, apenas novas aplicações. Ainda
assim, tanto Oldenburg quanto Warhol ficam parecendo rigorosos e
confrontadores, quando postos ao lado das excentricidades fabricadas
à máquina por seu descendente imediato Jeff Koons. Em uma
entrevista recente, Koons anunciou que “a arte não deveria exigir
nada de ninguém”. Serviço feito!
Oldenburg, levando em conta todos os seus altos e baixos (e seus
objetos de museu mais recentes não parecem nada resplandecentes),
permaneceu um verdadeiro artista pop. E, se a sua arte demonstrou
uma crescente tendência para se assentar, pelo menos não se pode
dizer o mesmo sobre seus apreciadores. Pouco sedentarismo é
requerido quando nos confrontamos com um de seus objetos: nós
capturamos o jeu d’esprit, verificamos os materiais e as transformações,
aprovamos o acabamento correto e seguimos adiante. Oh, e você viu o
Cheeseburger? Não era engraçado? E a luvas de beisebol? E a privada
desabando? Sim, sim, sim, nós vimos tudo. Nos lembramos de tudo.
E isso é uma conquista. Mas essa arte toca o coração minimamente?
Somos, de algum modo, comovidos? Bem, somos movidos a sorrir, a
gargalhar, a ficar intrigados, a sorrir de novo – e isso não é vergonhoso.
Como seria, contudo, viver com um Oldenburg, ter de ver a
mesma obra todo dia? É difícil imaginar, mas certa vez tive uma ligeira
ideia de como seria isso, quando fui jantar na casa do diretor de
cinema de Baltimore John Waters, coincidentemente um admirador
de Oldenburg. (O Conjunto do quarto de dormir seria um set perfeito
para uma cena no Hairspray de Waters, e a afetação suave e irônica
daquele filme – que consegue parecer ao mesmo tempo grosseira e sofisticada – é uma espécie de equivalente fílmico da obra de
Oldenburg.) Waters coleciona comida de mentira: qualquer superfície
disponível é coberta com ovos fritos, rosbife fatiado, queijo e picles em
conserva, macarrão enrolado inerte, e assim por diante. O cineasta
também gosta que sua comida de mentira seja realmente pegajosa e
espalhafatosa: o produto fino de Oldenburg pode ser, assim nos
pareceu, um tanto classudo demais para ele, artesanal demais. Mas há
um efeito paralelo. Oh − você diria, a cada manhã quando se
deparasse com o seu Oldenburg −, é um cheeseburger mas você não
pode comê-lo! É um aspirador de pó, mas você não pode limpar o
chão com ele! Mesmo assim, que farra! Você se descobriria vivendo a
sua vida com itálicos e pontos de exclamação. Esta é uma arte que
provoca você, que lhe oferece um gargarejo visual, que anima e acelera
você ao longo do dia. Arte prática, nesse sentido. Pode não ajudar uma
velhinha a atravessar a rua, mas irá ajudá-la a subir as escadas com um
impulso a mais em seus passos.