Mantendo um olho aberto
Hodgkin: palavras para H.H.
Henry James disse: “Os pintores têm uma enorme desconfiança
em relação àqueles que escrevem sobre quadros.” Flaubert disse:
“Explicar uma forma artística por meio de outra é uma
monstruosidade. Você não irá encontrar em todos os museus do
mundo um único bom quadro que precise de um comentário. Quanto
mais texto há no guia da galeria, pior o quadro.” Degas acreditava que
“palavras não eram necessárias: você diz Ahn? Ohhh! Ahhh! e foi tudo
dito”. Matisse falou: “Os artistas deviam ter suas línguas decepadas.”
Henry James, entretanto, escreveu muitas palavras públicas sobre
pintura. Flaubert escreveu muitas palavras privadas, em cartas e
diários. Ele conhecia as coleções de arte francesas tão bem quanto
Stendhal, e as europeias melhor do que os Goncourts ou que
Baudelaire. Uma coisa surpreendente a respeito de suas anotações
sobre arte é que elas são quase inteiramente desprovidas do que nós
consideramos julgamentos. Ou melhor, ele anota e descreve os
quadros de que gosta, e a anotação é o julgamento.
Howard Hodgkin é um pintor de escritores. Mais do que qualquer
outro artista britânico contemporâneo, ele atraiu a atenção daqueles
acostumados a contar histórias, a descrever, imaginar, explicar. Seus
quadros frequentemente têm títulos que parecem sugerir uma
narrativa. E, no entanto, aqui está o paradoxo: raramente existe uma
narrativa visível ou que se possa extrair de seus quadros. Às vezes ele
está nos provocando. E os escritores gostam de ser provocados. Assim
como gostam de invejar outras formas de arte.
A inveja que os escritores sentem de outras formas de arte
geralmente tem a ver com o fato de elas serem mais diretas. A música
é a forma mais invejada, sendo ao mesmo tempo a mais abstrata e a
mais direta: de alma para alma, sem a intervenção penosa das palavras.
Os dramaturgos devem invejar os compositores de ópera por causa da
maneira como a ópera vai direto ao ponto: você pode ter o equivalente a um clímax de quinto ato no primeiro ato, e depois outro, e mais
outro, em cada ato – em cada cena, se quiser. Os pintores são
invejados porque a arte deles combina os meios de expressão com a
expressão em si no mesmo ato e no mesmo lugar; contida, e ainda
mais poderosa por sua contenção. Os escritores raramente refletem
sobre a possibilidade de haver uma inveja ao contrário também: que
um pintor cujo quadro recebe uma olhadela de cinco segundos por
parte de algum frequentador de galeria olhando vitrines pode muito
bem invejar o tempo que um leitor está disposto a dedicar a um
escritor. Redon considerava a literatura “a arte suprema”.
Os quadros de H.H. não são narrativos. De forma geral, eles são
lembranças. Mas não é um caso de emoção lembrada com
tranquilidade. É mais um caso de emoção lembrada com intensidade.
Nesse sentido, seus quadros são operísticos.
Flaubert adorava imitar pessoas. Uma de suas imitações favoritas
era a de um pintor bem secundário de Rouen, chamado Melotte, cujo
maneirismo característico era desenhar um arabesco com as mãos –
como um S duplo – sempre que usava a palavra icônica “artistique”.
Edimburgo, setembro de 2002: palavras não ouvidas. A exposição
de paredes azuis comemorativa dos setenta anos de H.H. na Galeria
Escocesa de Arte Moderna. No andar de baixo, há um filme de vinte
minutos do artista falando sobre seu próprio trabalho, enquanto que,
no andar de cima, a exposição está disposta em duas seções. Entre
essas duas seções há um poço de escada aberto que canaliza a voz do
artista para cima. A voz te acompanha quando você cruza o poço de
escada e vaza para as galerias. Mas, por causa da amplificação e do
eco, você não consegue entender o que está sendo dito. A voz de H.H.
não é apenas descolada do corpo, mas é também descolada das
palavras; só o que resta é seu tom. Após algum tempo, isso começa a
parecer adequado.
Os romances de Flaubert, especialmente Madame Bovary, foram
muitas vezes comparados à obra de pintores realistas como Courbet.
Na verdade, o romancista tinha uma implicância particular com Courbet: por ser doutrinário, por pintar vinculado com uma teoria e
por sua insistência em explicar seu trabalho, suplementando suas
imagens com palavras. E também porque: “Ele não tinha o medo
sagrado da forma.” A arte é feita da tensão entre amor e medo.
Royal Academy, setembro de 2002. A RA oferece seu espaço por
algumas semanas para um conjunto de galerias comerciais. A maioria
escolhe expor seus talentos mais jovens, e uma cacofonia visual é o
resultado inevitável. Mas pelo menos algumas das ortodoxias
sufocantes das décadas recentes parecem estar cedendo. Alguns
artistas jovens até tentaram pintar – com um pincel, ou algo parecido,
numa superfície plana, ou algo parecido, com tinta, ou algo parecido;
embora muitos deles, talvez inseguros, decorassem suas áreas pintadas
com palavras explanatórias. Lá eu encontrei o crítico Andrew
Graham-Dixon e nós discutimos esta renovação hesitante. Mas você
não pensaria, eu disse, que alguns destes jovens poderiam ter notado
que esta forma de arte já foi praticada antes – na realidade, ao longo de
um bom número de séculos? Graham-Dixon ri da minha
ingenuidade: “Ah, o passado não tem nada a ensinar a eles.”
No coração da Academia, há um espaço octogonal, cujas paredes
são pintadas do mesmo azul escuro brilhante da exposição de
Edimburgo. Nelas, estão pendurados oito pequenos quadros de H.H.,
um centro imóvel, sério, fulgurante no meio da algazarra ao redor.
Uma amiga escritora descreveu sua reação: “Eles saltaram da parede
sobre mim e disseram: ‘Assim é que a arte deve ser’.”
Na Academia, eu digo para H.H.: “Você usou exatamente o
mesmo azul de Edimburgo.” Ele responde: “Não é exatamente o
mesmo azul.”
Ao longo destes anos, desde que o conheci, ele disse várias vezes o
quanto se sente isolado, sendo um pintor nestes tempos e nestas ilhas.
Outros, como Lucian Freud, também falaram a respeito de nadar
contra a corrente – embora Freud claramente sentisse mais essa
sensação. O único pintor britânico importante que não parece ter
expressado nenhum ressentimento contra a marginalização da pintura é o eternamente ensolarado (e popular) David Hockney. Mas como
este desvio parece agora temporário. E, quando o futuro olhar para a
segunda metade do século XX na Inglaterra, ele irá seguramente vê-lo
como um período dominado por pintores: Bacon, Freud, Hockney,
Hodgkin, Riley (e Caulfield, Auerbach, Hitchens, Aitchison,
Uglow...).
Viajando com H.H. Nós quatro – H.H., seu companheiro Antony,
minha esposa Pat e eu – fomos juntos ao Marrocos, à Índia, e, por
diversos anos seguidos, a pequenas cidades italianas com bons museus
de arte. Eu era o organizador; Antony, o tradutor; H.H., o artista
residente; Pat, a musa: papéis levados apenas meio a sério. Eu também
era o encarregado do diário: Taranto, abril de 1989. H.H. avista uma
toalha de mão preta na vitrine de um armarinho antiquado. Nós
quatro entramos. O vendedor nos traz uma toalha de mão preta.
“Não”, diz Howard, “ela não é tão preta quanto a que está na vitrine.”
O vendedor pega outra, que é igualmente rejeitada, e depois outra, e
outra. Isto é Itália, a negociação é lenta, então tudo é amigável; o
vendedor não demonstra o menor sinal de impaciência. O mesmo não
se aplica a mim. H.H. já rejeitou sete ou oito, pelo amor de Deus, e
agora está pedindo ao sujeito para tirar a toalha original da vitrine. O
vendedor se contorce todo para fazer isso. Quando ele coloca o artigo
sobre o balcão, eu vejo na mesma hora o que não teria visto na
presença de ninguém mais: a toalha é realmente pouquíssimo mais
preta do que todas as outras. A venda é concluída.
Cores de parede nas quais H.H. expôs seus quadros: branca, azul
ovo de pato, cinza pombo, verde, dourada, azul-marinho.
Azul. Bolonha, novembro de 2002. Nós estamos cruzando uma
piazza coberta em busca de jantar. Passamos por uma lojinha de
decoração, seus pincéis e rolos, bandejas e latas de tinta, uma pequena
imitação do estúdio de um artista. H.H. diz: “Eu descobri uma cor
nova. Azul cobalto.” Enquanto ele descreve sua pureza e intensidade,
seus olhos são os de um sensualista.
H.H. às vezes é descrito como um colorista. É o que dizem de
Bonnard quando querem tratá-lo com superioridade. (Lembrem-se de
Delacroix reclamando que este termo era “mais um obstáculo do que
uma recomendação” e de Le Corbusier censurando Braque por ser
“fascinado pela forma e pela cor”.) É difícil para aqueles fora do
mundo da arte compreenderem por que esta é uma expressão de
semimenosprezo. Talvez fosse assim, se a cor fosse apenas
acabamento, brilho, aparência – decoração – em vez de ser, como é, o
próprio âmago da pintura. Eu fico menos intrigado quando encontro
uma comparação literária. Ser chamado de “colorista” é um pouco
como ser chamado de “estilista”. Para alguns críticos, “escrever bem”
é o sinal de um mau escritor. O professor de prática de crítica literária
de Harvard rejeitou sumariamente um romance do grande John
Updike com estas palavras: “É claro que Updike escreve bem; somos
severos com um romance tão ruim quanto este por causa dessa
capacidade. Mas Updike... não escreve bem o bastante para ser
perdoado.” No poema de Auden, é o Tempo que “perdoa” Paul
Claudel, “que o perdoa por escrever bem”. Aqui, o professor
suplantou o próprio Tempo como se ele próprio fosse aquele que
dispensa ou nega perdões.
Geralmente se afirma que as origens de H.H. como pintor estão
relacionadas ao intimismo, especialmente a Vuillard. Isto é verdade, e
é admitido em sua homenagem After Vuillard. Mas a escola intimista é
morna, enquanto que Hodgkin é quente, geralmente abrasador: até
mesmo um quadro chamado Neve Alpina queima. Então consideremos
os outros pintores aos quais ele também homenageou com pinturas:
Corot, Degas, Ellsworth Kelly, Matisse, Morandi, Samuel Palmer,
Albert Pinkham Ryder, Seurat. Há também um Braque oval, Cartas e
dados (1914), cheio de pontilhados hodgkinianos, que parece um
precursor.
Flaubert não permitiu que seus romances fossem ilustrados. Tal
“precisão inepta” interferia com o efeito pretendido com o livro. O objetivo da arte, ele disse, era primeiro fazer você ver – faire voir – e
depois fazer você sonhar – faire rêver.
Neve alpina por Hodgkin Não é só o que você
pinta, é também o que você não pinta (a
madeira grumosa que aparece por baixo), o que
você pinta por cima, o que fica coberto, o que
existe temporariamente para ajudar você a
chegar a outro lugar. Flaubert, respondendo a
uma série de perguntas de Taine acerca da
imaginação artística, explicou que sua imagem
interna de uma cena geralmente continha
detalhes que ele guardava para si mesmo. Por
exemplo, o fato de que Homais, o pharmacien
em Madame Bovary, era “ligeiramente marcado
de varíola”. Mas ele não tinha contado isso ao
leitor. Em algum momento no futuro, a obra de
H.H. será cientificamente examinada em busca
de marcas preliminares, primeiros esboços,
primeiras camadas de tinta, primeiras ideias.
Isto será interessante, mas não ajudará muito.
Flaubert como colorista. Ele contou aos Goncourts que, quando
escrevia um romance, o enredo era menos importante do que o desejo
de exprimir uma cor, um tom. Assim, para ele, Salammbô era uma
espécie de roxo; enquanto que, com Madame Bovary, “tudo o que eu
queria era mostrar uma cor cinzenta, a cor bolorenta de uma
existência de tatuzinhos”. Então um pintor pode fazer o contrário
disto e mostrar estados emocionais e complexidades normalmente
expressos no espaço de um romance por meio de cor, tonalidade,
densidade, foco, enquadramento, giro, intensidade, entusiasmo.
Flaubert e H.H. têm isto em comum: um desagrado por ser
fotografados, uma casa não muito longe de Rouen e um grande
interesse por palmeiras. No Egito, Flaubert tomou notas sobre um
pôr do sol exuberante: faixas de vermelhão no céu, lagos verde-claros
se misturando ao azul do céu, montanhas baixas ficando cor-de-rosa.
Em primeiro plano, existem palmeiras “borrifando como fontes”. Ele
continua: “Imaginem uma floresta em que as palmeiras são tão
brancas quanto plumas de avestruz.” Ele também observa a natureza
sendo transformada pela luz do entardecer num cenário de teatro.
Neste momento, ela se torna “uma outra natureza”, e uma palmeira
deixa de se parecer com uma palmeira de verdade e passa a se parecer
com... “uma palmeira pintada”. A arte como segunda natureza.
Flaubert amava as cores “estupendas” e “impossíveis” dos
pintores de tumbas; e também o modo como as paredes das tumbas
eram “pintadas de cima a baixo” – uma expressão que ele usa mais
tarde para descrever como gostaria que fosse a sua prosa. As
representações pictóricas do Egito que ele tinha visto na França não o
haviam preparado nem para a luz nem para a cor do lugar de verdade.
Os pintores ficavam claramente paralisados por timidez e tradição,
temendo mostrar as cores verdadeiras da superfície do Mar Vermelho
com medo de serem acusados de exagero. “Os pintores são imbecis”,
ele concluiu.
Eu sempre me recusei a entrevistar ou a traçar o perfil de H.H.
Em parte porque eu o conheço bem demais, em parte porque eu não sei como colocar em palavras a pintura dele. Uma vez, a Vogue alemã
nos convidou para gravar uma conversa a respeito de arte, literatura e
outros tópicos culturais. Ela aconteceu no meu quintal. Um
moderador conduziu nossa conversa, e um fotógrafo registrou o
evento. O moderador parecia ter ideias demais sobre o que
poderíamos dizer um ao outro. As fotografias sobreviveram; a
conversa foi descartada pela revista.
H.H. sempre foi um entrevistado difícil, até porque ele não gosta
de falar sobre seus próprios quadros: deixe que eles se “expliquem”
sozinhos. Nos últimos anos, sua recusa em entrar no jogo se tornou
extrema. Entrevistadores receberam respostas monossilábicas e longas
pausas; houve um famoso desastre no palco com Simon Schama num
festival literário. Eu me lembro de um programa de rádio em que o
diligente entrevistador foi ficando cada vez mais frustrado com a
conduta aparentemente obstrutiva de H.H. e foi obrigado a oferecer
suas próprias hipóteses a respeito da obra, suas origens e processos.
Uma tentativa em especial de colocar ideias em sua boca foi abortada
por H.H. com as palavras afáveis: “Mas isso pressupõe que eu saiba o
que estou fazendo.”
Confiem na arte, não no artista; confiem na história, não no
narrador. A arte lembra, o artista esquece. Flaubert, quando escreveu
para Taine sobre Madame Bovary, esqueceu que tinha realmente
informado ao leitor que Homais era “ligeiramente marcado pela
varíola”.
Flaubert odiava o pitoresco, especialmente o popularizado pelos
relatos de viagens do início do século XIX; em especial, ele odiava as
Voyages pittoresques ilustradas, imensamente populares, publicadas por
Nodier e Taylor. H.H. odeia guias de viagem de qualquer cor – verde,
azul, vermelho – e mais ainda a ideia de se conceder estrelas às
atrações. “O que diz o seu guia de viagem?” é uma pergunta para a
qual só existe uma resposta fracassada. “E por que nós fomos trazidos
aqui?”, ele perguntará educadamente ao visitar uma igreja que acha
desprovida de qualquer interesse. Eu irei indicar a coleção supostamente impressionante de estátuas sobre a tumba do cardeal na
segunda capela da nave à frente. Ele a descartará com um olhar,
apontando, em vez disso, para um estranho e gasto losango de
mármore medieval não mencionado em nenhum guia. Ele tem sempre
razão. Mesmo assim, eu gosto de afirmar que aquela explosão de
verde do lado inferior direito do seu quadro Quando foi que nós fomos
para Marrocos? me mostra escondido atrás de um Guia Michelin verde;
isto apesar de não haver nenhum Guia verde de Marrocos quando
estivemos lá.
Flaubert era obcecado com arte ruim, palavras ruins, clichês
linguísticos. Uma recordação de uma grande galeria de arte italiana
provinciana – em Parma, talvez – que algum arquiteto e designer
moderno tinha tentado avivar com passarelas e rampas de madeira
brilhante. Eu e Pat estamos percorrendo disciplinadamente algumas
salas de pintura indiferente e paroquial quando H.H., que despachou
o museu em dez minutos, volta ofegante para junto de nós. Sua
atitude é de reprovação feroz. Parem de desperdiçar seu tempo com
essa porcaria, economizem sua energia visual para os dois ou três
quadros razoavelmente decentes que estão quinze salas adiante. Ele
nos leva na direção da qualidade.
Délhi, fevereiro de 1992, a inauguração do mural de H.H. na
fachada do prédio do British Council. Um funcionário do Conselho,
buscando embaraçosamente as palavras certas, finalmente aponta para
os operários que estão terminando o trabalho e pergunta
diplomaticamente: “Espero que eles estejam fazendo o que o senhor
quer?” Mais tarde, na festa de inauguração, uma mulher indiana diz
para H.H.: “Eu revi minha opinião da arte britânica com base no seu
mural.” Ele rompe em lágrimas.
Quando estamos viajando, eu e H.H. costumamos fazer uma
brincadeira. De vez em quando, sentados num bar, apreciando uma
piazza, relaxando num restaurante, ele dirá, com uma mistura de
autoironia e satisfação verdadeira: “Sinto um quadro chegando.” Eu
sempre respondo: “Sinto um romance chegando.” Ele fala mais sério do que eu ao dizer isso (bem, eu nunca falo sério), e eu muitas vezes
me pergunto o que se passa na cabeça dele nesses momentos, ali
sentado, com o queixo erguido, os olhos semicerrados, preparando
suas futuras lembranças. Maxime Du Camp, viajando com Flaubert
no Egito, tomava notas furiosamente o tempo todo e, mais tarde,
fingia estar irritada pelo fato de o romancista “não ver nada, e não se
lembrar de nada”. H.H. olha tudo intensamente o tempo todo, mas,
quando diz que sente um quadro chegando, ele parece estar olhando
de uma forma diferente; o momento é digestivo, ruminante. E eu sei
que ele irá se lembrar de tudo – quer dizer, de tudo de que irá
precisar.
After Degas por Hodgkin
Amantes por Hodgkin Já faz três décadas que eu
tenho contemplado a obra de H.H., e é um dos
prazeres recorrentes da minha vida quando seus
quadros, como um grupo de conhecidos
internacionais, se juntam para uma exposição
diferente numa cidade diferente num país
diferente. Quando eu paro novamente diante de
um quadro familiar após alguns anos, eu quase
sempre me vejo murmurando internamente:
“Sim, é claro” ou “Bom” ou “Está certo” ou, às
vezes: “Agora eu estou começando a ver.” Como
estas palavras banais de saudação dão a
entender, minha amizade incessante com seus
quadros e minha incorporação cada vez maior
deles e neles raramente se traduzem em
comentários coerentes. É claro, eu posso falar
sobre títulos e especular sobre a origem de uma
pintura, sobre sua semelhança ou diferença em
relação a outra pintura; eu posso descrever o
que vejo à minha frente como um romancista
escrevendo anotações de viagem. Estas pinturas me falam aos olhos, ao coração e à mente – mas
não à parte da mente capaz de articular. Quase
sempre, eu me dirijo a elas naquele silêncio
ideal braqueano. Elas resistem às palavras – pelo
menos, a palavras que possam exprimir o que
acontece dentro de mim quando eu olho para
elas. Eu não acho que isso importe, a não ser
socialmente. Só o que importa é que o que
acontece, acontece e se repete e pede para ser
repetido novamente ao longo dos anos.
Então, chega de palavras.