Mantendo um olho aberto
Manet: em preto e branco
a) Arremessando o tijolo Aqueles que atacam obras de arte não
estão, em certo sentido, errados. Você não investe contra algo a que
você é indiferente, ou contra algo que não o ameace; iconoclastas
raramente destroem imagens por apatia. Veja por exemplo o homem
que levantou sua bengala contra o quadro de Manet, Música nos Jardins
das Tulherias, quando de uma exibição individual na Galeria Martinet
em 1863. O agressor não deixou nenhuma explicação sobre seus
motivos, mas a ofensa da pintura certamente seria classificada sob o
título de fraude: era um simulacro, algo que não apenas o insultava, o
observador, mas toda a história da arte, no interesse da qual ele era
obrigado a falar – ou melhor, a agir. Além disso, o próprio tema da
pintura – uma plêiade da vida parisiense contemporânea – seria algo
questionável para um tacanho frequentador do Salon, convencido de
que os temas da arte deveriam ser elevados e poderosos. Isso agora
parece irônico, uma vez que a pintura era, na verdade, com toda a
probabilidade, sobre o tipo de homem que a atacou, e sobre o tipo de
vida que ele e seus amigos levavam em Paris na época. Manet estava
dizendo: aqui, agora, tal como é.
Um ateliê em Batignolles por Fantin-Latour.
Detalhe mostrando Manet (no cavalete), Renoir
(na moldura), e Monet (à extrema direita)
Quando Napoleão III viu O almoço na relva no
Salon des Refusés, naquele mesmo ano, ele
disse que era “uma ofensa contra a decência”, enquanto sua consorte, a Imperatriz Eugénie,
fingiu que o quadro não existia. (Hoje em dia,
isso seria uma publicidade perfeita, mas,
naquele tempo, era um desastre. Tanto que o
Salon des Refusés foi fechado e, nos vinte anos
subsequentes, os pintores independentes não
tiveram nenhum grande espaço público onde
pudessem expor.) Quando o quadro Olympia foi
mostrado no Salon de 1865, ameaças físicas
acarretaram sua realocação. Ele – ela – foi
colocado sobre a porta da última galeria, tão
alto, que era difícil dizer “se você estava olhando para um pedaço de pele nua ou para uma trouxa
de roupa destinada à lavanderia”. Essa
desaprovação imperial e pública fez com que,
por muito tempo, Manet tivesse que aguentar as
zombarias e o sarcasmo da imprensa popular.
Mais uma vez, eles não estavam errados, no
sentido de que seu sentimento era autêntico:
desprezo, cuja origem era o medo do
desconhecido. O que eles temiam era
perfeitamente claro para um dos mais cultos e
sofisticados execradores de Manet: Edmond de
Goncourt. “Uma piada, uma piada, uma piada!”,
ele exclama em seu diário, depois de ver a
exposição póstuma de Manet, em janeiro de
1884. Mas ele reconhece que a piada se tornara séria fazia muito tempo e era sobre ele e sobre
as pessoas de seu tipo: Com Manet, cujas
técnicas são tiradas de Goya, com Manet e todos
os pintores que o seguiram, o que nós temos é a
morte da pintura a óleo, quer dizer, da pintura com uma transparência bela, âmbar, cristalina,
da qual Mulher com chapéu de palha, de Rubens,
é a epítome. Agora temos pintura opaca, pintura
embaciada, pintura granulada, pintura com
todas as características da pintura de mobiliário.
E todo mundo está fazendo assim, de Raffaelli
até o derradeiro borra-tintas impressionista.
Mesmo aqueles que estavam do lado de Manet sabiam ser
impossível o advento de algo novo sem a morte de algo velho. Assim
Baudelaire, enquanto aclamava Manet como (possivelmente) o pintor
da vida moderna que a época demandava – embora o poeta julgasse
Constatin Guys o real merecedor desse título –, escreveu a ele: “Você
é apenas o primeiro na degeneração de sua arte.” Como Anita
Brookner comentou de forma precisa: “Será que ele sente em Manet a
concepção da arte sem uma dimensão moral?”
Ezra Pound disse que jogaria o tijolo na janela, enquanto T. S.
Eliot dava a volta por trás e fazia a pilhagem. E, em certo sentido,
Manet jogou o tijolo e os impressionistas fizeram a pilhagem:
certamente se ela fosse de exposições de enorme sucesso ao longo de
um século ou mais. Não acontecem grandes exposições de Manet com
frequência, mesmo em Paris (1983, 2011). Mas, de tempos em
tempos, é importante ser lembrado de tudo o que ele fez com e para a
arte francesa. Ele clareou e tornou mais leve sua paleta (onde os acadêmicos começavam com tons escuros e trabalhavam de baixo para
cima em direção aos mais claros, a peinture claire de Manet fazia o
oposto); ele descartou meios-tons e produziu uma nova transparência
(rosnando para pinturas que aparentavam “ensopados e molhos”); ele
simplificou e enfatizou o contorno; ele frequentemente descartava a
perspectiva tradicional (a mulher se banhando em O almoço na relva
está bastante “errada” – grande demais – em termos da distância
presumida); ele comprimia a profundidade de campo, empurrava
figuras para fora, em nossa direção (Zola disse, a respeito de pinturas
como O flautista, que “elas quebram o muro”); ele introduziu o “preto
Manet” e o “branco Manet”. Assim como Courbet, ele também
rejeitava grande parte dos temas tradicionais: mitológicos, simbólicos,
históricos (suas pinturas “históricas” são todas contemporâneas).
Assim como Daumier, ele acreditava que “uma pessoa tem de ser de
seu tempo e pintar o que ela vê”. Sua posição no cenário da arte pode
ser mais bem definida por meio da triangulação dos três grandes
escritores que o defenderam: Baudelaire, o dândi e poeta da vida
moderna; Zola, o naturalista, e Mallarmé, o esteta puro. Algum pintor
já teve tal apoio por parte de escritores? No entanto, Manet não era de
modo algum um pintor literário ou ilustrativo. Sua pintura “literária”
mais famosa – da Nana, de Zola – não é nem um pouco o que parece.
Ele retratou a cortesã quando ela era ainda apenas uma figura menor
na serialização do romance de juventude de Zola A taberna.
Huysmans, em uma resenha sobre o quadro, anunciou que Zola iria
devotar um romance inteiro a Nana e felicitou Manet por tê-la
“mostrado como ela sem dúvida será”. De modo que você pode dizer
que foi Zola quem “ilustrou” Manet, e não o contrário.
Uma grande parte das realizações de Manet você pode entender
lendo os livros e olhando as reproduções coloridas; outra parte só se
mostra quando você está diante dos próprios quadros. O “preto
Manet” é bem reproduzido; o “branco Manet”, muito mal. Olympia, à
parte seu desafio erótico contínuo, é também uma sinfonia
whistleriana em quase branco (sutis intercâmbios entre carne, coberta, roupas de cama, flores e – o branco mais afiado de todos – o papel
pelo qual as flores estão envolvidas). No retrato de Zola, uma seção
central de branco se sobressai: ela vem, apropriadamente, das páginas
do livro que o romancista está lendo; o delicado retrato de madame
Manet, A leitura, situa o vestido branco contra a cobertura branca do
sofá, contra o branco mais acinzentado das cortinas. Mesmo um dos
retratos mais radicais de Manet – e mais assustadoramente feios – da
amante de Baudelaire (cabeça pequena de boneca, mão direita
enorme, além de perna direita improvável, possivelmente cortada,
saindo da saia) é, suspeita-se, principalmente sobre a oportunidade de
preencher a tela de lado a lado com um enorme e ondeante vestido
branco.
Tudo isso a fim de olhar para Manet nos termos daquilo que se
pode perceber, retrospectivamente, que ele alcançou. Mas pintores
nunca vivem para ver exatamente o que eles alcançaram. Mais do que
isso, pintores têm trajetórias muito variadas: alguns, como Degas ou
Bonnard, seguem uma via que é fácil de entender e produzem uma
obra de uma qualidade quase espantosamente consistente. Outros,
como Manet, são muito mais difíceis de acompanhar. Uma das coisas
que fez a mostra de 2011 no Museu d’Orsay foi confirmar que Manet
era tanto um pintor incansável, quanto desigual. Essa verdade veio à
tona de modo mais claro por causa da abordagem que o curador da
mostra decidiu adotar. Da mesma maneira com que a arte segue seu
caminho, também seguem adiante a história da arte e a teologia do
museu. Hoje em dia, curadores – ao contrário do público – parecem
odiar mostras que apenas enfileiram uma obra-prima seguida da outra
e que recontam a mesma velha história. À maneira francesa, eles
chamam tal abordagem de “reduzir sua modernidade a um registro
iconográfico”.
Existe alguma razão para isso. Assim como é fácil esquecer o
quanto Manet era provocativo originalmente, é fácil esquecer a
velocidade com que o choque do novo se torna visualmente absorvido,
museificado e transformado em mercadoria. (Por alguns anos, eu tive um mouse pad com a reprodução das garrafas de champanhe de Um
bar no Folies-Bergère.) Proust, em O caminho de Guermantes, descreve
como uma apropriação desta natureza pode facilmente ocorrer no
período de uma vida. Sua duquesa vai visitar o Louvre: ... e por acaso
passamos pela Olympia de Manet. Hoje em dia, ninguém é nem um
pouco surpreendido por ela. Ela parece um Ingres! E, no entanto,
Deus sabe o quanto tive que me insurgir em favor daquela pintura, da
qual não gosto por completo, mas que é inquestionavelmente a obra
de alguém.
A duquesa está enganada no sentido estrito (Manet nunca pareceu
Ingres, nem naquele tempo, nem agora), mas correta no sentido mais
amplo. Então existe um óbvio perigo na abordagem de obras-primas-
penduradas-no-varal, que meramente repetem o modo pelo qual a
história da arte se estabeleceu cem anos atrás: o risco é o de que não
possamos mais ver, apenas tomar como algo dado. Mas onde se pode
achar a contranarrativa? Atualmente ela se encontra no contexto
histórico e social e, especificamente para os curadores parisienses de
2011, na rejeição daqueles que até aqui “vampirizaram” o pintor “em
nome da arte moderna”. Isso levou – espantosamente – à
circunstância de eles nos apresentarem um Manet que era “o protetor
dos valores tradicionais”. Por exemplo, a “mesma velha história”
costumava contar como o jovem Manet passou seis meses no ateliê de
Thomas Couture, um peintre-pompier da moda, sem aprender muita
coisa com ele. A mostra no d’Orsay começava, por conseguinte, com
uma sala cheia de Coutures, encorajando-nos a concluir o oposto. É
verdade que um retrato de juventude de Manet se parece bastante
com um Couture. Todavia, os dois quadros mais marcantes na sala –
um estudo grave e melancólico de seus pais e um retrato de um
garotinho, Le Petit Lange, cheio do preto Manet e com aqueles olhos
pretos de Manet que encaram intensamente – contêm pouca
influência de Couture. De fato, eles mostram Manet escapando do
estilo de seu professor o mais depressa que pôde.
Mais bizarramente interessante é o período “católico” de Manet,
ao qual a exposição dedicou toda uma sala, e que provavelmente se
revelou como uma surpresa para a maioria das pessoas que pensavam
conhecer seu Manet. Tendo se estabelecido, e sido severamente vaiado
por isso, com O almoço na relva (1862-3) e Olympia (1863), Manet
produziu diversas pinturas religiosas em 1864-5 – um maciço Cristo
morto, um similarmente maciço quadro sobre a zombaria de Cristo e
um monge ajoelhado –, obras que, como o catálogo afirmava,
“revoltaram seus inimigos tanto quanto embaraçaram seus
admiradores”. O grande amigo de Manet, Antonin Proust, deixou-as
de fora daquela exibição póstuma que Goncourt descartou como
sendo uma piada. Com razão também: elas são o tipo de
monstruosidades derivadas, acadêmicas, que se encontram hoje em
dia em Museus de Belas-Artes provincianos, há muito tempo exiladas
ali por um aliviado burocrata do setor de arte parisiense (“Olhe,
estamos enviando para vocês um Manet!”). Você consegue perceber
por que elas podem fazer parte de uma contranarrativa curatorial –
essas obras ocuparam bastante tempo de Manet em sua maturidade;
mas, da mesma forma, a contranarrativa parecia propor menos a
democratização do valor do que a sua suspensão. “Um Catolicismo
Suspeito” era o título daquela sala. Seria melhor: O Choque do Ruim.
O período “católico” age como uma útil advertência inicial de que
Manet nem sempre foi “Manet”. Um número bem pequeno de suas
pinturas pode causar alguma decepção em qualquer degustação às
cegas de obras de arte. Havia, por exemplo, um whistleriano Bateaux
en mer à feição japonesa, com uma vela em forma de um monograma
oriental e uma cena de praia de Boulogne, que é como um Boudin
trazido repentinamente para um foco nítido (também com alguma
excentricidade de perspectiva, como uma figura masculina
improvavelmente gigante à direita). O primeiro veio de Le Havre, o
segundo de Richmond, Virginia. Os curadores foram diligentes e
originais. Eles mostraram que Manet era um pintor diferente do que
se pode preguiçosamente esperar; mas não um pintor melhor. As pinturas mais famosas de Manet são acertadamente as mais famosas;
elas nunca falham, e ainda surpreendem. (Por exemplo, eu não tinha
reparado previamente que a figura nua em O almoço tem uma fita
preta quase imperceptível em seu cabelo: é como se Manet estivesse
dizendo: “Nua – que nua? Você não vê que ela está usando uma
fita?”) O desapontamento da mostra era o de que se ele pintou,
digamos, doze (ou catorze, ou dezesseis) obras-primas incontestáveis,
menos da metade estava presente: não havia Música nos Jardins das
Tulherias (que John Richardson chamou de “a primeira pintura
verdadeiramente moderna”), nem A ferrovia, nem Argenteuil, nem
Nana, nem Almoço no ateliê, nem Bar no Folies-Bergère. Estava lá A
execução de Maximiliano, de Boston, mas não a de Mannheim (ou os
fragmentos de Degas). Estava também o menos importante dos dois
retratos de Monet em seu bateau-atelier. Não havia o famoso feixe de
aspargos, apenas o aspargo extra, isolado, pintado e enviado por
Manet como uma “gorjeta” depois que o comprador tinha pagado
generosamente mais do que o combinado. Talvez tenha havido
dificuldades com liberações dos quadros. E também as salas no
d’Orsay são um tanto quanto apertadas (embora um espaço enorme
tenha sido concedido para uma outra peça de pompa vazia – Jean-
Baptiste Faure cantando o papel título no Hamlet, de Ambroise
Thomas). Mas é mais provável que os curadores estivessem
determinados a encontrar, senão impor, uma nova linha narrativa. Às
vezes, eles pareciam zombar deliberadamente das nossas expectativas.
Desse modo, havia uma pequena cópia de A ferrovia – uma foto
embelezada com aquarela e guache – por Jules-Michel Godet. É como
se os curadores estivessem dizendo: Você está sentindo falta de um dos
seus quadros favoritos? Fique com ele assim, então.
O buquê de lilases por Manet Longe de todo o
tumulto de argumentação e contranarrativa,
havia um espaço calmo para naturezas-mortas.
Esse gênero ocupa um quinto de toda a produção de Manet (não apenas por ser
vendável). Em uma viagem a Veneza em 1875,
com sua esposa Suzanne e seu companheiro
pintor Tissot, ele anunciou – quando estava no
mercado de peixes – que queria ser “o São
Francisco da natureza-morta”. No mercado de
legumes, achou uma pilha de abóboras do tipo
Brenta e exclamou: “Cabeças de turcos em
turbantes! Troféus das vitórias de Lepanto e
Corfu.” Na mesma visita, ele concluiu: “Um
pintor pode dizer tudo o que quiser com frutas,
ou flores, ou até mesmo nuvens.” Na sala de
naturezas-mortas do Museu d’Orsay, duas
imagens simples prenderam a minha atenção:
flores em vasos altos de cristal, pintadas em
1882, o ano anterior ao de sua morte. Manet, o
dândi, o bem casado coureur de femmes, morreu
(como Baudelaire) de sífilis terciária. Teve um
fim cruel: ataxia locomotora, a cadeira de rodas,
gangrena, uma perna amputada, e então a
morte. Nesse último trecho de sua vida, Manet
pintou repetidamente a beleza efêmera das
flores. Como se estivesse calmamente repetindo
as palavras que o controlador se recusara a ouvir
por todos aqueles anos, dizendo uma última vez:
sim, aqui, agora, tal como é.
b) Menos é mais Quanto tempo gastamos com uma boa pintura?
Dez segundos, trinta? Dois minutos inteiros? E quanto tempo, então,
com cada boa pintura no tipo de exposição de trezentos itens que se
tornou a norma para os artistas consagrados? Dois minutos com cada
obra exibida somariam dez horas (sem pausa para o almoço, o chá, ou
intervalo para ir ao banheiro). Levante a mão quem passou dez horas
na exposição de Matisse, de Magritte, de Degas. Eu sei que não
passei. É claro que nós vamos escolhendo, o olho pré-selecionando o
que tem apelo (ou o que ele já conhece), mas mesmo um espectador
com elegante destreza em galerias, que entende a correlação entre os
níveis pessoais de açúcar no sangue e o deleite artístico; que consegue
lidar com espaços abertos e não tem medo, caso necessário, de seguir a
cronologia do pintor no sentido inverso; que abre mão de perder
tempo a olhar catálogos e tentar enxergar o título da obra; que é
suficientemente alto para conseguir uma visão desimpedida e
suficientemente robusto para enfrentar as ombradas de fãs de arte
amarrados em seus fones de ouvido – mesmo um espectador assim
pode chegar ao final de uma grande exposição sob o efeito truculento
do sentimento daquilo que poderia ter sido aquela experiência.
A execução de Maximiliano (detalhe) por Manet
É melhor, claro, de uma maneira vagamente
ideal, que o máximo de pessoas veja o máximo
de quadros possível. Mas quanto maior a
exposição, maiores as multidões necessárias
para financiá-la, o que significa carregar para lá
essas multidões com a promessa de que o
evento será não apenas estético, mas também
sociomotivador (e, sendo social, ele tem sua
estrutura de classes: aqueles que se encontram
na área interna ganham visão privativa,
enquanto as massas suam lá fora). Se, nos
ú ltimos anos, o gigantismo das exibições
diminuiu um pouco – aquela exposição de
Manet de 2011 em Paris tinha apenas 186 itens – isso é resultado mais do declínio econômico do
que da política curatorial. No entanto, é muito
evidente que exibições menores, com público
reduzido, proporcionam mais prazer; que você
costuma entender melhor um artista vendo
menos da sua obra, em vez de mais.
Uma das melhores exposições que vi nos últimos trinta anos foi na
National Gallery, em Londres, em 1993. Ela ocupava seis salas, mas
era toda sobre uma pintura, ou melhor, um assunto: A execução de
Maximiliano, de Manet. Organizada tematicamente e com um
propósito, ela reuniu, pela primeira vez desde a morte de Manet, em
1883, suas três versões de A execução: a primeira versão de Boston,
com pinceladas imprecisas, colorido sombrio, cheia de sombreiros; a
versão fragmentária (recuperada por Degas após a morte de Manet) da
própria coleção da National Gallery; e a mais conhecida imagem final
de Mannheim. Ver essas telas no mesmo ambiente (mas não lado a
lado – você tinha que virar o corpo para fazer a comparação, um
lembrete físico de que o tempo e a reflexão se interpõem entre cada
imagem) constituía um desafio direto, excitante, intimidante. Por que
Manet fez este, jogou fora aquele e ajustou o terceiro? Por meio de
que processo de pensamento ou sentimento, salto súbito ou acaso, ele
foi de a para b e para c? Para nos ajudar, esse trio central da exposição
era acompanhado por sessenta ou mais itens de apoio: retratos formais
dos principais participantes, litografias de notícias, as fotografias que
François Aubert fez de cenas e personalidades mexicanas da época,
cartes de visite mostrando o pelotão de fuzilamento e a camisa
ensanguentada do imperador, e mais um conjunto de referências e
subprodutos e curiosidades. Nenhuma dessas coisas era mais
excêntrica do que uma foto tirada aproximadamente em 1865, de
Maximiliano e sua corte jogando críquete, presumivelmente no castelo
de Chapultepec ou perto dele, nas cercanias da Cidade do México. O
imperador está de pé, atrás das estacas de madeira, próximo a Sir
Charles Wyke, o embaixador britânico. O “pitch” parece precisar não
do rolo compactador para aplainá-lo, mas de um bando de pedreiros.
Hoje em dia, quando uma nação endividada é obrigada a protelar
suas obrigações financeiras, os credores enviam equipes do FMI, do
Banco Central Europeu, da Comissão Europeia, e assim por diante.
Em 1861, quando o presidente do México, Benito Juarez, declarou
uma moratória de dois anos em sua dívida externa, a resposta foi uma troica daquela época: seis mil soldados espanhóis, dois mil franceses e
mais um tanto de britânicos surgiram em Veracruz. Os britânicos
eram tímidos, os espanhóis visavam a uma conciliação forçada, mas os
franceses preferiam a conquista. Eles instalaram o arquiduque
austríaco Ferdinand Maximiliano como imperador em 1864, a
guerrilha irrompeu no ano seguinte, a ocupação entrou em colapso, os
franceses recuaram, Maximiliano recusou-se a abandonar seu trono
fantoche e o governo mexicano reempossado o executou, junto com
dois de seus generais, na Colina dos Sinos, perto de Queretaro, no dia
19 de junho de 1867. O evento foi noticiado internacionalmente. No
dia 18 de julho, Flaubert escreveu para a princesa Matilde que a
execução (levada adiante apesar dos telegramas de protesto de
Garibaldi, Victor Hugo e outros) o tinha aterrorizado. “Que
abominação. E que coisa miserável é a espécie humana. É a fim de não
pensar sobre os crimes e a estupidez desse mundo (e não sofrer com
essas coisas) que eu mergulho de cabeça na arte: um triste consolo.”
As notícias também fizeram Manet mergulhar na arte, embora não
se saiba exatamente de que maneira, por que e com quais intenções e
expectativas, e com quais ajustes táticos ao longo do caminho. A
respeito disso, permanecemos em uma ignorância benigna e
libertadora. Seu progresso em direção à imagem final é muito menos
documentado do que, digamos, o de Géricault na direção de A balsa
da Medusa. Não há, Juliet Wilson-Barreau nos conta, “nenhum
registro nos arquivos de Manet acerca das pessoas a quem ele
recorreu, ou dos materiais que usou para compor suas pinturas –
nenhum recorte de jornal ou ilustração, nenhuma fotografia, nota ou
esboço bruto”. Nenhuma obiter dicta útil ou fofoca de ateliê chegou
até nós. Não sabemos por que ele abandonou a segunda versão da
pintura (estruturalmente muito próxima da versão final), ou qual era
sua aparência quando estava completa, uma vez que o registro mais
antigo, uma foto de 1883, já a mostra sem as duas figuras da lateral
esquerda, a do imperador e a do general Mejia. Existe uma lacuna
tentadora até mesmo quando se trata da presumida fonte estética da Execução: o quadro de Goya As execuções de Três de Maio de 1808, que
apresenta uma perspectiva geral similar e a mesma proximidade
assustadora entre a ponta dos rifles e a vítima. Sabemos que Manet
visitou o Prado e que assinou o livro de visitantes no dia 1 o de
setembro de 1865, mas, caso tenha visto a pintura de Goya a respeito
da insurreição de maio (naquele tempo fora do catálogo, localizada em
um corredor e praticamente não referenciada nos guias), ele nunca
mencionou o fato. Desta forma, precisamos proceder por adivinhação
e por meio de raios-X, tomando as próprias imagens como nossas
principais fontes de conhecimento: três grandes telas, um esboço a
óleo, uma litografia, um desenho traçado, além da posterior
reciclagem que Manet fez do agrupamento principal de pessoas em A
barricada, uma cena da Comuna.
Geralmente ficamos tentados a confundir a sequência temporal na
arte com progresso. De fato, a primeira Execução de Manet é tão
diferente em termos de cor, tom e sentimento, que não se apresenta
como uma primeira tentativa malfeita, mas como uma grande e
assombrosa alternativa. Os elementos em comum consistem em um
trio de vítimas, um pelotão de fuzilamento amontoado e a figura
singular destacada de um soldado designado (honrado? condenado?)
para executar o coup de grâce. Na primeira versão, este oficial é o único
personagem a ganhar qualquer tipo de rosto definido e que é
inflexivelmente destituído de expressão; pois se trata de um encontro
tenso, tumultuado, algo vicioso e vergonhoso, no qual um grupo de
pessoas não identificáveis tira violentamente a vida de outro grupo, e
em que as cores oceânicas perpassam tanto os executores, quanto as
vítimas e o fundo rural. Parece até ser noite (como no quadro
Execuções, de Goya), embora possamos concluir que não é.
Do ponto de vista da tonalidade, a imagem compartilhada pelas
versões II e III é bastante distante da versão I, já que é posada,
iluminada, lúcida. Mesmo a fumaça dos rifles se expande
cuidadosamente de maneira a não obscurecer os rostos das vítimas.
Entretanto, embora a posição dos principais participantes (e o eco estrutural de Goya) pouco varie da II para a III, o que ocorre atrás
deles causa um efeito muito diferente. Na versão II, a cena tem lugar
no que parece ser um trecho de campo aberto, ou talvez uma colina
baixa; ao longe, estão as montanhas e o céu. A ação é, portanto,
insuspeitada, anônima, um momento de brutalidade jurídica
localizado em meio à natureza, que parece ser, em sua continuidade
azul cálida, tão indiferente quanto o pelotão de fuzilamento. Na versão
III, os participantes se encontram no que pode ser o pátio de uma
prisão, com chão de areia, um muro alto atrás, espectadores
(protestando e lamentando) por cima do muro, mais espectadores na
encosta da colina, e os ciprestes e túmulos brancos de um cemitério no
canto superior da lateral esquerda. Agora há um elemento da tourada
(morte na areia, público na arquibancada). Há um comentário interno
e uma reação ao evento, e a confirmação de um memento mori ao
fundo. É tudo mais equilibrado, mais determinado e argumentado
enquanto realização de um quadro. É também (em comparação com a
versão II) algo mais convencional em sua maneira de dirigir as nossas
reações. Neste sentido, a III faz “progresso” em relação à II. Mas, de
outra maneira, trata-se de um retrocesso: como se Manet levasse a
noção de indiferença até o extremo na II e então recuasse desse
despojamento árido.
Ambas as versões, contudo, apresentam imagens de uma potência
extraordinária; e isso começa com os pés. Nas Execuções, de Goya, a
postura do pelotão de fuzilamento é um elemento crucial: o tornozelo
duro, o joelho travado, a perna de apoio atrás, posicionada no ângulo
profissional correto. E essa postura ecoava a linha dos soldados
napoleônicos: essas são as pernas dos opressores, pernas que pisam em
protesto, cuja rigidez percorre o corpo até chegar à rigidez final do
rifle. Já na Execução, de Manet, os soldados não estão alinhados
(tecnicamente pode haver duas linhas de três, mas o efeito é o de um
amontoado), e seus pés estão virados para fora em um ângulo de 120
graus ou algo assim; um soldado mantém seus calcanhares juntos,
outros têm os pés separados; o soldadinho no meio está idiossincraticamente deixando todo o seu peso na perna esquerda,
apenas com o calcanhar do pé direito tocando o chão. Esses pés são
obviamente feitos para ser notados, uma vez que Manet os embelezou
com polainas brancas (não se trata de um traço forçado pelo realismo
– o uniforme que Manet retratou era fictício, artificial). Tratam-se de
pés que estão se apoiando para o trabalho prático, como quando um
golfista se movimenta na bancada de areia para se equilibrar. Você
pode quase imaginar a fala preparatória pré-execução por parte do
oficial, sobre a importância de ficar confortável e relaxar os pés e então
os joelhos e a cintura, fingindo que você está ali apenas para atirar em
uma perdiz ou galinhola...
Então esses executores não constituem um bloco de matadores,
como no Goya: eles são soldados cumprindo tarefas cotidianas que,
desta vez, incluem executar um imperador. Esse tema da rotina
diligente é exemplificado distintamente na figura do oficial. Na
pintura de Boston (I), ele nos encara de maneira direta, dando as
costas para a execução e, ao mesmo tempo, nos confrontando com a
realidade de sua incumbência como executor final daqueles que não
forem abatidos prontamente. Na II e na III, ele se tornou um ponto
focal igualmente insistente, mas muito mais sutil. Agora ele se
encontra a um ângulo de 90 graus em relação ao pelotão de
fuzilamento, não está nem assistindo à execução nem se eximindo
dela; do mesmo modo, ele é indiferente a nós. Em vez de nos encarar,
está de olhos baixos, prestando atenção em seu momento profissional,
carregando seu rifle antecipadamente (III) ou checando se ele está
carregado (II). Significativamente, Manet destitui de polainas o seu
oficial: não devemos ser distraídos por seus pés (na III, eles estão
ainda mais silenciados por se encontrar em um trecho de chão mais
escuro) e podemos, por conseguinte, nos concentrar de maneira tão
atenta quanto o próprio soldado no carregamento de seu rifle. O
oficial varia em dois aspectos-chave entre a II e a III. Na II, seu rosto
é finalizado de maneira mais regular e mais bem caracterizado: trata-
se, acreditamos, de uma pessoa encarregada desse negócio em particular. Na III, o trabalho é menos preciso, a figura um tanto
menos específica: ele dá um pouco mais a impressão de ser um
soldado comum, como o resto do pelotão. Ambas as versões têm
virtudes e são defensáveis. O ponto em que a III não parece um
avanço em relação à II é quanto ao tratamento da mão direita. Na II,
ela é apresentada de maneira natural e em escala; já na III, ela é maior,
mais rosa, mais alargada: bem maior do que a mão esquerda, e maior
até mesmo que as outras mãos enfatizadas pelo pintor – as duas
unidas de Maximiliano e do general à sua esquerda. Ela chama a
atenção para si mesma de uma maneira quase melodramática: vejam o
que estou prestes a fazer, a mão exclama da tela. Isso parece um
pequeno e desnecessário exagero.
A execução de Maximiliano por Manet.
Detalhe do oficial carregando o rifle da pintura
em Londres (esquerda) e a versão em
Mannheim (direita) Um crítico da época
reclamou que a obra de Manet manifestava
“uma espécie de panteísmo que não atribui um
valor mais elevado a uma cabeça do que a um
chinelo”. Panteísmo, impersonalidade,
indiferença: da mesma maneira como a
Execução trabalha com uma luz dura e nivelada,
e com planos em relevo, estreitados, também
seu efeito moral é estranho, estreito, moderno.
Ela ilustra, é claro, um momento dramático, e
podemos admirar a firmeza das vítimas,
especialmente depois da invenção plausível de
Manet segundo a qual o imperador está
segurando as mãos de seus dois generais (na
verdade, ele não estava no meio quando foi
executado, e os generais podem muito bem
terem sido atingidos pelas costas enquanto
estavam sentados em banquinhos, um método
comum de lidar com aqueles que eram julgados
traidores). Mas também podemos admirar a
firmeza dos executores, sua posição confortável
de pés relaxados. Não se trata de uma pintura
histórica com uma mensagem moral sobre o
heroísmo: Manet usou a frase peintre d’histoire
como o pior dos insultos. E talvez essa seja
apenas de passagem uma imagem política:
quando a litografia da Execução foi banida em
1869, o pintor a descreveu em sua declaração
para a imprensa como “une oeuvre absolument
artistique”.
É claro que essa declaração era um tanto maliciosa, uma vez que
Manet tinha escolhido retratar um momento de extrema humilhação
para o sonho imperial de Napoleão III e tinha feito isso adornando a
figura de Maximiliano com indicações de martírio (o halo de santo de
um sombrero, e talvez até seu posicionamento central, como o de
Cristo); além disso, o uniforme que ele forjou para o pelotão de
fuzilamento era suficientemente ambíguo para parecer tanto francês
quanto mexicano, permitindo a insinuação de que os franceses, ao
abandonar seu imperador fantoche quando as coisas ficaram difíceis,
praticamente o executaram. Essa foi certamente a interpretação de
Zola, embora suas duas declarações acerca do quadro tenham sido
instrutivamente contrastantes. Em uma contribuição não assinada
para La Tribune, o romancista, ironizando o pintor, anunciou que a litografia tinha sido banida apesar de “o sr. Manet ter tratado seu
tema de um ponto de vista puramente artístico” e especulou
sarcasticamente se o governo logo começaria a perseguir pessoas
apenas por confirmarem o fato de Maximiliano ter morrido. Quatro
dias depois, entretanto, Zola estava apontando a ambiguidade dos
uniformes e observando a “ironia cruel” do quadro de Manet, que
poderia ser lido como “França atirando em Maximiliano”. Não são
apenas as autoridades hipócritas que gostam de considerar as coisas de
dois modos divergentes.
Zola não pode ter os dois lados da questão; nem Manet. Ou a obra
é artisticamente “pura” e apenas por acaso foi baseada em eventos
políticos recentes, ou não é. Mas também é verdade que o ato mesmo
de banir o quadro (que nunca teve publicidade na França durante a
vida de Manet) teve o efeito de politizá-lo de qualquer maneira. Não
de popularizá-lo, entretanto: A execução de Maximiliano não foi
nenhuma Guernica, que inspirava emoções fora de sua terra natal
enquanto era banida dentro dela. Quando foi exibido em Nova York,
em 1879 (na esquina da Broadway com a Rua Oito, com a entrada a 25
centavos), o quadro teve pouca repercussão. Ele se saiu um pouco
melhor em Boston, mas a turnê proposta para Chicago e outras
cidades foi cancelada e a tela foi enviada de volta para a França.
Por que exatamente a litografia foi banida e Manet advertido
previamente de que a pintura final não seria aceita pelo Salon de
1869? De novo, uma lacuna convidativa se insinua. Não existe
nenhum registro oficial, em colunas relevantes, acerca de intenções
perniciosas ou da estética incerta. John House argumentou que a
ofensa de Manet deve ter sido muito mais forte do que o mero ato de
retratar um evento embaraçoso para o governo, uma vez que duas
outras pinturas relacionadas à execução, por Jules-Marc Chamerlat
(ambas infelizmente perdidas – outra lacuna), foram aceitas para o
Salon de 1868. Talvez o motivo adicional por trás da exclusão de
Manet se encontre no fato de que a pintura configura uma “aparente
imparcialidade em relação ao drama e uma recusa em apontar uma moral clara”, mesmo em sua “elaboração pictórica sumária e sua
aparente falta de finalização”. Talvez; mas pode ser um erro avaliar
racionalmente demais (ou esteticamente demais) o trabalho do corpo
de censores. Eles são notoriamente quixotescos, desenvolvendo suas
próprias excentricidades e temores exagerados. Se ficar em dúvida,
melhor banir. Esta é com frequência a regra básica. Deve-se banir
especialmente com base na mera reputação do artista em questão
(Manet era um conhecido republicano). Mas seja qual for a verdade
irrecuperável, a censura da Execução continua a agir limitando o
conhecimento da pintura pela posteridade. Não aconteceu apenas a
supressão da pintura (e da litografia a ela relacionada), mas suprimiu-
se também a reação da geração para a qual ela foi pintada, aqueles que
poderiam nos contar melhor como lê-la. Tal ausência acrescenta-se à
opacidade do quadro para os espectadores atuais. Neste sentido, a
censura teve êxito, como o tem com frequência.