Memórias de um Vendedor de Mulheres

Giorgio Faletti · Capítulo 9 de 26

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Memórias de um Vendedor de Mulheres

Capítulo 8

 

SAÍMOS DE CASA E PUXO a porta atrás de m im . Assim que a m inha se fecha, a da frente se abre com um estalo. A figura de Lucio se insinua entre o um bral e a porta do seu apartam ento.

— A vaca vai para o brej o.

Carla fica atônita. Eu sorrio. É a solução do criptogram a que escrevi em um a folha de papel e enfiei sob a porta de Lucio no dia anterior.

Vereda para o pasto alagado. (1, 4, 3, 4, 1, 5).

A vaca vai para o brej o, exatam ente. Eu sabia que Chico, o garoto que todo dia o acom panha até o trabalho e o traz de volta para casa, teria encontrado e lido o enigm a para ele. E Lucio o teria resolvido. Não era nem m uito difícil. A esta altura, suponho que sej a im prescindível fazer as apresentações.

— Carla, esse é Lucio, m eu vizinho.

Ela m e olha, franzindo o cenho. Faço um sinal com a m ão diante dos olhos para com unicar que Lucio é cego. Ele sai com os óculos escuros, agora totalm ente j ustificados, e dá um passo em nossa direção.

— Lucio, a m oça que está com igo se cham a Carla.

Ele estende a m ão.

— Oi, Carla. Receio que você é que terá de alcançar a m inha m ão, senão corro o risco de parecer alguém brincando de cabra-cega.

O senso de hum or de Lucio é capaz de resolver qualquer em baraço. De fato, o m om ento constrangedor passa e Carla aperta sua m ão. Ele a segura por m ais tem po do que o necessário.

— Bela pele, Carla. Se for assim no seu corpo inteiro, seu nam orado é um cara de sorte.

Carla ri. Vej o que Lucio gosta desse seu pequeno sucesso. Fico contente por ele. Som os três pessoas à m ercê do m ar e o andar em que estam os é nossa j angada. Acho que cada um de nós tem , a seu m odo, consciência da situação.

E cada um opõe ao vento as poucas e esgarçadas velas que tem à disposição.

Lucio se vira na m inha direção, com a cabeça não perfeitam ente alinhada. Está com ar de quem pretende m e criar problem as.

— Agora, tenho um novo enigm a para você. Difícil.

— Manda ver.

— A im aginação m ais desenfreada, 6, 8, 2 e 8. Para aj udar, digo que a últim a palavra poderia ficar entre aspas.

Repito em voz baixa, para decorar tudo. Se m eu am igo disse que é difícil, a probabilidade de que realm ente o sej a é grande. Mas ele não disse dificílim o, o que é um a boa vantagem .

Bato em seu braço para m e despedir.

— Tchau, Lucio. Precisam os ir.

Ele finge que fica ressentido e m ergulha no m elodram a.

— Tudo bem . Podem m e deixar sozinho com m inha dor e sem um enigm a sequer a ser resolvido.

Com eço a descer a escada e lanço um a provocação.

— Mas eu tenho um enigm a pronto para você.

— E qual seria?

— Por que você teim a em ser m úsico se não é capaz?

Ouço suas palavras quando j á estou no patam ar que divide os dois lances da escada.

— Bravo, você tem a gentileza de um ouriço-do-m ar dentro das cuecas e ouve a m úsica com o Beethoven no final da carreira. Carla...

Ela, que j á estava alguns degraus à frente de m im , para ao ouvir seu nom e. Levanta a cabeça na direção da voz que chega a seus ouvidos pelo vão da escada.

— Pode falar.

— Se hoj e à noite você quiser se convencer da pobreza cultural do Bravo, peça para ir ao By blos, em Brera. É lá que eu toco.

Carla entende im ediatam ente e entra no j ogo.

— Não vou perder de form a algum a. Se necessário, recorro às arm as para obrigá-lo a ir.

— Muito bem . Instintivam ente, sinto que você dispõe de m uitas delas.

Carla parece estar gostando do diálogo j ocoso que tem com Lucio. E ele tam bém . Eu j á estou acostum ado e, para m im , não é m ais novidade, apenas um pequeno prazer cotidiano. Em purro a porta de vidro e saím os na rua. Há carros estacionados. E crianças brincando. Algum as têm nom es im prováveis, tipo Richard ou Elisabeth, seguidos por sobrenom es tão italianos que cortam pela raiz qualquer sopro de estrangeirism o. Alguns passantes de am bos os sexos nos observam passar com a curiosidade de quem não sabe de algo e faria de tudo para saber.

Acredito que Carla tenha entendido tudo em um piscar de olhos.

— Acho que você não tem um a vida social m uito anim ada por aqui.

— Confesso que não.

Dobram os a esquina do edifício e nos encam inham os para o portão, deixando para trás os sussurros do Quartiere Tessera.

— Bravo, que história é aquela da vereda para o pasto alagado e da vaca? E a outra frase, aquele cripto...

Ela se interrom pe. Tento aj udá-la e term ino a palavra em seu lugar.

— Criptogram a.

No cam inho até o Mini, relato o costum e que eu e Lucio tem os de desafiarm o-nos com enigm as. Explico os diversos tipos de criptogram as e o m ecanism o verbal para a solução desse tipo de quebra-cabeça. Ela m e escuta com atenção. Talvez estej a tentando gravar na m ente o que estou explicando.

Enquanto conversam os, entram os no carro e dou a partida no m otor.

— Com o era o últim o que ele disse?

— A im aginação m ais desenfreada. A solução é um a frase com posta por quatro palavras com 6, 8, 2, e 8 letras, palavras estas que têm um significado duplo.

Ela fica pensativa e olha à sua volta enquanto entro na Vigevanese em direção a Milão. A luz do sol m udou o aspecto dos edifícios, galpões e pessoas. As lum inárias apagadas são intrusos. Há tráfego e vida, algo que pensei que perderia na noite anterior ao percorrer esta estrada no sentido inverso, tendo a m eu lado um hom em com um revólver, crente que aquela seria m inha últim a viagem .

Bastaram aqueles três sopros para m udar tudo.

pfft... pfft... pfft...

Um barulho de nada, três batidas de asas que viraram o universo de cabeça para baixo. Eu estou aqui, vivo, respiro, dirij o o carro tendo, ao lado, um a bela garota arm ada apenas com sua própria determ inação. Outro alguém , por sua vez, teve o final que ele m esm o havia reservado para m im . Espero que queim e no inferno. Resta saber o m otivo. Esse é o criptogram a que eu gostaria de resolver. Mas não tenho nem um a definição nem o núm ero de letras, a m enos que mors tua vita mea não sej a a solução universal.

— Aonde estam os indo?

— Dar um a volta no País das Fadas. E buscar encantos que não term inem à m eia-noite.

Sorrio para ela, cúm plice e m isterioso. Ou pelo m enos é o que acho. Com Carla, estou perdendo m uitas das m inhas certezas. Ela está prestes a responder, m as, do m eu cinto, chega o sinal do bipe.

Depois de um a centena de m etros, freio e paro ao lado de um a cabine telefônica. Carla não diz nada e continua a olhar à volta, talvez perguntando a si m esm a que m agia poderia transform ar o m undo que a cerca.

— Preciso dar um telefonem a.

Desço do carro depois de ter dado um a explicação a quem não havia m e perguntado nada. Entro na cabine e enfio a ficha na ranhura, que a engole com gula m etálica. Disco o núm ero confiável. Com unicam -m e que Laura m e procurou.

Logo ela. A vagabunda da fábula.

Ponho outra ficha, que parece descer em câm era lenta por causa da fúria que sinto dentro de m im . Esculpo os núm eros. Laura atende quase de im ediato.

— Alô.

— É o Bravo. Então?

— Então o quê?

A incongruência dessa resposta m e faz perder a cabeça. Não m e dou o trabalho de falar por m etáforas.

— Escuta aqui, sua im becil, ficou m aluca? Você não tinha que estar no Gallia às nove, hoj e de m anhã? Por que não apareceu? Fiz um papelão com um cara que podia ser um a m ina de ouro.

Ela faz um a pausa, sem saber o que responder. Então, por algum m otivo, decide que é m elhor falar com igo pessoalm ente.

— Bravo, precisam os nos encontrar.

Seu tom pacato não tem o poder de m e acalm ar. Não depois do que aconteceu.

— Tam bém acho que precisam os nos encontrar. Logo. E é m elhor que você tenha um a boa explicação.

— Onde?

— Apareço na sua casa daqui a pouco.

Um a pausa. Depois, um a voz um pouco ansiosa.

— Bravo, prefiro outro lugar.

Eu a m andaria à m erda, m as não posso. Ainda não, pelo m enos. Laura é, além de Barbara e Cindy, um a das três garotas que Bonifaci m e pediu para sua noitada de nove m ilhões.

Respiro fundo antes de prosseguir.

— Estou a cam inho do Alex, um cabeleireiro em frente à Estação Central. Sabe onde é?

— O do Jean-Louis David?

— É.

— Claro, sei.

— Não é longe da sua casa. Do lado, tem um bar. Vou estar na saleta interna. Daqui a vinte m inutos.

— Tudo bem . Estou a cam inho.

Volto ao carro, sento e bato a porta com um pouco m ais de força do que o norm al. Carla m e olha e, pela m inha expressão, entende que o hum or m udou.

— Algum problem a?

— Nada que não se possa aj eitar com um sonoro vá tom ar no cu.

Dou a partida no carro e entro no tráfego. Carla decide que o silêncio é o m elhor acom panham ento para m e acalm ar. Isso depõe a seu favor e faz com que ela ganhe pontos com igo.

A história de Laura m e irritou. No m eu relacionam ento com as garotas, nunca houve represálias ou pressões, apenas clareza. Elas trabalham para m im por escolha própria e com toda a liberdade, m as essa liberdade não deve se transform ar em sacanagem . Nesse caso, dei e não recebi: o j ogo não é m ais j usto. Talvez o Tulipa não estivesse errado em dar uns tapas em Laura. O de cuius vult poderia ser o slogan desta m inha discutível cruzada.

Essa ideia m e faz rir sem querer e, quando chegam os à via Vittor Pisani, a raiva j á arrefeceu um pouco. Só um pouco, decido. Acho que não é j usto fazer com que Carla pague pelos erros de outra pessoa. Encontro um a vaga a cinquenta m etros do lugar aonde tem os de ir. Em Milão, nesta região e a esta hora, é um sinal do destino.

Descem os do carro.

Carla m e olha com curiosidade. Deve ser um a região da cidade que ela não está costum ada a frequentar.

— Aonde vam os?

— Você vai ver.

Saio andando e ela m e segue na prim eira etapa deste breve percurso rum o ao m undo encantado, que, neste caso, é o salão de beleza. Quando entram os, o estabelecim ento de Alex está cheio, com o sem pre. Há luzes, perfum es e m ulheres sob os secadores. Garotos e garotas de uniform e preto se m exem sem fazer barulho sobre o chão brilhoso. Este lugar deve render m ais do que o cassino clandestino de Opera, em bora eu não vej a Tano Casale cortando os cabelos de alguém . A garganta, talvez, m as não os cabelos. Carla se sente atraída e, talvez, um pouco intim idada. Acho que um lugar com o este, no qual um a lavagem e um corte custam quase tanto quanto um a sem ana de seu trabalho, não faz parte da lista de lugares que ela costum a frequentar.

Alex, que está dando conselhos a um rapaz sobre com o perder tem po com um a senhora cuj o rosto parece ter sido pisoteado por um a galinha, m e vê e se ilum ina. Pede licença, abandona a m ulher ao seu destino e vem na nossa direção. É um suj eito alto e m agro, com os poucos cabelos que lhe restam cortados bem curtos, despreocupado com um a calvície que j á fez todos os estragos que podia fazer. É sim pático, sabe lidar com as pessoas e faz bem seu trabalho. Não por acaso é um dos cabeleireiros e m aquiadores m ais solicitados pela televisão, pela m oda e pela publicidade. E, apesar da aparência, que não é a de um m odelo, faz m uito sucesso com as m ulheres.

— Oi, Bravo. Já estava na hora de você aparecer. Vam os dar um a aj eitada nessa m oita aí na sua cabeça?

— Hoj e não vim cuidar de m im . Preciso que você estej a na m elhor form a possível.

— Estou sem pre na m elhor form a possível.

A esta altura, acho que é necessário deixar m inha acom panhante a par do que está acontecendo, em bora, pelo brilho de seus olhos, ela j á deva ter entendido algum a coisa.

— Carla, esse é o Alex, que transform ará você em um a deusa.

Finalm ente, explico a Alex o m otivo da nossa presença no seu salão.

— Você deve cuidar desta senhorita. Use todos os artifícios à sua disposição, não se preocupe com gastos e não poupe talento.

Meu am igo, desde que veio se ocupar de nós, não parou de avaliar Carla um instante sequer. Talvez, por vício profissional, j á tivesse com eçado por conta própria a idealizar que diam ante poderia estar escondido por baixo do desperdício. Agora, sabendo que tem carta branca, parece intrigado pelo desafio que lancei.

De certo m odo, este tam bém é um criptogram a.

Eu j á fui esquecido. Não existo m ais. A m ente de Alex entrou em atividade, e ele evoca a própria experiência e fantasia. Estende um a das m ãos para Carla.

— Venha. Vam os ver o que podem os fazer.

Ele a leva sem sequer m e olhar. Carla, ao se afastar, vira-se para m im um pouco perplexa. Faço um gesto significativo com as m ãos, que é ao m esm o tem po um conselho para que ela confie em Alex e um sinal de im potência em relação a sua fúria criativa.

Fico sozinho.

Saio do salão. Deixo para trás, nas vitrines, fotos de m oças e rapazes que ostentam , em burrados, seus penteados. Dou alguns passos e entro em um bar. O estabelecim ento acabou de ser reestruturado, tem algum a intenção de estilo, m as é anônim o graças aos espelhos e crom ados. Na hora do alm oço, servem pratos quentes e frios às pessoas que trabalham nos escritórios da região. Àquela hora, o pico de m ovim ento j á passou e não há m uita gente. Hom ens e m ulheres com ar de executivos, apressados, que se perm item um café ou um lanche.

Um a garçonete dem ora a m e dedicar sua atenção, que é escassa com o sua beleza. Já bebi m eu café e estou no segundo cigarro quando Laura chega. No m om ento de sua entrada, um instante de silêncio. É leve e quase im perceptível, m as significativo. Ela está vestida sem ostentação: j eans, um a cam iseta, a m esm a j aqueta de ontem à noite. Mesm o assim , está linda, fazendo com que os olhos a sigam e a im aginação a persiga. Atrai olhares de invej a das poucas m ulheres presentes, assim com o eu atraio olhares de invej a de todos os hom ens. Eu poderia m e levantar e resolver a questão dizendo a eles poucas palavras. Se gostam dela, se a quiserem e puderem pagar, não tem problem a: eu a vendo.

Mas fico no m eu lugar e observo Laura, que puxa a cadeira à m inha frente.

— Oi, Bravo.

Sequer deixo que ela se sente por com pleto antes de agredi-la.

— Então? E não m e responda novam ente “então o quê?” que acabo com a sua raça.

Ela tira os óculos escuros. Tem os olhos cansados de quem dorm iu pouco durante a noite. Não m e interessa se foi porque chorou ou porque trepou com alguém . O que m e interessava é que tivesse trepado naquela m anhã, e isso ela não fez.

— Você não assistiu ao telej ornal de um a hora?

— Não. Deveria?

Ela abaixa um pouco a voz.

— O Tulipa foi encontrado m orto perto de um a pedreira, depois de Trezzano. Três tiros de pistola...

Deixa a frase em suspenso e olha para m im . Percebo a pergunta em seus olhos e, ao m esm o tem po, sinto vontade de virar a m esa em cim a dela. Agora entendo por que Laura não quis que nos encontrássem os na sua casa.

Está com m edo de m im .

— Laura, você enlouqueceu? Acha que fui eu?

— Você disse que ia acertar tudo com ele. E, hoj e de m anhã, encontram o cadáver do Tulipa. O que eu deveria pensar?

— Falou sobre isso com alguém ?

— Não.

— Muito bem . E nunca fale. Resolvi sua questão com Menno, estabelecendo um acordo com quem tinha autoridade para fazê-lo parar de incom odar você. E m e custou dinheiro. Só isso. Nem sabia que ele tinha sido assassinado.

A m entira sai leve, com um som suave.

pfft... pfft... pfft...

Laura acredita em m im e parece aliviada. Forço a barra.

— A gente se conhece há m uito tem po. Fizem os bons trabalhos j untos. Tenho cara de quem sai por aí dando tiro nos outros? Você j á m e viu carregando um a arm a?

Laura parece totalm ente tranquilizada. Agora, é ela quem deve, de algum a m aneira, se defender.

— Claro que não. Mas ponha-se no m eu lugar. Quando vi aquela reportagem na televisão eu...

Mas não é tudo. Tem outra coisa da qual ela precisa se defender.

— Você viu a reportagem à um a da tarde. O com prom isso no Gallia era às nove. Então, a m orte do Tulipa não tem nada a ver com a decisão de não aparecer por lá.

Laura baixa os olhos. Quando os levanta, estão brilhando devido às lágrim as refreadas. Ela fica alguns segundos em silêncio, com o se estivesse procurando as palavras. As que encontra m e surpreendem .

— Bravo, tenho 26 anos e sou um a puta.

Interrom pe com um gesto qualquer tentativa m inha de retrucar.

— Você pode m e cham ar com o quiser. Há m uitas definições que tornam o term o m enos grosseiro. Hostess, acom panhante, garota de program a. Mas a realidade não m uda. Sou e continuo a ser um a puta. E, quando o tem po tiver passado, serei um a puta velha. Não quero term inar a vida assim .

Interrom po essa viagem que parece percorrer a toda velocidade a estrada para Dam asco.

— Aquele artista de cabaré, Giorgio Fieschi, tem algum a coisa a ver com isso?

Aquele nom e cai entre nós com o um a bom ba que destrói o alvo. Laura funga e procura um lenço dentro da bolsa. Assoa o nariz e tem um a desculpa para não m e encarar.

— Tem , sim .

Não, por favor, Laura. Não interprete logo agora o papel da puta seduzida e redimida. Agora, não...

Não digo o que penso. Espero o resto. Porque certam ente há um resto.

— Fiquei com ele esta noite. Nunca tinha m e acontecido um a coisa do gênero. Um a coisa tão bonita e de form a tão rápida, quero dizer. Entendi que preciso tentar fazer algo diferente e parar com esta vida.

Laura tem voos de quim eras nos olhos.

— Bravo, acho que estou apaixonada.

Eu gostaria de dar um pulo e com eçar a gritar.

Para afastar de você um marginal que estava acabando com a sua vida, quase morri ontem à noite. E, enquanto eu estava literalmente cavando minha própria sepultura, você estava trepando com seu artista de merda. E agora vem me dizer que acha que está apaixonada? Eu gostaria pelo menos do benefício da certeza, por aquilo que me custou...

No entanto, não m e levanto, não com eço a gritar nem a encho de porrada. Fico sentado na m inha cadeira, im óvel, parabenizando a m im m esm o pelo autocontrole. É um a m ísera satisfação, m as é tudo ao que posso m e agarrar neste m om ento. Enquanto volto a assum ir o controle dos m eus nervos, m e pego pensando de repente na risada daquele rapaz ao sair do Ascot com os am igos. Jovens, cheios de talento e, por isso, donos do m undo. Olho para Laura e a vej o perdida em seu sonho, que, com o todos os sonhos, encontrará m ais cedo ou m ais tarde um a alvorada na qual m orrer. De repente, tudo m e parece irônico, m eigo e ridículo ao m esm o tem po.

E descubro a solução do criptogram a de Lucio.

A im aginação m ais desenfreada (6, 8, 2, 8)

Última projeção de “Fantasia”...

Um sorriso distende m eus lábios.

— Tudo bem , Laura. Com o quiser.

— O quê?

— Você entendeu perfeitam ente. Siga a estrada que você escolheu. A vida é sua et cetera, et cetera, et cetera, com o dizem nos film es.

— Não está com raiva de m im ?

— Mudaria algum a coisa?

— Bravo, eu...

— Acho que não tenho m ais nada a acrescentar. Se você m udar de ideia, sabe onde m e encontrar. Ou então, tente ser feliz.

Isso tam bém é dito nos film es, j unto com todos os outros et ceteras. Mas m e parece inútil destacar esse fato novam ente. Laura põe outra vez os óculos escuros e se levanta. Há alívio em sua voz, um alívio cheio de bons propósitos.

— Tchau, Bravo. Obrigada.

— Tchau, Laura. Fique bem .

Sigo-a com os olhos, assim com o m uitas outras pessoas, enquanto ela sai. Ao m esm o tem po, consulto m entalm ente a lista de todas as garotas que conheço, procurando identificar quem é capaz de substituí-la no trabalho na casa de Bonifaci. Quando ela som e do outro lado da porta, levanto-m e e j ogo sobre a m esa o valor equivalente a um café e m ais uns trocados de gorj eta. Saio do bar e de um fim de relacionam ento para voltar a outro, que está com eçando. Não sei bem o que esperar de Carla nem de m im m esm o. Sem pre naveguei a olho nu e receio que, m ais um a vez, serei obrigado a confiar no instinto.

Quando volto ao salão, todas as m oças e rapazes estão cuidando dos clientes que ocupam as cadeiras e espelhos. Nem m eu am igo nem Carla estão na sala principal. Sento-m e em um a poltrona e espero, fum ando e folheando revistas cheias de histórias de am or de atrizes e atores. Já encontrei, no lugar em que estou agora, alguns dos personagens que vej o nas fotos. Sei que algum as histórias são totalm ente inventadas. Fico m e perguntando sobre as outras. Depois de m ais ou m enos m eia hora, a voz de Alex m e tira de um a m atéria na qual insinuam que a blusa larga de um a cantora é roupa de gestante.

— Pronto. Avalie o resultado.

Levanto e m e viro.

Quando a vej o, penso que, antes de ter saído do salão, eu deveria ter m e despedido de Carla para sem pre, j á que nunca m ais a veria. À m inha frente, está um a pessoa nova, tão lum inosa a ponto de esm orecer as luzes que o decorador distribuiu profusam ente pelo salão. Cabelos m ais curtos e tingidos em um tom de m el em olduram um rosto que agora se tornou o único lugar em que aqueles olhos podem ficar cravej ados. E seu olhar desperta o desej o de conhecer a palavra m ágica que dá acesso ao m undo que existe atrás daquele sem blante. Enquanto a observo, estou em um planador lançado em um voo cheio de vácuos. Penso coisas dem ais, todas j untas. Decido fixar a atenção em apenas um a: a m ais fácil, a m ais segura e, portanto, a m ais vil. Que é, ao m esm o tem po, um a fuga e um a solução para um problem a. Agora, sei que encontrei a m ulher capaz de substituir Laura no com prom isso de am anhã.