Memórias de um Vendedor de Mulheres

Giorgio Faletti · Capítulo 17 de 26

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Memórias de um Vendedor de Mulheres

Capítulo 16

 

PARO O MINI DE FRENTE PARA as grades de um portão com a tinta descascada na via Carbonia, em Quarto Oggiaro. Salto e dem oro um pouco a achar a chave certa no m olho que está na m inha m ão. Depois de diversas tentativas, consigo destrancar a fechadura. Abro o portão e volto ao carro. Sou obrigado a parar logo em seguida para fechar a entrada de autom óveis. Sinto dentro de m im um a ansiedade que m e obriga a fazer tudo depressa, com a sensação de que a luz é um a inim iga e de que todos na rua só têm olhos para m im .

Durante a viagem de Cesano até aqui, dei m uitas voltas, entrando à direita e à esquerda e olhando o retrovisor para ver se estava sendo seguido. Quando pareceu que tudo estava direito, que não havia nenhum carro suspeito m e escoltando, parei em um a banca de j ornais. Com prei a edição vespertina, algum as revistas e periódicos de criptogram as. Parti novam ente e liguei o rádio, dando vida a vozes que logo apagava e a m úsicas que logo interrom pia, procurando um noticiário para confirm ar as inform ações que eu havia acabado de ouvir, com aquele leve m asoquism o que acom panha o afã das pessoas am eaçadas.

Por fim , parei para ouvir a edição especial de um noticiário da RAI dedicado à evolução dos eventos do caso Bonifaci. Algum as horas antes, a sede da Ansa havia recebido um telefonem a anônim o cuj a autenticidade estava sendo verificada. O hom em havia reivindicado, em nom e das Brigadas Verm elhas, a responsabilidade pelos delitos de Lesm o, definindo-os com o um a nova e vitoriosa ação na guerra arm ada contra o Estado e seus representantes, um outro sucesso depois do sequestro de Aldo Moro e a aniquilação de sua escolta. Seguia um a declaração gravada do m inistro do Interior, na qual era ressaltada a extrem a gravidade da situação e, ao m esm o tem po, a firm eza das instituições diante da am eaça do terrorism o. Um a reunião extraordinária do governo estava em andam ento.

Era, grosso modo, o que eu j á havia ouvido em casa. Foi por isso que decidi cair fora antes que Giovannone, ou alguém em seu lugar, resolvesse que havia elem entos m ais do que suficientes para m e deter enquanto eles procuravam entender o que eu tinha a ver com toda aquela história.

Depois, o locutor anunciou um a novidade que poderia representar um a reviravolta no curso do inquérito. Algo que, por um lado, fez com que eu vislum brasse um raio de luz e que, por outro, atirou-m e em um lugar noj ento e escuro. Um a testem unha ocular, um rapaz que voltava de um a discoteca, havia visto, na noite da chacina, dois carros com várias pessoas a bordo saindo pelo portão da m ansão de Bonifaci. Um Volvo station wagon e um carro pequeno, escuro, azul-m arinho ou preto, que a testem unha identificou com o um Mini ou talvez um Fiat 127.

A notícia m e deixou petrificado. Os calafrios se tornaram um trem or incontrolável, tanto que tive de parar e esperar que passassem . Depois, fui tom ado por um frenesi para chegar logo a m eu destino e descobrir se m inhas suspeitas tinham ou não fundam ento. A confirm ação não teria resolvido nada, apenas transform ado um a série de perguntas difíceis em respostas alarm antes.

A buzina de um carro que está esperando atrás de m im faz com que eu volte a tom ar consciência da situação e do lugar em que m e encontro.

A poucas dezenas de m etros, há um a ram pa de cim ento que conduz a um a série de garagens subterrâneas. Rum o para lá, deixando livre a passagem para o outro carro que está se dirigindo aos estacionam entos ao ar livre no pátio do prédio. Quando chego ao fim da ram pa, viro à direita, em direção ao portão com o núm ero 28.

Na claridade incerta que chega filtrada pelas grades no alto, encosto o Mini ao lado da longa sequência de portões de ferro. Salto e abro o portão que m e interessa. Dentro, está estacionado um Fiat 124 cor de avelã. Um carro anônim o, no que diz respeito ao m odelo e à cor. Exatam ente o que preciso neste m om ento. Entro no carro e encontro as chaves no para-sol. O m otor dá a partida quase im ediatam ente, cuspindo um a fum aça densa pelo cano de escape. Agradeço m inhas periódicas cargas de bateria que perm itiram este pequeno m ilagre. Com o novo m eio de locom oção, torno a sair. Abandono o Fiat 124 em um a das vagas m arcadas nas áreas asfaltadas em torno dos edifícios.

Toda vez que estou ao ar livre, tenho um a sensação obscura de am eaça, am plificada desm edidam ente pelas condições físicas precárias em que m e encontro. Volto à penum bra da garagem e ao frescor que ela m e oferece.

Vou até o Mini e o estaciono no devido com partim ento, no qual há m ais espaço do que o necessário. Fecho o portão e acendo a luz pendurada no teto, que cria m ais som bra do que luz neste espaço exíguo. Acrescento a reverberação dos faróis nas paredes desbotadas. Pego no porta-m alas um a lanterna. Volto a m e sentar ao volante e abro o porta-luvas. Retiro os docum entos e aciono a alavanca do capô.

Enquanto desço do carro, repito para m im m esm o que sou um idiota, que estou pensando bobagens, que não é possível que alguém ...

Acontece poucas vezes, m as há certezas que, quando aparecem , são m ais devastadoras do que qualquer ignorância. É o que penso, é o que sinto no m om ento em que aponto a luz da lanterna e percebo que, desta vez, o núm ero do chassi corresponde ao do docum ento.

De repente, sinto na boca um sabor rançoso e m eu hálito parece infectar todo o escasso ar úm ido contido nesta caixa de cim ento, neste abrigo para carros que agora parece ter se transform ado na cela da m orte para um ser hum ano.

Com eço a inspecionar o Mini m eticulosam ente. Desloco os bancos, tiro os tapetes, verifico os bolsos laterais e o conteúdo do porta-luvas, esvazio o porta-m alas. Enquanto isso, digo a m im m esm o que não é tão sim ples. Se m inha suspeita corresponde à verdade, quem quer que tenha arm ado toda esta tram a certam ente foi m uito cuidadoso e fantasioso.

Pego um alicate de eletricista e um a chave de fenda na bolsa de ferram entas. Com eço com o porta-m alas, tirando o estepe do lugar e levantando o revestim ento do fundo. Não encontro nada de estranho. Passo para a parte interna. Levanto os bancos da frente e, com o alicate, com eço a cortar o banco de trás, revelando e, em seguida, extraindo, o estofam ento fibroso escondido pelo forro.

Só paro quando o encosto e o assento estão com pletam ente esvaziados, sem revelar nada de anorm al. Estou todo suado. A cabeça está latej ando e parece que há alguém fazendo força lá dentro para tirar m eus olhos das órbitas. A queim ação voltou a ser um a faixa incandescente que envolve m inhas vísceras.

Com eço a m e ocupar dos bancos da frente.

Deslizo o que fica na frente do volante até que saia dos trilhos. Ponho-o no chão, na frente dos faróis acesos, e inflij o a m esm a punição m etódica aplicada ao banco traseiro, m ais um a vez sem sucesso. Volto à parte interna do veículo e aponto o feixe lum inoso da lanterna para o chão. Espalhada sobre o assoalho com o um insulto, está um a m ancha verm elho-escura. Não é necessário ser m édico para entender do que se trata. O sangue apresenta um cartão de visitas que não precisam os ler. Não sei de quem é, m as tenho certeza de que qualquer técnico em um laboratório poderia confirm ar que corresponde ao de um a das vítim as da m ansão Bonifaci.

Prossigo com o um alucinado, enquanto ouço vozes sussurrando palavras incom preensíveis em m eu ouvido. Ou talvez elas só existam na m inha cabeça e só se tornem tão reais por causa da febre e da ansiedade.

Corto, rasgo, desm onto. Finalm ente, o encontro.

Preso com fita adesiva dentro da porta do passageiro, está um revólver m unido de silenciador. Encontro-o de repente, com o se fosse um a am eaça sob a luz esbranquiçada da lanterna. Um passageiro clandestino inerte e silencioso, m as, ao m esm o tem po, sinistro e am eaçador. Tam bém neste caso, não há dúvida: tenho certeza de que é a arm a que, em um a noite, no m eio do cam po, abriu três furos no corpo de Salvatore Menno, vulgo Tulipa, fazendo apenas o barulho de três flechas que acertam no alvo.

pfft... pfft... pfft...

Mesm o sem o respaldo de um a perícia, tenho certeza de que aquela arm a tam bém cum priu seu dever em outro lugar, m ais especificam ente, em um a m ansão em Lesm o, perto de Monza.

Arranco-a do seu aloj am ento forçado e sinto seu peso em m inha m ão. É um a Beretta, em bora eu não saiba dizer de qual m odelo. Entendo um pouco de arm as porque m eu pai tinha duas. Nunca dei um tiro, m as o observei m anej á-las várias vezes. Libero o carregador e o inspeciono. Está cheio de proj éteis. Quem a colocou naquele lugar fazia questão de trabalhar com capricho, de não m e deixar indefeso. Ou de convencer a pessoa que a encontrasse de que eu era um suj eito coraj oso e pronto para qualquer coisa.

Certifico-m e de que a trava de segurança está ativada e enfio a arm a na sacola. Tenho certeza de que estou com etendo um erro, m as, neste m om ento, sinto-m e m ais protegido levando-a com igo. O obj etivo de quem a escondeu no m eu carro era m e foder. Se por acaso nos encontrarm os, prefiro não estar de m ãos abanando. Estou na m erda, m as não tenho intenção algum a de perm itir que m eu túm ulo sej a escavado nela.

Levanto o portão de ferro e um a lufada de ar fresco m e faz respirar novam ente de m aneira decente depois do calor úm ido daquele cubículo. Pego a sacola e lacro os restos do m eu carro naquela câm ara m ortuária. Saio em direção ao elevador que fica em butido em um a parede de cim ento aparente do outro lado da pista de acesso à garagem .

Aperto o botão do quarto andar, esperando não encontrar ninguém . O edifício em que m e encontro é um a espécie de colm eia em form a de C à m argem da cidade e da lei. Quarto Oggiaro é um bairro no qual a m arginalidade se estabeleceu e prosperou, o que o tornou um lugar m alfrequentado, onde não é aconselhável se m eter na vida alheia.

Com o sem pre, o diabo não é tão feio quanto se pinta e a situação em Quarto Oggiaro não é tão dram ática. No entanto, dadas as circunstâncias, é o que m e convém : o lugar certo no qual m e refugiar, ainda m ais agora que o diabo está no m eu encalço e m e parece m uito m ais feio do que qualquer um a de suas representações.

O elevador para. Deixo que as pichações nas paredes inform em à posteridade e aos passageiros que Luca é bicha e Mary é um a piranha. Com o respectivo núm ero de telefone. Outro rabisco, sem iapagado por um a m ão apressada com um a opinião diferente, afirm a que o Inter é um a m erda. Esses pequenos vandalism os, que antes eu via com certa irritação, agora m e parecem um testem unho da norm alidade, de vidas que têm tem po a perder, da ausência de qualquer pensam ento, exceto um a furtiva banalidade.

Saio e estou em um corredor. Longo e silencioso, com o reboco que deixa transpirar um leve cheiro de um idade. A porta logo à esquerda é a do apartam ento ao qual m e dirij o. Quando finalm ente estou lá dentro, dou um suspiro de alívio instintivo.

Deixo a sacola cair no chão e m e apoio na porta.

A cabeça latej a. A dor nos olhos m elhorou. A queim ação, não.

Tiro do bolso do paletó a Furadantina e ponho entre os lábios outro com prim ido. Engulo-o, m ais um a vez sem água. Depois, inclino-m e e pego na sacola um estoj o com um a reserva de m edicam entos. Enquanto o procurava, toquei várias vezes no m etal inerte do revólver. Em vez de m e agitar, aquilo m e transm itiu segurança. Vou à cozinha e pego um copo em um m óvel em cim a da pia. Em seguida, o enxáguo e pingo nele algum as gotas de Novalgina, que serve tanto para a febre quanto para a dor de cabeça. Acrescento um pouco de água e bebo, aceitando o am argo do rem édio, que parece m elhorar o gosto de fel que tenho na boca.

Volto à sala e resum o com um olhar o lugar em que m e encontro. O apartam ento é um pouco m aior do que o m eu, com um a copa-cozinha e um quarto a m ais. A decoração corresponde ao que se espera de um edifício e de um bairro com o estes.

Móveis ordinários, quadros ordinários, tecidos ordinários.

No ar, cheiro de fechado e um a sensação de abandono. Sobre todas as coisas, um véu de poeira que não tenho intenção algum a de tirar. Assim com o tam bém não tenho intenção de cham ar alguém para tirá-lo por m im . Aqui, até um ano e m eio atrás, m orava um a pessoa que atualm ente está na prisão de San Vittore.

Carm ine Marrale é um dos hom ens m ais feios e, ao m esm o tem po, com um dos m aiores paus do m undo. Conheço o prim eiro lado da sua anatom ia porque tenho olhos e o segundo porque recebi as confidências de um a das m inhas garotas, a única que havia aceitado ter relações carnais com ele depois que outras se recusaram , aterrorizadas.

Eu o conheci em circunstâncias peculiares, daquelas que, quando acontecem , ou afastam para sem pre seus protagonistas ou criam um relacionam ento, independentem ente das bases para seu desenvolvim ento futuro. Mais especificam ente, ele e eu som os os atores principais de um a história clássica, aquela que fala de dentes e pão.

A ironia da vida no poder.

Eu estava fora de Milão, perto de Motta Visconti, em um a trattoria no m eio do cam po, conhecida e frequentada por causa de suas receitas à base de rãs. Fritada com rãs, risoto de rãs, rãs fritas. Para os am antes do gênero, um lugar que valia a pena frequentar. Naquele período, estava na m oda sentar-se na frente daquelas m esas espartanas e com er o que era servido, bebendo vinho sem rótulo. Não era raro encontrar ali personagens im portantes, ou que se j ulgavam im portantes, de Milão. Acabei indo parar lá com um grupo de pessoas de cuj os rostos e nom es não m e lem bro e que nunca m ais vi. As únicas coisas de que m e lem bro são um a garota da qual eu gostava e o m eu m au hum or, que se transform ou lentam ente de desej o físico em desej o de ser outra pessoa e de estar em outro lugar. Quando decidi que bastava, levantei-m e e transform ei cinquenta por cento das m inhas vontades em realidade.

Parei na saída e acendi um cigarro. Um carro com três pessoas a bordo saiu do estacionam ento atrás da trattoria, surgindo de repente do canto à m inha direita. Olhei as luzes traseiras que se afastavam e se perdiam na escuridão, desbotadas por um a nuvem de poeira que se desprendia da estrada de terra. Em um a daquelas estranhas brincadeiras do acaso, dos olhos e da m em ória, decorei o núm ero da placa.

Saí para pegar o carro, que era o últim o no fundo do estacionam ento. Na m etade do cam inho, intuí, m ais do que vi, a figura de um hom em caído no chão.

Estava deitado de costas e tentava, sem êxito, virar de lado. Inclinei-m e sobre ele. Aj udei-o a se sentar tendo, ao fundo, seus xingam entos sussurrados à m eia-voz. Não era necessário m uita luz para perceber que quem executou aquele serviço havia exagerado.

O nariz daquele hom em estava quebrado e um dos lábios estava cortado. Todavia, a penum bra não m e perm itiu contar os vários hem atom as. Im aginei que o corpo não estivesse em condições m elhores do que o rosto. Um a vez em posição ereta, o sangue do queixo com eçou a pingar na cam isa. Peguei um lenço no bolso e passei para ele.

— Nada quebrado?

Ele m ovim entou as pernas e m e respondeu através do tecido leve com prim ido contra o lábio.

— Acho que não.

— O que aconteceu?

— Levei um a surra. Eram três filhos da m ãe.

— Você os conhecia?

— Estavam com o rosto coberto. Uns covardes de m erda.

— Cham o um a am bulância? Talvez você estej a com algum a lesão interna.

— Não, nada de am bulância nem de pronto-socorro.

Lendo nas entrelinhas, essa últim a afirm ação tam bém tinha outro significado: nada de polícia.

— Você consegue dirigir?

Antes de responder, fez um a rápida avaliação estatística de suas energias.

— Não.

Depois, m e exam inou.

— Pago cem m il liras para você m e levar para casa.

Respondi rápido.

— Duzentas.

Ele respondeu com a m esm a rapidez.

— Você é um babaca.

— Sou, m as um babaca em condições de dirigir. Caso não queira aceitar m inha oferta, você sem pre pode cham ar um a am bulância.

— Vá se foder. Me aj ude a levantar.

Am parei-o até que ele ficasse em pé e ouvi um a nova ladainha m uito fantasiosa de coisas ligadas à religião. Coloquei-o no carro e parti rum o à sua casa, no endereço que ele havia m e inform ado. Durante a viagem eu não conseguia tirar os olhos do seu rosto inchado sob a luz interm itente dos postes. Lem bro-m e de um m eio-sorriso, logo interrom pido pela ferida no lábio.

— Não adianta m e olhar. Garanto que, antes das pancadas, eu era ainda m ais feio.

Trouxe-o para este apartam ento em que estou agora. Aj udei-o a se lim par e a se deitar na cam a. Observei enquanto ele procurava a m elhor posição que o corpo podia oferecer sem exigir em troca m uita dor. Por fim , pus em cim a da m esinha de cabeceira um a garrafa d’água e algum as aspirinas que encontrei no banheiro.

— Quer que eu ligue para alguém ?

— Não.

— Lam ento ter de tocar nesse assunto, m as você m e deve duzentas m il liras.

Ele apontou sem falar para a gaveta do criado-m udo a seu lado. Eu a abri. Dentro, havia cédulas. Contei o valor que ele m e devia e coloquei o dinheiro no bolso.

Ele não deixou de com entar aquele m eu gesto.

— Você é um urubu.

— Talvez. Mas vou acrescentar um presente ao serviço de transporte.

Tirei do bolso interno do paletó um a caneta e escrevi algum as letras e núm eros em um a revista que estava ao lado do abaj ur.

— Não sei se pode ser útil, m as esse é o núm ero da placa dos caras que bateram em você.

Dois m eses m ais tarde, encontrei-o por acaso no Negher de Milan, um bar no Naviglio. Foi ele que se aproxim ou. Ofereceu-m e um a bebida e especificou que não se tratava de um agradecim ento, pois as duzentas m il liras que em bolsei haviam sido um a recom pensa m ais do que suficiente. Era apenas para festej ar o sucesso de um a expedição punitiva contra os três m arginais que o haviam surrado, identificados graças ao núm ero da placa que eu fornecera.

De algum a m aneira, nos tornam os am igos, até onde possam ser am igos dois ratos que, por equívoco, vão parar dentro de um garrafão de vinho. Conheci sua história, que é sem elhante à de tantos outros suj eitos que vivem entrando e saindo da prisão. Um a j uventude na rua com m ás com panhias, algum as bravatas e pequenos furtos. Em seguida, roubos em apartam entos e, depois, assaltos à m ão arm ada. Com alguns intervalos com o traficante de cocaína para conseguir uns trocados nos m om entos de vacas m agras. A m ulher o abandonou quando percebeu que ele nunca m udaria e descobriu que estava grávida. Carm ine voltou e encontrou a casa deserta, os arm ários vazios, a gaveta sem o pouco dinheiro que costum ava conter.

E um bilhete em cim a da cam a.

Nele, ela anunciava que não tinha intenção algum a de perm itir que o filho crescesse com um pai com o ele. Desde então, Carm ine não a viu m ais. Um dia, recebeu um envelope da Alem anha, no qual havia som ente a foto de um m enino de uns dois anos. No verso, escrito a caneta, um nom e: Rosario.

Quando Carm ine tentou o enésim o assalto, duas pessoas acabaram m orrendo. Um policial à paisana que se introm eteu e um a cliente do banco. Ele foi preso graças a um a denúncia e, no processo, pegou vinte e dois anos. Então, decidi arcar com as despesas do seu apartam ento a fim de tê-lo à disposição, bem com o o autom óvel, em caso de necessidade. Agora, sinto que foi um dinheiro bem -gasto e que, pelo m enos por um curto período, a casa de Carm ine representa um refúgio seguro. Pelo m enos enquanto a ação m ovida pelos fam iliares das vítim as não a tirar dele. Foi um pacto entre nós dois e ninguém está a par. Deposito o valor do condom ínio por m eio de um vale postal e as despesas continuam a ser quitadas com o se ele as pagasse. O m esm o acontece com as outras contas.

Pego a sacola, vou para o quarto e a apoio sobre um a cadeira. Por sorte, m eu am igo tem os m esm os hábitos que eu. Na frente da cam a, fica um m óvel com um televisor Saba e o videocassete ao lado. Os m arginais estão sem pre na vanguarda tecnológica. Ao lado e em cim a de um a prateleira, estão em pilhadas m uitas fitas, infelizm ente para m im , quase todas pornô.

É um tipo de espetáculo que não m e diverte.

Penso sem nenhum a alegria em um a piada de Giorgio Fieschi: o sexo é com o o esporte, o im portante é participar.

Ligo o televisor e m e certifico de que está funcionando. Deixo sintonizada na RAI 2, com o volum e no m ínim o. Vou ao banheiro, tiro as calças e m e sento no vaso. Solto alguns palavrões que poderiam com petir com os do dono da casa. Parece que estou urinando fósforos acesos.

Aperto o botão que acende o aquecedor e, enquanto espero para poder tom ar um banho, volto a m e deitar na cam a. Retiro o pano que cobre o colchão e os travesseiros sem fronha. Tiro os sapatos sem desam arrá-los. As im agens no televisor estão desfocadas e as palavras talvez pertençam a um idiom a que não existe.

Estou péssim o.

Pego aquela espécie de colcha cuj a lim peza é discutível e m e cubro, com o um personagem patético de O Poderoso Chefão: quando há guerra entre as fam ílias, todos vão para esconderij os onde só existem colchões pelo chão. Surge um cansaço repentino que m e im pede de refletir e m e faz esquecer que, exatam ente quando com eço a entender, não consigo acreditar.

O sono m e parece o único refúgio.

Durm o.