Memórias de um Vendedor de Mulheres
Capítulo 11
AO MEIO-DIA, QUANDO ACORDO, CARLA ainda dorm e.
Eu não havia fechado a porta à chave, em bora pensasse que ela fosse ficar na casa de Lucio até de m anhã. No entanto, a certa altura da m adrugada, eu a ouvi subir na cam a sem um a palavra. Deitou-se de bruços e procurou o contato do m eu corpo. Caí novam ente no sono com o se fosse norm al tê-la dorm indo ao m eu lado.
Acendo a lâm pada da m esinha de cabeceira e a observo. Está deitada de lado, nua, seu corpo apenas parcialm ente escondido pelo lençol. Estico a m ão e acaricio sua pele, seguindo a linha suave dos seus quadris. Resm ungando, ela gira e oferece à carícia a graça do seu seio. Depois, passa os braços em volta do m eu pescoço e, sem abrir os olhos, esconde o rosto na cavidade do m eu om bro.
Seu hálito é quente e tem o perfum e do sono.
— Bravo...
Não sei se é m eu nom e ou um elogio pela m inha carícia. Escolho a prim eira opção.
— Pode falar.
— Com você, tudo é bonito.
Conheço essas palavras. Já as ouvi no passado, várias vezes. Mas, até agora, só haviam chegado aos m eus ouvidos um a única vez desta m aneira, prontas para serem acolhidas e com a possibilidade de causar danos. Outro m om ento, outro lugar, e eu era um hom em diferente do que sou agora. E a m ulher que as disse era diferente.
Quando nós dois nos iludíam os, achando que éram os m elhores do que realm ente éram os.
Todavia, se existem m om entos de que não nos esquecem os, Carla acabou de m e dar de presente um deles, a despeito da hora que é concluída por este segundo. Não sei que futuro com eçará na hora seguinte, m as sei que será um lim ite além do qual eu poderia tentar esquecer e substituir.
Mas não agora.
— Tenho coisas a fazer. Você tam bém .
— Eu sei.
— Podem os falar disso m ais tarde.
— Tudo bem .
Ela se afasta e apoia a cabeça no travesseiro, ainda sem abrir os olhos. Talvez por isso eu m e salve e consiga m e levantar incólum e da cam a, talvez por isso eu consiga j ogar m eu corpo inútil em baixo do chuveiro com a tentação de m e esfregar até arrancar a pele.
Fico no banheiro durante m uito tem po, barbeando-m e e pensando. A história do Tulipa continua a girar na m inha cabeça. Estou razoavelm ente seguro de ter feito tudo direito e de não ter deixado rastros. Além do fato de que ninguém nos viu quando ele m e pegou na frente do Ascot, o que, no m om ento, foi um azar, m as que, agora, é outro detalhe de sorte a m eu favor. Isso no que diz respeito à polícia, se, de algum a m aneira, eles chegarem até m im . No que diz respeito ao Tano, as coisas são um pouco m ais com plicadas. Seus m étodos podem não ser totalm ente ortodoxos, se ele decidir esclarecer o caso. Im agino até que ponto ele acreditaria em m im se eu lhe contasse a verdade nua e crua.
Às vezes, apenas os tolos e os inocentes não têm um álibi...
Enquanto estou passando a loção pós-barba no rosto, m eu olhar cai no exem plar da Settimana Enigmistica apoiado sobre o cesto de roupa suj a. Sinto vontade de sorrir ao pensar em toda a vida que existe naqueles quebra-cabeças, tam bém no que diz respeito à estética.
Quando você nasce, é sorteado. A página em que você vai acabar é apenas um a questão de ter ou não a bunda virada para a lua. Dali em diante, há o branco e o preto, os espaços vazios dos quais elim inar as incógnitas, as letras prontas para qualquer caligrafia, cada um a no seu quadrado com a presunção de ser im portante. Para, depois, perceber que, sem todas as outras, ela não é nada.
No fundo, som os apenas isto: horizontais e verticais. Um sim ples conj unto de atitudes e posições, palavras que se cruzam com o nós enquanto andam os, dorm im os, brincam os, fazem os am or, voltam os para casa com calafrios e caím os na cam a doentes. Até que, um dia, tudo se torna hom ogêneo e percebem os que o enigm a, aquele que estam os tentando resolver há tanto tem po e com tanta dificuldade, nunca poderá ser solucionado.
O resto do tem po é um a longa linha horizontal.
Ouço batidas à porta do banheiro.
Saio do papel de Zaratustra e m e vej o em m eu velho roupão atoalhado, com Carla, cuj os contornos estão desfigurados pelo vidro trabalhado da porta, perguntando se pode entrar.
— Pode vir.
Sua cabeça desponta da porta entreaberta. Seus olhos são a m adeira clara da Árvore do Bem e do Mal.
— Fiz m acarrão, se quiser.
Eu não sabia que tinha algo com estível em casa. A única coisa que é feita sobre o fogão aqui é o café. Espero que ela não o tenha usado para condim entar a m assa.
— Com o quê?
— Com o pouco que encontrei. Azeite, sal e um a lata de tom ates sem pele. Sua despensa estava bem vazia.
— Só um segundo.
Espero que ela se afaste e vou para o corredor. Pego do arm ário em butido um a calça esportiva e um a cam isa. Entro no quarto, onde os lençóis e a coberta j á foram arrum ados de m aneira im pecável.
Fecho a porta e m e visto.
Ela j á m e viu nu um a vez e nós dois ainda carregam os conosco as consequências.
Quando chego à sala, Carla está vestindo apenas a cam isa que usei ontem . Nela, tem o efeito de um vestido de noite. Está sentada à m esa e diante de si há um prato de espaguete. Outro está pousado no lugar que ela decidiu que seria o m eu.
Sento-m e e experim ento um a garfada.
— Gostoso.
Sou sincero. Está realm ente gostoso.
Carla sorri para m im .
— Não é o j antar de ontem à noite.
— Não. Mas tem sabor de novidade. Acho que nunca com i em casa.
— Eu, sem pre.
Essas duas frases sim ples revelam m ais sobre nossas vidas do que discursos inteiros. Continuam os a com er em silêncio, certos da presença recíproca. Nenhum dos dois m enciona a noite anterior e o que aconteceu com Lucio.
Term ino de com er prim eiro e, quando ela tam bém acaba, m e levanto.
— Eu cuido dos pratos. Vá se arrum ar.
— Tudo bem .
Carla se levanta e desaparece no corredor. Eu apoio os pratos na pia, deixando-os para a futura atenção da faxineira. Acendo um cigarro, sem ceder às lisonj as do café. Mesm o porque não quero prepará-lo.
Enquanto Carla tom a banho e se arrum a, cuido de alguns de m eus negócios. Fecho encontros para velhos clientes, dóceis e sem problem as, que pedem um pouco de com panhia que, sozinhos, não conseguem ou não podem obter. Um a benesse para eles e para m im . Trinta por cento de m im é extrem am ente com preensivo. Os setenta por cento restantes são um a questão que diz respeito àqueles hom ens, sua consciência e às garotas.
Bipe.
Meu m ordom o de bolso m e avisa que alguém quer falar com igo. Recebo da central Eurocheck um núm ero sem nom e, com o sem pre. Ligo. Responde um a voz m asculina, ligeiram ente hesitante, com um leve sotaque estrangeiro que não consigo identificar. Apresento-m e seguindo a rotina testada e aprovada. Na prática, é com o se um a cortina se abrisse.
— Recebi um a ligação desse núm ero.
— O senhor é o Bravo?
— Claro. Pode falar.
— Um am igo m e deu o seu núm ero. Disse que o senhor é um a pessoa com petente e de toda a confiança.
Muito gentil, m as não basta. Um a ou duas referências são necessárias, se possível.
— Posso saber quem é esse am igo?
— O dr. Larsson.
Lem bro-m e do nom e. É um cirurgião plástico sueco que, com certa frequência, vem a Milão e não desdenha a com panhia fem inina. Com acessórios e com plem entos de fum aça e pó. Fanático pela Betsy, um a bela m ulata. Norm al, para um escandinavo. Acho que, com ela, não usa anestesia para operar. Todavia, decido assim m esm o arm ar um a cilada para o m eu cliente em potencial, por segurança.
— Ah, sim , o dr. Larsson. Um dos m elhores dentistas de Gotem burgo.
Meu interlocutor não percebe que esse erro é proposital. Mas m e corrige logo e passa na prova.
— Não, está enganado. O dr. Larsson é um cirurgião e trabalha em Estocolm o.
— É claro. Perdão. O que posso fazer pelo senhor?
— Bem , eu estava m e perguntando se...
Muitos ficam hesitantes e constrangidos no prim eiro contato. Espero enquanto ele procura as palavras. No que diz respeito à coragem , ela existe ou não. Mas ele encontra um substituto razoável.
— Estava m e perguntando se o senhor teria a possibilidade de fornecer garotas m uito j ovens.
— Todas as garotas que trabalham com igo são m uito j ovens.
A voz incerta do outro lado se torna alusiva.
— Não, eu estou falando de garotas m uito, m uito j ovens...
Deixa a frase em suspenso e eu capto a m ensagem . Depois, reaj o. As m alhas do m eu código m oral são bastante largas, m as existem coisas que são tão grandes que não conseguem passar. Sibilo com o um a serpente ao responder. Im agino que sej a a única língua que esse canalha consiga entender.
— Escuta aqui, seu filho da puta. Não sei quem você é, m as sei quem eu sou. Se ousar ligar novam ente para m im atrás das suas safadezas, quebro suas pernas e seus braços. E não se atreva a continuar sua pesquisa em Milão. Eu acabaria sabendo e o tratam ento seria o m esm o. Entendeu?
— Sim , m as eu...
Não o deixo term inar.
— “Mas eu” é o caralho! Vai tom ar no cu, seu babaca.
Bato o telefone com tanta violência que fico com m edo de tê-lo quebrado. Pego um a folha de papel e um a caneta e anoto o núm ero para o qual acabei de ligar. Na prim eira oportunidade, vou dá-lo a Milla para que ele investigue esse pedófilo m aldito.
A voz de Carla m uda repentinam ente a situação.
— Estou pronta.
Viro-m e e fico atônito. Não encontro palavras para descrever o que sinto.
Carla pôs um dos vestidos que com prei ontem , um m odelo de tecido m acio e cáqui, que com bina com seus olhos. Por cim a, está usando um paletó com desenhos jacquard sobre um fundo da m esm a cor do vestido. Os sapatos, m esm o com saltos que não são exagerados, a tornam m ais esguia e a fazem chegar ao topo do K2.
Ela dá um a pirueta, sorrindo, com aquela m igalha de vaidade que lhe perm ito e que ela m erece.
— Com o estou?
— Linda.
Carla volta a ficar séria.
— Para você, quero estar sem pre linda.
Olha para m im e se aproxim a até grudar seu corpo ao m eu. Depois, seus braços se fecham em torno do m eu pescoço e nos beij am os. Sua língua tem gosto de pasta de dente sabor m orango e de m ais algum a coisa que não consigo identificar. De repente, vej o-m e diante de um a porta aberta, m as, a despeito de qualquer esforço que eu faça, sei que não conseguirei atravessá-la. Mesm o assim , fico ali, retribuindo aquele beij o com o se fosse o prim eiro ou o últim o da m inha vida. Depois, perm anecem os abraçados. Ela apoia a cabeça sobre m eu om bro.
— Bravo...
— Sim .
— Aconteça o que acontecer, obrigada.
Eu a afasto de m im . Levanto o braço para checar a hora. Falo com um a voz que não m e pertence totalm ente.
— É tarde, tem os de ir em bora. O traj eto daqui até San Babila pode ser um a viagem , dependendo do tráfego.
— Entendo.
Ela parece decepcionada. Eu certam ente estou com raiva. De m im , dela, do Lucio, dos nossos enigm as idiotas, das nossas ilusórias brincadeiras de adultos, do m undo inteiro. Saím os e, em silêncio, vam os até o carro. Aconteceram m uitas coisas sobre as quais pensar, coisas difíceis de serem traduzidas em palavras. É por isso que não tem os m uitas delas, é por isso que nós dois tem os m edo.
Chego ao carro, abro o porta-m alas e ponho lá dentro a bagagem de Carla. Depois, nos sentam os e eu ponho a chave na ignição. Giro-a e dou a partida no m otor. Engato a m archa, m as não saio do estacionam ento. Desligo novam ente o m otor e olho à m inha volta. O volante, os bancos, os tapetes, as coisas no porta-luvas e sobre o banco traseiro. Tudo com o ontem . Porém , algum a coisa m e parece estranha. Para a alegria de Lucio, eu poderia dizer que se trata de um déjà-non-vu, o que pareceria a solução de um dos nossos estranhos criptogram as. Mas aqui não há palavras em torno das quais fazer evoluções. Som ente esta sensação estranha, que não consigo definir.
— Algo errado?
— Não, tudo certo.
Volto a ligar o carro e parto. Minha resposta não deve ter sido convincente. Durante todo o traj eto até San Babila, enquanto explico pela enésim a vez a im portância e a exclusividade do lugar ao qual ela terá acesso, Carla continua a m e olhar com o se estivesse tentando decifrar através dos m eus gestos e palavras um a m ensagem oculta m ais com plexa.
Quando chegam os ao centro, Barbara j á chegou e está de pé na frente do Gin Rosa, com um a pequena m ala a seu lado. Paro diante dela e, enquanto Carla está saltando do carro, um táxi para atrás de nós. Da porta que se abre, saem as longas pernas de Cindy. Ela salta e se aproxim a com um a bolsa Louis Vuitton nas m ãos. Alta, bonita e sem lim ites. Senão, com o teria com prado aquela bolsa e os vestidos de grife que usa? Vem até nós e se une ao grupo.
Sorri, entusiasm ada com a vida.
— Nada m al o taxista. Um rapaz realm ente bonito. Não m e deixou pagar. Dei m eu núm ero de telefone para ele. Caso ligue, acho que tam bém vou deixá-lo dar um as voltinhas grátis.
Barbara ri, m as Carla perm anece absorta. Talvez estej a pensando na frase que m e disse quando nos encontram os pela prim eira vez.
Com você, seria grátis...
Talvez, m as não há com o saber ao certo.
Um a concentração de garotas deste calibre não passa despercebida. Na verdade, eu tam bém não passo despercebido, o que não acho totalm ente gratificante. Quero ir em bora o m ais rápido possível, ficar sozinho com o m eu carro.
— Tchau, garotas. Boa sorte. Liguem quando voltarem .
Recebo os cum prim entos de Barbara e Cindy e ignoro o olhar de Carla que m e acom panha até que eu volte para o carro.
Aproveito o sinal verde e entro no corso Venezia na direção do corso Buenos Aires.
A tarde se apresenta longa e cheia de interrogações. Decido que é o m om ento certo para o Cinem a Argentina, localizado com m uita im aginação na piazza Argentina. Esse fato deve ser ressaltado, pois não acredito que o cinem a tenha em prestado o nom e à praça. Em um a sala que j á viu dias m elhores, passam m aratonas de film es de ficção científica, terror, faroeste e tributos a um ou outro ator, m udando os títulos diariam ente.
O lugar certo para passar algum as horas.
Dirigindo no tráfego de Milão, continuo a olhar o interior do carro porque aquela sensação, que m antive guardada durante a viagem desde Cesano, voltou a se m anifestar com força. Chego às proxim idades do cinem a e procuro um a vaga. Quando a encontro, desligo o m otor e acendo um cigarro. Assim que solto a prim eira baforada, m e dou conta.
No carro, não há nada de novo, m as falta algo velho.
O cheiro de cigarro.
Abro o porta-luvas na frente do banco do passageiro e decido que não vou passar vergonha pelo que estou prestes a fazer, j á que estou sozinho. Ninguém m ais vai m e ver fazendo o papelão de um esclerosado. Tiro o docum ento do carro e aciono a pequena alavanca que abre o capô. Vou até a frente do carro. Levanto o capô e encaixo sua haste, travando-o, com o está escrito nas instruções. Depois, com paro o núm ero do chassi com o do docum ento.
A arteriosclerose passa im ediatam ente, substituída pela ideia de que sou um idiota. Os dois núm eros não coincidem . Verifico duas vezes, m as as sequências de núm eros e letras continuam a não bater, com o a m esm a frase em dois idiom as diferentes.
Não sei o que pensar.
Geralm ente, quando isso acontece, não penso. Uso esta pequena técnica quando não consigo resolver um criptogram a. Faço um a pausa, dedico-m e a outra coisa, espero que a parte incontrolável do m eu cérebro trabalhe por conta própria. E a solução, m ais cedo ou m ais tarde, é um a centelha que traz consigo um a série de “Mas é claro! Com o não pensei nisso antes?”
— Ei, seu babaca, isso é lugar para trocar o óleo?
Viro-m e em direção à voz e m e vej o a um passo do Day tona. Ele se aproxim ou percorrendo a calçada à m inha direita. Im erso no m eu pequeno m istério, não o vi nem o ouvi. Está exibindo de m aneira im pecável um rosto transtornado e seu costum eiro terno azul-escuro am arrotado.
Escondo o docum ento que ainda tenho em m ãos.
— Tem um barulho que está m e perturbando. Acho que pode ser a correia.
Day tona dá um dos seus sorrisinhos, daqueles que o fazem parecer um personagem de desenho anim ado. Aponta para o m eu carro sem saber que não houve barulho algum e que a correia do distribuidor funciona perfeitam ente.
— Está na hora de você com prar um carro decente e se livrar desse cacareco. Você é do tipo que deve circular com um fora de série, e não com esse calham beque do tam anho de um a narina.
Retiro a haste do suporte e fecho o capô.
— Quando você se decidir a vendê-lo, talvez eu com pre seu Porsche, desde que, nesse m eio-tem po, devido à idade, ele j á não estej a sob a proteção do Patrim ônio Histórico.
Despeitado, Day tona logo m e m enospreza.
— O m eu é um carro de grã-fino. Você não é desse naipe. Se um cara sem graça com o você se senta atrás do volante, é só dar a partida que ele explode.
Decido deixar para lá um bate-boca que talvez não tenha solução. Passo às am enidades.
— O que você está fazendo por aqui? Achei que, a esta hora, ainda estivesse dorm indo.
Day tona indica um ponto que poderia ficar em qualquer parte da cidade.
— Quem m e dera! Eu tinha um com prom isso de trabalho em um a rua aqui atrás. Um a operação m uito interessante.
Sem pre tive m uita dificuldade em com binar a palavra “trabalho” com a figura de Day tona, que, por causa de seus vícios, às vezes anda por aí com um a cara que tem a cor das vitam inas da casa de sucos Viel. De banana ou de m orango, dependendo do dia. Para não ser cruel, revelo m inha parte do program a.
— Estou indo ao Argentina.
— Coisa de quem não tem porra nenhum a para fazer: cinem a à tarde.
Provocado, respondo à altura. Com m eu m elhor ar de gozação.
— Por quê? Quais são seus com prom issos hoj e?
— Nenhum . De fato, vou com você. Que film e está passando?
— Não faço a m enor ideia. E só cam inhar cem m etros para descobrirm os.
Vam os em direção à entrada. Eu teria preferido ficar sozinho, m as não encontrei um m otivo válido para recusar a com panhia e a conversa fiada de Day tona. Espero que, pelo m enos durante o film e, ele fique de boca fechada. Caso contrário, terei um m otivo válido para pedir que ele se cale.
Quando estam os na frente dos cartazes, descobrim os que está acontecendo um a m ostra dedicada a Paul Newm an e que o film e do dia é Golpe de Mestre. Ele m e olha com ar de dúvida.
— Eu não vi. E você?
Dou de om bros. Para m im , todos os film es são iguais, vim até aqui apenas para gastar algum as horas em um lugar tranquilo e discreto, pensando nos m eus problem as.
— Eu j á, m as assisto novam ente num a boa.
Estam os com sorte. Ao entrarm os, o m ostrador pendurado na parede em cim a do caixa se acende, indicando o início da prim eira parte. Quando com pram os os ingressos, a bilheteira nos confirm a que o espetáculo com eçou há poucos segundos.
Entram os na sala forrada por um a penum bra cam biante. Quanto ao lugar, tem os opções de sobra. No total, lá dentro, deve haver um as dez pessoas. Aj udados pela luz vinda da tela, encontram os duas poltronas m ais ou m enos na m etade do corredor.
Day tona se posiciona à m inha esquerda e se lança em um a qualificativa dissertação sobre o film e. Daquelas que ficarão esculpidas na cinem atografia m undial.
— Grande Robert Redford.
Tem o pelo resto, m as Day tona se cala e, depois de poucos m inutos, m e faz feliz. Inclina a cabeça para frente, o lábio superior fica pendente e sua peruca balança patética no vazio. Adorm ece, roncando baixinho com o um enorm e gato satisfeito.
Recosto-m e, acom panho a história na tela e penso. Os dois heróis da tram a, param entados com o convém a dois astros daquele calibre, tentam passar a perna em um chefão de Chicago nos anos 1930. A história rom anceada daqueles dois vigaristas se m istura com a m inha vida e, em algum lugar, em um canto da m inha cabeça, surge um a intuição.
Mais do que um a intuição, é um a sugestão. Mas eu a elevo im ediatam ente ao nível de ideia.
Deixo m eu lugar e vou rum o à saída, abandonando Day tona nos braços de Moira Orfei, com o diz um artista do Ascot. Chego ao átrio, onde há um telefone em um nicho. Não sei de cor o núm ero que m e serve e sou obrigado a procurá-lo na lista telefônica.
Um a ficha e m inha voz é autorizada a viaj ar pela cidade.
Meu am igo responde com um sonoro sotaque lom bardo, após um a longa série de toques.
— Alô, quem fala?
— Pino, é o Bravo.
— Ei, seu punheteiro! Tem um tem pão que você não aparece.
Pino é um pouco verborrágico, m as é um a pessoa m uito digna e um m ago no seu trabalho. Sua m ulher é um a cozinheira excelente e sua filha é um m onstro. Nossos encontros, j á rarefeitos, quase se interrom peram quando percebi que eles a queriam em purrar para m im . E que a garota estava gostando de ser em purrada.
— Estive fora de Milão. Tenho andado m uito ocupado.
— Finj o que acredito. O que você quer?
— Preciso de um favor. E até am anhã de m anhã, no m áxim o.
— Está achando que sou o Mago Zurlì?
Toco no ponto certo, ele levantou a voz. Tudo previsto, conhecendo Pino. Já o vej o, pequeno e m agro, de regata, grudado ao telefone preso à parede do corredor, levantando-se ligeiram ente na ponta dos pés enquanto diz essa frase.
Eu o adulo, apelando para sua autoestim a.
— Não, estou achando que você é um m ago e ponto final. Pode escolher o nom e.
— Do que você precisa?
Explico o que quero. Ele exprim e um a dúvida previsível em relação ao m eu pedido.
— Você vai se m eter em encrenca. Nunca vai conseguir.
— Não preciso fazer nada. É só um a espécie de brincadeira.
— Não se esqueça de que certas brincadeiras levam direto para a prisão de San Vittore.
Não posso dizer que é exatam ente o que espero.
— Fique tranquilo. Nenhum a encrenca, nem para m im , nem para você. Então?
Ele parece refletir sobre prazos e m odos de realizar a tarefa. Depois, cede.
— Dá para ser feito. Venha am anhã depois das nove. Mas saiba que vai custar caro.
— Depende do que você cham a de caro.
— Um a m ilha.
— Cacete! Um a m ilha! Você não é o Mago Zurlì, é Arsenio Lupin.
— Então, encontre outro.
— Tudo bem , um m ilhão. A gente se vê am anhã.
— Você fica para o alm oço?
— Não posso. Vam os deixar para outra vez.
— Até am anhã, então.
Desligo e volto para a sala. Day tona ainda está ali, dorm indo, só m udou a posição da cabeça. Posso apostar que vai acordar quando acenderem as luzes. O que acontece pontualm ente logo depois que Paul Newm an e Robert Redford passam para trás o m alvado Doy le Lonnegan.
Ele abre os olhos, olha em volta com cara de quem não sabe onde está ou com o foi parar ali.
Depois, volta a si e lança um blefe ousado.
— Film aço.
Decido pagar para ver. Aliás, aum ento o lance, só pelo prazer de deixá-lo de calças curtas. Estou eufórico com a ideia que tive e gosto de sacanear o Day tona.
— Muito bom . Fantástica a cena com Robert Redford a cavalo.
Ele cai na arm adilha. E faz um papelão.
— É m esm o. Eu disse que ele era um grande ator.
Enquanto isso, nos levantam os e percorrem os o corredor entre as poltronas. Eu o em purro por trás.
— Ah, vai te catar! Não tinha nenhum a cena com cavalo. Você dorm iu feito um porco o film e inteiro.
Ele tenta se j ustificar, com os olhos averm elhados de um sono incôm odo.
— Estou m eio esgotado. Não tenho dorm ido m uito ultim am ente. Estou fazendo uns trabalhos m uito cansativos.
Não m e aprofundo quanto a que tipo de trabalho. Tenho certeza de que, se a notícia se espalhasse, um cam burão pararia no endereço que Pino citou pouco antes. Day tona é assim : pegar ou largar. De fato, m uitos e m uitas largam .
Entram os no átrio e ele vê o telefone.
— Você pode m e esperar? Preciso dar um telefonem a.
Saio, fico fora da vitrine, fum ando e observando a cidade que circula, j á atenta à hora de pico, m as sem dar a m ínim a para m im , para Day tona ou para qualquer um que gaste tem po, pneus e passos sobre calçadas e ruas.
Meu am igo sai do Argentina um pouco alterado. E, conhecendo-o, um pouco preocupado.
— O que foi?
— Estou em apuros. Esta noite, preciso estar em dois lugares na m esm a hora. E não posso deixar de ir nem a um lugar, nem a outro. Especialm ente a um deles.
Olha a sua volta, com o se o m undo que o circunda pudesse fornecer algum a solução. O que acontece, m as não m e agrada. Nem um pouco.
— Ao outro, você poderia ir.
— Ficou m aluco?
— É um a coisinha de nada. Preciso fazer um a entrega lá pelos lados da sua casa.
— Um a entrega? Você pirou. Não faço nenhum tipo de serviço de entrega. Nem para você, nem para qualquer outra pessoa.
Ele finge que ficou ofendido.
— Quem você acha que eu sou? Não é droga. Não atuo nesse ram o.
Vasculha o paletó e, do bolso interno, tira um envelope grande. Aproxim a-se e o abre, de m aneira que eu possa ver o conteúdo, m as deixando o envelope encoberto por nossos corpos. Está cheio de notas de cem m il liras.
— À m eia-noite, preciso entregar este dinheiro para uns caras com quem tenho um a dívida. Eles vêm de fora e, se eu não aparecer, vão ficar furiosos. E são do tipo que, furiosos, não são um a im agem bonita.
Um suj eito passa perto de nós e Day tona, por excesso de prudência, volta a guardar o envelope no bolso do paletó. O hom em se afasta, pouco se lixando para nós. Ficam os um de frente para o outro.
Olho para ele. Ele olha para m im .
— Vam os, faz esse favor para m im . Garanto que não é um a roubada.
Parece que ser portador de dinheiro se tornou m inha atividade principal. Hoj e à noite, para Day tona; am anhã, para Tano Casale.
— Tudo bem . Onde devo estar?
— Fora de Trezzano, na estrada para Vigevano. Tem um restaurante que se cham a La Pergola. À m eia-noite e m eia, no estacionam ento. Vou avisar que você estará no m eu lugar. Assim que eles chegarem , você entrega o envelope e cai fora.
Abaixo a cabeça, ainda indeciso. Quando volto a pôr os olhos em Day tona, ele tirou novam ente o envelope do bolso e o está lam bendo para lacrá-lo. Estica-o em m inha direção.
— Quanta confiança!
— Estou entregando a você alguns m ilhões. Se você acha que isso é falta de confiança...
Pego o envelope e o enfio no bolso da j aqueta.
— Tudo bem . Mas lem bre-se de que você está m e devendo um favor.
— Tenho um a m em ória de elefante, não esqueço.
Faço um a gozação. Ele m erece e está em dívida com igo.
— Se você continuar a se em panturrar, logo vai ter tam bém um corpo de elefante.
Após as despedidas, vou até o carro, que m e espera com seu pitagórico m istério não resolvido.
Esperando que a intuição chegue para m e indicar um a direção, entro no autom óvel e com eço a girar pela cidade, com o acontece quando o tem po se esvazia e se torna um a sacola m urcha e difícil de encher.
Um a passada no Duom o para ouvir as fofocas sem pre em evolução de um grupo de pessoas que vivem paradas na frente da Rinascente. Depois, um pulo no Jam aica, um a cervej a com artistas desvairados, tão divertidos quanto pitorescos, um j antar no Torre Pendente, onde vej o gente e consigo alguns trabalhos para m inhas garotas, um pulo na Budineria, perto da via Chiesa Rossa.
Por fim , vej o-m e sozinho em um estacionam ento fora da cidade, sentado em um carro suspeito, com os bolsos cheios de um dinheiro que não m e pertence, esperando que os donos apareçam . O restaurante está fechado e estou sozinho nesta área de terra batida ao lado da estrada. Os carros que passam m e oferecem luz e, pouco depois, querem -na de volta, prosseguindo depressa para fazer a m esm a brincadeira m ais à frente.
Fum o e penso.
Minha existência m udou há alguns dias. Carla, o Tulipa, Lucio, Day tona: um rosto novo e caras conhecidas, m as com um a expressão diferente. A m orte, que saiu da escuridão e que trouxe escuridão. A vida, que talvez ainda exista.
Pensam entos, pensam entos, pensam entos.
Enquanto isso, o tem po passa e não vej o ninguém .
O relógio m arca um a e quinze. A dívida de Day tona com igo está aum entando exponencialm ente. Às duas horas, decido que o preço superou as cotações da bolsa e m ando tudo à m erda.
Ligo o carro e volto para casa, que, por sorte, fica realm ente perto, senão, eu teria m ais um bônus de chateação para cada quilôm etro, além do parâm etro carro-óleo-gasolina-pneus.
Em m eu apartam ento, tiro a roupa e j ogo o envelope sobre o m óvel, ao lado do telefone. Um a coisa m e vem à m ente. Am anhã de m anhã, tenho de dar um m ilhão a Pino. Nem preciso dizer que tem de ser em dinheiro, pois é sem pre m elhor não pôr cheques na m ão de certas pessoas. Tenho dinheiro escondido em casa, em um lugar seguro que criei. Mas não quero m exer na m inha reserva em ergencial. Desde que guardei o dinheiro ali, decidi fingir que ele não existia.
Decido usar o dinheiro do envelope, assim evito um a ida ao banco antes de passar na casa de Pino. Um pouco por com odidade, um pouco porque o fato de ter ficado m ais de um a hora esperando uns babacas que não apareceram ainda está m e irritando. Se Day tona ousar ficar com raiva porque abri o envelope, vai acabar dando a volta na perim etral im pulsionado por chutes na bunda.
Pego o envelope, enfio o m indinho no espaço livre sob a aba e o faço correr. O papel se rasga irregularm ente e parte do que está dentro cai, farfalhando, em cim a do m óvel. Fico com o um idiota olhando incrédulo para o que está na m inha frente. O envelope está cheio de recortes de j ornal com as dim ensões exatas de um a nota de cem m il liras.