Memórias de um Vendedor de Mulheres
Capítulo 10
CHEGAMOS À BYBLOS QUANDO LUCIO está tocando.
Ele está de óculos escuros e tem a barba desleixada de sem pre, sentado sobre um banquinho no m eio de um tablado, de costas para a parede, sob um j ogo de luzes que não consegue ver. Sem pre m e perguntei se a ilum inação de um palco serve para pôr o protagonista no centro das atenções ou se tem a função de esconder de seus olhos um a sala vazia ou cheia. Im agino, sendo eu alguém que vive em um a penum bra tranquilizadora, que as duas coisas podem ser fonte de ansiedade. De qualquer m odo, Lucio é a pessoa m enos indicada para solucionar essa m inha perplexidade. Acho que sua relação com o público é m uito m ais olfativa que visual.
No chão, atrás dele, um suporte onde está encostada um a guitarra espanhola. O instrum ento que está no seu colo é um violão acústico Martin, com o qual ele executa um a notável versão de “John Barley corn”, do Traffic.
Lucio toca m uito bem , tem técnica e coração. Sua voz, m esm o não sendo canônica, tem a capacidade de transm itir as em oções certas para calar, em um local com o este, m uitos m urm úrios.
Para não atrapalhar, Carla e eu ficam os em pé ao lado do bar até que a canção term ine e o artista receba com o recom pensa o j usto aplauso. Depois, nos encam inham os para um a m esa livre m ais ou m enos na m etade do salão, que é o lim ite entre quem está ali para escutar m úsica e quem está ali para beber e falar de tudo sem saber que, na verdade, não está falando de nada.
Peço um a confirm ação a Carla.
— Está bom aqui?
Ela faz apenas um sinal com a cabeça e se senta. Seus olhos estão fixos no palco. Dá para perceber que a m úsica a fascina. Vi sua expressão ao escutar a canção enquanto esperávam os no balcão.
Sem falar, Lucio substitui o violão acústico pelo clássico e inicia um a canção de José Feliciano intitulada “La Entrada de Bilbao”. As notas brotam e ricocheteiam enquanto os dedos de Lucio beliscam e atorm entam o náilon e o cobre das cordas. Fico sentado tranquilo, esperando para pedir um a bebida. Escuto a m úsica, observo Carla e, enquanto isso, tento pôr um pouco de ordem em tudo o que aconteceu no restaurante.
O bar desaparece j unto com a m úsica e todos os espectadores.
Conheço Stefano Milla há m uito tem po. Não tem os um a relação de am izade, m as de m era colaboração profissional, se é que podem os cham á-la assim . Enfim , a relação que pode existir entre um suj eito com o eu e um policial disposto a fazer vista grossa. E, de vez em quando, dar um j eito para que algum outro tam bém o faça. Nunca se tratou exatam ente de corrupção, apenas de um providencial cinto de segurança para o caso de haver um a batida de frente. Nunca foi perigoso de verdade para nenhum dos dois porque sem pre andei por aí em baixa velocidade. Em troca, eu passava para ele de vez em quando um a com pensação m onetária para cobrir alguns vícios ou oferecia um a saída com um a das m inhas garotas.
Nunca consegui descobrir qual das duas retribuições ele aprecia m ais.
No entanto, encontrá-lo no Ricovero Attrezzi foi um a surpresa. E m e esforcei para disfarçá-la enquanto m e aproxim ava da m esa.
Milla se levantou.
— Preciso falar com você. Podem os ir lá fora um instante?
O tom de voz m e indicava que eu não havia tirado nenhum coringa do m aço de cartas.
— Tudo bem .
Carla m e lançou um olhar repleto de pontos de interrogação. Tranquilizei-a com um a rápida expressão. Depois, pedi desculpas a Cindy e Barbara e segui m eu visitante até a saída.
Na luz incerta do estacionam ento, dem os alguns passos em silêncio para nos afastarm os dos ouvidos do m anobrista, que fum ava um cigarro apoiado à parede à nossa direita. Quando chegam os perto do m eu carro, Milla se m anifestou.
— Você e eu precisam os fazer um a coisa j untos.
— O quê?
— Isso você é que vai m e dizer. Eu tenho apenas que escoltar um a pasta e garantir que determ inado envelope chegue ao destino certo.
Fui pego um pouco de surpresa. Eu não pensava que Stefano Milla pudesse estar na folha de pagam ento de Tano Casale, m uito m enos que ele estivesse disposto a declarar isso de m aneira tão aberta.
Talvez m eu rosto tenha transparecido tudo isso. O policial deve ter confundido m inha perplexidade com um j ulgam ento a seu respeito. Aventurou-se em um a clássica j ustificativa não solicitada, que dem onstrou apenas que o sentim ento de culpa é um péssim o com panheiro para dividirm os alguns trechos de estrada.
— Não fique surpreso, Bravo. E não tente m e fazer um serm ão. Você é a pessoa m enos indicada para até m esm o pensar em algo do gênero.
Levantei um om bro e acendi um cigarro.
— O que você faz é problem a seu. Eu não procuro nem quero arrum ar problem as.
— Muito bem . Política inteligente. Então, o que vam os fazer?
— Estej a depois de am anhã às onze na via Rom a, em Cesano Boscone, em frente à filial do Credito Rom agnolo.
— Só isso?
— Só isso. Preciso encontrar um a pessoa e, depois, você poderá fazer a tal entrega. Mais algum a coisa?
Ele esperou antes de responder. Entendi que não era hesitação, estava avaliando. Minha expressão, e tam bém a pergunta que ele estava prestes a fazer.
— Talvez. Acom panhou a história de Salvatore Menno?
Era a segunda pessoa que falava daquele assunto na m esm a noite e quase com as m esm as palavras. Só que não consegui entender que posição Milla estava assum indo ao se referir àquela história: representante da lei ou um hom em que, por interesse pessoal, passou para o lado oposto. Levantei a cabeça e o que farej ei não m e agradou nem um pouco.
— Claro. Vi algo sobre isso na televisão.
— Soube que, recentem ente, você e ele tiveram divergências.
Um a voz débil atravessou rapidam ente as lem branças para ecoar na m inha cabeça, com o se o Tulipa estivesse na m inha frente no lugar de Milla.
“Trate de ir cavando. Não importa se o terno vai ficar amassado. Se você quiser, quando terminar, eu mando lavar.”
E, depois, aqueles sons abafados
pfft... pfft... pfft...
que trocaram a vida pela m orte, um a no lugar da outra, com o duas pedras do j ogo de dam as.
— Aquele suj eito era um psicopata filho da puta. Não sei quem fez esse serviço, m as devia ter um m otivo m ais do que plausível.
— Com isso, posso até concordar.
Milla parou um instante. Quando prosseguiu, na penum bra, seu rosto esburacado tornou suas palavras ainda m enos tranquilizadoras.
— Mas, assim com o chegaram aos m eus ouvidos, certas vozes poderiam chegar tam bém aos ouvidos de quem está investigando a m orte dele.
Não importa qual é sua posição, pensei.
A ideia de ter no m eu encalço tanto a polícia quanto Tano Casale não era nem um pouco reconfortante. Fui vago e contei um a m eia-verdade, que m e dava um a segurança parcial.
— Não tenho nada a ver com isso.
— Isso, só você e o Tulipa sabem . Infelizm ente, ele não pode m ais confirm ar.
— Então, o que devo fazer?
— Pelo afeto que sinto por você, seria m elhor se você tivesse um álibi sólido para ontem à noite.
A voz de Carla nos surpreendeu.
— De fato, ele tem .
Nós dois nos viram os e a vim os na nossa frente, bonita e nítida, apesar da escassez de luz. Talvez ela tivesse um a reserva pessoal de luz dentro de si para ressaltar os olhos daquela m aneira.
Carla se aproxim ou e se pôs a m eu lado.
— Estávam os j untos ontem à noite. A noite inteira.
Milla a estudou antes de responder. Em seu tom , havia a consideração adequada às palavras e à aparência de Carla.
— Senhorita, caso sej a necessário, se estiver disposta a j urar diante de um j uiz, para o Bravo não haverá problem as.
— Claro que estou disposta.
— Muito bem .
Milla levantou um braço e puxou o punho da cam isa para ver a hora.
— Infelizm ente, preciso deixar esta bela com panhia. Quanto à senhorita...?
— Carla. Carla Bonelli.
— Algum as pessoas estariam realm ente dispostas a m atar para ter um a testem unha assim . Até logo.
Sem esperar ser cum prim entado, virou-se e se dirigiu a um grupo de carros estacionados à m argem da estrada, sob os postes de luz. Depois de dois passos, parou, voltou novam ente o rosto em nossa direção e carim bou com um a frase nossos passaportes.
— Às vezes, apenas os tolos e os inocentes não têm um álibi.
Em seguida, foi em bora, tornando-se progressivam ente o barulho da porta de um autom óvel que se fechava e do m otor que se afastava. Carla e eu ficam os sozinhos em m eio a carros brilhantes e situações obscuras.
Algum as podiam ser esclarecidas por ela.
— Tem duas coisas que você precisa m e responder.
Com um expressão atenta, Carla esperou em silêncio que eu term inasse de falar.
— Prim eira: por que você m e seguiu? Segunda: por que m entiu?
Em sua voz, surgiu um pequeno tom de desafio, não sei até que ponto proposital.
— Vim até aqui porque não gosto daquele suj eito. Menti porque gosto de você. E porque confio em você.
Achei oportuno ressaltar a realidade dos fatos. Firm e e preciso. Não por honestidade, m as por um tortuoso acerto de contas pessoal.
— Estam os falando de um hom icídio.
Ela, por sua vez, tam bém retrucou firm e e precisa. Sem possibilidade de escolha: preto ou branco.
— Foi você?
Declarei a m inha cor.
— Não.
— Está vendo? Então, não tem problem a dizer que passam os a noite j untos.
Virou-se e partiu sem pressa rum o à porta de entrada, da qual provinha um a luz inadequada para vasculhar certas som bras. Fiquei ao seu lado e, naquele breve traj eto, pela prim eira vez na vida, m e senti parte de algum a coisa. Pensei no psicólogo que m e acom panhou por um tem po depois do m eu incidente. Na época, não serviu de nada porque eu só tinha vontade de fugir. Perguntei a m im m esm o que aj uda ele poderia m e oferecer agora que aquela vontade, com o que por encanto, j á havia passado.
Voltam os à m esa, onde Cindy e Barbara estavam term inando a entrada. Metade do cham panhe j á tinha ido em bora. Meu bife estava frio e a salada havia m urchado por causa do vinagre. O que restava do risoto à m ilanesa de Carla havia se transform ado em um bloco am arelo e com pacto.
Cindy, que conhece Stefano, levantou em m inha direção seus olhos azuis. Seu sotaque norte-am ericano tornou a m assa com tom ate e m anj ericão um pouco m enos italiana.
— Problem as?
Sorri, falso com o Judas.
— Nem pensar.
Barbara lim pou os cantos da boca com o guardanapo.
— Então, quer nos dizer que coisa im portante é essa?
Sentei-m e e inclinei-m e na direção delas, baixando um pouco a voz.
— Am anhã, tem os um com prom isso em um lugar no qual você e Cindy j á estiveram . Em Lesm o, na m ansão de Lorenzo Bonifaci.
Dei a Carla o tem po para assim ilar aquele nom e. A expressão de seu rosto confirm ou que ela o conhecia e que ficara bastante im pressionada.
— Vocês deverão estar am anhã às três horas na piazza San Babila, preparadas para passar a noite fora. Um carro passará e as levará até o destino. As condições são ótim as: três m ilhões por cada um a. Devem ser as m esm as pessoas da últim a vez, pois pediram expressam ente vocês.
— E Laura?
— Ela não trabalha m ais conosco. Escolheu um cam inho alternativo.
Para não j ogar pedras em águas paradas, parei a tem po, quando estava prestes a dizer que ela havia escolhido o am or. É m elhor evitar a ativação de certos m ecanism os m entais nos quais as m ulheres são m estras. Eu j ulgava Cindy e Barbara bastante refratárias ao assunto, m as Carla ainda era um a incógnita e devia ser protegida.
De si m esm a, por m im .
— Portanto, fui obrigado a escolher outra garota. Carla irá substituí-la. Muito m elhor, acredito. É seu prim eiro trabalho, portanto, conto com a colaboração de vocês para que ela se sinta à vontade.
Barbara com eçou a rir. Sufocou sua alegria no guardanapo.
Carla ficou um pouco acabrunhada.
— Por que você está rindo?
Barbara fez um gesto com a m ão, para m inim izar.
— Nada. É só que, da outra vez, tinha um cara louco pela entrada de serviço, se é que você m e entende. É m elhor você estar preparada, caso sej a escolhida.
Um a piada de péssim o gosto, se fosse um a piada. Mas era a realidade nua e crua, e era assim que deveria ser encarada. Olhei para Carla, esperando sua resposta. Ela ganhou tem po, olhando prim eiro para um a e, depois, para a outra.
— Vocês fazem ?
Cindy respondeu pelas duas.
— Nada de chicotes ou pancadas, m as, quanto a todo o resto, com um a cifra dessas em j ogo, não tenho lim ites.
Carla m eneou de leve a cabeça. Um pequeno sinal para um a m ulher, um grande passo para as suas finanças, e para as m inhas.
— Então, tam bém topo.
Bebeu o que sobrava do cham panhe na sua taça e então a estendeu, vazia, em m inha direção.
— Muito bom . Pode m e servir m ais um pouco?
O aplauso fragoroso no final da execução m e traz de volta ao By blos e apaga o resto de um a noite na qual m eu intuito fora fazer com que as três belas garotas que m e acom panhavam se tornassem colegas, j á que a palavra am izade é sem pre um pouco exagerada.
Depois, a luz no palco se apaga, sendo substituída pela ilum inação difusa do salão. A aparelhagem de som com eça a transm itir um a m úsica gravada, talvez alguns decibéis acim a do necessário. O espetáculo term inou. Lucio se levanta do banco e um técnico logo vai até ele e o aj uda a guardar os violões e a descer do palco.
Carla vira-se para m im .
— Gosto de com o ele toca.
Não tenho tem po de com entar, pois um garçom se aproxim a e pedim os duas bebidas quaisquer, que não tem os vontade nenhum a de tom ar. Acendo, com o um cavalheiro à m oda antiga, o cigarro que Carla põe entre os lábios. Depois, apoio um a das m ãos sobre seu om bro.
— Com licença, j á volto.
Abro cam inho entre as m esas e vou até Lucio. Ofereço com o indício da m inha presença a solução do criptogram a da tarde.
— Últim a proj eção de “Fantasia”. Devo dizer que a dica das aspas foi determ inante.
Ao som da m inha voz, Lucio se volta para m inha direção sem a m enor surpresa.
— Eu sabia que você o resolveria. Com você, quase não tem m ais graça.
Ele se abaixa e verifica se as caixas dos violões estão bem fechadas. Com o todos os m úsicos, tem um cuidado m aníaco com os instrum entos. Boa parte de seus bens e afetos estão guardados naqueles dois estoj os rígidos.
— Chegou faz tem po?
— Não, infelizm ente só ouvim os as duas últim as m úsicas.
— Ouvim os?
— Carla está com igo.
— Ah, é?
Essa breve pergunta contém m uitas palavras. Um m undo inteiro. Talvez Lucio estej a tentando im aginar o rosto de um a m ulher da qual conhece apenas a voz.
— A garota da pele cheirosa.
Sorrio. Talvez eu tivesse razão quando fiz aquela consideração sobre os sentidos de Lucio. Se um deles vem a faltar, os outros quatro se apropriam , em um acordo tácito, do seu potencial.
— Agora você não a reconheceria. Acrescentam os um bom perfum e.
— Francês?
— Só sei que é bom . Não verifiquei o passaporte.
— Idiota. Sou am igo de um idiota.
Lucio se levanta e estica a m ão para procurar m eu braço. Encontra-o e se entrega a m im .
— Só há duas m aneiras para você se redim ir aos m eus olhos.
— Quais?
— Prim eiro, dê-m e um par deles. Depois, acom panhe-m e para cum prim entar aquela criatura divina.
Às vezes, m e pego pensando que, se Lucio não tivesse perdido a visão, o m undo teria perdido sua m aravilhosa e am arga ironia. Porém , em vista das circunstâncias, acho que talvez ele se abstivesse de com partilhar com a hum anidade esse dom .
Levo-o até a m esa onde Carla está nos esperando. Lucio procura, tateando, um a cadeira.
— Oi, Lucio. Você foi incrível.
— Oi, garota. Bravo tinha razão.
— Em dizer que você não é bom ?
— Não. Ele não entende porra nenhum a de m úsica. Mas entende de perfum es. O que você está usando é excepcional.
— Foi ele que com prou para m im , além de m uitas outras coisas.
Enquanto eles conversam , olho à m inha volta, surpreso por não ver Chico, o rapaz que geralm ente acom panha Lucio.
— Seu alter ego não veio hoj e?
Meu am igo se exprim e com gestos e voz, falando levem ente em falsete.
— Meu chofer, você quer dizer? Não, dei folga para ele esta noite.
— E quem vai levar você para casa?
Lucio volta a ficar sério.
— Chico m e trouxe, m as não podia vir m e pegar. Com binei com o dono da casa e ele vai m e dar um a carona.
Carla antecipa m inha oferta.
— Venha conosco.
Acrescento um parecer favorável, em bora com algum a dificuldade.
— Você vai precisar dar um j eito. O carro está cheio de bolsas e em brulhos, m as a gente acha um lugarzinho.
— Muito bem . Vou ocupar o espaço de um arenque. Está bem assim ou vocês m e querem defum ado?
Carla ri e nos levantam os. Com unicam os a m udança de program a ao proprietário, que parece aliviado por não ter de percorrer àquela hora o cam inho até Cesano Boscone. Com o na noite seguinte Lucio vai tocar novam ente, ele entrega ao dono do local os violões e pede que tranque à chave o lugar onde os instrum entos ficarão guardados.
Saím os, deixando os clientes e os funcionários às voltas com o últim o suspiro da vida noturna m ilanesa. Vam os até o carro e, logo depois, som os três pessoas diferentes no m esm o cam inho. Durante toda a viagem , dirij o e fum o em silêncio. Escuto m eus dois passageiros conversarem sobre m úsica, depois de Carla ter descrito em polgada sua recente tarde de com pras.
O tráfego noturno abre os braços para nós, as placas nos indicam o cam inho e, em m enos tem po do que o previsto, o Mini j á está diante de nosso edifício. Recolhem os os em brulhos e conseguim os, apesar das m ãos ocupadas, guiar, em m eio a risadas, Lucio até a entrada, abrir a porta de vidro e subir a escada até o nosso andar.
Abro m inha porta e, finalm ente, apoiam os no chão nossa leve, porém cara, bagagem . A voz m e surpreende antes que eu aperte o interruptor.
— Querem um café?
Viro-m e e vej o Lucio em pé na soleira da sua porta.
Carla e eu nos olham os. Sabem os perfeitam ente que o café é um pretexto. O obj etivo, nem tão oculto assim , é diluir a solidão com algum as colheradas de açúcar. Se eu fosse diferente, teria pressa para ficar a sós com Carla. Mas, às vezes, não tem os escolha na vida. A única coisa que nos é perm itida é decidir com quem dividir a j aula.
— Vam os tom ar esse café.
E isso conseguiríam os no apartam ento da frente. Ao nos ouvir entrar, Lucio estende a m ão para acender a luz. Fico com o coração apertado porque sei que ele faz aquele gesto apenas por nossa causa. Suas contas de energia elétrica são m ínim as. Carla olha à sua volta sem se preocupar em esconder seu gesto. Observa as paredes nuas e as cores aleatórias, talvez tirando as m esm as conclusões que eu em seu devido tem po. Aqui, tudo é escolhido em função da praticidade e da ausência de arestas. O aspecto estético é um luxo do qual Lucio foi obrigado a abrir m ão. E, com o todos os luxos, se revelou supérfluo.
Nosso anfitrião vai até a cozinha.
— Sentem -se enquanto eu passo o café.
Carla o interrom pe.
— Não, eu faço.
— Mas...
— Nada disso. Hoj e à noite você trabalhou, e eu m e diverti a tarde toda. Pode se sentar para ser servido. Pela prim eira vez na vida, sou eu que decido servir, um a novidade para m im .
Lucio se rende e senta-se à m esa. Carla desaparece na m inúscula cozinha e ouvim os quando ela abre os arm ários em busca da cafeteira e do pó de café. Fico em pé no m eio do côm odo, diante de um m óvel com portas e gavetas. Sobre a bancada estão o telefone, o rádio e um recipiente de vidro, em que dentro estão chaves, folhas e m oedas.
Ao lado, há algum as fotos. Observo-as e vej o um retrato de Lucio alguns anos m ais j ovem , no m eio de outros rapazes em um palco. Estão fazendo um a pose típica de m úsicos, cercados de instrum entos, m icrofones e am plificadores. No bum bo da bateria, está escrito o nom e do grupo em letras góticas: Les Misérables.
— Você não m e disse que havia participado de um conj unto.
— Com o você sabe disso?
— Tem um as fotos aqui em cim a do m óvel.
Meu am igo resolve o pequeno m istério.
— Mostrei essas fotos ao Chico antes de sair. Ele se esqueceu de guardá-las. Vou ter de trocar de m ordom o.
— Durou m uito tem po? O conj unto, quero dizer.
Lucio faz um a careta.
— Não. Tentam os durante um tem pinho, m as éram os apenas talentosos, e não excepcionais. E os outros integrantes tinham proj etos que não incluíam a m úsica.
— E você?
Pela prim eira vez, desde que o conheço, Lucio perm ite que a nostalgia apareça em seu rosto.
— Continuei sozinho, m as não com a força necessária. Na época dessas fotos, em bora não dê para notar, m inha visão j á tinha quase ido em bora.
Volto a olhar as im agens. Lucio é o único que não está sorrindo. Coloco-as sobre o m óvel e tam bém m e sento à m esa, diante dele.
— Bravo, posso fazer um a pergunta?
— Claro.
— Você sabe o que eu faço. Agora, teve acesso tam bém ao m eu passado. Mas o que você faz para ganhar a vida?
Em geral, j á é difícil encontrar um a definição. Em particular, é ainda m ais difícil, sobretudo com um a pessoa com a argúcia de Lucio.
— Digam os que sou um hom em de negócios.
Ele sorri e m e trata com o um perdedor honrado.
— Tenho a sensação de que, se eu perguntasse que tipo de negócios, você não m e daria um a resposta satisfatória.
Minim izo com o tom de voz, j á que ele não pode ver m eus gestos instintivos.
— Os negócios são todos iguais. Têm com o único obj etivo gerar dinheiro. E não vale a pena levar em consideração qualquer coisa que diga respeito exclusivam ente a dinheiro.
Carla chega com o café e interrom pe este m om ento de confidências. Certam ente ouviu o que dizíam os, m as não retom a nenhum dos dois assuntos. Apoia um a xícara diante de cada um de nós. Depois, volta à cozinha e pega sua xícara e o açúcar.
— E você, Carla, no que trabalha?
Carla volta, põe o açucareiro e as colherzinhas sobre a m esa e se senta entre nós dois, com a xícara na m ão. Sirvo o açúcar, com o de costum e. Duas para Lucio e m eia para m im . Carla não adoça o café.
— Até ontem , eu trabalhava para um a em presa de lim peza. Agora, estou olhando à m inha volta.
— Você, um a faxineira? Com esse perfum e? Não acredito.
— Mas é isso m esm o. Ou m elhor, era isso m esm o.
O café, quente e arom ático, nos cala por um instante. Ficam os em silêncio sob essa luz que vem do alto, cada um absorto, im aginando com o teria sido a própria vida se as coisas tivessem tom ado outro rum o. Construindo um a alternativa fictícia e ilusória, que, com o tal, não é possível am enizar.
Lucio fala prim eiro.
— Carla, posso tocar no seu rosto?
Parece que essa pergunta a faz pensar. Tenho tem po de acender um cigarro antes que ela responda.
Porém , ao responder, a voz não tem incertezas.
— Claro.
Sai do seu lugar e põe-se diante de Lucio. Ele sente sua presença e se levanta. Ergue as m ãos, com eçando lentam ente a passar a ponta dos dedos sobre seu rosto. Entrelaça os dedos nos cabelos, percorre a testa, a linha do nariz, estuda a pele. Explora-a com o cuidado e a curiosidade de um especialista decifrando um docum ento antigo.
— Meu Deus, você é linda!
A com paixão chega voando de longe e se pousa sobre o rosto de Carla. Ela se volta para m im com um a pergunta nos olhos. Faço que sim com a cabeça.
Então, ela tom a as m ãos de Lucio e as leva ao seio. Move-as lentam ente para fazer com que ele tam bém conheça aquela parte do seu corpo. Depois, se aproxim a e o beij a. Prim eiro, encosta apenas a boca na dele e recua. Um a troca de hálitos e nada m ais. Após um instante, que parece suspenso no tem po, Carla volta e o beij o se torna verdadeiro, de língua e saliva, a única pena e a única tinta capazes, entre um hom em e um a m ulher, de escrever a m ensagem de am or perfeita.
Carla se afasta novam ente, recua um passo e pega Lucio pela m ão. Sem dizer nada, afasta-se com ele, guiando-o rum o à porta do corredor, presum indo que o quarto fica naquela direção.
Fico sozinho.
De um a m aneira à qual j á não consigo m ais pôr um lim ite.
Term ino o cigarro e acendo outro antes de ir até eles. Quando entro, o quarto está ilum inado apenas pelo reflexo que chega da sala, percorrendo o breve corredor.
Sento-m e em um a poltrona encostada na parede em frente à cam a e observo Lucio e Carla que fazem am or. Sem perceber, deslizam os todos para um a noite artificial, provisória, na qual nada pertence a ninguém . Os dois corpos nus sobre o leito se entrelaçam e se m ovem , oferecendo m utuam ente todos os tipos de veneno e seus antídotos exatos. Fico sentado, observando, procurando absorver com o um a planta o oxigênio da respiração dos dois. Im óvel, feito do m esm o m árm ore das estátuas, diante daquele gesto sexual realizado por quem não pode ver no lugar de quem não pode m ais executá-lo.