Memórias de um Vendedor de Mulheres
Capítulo 22
QUANDO CHEGO AO FINAL DA VIA Carbonia, o Alfa Giulietta de Stefano Milla está encostado na calçada do lado direito da rua. À m inha volta, um bairro popular de Milão vive o últim o resíduo de um dom ingo de prim avera. O sábado é um a lem brança, a segunda-feira é um a perspectiva desanim adora. Mas, por algum as horas, ainda resta algo. O j ogo de futebol, o film e, a pizza, o fliperam a, a m úsica nos bares e na discoteca. Um hom em , um a m ulher, o banco de trás de um carro, um a cam a, um a punheta na escuridão do cinem a, beij os adolescentes quase sem língua e sem saliva. Um cigarro de m aconha, um a carreira de cocaína, um a dose de heroína, um copo de péssim o vinho, um a Coca-Cola, um copo de água m ineral com um a rodela de lim ão. Cada um faz fila para pedir e retirar o que m ais lhe agrada a fim de ser ou não ser.
Que filho da puta era Ham let!
Não tenho nada em com um com as pessoas à m inha volta. Nem o passado, nem o presente, nem o futuro. Nem m eu nom e oculto. Sequer posso m ostrar o rosto, coberto pelo colarinho levantado, pelos óculos escuros, pela barba com prida e por um chapéu do Carm ine que encontrei em um arm ário. Meu sábado foi repleto de disparos e cadáveres em um a casa logo após Segrate. A festa acabou cedo, com o m anda o figurino. Por m ais que eu tenha m e lavado, ainda sinto no rosto os borrifos do sangue de Lucio.
Lem bro-m e de suas palavras no Quartiere Tessera na noite em que caí na arm adilha.
Não, Bravo. Sou um homem morto. Exatamente como você...
Mas eu, ao contrário, estou vivo. Espero não ter de m e lam entar.
Atravesso a rua. Na calçada do lado oposto, cruzo com um rapaz e um a m oça. Ele é m uito m agro, tem cabelos com pridos e um paletó m ilitar verde, substituto certo do anoraque naquela estação. Ela tem cabelos crespos, as bochechas cheias de espinhas e nunca será m agra.
Laurel e Hardy cam inham abraçados.
São lindos.
Assim que passo por eles, j á estou ao lado do carro. Abro a porta de trás e j ogo a sacola sobre o banco. Depois, passo ao banco da frente e m e sento ao lado de Milla. Ele vira a cabeça e avalia m eu disfarce, talvez com parando-o m entalm ente com um retrato-falado que j á não corresponde m ais à m inha aparência atual. Tam bém está usando óculos escuros. Está tenso, ansioso. Gostaria de ser outra pessoa e de estar em outro lugar, e não faz nada para esconder isso.
Ou talvez tente, m as não consegue.
— Pelo am or de Deus, Bravo. Você faz ideia da confusão em que está m e m etendo?
Balanço a cabeça.
— Não estou te m etendo em nenhum a confusão. Pelo contrário.
Tiro o chapéu e o j ogo sobre o banco traseiro. Passo as m ãos nos cabelos.
Não estou acostum ado a tê-los tão curtos.
— Quando tudo tiver acabado, aos olhos de seus superiores, você vai se tornar o heroico inspetor ao qual m e entreguei. Você vai ter dinheiro. E, se fizer o que estou dizendo, tam bém vai ficar livre.
— Livre do quê?
— Da sua love story com Tano Casale.
Em seu rosto, surge algo que logo desaparece. Tão rápido que não consigo entender o que é.
— Não sei o que está passando pela sua cabeça, m as, se ele perceber que estou tram ando pelas suas costas, sou um hom em m orto.
Tiro os óculos e olho para ele.
— Eu fui um hom em m orto por m uito tem po. Com o você pode ver, não é tão ruim assim .
Ele se decide e dá a partida no m otor.
— Aonde vam os?
— Piazza Am endola, núm ero 5. Em frente ao estacionam ento dos táxis.
O carro parte. Ponho novam ente os óculos escuros e m e acom odo. Viram os à esquerda e pegam os a via Arsia, rum o à Fiera. Repito para m im m esm o que tudo passou. Agora, nada m ais pode m e ferir ou m e m achucar. Com o que tenho na sacola, eu é que estou em condições de ferir ou m achucar alguém .
E vou aproveitar a chance.
Param os em um sinal de trânsito. Ao lado, há um a farm ácia de plantão. Um a m ulher com um a m enina está em purrando a porta para entrar. O pensam ento volta para duas pessoas que acabei de encontrar, em pé na porta de um apartam ento que, durante alguns dias, foi um refúgio seguro. Agora, é apenas um dos m uitos endereços no m apa de Milão.
Assim que as vi chegar, m e levantei e fui em sua direção.
A m ulher não se m exeu, m as estendeu um a das m ãos e puxou para perto de si o m enino. Vi que ela se enrij eceu. O m edo e a surpresa iniciais deram lugar à firm eza. A m esm a firm eza que fez com que ela abandonasse o m arido quando entendeu que ele nunca m udaria. Quando decidiu que o filho não cresceria na m esm a casa que um crim inoso.
— Quem é o senhor?
Parei a um passo deles.
— Sou Bravo, am igo do Carm ine. E presum o que a senhora sej a Luciana, a esposa dele.
A m ulher m e ignorou. Seu olhar vasculhava o apartam ento. A qualificação de esposa do Carm ine não a incom oda m ais há anos. Agora, é apenas um fato desagradável, com o a poeira sobre os m óveis e as condições precárias do apartam ento. Talvez estej a revivendo os m om entos em que aqueles m óveis eram seus, a casa era m ais lim pa e sua vida, um pouco m ais suj a.
— Carm ine alugou o apartam ento para o senhor? Por que não trocou a fechadura?
Fiz um gesto com as m ãos que englobava casas, fechaduras, escolhas.
— Na verdade, não o aluguei. Quando Carm ine...
Observei o m enino, que olhava alternadam ente para m im e para a m ãe. Naquela idade, são com o esponj as. Entendem m uito m ais do que im aginam os. E, às vezes, o que não entendem fica gravado e escondido em algum lugar. Muitas vezes, com o passar do tem po, isso causa danos m uito m aiores. Portanto, preferi não pronunciar na frente dele a palavra “preso”.
— Quando Carm ine teve seu problem a, continuei a pagar as contas e o condom ínio.
— Por quê?
— Às vezes, fazem os coisas sem m otivo.
— Mesm o que não pareça, sem pre há um m otivo.
Olhou para m im com um ar desencantado. Vi em seus olhos os dias em que ela ficava analisando todas as pessoas que encontrava para determ inar se era um m arginal, com o o m arido, ou um policial. Sem entender qual das duas categorias era a m ais perigosa. Porém , com um a certeza inabalável, am bas eram hostis. Um a sem ana atrás, eu a teria deixado com os seus problem as e ido para outro lugar. Agora, m inhas certezas apresentavam rachaduras profundas. As dela, por outro lado, pareciam perdurar, confirm adas pelo tem po e pelos fatos.
Ela não m e perm itiu acrescentar nada.
— O senhor está se escondendo aqui?
Balancei a cabeça.
— Não m ais. Tive alguns problem as, m as, agora, tudo passou. Estou indo em bora.
— Está arm ado?
— Não.
A m ulher de Carm ine decidiu que m inha voz e m eu olhar eram sinceros. De resto, ela tam bém deve ter adotado com o regra não se introm eter na vida alheia. Um a regra que, geralm ente, é em parte escolha e em parte im posição. Pegou a m ala e em purrou o m enino para dentro de casa. Depois, inclinou-se sobre ele e com eçou a tirar sua j aqueta, um pouco pesada para a estação.
— Sinto m uito, m as eu não tinha para onde ir. Chegam os agora da Alem anha. Um a inquilina do edifício, com a qual m antive contato, m e disse que esta casa estava vazia. Sem pre m e perguntei por que eu guardava a chave. Hoj e, eu entendi.
O m enino, liberado da j aqueta, sentiu-se livre tam bém para falar.
— Mam ãe, preciso ir ao banheiro.
Ela tirou o casaco e o j ogou no sofá. Por baixo, estava usando um a saia e um suéter cuj as cores foram com binadas pela falta de alternativa, e não pelo gosto pessoal. Eu a vi um pouco acim a do peso, m as com um corpo bastante proporcional. Devia ser um a m oça bonita antes que a existência tivesse lhe reservado a terapia de choque.
— Vam os agora m esm o. Venha com igo.
Segurando o filho pela m ão, foi para o corredor. Esperei alguns segundos, depois, peguei a pasta e a segui. Parei no quarto. Enquanto eu escutava a água correr, calcei as m eias e os sapatos e tirei a j aqueta de couro da sacola. Guardei todas as roupas que tinha espalhado a esm o. Peguei o dinheiro e o cartão da loteria no esconderij o. Pus o prim eiro na sacola e o segundo na carteira. A pasta com pletou m inha bagagem . Quando m ãe e filho saíram do banheiro, passaram na frente da porta sem prestar atenção em m im . Dei um a últim a olhada para ver se não havia esquecido nada. Não havia m ais indícios da m inha presença ali, a não ser a im pressão do m eu corpo na cam a. Mas isso tam bém desapareceria.
Voltei para a sala e pousei a sacola ao lado da m ala de Luciana. Chegadas e partidas. A história de sem pre. Com um a diferença. As m alas da volta estão sem pre m ais pesadas do que as da ida.
Apareci na porta da cozinha. Luciana estava dando um copo de água da torneira ao m enino. Ele m e olhou com olhos escuros e sem alegria. É incrível com o a m elancolia de certas viagens não dá desconto para ninguém .
Dirigi-m e à m ulher.
— Vocês com eram ?
— Um sanduíche no trem .
Apontei para os arm ários e a geladeira.
— Tem um m onte de coisa aí. Enlatados, m as talvez sej a suficiente por alguns dias.
Luciana com eçou a abrir os arm ários e a exam inar seu conteúdo. O m enino nos deixou e voltou para a sala, a fim de tom ar posse daquele novo am biente.
Após a inspeção, Luciana m e olhou. Ela tinha um rosto agradável e olhos que, em um dado m om ento, devem ter sido vivos.
— Está com fom e? Se quiser, posso preparar um a m assa.
— Não, obrigado. Estou com um pouco de pressa. Preciso fazer um as coisas. Depois, vou ter todo o tem po do m undo para com er.
A voz do m enino chegou do outro côm odo até nós com um tom de lam ento.
— Mãe, m eu nariz está sangrando.
— Ah, Rosario, de novo?
A m ulher deu um passo para o lado, de m odo a passar por m im . Foi até o m enino que estava de pé, com a cabeça levantada. Um filete de sangue escorria de sua narina direita. Ela vasculhou a bolsa e pegou um lenço que j á tinha m anchas verm elhas. Ficou agachada segurando o lenço contra o nariz do filho para com prim ir a narina.
Depois, olhou para m im . Tinha os olhos cheios de lágrim as. O pranto inconfundível do sofrim ento de um a m ãe.
— Voltei porque o m enino está doente. Ele é hem ofílico e, na Alem anha, o serviço m édico não cobre o tratam ento. Ele precisa de inj eções m uito caras e eu não tenho esse dinheiro.
Fez um a pausa. Mais um a vez, a garra de um a m ulher batalhadora.
— Mas vou conseguir. Mesm o se tiver de obrigar Carm ine a vender esta casa. Com prá-la foi a única coisa sensata que ele fez.
Outra pausa. Aquele período deve ter sido difícil de apagar. Assim com o tom ar decisões.
— Quando fui em bora, disse a m im m esm a que não queria m ais nada dele. Mas, agora, é diferente. Tenho responsabilidades e não sou m ais dona da m inha vida.
Não tive coragem de dizer que a casa não podia ser vendida. As fam ílias das vítim as constituíram parte civil. O processo para o ressarcim ento dos prej uízos não tinha data para term inar, m as a disponibilidade do apartam ento estava bloqueada.
Luciana levantou o lenço para verificar se a hem orragia havia parado. Lim pou os últim os traços de sangue do rosto do filho. Depois, o abraçou.
— Viu com o passou?
— Sem pre passa.
— Agora que estam os aqui, você vai sarar e isso não vai voltar m ais.
Ela se levantou. Rosario seguiu seu m ovim ento com os olhos.
— Mãe, estou cansado. Posso ir para a cam a?
— Pode sim . Vá tirar um a soneca enquanto a m am ãe prepara um a com idinha.
Luciana pegou o m enino e os dois sum iram no corredor novam ente. Antes de sair, ele olhou diretam ente para o m eu rosto pela prim eira vez. Depois, todo sério, fez um gesto com a m ão. Não entendi o significado. Mas nem sem pre é necessário entender certas m anifestações. Às vezes, é suficiente presenciá-las.
Peguei o telefone e liguei para Milla. Passei o endereço e m arquei o encontro para dali a um a hora. Desliguei enquanto ele falava de seus m edos e preocupações. Eu estava cansado de ser o único a sem ear naquele cam po. Daquele m om ento em diante, eu o faria com m ais alguém .
Peguei dinheiro na sacola e contei três m ilhões. Pus em cim a do m óvel, exatam ente onde antes estava a pasta. Talvez Luciana torcesse o nariz se conhecesse a proveniência das m inhas econom ias. Mas, pensando em com o seriam usadas, ela não podia se dar esse luxo. A voz da m ulher m e surpreendeu enquanto eu ainda estava arrum ando as notas.
— Coitadinho, ele dorm iu lo...
Viu o dinheiro e se calou. Logo olhou para m im . A surpresa contam inou a desconfiança. Ou é bem capaz que tenha sido o contrário, não sei. Talvez ela nunca tivesse visto aquela quantia toda j unta. Certam ente, desde que descobriu a doença do filho, estava sonhando com aquilo.
— Deve ser suficiente para o início. Depois, tenho certeza de que Rosario vai poder ser tratado sem que vocês precisem vender o apartam ento.
Luciana estava aliviada e com m edo ao m esm o tem po. Com o sem pre acontece com um a m ulher que recebe um presente de um hom em que não pede nada em troca.
— Por que está fazendo isso?
Sorri para ela.
— Não adianta m e perguntar. Eu m esm o estou m e questionando.
Ela pegou o dinheiro, dobrou em dois e foi colocá-lo no bolso do casaco. Olhei para o relógio. Eu tinha tem po, todo o tem po de que precisava. De repente, senti fom e.
— Agora, se a oferta ainda estiver valendo, eu aceitaria de bom grado aquele prato de m assa.
Um tranco m e arranca com o se fosse um saca-rolhas de m eus pensam entos. Um suj eito com um a bicicleta virou de repente sem fazer sinal com o braço. Milla foi obrigado a pisar fundo no freio para não o atropelar.
— Olha só esse filho da puta!
Eu olho para o filho da puta. Que nem percebeu que, por pouco, não foi parar debaixo das rodas de um carro e continua pedalando tranquilo rum o à próxim a freada e ao próxim o xingam ento. Milla parte novam ente. Com o carro e para o ataque. Eu estava esperando que acontecesse m uito antes.
— Bravo, você quer m e explicar o que aconteceu? Morreu um m onte de gente.
— Eu sei. Mas j uro que não m atei ninguém .
Ele espera pelo restante. Eu não posso prosseguir.
— Por favor, Stefano. É um a história longa e acho que vou precisar contá-la várias vezes quando estiverm os na delegacia. Se você tiver um pouco de paciência, acho que vai ficar de saco cheio de tanto ouvi-la.
— Então, m e diga pelo m enos aonde estam os indo.
— Ao escritório do m eu advogado. Quero que alguém m e auxilie enquanto sou interrogado.
Isso parece tranquilizá-lo definitivam ente a respeito de m inhas boas intenções. Mas ele não está tão calm o em relação a outros desdobram entos. Não a respeito da m inha, m as de sua vida. Milla sabe que está em cim a de um a arm adilha para ursos e que eu posso ativá-la. Conheço essa sensação, e não é nada agradável.
Enquanto conversávam os, passam os ao lado da Fiera e chegam os à piazza Am endola. Aponto o edifício e Milla para o carro na frente do portão de m adeira de um prédio antigo com seis andares. No segundo, fica o escritório no qual um príncipe do fórum m e espera. Abro a porta do carro e, antes de saltar, dou algum as instruções apropriadas a Stefano.
— Você m e espera aqui. Vou dem orar um pouco. Faça um a coisa enquanto espera. Fale com Tano. Diga que logo vou estar livre dos problem as, m as que talvez fique por m uito tem po sob a vigilância de diversos olhos. É perigoso dem ais para m im e para ele que eu estej a envolvido pessoalm ente na operação da qual ele j á está a par. Acho que ele vai concordar com igo.
— Só isso?
— Só. Ele vai entender.
Ponho um a perna para fora do carro e a m ão dele m e segura quando m eu pé encosta no chão.
— Bravo, estou arriscando tudo por sua causa. O que você m e diz do dinheiro?
— Que dinheiro?
— Não banque o idiota. Meus cinquenta m ilhões.
Sorrio. O m esm o sorriso que eu poderia dar para um m enino com o nariz sangrando.
— Você ainda não fez por m erecer.
— Com o assim , não fiz por m erecer?
— O fato de você estar aqui serve para com prar m eu silêncio. O dinheiro serve para com prar o seu.
— Bravo, não estou entendendo.
— Por enquanto, não é necessário. Quando for o m om ento, você vai entender.
— E quem m e garante que eu vou receber a grana?
Mostro um a expressão que indica com o o futuro é incerto para todos.
— Lam ento, inspetor. Receio que, desta vez, você vai ter de confiar em m im .
Salto do carro e pego a sacola no banco de trás. Fecho a porta e o deixo, ao m esm o tem po, sentado em um carro e sobre um tapete de pregos. Dou poucos passos e toco a cam painha que m e confirm a que ali é o escritório do advogado Ugo Biondi.
O portão se abre quase im ediatam ente.
Entro no saguão e o atravesso. A luz chega filtrada pelos vidros esm erilhados de um portão na frente da entrada. Na penum bra, as ornam entações nas paredes parecem ainda m ais austeras. Poucos degraus e estou diante do elevador. Não há pichações ali dentro. A m adeira brilha e está bem -cuidada. O cheiro é de cera e sorrio ao ver um banquinho revestido de veludo para aquela extenuante viagem .
Pressiono o botão do segundo andar e fico em pé. Ugo m e espera com a porta aberta.
— Oi.
— Entre, rápido.
Ele fecha a porta e m e guia pelo escritório, que tem cheiro de papel, tinta e couro. Todas as portas estão fechadas, e não consigo lem brar para que estão destinadas todas aquelas salas que dão no corredor. Porém , sem dúvida, a sala em que chegam os é seu escritório. Devo dizer que m eu advogado cuida bem de si m esm o e, por conseguinte, tam bém de seus clientes. Em bora, na verdade, poucos deles m ereçam tal tratam ento, j á que ele é um crim inalista.
A escrivaninha é um a im ponente peça norte-am ericana datada do início do século XX. Os outros m óveis e as estantes repletas de livros e códigos que cobrem quase todas as paredes se adéquam ao estilo preponderante da decoração. Os quadros não parecem ser reproduções.
Ugo aponta um a das duas poltronas na frente da escrivaninha.
— Sente-se. Quer beber algum a coisa?
— Não, obrigado.
O advogado se senta no lugar que lhe com pete. Eu j á estou sentado no m eu. Apesar de tudo, este é apenas um ensaio geral do que acontece após encontros com o o nosso. Um a cadeira para o réu, um a poltrona para o j uiz.
Ele pega um lápis e com eça a brincar. Deve ser algo que Ugo faz quando está conversando com um cliente. As histórias que um crim inalista é obrigado a ouvir devem deixá-lo nervoso.
E é com o ele está se sentindo. Sentado diante do hom em m ais procurado do m om ento. A confirm ação não dem ora.
— Não há com o negar. Você se tornou um a celebridade. Poucas vezes na m inha vida vi um a confusão desse tipo.
— E eu estava vendo tudo de dentro. É um a perspectiva totalm ente diferente.
Ele apoia os antebraços sobre a m esa.
— Sou todo ouvidos.
— Por onde devo com eçar?
— Com eçar do início é sem pre um a boa praxe.
Conto tudo. Enquanto falo, fico surpreso por ser capaz de puxar um fio tão com prido sem em aranhá-lo. A cada palavra, os olhos de Ugo se esbugalham um pouco m ais. Quando a história chega ao fim , ele j á parou há algum tem po de brincar com o lápis.
— Caralho!
Julgo oportuno exasperar o conceito para adequá-lo aos fatos.
— E dos grandes. Mas ainda não acabou.
Mexo na sacola que apoiei ao lado da cadeira e j ogo a pasta sobre a escrivaninha.
— Dê um a olhada aí dentro.
Ele a pega, tira o elástico e ainda não sabe que está puxando o pino de um a granada. Dem ora m ais do que os clássicos sete segundos para verificar várias vezes os docum entos. Depois, a expressão atônita que m e m ostra deve ser m ais ou m enos a m esm a que eu tinha quando vi pela prim eira vez aquele dossiê.
— Bravo, isto é um a bom ba atôm ica.
— Que poderia até correr o risco de não explodir.
Nós dois sabem os o significado do que acabei de dizer. A situação é tão clam orosa que a possibilidade de term inar em baixo da areia não é nada rem ota. O segredo de Estado é um a expressão m ágica que fecha m uitas portas em vez de abri-las. Há tam bém outra possibilidade. Ele a expõe prim eiro.
— Ou então, poderia explodir em baixo de nós.
No m om ento em que viu aqueles docum entos, ele percebeu que nossas vidas talvez não valessem m ais as roupas sobre nossos corpos. Há coisas que parecem possíveis apenas nos film es. Ninguém pensa que, às vezes, elas vão parar nos film es exatam ente porque j á aconteceram na realidade.
Resolvo organizar a confusão que reina em nossas cabeças.
— Você tem um a fotocopiadora no escritório?
— Tenho.
Ugo olha para m im . Na sua cabeça, talvez tivesse com eçado a se form ar um a ideia. Agora, espera, curioso para saber se, na m inha, aquela ideia j á se com pletou.
— Você tem um cofre?
— Naturalm ente.
Avanço até a beira da poltrona.
— Poderíam os fazer o seguinte: envelopes com um a cópia do dossiê, cada um endereçado à redação m ilanesa de um j ornal. Corriere della Sera, La Repubblica, La Stampa, Il Giorno, La Notte. Você os coloca no cofre e deixa um recado para que, am anhã, sua secretária os entregue pessoalm ente na redação dos j ornais.
Ele pensa um pouco.
— Podem os fazer algo m elhor.
Pega o telefone e disca um núm ero. Alguém atende depois de alguns toques.
— Boa noite, Federica. É o Biondi. Sei que é dom ingo, m as preciso que você m e faça um grande favor. Trata-se de algo da m áxim a im portância.
Espera um a resposta afirm ativa. Deve tê-la ouvido, pois prossegue.
— Daqui a um a hora, estarão sobre a m inha escrivaninha envelopes com endereços de Milão. Você poderia m e fazer a gentileza de passar aqui, pegá-los e entregá-los pessoalm ente?
Do outro lado da linha, um a obj eção lógica, na tentativa de salvar o que resta do dia de repouso.
— Eu preferiria que fosse ainda esta noite. Depois explico tudo.
A pessoa do outro lado deve ter entendido que se trata de algo sério.
— Eu sabia que podia contar com você. Pode escolher um dia qualquer da sem ana com o folga para recom pensar o incôm odo. E dois bilhetes para o Scala.
A conversa term ina com um a saudação.
— Boa noite, Federica. E, m ais um a vez, obrigado.
Ugo desliga. Aponta para o telefone com o se estivesse indicando a pessoa com quem acabou de falar. Mesm o sem eu ter pedido, m e dá suas referências.
— Federica Isoardi é m inha secretária. Esperta, de confiança e reservada. É m uito graciosa, m as é tão eficiente que j am ais tentei algo para não correr o risco de perdê-la.
Ele m e encara de m aneira m uito significativa, com as m ãos apoiadas sobre a pasta.
— Talvez sej a excesso de prudência, m as prefiro que um m aterial com o este não passe a noite neste escritório.
Suspira. O m undo é realm ente um lugar suj o. Suj o, feio e perigoso.
Com o se estivesse fazendo um grande esforço, levanta-se.
— Muito bem . Mãos à obra.
Eu tam bém m e levanto.
— Tem m ais um a coisa que você deve fazer para m im .
— O quê?
Enfio a m ão no bolso e saco a carteira. Abro e tiro o cartão da loteria e o recorte de j ornal com os resultados dos j ogos daquele dom ingo de sorte.
— Receber este prêm io, quando eu pedir.
Ele pega o cartão, segurando-o entre dois dedos. Estuda-o com curiosidade.
— O que é isto?
— Um cartão prem iado da loteria esportiva que vale quatrocentos e noventa m ilhões.
Ele levanta a cabeça de repente. Devo dizer que o advogado Biondi é bastante repetitivo em suas exclam ações de surpresa.
— Caralho!
— O único que, por enquanto, não m e fodeu.
Com para os resultados no recorte de j ornal com os do cartão para se certificar de que batem . Eu sabia que ele faria isso. Um pouco por curiosidade pessoal e um pouco por deform ação profissional. Ugo verificaria qualquer papel, m esm o que tivesse sido entregue por sua m ãe. Um núm ero após o outro, chega ao décim o terceiro resultado correto.
A esta altura, deixa escapar um a exclam ação.
— Quatrocentos e noventa m ilhões! Que bolada!
Segurando aquele quadradinho de papel com o a coisa m ais frágil do m undo, Ugo se aproxim a de um quadro na parede à m inha esquerda e o abre com o se fosse a porta de um arm ário. Atrás, surge um cofre. Nem m esm o um advogado tarim bado com o ele, com todos os consultores experientes que pode ter, conseguiu inventar um esconderij o m enos prosaico. A com binação certa e a porta se abre. O cartão é depositado com cuidado lá dentro.
— Aproveitando o ensej o, guarde isto tam bém .
Inclino-m e e tiro da sacola todas as notas de dinheiro que estão lá dentro. Dois passos e ponho tudo em suas m ãos. Meu advogado, cada vez m ais atônito, coloca o dinheiro j unto ao cartão m ultim ilionário. Depois que o quadro é posto de volta no lugar, seu valor aum enta de m aneira considerável.
Voltam os à escrivaninha. Ugo pega a pasta.
— Vou fazer um recibo relativo ao que você acabou de entregar. Mas acho que, agora, tem os coisas m ais im portantes a fazer.
— Concordo.
Saio do escritório seguindo-o até um a espécie de alm oxarifado onde fica um a fotocopiadora. Trabalham os sincronizados, em silêncio, até term os todas as cópias de que precisam os. No final das operações, tem os sobre a m esa um a série de envelopes de papel pardo. Todos têm um endereço bem claro escrito na frente.
Todos m enos um . Aquele serve para m im .
Vam os para o escritório, onde apoiam os o pacote sobre a escrivaninha. Ugo se senta e, im ediatam ente, sobre um a folha de papel tim brado, escreve à m ão algum as linhas. Data e assina e, em seguida, a estende para m im .
— Aqui está seu recibo. Sinto m uito, m as não sei bater à m áquina.
— Vou ter de m e contentar.
Um a outra folha, com algum as linhas de instruções para a secretária, é colocada sobre a pilha de envelopes.
Olham os um para o outro. Nós dois sabem os que, aqui, não há m ais nada a ser feito.
Ugo se vira e pega um a valise de couro que está sobre um a m esinha à sua esquerda. Depois, abre-a e põe lá dentro a pasta com os docum entos originais. Levanta-se e seus olhos são os de um hom em pronto para lutar. Só durante a batalha saberá se está enfrentando gigantes ou m oinhos de vento.
Tenho m ais um a coisa a acrescentar. E a acrescento.
— Ugo, lá em baixo, tem um policial que está nos esperando.
— O quê?
— Fique tranquilo. Fui eu que liguei para ele, com binarem os j untos um a versão convincente da m inha prisão. Preferi que ele nos levasse à delegacia.
Ugo m e analisa e, de repente, volta a ser um advogado na frente de um fugitivo.
— Por que ele?
— Porque eu o conheço e quero que sej a ele a fazer bonito. E tam bém porque é o único que, antes de nos levar até a central, vai aceitar parar em outro lugar.
— Para fazer o quê?
— Dizer adeus a um velho am igo.
Ugo, com o hom em e advogado, não consegue segurar um a pergunta instintiva.
— Quem ?
Olho para ele e sorrio.
— Francesco Marcona, m ais conhecido com o Bravo.
Viro as costas e m e dirij o para a entrada.
O advogado Ugo Biondi, com sua valise de couro, de pé ao lado de sua escrivaninha que vale alguns m ilhões, no seu escritório de profissional liberal de sucesso, está desconcertado.
Eu, com m eu envelope pardo na m ão, estou feliz.