Memórias de um Vendedor de Mulheres
Abril de 1978
1
QUANDO DAYTONA E EU VAMOS PARA a rua, está am anhecendo.
Param os na calçada, a dois passos de distância um do outro, respirando o ar fresco da m anhã, que, m esm o em um a cidade grande, dá a im pressão de ser puro. Na verdade, a respiração em Milão é um sopro m alcheiroso, exatam ente com o deve estar nosso hálito àquela hora. A única coisa pura é a sugestão, m as tam bém se vive disso.
Day tona abre os braços, bocej a e se espreguiça.
Acho que ouço um estalo em suas costas, m as talvez sej a apenas im pressão. Seu rosto m ostra m arcas da noite que passou j ogando pôquer e cheirando cocaína. Está alterado, dá para ver pelo m ovim ento dos m úsculos que se contraem sobre os m axilares. A peruca farta que lhe cobre a calvície com o um truque de ilusionism o e laquê cedeu um pouco e está levem ente inclinada, com o um a boina peluda. Sua pele está pálida e um a m ancha escura contorna seus olhos. O bigodinho faz com que ele pareça um daqueles personagens neuróticos e m alvados dos desenhos anim ados que acabam sendo côm icos sem querer.
Leva a m ão ao rosto, puxa o punho da cam isa guarnecido pela noite em claro e vê as horas.
— Nossa, são quase seis.
Day tona fala com o se isso fosse um problem a. Com o se, para ele, fosse um a exceção ainda estar acordado àquela hora. Com o se tivesse que prestar contas da própria vida a alguém além de si m esm o e, às vezes, à polícia. Deixa cair o braço e o relógio desaparece. Aquele relógio é a origem do seu apelido. Há anos ele usa um Rolex Day tona de ouro, m odelo Paul Newm an.
Quando o usa.
Esse detalhe faz com que sej a m uito fácil distinguir seus períodos de penúria e de fartura. É só observar seu pulso esquerdo. Se o relógio não está ali, significa que foi penhorado no Monte di Pietà. E, se foi penhorado, quer dizer que Day tona está fazendo de tudo para reavê-lo. Sem se preocupar m uito com m eios e m étodos.
De qualquer form a, agora o relógio está no seu pulso e ele sobreviveu a um a noite desenfreada e a um a partida de pôquer na qual teve sorte. Depois do fecham ento, ficam os na salinha do Ascot Club, aquela que fica ao lado do bar. Ele, Sergio Fanti, o Godie, Matteo Sana (conhecido com o Sanantonio) e eu. Bonverde, o proprietário, foi em bora com a m ulher logo depois do últim o espectador e encarregou Giuliano, o gerente, de fechar o local. Sem se im portar com o que aconteceria depois que ele saísse de cena. Ficam os ali, respirando um arom a rem anescente de hum anidade prom íscua, em m eio à um idade com cheiro de feno de um carpete que não é arej ado há anos. Surgiram cartas, cigarros e alguns m etros de cocaína.
As horas, as cartas e os cigarros passaram e, quando a cocaína era apenas um a lem brança, Day tona se tornou o indiscutível protagonista do evento. O golpe de sorte foi um a quadra de noves que caiu sobre a m esa com o um raio que destrói um fullhand com cartas de um a só cor. Foi o destaque da noitada.
Com o se tivesse lido m eu pensam ento, Day tona se vira para m im .
— Que sorte tive esta noite! Eu estava m esm o precisando.
Sorrio, em bora tenha tentado evitar. Viro a cabeça para olhar o tráfego ainda incerto da m anhã. Poucos carros se deslocam indolentes pela via Monte Rosa. Dentro deles, há fantasm as assustados, que voltam para casa, e fantasm as iludidos, que acreditam ser assustadores e saem rum o à sua danação cotidiana. Com o observador, parece-m e que Day tona deu um nom e e um endereço à sorte com algum as artim anhas não totalm ente im pecáveis. Ao m enos, não para m im . Mas isso não é da m inha conta. Não j ogo, portanto, não ganho nem perco. Sem pre fui o espectador que vê e cuida da própria vida. Com o tem po, essa regra se tornou um hábito agradável. Vive-se m elhor e, em certos am bientes, sim plesm ente vive-se.
Volto a ele.
— Foi sorte m esm o. Quanto você ganhou?
Day tona m e exam ina para ver se há ironia em m eu rosto. Não a encontra, ou talvez prefira não encontrá-la. Põe a m ão no bolso e a deixa lá, com o se bastasse o tato para contar o dinheiro. Parece que estou vendo seus dedos gorduchos e peludos am arfanhando as notas com o m ovim ento grosseiro geralm ente usado com o dinheiro fácil.
— Um m ilhão e oitocentas m il liras, m ais ou m enos.
— Boa j ogada.
— Verdade. Deu m ole, eu caio dentro.
Ele esfrega as m ãos satisfeito e eu penso que certos seres hum anos têm m uita dificuldade para aprender com os próprios erros. A m esm a dificuldade que eu tenho para não sorrir novam ente. Certa vez, durante um a partida com pessoas que não estavam à sua altura, de tanto repetir aquela frase, Day tona levou um soco na cara de um suj eito m ais alto, m ais forte e m ais arm ado que ele. Sem poder reagir, por m otivos óbvios. Circulou durante um bom tem po com um olho roxo que o fazia parecer um dálm ata roliço e triste. E havia um a bela com issão de risadinhas que o acom panhava com o se fosse a cauda de um vestido de noiva.
Atrás de nós, surgem os outros.
Sobem um a escada sob um letreiro que, à noite, representa um convite para descer até o Ascot Club, o indiscutível tem plo do cabaré m ilanês. Nas paredes que ladeiam os degraus gastos, há pôsteres dos fam osos que, no início de suas carreiras, passaram por aquelas salas, sobre aquelas m esas, sob aquelas luzes. Todo dia, na rua, ao lado da entrada do clube, é colocado um painel lum inoso que anuncia os nom es dos aspirantes.
Um passado provisório, um futuro de glória e um presente de esperança. Todos reunidos no velho axiom a segundo o qual em Milão, depois de certa hora da noite, circulam pelas ruas apenas policiais, artistas, delinquentes e putas.
O difícil sem pre foi entender quem é quem .
Giuliano sai por últim o. Dem ora-se baixando a porta de m etal que lacra definitivam ente o Ascot Club e o protege da contam inação do dia.
Os outros nos alcançam .
O Godie se aproxim a de Day tona e apoia o indicador e o dedo m édio abertos com o se fossem um a tesoura em seu pescoço.
— Tac! Capturado, seu gãoca!
O Godie tem um j eito de falar e de agir bastante folclórico. Representa m uito bem o lugar, a hora e o tipo de gente com quem convive. Aquele círculo de pessoas que se exprim e com um a linguagem que tem a pretensão de ser reconhecível, ou até m esm o original. Basta inverter as sílabas das palavras, assim gato se transform a em toga, m esa se transform a em same e carta se transform a em tacar. E Diego, seu nom e verdadeiro, se transform a em Godie.
O Godie, para ser m ais preciso.
Sim ples e talvez um pouco estúpido tam bém . Mas cada um pendura as m edalhas que quer.
Day tona afasta a m ão dele.
— Gãoca nada. Vocês é que não sabem j ogar. Principalm ente você.
O Godie o em purra pelo cotovelo.
— Vá pro inferno. Lem bre que em Las Vegas só dávam os Steve McQueen e eu.
O hum or é o de sem pre, um pouco repetitivo, às vezes inspirado naquele dos artistas que a cada noite se exibem no Ascot, às vezes servindo de inspiração para eles.
Giuliano nos alcança. Assim com o eu, ele tam bém não participou do j ogo. Só da algazarra lim ítrofe. Acho que ele em bolsou algum por ter deixado o local à nossa disposição. Mas, com o sem pre, não é da m inha conta.
— Então, o que vam os fazer?
Sergio Fanti, estatura m édia, m agro, calvo, nariz protuberante, olha o relógio. Todos nós sabem os o que ele está prestes a dizer.
— Só tenho tem po de passar em casa, tom ar um banho e ir direto para o escritório.
Sergio é o único que tem um em prego sério. Trabalha com m oda, o que é confirm ado por seu terno am arrotado, porém elegante. Ninguém sabe com o ele consegue conciliar as noites de fuego e rock’n’roll com um a atividade com ercial, m as ele dá conta. O único indício dos seus delitos são as duas olheiras profundas que ostenta no rosto com o se fossem um a grife.
Matteo Sana bocej a. Depois, alisa a barba descuidada, que com eça a apresentar alguns fios brancos, assim com o seus cabelos.
— Vou tom ar um cappuccino na Gattullo.
O Godie encosta os dedos em form a de tesoura no pescoço dele tam bém . Com seu sotaque tão m ilanês a ponto de parecer um a caricatura, adere à proposta.
— Tac! Tô nessa. Pago e aum ento. Cappuccino com croissant.
Giuliano olha para m im e para Day tona.
— Vocês dois vêm ?
Day tona bate com o indicador no dorso da m ão.
— Eu passo.
Balanço a cabeça.
— Idem . Vou para o cafofo.
Vem os os quatro que se afastam até chegarem à BMW 528 de Sergio Fanti, que, no fim das contas, acabou cedendo. O Godie se agita e fala, com o sem pre faz quando está m eio doidão. Entram e, abafado pelo barulho das portas batendo, o m otor dá a partida, soltando pelo cano de descarga um a fum aça azulada. O carro sai do estacionam ento e segue para a piazza Buonarroti, na direção da confeitaria Gattullo, em Porta Lodovica.
Já os vej o entrar transtornados na loj a que, devido ao tem po que levarão para chegar até lá, estará cheia de gente pedindo um cappuccino e um croissant. Ao contrário do planej ado, talvez peçam três uísques e um Cam pari, cham ando a atenção de um a dezena de pessoas. Depois, irão para casa dorm ir, tom arão um Rohy pnol para com bater o efeito da cocaína e a taquicardia provocada pela anfetam ina que, certam ente, foi usada para m alhá-la. A noite term inou e é assim que certos anim ais voltam para as suas tocas.
Eu e Day tona estam os na calçada, novam ente sozinhos.
— Sabe o que está faltando para term inar bem um a noitada de sorte?
— Não.
Na verdade, eu sei. Sei m uito bem . Mas quero que ele diga.
Day tona m e olha com sua peruca que vai e vem e os olhos brilhantes, se é que podem brilhar depois de um a noite insone. Depois, indica com a cabeça um ponto do outro lado da rua.
— Um a aventura com aquela taga.
Sorrio, sem precisar disfarçar desta vez.
Em frente ao Ascot Club fica um edifício com ercial grande, totalm ente ocupado pela Costa Britain. São quatro andares que tom am boa parte do quarteirão. Desde a esquina com a via Tem pesta até m ais à frente de onde estam os, na direção de piazzale Lotto. Cim ento, m etal e vidros. E luzes sem pre acesas, ilum inando tetos e escrivaninhas para lem brar a todos que, nesta cidade, m esm o quando estam os descansando, pensam os em trabalho.
Da porta de vidro, acaba de sair um grupo de pessoas. São as faxineiras. Esvaziaram latas de lixo, passaram o aspirador de pó e lim param banheiros, escravas da noite que deram duro até agora para que os escravos do dia encontrem tudo em ordem . Duas se afastaram logo, atraídas por um a cam a ou um café da m anhã. As outras se dem oraram um pouco em um a conversa, talvez com a m esm a sensação que tivem os, a de que, àquela hora da m anhã, vale a pena respirar o ar. Um a delas se detém para acender um cigarro, ficando um pouco isolada das dem ais. É alta e m agra, e as roupas disform es não conseguem esconder algum a graciosidade. Os cabelos são longos e castanhos, o rosto é claro, cheio de luz.
E conform ado.
Tam bém a indico com a cabeça.
— Aquela?
— É. Que gata.
Olho para Day tona e vej o que, na sua cabeça, j á está passando um film e. E, certam ente, não é um film e que possa ser exibido em um cinem a do centro da cidade.
— Para você, quanto vale?
— Um a perna, se topasse.
Cem m il liras são um belo par de sapatos nos dias de hoj e, que passam cada vez m ais rápido.
— Duzentas m il liras e ela topa.
Day tona arregala os olhos. Não questiona as m inhas palavras, m as o valor.
— Nossa, duas pernas!
— Cento e cinquenta para ela e cinquenta para m im .
— Você é um filho da puta.
Olho para ele com o olharia para um em igrante com um a m ala de papelão.
— São seis da m anhã, você está sozinho, é feio e ela é um a garota bonita.
Está indeciso. Talvez não consiga entender se estou brincando ou falando sério.
Dou o golpe de m isericórdia.
— Você acabou de ganhar um m ilhão e oitocentas m il liras. Vai sobrar um m ilhão e seiscentas m il.
— Tudo bem . Vam os ver o que você é capaz de fazer.
Afasto-m e. Agora, está na hora de ele bancar o espectador. Atravesso a rua e m e aproxim o da garota, que fum a com a bolsa pendurada em um om bro e m e observa fazendo suas avaliações. É m uito m ais graciosa de perto. Chega a ser bonita. Seus olhos são cor de avelã, m elancólicos, talvez tenham visto periferias dem ais, e falam de coisas desej adas e nunca obtidas.
Sorrio.
— Oi. Você tem fogo?
Ela pega a bolsa, rem exe em seu interior e m e oferece um isqueiro de plástico. Deve trabalhar aqui há pouco tem po. As m ãos ainda não estão estragadas pelos detergentes e afazeres, dom ésticos e não dom ésticos. Pelo m odo com o m e olha, entendo que intuiu que o pedido de fogo foi só um pretexto. E nem m uito original, para ser sincero.
Pego o m aço de Marlboro e acendo um cigarro. Em m eio à fum aça, aponto para o prédio atrás dela.
— Você trabalha aí?
Ela faz um gesto vago com a cabeça.
— Faxineira. Se você cham a isso de trabalho, sim , trabalho aí.
— Qual é seu nom e?
— Carla.
— Certo, Carla. Posso lhe fazer um a pergunta pessoal?
Ela aplica a regra do “quem cala consente”. Está curiosa. O que significa que tam bém é esperta.
— Quanto você ganha?
Carla m e estuda, espera para ver aonde quero chegar. Não há m edo em seus olhos, gosto disso.
— Cento e oitenta.
— Quer ganhar cento e cinquenta em duas horas?
Ela entende logo. Fico esperando um tapa que não se m aterializa. Muito significativo. Talvez certos tipos de proposta não sej am um a novidade para ela. Talvez ela estej a passando por um a situação de m uita necessidade. Talvez, em um lam pej o, tenha sim plesm ente vislum brado um cam inho para sair da periferia, dos congelados e dos vestidos da Upim . As hipóteses são m uitas e nenhum a m e interessa.
Só falta esclarecer um a coisa e é ela quem tom a a iniciativa.
— Com quem ?
Faço um gesto com a cabeça em direção a um ponto atrás de m im . Ela avista Day tona do outro lado da rua. Depois m e encara com um pouco de desilusão. Por fim , baixa os olhos e procura o asfalto antes de responder.
— Não é o Robert Redford.
Mostro um a expressão inocente, com o se faz diante do óbvio.
— Se fosse, eu não estaria aqui falando com você.
Ela olha para as outras que, em grupo, parecem esperá-la a poucos passos de distância. Desde que com eçam os a conversar, elas ficaram nos estudando, fazendo suas considerações. Algum as risadinhas e olhadelas. Não excluo a ideia de que algum as possam ser de invej a. Carla se volta para m im com ar de desafio nos olhos cor de avelã.
Fala baixinho, com o se fosse um pensam ento que escapou dos lábios. Propõe um a alternativa.
— Com você, seria grátis...
Balanço levem ente a cabeça e elim ino qualquer hipótese naquele sentido.
— Estou fora de questão.
Ela precisa de um esclarecim ento.
— Não gosta de m im ou não gosta de m ulheres?
— Nem um a coisa nem outra. Digam os que, nesta situação, sou apenas um interm ediário.
Carla fica em silêncio. Entendo que ela está avaliando os prós e os contras. Acho que não é um a questão m oral, m as som ente de oportunidade. Talvez ela sej a de um a daquelas fam ílias em que o pai é o dono de tudo o que tem em casa, inclusive das filhas. Trata-se apenas de dar um preço adequado a algo que ela geralm ente é forçada a conceder sem possibilidade de escolha. Ou talvez essas ideias sej am apenas fruto da m inha im aginação e, com o costum a acontecer, a verdade é outra. Ninguém pode realm ente saber o que se passa na cabeça das pessoas.
Às vezes, só interessa o que as pessoas decidem fazer.
Carla faz um sinal afirm ativo com a cabeça.
— Diga para ele m e esperar na frente da Alem agna na via Monte Bianco. Daqui a dois m inutos estarei lá.
Indico o Porsche cor de abóbora de Day tona. É um m odelo antigo, com o prestígio ofuscado. Um prestígio que ficou nas m ãos do prim eiro proprietário, que agora certam ente dirige o últim o m odelo. Mas, para suj eitos com o Day tona e para as pessoas com quem ele anda, aquele carro é de qualquer m aneira um cartão de visitas.
— O carro é aquele.
— Tudo bem .
Enquanto conversam os, suas colegas de trabalho se afastam . Carla parece aliviada. Por enquanto, não precisa dar explicações. Tenho certeza de que, no dia seguinte, ela j á vai ter um a resposta pronta. O dinheiro e o senso de culpa são ótim os incentivos à m entira.
— Só um conselho.
— Pode falar.
— Faça com que ele pague um café para você e não entre no carro sem o dinheiro na bolsa.
Ela m e olha com um sorriso que não é exatam ente um sorriso.
— É assim que se faz?
— É. É assim que se faz.
Viro-m e para ir em bora e, do outro lado da rua, vej o a figura de Day tona, esperando. Atravesso e vou até lá. Ele assistiu ao diálogo sem saber o que realm ente acontecia, exatam ente com o as colegas de Carla. Quando m e aproxim o, j ogo a guim ba do cigarro e solto a últim a baforada de fum aça para aum entar a poluição de Milão.
— Então?
— Fique esperando na frente da Alem agna. Ela encontra com você lá.
— Quanto?
— Cento e cinquenta, com o eu disse.
— Cacete!
Talvez Day tona não acredite nos próprios ouvidos e com aquela palavra estej a querendo exprim ir espanto. Ou talvez estivesse esperando um desconto. Parou de acreditar no próprio charm e há m uito tem po.
— E cinquenta para m im .
Estico a m ão com a palm a virada para cim a. Ele entende e vasculha o bolso. Depois m e estende um a nota toda am arfanhada, com o é j usto que sej a para o dinheiro ganho sem esforço. Só que, daquela vez, fui eu que ganhei. Sem trapacear. Um j ogo tão velho quanto o m undo, e eu conheço suas regras. Day tona tam bém as conhece, m as não se rebaixa para aplicá-las. Basta que alguém faça isso em seu lugar. Com o tantas pessoas, está disposto a pagar por isso.
Enquanto ponho o dinheiro no bolso do paletó, ele m e olha com seriedade.
— Não brinque com igo, Bravo.
Dou de om bros.
— Você sabe que nunca brinco.
Day tona se aproxim a do Porsche, abre a porta, entra e dá a partida. Espera que a rua estej a livre e parte na direção de piazzale Lotto. No sinal verde, as luzes de freio se acendem e o carro desaparece à direita, rum o a um a discutível aventura.
Agora, estou sozinho.
Apalpo o bolso do paletó, encontro a chave e vou em direção ao carro, um Innocenti Mini azul-escuro, estacionado ali perto.
Entro no m eu m eio de transporte anônim o. À esquerda, Carla passa depressa, indo para o seu com prom isso. Ela m e vê e olha para o chão. Boa sorte, garota. Um m ês de salário por duas horas de trabalho não é um m au negócio, se você sabe se adequar. Ela dem onstrou que estava disposta. Para m im , foi um a espécie de distração, pois geralm ente tenho contratos e contatos de outro calibre. Não m e pergunto o que estou infringindo com o que acabei de fazer ou com o que habitualm ente faço.
A lei dos hom ens é um a linha traçada com m ão pouco firm e. Alguns ultrapassam o lim ite, outros o respeitam . Estou convencido de que vivo um palm o acim a dele, sem nunca pôr os pés nem de um lado nem de outro. Não m e questiono porque o m undo à m inha volta não m e questiona.
Isso pode agradar ou não, m as eu sou assim .