Memórias de um Vendedor de Mulheres
Mídias sociais
A Marcella e Corrado,
que nunca foram embora.
Certo, vamos comê-la.
ADÃO E EVA
PRÓLOG O
EU ME CHAMO BRAVO E NÃO tenho pau.
Essa poderia ser m inha apresentação. O fato de eu andar por aí com um apelido, e não com um nom e de verdade, não significa nada. Cada um é o que é, apesar dos rastros burocráticos que carrega consigo com o serpentinas depois de um baile de carnaval. Não im portava o nom e com que eu m e apresentasse ao dar apertos de m ão: m inha vida não seria m udada em nem um a vírgula. Nada a m ais nem a m enos. Nem altos nem baixos, nenhum braço de m ar calm o ou agitado no qual m e atorm entar ou do qual lam entar o torm ento. O fato de eu não ter um nom e era um a providencial área de som bra na qual m e esconder, um rosto que m al se entrevê, um a figura quase despercebida, o nada, o ninguém . Já que eu era o que era, um a condição sem elhante abrangia, de m aneira específica, tudo o que m e era útil, sem opções nem exceções.
No que diz respeito à outra particularidade anatôm ica, vale a pena nos dem orarm os um pouco m ais.
Não nasci assim .
Não houve, naquele m om ento, a expressão atônita de um m édico que m e viu sair de dentro da fissura totalm ente desguarnecido, nem o olhar perplexo de um a m ãe ainda abalada pelo últim o e definitivo esforço do parto. Não houve ternuras infantis para com um m enino m arcado por um a deficiência no m ínim o singular e suscetível a piadas pesadas nos anos que viriam . Nem trágicas confidências adolescentes com a cabeça baixa e olhos que parecessem querer decorar o form ato da ponta dos sapatos.
Quando m e apresentei ao m undo, tudo estava em seu devido lugar. Até dem ais, eu diria, à luz dos fatos que vieram à tona. E, até um determ inado dia, tudo aquilo que estava em seu devido lugar foi fonte de diversos incôm odos para senhoras e senhoritas aventureiras e arroj adas que não procuravam outra coisa. Sem pre pensei que aquilo fosse problem a delas.
Até que o problem a de um a delas se tornou o m eu.
O com o, o quando e o porquê não serão futuram ente obj eto de estudo dos historiadores. Tratou-se sim plesm ente de ter conhecido a pessoa errada no m om ento errado. Réu confesso, se é que isso pode valer algo. Eu adm ito, m as não m e recrim ino. A ordem das coisas na vida de cada um é com o é, e ponto final. Às vezes, não tem os com o nem por que nos com portar de outra m aneira. Ou, se tem os, no m eu caso, foi difícil enxergar. A sim ples proposta de um porquê seria apenas um a agulha a m ais em um bonequinho de vodu com o m eu rosto.
Em um a noite daquelas em que o tem po deixa um a m arca, houve alguém que, com um a navalha afiada e bastante raiva e sadism o, deixou-m e na condição atual. Fiquei caído no chão com um a m ancha de sangue que se alargava nas m inhas calças e, em m inha boca, a voz se reduzia cada vez m ais a um sopro, enquanto a m ancha se tornava um grito. Fui expulso do teatro e obrigado a passar do palco para a plateia. Jogado na últim a fila, eu diria. No entanto, a dor daquele corte não foi nada se com parada à dor do aplauso.
Até então, eu havia falado de am or por conveniência, e praticado sexo por prazer pessoal. Naquele m om ento, vi-m e na condição de não ser m ais obrigado a prom eter aquele am or porque não era m ais capaz de receber em troca sua com pensação m onetária. O sexo, j ustam ente.
O corpo de um hom em não m e dizia nada e eu não tinha nada a propor ao corpo de um a m ulher.
De repente, surgiu a calm aria. Nada de picos nem vales, apenas planície. Nada de m ar calm o ou revolto. Som ente a zom beteira bonança, aquela que não estufa nem rasga velas. Quando não havia m ais m otivo para correr, pude olhar à m inha volta e ver com o o m undo realm ente girava.
Am or e sexo.
Mentiras e ilusões.
Alternando-se. Depois, a partida em busca da próxim a escala, do próxim o endereço anotado na m ente com m eios im provisados. Por intuição, por faro, por toque. Cego, surdo e m udo, apenas com o auxílio do tato e do olfato, a últim a fronteira do instinto.
Quando recuperei a visão, a audição e a fala, refleti e entendi.
Logo depois, aceitei.
No m om ento im ediatam ente seguinte, agi.
Desde então, foi derram ado sangue, m atéria-prim a de pouco valor em qualquer parte do m undo. Pessoas m orreram e talvez o valor delas fosse ainda m enor. Alguns dos responsáveis pagaram , outros se safaram . Com o todas as coisas que têm um fim na m orte, esta tam bém tem um pequeno início.
Tudo com eçou quando entendi que havia m ulheres dispostas a vender o próprio corpo para conseguir dinheiro e percebi que havia hom ens dispostos a gastar o próprio dinheiro para ter aqueles corpos.
É necessário avidez, rancor ou cinism o para ficar no m eio dessa troca.
Eu tinha todos os três.