Memórias de um Vendedor de Mulheres
Capítulo 20
ESTACIONAMOS EMBAIXO DA CASA DE CARMINE. Sobre os telhados, um a vaga prom essa de luz. Outro dia está raiando e Carla e eu estam os novam ente j untos. Perm ito a m im m esm o o luxo de um a quim era, o único que m e é concedido neste m om ento. Gostaria de poder voltar atrás em um a m anhã com o esta e ouvir pela prim eira vez…
Com você, seria grátis...
…e pensar que tudo é verdadeiro, e responder sim , m eu Deus, sim ; até a últim a luz que eu puder ver, sim ; pelo que sou e pelo que não sou, sim ; m aldição, sim ; em qualquer lugar, sim ; de qualquer m aneira, sim ...
Em qualquer m undo, sim , m as não neste.
A m ão de Carla gira a chave e desliga o m otor.
Falei o endereço da casa de Quarto Oggiaro quando ela voltou para o carro depois do telefonem a.
Mais ou m enos no final da viale Forlanini, ela parou na frente de um telefone público. Desceu e, através do para-brisa, eu a vi passar na frente do carro. Pela j anela lateral, vi quando levantou a m ão e introduziu a ficha, com pôs um núm ero e esperou a resposta. Depois, a vi falar com alguém , um diálogo breve, durante o qual parecia responder a pedidos que eram feitos do outro lado da linha.
Desligou e voltou para o veículo. Deu a partida com calm a. Voltou a dirigir com os olhos atentos à rua. Atentos dem ais para que eu não entendesse que ela estava decidindo o que fazer.
Não o que fazer com igo.
Mas o que fazer de m im .
Fui eu que quebrei o silêncio. Eu tinha m uitas perguntas. Não sabia quantas teriam resposta. Com ecei pela prim eira, a que não nascia da curiosidade, m as da surpresa.
— Por que você não m e m atou tam bém ?
Logo em seguida, virei a cabeça e fiquei olhando para a rua com m edo de ler em seu rosto que aquela era um a pergunta que ela tam bém estava se fazendo.
Prossegui, desafiando suas intenções e seu silêncio.
— Teria sido tudo perfeito. Tudo estaria em seu lugar. De acordo com a lógica desta história, eu sou o único que falta naquela casa, no m eio daqueles corpos.
Carla vasculhou o porta-luvas. Estendeu para m im um pacote de lenços de papel.
— Lim pe o rosto. E tire o paletó porque está m anchado de sangue.
Entendi que aquele era apenas um dos m uitos artifícios que estavam à sua disposição para adiar a resposta. Ou para m e fazer entender que não haveria resposta. Tirei o paletó e o j oguei no banco de trás. Virei o retrovisor para m im , acendi a luz interna e com ecei a lim par do m eu rosto os vestígios do sangue de Lucio.
— Onde você se escondeu nos últim os dias?
Respondi sem olhar para ela.
— Em um lugar.
— É seguro?
— É.
— Vam os para lá.
Apaguei a luz e deixei que fosse Milão a ilum inar Carla. Ela entendeu m eu silêncio com o hesitação.
— Quando parei, liguei para a polícia. Disse que havia passado na frente da casa e que m e pareceu ter visto corpos caídos no chão da garagem . Interpretei o papel da cidadã am edrontada que cum pre seu dever, m as que não quer se envolver.
Olhou para m im .
— Você precisa de um lugar onde ficar até que a polícia encontre os corpos e faça um a reconstituição do que aconteceu. A presença de Gabriel Lincoln, colaborador de Bonifaci m andado em bora com um pé na bunda, e a descoberta de que Lucio não era cego reforçarão a hipótese de que, nesta história, você foi vítim a de um com plô.
— Vão sobrar m uitos pontos obscuros.
— Em histórias com o esta, é sem pre assim . Obscuros ou obscurecidos.
— Não. Serão apenas outros m om entos para os quais não tenho um álibi. E tudo o que eu puder dizer ou m ostrar vai parecer sim plesm ente um a tentativa de construir um . Carla ficou em silêncio. Talvez tivesse pensado a m esm a coisa e m inhas palavras funcionassem com o m era confirm ação. Através dos vidros do carro, desfilavam à nossa frente im agens de um a cidade que, poucos dias antes, eu tinha a coragem de considerar um a espécie de propriedade privada. Sem m e dar conta de que, na verdade, ninguém é dono de nada. Podem os apenas optar por pertencer a algum a coisa. A capacidade e a sorte são um a aj uda válida para tom arm os um a decisão.
O am or faz o resto. É o que às vezes ilude, m as que não se com pra e não se vende.
Nunca.
Depois de inform ar o endereço, recostei-m e no banco. Até chegarm os ao destino, não disse m ais nada, repassando na m inha cabeça a sucessão dos eventos. Reflito que, em poucos dias, tive dois m om entos clam orosos de sorte. Um quando fui salvo do Tulipa. O outro quando saí vivo de um a casa deixando para trás cinco m ortos. Tem o ter esgotado m eu crédito com a sorte.
Não aventei nenhum a hipótese sobre os verdadeiros m otivos para que toda esta confusão tenha sido arm ada. O Estado, o Serviço Secreto, as Brigadas Verm elhas, os ideais, a luta de classes, a luta arm ada eram apenas indícios sem sentido. Eu sabia que, apesar da fantasia e do hábito de solucionar enigm as, este era difícil dem ais para m im . A chave de tudo estava sentada a m eu lado. E eu ainda não sabia se Carla m e daria um a explicação ou se enfiaria um a bala na m inha cabeça.
Descem os do carro. Jogo o paletó m anchado de sangue na lata de lixo. Acho que Lucio não terá um a sepultura m elhor. Minhas costas doem e m eus olhos ardem . Vam os até a traseira do carro e colocam os as m alas no chão. Carla tira do porta-m alas um a bolsa de viagem .
Indico com um gesto o Kadett.
— É prudente deixar o carro aqui?
— É, sim . Está lim po.
Mostro o cam inho e chegam os ao elevador. As m alas parecem m ais pesadas ainda. Mas talvez sej am apenas o cansaço e o m anto negro que cobre m eu futuro que tornam a carga ainda m ais onerosa.
Enquanto subim os, m eus olhos reencontram as pichações. Agora, parecem -m e testem unhos confiáveis da vida, um a brincadeira com o tem po, m ais do que com os hom ens. Fico pensando que Mary e Luca, quando eu sair da prisão, serão adultos e eu serei um velho. Sem querer, dou um sorriso tão am argo a ponto de causar com paixão. Minha com panheira de viagem não o nota.
Quando chegam os a casa, depois de largar a bolsa no chão, Carla olha à sua volta. Nada m udou, exceto um detalhe. A esqualidez foi totalm ente elim inada pela sensação de segurança.
— Não é o Grand Hotel.
— Não, não é. Mas é um lugar no qual, por enquanto, ninguém vai nos procurar.
— Quem m ora aqui?
Conj ugo o verbo no tem po certo, para tranquilizá-la.
— Quem m orava aqui está em San Vittore. É a casa de um am igo que pegou vinte e dois anos.
Ela assim ila a inform ação sem com entários ulteriores. Mexe a cabeça com o se quisesse estalar as vértebras.
— Preciso tom ar um banho.
Indico o corredor.
— O banheiro é por ali. Enquanto isso, vou preparar um café.
Carla está com um a expressão estranha, com o se lam entasse o que está prestes a dizer.
— Eu preferiria que você ficasse com igo.
Entendo e esboço um sorriso. O de antes, no elevador, em com paração, era um cubinho de açúcar. Não há nada de doentio nem exibicionista no que ela acaba de m e propor. Nenhum a concessão aos m eus olhos. Quer apenas m e m anter sob controle em todos os m om entos porque não confia em m im . A regra de quem m ata é não proporcionar a ninguém , em m om ento algum e por nenhum m otivo, as condições para que essa pessoa o m ate.
Em silêncio, m ostro o cam inho até o banheiro. Fico m e perguntando quando chegará o m om ento das palavras entre nós. Aquelas palavras que arrancam os véus escuros e deixam entrar um pouco de luz.
Abro um arm ário e ponho duas toalhas em cim a da pia, ao lado do chuveiro. Ela tira o revólver do cinto e o apoia sobre as toalhas. O m etal preto se destaca com o um insulto sobre o branco puído do tecido felpudo.
Vou m e sentar no vaso e m e perm ito acender um cigarro.
Carla com eça a tirar a roupa. Sem m alícia. É som ente um a pessoa que se libera das roupas com gestos despachados, assexuados. Tira o suéter e, em baixo, não está usando sutiã. Os seios são firm es, cheios. Os m am ilos estão intum escidos devido ao roçar da lã. Ela se apoia no lavabo e tira, um a de cada vez, as botas que eu lhe havia dado na m inha casa. Desata o cinto e, com um só m ovim ento, tira j eans e calcinha.
Está nua.
Está linda.
É um a m ulher que m atou.
Só agora, ela m e olha. Seus olhos estão cheios de algo que não sei definir. Pesar, pena ou som ente cansaço. Sej a o que for, é ofuscado por outro olhar, o olhar caolho de um revólver que está m e observando a poucos centím etros de sua m ão.
Dura pouco. Em seguida, Carla se vira para procurar a torneira. Suas nádegas e quadris têm a m arca da perfeição, m esm o com o leve sinal deixado pelo cinto de couro e pelo tecido áspero do j eans.
Ela encontra a tem peratura certa e, finalm ente, entra em baixo do j ato que cai do alto. Não fecha a cortina. Com eça a se lavar e a água que escorre sobre seu corpo não é m ais um fruto banal de pressão, tubos e m ecânica, m as sim chuva que cai do céu para contornar e confundir a beleza e restituí-la intacta depois do abraço. Eu a observo até que ela fecha os olhos e levanta a cabeça. Com as m ãos, puxa para trás os cabelos e deixa que o j ato d’água os livre da espum a.
Depois, aproxim a-se da beirada do boxe e faz um gesto para m im . Poucas gotas d’água caem da sua m ão para o chão.
— Vem .
O desej o é um a m ão m acia que se m exe dentro de m im . Enquanto m e levanto, sei que se tornará um a garra pontuda que vai m e m achucar. Mas não m e im porta. Pela prim eira vez depois de m uito tem po, liberto-m e das roupas na frente de outra pessoa por escolha e vontade próprias. Ignoro m eu corpo m utilado. Tenho consciência apenas do corpo dela.
Dou poucos passos e estou sob o chuveiro com ela.
Carla m e abraça, j unta-se a m im , a água nos cola e encontro sua língua e sua boca. Eu a procuro com as m ãos. Descubro-a, abro-a e ela m e acolhe com um gem ido. De algum m odo, ela m e encontra, eu sou e existo, a água escorre e, no seu prazer, acontece algo com igo que não sei descrever. De repente, a garra não existe m ais e a dor desaparece.
Depois, ficam os abraçados em baixo da água, que voltou a ser a água de um chuveiro, m as que, exatam ente por isso, é perfeita. O que devia ser levado em bora desceu pelo ralo, e o que devia ser relem brado ficou gravado na nossa pele.
Distancio-m e prim eiro. Ela fecha a torneira e o chiado do j ato d’água é substituído pelo silêncio. Saio do chuveiro, afasto o revólver e estico um a toalha para ela. Ela a passa nos cabelos e, depois, a enrola em volta do peito.
Não tenho coragem de olhá-la.
Há coisas dem ais que tenho m edo de encontrar em seus olhos.
Passo rapidam ente a toalha no corpo, então, recolho as roupas e saio do banheiro. Term ino de m e enxugar no quarto e visto calças e cam isa lim pas.
Vou para a cozinha e com eço a preparar o café. A cafeteira está em itindo seus gorgorej os quando Carla chega à sala. Está descalça e ainda com a toalha enrolada ao redor do peito. Agacha-se e rem exe na bagagem . Pega um isqueiro e um m aço de cigarros. Acende um deles e o aspira com o se fosse um a fonte de vida. Por fim , pega calcinha, calças e um a blusa leve.
Desaparece novam ente no corredor. Volta vestida quando estou acabando de despej ar o café nas xícaras. Inclina-se novam ente sobre a bolsa e vej o que põe lá dentro o revólver. Depois, vem até a m esa e se j unta a m im . Não falam os do que acabou de acontecer. Não sei o que significou para ela. Para m im , foi a resposta para um a pergunta. E prefiro acreditar que é o que estou im aginando.
Carla tom a um gole de café sem açúcar. Depois, fica com o olhar fixo naquele líquido negro e fum egante. Agora, chegou o m om ento em que há coisas a serem ditas. E ela tam bém sabe disso.
Com eça a falar sem levantar os olhos.
— Bonifaci era um hom em m uito poderoso. Mais do que é possível im aginar. Ao longo do tem po, havia reunido dossiês com os quais controlava boa parte do m undo político e econôm ico da Itália. Fotos tiradas durantes as festas em sua casa, docum entos que testem unhavam conluios com o crim e organizado, provas de corrupção e apropriações indébitas na gestão do dinheiro público, financiam ento ilícito dos partidos.
Carla levanta os olhos para m im .
— O suficiente para m andar para a cadeia um a quantidade constrangedora de pessoas. Algo que teria reduzido à m etade a classe dirigente deste país. Bonifaci usou todos com o m arionetes durante anos. A seu favor, é claro. Depois, com eçou a puxar dem ais os fios, que se rom peram . Alguém decidiu que era necessário pôr fim a seu enorm e poder.
— Com o?
— Óbvio. Recuperando os dossiês que estavam em suas m ãos.
Term ina o café e apoia a xícara sobre a m esa. Não é possível ler o futuro no fundo dela. O futuro é filho do presente e, talvez, para nós, ele nunca vá existir.
Mas a questão não é essa.
Agora, quero apenas entender o passado.
Carla sabe disso e, dentro de si, decidiu que é j usto.
— Havia um a quantidade im pressionante de dinheiro e poder reunida contra Bonifaci. Gabriel Lincoln, seu hom em de confiança, foi corrom pido graças a um valor astronôm ico e induzido a colaborar. Infelizm ente, Bonifaci o afastou. Talvez tenha farej ado algum a coisa. Ou então foi apenas um a m anifestação daquele sexto sentido que algum as pessoas parecem ter.
— Isso eu entendo. O que não entendo é onde entram as Brigadas Verm elhas.
— Para levar a cabo a operação, era necessário um disfarce. As Brigadas Verm elhas estão em um a situação m uito difícil. Eles estão sendo pressionados por causa do sequestro de Moro e precisam de apoio e dinheiro. Em troca, podiam fornecer hom ens. Quem organizou tudo estabeleceu contatos dentro da organização. Fez prom essas em troca de outras prom essas.
— Quer dizer que há pessoas no âm bito da política italiana que estariam dispostas a abandonar Moro ao seu destino para conseguir aj uda na recuperação daqueles docum entos?
— Exato. O resultado seria de interesse com um . Por um lado, teria dado aos brigadistas um novo sucesso em sua luta arm ada. Por outro, teria elim inado a am eaça de Bonifaci para aqueles que o tem iam .
Levanto-m e e acendo um cigarro.
— Mas quem iria garantir que os brigadistas, após terem recuperado os dossiês e tom ado conhecim ento de seu conteúdo, não os teriam usado com o arm a e os tornado públicos?
— Eu.
Sua sim plicidade ao falar foi desconcertante. Com o se fosse a coisa m ais óbvia do m undo.
— Entrei nesta operação por dois m otivos. Prim eiro, porque faço parte de um setor da agência de inteligência Sisde e recebi treinam ento. Segundo, porque sou um a bela garota. Eu era o contato com os hom ens das Brigadas Verm elhas e, ao m esm o tem po, a pessoa ideal para conquistar a confiança do único hom em que tinha acesso à m ansão de Bonifaci.
— Eu.
Tam bém pronunciei este m onossílabo com um a sim plicidade desconcertante. Um a consequência inevitável da coisa m ais óbvia do m undo.
— Claro. Você.
Carla se perm ite um esboço de sorriso sem alegria.
— Quando descobri que você m orava no m esm o andar de Lucio, não pude acreditar. Não havia nada program ado, som ente a pura e sim ples casualidade.
Faz um a pausa, ainda cheia de incredulidade em relação à m aneira com o o caos e o acaso governam o m undo.
— A pessoa indispensável para chegarm os a Bonifaci m orava a poucos passos de um a das pessoas encarregadas do plano.
Agora que não se trata m ais de vida, m as de história, tudo parece m uito sim ples e inócuo na narrativa pacata de Carla. No entanto, ela está m e explicando os m otivos pelos quais deixou atrás de si um rastro de m ortos. Nas palavras, nunca há sangue, som ente sua descrição ou sua lem brança.
— Através de Lincoln, sabíam os que você existia e m andava periodicam ente garotas para a m ansão em Lesm o.
— Então, vocês atraíram o coitado do Day tona.
— Sim . Parecia a m aneira m ais suave para que eu entrasse no seu circuito. Chegar a você através de alguém da sua confiança. A partir daquele m om ento, você foi vigiado dia e noite.
Eu a interrom po.
— Conheço essa parte.
Explico rapidam ente com o descobri a verdade. Meu resgate das m ãos do Tulipa, ela que m e esperava na frente do Ascot, a substituição do carro, a descoberta do esconderij o de Day tona, o revólver na porta do carro. Enquanto conto tudo, ela m e olha concentrada, atenta, com o se estivesse tentando encontrar significados que vão além das m inhas palavras.
Ela não sabe, porém há m ais significados do que ela pode im aginar.
Mas essa é outra história. Agora, há m ais coisas que quero saber. Faço a pergunta que m e dá m ais m edo, a que m e atorm enta desde que soube da chacina pela televisão. Certam ente, se houver um a resposta, ela m e perseguirá até o fim de m eus dias.
— O que aconteceu na m ansão de Bonifaci?
Carla deixa que os olhos corram pelo côm odo. Talvez m eça a diferença entre o am biente despoj ado em que estam os e o luxo que a cercava naquela noite. Diante de seus olhos talvez estej am passando novam ente im agens que ela gostaria de esquecer. As im agens que para m im são fantasia, para ela são lem branças com as quais terá de se defrontar durante m uito tem po.
— Posso tom ar outro café?
Levanto-m e, vou até a cozinha e com eço a enxaguar a cafeteira. Acho que entendo por que ela fez este pedido. Prefere que ninguém a vej a à m edida em que fala.
Ouço sua voz enquanto encho o filtro.
— Durante a festa, eu havia deixado um a j anela aberta. Quando Lucio e os outros chegaram , trazendo consigo Laura, eu j á m antinha sob controle as garotas, Bonifaci e seus convidados.
Aperto o pó m arrom com a colherinha.
Quando Lucio e os outros chegaram, trazendo consigo Laura...
Isso significava que os hom ens da escolta j á estavam todos m ortos. E que aquela pobre m oça fora arrastada até lá para ser sacrificada em nom e da Razão de Estado. Talvez pelo próprio hom em que a fizera decidir m udar de vida.
Carla prossegue. Eu atarraxo a cafeteira.
— Gabriel Lincoln havia dito que o cofre ficava escondido no porão. Lucio e eu descem os com Bonifaci. Ele negou a existência de um a caixa-forte e eu atirei em um a de suas pernas para convencê-lo a abri-la.
Acendo o fogo. A cham a azulada envolve o fundo da cafeteira.
— Àquela altura, Bonifaci cedeu. Explicou onde ficava o cofre e nos deu as com binações. Quando o abrim os, Lucio o m atou.
A cham a se m exe e tem um poder hipnótico, com o as palavras de Carla que chegam do outro côm odo até m im .
— Lá dentro, encontram os o que procurávam os. Pegam os os dossiês e voltam os a subir. Quando chegam os lá em cim a, só havia cadáveres no salão.
Através da tam pa levantada da cafeteira, vej o que o líquido escuro com eça a sair. Fecho-a. Espero ouvir seu som gutural no tubo. Apago o gás, pego a cafeteira e volto ao outro côm odo.
Carla está im óvel, com os braços apoiados sobre a m esa, o olhar fixo diante de si. Despej o o café na xícara à sua frente. Encho a m inha tam bém .
— Chico e Sergio foram logo devolver seu carro. Eu e os outros voltam os para a casa da estrada Rivoltana com os dossiês.
Carla estica um a das m ãos e pega a xícara. Tom a um gole.
Percebo que não quero tom ar aquele café. Quero apenas que Carla term ine de contar sua história.
— Fale do Lucio.
Na verdade, eu queria perguntar sobre aquela noite. Aquela na qual...
Sua voz interrom pe m eus pensam entos.
— Lucio estava cansado. Entendi que, na verdade, ele não aguentava m ais aquela vida. Não aguentava m ais viver escondido, com o se estivesse preso, fechado em seu disfarce. Todos os discursos ideológicos eram para uso e consum o dos outros, puro e sim ples cham ariz. A clandestinidade desgasta e, m ais cedo ou m ais tarde, procuram os um a alternativa. Um a qualquer, a qualquer preço, desde que sej a à luz do sol. Fiquei com ele e o trouxe para o m eu lado porque tinha certeza de um a coisa.
— Do quê?
— De que, após conseguir aqueles docum entos, ele teria reconhecido neles a alternativa que estava procurando. Então, fingi ser sua cúm plice.
— Com o assim ?
— Nós ficaríam os com os docum entos. Com aqueles dossiês em nossas m ãos, teríam os o m esm o poder de Bonifaci. Eles seriam nossa garantia de segurança e um a fonte inesgotável de dinheiro.
Ela term ina o segundo café. Eu acendo outro cigarro.
— O sonho de todos. Liberdade, im unidade, dinheiro.
Carla m e olha.
— Só tinha um problem a.
Aguardo em silêncio que ela confirm e m inha suposição.
— Eu tam bém tinha certeza de que Lucio teria m e usado para se livrar dos outros e, quando atingisse seu obj etivo, se livraria de m im . Portanto, não tive escolha. Ou ele ou eu.
Bato a cinza na xícara. Em contato com o líquido, ela em ite um leve chiado. Tem m ais um a coisa que preciso saber.
— Por que você aceitou participar disso?
— Pelo m esm o m otivo que todos fazem tudo. Dinheiro. Prom essas de poder. Escolha você.
Ela olha para as próprias m ãos.
— Coisas que agora não fazem m ais sentido.
Faz um a pausa e, em seguida, seus olhos estão novam ente voltados para m im . Não sei o que ela procura em m eu rosto. Não sei o que encontra. Dou o últim o trago no Marlboro e o apago na xícara.
Resta um a outra pergunta, a m ais im portante.
— Agora, o que você pretende fazer?
Carla se m exe nervosa na cadeira.
— Não sei ao certo.
Em silêncio, sigo-a enquanto ela se levanta, vai até as m alas apoiadas no chão e as indica.
— Mas sei que se eu entregasse o m aterial que está aí dentro à pessoa que m e m andou recuperá-lo, eu seria um a m ulher m orta em um a hora.
Olho para ela. Em troca, recebo o m esm o olhar.
É o m om ento dos espelhos.
Em seus olhos, há o presságio da única certeza que todo ser hum ano tem . Há o cansaço e a desilusão do sobrevivente, daquele que interrom peu vidas e percebeu que tudo foi inútil. Mas que, ainda assim , precisa com bater para continuar vivo.
Carla logo recupera o tom firm e de quem tom ou um a decisão.
— Me dê seis horas de vantagem e, depois, procure a polícia.
— Para dizer o quê?
— Tudo o que aconteceu.
— Eles nunca vão acreditar em m im . Não tenho um álibi e nem um a prova sequer.
— Você terá.
Carla se inclina e abre a fechadura de um a das m alas. Está cheia de pastas rígidas, são vários volum es e diversas cores, cada um a fechada por um elástico e com um a etiqueta na frente. Dedilha m uitas antes de encontrar a que está procurando. Então, a abre e folheia rapidam ente seu conteúdo. Coloca-a no chão. Fecha novam ente a m ala e pega um paletó em sua bolsa. Quando volta a se levantar, j á está de paletó e com a pasta nas m ãos.
— Aqui dentro estão docum entos e provas contra o hom em que organizou tudo isso. É o suficiente para acabar com ele. Será seu seguro de vida.
Dois passos e a pasta é apoiada sobre o m óvel. Depois, Carla volta para perto das m alas.
— O resto será m eu seguro.
— Para onde você vai?
— Quanto m enos você souber, m elhor.
Seu rosto diz que o lugar para o qual irá é um m istério até m esm o para ela. Espero que sej a um lugar pacífico. Tenho certeza de que não será.
— Você tem dinheiro?
— Tenho. Havia dinheiro aos m ontes na caixa-forte de Bonifaci. Aquele hom em não confiava nos bancos. Nem m esm o nos que lhe pertenciam .
Não resta m uito a dizer. Carla se aproxim a e encosta seus lábios nos m eus.
— Eu gostaria de ser diferente e de ter conhecido você de outra m aneira. Teria sido lindo.
Do perfum e de sua pele e do calor de seus lábios, nasce, espontânea, um a pergunta. Da qual m e arrependo no exato m om ento em que a form ulo.
— Vou voltar a ver você?
Ela põe um dedo sobre a m inha boca para im pedir que eu fale m ais. Seus olhos são, ao m esm o tem po, um a esperança e um a condenação. Depois, ela se vira, abre a porta, pega a bolsa e as m alas e as arrasta para fora. A porta se fecha escondendo aos poucos a figura de Carla, até voltar a ser apenas um painel de m adeira.
Fico sozinho.
O barulho do elevador chegando significa o início de um a viagem que, no caso de Carla, será um a fuga sem -fim , daquelas que tornam a vida um a experiência m aldita. E eu sou ainda m ais m aldito porque não consigo m e sentir culpado por ter piedade de um a assassina.