Memórias de um Vendedor de Mulheres

Giorgio Faletti · Capítulo 25 de 26

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Memórias de um Vendedor de Mulheres

Capítulo 24

 

O TÁXI ESTÁ SE DIRIGINDO para o aeroporto.

O taxista é um a m ulher, fato bastante incom um . Tem cerca de 40 anos, é agradável, loura e form osa. Seria m uito m ais graciosa se decidisse aceitar a concessão de um pouco de m aquiagem . Quando chegou para m e pegar no Quartiere Tessera, m e esquadrinhou da cabeça aos pés enquanto eu m e aproxim ava do carro. Devo ter passado em algum tipo de exam e porque, durante a viagem , ela j ulgou oportuno m e contar sua história. Talvez para j ustificar o fato de estar dirigindo um carro público. A doença do m arido, titular da autonom ia, as dificuldades subsequentes, a decisão de ocupar seu lugar ao volante.

— Eu não podia ir m orar na rua, não acha?

— Claro que não.

Respondi o que ela queria ouvir. Não m encionei que um a m ulher com o ela, dando os passos certos, poderia obter um resultado m uito m ais rentável do que a féria de um táxi. Talvez ela tivesse aceitado o com entário com o um galanteio um pouco ousado, sem saber que se tratava de um a lúcida análise de m ercado.

Agora, está calada e, de vez em quando, olha para m im com curiosidade pelo retrovisor. Pelo m odo com o j ulgou oportuno explicar sua presença naquele carro, não m e parece ser do tipo que dá em cim a dos passageiros. Portanto, im agino que sej a apenas um ser do sexo fem inino que estuda um ser do sexo m asculino que acha agradável. Isso tam bém pode ser considerado um a análise de m ercado, portanto, aceito seu gesto com o um elogio. Se eu tivesse contado a m inha história, teríam os de fazer m ais de um a corrida para que ela pudesse pentear os cabelos, que teriam ficado em pé.

Da j anela, observo as pessoas, os carros e esse retalho de cidade. Há pouco tem po, em um a noite em que eu achava que não veria o nascer do dia, fiz este m esm o percurso com um revólver apontado para m inha nuca. Percebo que, daquele m om ento em diante, cada vez que respirei foi, e será, um a dádiva. Devo isso a um a m ulher que, agora, não sei onde está e que conheço pelo nom e de Carla.

Depois que m e entreguei, m eu calvário na delegacia da via Fatebenefratelli durou quatro dias. Milla se exibia enquanto m e acom panhava com m eu advogado ao escritório do delegado Giovannone. A versão que acordam os durante a viagem do Hotel Principe di Savoia até a central de polícia era m uito sim ples e, portanto, m uito crível.

Em poucas palavras, era a seguinte.

Milla não havia acreditado quando liguei para sua casa avisando que queria m e entregar j ustam ente para ele. Correu para o carro e foi m e pegar no escritório de Ugo. Devido à presença do advogado e à m inha intenção m anifesta de m e entregar, achou que não seria preciso m e algem ar. O advogado e eu confirm aríam os tudo. Além disso, sabíam os que os acontecim entos após a m inha prisão relegariam a segundo plano qualquer outra consideração, inclusive o fato de o inspetor não ter avisado seus superiores.

Quando m e viu, o delegado Giovannone ficou atônito. Após ter ouvido m inha história, sua perplexidade aum entou. Ficou petrificado depois de um exam e sum ário do dossiê que o advogado Ugo Biondi pôs sobre a sua escrivaninha.

Acho que, com o tem po, o m esm o aconteceu com todas as pessoas que colocaram as m ãos naqueles docum entos.

Repeti m inha versão dezenas de vezes. Diante do delegado, do chefe de polícia, de m agistrados, de figuras im portantes da Divisão de Operações Especiais. Depois, o prefeito tam bém quis ser posto a par da situação. Então, tive de prestar contas a pessoas que não se apresentaram nem se qualificaram , m as que intuí que fossem do Serviço Secreto. Esses hom ens dem onstraram estar particularm ente interessados na figura de Carla e em tudo o que eu conseguia m e lem brar a seu respeito. Palavras, gestos, im pressões. Recebi até a visita do subsecretário que deveria redigir e apresentar um relatório ao m inistro do Interior. Esse últim o, por sua vez, m ostrou-se m uito atento à existência de dossiês análogos ao que eu havia entregado às autoridades.

Passei a prim eira noite na cela de segurança da delegacia. Ugo Biondi exigiu, e obteve, a perm issão para passá-la a m eu lado. Poucas horas m ais tarde, foi acionada um a gigantesca operação policial que prendeu um a centena de pessoas na Sicília, em Rom a e em Milão. Expoentes da política, integrantes da m áfia, representantes das instituições. Um a erupção vulcânica com um a violência inédita, desencadeada por um a docum entação sem precedentes. As cinzas e as pedras continuariam a cair por m uito tem po ainda. E a nuvem negra que havia se form ado cobriria o m undo.

No dia seguinte, aconteceram várias coisas.

Nos j ornais, as prim eiras páginas ficaram cobertas por m anchetes com letras garrafais. Respaldados pela série de prisões e pelos docum entos em seu poder, Corriere della Sera, La Stampa, La Repubblica e, aos poucos, todos os outros j ornais, passaram a com petir para ver quem causava m ais celeum a. No m eio do rufar dos tam bores e do toque das trom betas, a notícia do suicídio do senador Am edeo Sangiorgi não causou m uito im pacto. Toda a opinião pública achou norm al o fato de ele ter pulado de seu quarto de hotel para evitar o escândalo que o teria derrubado. Ninguém prestou atenção ao detalhe de ele ter se m atado m uitas horas antes do início das operações da polícia.

Fui acom panhado até a casa da estrada Rivoltana para um a inspeção. Expliquei detalhadam ente o que havia acontecido. Quem havia disparado, de onde, quantas vezes. Acho que, enquanto eu falava, era evidente m eu alívio por não ter acabado entre os cadáveres. Tenho quase certeza de que algum as das pessoas com quem eu estava falando teriam considerado tal eventualidade um a dádiva dos céus.

O sucesso na luta contra o terrorism o e o duro golpe desferido contra o crim e organizado adoçaram um a pílula am arga. As autoridades não aceitaram m uito bem o fato de eu ter divulgado inform ações tão im portantes para os j ornais. Houve um a longa negociação entre as forças da ordem , os representantes da m agistratura e do governo e Ugo Biondi para acertar os ponteiros. No final, a versão acordada satisfez a todos. Ficou decidido que se atribuiria à descoberta daquela célula das Brigadas Verm elhas a recuperação do dossiê que incrim inou tantas pessoas. Não seriam realizadas outras investigações acerca da m ulher loura que havia entregado os envelopes nas sedes dos j ornais.

Isso m e protegeria de retaliações de pessoas que acabaram na cadeia por culpa ou por m érito m eu, de acordo com os diferentes pontos de vista. Para m uitos expoentes daquele am biente, a vingança é um bom prato. Não im porta se é consum ido frio ou quente.

Grosso modo, foi o que aconteceu.

O filho do senador Sangiorgi, em m eio àquela confusão, passou quase despercebido. Os j ornalistas não ficaram no m eu encalço. Havia pessoas m uito m ais im portantes do que eu para serem acuadas com m icrofones e perguntas. O presidente da República, o prem iê, vários m inistros, até os degraus m ais baixos da escada hierárquica. Nessa escada, eu j am ais sequer pus os pés. Tam bém nesse caso, preferi ficar no porão, onde havia vivido por tantos anos.

Ao poucos, os nom es de Francesco Marcona e Nicola Sangiorgi desbotariam na m em ória das pessoas. Alguns dos conhecidos de Bravo nem chegariam a perceber que os dois eram a m esm a pessoa.

Apenas um a pequena e significativa curiosidade. Além do dossiê que apresentei, dois outros depoim entos confirm aram m inha incrível história. As faxineiras da Costa Britain, que eu havia abordado um a noite na via Monte Rosa, acharam que tinham m e reconhecido pelo retrato-falado que apareceu nos j ornais e procuraram a polícia. Disseram que m e viram e que eu pedira inform ações sobre um a m isteriosa colega de trabalho.

Um a tal Carla Bonelli, pelo que se lem bravam .

Posso apostar que elas acrescentaram que estava na cara que eu era um louco ou um m arginal.

Ou am bas as coisas.

Sorri quando soube e m andei que fosse entregue na casa de cada um a delas um suntuoso m aço de rosas verm elhas. É j usto que cada m ulher tenha um adm irador secreto.

O táxi para sob a m arquise onde se lê “Em barque Internacional”. Desço do carro. É um bom dia para ir em bora. Com o bom tem po do final de prim avera para m anter a recordação do sol e do céu azul antes que chegue o verão e estrague tudo. Eu sabia que, m ais cedo ou m ais tarde, este m om ento chegaria. O m om ento no qual eu m e veria diante do quadro de partidas. Ao contrário de Carla, m inha situação é um pouco m elhor. Ninguém está m e seguindo e não sou obrigado a com prar o prim eiro lugar livre no prim eiro voo que estiver partindo.

Tenho certeza de que, além do bilhete, vou com prar um a ilusão e, no lugar onde eu for parar, encontrarei os m esm os hom ens e m ulheres, só que com rostos e idiom as diferentes. Mas isso não tem m uita im portância.

A única coisa que im porta é a decolagem .

O que vou encontrar depois da aterrissagem fará parte de outra história.

Minha taxista desce e abre o porta-m alas. Tiro m inha bolsa de viagem , pago o preço da corrida e deixo m il liras de gorj eta. Antes de entrar novam ente no carro, ela m e lança um olhar significativo. Talvez eu tenha m e enganado. Com aquele toque de vaidade e narcisism o que existe em cada um de nós, repito para m im m esm o que ela não é do tipo que dá em cim a dos clientes.

Mas, com igo, talvez tenha acontecido.

Ao entrar no term inal, sinto dentro de m im um esboço de bom hum or. Localizo o quadro com os horários dos voos. Vou até lá e corro os olhos por aquela lista de siglas, com panhias aéreas e destinos.

A Alitalia tem um voo para o Rio de Janeiro daqui a três horas. Fico m e im aginando na praia de Ipanem a e m inha im agem naquele lugar m e agrada. Vou até o balcão da em presa e peço à m oça que está no guichê um bilhete de prim eira classe para o Brasil.

Lugar tem . É só pagar.

Pago em dinheiro, tirando do bolso interno do paletó um m aço de notas. Eu m e pergunto quando vou voltar a pagar algo em liras, se é que isso acontecerá um dia. Gosto dessa incerteza, dessa falta de vínculos, dessa possibilidade de tom ar um a decisão e, um m inuto depois, m udar de ideia.

Vou até o check-in. O voo ainda não está aberto.

Localizo a banca de j ornais e vou até lá. Com pro um livro, dois j ornais e algum as revistas. Meu olhar cai em alguns exem plares da Settimana Enigmistica em pilhados ao lado do caixa.

Hesito um pouco, e acabo desistindo. Chega de criptogram as.

Essa era acabou. O últim o que decifrei tinha a palavra Bravo na solução. É um bom resultado e não se pode exigir dem ais da sorte.

Sento-m e, apoio a sacola a m eu lado e abro o Corriere. As prim eiras páginas continuam a ser ocupadas pelos desdobram entos das histórias que testem unhei e protagonizei. Leio aqui e ali, pela m era curiosidade de saber quanto foi dito e quanto foi ocultado, distorcido, desfigurado em nom e da sem pre bendita liberdade de im prensa.

Continua a história que m antém a Itália sem fôlego. Aldo Moro ainda está nas m ãos de seus sequestradores. Espero que, entre as várias m entiras que m eu pai contou em sua vida, um a delas sej a sobre o destino desse hom em abandonado. Espero que as palavras que ele pronunciou no seu quarto de hotel não sej am verdadeiras e que não passem de um a últim a m anifestação do seu delírio de onipotência e onisciência.

Espero.

Sigo em frente. Na crônica policial, um a notícia que diz respeito a Tano Casale. Um a m anchete que ocupa m eia página.

13 PONTOS AZARADOS

Cartão falso deixa em maus lençóis famoso expoente da marginalidade milanesa

Sorrio. Nem preciso ler a m atéria. Sei perfeitam ente o que aconteceu. E sei igualm ente o que vai acontecer.

Quando m eu depoim ento foi escrito, verificado por um a dezena de pessoas e, em seguida, assinado, fui declarado um hom em livre. Ugo Biondi e eu, com o rosto em aciado e olheiras profundas, nos cum prim entam os no pátio da delegacia.

Estávam os cansados, destruídos, sem vontade de nada. Eu estava com a voz rouca de tanto falar.

— Ligo para você am anhã a respeito daquele outro assunto. Agora, só preciso dorm ir.

Apertei sua m ão. Ele apertou a m inha.

— Eu tam bém . Você nem im agina quanto.

Através do portão, vim os na rua seu táxi que chegava. Ele saiu correndo e eu entrei no Alfa de Stefano Milla. O inspetor havia se oferecido para m e acom panhar até o m otel em Settim o, onde eu havia decidido m e hospedar por alguns dias até que a poeira baixasse. Não por um a atenção especial em relação a m im , m as para poder trocar duas palavras em particular, o que não havia sido possível nos dias anteriores.

Ele devia estar pisando em brasas. O carro m al havia entrado no tráfego e Milla foi direto ao assunto. Tinha um a m ensagem que, para ele, valia cinquenta m ilhões.

— Falei com Tano.

— O que ele disse?

— Que concorda com você. Agradece pela ideia, m as é m elhor que você fique fora da j ogada.

Se esperava ver um a reação no m eu rosto, ficou decepcionado. Dentro ou fora não fazia a m enor diferença para m im . Eu não estava nem aí. No dia em que levei o cartão para Tano, propus um plano. Aventuroso, m as viável. Apresentei-o com o m ais um em buste, um novo m odo de fazer o que ele fazia todos os dias: passar a perna na lei.

Não foi por acaso que perguntei se ele tinha algum bancário entre os clientes de seu cassino clandestino. Alguém que estivesse enrolado com ele até o pescoço. Alguém a quem ele pudesse im por, m ais do que propor, um a cum plicidade. Tudo seria m uito sim ples. No dia em que recebesse o dinheiro do cartão prem iado, ele deveria ir depositar o m ontante no banco do seu cúm plice, que, por sua vez, receberia pessoalm ente o dinheiro, assinando o recibo e retirando, em troca, um a valise vazia. Naquele m om ento, um bando de ladrões entraria na sede do banco, esvaziaria os caixas e levaria a valise.

Com o o j ogo das três cartas.

Tano teria com etido o erro de alardear um pouco dem ais a vitória na loteria esportiva, atraindo a atenção dos ladrões. Com preensível, visto que poucas pessoas resistem à tentação de exibir a própria fortuna. Ele faria papel de bobo, m as, em com pensação, ganharia um recibo válido e ainda teria os quatrocentos e noventa m ilhões do prêm io escondidos em baixo do colchão.

Sorri pensando no rosto de Tano quando im aginou tudo isso. O j ogo zom beteiro, a ação em prim eira pessoa, a adrenalina no sangue. Coisas que ele conhecia bem e a cuj o fascínio não conseguiu resistir. Eu contava sobretudo com sua avidez. E com sua vaidade, qualidade essa que é m uito m ais forte nos hom ens do que nas m ulheres. Eu tinha certeza de que ele teria agido sozinho, que teria recrutado pessoalm ente o bando para o golpe. Se, por prudência, não o fizesse, eu teria, de qualquer form a, atingido m eu obj etivo.

Ganhar tem po.

Milla m e cham ou de volta à realidade.

— Que ideia? Do que estam os falando, Bravo?

Ainda m e cham ava assim , em bora j á soubesse de tudo, ou de quase tudo, a m eu respeito.

Virei-m e para ele.

— Tano será preso.

Na sua resposta, havia um a nota de alarm e.

— Quando?

— Em breve.

Milla voltou a olhar para a rua. Certam ente via, entre os carros em fila, os pedestres, os sinais de trânsito, que algo ruim estava prestes a acontecer.

— Meu Deus, o que você aprontou? Ficou louco? Quer que ele nos m ate?

— Não vai acontecer.

Tentei falar com um a voz cheia de segurança. Era do que ele precisava para superar o m edo. Para convencê-lo de que valia a pena fazer o que eu estava propondo.

— Agora, vou dizer o que você vai fazer. Você vai tirar quinze dias de férias. Vá para a praia, a m ontanha, o lago ou para o quinto dos infernos. Você escolhe.

Por um instante, deixei que ele se im aginasse em um a situação de férias.

— Quando voltar, vai encontrar um a caderneta de poupança ao portador com cinquenta m ilhões sobre a escrivaninha do m eu advogado. Vai pegá-la e esquecer que esta conversa e m eus encontros com Tano aconteceram um dia.

— E ele?

— Não se preocupe. Eu cuido dele.

Um a voz no alto-falante m e lem bra que estou em Linate, com um a passagem de avião para a Am érica do Sul no bolso. Levanto os olhos e vej o que o check-in foi aberto. Aproxim o-m e e entrego o tíquete e o passaporte à m oça uniform izada.

— Bom dia.

Ela m e olha e dem onstra gentileza. Faço o m esm o e sorrio.

Ela confere m eu nom e na passagem .

— Bom dia, sr. Sangiorgi.

Em bora possa ser considerada bagagem de m ão, resolvo despachar a sacola. Quero ficar livre, sem pesos a serem carregados, m esm o que sej am leves. Já fiz isso por tem po dem ais. Recebo a indicação do portão e do horário e o cartão de em barque. Sigo a fila que avança em direção ao controle de im igração.

Fiquei m uitos dias entocado naquele m otel, inebriando-m e com noticiários e saindo apenas para com er e com prar j ornais. Vi o fogo se tornar um incêndio. Disse a m im m esm o que, com o tem po, se transform aria num a fogueira e, por fim , só aqueles que haviam se queim ado se lem brariam do calor das cham as. Eu tinha certeza de que m uitos deles as atravessariam sem sofrer qualquer dano.

No dia em que decidi sair da toca, encontrei-m e com Ugo na presença do tabelião cuj o cartório fica dois andares acim a do escritório do m eu advogado. Dei instruções para o recebim ento do prêm io do cartão da loteria e ganhei sua gratidão pagando cem m ilhões de honorários pelo que ele havia feito e pelo que ainda devia fazer. Retirei a perm issão para visitar Carm ine em San Vittore. Por fim , assinei para o tabelião todas as procurações necessárias para realizar as m ovim entações financeiras que m e diziam respeito.

Quando saí de seu escritório, Ugo apertou m inha m ão e m e arrancou um sorriso. Fez a m esm a pergunta que eu havia feito a Carla.

— Voltarem os a nos ver?

Não j ulguei oportuno beij á-lo e dizer que tudo poderia ter sido diferente. Lim itei-m e a um gesto que encerrava possibilidades.

— Quem sabe?

Um policial exam ina m eu passaporte novinho em folha, obtido em tem po recorde, um brinde do Departam ento de Polícia de Milão. Ele o devolve com o rosto j á virado para o passageiro seguinte. Passo na frente do duty free e decido entrar e com prar um pacote de cigarros. Vou precisar para a viagem , que se prenuncia longa e entediante. Com m eus dois pacotes de Marlboro nas m ãos, aproxim o-m e do caixa. Apresento o cartão de em barque e pago. Prossigo sem pressa até o portão cuj o letreiro indica Rio de Janeiro. Sento-m e em um a poltrona. A m atéria que fala da prisão de Tano m e faz lem brar do m eu últim o encontro com Carm ine, no locutório de San Vittore.

Ele chegou acom panhado por um guarda que se afastou, sem nos perder de vista, para que pudéssem os conversar com certa privacidade. A aparência de Carm ine não havia m elhorado. Continuava a ser um dos hom ens m ais feios que j á vi na vida. Pensei que aquele outro detalhe tam bém não devia ter m udado. Im aginei que, na prisão, ele teria vencido m uitas apostas por aquele m otivo. Em seu íntim o, os hom ens perm anecem crianças. Não conseguem deixar de com petir, em determ inadas situações, para ver quem é o m ais bem -dotado.

Carm ine sentou-se à m inha frente. A expressão era a que eu esperava ver em um hom em sem liberdade.

— Oi, Carm ine.

Virou-se para se certificar de que as orelhas do guarda estivessem longe das nossas vozes.

— Luciana veio m e visitar. Trouxe as fotos do m enino.

— É um m enino bonito.

Em seu rosto feio, aflorou o orgulho paterno quando confirm ou m inhas palavras.

— É um m enino bonito m esm o.

Logo depois, calou-se. Certam ente, pensou na doença do filho. A m ulher deve ter ido procurá-lo na prisão sobretudo para falar da saúde de Rosario. Mas Carm ine não tocou no assunto, com o se o fato de não falar de um a coisa dram ática servisse para exorcizá-la de certa m aneira.

— Tam bém contou o que você fez por eles.

— Não foi nada.

— Pelo contrário, foi m uito. É o que eu gostaria de poder fazer se não estivesse nesta prisão de m erda.

Vi a frustração pelo estado de im potência aparecer em seu rosto. A vergonha por seus erros, que a doença de um a criança lhe fazia pagar de um a m aneira m ais dolorosa do que qualquer detenção.

— Carm ine, tem um a coisa que você pode fazer por sua fam ília.

Seu nervosism o explodiu. Com preensível, em um hom em na sua situação.

— Que diabos posso fazer preso aqui dentro?

Abaixei o tom de voz para que ele tam bém abaixasse o seu.

— Seu filho está doente. Precisa de tratam ento. O tratam ento custa m uito caro.

Senti-m e infam e enquanto afundava a faca na ferida. Mas achei que aquele resum o da situação era necessário em virtude do que eu diria em seguida.

— Vou dar à sua m ulher um a caderneta de poupança ao portador com duzentos e cinquenta m ilhões. Com esse dinheiro, ela poderá pagar o tratam ento de Rosario e assegurar um futuro para o m enino. Tirá-lo de certos am bientes, fazê-lo viver em um lugar saudável, estudar.

Afastei-m e dele apoiando-m e no espaldar da cadeira. Dentro do possível naquela situação, deixei-o um pouco sozinho, im aginando um a fresta de futuro para o filho. A resposta foi a de um hom em que nunca recebeu nada de graça.

— O que devo fazer?

Abaixei ainda m ais a voz.

— Conhece Tano Casale?

Ele nem respondeu. Todos conheciam Tano Casale. Esperou em silêncio pelo restante. Eu prossegui.

— Em breve, ele vai ser preso. Por um a bobagem , m as a polícia não perderá a chance de transform ar a prisão provisória em reclusão e ele será trazido para cá.

Havia curiosidade em seu olhar, em bora talvez ele j á tivesse entendido.

— E então?

Encarei-o. Poucas vezes em m inha vida estive tão calm o. E feliz com um a ideia.

— Quero que você o m ate.

A voz da funcionária que anuncia m eu voo se sobrepõe à de Carm ine, que cham ava o carcereiro para levá-lo de volta à cela. Levanto-m e e entro na fila com os outros passageiros para o em barque. Exam ino o rosto das pessoas que estão à m inha volta. Ninguém conhecido. Quando chega a m inha vez, entrego o cartão à m oça uniform izada e recebo em troca um óbvio e sorridente “boa viagem ”.

Antes de sair da sala e m e dirigir ao ônibus que m e levará até o avião, viro-m e para olhar o lugar e as pessoas que estou deixando para trás. Parto sozinho, um a condição que, às vezes, pode ser um peso e, outras, um a libertação.

Bravo nem veio se despedir de m im .