Memórias de um Vendedor de Mulheres
Capítulo 15
NA VELOCIDADE MÁXIMA PERMITIDA, m eu carrinho azul segue rum o à m etrópole que todos conhecem com o San Donato Milanese, um centro urbano que, há dois anos, pode se vangloriar do título de cidade. Cidade satélite, com todas as im plicações que essa definição com porta. É um lugar estranho, reino inconteste da Eni, que dá trabalho a um alto percentual de habitantes. Duas realidades em um a. Metade loj as e escritórios e m etade dorm itório, com todos os serviços que um a situação desse tipo exige. Um exem plo clássico da inventividade lom barda, que eu nunca conseguirei entender por com pleto.
Enquanto viaj o, m inha m ente continua a vagar pelas ruas tortuosas que alguém decidiu m e forçar a percorrer. Os personagens que fazem parte desta história, da qual não consigo entender o início nem ver o fim , estão todos sentados a m eu lado no carro.
Tano Casale, com sua voz conhecida, esperando para receber o prêm io de um cartão da loteria falso e dobrar seu capital graças a um a brilhante ideia que tive. Laura, que deveria estar livre e feliz com seu artista de cabaré e que acabou m orrendo em um lugar onde não deveria estar. Carla, que deveria estar naquele lugar, desapareceu com o um fantasm a depois de ter se apresentado com o um a pessoa que nunca foi e talvez com um nom e que nunca teve. Day tona, que fez de tudo para que eu a encontrasse e que, depois de toda a confusão, tom ou um chá de sum iço. Por fim , eu, que faço parte daquela categoria de tolos ou ingênuos que cruzam um a história com o esta sem a proteção de um álibi.
Sinto arrepios de febre. A dor no ventre se estabilizou em um nível suportável, m as ainda assim não é algo agradável com que conviver. Saio do anel viário e entro na via Rogoredo. Sigo reto por um tem po, m argeando estabelecim entos que, com o passar dos anos, surgiram em um a área que era prevalentem ente agrícola. Sigo até encontrar um lugar para estacionar o Mini.
Tom o outro com prim ido e procuro no m apa de Milão e adj acências que m antenho no carro o endereço que Milla m e deu. A casa onde está instalado o telefone para o qual a m ãe de Day tona ligou fica na via dei Naviganti Italiani, 106, e o titular da assinatura é um tal Aldo Term ignoni. Um nom e que nunca ouvi. Mas, com as várias atividades do m eu am igo, seria um pouco difícil conhecer todas as pessoas que ele atende e frequenta.
Prossigo aos poucos, parando várias vezes para verificar a direção para onde o m apa m e guia. Saio da cidade e sou levado pelas indicações rum o à periferia, em que ainda existem realidades agrícolas rem anescentes. Construções que form am um quadrado, os últim os postos avançados contra a invasão do progresso e o ataque da construção civil. Enquanto m e desloco, passa sobre m inha cabeça o estrondo dos aviões em fase de aterrissagem que sobrevoam a área urbana em baixa altitude rum o ao aeroporto de Linate.
Finalm ente, dobro na rua que estava procurando. Fico no m eio de um pequeno aglom erado de casas e, na m inha frente, se abre um a rua que continua na direção de um grupo de árvores que entrevej o ao fundo. Verifico o núm ero da últim a casa à esquerda e noto que, deste lado, estão os núm eros ím pares. Prossigo lentam ente até encontrar outras construções. Os núm eros parecem sair um a um do saco de um bingo.
Não há ninguém na rua. Os carros estão estacionados nos pátios ou rentes à calçada, e as pessoas estão dentro das casas. Um m enino brinca em um j ardim , sozinho. Ignora o quanto aquela solidão poderá crescer com o tem po. Gestos, palavras, vida cotidiana. Um despertador que toca, um filho que deve ser levado à escola, o dia do pagam ento que nunca chega, quinze dias por ano de férias rem uneradas, um baile em um a gafieira, sexo no carro com um a garota que espera se tornar sua esposa.
Para os m enos sortudos, um a puta de cinquenta m il liras na estrada para Paullo.
A dor no baixo-ventre e os arrepios continuam , agora acom panhados de enj oo. Depois de passar pelas árvores, estou no que poderia ser definido com o cam po aberto, se não fosse pelo m uro do enésim o estabelecim ento que desponta ao fundo de um a plantação de trigo. Talvez sej a em um lugar com o este que vão passear um dia o Velho e o Menino da canção de Francesco Guccini.
Chego a um a casa rústica isolada que j á viu dias m elhores e que, depois de todos esses anos, ainda tem um ar de pós-guerra. O aspecto é decadente e o terreiro parece m ais o depósito de um ferro-velho do que o de um a casa de fazenda. Um a geladeira enferruj ada está apoiada em um a árvore, a carcaça de um carro sem placa e sem pneus está m ontada sobre quatro pilhas de tij olos. Um a das persianas está inclinada para um lado e a j anela parece o olho de um cachorro com a pálpebra abaixada. Nos fundos, é possível entrever um a construção baixa feita com chapas de m etal enferruj adas pregadas em estacas enfiadas na terra.
As ervas daninhas cresceram a esm o para sem ear sua costum eira desordem e só é possível chegar a um dos lados da casa passando pelo m eio de um a autêntica plantação de urtigas. Um núm ero traçado com um pincel inábil e tinta preta em um a das duas colunas dispostas nas laterais do cam inho de entrada confirm a que cheguei a m eu destino.
Paro o Mini no pátio. Talvez devesse ter ido além , estacionado longe e cam inhado até a casa. Mas estou com m uita dor e com m uita pressa.
A porta que dá para a frente da construção está fechada por um cadeado preso a um a corrente que passa através de dois furos abertos nas duas folhas de m adeira. No térreo, as persianas estão fechadas. Margeio a casa e sigo até os fundos. Um a calçada de cim ento se estende, quebrada, por todo o seu com prim ento. Da porta sem iaberta do barracão, que não dava para ver da rua, desponta a traseira alaranj ada do Porsche de Day tona. Percorro a calçada, ultrapasso as j anelas protegidas por grades e chego até um a porta de m adeira.
Está encostada.
Em purro-a, tem endo instintivam ente que em ita algum rangido.
Digo a m im m esm o que sou um idiota.
Minha entrada j á foi anunciada pela chegada do Mini no pátio. Entro e vej o um am biente escuro e suj o, aparentem ente desabitado. Dou um a olhada rápida pelo térreo. Só côm odos vazios, papéis j ogados no chão, um a coberta em poeirada e um a pilha de pratos trincados no que parece ser a cozinha. Por toda a parte, cheiro de um idade, poeira e salitre. Fico im aginando quem consegue viver em um a pocilga com o esta. Porém , alguém deve conseguir, j á que paga as contas de telefone e de luz.
Subo a escada que com eça no hall de entrada e leva ao andar superior, segundo a arquitetura típica dessas casas rurais. Quando chego lá em cim a, estou em um a área um pouco m ais cuidada, na qual um esboço de lim peza revela a presença hum ana. Um corredor ocupa todo o seu com prim ento, com as portas dos quartos abrindo-se com o bocas espantadas.
À direita, parece que a área é um pouco m ais abandonada, portanto, viro à esquerda. Passo por um côm odo onde estão dois catres com um colchão em cim a. Um a porta fechada com vidro fosco poderia ser o banheiro. Depois, outro côm odo com a porta entreaberta, através da qual é possível vislum brar um a cam a de casal com os lençóis desarrum ados.
Finalm ente, atravesso um um bral e chego ao últim o am biente daquela ala.
Com um a rápida olhada j á se tem um a ideia do lugar. Há paredes com pequenas áreas desenhadas com rolo, poltronas rasgadas, revistas e copos sobre um a m esinha, em balagens de com ida largadas num a prateleira, pratos suj os em um balde, um forninho a gás ligado a um botij ão e um telefone preso à parede.
Enquanto subia, eu m e perguntei por que ninguém foi ver quem estava chegando.
Agora que estou aqui, entendo o m otivo.
Day tona está no chão, deitado de lado com a cabeça apoiada sobre um braço esticado. A parte da frente da cam isa está verm elha de sangue. Por causa da queda, a peruca que ele arrum ava de m aneira m órbida dividiu-se ao m eio. Um a parte caiu esticada sobre a m anga enrolada da cam isa e a outra cobre seu ouvido, revelando a calvície que ele sem pre tentou esconder de todas as m aneiras. Ao ouvir m eus passos, m ove os olhos sem virar a cabeça. Reconhece m inha figura e o alarm e em seu olhar se dilui em alívio.
— B... avo.
Falou com um fio de voz, tanto que intuí m ais do que ouvi m eu nom e ser pronunciado. Aj oelho-m e ao seu lado. Ele respira com dificuldade, com um arfar sibilante que parece vir de um lugar que não fica neste côm odo.
Chora, não sei se de dor ou de culpa. Um soluço se transform a em um j orro de espum a averm elhada que brota dos lábios para conhecer o m undo. Do canto da boca, escorrega para o chão e se torna um a lágrim a verm elha de desilusão.
— Me p... doa.
O perdão não faz parte desta vida. Mas tenho a im pressão de que, daqui a pouco, nem ele fará m ais, por isso, dou sem esforço o que ele m e pede.
— Claro que perdoo, seu im becil.
Com o se tivessem sido evocadas pelas suas, lágrim as tam bém brotam em m eus olhos: por ele, por m im , por todos os idiotas com o nós, por todo m undo que um deus im perfeito relegou do lado de fora destas j anelas com os vidros suj os. Por todos aqueles que nos levaram a ser com o som os, por nós que o perm itim os. Por esta dor que m e atorm enta as vísceras e que deve ser sem elhante a que Day tona está sentindo.
— O que aconteceu?
— Deram fa... das.
Cada palavra parece ser fruto de um esforço infinito. Ele sabe que chegou ao fim . Está contando os respiros, à espera do últim o, aquele que ninguém j am ais conseguirá fixar na m em ória porque, depois, não existe m ais nada. Talvez estej a se perguntando se valia a pena fazer tantas arm ações para tentar um a j ogada im portante que nunca aconteceu. Talvez estej a se perguntando por que levou um a vida tão m esquinha, iludindo-se de que era m elhor do que um trabalho honesto, para receber em troca esta recom pensa: m orrer sozinho com o um cachorro no chão im undo de um lugar no cu do m undo, deixando com o herança sua existência vazia.
— Quem foi?
Levanta com dificuldade um a das m ãos e a leva até a cabeça. Pega a peruca e tenta aj eitá-la, em um últim o e desaj eitado im pulso de vaidade. Estico a m ão e o aj udo a arrum ar aquele tufo de cabelo brilhoso de tanto laquê e tintura.
Repito a pergunta.
— Quem foi, Day tona? Onde está Carla?
Ele m e olha sem m e ver. Parece que está revivendo um a cena à qual eu não assisti. Talvez a cena de sua m orte. Talvez, com o m uitos costum am dizer, toda sua vida. Depois, fecha os olhos.
— Co... bianchi.
É sua últim a palavra.
Um a lufada de náusea parte do m eu estôm ago e chega à garganta. Levanto-m e, dou um passo para trás e m e curvo com o a lâm ina de um canivete que se fecha.
Vom ito.
Golfadas longas e doloridas que parecem partir m eu estôm ago e m inha cabeça ao m eio. Quando term inam , um véu de suor frio cobre m eu corpo. Lam ento que m eu elogio fúnebre a Day tona sej a um a regurgitação que devolveu ao m undo os gyozas transform ados em um a papa ácida.
Pego o lenço e lim po a boca.
Vej o que ele ainda tem no pulso o Day tona de ouro que m arcou as fases alternadas de sua existência e que o m arcou m ais do que seu próprio nom e e sobrenom e em um certo am biente m ilanês. Tiro-o de seu pulso, pensando que aquele relógio é a única coisa que ainda se m ovim enta naquele corpo. Guardo-o no bolso do paletó. Assim que puder, o entregarei à sua pobre m ãe, com a qual com partilho um destino desagradável: descobrir da pior m aneira quem era realm ente seu filho.
A exígua presença de espírito que ainda m e resta m e diz para fugir deste lugar o m ais depressa possível. Não consigo deixar de pensar que, se eu tivesse chegado um pouco antes, talvez agora eu estivesse caído no chão ao lado de Day tona, perdendo aos poucos cor e calor. Dou um a últim a olhada no cadáver de um hom em que eu acreditava ser m eu am igo sem m e lem brar de que, no fundo, am igos de verdade não existem . Day tona era um patético m arginal de m eia-tigela, m as talvez, apesar de tudo, não m erecesse o que aconteceu. Vou em bora e o abandono no chão deste lugar de m erda enquanto suas roupas reabsorvem todo o seu sangue. A próxim a noite talvez sej a a prim eira em anos que ele não vai virar.
Deixando tam bém de acordar na tarde seguinte.
Desço as escadas e percorro o traj eto que m e leva de volta ao Mini. Entro no carro, ligo o m otor e parto desta casa com seu ar de abandono, de tem po desperdiçado e de m orte. Os calafrios aum entaram , a queim ação continua a inflam ar m eu baixo-ventre e o vôm ito não fez desaparecer esta náusea que parece encher m eu estôm ago de espum a.
Apoio um a das m ãos na testa. Sinto que está queim ando. Talvez sej a autossugestão, talvez sej a febre ou então a desforra do m eu físico por ter presenciado a agonia de Day tona. O preço da angústia, de avançar tateando sem entender nada do que está acontecendo à m inha volta.
Esta não é um a das brincadeiras que faço com Lucio, m aquinações de duas m entes presas em corpos que as abrigam de m á vontade. Tenho a sensação de que este é um enigm a term inal cuj a solução pode ser pior que a própria charada.
Sou um guerreiro incapaz, sozinho e assustado, com m edo de m orrer no escuro.
Vou até o anel viário retornando pela estrada que usei para chegar aqui, sem voltar a entrar na cidade. Por prudência, prefiro não passar duas vezes na frente das m esm as j anelas e dos m esm os pátios. Em todo o restante da viagem de volta para casa, continuo a ser atorm entado pela últim a palavra de Day tona, sussurrada com um a voz que não era m ais a de um ser vivo.
Cobianchi.
O que o Cobianchi tem a ver com isso?
Trata-se de um hotel diurno que fica em baixo da via Silvio Pellico, na Galleria del Duom o. Existe um outro na piazza Oberdan, na região de Porta Venezia. É um lugar onde é possível tom ar um a ducha ou um banho de banheira, encontrar um barbeiro e um a m anicure, telefonar, ficar no bar ou deixar as bagagens. Faz parte de um a cadeia de estabelecim entos sem elhantes que foram abertos por um industrial na prim eira m etade dos anos 1920 em m uitas grandes cidades com o Milão, Bolonha, Turim , Rom a e Nápoles. Na época, com o não era tão com um que as casas tivessem banheiro, esses estabelecim entos eram considerados banhos públicos. Todavia, o uso de m ateriais de luxo e a decoração de bom gosto davam a esses lugares um ar requintado, transform ando-os em pontos de encontro frequentados por um a clientela m ais exigente, em viagem de lazer ou de negócios.
Fico pensando o que pode representar em toda esta história um a instituição que, devido à evolução dos costum es e das possibilidades econôm icas, está destinada a desaparecer, algo que no futuro talvez venha a se tornar um a relíquia, um achado da arqueologia social a ser visitado com o testem unho de um estilo de vida e de um a época que não existem m ais.
O que tem a ver um lugar visitado diariam ente por centenas de pessoas com o hom icídio de m eia-dúzia de seres hum anos em um a luxuosa m ansão em Lesm o? Parece-m e pouco provável que um lugar tão abertam ente público possa se tornar o esconderij o de alguém . Ou então m e engano e a resposta a esta pergunta deve ser procurada em um velho ditado, segundo o qual a m elhor m aneira de esconder um a coisa é torná-la evidente.
Pego a saída que dá na Vigevanese, na direção da m inha casa. Do outro lado da ram pa, ficam edifícios e galpões que abrigam escritórios e com ércios. No alto, no topo de um desses prédios, o letreiro de um a em presa de desratização. Um a vez, passando por aqui com Day tona e o Bisteca, sobreviventes de algum a noite em claro, ouvi este últim o falar do banco traseiro em dialeto m ilanês.
— Ehi, chì ciapen i danee per masà i ratt.
Lem brando-se de que não sou de Milão, repetiu a frase em italiano.
— Aqui ganham dinheiro para m atar ratos.
Pensou apenas por um a fração de segundo, aquele m inúsculo intervalo de tem po que é m ais do que suficiente para a m ente transform ar em palavras a própria intuição.
— Sabe qual é o slogan dessa em presa?
Prosseguiu sem esperar m inha resposta.
— Eu odeio esses ratos!
Rim os com o uns im becis ao ouvir aquela frase pronunciada em um a im itação perfeita da voz do Chuvisco, o gato dos desenhos anim ados de Hanna & Barbera. Piadas, gestos e risadas que parecem estar a séculos de distância, quando atravessávam os nosso tem po sem entender o que acontecia à nossa volta.
Todos para a cam a depois do Carosello, o horário noturno dos com erciais na televisão.
Só que, vinte anos m ais tarde, aquele intervalo publicitário não existe m ais, deixando-nos sem pontos de referência, tendo à nossa frente as longas horas da m adrugada a serem preenchidas. Durante a viagem de carro com o Tulipa, lem bro que pensei, olhando as luzes da cidade, que m uitas pessoas teriam um despertar ruim ao descobrir com o a festa prom etida havia na verdade term inado. Eu achava que aquele m om ento não fosse chegar tão cedo. Achava que não fosse chegar para m im .
Um a espécie de raiva endurece m eu m axilar e aum enta a sensação de náusea.
Fico pensando quais serão os com entários de quem o conhecia, quando a m orte de Day tona for descoberta. Pergunto-m e o que vai pensar e fazer o inspetor Stefano Milla quando descobrir que um hom em foi encontrado m orto no endereço que ele havia m e passado por debaixo dos panos. Um a coisa é certa: não posso ficar sentado no sofá da m inha casa com o um idiota, esperando que ele resolva aparecer e exigir esclarecim entos, oficialm ente ou não.
Desta vez, passo pelo portão com o carro e vou parar exatam ente diante dos vidros da porta de entrada. Vou precisar sair logo com um a sacola nas m ãos e estou passando m al dem ais para levá-la além do m uro.
Vou até o m eu apartam ento, esperando não encontrar Lucio. É o que acontece e fico feliz. Estou m al de diversas m aneiras e por m uitos m otivos. Não tenho vontade de ser puxado para um a disputa que, com o tem po, tornou-se um costum e, a ponto de elim inar entre nós qualquer outra form a de com unicação que não se m anifeste através de enigm as e brincadeiras.
Agora que a aposta do j ogo subiu, tudo m e parece bobo e infantil. A m orte é um a prim a-dona, tem a capacidade de m onopolizar a atenção. E quanto m ais estranhas são as circunstâncias em que se apresenta, m aior é a atenção. Ao m esm o tem po, de um m odo ou de outro, ela tem o dom de criar protagonistas. Estou percebendo tudo isso à m inha própria custa agora que, para onde quer que eu vire os olhos, acabo encontrando corpos ensanguentados caídos no chão. E, ao que parece, cada um deles tem um dedo esticado que aponta para m im .
Chego em casa pronto para correr até o banheiro e vom itar m ais um a vez. Em m eio à agitação, um j ato m ancha a beirada do paletó. Eu o tiro e o j ogo no cesto de roupa suj a.
Lavo o rosto e m e olho no espelho.
O que vej o não é m ais o rosto do hom em que eu conhecia. Tenho olheiras e um a cor am arelada, os lábios estão ressecados e rachados. Os cabelos têm restos de um a teia de aranha que devo ter tocado sem perceber ao explorar a casa de fazenda.
O belo rapaz inútil que fazia as m ulheres dizerem “Com você, seria grátis...” e que, apesar do seu cinism o e da sua presunção não conseguiu entender que se tratava de um a m entira, parece ter caído ao lado de Day tona naquele lugar de m erda. Quem m e olha é um hom em diferente. Agora, cabe a m im descobrir até que ponto, antes que sej am os outros a m e revelar essa inform ação.
Tiro a cam isa e a ponho j unto do paletó. Pego outra lim pa no arm ário do corredor e puxo para fora um a sacola de viagem . Vou apoiá-la sobre a cam a e ligo o televisor. Passo pelos diversos canais em busca de um noticiário. RAI 1 e 2, Telem ilano, Antenna 3, m ais algum as outras redes que as revistas identificam com o “de âm bito local”. Encontro apenas program as infantis ou bobagens do gênero.
Desligo o aparelho inútil e ligo o rádio relógio que está sobre a m esinha de cabeceira.
Com eço a encher a sacola com roupas e obj etos indispensáveis para um a viagem breve. Durante todo o tem po, do m inúsculo alto-falante do rádio, a voz de Claudio Baglioni m e fala da Tunísia e m e propõe um a viagem distante. Queria que ele estivesse cantando dentro do quarto para que eu pudesse explicar-lhe com o isso seria um prazer para m im .
Quando a sacola está cheia, enquanto iniciam as notas de um a velha canção dos Dik Dik, com eço a abrir m eu cofre particular, que os policias não encontraram durante a busca.
A cam a é de ferro batido, com quatro pés redondos nas laterais das cabeceiras. São m ais grossos e um pouco m ais altos do que a m édia e term inam com castões de latão. Inclino-m e ao lado do prim eiro, seguro na sua base um anel que, à prim eira vista, parece um ornam ento e o faço dar um a volta com pleta. Desta m aneira, desbloqueio o castão, que só pode ser desaparafusado em sentido horário, ao contrário do que acontece norm alm ente. Sim ples, m as, à luz dos resultados, eficaz. Dentro, um leve recipiente cilíndrico de plástico transparente preso ao castão por um barbante. Eu o extraio e tiro a tam pa que o fecha. Apoio o tubo plástico na cam a e deixo cair dele os rolos de cédulas. Repito a operação nos outros três pés da cam a, recuperando todo o m eu dinheiro líquido e quatrocentos e noventa m ilhões que, por enquanto, estão representados apenas por um cartão da loteria esportiva.
Sem pre pensei que fosse m elhor não confiar aos bancos todo o m eu dinheiro. Em prim eiro lugar, um fluxo contínuo e significativo sem um a j ustificativa plausível poderia ser com prom etedor no caso de fiscalização. Em segundo lugar, poderiam acontecer situações em que não fosse aconselhável espalhar cheques nem recibos de cartões de crédito.
Os eventos legitim aram m inha prudência, que, às vezes, j ulguei um pouco excessiva. Porém , a sabedoria popular m e sugeria que o seguro m orreu de velho e eu nunca m e senti à vontade para contrariá-la.
Enfio o dinheiro na sacola de viagem e o cartão da loteria no bolso. Abandono sobre a m esinha de cabeceira o bipe, que poderia se revelar um a faca de dois gum es. Pego a sacola com a precariedade em ocional não do em igrante, m as do hom em perseguido. O program a m usical term ina e com eça o noticiário. Pronto para um a viagem sem duração nem retorno certos, paro no centro do quarto para escutar.
Desligo sem sequer esperar o final da transm issão.
A voz do j ornalista entrou na m inha casa e, com um a palavra após outra, estilhaçou o m undo à m inha volta. Enquanto saio porta afora, im pulsionado não m ais pela pressa, m as pela fúria, pergunto-m e se o resto da m inha vida será suficiente para j untar os pedaços de volta.