Memórias de um Vendedor de Mulheres

Giorgio Faletti · Capítulo 7 de 26

Páginas do PDF

Memórias de um Vendedor de Mulheres

Capítulo 6

 

O TÁXI ENCOSTA PRÓXIMO À ENTRADA do Ascot Club e eu estou com o estôm ago um pouco em brulhado. O taxista, um tipo diferente, com os cabelos com pridos e um a barba arruivada de m endigo, tem um rosto que m e faz lem brar o Chewbacca, o personagem peludo de Guerra nas Estrelas. Não sei se ele pilotava a astronave da m esm a m aneira. Só sei que dem os pelo m enos uns dois saltos no hiperespaço entre a piazza Napoli e aqui.

Dou o dinheiro que ele pede, m esm o que, com o sem pre, o valor não coincida com o do taxím etro. Certos taxistas de Milão estariam dispostos a cobrar a bandeira dois m esm o de dia só porque você está usando óculos escuros, e um adicional de bagagens só porque sua carteira está no bolso. Ele vai em bora incólum e, em bora eu tenha tido vontade de m andá-lo à m erda.

Mas a noite está agradável, acabei de resolver um problem a, estou sozinho e de bom hum or.

Há pouco, depois que entram os em Milão, enquanto estávam os percorrendo a via Giam bellino, Day tona interrom peu repentinam ente a conversa sobre m ulheres, autom óveis e o dinheiro que ele está sem pre prestes a receber. De um tal Rondano, seu corretor de seguros, m ais especificam ente.

Eu sabia no que ele estava pensando e a pergunta que rondava sua m ente. Só que eu a esperava m uito antes. No final, ele se m anifestou com voz indiferente, continuando a olhar para a rua com um a atenção até excessiva.

— Legal o lugar que Tano Casale m ontou, não? Ele deve ganhar um dinheirão ali.

— É.

Eu, lacônico; ele, finalm ente explícito.

— Algum negócio em andam ento com ele?

— Eu diria que não.

— Sabe, vi você sair do escritório com ele e pensei...

Eu o interrom po. Torno-m e escorregadio a fim de desviar o assunto.

— Day tona, não pense dem ais. Muitas experiências confirm aram que é um a atividade que não com bina m uito com você.

Se Day tona estivesse convencido de que eu tinha algum lance com Tano, eu não conseguiria m ais m e livrar dele. Seu com portam ento em relação a Micky era revelador. Ele ficou um pouco ressentido.

— Vá tom ar no cu. Se está querendo dizer que isso não é problem a m eu, pode m anter...

Sim, vou manter para sempre meu segredo.

Tive vontade de responder com a voz da dubladora italiana de Greta Garbo. No entanto, decidi m inim izar a questão e encerrar a conversa com um a explicação plausível que evitasse futuras intervenções invasivas de sua parte. Mas, sobretudo, porque j á estava de saco cheio daquele papo.

— Eu tinha de dar um recado. Estava ali com o um sim ples m ensageiro. Dado o recado, fim da história. Nenhum negócio em andam ento, com o você diz.

Convencido ou não, o assunto m orreu. E, j unto com ele, o interesse de Day tona pela m inha pessoa, que era um dos m otivos para ele ter se oferecido para m e acom panhar.

Dessa vez, para fazer a pergunta, ele se virou para m im .

— Onde você estacionou seu carro?

— No Ascot.

Rosto inexpressivo.

— Posso deixá-lo no ponto de táxi no final desta rua? Preciso ir a outro lugar e j á estou atrasado.

Desde que o conheço, Day tona quase sem pre precisa ir a algum lugar. Tenho certeza de que não são lugares onde se faz o bem . Um dia, ele vai passar de um desses lugares para a cadeia sem etapas interm ediárias, com o diria o Godie. Apoiando o indicador e o m édio em form a de tesoura na garganta.

Tac, capturado! Você tem o direito de permanecer calado.

Fiz um gesto qualquer.

— Tudo bem , pode m e deixar onde você quiser.

— Bravo, você é um am igo de verdade.

Um am igo. Senti vontade de rir. Depois de um a certa hora e de um a certa quantidade de álcool e pó, é m uito fácil encontrar am igos em Milão. Acabam os em alguns lugares, em com panhia de pessoas que, j untas, som am um a pena de setecentos anos na cadeia, j urando um a am izade extraída diretam ente das folhas de coca. Na verdade, ninguém é am igo de ninguém , nem de si m esm o. Portanto, é m uito fácil que, de m anhã, alguém acorde ao lado de um a baranga, da qual não se lem bra nem o nom e. Um a qualquer, rebocada em um m om ento de desespero, quando a solidão e o porre fecham os olhos com o se fossem um portão de ferro.

Saí do Porsche de Day tona e m e dirigi à fila form ada por dois ou três táxis estacionados, sem saber que, dali a pouco, eu entraria no Millennium Falcon. Que, a esta altura, j á deve ter alcançado a Dobra Nove, tendo ultrapassado o estádio de San Siro.

Estou prestes a abrir a porta do Mini quando vej o sair do Ascot, j unto com dois colegas, Giorgio Fieschi. Ouço suas risadas enquanto entram em um R4 verde e saem rum o à piazza Buonarroti, na direção oposta de onde estou. Fico com invej a. Eles são j ovens e têm talento. Espero que percebam que, por esses m otivos, o m undo está em suas m ãos. Ao m esm o tem po, penso com satisfação em Laura e no seu senso de dever. A paixão pelo artista foi m om entaneam ente arquivada em função do com prom isso da m anhã seguinte. Até porque setenta por cento de um m ilhão é um a bela cifra, para um a hora de trabalho.

O restante é a m inha com issão.

Enfio a chave na fechadura. Um a pessoa para ao m eu lado. Ouço a voz, reconheço o rosto e vej o o revólver no m esm o instante. Mas o elem ento m ais significativo é a expressão do Tulipa, que não perm ite prognósticos favoráveis.

— Oi, cafetão. Com o você está vendo, nos encontram os de novo.

Sei por que ele está aqui. Sua presença significa que sua noção de honra é m uito m ais forte que o m edo em relação ao chefe. Provoquei um a hum ilhação que ele não é capaz de engolir. Laura ou Tano, neste m om ento, não têm nada a ver com a situação. É algo entre nós dois. Não há nada que eu possa dizer ou fazer para m udar as coisas.

Portanto, fico em silêncio e olho para ele.

O Tulipa está tranquilo. Superou a irritação e foi tom ado pela calm a da determ inação, o que considero m ais um péssim o detalhe.

— O gato com eu sua língua? Com o assim ?

Do nada, no silêncio da rua, ao atingir m inha bochecha direita, o tapa soa com o um tiro. O ouvido com eça a apitar. Na frente do olho, um a série de pontinhos am arelos dançam com o m osquitos.

— Está vendo que ainda tenho coragem de vir pessoalm ente cuidar de um m erda que nem você? Ande!

Faz um gesto com o revólver na direção da piazzale Lotto. Eu m e m exo, olhando disfarçadam ente à m inha volta. Ele percebe.

— Não tem ninguém , bonitão. Pode ficar tranquilo. Só eu e você.

Ele tem razão. O espetáculo do Ascot term inou há tem pos e o estacionam ento está quase deserto. Hoj e, nem as duas putas que fazem ponto ao lado do cabaré estão aqui. A coisa não m e agrada. Não m e agrada nem um pouco.

Chegam os a um Citroën CX grande e um pouco velho. Sem pre m antendo um a distância de segurança, ele enfia a m ão no bolso do paletó e, depois, apoia as chaves na capota do carro.

— Tom e, você dirige. Com calm a e sem surpresas.

Pego as chaves, m e sento ao volante, ligo o m otor. Ele se senta ao m eu lado. A experiência do Tulipa fez com que, durante todos esses m ovim entos, o cano do revólver nunca tenha abandonado m inha barriga.

Fico em silêncio e espero.

— Pegue a Nuova Vigevanese.

Saio do estacionam ento e sigo na direção indicada. Pergunto a m im m esm o se a expressão do m eu rosto está igual à de Moro naquela foto que há tem pos circula nos j ornais. No m eu caso, não haverá a forte preocupação do país e nem um a palavra de intercessão de quem quer que sej a. Tam bém acho que não as m ereço. A m enos que aconteça um m ilagre, vou desaparecer totalm ente e ninguém vai m e procurar, j á que ninguém dá a m ínim a para m im .

Prosseguim os em silêncio. Eu só poderia tentar algum a coisa caso cruzássem os por acaso com um a viatura da polícia. Mas tem o que isso não m udaria m uita coisa para o m eu sequestrador. Pelo que sei a seu respeito e pelo que vi com m eus olhos, ele não deve bater m uito bem da cabeça. Se decidiu pular o m uro e desobedecer as ordens de Tano, é porque não vai parar diante de nada.

Com o se tivesse lido m eu pensam ento, ele quebra o silêncio.

— Tano m e disse para deixar a garota em paz. Sobre você, não disse nada.

— Tenho um negócio em andam ento com o seu chefe que, desta m aneira, irá pelos ares. Ele vai ficar furioso.

Ele sorri. É um a careta que eu preferiria não ter visto.

— Nada irá pelos ares. Você escreve em um pedaço de papel o nom e e o endereço do tal suj eito, eu o levo até Tano e assim fica tudo certo.

— Por que eu faria isso? Você vai m e m atar de qualquer j eito.

— Vou dizer por quê: para evitar um a m orte dolorosa. Eu não tenho pressa. Posso atirar no seu j oelho e esperar. Depois, atiro no outro, no om bro e assim por diante. Ou então, com um tiro só, posso acabar com o teu equipam ento. Dizem que dói para burro levar um tiro no saco.

Fico em silêncio. Meu pensam ento se afasta. Agora, não estou m ais no carro, m as em outro lugar, com outros hom ens com o o Tulipa, pessoas com as m esm as intenções e a m esm a indiferença.

Muito tem po antes.

— É uma pena, garoto, que você não consiga manter o pau dentro das calças. Às vezes, puxando o zíper, podem acontecer certos acidentes...

A voz do Tulipa m e traz de volta para o carro. Ele acha que estou arquitetando algum plano e m e põe a par das consequências.

— Se, por acaso, você está pensando em m e dar o nom e e o endereço errados, é m elhor m udar de ideia. Vou ver se você tem um a nam orada, um am igo, um cachorro. Um a criatura qualquer de quem você gosta. E vou m atá-la tam bém .

Não tenho a m enor dúvida de que ele vai m anter a palavra. Convenço-m e de um a vez por todas de que Salvatore Menno é um psicopata. Surge em m inha m ente o rosto de Laura, que olha fascinada para Giorgio Fieschi, a expressão de Lucio, perenem ente absorto na sua cegueira, o criptogram a que deixei para ele antes de sair e que nunca vou saber se ele conseguiu resolver.

Enquanto isso, prosseguindo pela via Lorenteggio, ultrapassam os o cruzam ento com a via Prim aticcio. Pego a Vigevanese, com duas pistas em cada sentido. Nas laterais, as luzes dos postos de gasolina 24 horas, as putas baratas, os galpões, os carros estacionados. Um rapaz está esperando ao lado da portinhola da farm ácia de plantão. Deve, certam ente, estar com prando um a seringa para se picar. Mas, neste m om ento, o destino de um drogado é a últim a das m inhas preocupações, se é que m e preocupo com isso. Ele teve pelo m enos o privilégio de escolher com o se m atar.

— Siga reto até depois de Trezzano, a seguir, eu digo o que fazer.

O carro avança. O revólver continua encostado na m inha barriga. Olho para a estrada, o Tulipa m e olha e sorri. Passam os pelo Quartiere Tessera. É um a ida sem volta e fico surpreso com m inha ausência de nostalgia. Só um a pergunta surge espontaneam ente: é só isto? Não tem m ais nada? Estas são as m aravilhas que nos prom eteram , a beleza do m undo, a vida que vale a pena ser vivida? Tenho dificuldade em dar sentido às coisas, um sentido qualquer, enquanto passo diante do lugar anônim o onde m oro a cam inho de um outro lugar desconhecido onde vou levar um tiro na cabeça.

Trezzano passa depressa, com o todos os m om entos antes da m orte. Agora, estam os fora e os postes de luz são apenas um a lem brança. Aqui, não são feitas concessões. A estrada aberta aceita som ente a luz dos faróis.

— Vire à direita.

O cano do revólver m e indica um a estrada secundária. Reduzo a velocidade e enfio o carro naquela faixa de asfalto no m eio do verde, percorrendo-a até que se torne um a estrada de terra. Prosseguim os por um trecho que ladeia um a pedreira até chegar a um ponto em que, à esquerda, o cam inho se alarga, cercado por árvores e m oitas.

— Encoste aí e desça.

Paro o carro e abro a porta. O terreno sob m eus pés é duro e irregular. Sinto a um idade e o cheiro de gram a no ar. Era a noite certa para ficar sozinho e eu até estava a fim disso. Mas não dá tem po. Nunca dá tem po. O Tulipa j á está ao m eu lado, circundado pelo halo averm elhado das luzes traseiras do carro. O revólver não cedeu nem um m ilím etro. Suas intenções tam bém não, ao que m e parece. Ele recua alguns passos e aponta para o carro.

— Abra o porta-m alas.

Executo a ordem . Dentro, no m eio de várias tralhas, há um a pá. Por um a fração de segundo, digo a m im m esm o para tentar. Mas, nessas coisas, aquele babaca tem m ais experiência que eu. Durante a m inha vida, sem pre estive do lado errado de um revólver ou de um a faca.

O lado que não ensina nada, a não ser o m edo.

A voz dele chega para apagar qualquer ideia, antes m esm o que ela se form e.

— Pegue a pá e saia de perto.

Dou dois passos para trás, patético, com m inha pá na m ão. Vej o que ele se aproxim a do porta-m alas escancarado e procura algo lá dentro. Sua m ão surge acom panhada da luz de um a lanterna elétrica.

— Apague os faróis.

Logo em seguida, estam os na escuridão, tendo aquele facho lum inoso com o única barreira entre nós e o breu. Vej o o feixe de luz se deslocar e revelar um a trilha entre as plantas.

— Por ali.

Prossigo. Não sei onde estam os, m as m eu opressor parece estar em casa. Penso que, à nossa volta, em baixo de um m etro de terra, estão sepultadas diversas pessoas que protagonizaram viagens com o a m inha. Cam inho com o posso, sentindo os arbustos que arranham m inhas m ãos, tendo com o único guia a lanterna que desenha m inha som bra sobre o m ato.

Finalm ente, chegam os a um ponto que o Tulipa, em sua cabeça, deve definir com um a única palavra: aqui. Um pequeno espaço gram ado, com o tam anho certo para a finalidade que lhe foi destinada. Vej o a luz que se afasta e se desloca para a m inha esquerda. A voz vem da escuridão que está ali atrás. Agora, o tom que envolve as palavras é abertam ente de escárnio.

— Trate de ir cavando. Não im porta se o terno vai ficar am assado. Se você quiser, quando term inar, eu m ando lavar.

Com eço a cavar para não ouvir sua risada. E para pensar. Sei que a m inha esperança é nula. Porém , não quero entregar os pontos para esse babaca. Não é possível que um m erda com o o Tulipa vá dar cabo de m im . O único m om ento em que poderei tentar algum a coisa será quando ele m e pedir para escrever um nom e e um endereço. Talvez ele se distraia, escorregue ou...

Ou talvez sej a verdade o que m e ensinaram na escola: a esperança é realm ente a últim a que m orre e estou m e agarrando a ela.

Pouco a pouco, m inhas pernas ocupam um buraco cada vez m ais profundo.

O suor escorre por m inha testa e m inhas costas. As m ãos doem . Levanto-m e e m e apoio na pá, agarrado ao cabo.

— O que foi? Não tem fôlego? Já se cansou, seu m erda?

Estou quase m andando o Tulipa ir tom ar no cu. Estou quase levantando a pá e partindo para cim a dele, porque a raiva, a esta altura, é m ais forte do que qualquer instinto de sobrevivência. E algo acontece.

No silêncio, um depois do outro, três sons sufocados, em rápida sucessão.

pfft... pfft... pfft...

A lanterna sai voando e dá duas cam balhotas lum inosas antes de tocar o chão. Ouço o barulho de ram os sendo deslocados por um corpo que cai sobre os arbustos. Acho que ouço passos leves. Mas deve ser im pressão, pois logo eles desaparecem .

Depois, silêncio.

O tem po m e faz dar um a olhada à m inha volta e nada acontece. Nenhum a outra voz, nenhum a outra ordem . Só a luz enfraquecida da lanterna caída no chão, ilum inando a base de um arbusto. Aproxim o-m e, pego a lanterna e faço o facho de luz girar à m inha volta.

O Tulipa está caído de barriga para cim a, em form a de cruz, um pouco m ais à frente. Está com os olhos escancarados e olha fixam ente para cim a. Parece que está observando o buraco que se abriu no m eio de sua testa. No peito, tem dois outros furos, de onde um a m ancha de sangue vai se am pliando.

Entendo o que aconteceu. Instintivam ente, recuo e apago a lanterna. Não quero de form a algum a que a pessoa que atirou naquele filho da puta decida que eu tam bém não valho nada e use a luz para fazer m ira na m inha pessoa. Se essa for sua intenção. Espero um pouco, então, decido que está na hora de ir em bora. Acendo novam ente a lanterna, recolho a pá e percorro a trilha no sentido contrário, tentando não errar o cam inho. Logo depois, aparece à m inha frente o reflexo do capô do CX. Penso que a m elhor coisa a ser feita é m e distanciar deste lugar de m erda. Entro no carro, dou a partida no m otor, m anobro e volto rum o à estrada principal. Durante o traj eto, não cruzo com ninguém . Agora que o pior j á passou, sou acom etido por um ataque de ansiedade e por um trem or nas m ãos que tento, sem sucesso, controlar. Não fico buscando um a explicação para o que aconteceu. Por enquanto, m e basta estar vivo. Não sei graças a quem , m as o hom em que queria m e m atar agora pode ser enterrado no m eu lugar, no buraco que abri.

Eu é que certam ente não vou sepultá-lo.

Volto à estrada, viro à esquerda e retorno a Milão dirigindo calm am ente. Preciso m e livrar do carro o quanto antes. Não quero que um a patrulha da polícia, que nunca aparece quando a gente precisa, m e pare j usto agora, dirigindo um autom óvel que não é m eu, e m e peça explicações. Um autom óvel que pertence a um hom em que, m ais cedo ou m ais tarde, será encontrado com três buracos no corpo.

Chego à piazza Frattini e abandono o CX em um a transversal da via d’Alviano. É um lugar bastante distante do Ascot e, ao m esm o tem po, perto o suficiente para que eu possa ir até o Club sem precisar tom ar um táxi. É incrível a m em ória de certos taxistas que trabalham no turno da noite. Antes de ir em bora, lim po bem todas as partes que toquei. O volante, a alavanca do câm bio, a porta, a pá, a fechadura do porta-m alas.

Depois, saio andando.

A agitação dim inuiu, m as o perigo pelo qual acabei de passar drenou m inhas energias. De repente, sinto-m e cansado. Com o se, por toda a vida até aquele m om ento, eu tivesse feito um trabalho extenuante sem nunca ter tido a possibilidade de descansar. Prossigo com o passo que consigo m anter, ainda pensando nos acontecim entos que m e levaram a cam inhar sozinho por Milão com as roupas suj as de terra. Faço um m onte de perguntas a m im m esm o e não consigo responder de m aneira satisfatória a nenhum a delas. Não conto nem os passos nem o tem po. Apenas o cansaço. E tam bém do cansaço j á perdi a conta quando viro a esquina de via Tem pesta e m e vej o diante do Ascot Club. Fechado e apagado, m as, aos m eus olhos, com a glória de toda Las Vegas.

Vou em direção ao Mini. Ao lado do carro, está um a m ulher de costas, em pé. Ela fum a e tem um ar fam iliar. Paro e a olho, pensando que é tarde dem ais até para um a puta pobre e obstinada. Nesse m om ento, ela se vira e eu a reconheço.

É Carla.

A surpresa consegue superar o cansaço que está retorcendo m inhas costas, m inhas pernas e m eu estôm ago.

Aproxim o-m e. Ela m e vê, j oga a guim ba no chão e presenteia a noite com a últim a baforada de fum aça. Vem em m inha direção. Seu rosto está tão bonito quanto eu m e lem brava. Ela está vestindo um a j aqueta curta sobre um vestido leve e se m exe com a elegância natural de um felino.

Eu não havia percebido da outra vez. Ou talvez estivesse ocupado dem ais em fazer bonito na frente de Day tona para m e dar conta. Com um passo depois do outro, em ergem da penum bra seus olhos. Ela fixa os m eus, m as, quando fala com igo, sua voz revela um a nota de constrangim ento. E um a form a de prudência e de pudor absolutam ente fem inina por estar diante de m im , naquele lugar e àquela hora.

— Oi.

— Oi. O que você está fazendo aqui?

— Estava te esperando.

— Me esperando?

— É.

— Por quê?

Indica com a cabeça o grande edifício no qual, atrás das j anelas ilum inadas, suas colegas estão dando duro com panos e esfregões.

— Eu estava trabalhando. Quando cheguei, vi seu carro. Depois, da j anela, continuei a olhá-lo na esperança de que você viesse buscá-lo. A certa altura, não aguentei m ais. Tirei o avental, larguei tudo e desci.

Estou tendo dificuldade para colocá-la em foco. Meu estôm ago parece que está cheio de serragem e m eu corpo não passa de lenha pronta para ser queim ada. No entanto, apesar de tudo, fico arrebatado por aquele seu m odo de ser m ulher que eu nunca havia visto antes.

Estou m al e m e sinto agredido. Por isso, sou um pouco agressivo.

— O que você quer de m im ?

Ela fala com igo olhando para outro lugar.

— Estou cheia desta vida. Estou cheia de dar duro por uns trocados. Estou cheia de ver à m inha volta m ulheres que envelheceram sem nunca terem sido j ovens. Estou cheia de transar com m eu chefe para m anter o em prego ou com m eu senhorio para pagar o aluguel.

Respiro fundo. Essa confissão cai sobre o calçam ento com o som de m oedinhas tilintantes. Ignoro o m otivo, m as sei que é um m om ento im portante. Nossas vidas estão se m isturando e m e sinto um idiota porque estou tão cansado que só consigo falar em m onossílabos.

— E daí?

Ela volta a fixar m eus olhos. O pudor e a prudência desapareceram .

— A proposta que você m e fez ontem de m anhã...

Um a pequena pausa, com o se para perm itir que eu m e lem bre.

— Sim .

— Seu am igo m e disse que você entende do que faz. Tem um belo circuito. Quero entrar nessa e ganhar m uito dinheiro.

Estou à sua frente e a vej o desaparecer aos poucos na distância. Minha cabeça está explodindo e m inhas pernas estão ocas. Faço um a pergunta que a surpreende.

— Você tem carteira de m otorista?

— Tenho.

Ponho as m ãos no bolso e estendo as chaves do carro para ela. Não sei com o está m eu rosto enquanto, com a pouca voz que m e resta, digo o que quero que ela faça.

— Me leve para casa, por favor. Não quero desm aiar na rua.