Memórias de um Vendedor de Mulheres
Capítulo 3
ABRO OS OLHOS.
Acendo a luz da m esinha de cabeceira e olho que horas são. No m eu relógio, os ponteiros form am um ângulo que significa cinco e m eia. Os lençóis estão praticam ente intactos, com o se eu não tivesse dorm ido sobre eles. Foi um sono sem sonhos e o despertar é um parto indolor. É estranho com o, às vezes, ao se aliar à escuridão, a m ente tem a capacidade de catalisar as lem branças ruins e transform á-las em pesadelos.
A lem brança que trago com igo há anos está arquivada em um a parte do m eu cérebro, escondida atrás da proteção consciente dos gestos e das palavras. No sono, se ela aparece, não m e deixa escapatória. Fico im obilizado e deitado, prisioneiro daquilo que a m ente m e rem ete. Mas, hoj e, o encarregado dos sonhos ruins esqueceu que eu existo e voltei à tona ileso.
Coloco as pernas para fora da cam a e fico sentado o tem po necessário para que m inha vida se recom ponha e os pensam entos voltem para o presente. Levanto-m e e, andando sobre o carpete, chego na cozinha onde, ao contrário de Lucio, vej o o que está dentro dos arm ários. É estranho: às vezes m e m achuco; com ele, nunca acontece.
De fora, vem a luz do final de um a tarde de prim avera.
A cam isa e o paletó não estão m ais em cim a do sofá. Os pratos e os copos tam bém não estão m ais na pia. Os cinzeiros vazios e lavados secam sobre a bancada. Enquanto eu dorm ia, a sra. Argenti, m inha m inúscula faxineira, veio tom ar conta da casa e do seu m orador.
Pelej o um pouco para preparar o café e, enquanto espero que a cafeteira e o gás façam seu trabalho, vou ligar o rádio. Com o em um acordo tácito com m eu vizinho, tam bém prefiro o rádio à televisão. Ele porque não pode vê-la, eu, às vezes, porque não quero. A voz de um locutor se proj eta no aposento.
...lembrando o comunicado número seis das Brigadas Vermelhas, enviado há dois dias ao jornal La Repubblica, no qual era anunciado que, depois de um longo interrogatório, o prisioneiro Aldo Moro foi condenado à morte, o presidente Giovanni Leone convidou, com palavras...
Mudo de estação. Nunca saberei quais eram aquelas palavras. A voz é substituída por um rock que tenho dificuldade em reconhecer, m as aceito de bom grado a troca. Há m om entos em que detesto ouvir falar de solidão, e era disso que a história daquele hom em estava cheia. As fotos da sua detenção, seu rosto desolado e sua condenação m e fizeram pensar que, quando suspeitam os viver rodeados pelo nada, quase sem pre algo ou alguém transform a aquela suspeita em certeza. Quem sabe se ele tam bém pensou nisso enquanto todo o vasto m undo que tinha antes à sua disposição se fechava nos poucos m etros quadrados de um a cela.
Vou para perto do fogão, onde m e esperam apenas as confidências de um a cafeteira e algum as nuvens de vapor sem significado. Despej o o café e com eço a bebê-lo. O bipe apoiado sobre o m óvel em ite um som que, do ponto de vista onom atopeico, faz j us ao nom e do aparelho. Para a m inha com odidade, estou inscrito em um serviço de busca telefônica. Um pouco caro, m as m uito rentável. Toda vez que o aparelho em ite um sinal significa que a central do serviço Eurocheck, do qual sou assinante, recebeu um a ligação para m im .
Aproxim o-m e do telefone e disco o núm ero. Responde a voz levem ente entubada do operador. Sem form alidades, inform o m inha identidade.
— Bravo. Código 1182.
— Boa tarde. Deve telefonar para o núm ero 02 67859. Não deixaram nom e.
— Obrigado.
— Nós é que agradecem os.
O operador volta a ser um a hipótese. Anoto o núm ero em um bloco ao lado do aparelho. Não m e diz nada. Sei de cor quase todos os núm eros que m e são úteis, m as esse é totalm ente desconhecido. O fato de a pessoa não ter deixado o nom e é bastante com um . Nem todos estão dispostos a deixar rastros quando procuram putas. Após alguns toques, atende um a voz m asculina, não j ovem , m as áspera e enérgica.
— Alô.
— Acabei de receber um recado para ligar para esse núm ero.
— É o Bravo?
— Sim .
— Um am igo em com um m e passou seu contato.
— Até que ponto am igo seu e até que ponto am igo m eu?
— O suficiente para solicitar os serviços de duas pessoas ao m esm o tem po toda vez que vem de Rom a. E para m e dar garantias sobre sua discrição e sobre a qualidade das suas escolhas.
Sei de quem ele está falando. Um dos m aiores antiquários da capital, apaixonado por ménage à trois e prostitutas. Não sei quem é m eu interlocutor, m as acho que ele não m e revelará sua identidade ao telefone.
— Com o posso aj udá-lo?
— Eu gostaria de encontrar um a das suas colaboradoras.
— Só um a?
A resposta tem um a nota de divertim ento. E um leve suspiro de nostalgia.
— Sim . Já faz algum tem po que não m e são m ais perm itidas certas perform ances.
— Esta noite?
— Não, am anhã de m anhã. Gosto de acordar feliz.
— Algum a preferência?
Ele decide j ogar os dados e ver que núm ero vai dar.
— Meu am igo disse que, em geral, suas surpresas não são ruins. Mas ficou especialm ente satisfeito com um a tal Laura. Sabe de quem estou falando?
Meu silêncio serve de confirm ação.
— Muito bem . Gostaria que fosse ela. Com o incentivo, posso dizer que dinheiro não é problem a.
Essa é um a boa notícia. Estava m esm o precisando, tendo em vista o telefonem a que vou dar em seguida.
— Onde e quando?
— Estou no Hotel Gallia, quarto 605. Por volta das nove. Direi ao recepcionista para que deixe subir quem m e procurar.
Fico tenso e não respondo. Ele entende e m e tranquiliza.
— Estou em um a suíte executiva. Tenho um a linha direta. Se quiser, ligue para o hotel e peça para falar com o m eu quarto. Agora.
Não sei quem é o hom em com quem estou falando, m as ele é inteligente. E tem dinheiro. Sabe com o viver e quanto gastar para aproveitar a vida. Essas duas características são, para m im , um a fonte indiscutível de estim a.
— Às nove, então. A pessoa receberá do senhor um m ilhão. Em dinheiro.
— É um valor alto.
— Quando o senhor vir a garota, poderá decidir se vale a pena ou não.
Desta vez, é o m eu interlocutor que faz um a pausa. Depois, um esclarecim ento, em um tom um pouco m ais form al. Aliás, m uito m ais form al.
— Gostaria de lem brar que este pode ser o início de um a colaboração longa e satisfatória para am bos.
— Naturalm ente. Por isso, concedo o direito de verificação.
O tom volta a ser coloquial, com o antes.
— Muito bem . Foi um prazer.
— Igualm ente. Até logo.
Desligo. É o m om ento do segundo telefonem a, m uito m ais difícil. Disco o núm ero de Laura. Logo ouço a voz de alguém que estava à espera ao lado do telefone.
Alguém assustado.
— Alô.
— Oi, Laura, é o Bravo.
O alívio que sentiu ao m e ouvir percorre rapidam ente os cabos telefônicos.
— Finalm ente. Onde você se enfiou?
Deixo passar um instante antes de responder. Aquele silêncio deve dar a entender que onde m e enfio é problem a m eu. Portanto, não dou explicações.
— Ouvi seu recado. O que aconteceu?
— Aquele hom em é um louco. Agora, quer que eu fique em um apartam ento, assistindo televisão, esperando ele chegar. Quando eu disse não, ele m e bateu.
Espontaneam ente, Laura elim ina um a das m inhas preocupações.
— Não m e deixou nenhum a m arca, m as m e m achucou m esm o assim .
Tudo bem . O rosto está salvo. E talvez todo o resto tam bém . Quando caím os do cavalo, a m elhor coisa é voltar logo a m ontar na sela. Preciso que ela entenda isso.
— Tenho um as coisas engatilhadas. Im portantes. Acha que dá para trabalhar?
— Ficou m aluco? Se aquele cara m e vir com alguém , é m orte certa. Ele não é norm al. Você precisava ver os olhos dele.
Não fico surpreso. Dizem que o Tulipa tem uns parafusos a m enos. E algum as pessoas que j á o viram com raiva confirm am . Outras que estiveram na m esm a situação não podem confirm ar m ais nada. Pelo m enos é o que dizem . Mas certos boatos, em certos casos e com certas pessoas, geralm ente têm um nível de credibilidade bastante alto.
— Não se preocupe, eu cuido de tudo.
— Com o?
Como? Bela pergunta... Com um pouco de inteligência e muita sorte, espero.
— Conheço alguém que pode aj udar.
— Você tem certeza do que está fazendo?
— Absoluta.
Absolutamente.
— Estou com m edo, Bravo.
E quem não ficaria com medo diante de certas pessoas?
— Você não tem qualquer m otivo para ficar com m edo. Tudo vai se aj eitar da m elhor m aneira.
Não sei se o silêncio que recebo com o resposta significa esperança ou desconfiança. Intervenho com um a proposta que rem ete a um am biente fam iliar e, portanto, à vida e ao hum or de sem pre.
— Por que a gente não se encontra no Ascot por volta das onze? Quero falar com você sobre um a coisa que pode ser interessante.
— Hoj e é segunda-feira. Está fechado.
— Não. Tem um grupo de m ím icos m uito bons da BBC, o Silly Dilly M. Eles só tinham essa data livre. O pessoal da casa preferiu abrir m ão da folga para que eles se apresentassem .
Mais um instante para refletir antes de ceder.
— Tudo bem , a gente se encontra lá. Às onze.
— Então até m ais tarde. Tchau.
A voz desaparece no fio telefônico e é lacrada pelo fone. Com a xícara na m ão, volto à cozinha para servir o resto do café, que, nesse m eio-tem po, ficou um pouco m ais frio. Acendo um cigarro e, im pulsionado pela bexiga, dirij o-m e ao banheiro. Essa história do Tulipa não precisava acontecer. Mas aconteceu e não é possível fingir que a situação é diferente. Eu poderia não dar a m ínim a e abandonar Laura ao seu destino de concubina forçada. Mas cada situação é sustentada pela sua credibilidade e não posso perder a m inha, por m enor e m ais discutível que sej a.
Sento-m e no vaso, perto da j anela. Ao lado da privada, sobre a tam pa do cesto de roupa suj a de vim e, está um exem plar de La Settimana Enigmistica com um a caneta ao lado. Eu o pego e olho a foto de Dustin Hoffm an que sorri para m im em preto e branco dentro de um a pequena m oldura na capa. Depois, sem querer, tam bém sorrio. Todas as vezes que leio o slogan da revista, penso no Bisteca, um dos ociosos frequentadores do Ascot, certas vezes depositário de piadas instantâneas e fulm inantes, im piedosas. Um a vez, enquanto acom panhava da cabine do diretor a audição de um péssim o im itador, ele proferiu, com sua voz indiferente, um a sentença que m arcaria o artista daquele dia em diante.
— Ele é com o La Settimana Enigmistica. Vangloria-se de 206 tentativas de im itação.
Abro a revista e m e deparo com a “Página da Esfinge” e um criptogram a m nem ônico.
Alunas balofas. (7, 9)
Paro um segundo para refletir. Talvez m ais que um segundo. As charadas m e excitam e relaxam . É a dificuldade de um desafio im posto a si m esm o, um obstáculo a ser superado lançando a im aginação e a fantasia para além das palavras. Às vezes, a solução vem depressa; outras vezes, nunca chega. Com o acontece com tudo na vida, que fez do enigm a seu conceito básico. Neste caso, a intuição abre cam inho com um solavanco esclarecedor depois de poucos segundos.
“Alunas” é sinônim o de “pupilas”. “Balofo” é quem engordou, se alargou, e, portanto, se “dilatou”. Pupilas dilatadas.
Apoio a revista e m e levanto. Esse resultado insignificante m e deixou de bom hum or. No espelho sobre a pia, reencontro oportunam ente m eu próprio rosto. Um hom em m oreno, de cabelos com pridos e ondulados e olhos negros. Bonito, dizem . Um a vez, em um a cam a desarrum ada, um a m ulher com o seio m acio e a pele perfum ada m e disse:
— Com esses olhos, você pode se m eter em encrencas um a vez por dia. Sem pre haverá um a m ulher para salvá-lo.
Eu era j ovem e ávido por segurança a ponto de aceitar que aquela m ulher sem im aginação usasse a frase de um film e para m e fazer um elogio. O resultado certam ente foi alcançado, j á que não m e lem bro do seu nom e, só das suas palavras. Pena que, quando as encrencas apareceram , ela não estava m ais por perto. Nem ela nem nenhum a outra m ulher.
Molho o rosto e com eço a espalhar a espum a de barbear sobre as bochechas com o pincel. O leve odor de m entol envia suaves ondas de frescor que m e irritam os olhos. Sem aviso prévio, com o acontece com todas as lem branças, vem à m inha m ente um personagem que eu havia inventado quando criança vendo o barbeiro da m inha cidadezinha passar as cerdas sobre o rosto de um cliente até que ele sum isse pela m etade sob aquela coisa branca que m e lem brava chantilly. Que fim terá levado m eu pobre Hom em de Espum a? Será que em todos estes anos ele conseguiu descobrir se em baixo daquela m assa branca e inconsistente havia realm ente um rosto?
Eu, por outro lado, sei que tenho um . Foi algo que descobri até cedo dem ais. Este sem pre foi o m eu problem a.
Com eço a m e barbear.
A lâm ina abre faixas de realidade em m eio aos m eus j ogos infantis e, com as bochechas lisas, fico m e observando no espelho com olhos que se tornaram adultos graças ao tem po, às escolhas pessoais e às im posições da vida. Essas últim as é que nos fazem envelhecer m ais rápido, por dentro.
Abro a água do chuveiro e, enquanto espero que alcance a tem peratura certa, tento inventar um novo criptogram a para Lucio. Quando entro debaixo do j ato d’água, o fundo escorregadio do boxe m e dá um a ideia.
Pronto, um novo enigm a.
Caminho para o pasto alagado. (1, 4, 3, 4, 1, 5)
Significa que a solução é com posta por seis palavras, de um a, quatro, três, quatro, um a e cinco letras, respectivam ente. Não é difícil e acho que ele o resolverá logo, em bora m uitas vezes aquilo que aparenta ser fácil esconda realidades intricadas.
Pego um a esponj a na prateleira, despej o o sabonete líquido e com eço a m e ensaboar. Prefiro usar este obj eto inanim ado, com o se ao evitar o contato das m ãos com o corpo, algo pudesse m udar. Às vezes, pequenas m anias rem ediam provisoriam ente grandes problem as.
Com você, seria grátis...
O rosto da garota volta com o um flash à m inha m ente. Suas palavras nunca foram em bora. Im agino seu corpo delgado e forte sob o vestido. Sinto o seio firm e na m inha m ão. O perfum e do sabonete traz de volta à m ente outros perfum es, o cheiro sublim e do sexo, seu sabor adocicado e ferruginoso, antes e depois da fúria. O desej o sobe im placável, passando sobre m eu ventre seus dedos pegaj osos e m oles. Com eço a m assagear a virilha, obtendo em troca apenas um a confirm ação que se torna m ais difícil de aceitar a cada dia. Aj o cada vez m ais rápido, com o que para m e apagar ou m e reconstruir, até que o coração aum enta as pulsações e escorrego até o chão, sob o j ato d’água que cai indiferente do alto. Fico esperando um fim que nunca poderá chegar, recebendo com o um a bênção a possibilidade de m isturar à água do chuveiro a única ej aculação que m e é perm itida: a das lágrim as.